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Mateus 18:28

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 12 min de leitura·👁 36 acessos
Mas, ao sair, aquele escravo encontrou um dos seus companheiros de escravidão, que lhe devia cem denários. Agarrou-o e começou a sufocá-lo, dizendo: “Pague o que você me deve!”
Um homem de túnica simples agarra pelo pescoço outro servo numa rua de pedra, enquanto, ao fundo, a porta do palácio de onde ele acabou de sair ainda está aberta.

Estudo


Mas, ao sair, aquele escravo encontrou um dos seus companheiros de escravidão, que lhe devia cem denários. Agarrou-o e começou a sufocá-lo, dizendo: “Pague o que você me deve!”

1. Introdução

O escravo que acabou de ter perdoada uma dívida impagável sai da presença do senhor e dá de cara com um colega que lhe deve cem denários.

A quantia é real, uns cem dias de trabalho, e mesmo assim é quase nada ao lado dos dez mil talentos. Ele agarra o colega pelo pescoço e cobra. O versículo não diz o que o escravo pensou: mostra só o gesto, colado ao perdão que ele tinha acabado de receber.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quanto valiam cem denários

O denário era a moeda romana de prata de uso corrente. Mateus 20:2 o mostra como o pagamento de um dia de trabalho no campo. Cem denários eram, portanto, cerca de cem dias de trabalho de um diarista: uns quatro meses de salário. Não é troco. É dívida que pesa no orçamento de um pobre.

A proporção entre as duas dívidas

Os dez mil talentos equivalem a cerca de sessenta milhões de denários; a conta, e o que ela representava no mundo da época, está no estudo de Mateus 18:24.

Posta ao lado dessa soma, a dívida do companheiro é a seiscentos milésima parte da outra. Se os cem denários fossem um real, os dez mil talentos seriam seiscentos mil reais. O escravo tinha sido dispensado de pagar seiscentas mil vezes o que agora cobra.

Cobrar pelo pescoço

A cena de um credor apertando o pescoço do devedor na rua não era invenção da parábola. A Mishná (a coletânea de leis judaicas redigida por volta do ano 200) a usa como exemplo de manual. No tratado Bava Batra 10:8, o mestre Ben Nanás discute o caso de alguém que "estava estrangulando o seu companheiro no mercado" por uma dívida, quando um terceiro chega e diz: "Solte-o, e eu pago". Para Ben Nanás, esse terceiro não fica obrigado a pagar, porque o empréstimo não foi feito confiando nele.

O caso interessa pela escolha do exemplo. Para discutir quem responde pela dívida, a Mishná recorre a uma cena que o leitor reconhecia na hora: o credor com as mãos no pescoço do devedor, em público. Ben Nanás é mestre do início do século II, e o texto não prova que isso fosse costume no tempo de Jesus. Mostra que a imagem era familiar a um ouvinte judeu.

No mundo romano havia até uma expressão para isso. Nas comédias de Plauto e em discursos de Cícero aparece o obtorto collo ("com o pescoço torcido"), o jeito de arrastar alguém à força diante do magistrado. A lei romana permitia ao credor levar o devedor ao tribunal pela força, e o pescoço era por onde se pegava.

3. Análise Teológica do Versículo

"Mas, ao sair"

Não há intervalo. O escravo deixa a sala onde foi perdoado e o primeiro encontro é com o colega. A parábola cola as duas cenas: entre o perdão e a cobrança não passa tempo para esquecer.

Isso tira do leitor uma desculpa. O escravo não agiu anos depois, quando a lembrança já estava fraca. Agiu na saída.

"aquele escravo encontrou um dos seus companheiros de escravidão"

A palavra nova é "companheiro de escravidão". O primeiro escravo esteve diante de um rei; agora está diante de um igual, alguém da mesma condição e do mesmo senhor. A dívida perdoada vinha de cima para baixo. Esta é de lado a lado.

A palavra volta mais três vezes até o fim da parábola (Mateus 18:29, 31 e 33). O texto insiste no parentesco de condição entre os dois.

"Encontrou" não diz se ele procurou o colega ou se o achou por acaso. O texto não diz.

"que lhe devia cem denários"

A parábola podia ter posto uma moeda qualquer, uma dívida ridícula. Escolheu uma dívida de verdade, de uns quatro meses de trabalho.

Isso muda a leitura. O companheiro deve, e deve bastante. O direito de cobrar não está em discussão. O que a parábola põe em discussão é a proporção: a dívida só é pequena ao lado da outra. Quem lê a parábola como se as ofensas que sofremos não valessem nada vai além do texto. O texto admite que a segunda dívida existe e pesa.

"Agarrou-o e começou a sufocá-lo"

Dois gestos de força antes de qualquer palavra. O verbo grego descreve uma ação que se prolonga, e a tradução "começou a sufocá-lo" guarda isso.

O contraste está no poder de cada um. O rei, que tinha todo o poder, mandou vender o devedor, mas não pôs a mão nele (Mateus 18:25). O escravo, que tem pouco poder, usa as próprias mãos. Quem tinha mais força usou menos violência.

"dizendo: 'Pague o que você me deve!'"

São as primeiras palavras do escravo depois do perdão, e não dizem nada sobre o perdão. O verbo de pagar é o mesmo da promessa que ele fizera ao senhor, "eu lhe pagarei tudo" (Mateus 18:26). A palavra com que ele prometeu é a palavra com que ele cobra.

Ele também não pergunta se o colega pode pagar. Ordena.

Por que um homem recém-perdoado cobra desse jeito? O texto não explica. Há duas leituras.

Primeira leitura: ele não acreditou no perdão. O escravo tinha pedido prazo, não perdão (Mateus 18:26). Ele receberia o perdão como um adiamento e sairia juntando dinheiro para pagar o rei de qualquer jeito. A leitura explica a pressa, mas esbarra no texto: o senhor "perdoou a dívida", e nada indica que o escravo tenha entendido outra coisa.

Segunda leitura: ele entendeu, e não mudou. O perdão foi recebido como sorte pessoal, sem consequência para o modo de tratar os outros. O escravo continua agindo pela regra de sempre: quem deve, paga.

Não é possível decidir. A parábola mostra só ações, e deixa o interior do escravo fechado.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Aquele escravo

O devedor dos dez mil talentos, perdoado no versículo anterior. Agora é credor.

O companheiro de escravidão

Um colega de mesma condição, servo do mesmo senhor. Deve cem denários. Não tem nome, como ninguém na parábola.

O senhor

Não está na cena. O que acontece aqui acontece longe dele — até o versículo 31.

Lugar e evento

A saída da presença do senhor. A cobrança acontece do lado de fora, e, como mostra o versículo 31, diante de outros servos.

5. Pontos de Ensino

O perdão e a cobrança estão colados

A parábola não dá tempo ao escravo para esquecer. A cobrança acontece na saída.

A segunda dívida é real

Cem denários são quatro meses de trabalho. A parábola não diz que a ofensa sofrida não conta; diz que ela é pequena diante da que foi perdoada.

A violência vem de quem tem menos poder

O rei não tocou no devedor. O escravo agarra o colega pelo pescoço.

O perdão recebido não aparece na fala

As primeiras palavras depois do perdão são uma cobrança. O escravo fala como se nada tivesse acontecido.

6. Aspectos Filosóficos

O escravo não faz nada ilegal. A dívida existe, e a lei do tempo permitia cobrar à força. A parábola, mesmo assim, põe o leitor contra ele. Com isso ela separa duas perguntas que costumam andar juntas: o que eu tenho o direito de exigir, e o que eu devo exigir. O direito do escravo é inteiro; o que falta é outra coisa, que a lei não mede. A parábola não diz ainda o nome disso — o senhor dirá, no versículo 33.

7. Aplicações Práticas

Medir a dívida do outro ao lado da própria

A cena tem um alvo prático claro: quem recebeu muita tolerância e cobra dos outros cada centavo. O chefe que teve os próprios erros relevados e não perdoa o atraso de um funcionário. O filho que viveu de paciência dos pais e trata o irmão com rigor de contador.

A parábola não pede que a dívida do outro seja chamada de nada. Pede que ela seja medida ao lado da que foi perdoada a quem cobra.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O companheiro sabia que o outro tinha acabado de ser perdoado?

O texto não diz. Se sabia, o pedido de paciência que ele faz no versículo seguinte tinha ainda mais razão de ser atendido. Se não sabia, pedia no escuro.

O companheiro também teria de prestar contas ao rei?

Mateus 18:24 diz que o acerto "começou" com o devedor dos dez mil talentos: outros viriam depois. Se o companheiro também devia ao rei, os cem denários podiam ser o que ele tinha para se defender no próprio acerto. O texto não diz, e a parábola não segue por aí.

9. Conexão com Outros Textos

A dívida que acabara de ser perdoada

Mateus 18:24 — "Quando começou o acerto, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos."

Mateus 18:27 — "O senhor daquele escravo teve compaixão dele, soltou-o e lhe perdoou a dívida."

A promessa com o mesmo verbo

Mateus 18:26 — "Então o escravo caiu e se prostrou diante dele, dizendo: 'Senhor, tenha paciência comigo e eu lhe pagarei tudo.'"

O denário como salário de um dia

Mateus 20:2 — "Ele fez um acordo com os trabalhadores de um denário pelo dia e os enviou para a sua vinha."

Outra parábola com duas dívidas desiguais

Lucas 7:41-42 — "Certo credor tinha dois devedores. Um lhe devia quinhentas moedas de prata, e o outro cinquenta. Como não tinham com que pagar, perdoou-lhes a dívida de ambos. Qual, pois, deles o amará mais?"

No grego de Lucas, as moedas são denários. Lá, as duas dívidas são perdoadas pelo mesmo credor; aqui, o perdoado vira credor do outro.

O pedido do Pai Nosso

Mateus 6:12 — "E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores."

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Mas, ao sair, aquele escravo encontrou um dos seus companheiros de escravidão, que lhe devia cem denários. Agarrou-o e começou a sufocá-lo, dizendo: “Pague o que você me deve!”

Texto grego (Textus Receptus)

ἐξελθὼν δὲ ὁ δοῦλος ἐκεῖνος εὗρεν ἕνα τῶν συνδούλων αὐτοῦ, ὃς ὤφειλεν αὐτῷ ἑκατὸν δηνάρια, καὶ κρατήσας αὐτὸν ἔπνιγε, λέγων, Ἀπόδος μοι ὅ τι ὀφείλεις.

Transliteração

exelthōn de ho doulos ekeinos heuren hena tōn syndoulōn autou, hos ōpheilen autō hekaton dēnaria, kai kratēsas auton epnige, legōn, Apodos moi ho ti opheileis.

Diferença entre manuscritos

O Textus Receptus (a edição grega impressa no século XVI que a ABC segue) traz "pague-me o que você deve"; os manuscritos mais antigos trazem "pague, se deve alguma coisa" (ei ti no lugar de ho ti, e sem o "me"), uma forma que pode ser lida também como "já que você deve".

Análise palavra por palavra

ἐξελθὼν δὲ — exelthōn de, "mas, tendo saído".

Particípio aoristo de exerchomai, "sair". A ação está concluída antes da seguinte: primeiro ele sai, depois encontra. O de, "mas", marca a virada da cena.

ὁ δοῦλος ἐκεῖνος — ho doulos ekeinos, "aquele escravo".

Ekeinos, "aquele", é o demonstrativo de distância, e o grego o põe depois do nome, com ênfase. É o mesmo escravo do versículo anterior, apontado com o dedo.

εὗρεν — heuren, "encontrou".

Aoristo de heuriskō, "achar, encontrar". O verbo serve tanto para o que se procura como para o que se acha por acaso.

ἕνα τῶν συνδούλων αὐτοῦ — hena tōn syndoulōn autou, "um dos seus companheiros de escravidão".

Syndoulos junta syn, "com", e doulos, "escravo": o co-escravo, o que serve ao mesmo senhor. Nos evangelhos, a palavra só aparece em Mateus: aqui, nos versículos 29, 31 e 33, e em Mateus 24:49. Paulo a usa para colaboradores seus (Colossenses 1:7, 4:7), e o Apocalipse para o anjo que se recusa a ser adorado (Apocalipse 19:10).

ὃς ὤφειλεν αὐτῷ — hos ōpheilen autō, "que lhe devia".

Imperfeito de opheilō, "dever", com o dativo de quem recebe. A família de palavras atravessa a parábola: opheiletēs, "devedor", em Mateus 18:24; opheilē, "dívida", em Mateus 18:32; e o opheilēmata, "dívidas", do Pai Nosso (Mateus 6:12).

ἑκατὸν δηνάρια — hekaton dēnaria, "cem denários".

Dēnarion é palavra latina (denarius) transcrita em grego. O Novo Testamento grego a adota sem traduzir, como se adota o nome de uma moeda estrangeira em uso.

καὶ κρατήσας αὐτὸν — kai kratēsas auton, "e, agarrando-o".

Particípio aoristo de krateō, "segurar com força, prender". Em Mateus, é o verbo da prisão de João Batista (Mateus 14:3) e da prisão de Jesus (Mateus 26:50, 57).

ἔπνιγε — epnige, "sufocava".

Imperfeito de pnigō, "sufocar, estrangular, afogar". O imperfeito mostra a ação em curso, ou começando: "estava sufocando", "pôs-se a sufocar". É o verbo dos porcos que se afogam no lago em Marcos 5:13.

λέγων — legōn, "dizendo".

Particípio presente: ele fala enquanto aperta.

Ἀπόδος μοι — Apodos moi, "pague-me".

Imperativo aoristo de apodidōmi, "devolver, pagar o que é devido". É o verbo da dívida do começo ao fim da parábola: "para que a dívida fosse paga" (Mateus 18:25), "eu lhe pagarei tudo" (Mateus 18:26), e volta nos versículos 29, 30 e 34. O imperativo aoristo é ordem seca, sem prazo.

ὅ τι ὀφείλεις — ho ti opheileis, "o que você deve".

Relativo indefinido, "aquilo que", com o presente de opheilō. A dívida é tratada como fato, não como questão.

11. Conclusão

O versículo leva a três conclusões.

O perdão não mudou o modo de agir do escravo. Ele sai da presença do rei e faz exatamente o que o rei tinha deixado de fazer com ele. A parábola não explica por quê, e não precisa: a sequência basta.

A culpa do escravo não está na ilegalidade. Ele cobra uma dívida que existe, dentro do que a lei permitia. O que o condena é a desproporção entre o que ele recebeu e o que ele exige.

A parábola leva a sério a dívida do outro. Cem denários não são nada só ao lado de sessenta milhões. Quem lê a história não é convidado a fingir que a ofensa sofrida não existe, e sim a pô-la ao lado da que lhe foi perdoada.

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