Mas, ao sair, aquele escravo encontrou um dos seus companheiros de escravidão, que lhe devia cem denários. Agarrou-o e começou a sufocá-lo, dizendo: “Pague o que você me deve!”
1. Introdução
O escravo que acabou de ter perdoada uma dívida impagável sai da presença do senhor e dá de cara com um colega que lhe deve cem denários.
A quantia é real, uns cem dias de trabalho, e mesmo assim é quase nada ao lado dos dez mil talentos. Ele agarra o colega pelo pescoço e cobra. O versículo não diz o que o escravo pensou: mostra só o gesto, colado ao perdão que ele tinha acabado de receber.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quanto valiam cem denários
O denário era a moeda romana de prata de uso corrente. Mateus 20:2 o mostra como o pagamento de um dia de trabalho no campo. Cem denários eram, portanto, cerca de cem dias de trabalho de um diarista: uns quatro meses de salário. Não é troco. É dívida que pesa no orçamento de um pobre.
A proporção entre as duas dívidas
Os dez mil talentos equivalem a cerca de sessenta milhões de denários; a conta, e o que ela representava no mundo da época, está no estudo de Mateus 18:24.
Posta ao lado dessa soma, a dívida do companheiro é a seiscentos milésima parte da outra. Se os cem denários fossem um real, os dez mil talentos seriam seiscentos mil reais. O escravo tinha sido dispensado de pagar seiscentas mil vezes o que agora cobra.
Cobrar pelo pescoço
A cena de um credor apertando o pescoço do devedor na rua não era invenção da parábola. A Mishná (a coletânea de leis judaicas redigida por volta do ano 200) a usa como exemplo de manual. No tratado Bava Batra 10:8, o mestre Ben Nanás discute o caso de alguém que "estava estrangulando o seu companheiro no mercado" por uma dívida, quando um terceiro chega e diz: "Solte-o, e eu pago". Para Ben Nanás, esse terceiro não fica obrigado a pagar, porque o empréstimo não foi feito confiando nele.
O caso interessa pela escolha do exemplo. Para discutir quem responde pela dívida, a Mishná recorre a uma cena que o leitor reconhecia na hora: o credor com as mãos no pescoço do devedor, em público. Ben Nanás é mestre do início do século II, e o texto não prova que isso fosse costume no tempo de Jesus. Mostra que a imagem era familiar a um ouvinte judeu.
No mundo romano havia até uma expressão para isso. Nas comédias de Plauto e em discursos de Cícero aparece o obtorto collo ("com o pescoço torcido"), o jeito de arrastar alguém à força diante do magistrado. A lei romana permitia ao credor levar o devedor ao tribunal pela força, e o pescoço era por onde se pegava.
3. Análise Teológica do Versículo
"Mas, ao sair"
Não há intervalo. O escravo deixa a sala onde foi perdoado e o primeiro encontro é com o colega. A parábola cola as duas cenas: entre o perdão e a cobrança não passa tempo para esquecer.
Isso tira do leitor uma desculpa. O escravo não agiu anos depois, quando a lembrança já estava fraca. Agiu na saída.
"aquele escravo encontrou um dos seus companheiros de escravidão"
A palavra nova é "companheiro de escravidão". O primeiro escravo esteve diante de um rei; agora está diante de um igual, alguém da mesma condição e do mesmo senhor. A dívida perdoada vinha de cima para baixo. Esta é de lado a lado.
A palavra volta mais três vezes até o fim da parábola (Mateus 18:29, 31 e 33). O texto insiste no parentesco de condição entre os dois.
"Encontrou" não diz se ele procurou o colega ou se o achou por acaso. O texto não diz.
"que lhe devia cem denários"
A parábola podia ter posto uma moeda qualquer, uma dívida ridícula. Escolheu uma dívida de verdade, de uns quatro meses de trabalho.
Isso muda a leitura. O companheiro deve, e deve bastante. O direito de cobrar não está em discussão. O que a parábola põe em discussão é a proporção: a dívida só é pequena ao lado da outra. Quem lê a parábola como se as ofensas que sofremos não valessem nada vai além do texto. O texto admite que a segunda dívida existe e pesa.
"Agarrou-o e começou a sufocá-lo"
Dois gestos de força antes de qualquer palavra. O verbo grego descreve uma ação que se prolonga, e a tradução "começou a sufocá-lo" guarda isso.
O contraste está no poder de cada um. O rei, que tinha todo o poder, mandou vender o devedor, mas não pôs a mão nele (Mateus 18:25). O escravo, que tem pouco poder, usa as próprias mãos. Quem tinha mais força usou menos violência.
"dizendo: 'Pague o que você me deve!'"
São as primeiras palavras do escravo depois do perdão, e não dizem nada sobre o perdão. O verbo de pagar é o mesmo da promessa que ele fizera ao senhor, "eu lhe pagarei tudo" (Mateus 18:26). A palavra com que ele prometeu é a palavra com que ele cobra.
Ele também não pergunta se o colega pode pagar. Ordena.
Por que um homem recém-perdoado cobra desse jeito? O texto não explica. Há duas leituras.
Primeira leitura: ele não acreditou no perdão. O escravo tinha pedido prazo, não perdão (Mateus 18:26). Ele receberia o perdão como um adiamento e sairia juntando dinheiro para pagar o rei de qualquer jeito. A leitura explica a pressa, mas esbarra no texto: o senhor "perdoou a dívida", e nada indica que o escravo tenha entendido outra coisa.
Segunda leitura: ele entendeu, e não mudou. O perdão foi recebido como sorte pessoal, sem consequência para o modo de tratar os outros. O escravo continua agindo pela regra de sempre: quem deve, paga.
Não é possível decidir. A parábola mostra só ações, e deixa o interior do escravo fechado.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Aquele escravo
O devedor dos dez mil talentos, perdoado no versículo anterior. Agora é credor.
O companheiro de escravidão
Um colega de mesma condição, servo do mesmo senhor. Deve cem denários. Não tem nome, como ninguém na parábola.
O senhor
Não está na cena. O que acontece aqui acontece longe dele — até o versículo 31.
Lugar e evento
A saída da presença do senhor. A cobrança acontece do lado de fora, e, como mostra o versículo 31, diante de outros servos.
5. Pontos de Ensino
O perdão e a cobrança estão colados
A parábola não dá tempo ao escravo para esquecer. A cobrança acontece na saída.
A segunda dívida é real
Cem denários são quatro meses de trabalho. A parábola não diz que a ofensa sofrida não conta; diz que ela é pequena diante da que foi perdoada.
A violência vem de quem tem menos poder
O rei não tocou no devedor. O escravo agarra o colega pelo pescoço.
O perdão recebido não aparece na fala
As primeiras palavras depois do perdão são uma cobrança. O escravo fala como se nada tivesse acontecido.
6. Aspectos Filosóficos
O escravo não faz nada ilegal. A dívida existe, e a lei do tempo permitia cobrar à força. A parábola, mesmo assim, põe o leitor contra ele. Com isso ela separa duas perguntas que costumam andar juntas: o que eu tenho o direito de exigir, e o que eu devo exigir. O direito do escravo é inteiro; o que falta é outra coisa, que a lei não mede. A parábola não diz ainda o nome disso — o senhor dirá, no versículo 33.
7. Aplicações Práticas
Medir a dívida do outro ao lado da própria
A cena tem um alvo prático claro: quem recebeu muita tolerância e cobra dos outros cada centavo. O chefe que teve os próprios erros relevados e não perdoa o atraso de um funcionário. O filho que viveu de paciência dos pais e trata o irmão com rigor de contador.
A parábola não pede que a dívida do outro seja chamada de nada. Pede que ela seja medida ao lado da que foi perdoada a quem cobra.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O companheiro sabia que o outro tinha acabado de ser perdoado?
O texto não diz. Se sabia, o pedido de paciência que ele faz no versículo seguinte tinha ainda mais razão de ser atendido. Se não sabia, pedia no escuro.
O companheiro também teria de prestar contas ao rei?
Mateus 18:24 diz que o acerto "começou" com o devedor dos dez mil talentos: outros viriam depois. Se o companheiro também devia ao rei, os cem denários podiam ser o que ele tinha para se defender no próprio acerto. O texto não diz, e a parábola não segue por aí.
9. Conexão com Outros Textos
A dívida que acabara de ser perdoada
Mateus 18:24 — "Quando começou o acerto, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos."
Mateus 18:27 — "O senhor daquele escravo teve compaixão dele, soltou-o e lhe perdoou a dívida."
A promessa com o mesmo verbo
Mateus 18:26 — "Então o escravo caiu e se prostrou diante dele, dizendo: 'Senhor, tenha paciência comigo e eu lhe pagarei tudo.'"
O denário como salário de um dia
Mateus 20:2 — "Ele fez um acordo com os trabalhadores de um denário pelo dia e os enviou para a sua vinha."
Outra parábola com duas dívidas desiguais
Lucas 7:41-42 — "Certo credor tinha dois devedores. Um lhe devia quinhentas moedas de prata, e o outro cinquenta. Como não tinham com que pagar, perdoou-lhes a dívida de ambos. Qual, pois, deles o amará mais?"
No grego de Lucas, as moedas são denários. Lá, as duas dívidas são perdoadas pelo mesmo credor; aqui, o perdoado vira credor do outro.
O pedido do Pai Nosso
Mateus 6:12 — "E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores."
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Mas, ao sair, aquele escravo encontrou um dos seus companheiros de escravidão, que lhe devia cem denários. Agarrou-o e começou a sufocá-lo, dizendo: “Pague o que você me deve!”
Texto grego (Textus Receptus)
ἐξελθὼν δὲ ὁ δοῦλος ἐκεῖνος εὗρεν ἕνα τῶν συνδούλων αὐτοῦ, ὃς ὤφειλεν αὐτῷ ἑκατὸν δηνάρια, καὶ κρατήσας αὐτὸν ἔπνιγε, λέγων, Ἀπόδος μοι ὅ τι ὀφείλεις.
Transliteração
exelthōn de ho doulos ekeinos heuren hena tōn syndoulōn autou, hos ōpheilen autō hekaton dēnaria, kai kratēsas auton epnige, legōn, Apodos moi ho ti opheileis.
Diferença entre manuscritos
O Textus Receptus (a edição grega impressa no século XVI que a ABC segue) traz "pague-me o que você deve"; os manuscritos mais antigos trazem "pague, se deve alguma coisa" (ei ti no lugar de ho ti, e sem o "me"), uma forma que pode ser lida também como "já que você deve".
Análise palavra por palavra
ἐξελθὼν δὲ — exelthōn de, "mas, tendo saído".
Particípio aoristo de exerchomai, "sair". A ação está concluída antes da seguinte: primeiro ele sai, depois encontra. O de, "mas", marca a virada da cena.
ὁ δοῦλος ἐκεῖνος — ho doulos ekeinos, "aquele escravo".
Ekeinos, "aquele", é o demonstrativo de distância, e o grego o põe depois do nome, com ênfase. É o mesmo escravo do versículo anterior, apontado com o dedo.
εὗρεν — heuren, "encontrou".
Aoristo de heuriskō, "achar, encontrar". O verbo serve tanto para o que se procura como para o que se acha por acaso.
ἕνα τῶν συνδούλων αὐτοῦ — hena tōn syndoulōn autou, "um dos seus companheiros de escravidão".
Syndoulos junta syn, "com", e doulos, "escravo": o co-escravo, o que serve ao mesmo senhor. Nos evangelhos, a palavra só aparece em Mateus: aqui, nos versículos 29, 31 e 33, e em Mateus 24:49. Paulo a usa para colaboradores seus (Colossenses 1:7, 4:7), e o Apocalipse para o anjo que se recusa a ser adorado (Apocalipse 19:10).
ὃς ὤφειλεν αὐτῷ — hos ōpheilen autō, "que lhe devia".
Imperfeito de opheilō, "dever", com o dativo de quem recebe. A família de palavras atravessa a parábola: opheiletēs, "devedor", em Mateus 18:24; opheilē, "dívida", em Mateus 18:32; e o opheilēmata, "dívidas", do Pai Nosso (Mateus 6:12).
ἑκατὸν δηνάρια — hekaton dēnaria, "cem denários".
Dēnarion é palavra latina (denarius) transcrita em grego. O Novo Testamento grego a adota sem traduzir, como se adota o nome de uma moeda estrangeira em uso.
καὶ κρατήσας αὐτὸν — kai kratēsas auton, "e, agarrando-o".
Particípio aoristo de krateō, "segurar com força, prender". Em Mateus, é o verbo da prisão de João Batista (Mateus 14:3) e da prisão de Jesus (Mateus 26:50, 57).
ἔπνιγε — epnige, "sufocava".
Imperfeito de pnigō, "sufocar, estrangular, afogar". O imperfeito mostra a ação em curso, ou começando: "estava sufocando", "pôs-se a sufocar". É o verbo dos porcos que se afogam no lago em Marcos 5:13.
λέγων — legōn, "dizendo".
Particípio presente: ele fala enquanto aperta.
Ἀπόδος μοι — Apodos moi, "pague-me".
Imperativo aoristo de apodidōmi, "devolver, pagar o que é devido". É o verbo da dívida do começo ao fim da parábola: "para que a dívida fosse paga" (Mateus 18:25), "eu lhe pagarei tudo" (Mateus 18:26), e volta nos versículos 29, 30 e 34. O imperativo aoristo é ordem seca, sem prazo.
ὅ τι ὀφείλεις — ho ti opheileis, "o que você deve".
Relativo indefinido, "aquilo que", com o presente de opheilō. A dívida é tratada como fato, não como questão.
11. Conclusão
O versículo leva a três conclusões.
O perdão não mudou o modo de agir do escravo. Ele sai da presença do rei e faz exatamente o que o rei tinha deixado de fazer com ele. A parábola não explica por quê, e não precisa: a sequência basta.
A culpa do escravo não está na ilegalidade. Ele cobra uma dívida que existe, dentro do que a lei permitia. O que o condena é a desproporção entre o que ele recebeu e o que ele exige.
A parábola leva a sério a dívida do outro. Cem denários não são nada só ao lado de sessenta milhões. Quem lê a história não é convidado a fingir que a ofensa sofrida não existe, e sim a pô-la ao lado da que lhe foi perdoada.













