Ele fez um acordo com os trabalhadores de um denário pelo dia e os enviou para a sua vinha.
1. Introdução
Este é o único contrato da parábola: as quatro contratações seguintes não terão valor combinado.
O que se compra aqui é um dia, e não uma tarefa nem uma quantidade de uva.
O preço é uma moeda de prata, grande e indivisível — e é essa escolha de moeda que vai tornar possível, no versículo 10, comparar o que um recebeu com o que o outro recebeu.
O denário aparece oito vezes no acervo como medida de conversão; aqui ele é a coisa em si.
Feito o acordo, o dono envia e não vai com eles.
2. Contexto Histórico e Cultural
A moeda
O denário era uma moeda romana de prata, cunhada desde o fim do século III antes de Cristo, com cerca de quatro gramas de metal. Sob Augusto valia dezesseis asses (o as era a moeda de bronze de uso corrente), e trazia a imagem e o título do imperador — é exatamente essa a moeda que aparece em Mateus 22:19-21, quando se pergunta de quem é a imagem gravada nela.
Pagar trabalhadores rurais em prata imperial é, por si, um dado. A moeda do dia a dia dos pobres era o bronze: o assarion por que se vendiam dois pardais em Mateus 10:29, e o cobre miúdo do "último centavo" de Mateus 5:26. Uma peça de prata não é troco. Ela não se reparte, não se conta em punhado e não passa desapercebida na mão de quem a recebe.
Guardar isso é decisivo para entender o que acontece nos versículos 9 e 10. Cada homem vai receber um denário — uma única peça, visível de longe. Se o pagamento tivesse sido feito em bronze, ninguém no fim da fila conseguiria saber quanto o da frente levou. A comparação que produz o conflito da parábola depende da denominação escolhida neste versículo.
Um denário por dia era muito, pouco ou o de praxe?
A resposta curta é: era a taxa corrente, e havia quem ganhasse menos. A resposta longa exige corrigir uma informação repetida por uma cadeia inteira de comentaristas.
Barnes, o Pulpit Commentary, Vincent's Word Studies e Benson afirmam, citando Tácito, que o denário era o pagamento diário de um soldado romano no tempo de Cristo. Tácito diz quase o contrário. No livro I dos Anais ("Anais", a história de Roma escrita por Tácito no início do século II), capítulo 17, ele relata o motim das legiões da Panônia no ano 14, e põe na boca dos revoltosos duas frases precisas: que "a alma e o corpo são avaliados em dez asses por dia" — denis in diem assibus animam et corpus aestimari — e que o único alívio seria servir sob regras certas, "que cada um ganhasse um denário" e que o décimo sexto ano encerrasse o serviço.
Dez asses são cinco oitavos de um denário. O denário diário, portanto, era a reivindicação dos legionários, não o salário deles. O que se pode afirmar, e é mais interessante do que a versão dos comentários, é que a diária da parábola equivalia ao que um soldado romano pedia num motim e não recebia.
A corroboração tardia, com a ressalva
O Edito de Diocleciano sobre os preços máximos, de 301 depois de Cristo, é a única tabela oficial de salários que sobrou do mundo romano. No capítulo dedicado ao trabalho, ele fixa o teto do operarius rusticus — o trabalhador do campo — em vinte e cinco denários por dia, com sustento.
A ressalva é grande e não se pode omitir: em 301 o denário já não era a peça de prata do primeiro século, e sim uma unidade de conta fortemente desvalorizada. Os vinte e cinco denários do edito não são vinte e cinco denários de Tibério, e comparar os números seria erro grosseiro. O que o edito corrobora é a forma do arranjo — trabalhador rural pago por dia, com a comida por fora — e não o valor.
Que espécie de contrato é este
O direito romano distinguia dois tipos de aluguel de trabalho. Num, aluga-se o resultado: encomenda-se uma obra, paga-se pela obra pronta, e o prazo é problema de quem a executa. No outro, aluga-se o tempo da pessoa: ela fica à disposição por um período, e quem paga decide o que ela faz nesse período. Os juristas chamavam o segundo de locatio conductio operarum ("aluguel de serviços", em latim). É esse o contrato deste versículo — o que se comprou foi o dia, não a colheita.
A diferença é grande para quem entra nele. Quem vende uma obra continua senhor do próprio tempo; quem vende o dia entrega o tempo junto.
O contrato judaico e a razão pela qual ele podia ser rompido
A lei judaica tratou desse ponto com uma consequência notável. O Talmude, em Bava Metzia 10a, estabelece que o trabalhador contratado pode desistir até no meio do dia, e explica que a razão não é o benefício dele. A razão é um versículo: Levítico 25:55 diz que os filhos de Israel são servos de Deus, e os mestres o leem como "meus servos, e não servos de servos". Daí a conclusão jurídica: um judeu não pode ficar preso a um contrato do qual não consiga se soltar quando quiser, porque isso o tornaria escravo de outro homem.
Repare no que esse raciocínio faz. Ele protege o trabalhador da servidão pela mesma cláusula que o deixa sem garantia nenhuma. Um vínculo que qualquer das partes desfaz na hora que quiser não escraviza — e também não sustenta.
Um tribunal que foi além do contrato
Há um caso no mesmo tratado, em Bava Metzia 83a, que ilumina a parábola inteira. Uns carregadores quebraram um barril de vinho de Rabá bar bar Hanan, que lhes tomou as capas como pagamento do prejuízo. O caso foi ao mestre Rav, que mandou devolver as capas. "É esta a lei?", perguntou o dono. "Sim", respondeu Rav, e citou Provérbios 2:20: "para que andes no caminho dos bons." Os carregadores então falaram: somos pobres, trabalhamos o dia todo, estamos com fome e não temos nada. E Rav ordenou ao dono que lhes pagasse também o salário. "É esta a lei?" — "Sim", e citou o resto do mesmo versículo: "e guardes as veredas dos justos."
O caso é séculos posterior ao evangelho e não é prova de nada sobre o primeiro século. Vale pelo que mostra: dentro da própria tradição judaica havia um padrão reconhecido acima do que o contrato obrigava, e era possível a um tribunal invocá-lo. A situação de quem recebe por dia e não tem reserva — a razão pela qual a lei manda pagar antes de escurecer — está desenvolvida no estudo de Êxodo 12:45.
3. Análise Teológica do Versículo
"Ele fez um acordo com os trabalhadores"
Houve negociação, e ela acontece uma vez só em toda a parábola.
Compare com o que vem depois. No versículo 4 o dono diz aos do meio da manhã: "eu lhes pagarei o que for justo" — sem número. No versículo 7 não diz nada sobre pagamento: manda ir, e ponto. Das cinco contratações, este é o único contrato com valor fechado.
E é justamente esse contrato que será usado contra um dos contratados. No versículo 13 o dono responde ao que reclamou com uma pergunta que só pode ser feita a este grupo: você não concordou comigo em um denário? Quem tem contrato tem piso e tem teto. O acordo garantiu a estes homens o que os outros quatro grupos não tinham garantido — e retirou deles qualquer pretensão acima do combinado.
O verbo grego do acordo é o da harmonia, o de duas coisas que soam juntas, e o campo dele já foi examinado no estudo de Mateus 18:19. O que importa aqui é o efeito: o acordo é o instrumento que, no fim da história, transforma uma queixa em quebra de palavra.
"de um denário"
O preço é uma moeda, e a moeda é de prata e não se reparte.
Essa escolha de denominação é o que faz o resto funcionar. No versículo 9 cada trabalhador da última hora recebe um denário; no versículo 10 os primeiros vêm, e o texto diz que pensaram que receberiam mais. Para pensar isso, eles precisaram ver o que o outro recebeu — e viram porque era uma peça única, inconfundível, na mão de um homem à frente na fila. Pagamento em moedinha de bronze não se enxerga de longe.
Depois vem o que o denário diz de quem o recebe.
Um acerto por dia é um acerto por dia porque não pode ser por mês. Quem não tem reserva não atravessa trinta dias esperando; recebe hoje o que come hoje. A lei de Israel já havia tirado disso a consequência prática, mandando pagar o jornaleiro antes do pôr do sol, e o fundo dessa legislação está no estudo de Êxodo 12:45.
A diária, portanto, não é um valor. É uma posição. Duas pessoas podem receber a mesma quantia de dinheiro por ano e estar em condições incomparáveis, se uma a recebe em doze parcelas contratadas e a outra em trezentos pedaços que precisam ser reconquistados um por um. O que distingue o homem deste versículo não é quanto ele ganha: é que ele tem de ser contratado outra vez amanhã.
E há uma consequência que a parábola vai explorar. Quem vive de diária conta os dias com precisão, porque é pago por eles. É por isso que o grupo do versículo 12 sabe exatamente quanto trabalhou e consegue dizer em voz alta: "nós, que suportamos o peso e o calor do dia". Ninguém mede o tempo com mais rigor do que quem o vende em pedaços.
"pelo dia"
A unidade de conta é o dia, e ela não era definida pelo comprador.
O grego constrói isso de um jeito que não tem equivalente em português, com uma preposição inesperada (item 10). O sentido é claro: um denário para cada dia, o dia como medida.
Só que o comprimento do dia não estava no contrato, e não podia estar — o costume do lugar o fixava, e nem pagando mais o patrão comprava horas a mais. Isso significa que o acordo deste versículo tem duas partes: uma escrita, que é o valor, e outra não escrita, que é a jornada. E quando os trabalhadores reclamarem, no versículo 12, será da parte não escrita que eles falarão.
"e os enviou para a sua vinha"
Ele manda. Não leva.
O verbo grego é o de enviar com incumbência — a mesma raiz de que vem a palavra "apóstolo". A tentação de tirar disso uma teologia da missão precisa ser resistida: Mateus usa esse verbo para todo tipo de envio, inclusive o de quem vai prender Jesus, e o contexto aqui é um recado para dentro de uma vinha. Não há sinal de que se queira mais do que isso.
O que é do texto é a sequência. Primeiro o acordo, depois o envio, e o dono fica de fora. Entre este versículo e o versículo 8 o proprietário não aparece na vinha uma única vez — ele sai à praça quatro vezes mais, e nunca é visto trabalhando nem supervisionando. A parábola não diz quem ficou cuidando do serviço, e essa é uma das informações que ela decide não dar.
O que o versículo não diz
Não diz se um denário era bom ou ruim. Não diz que os homens regatearam. Não diz o que eles acharam do preço, nem se algum recusou.
O leitor recebe um número sem veredito, e é por isso que o versículo 10 surpreende: quem lê seguido não tem motivo nenhum para suspeitar que esses homens esperavam mais do que combinaram. A expectativa deles não está anunciada em lugar nenhum — aparece só quando já é tarde.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O denário
Peça de prata romana de cerca de quatro gramas, do tamanho aproximado de uma unha de polegar, com o perfil e o título do imperador de um lado. Valia dezesseis moedas de bronze e era a maior denominação de uso comum na Palestina do primeiro século — acima dela ficavam o estáter e os múltiplos de prata, tratados no estudo de Mateus 17:27.
É a moeda que reaparece em Mateus 22:19, trazida a pedido de Jesus quando se discute o tributo, e em Mateus 18:28, na dívida de cem denários. A equivalência dela com o imposto do templo está no estudo de Mateus 17:24.
As partes do acordo
De um lado o dono da casa, apresentado no versículo 1. Do outro, os trabalhadores da primeira contratação — o grupo que atravessará a parábola inteira e falará no versículo 12. São eles, e só eles, que têm valor combinado.
O administrador, que não aparece
O funcionário que pagará a turma no versículo 8 não participa deste acordo nem do envio. O dono negocia pessoalmente, envia pessoalmente, e delega apenas o pagamento — que é a parte em que a ordem dos acontecimentos vai importar.
A vinha
Mencionada pela segunda vez, com as mesmas palavras do versículo 1: "a sua vinha". A repetição literal fecha o versículo com a mesma informação com que o anterior tinha fechado, e o versículo 2 não acrescenta nada sobre o lugar.
5. Pontos de Ensino
O contrato é proteção e é limite
Estes homens sabiam exatamente quanto iam receber, e nenhum dos grupos seguintes soube. Isso os coloca em vantagem durante o dia inteiro — e os deixa sem argumento no fim, porque quem fixou o preço não pode alegar surpresa.
É o mesmo instrumento produzindo os dois efeitos, e a parábola vai usá-lo nos dois sentidos.
O que foi comprado foi o dia
Não a colheita, não um número de cestos, não uma tarefa. Isso muda o que o trabalhador entrega: não um resultado, e sim o tempo em que está à disposição de outro.
A diária é uma condição, não um valor
Ser pago por dia significa não ter como atravessar a semana seguinte sem ser contratado outra vez. O homem do versículo 2 não é apenas alguém que ganha pouco: é alguém cujo amanhã não está resolvido por nada que ele tenha feito hoje.
A moeda escolhida decide o que se pode comparar
Um denário é uma peça só. Todo o conflito dos versículos 10 a 12 nasce de um pagamento que pôde ser visto de longe — e, sem essa escolha, a parábola não teria enredo.
Havia um padrão acima do contrato, e era reconhecido
A tradição judaica registra tribunais mandando pagar mais do que a letra exigia, apoiados em Provérbios 2:20. Quem lê a parábola como a defesa de um proprietário que se limitou aos seus direitos está desconhecendo que o mundo dela já sabia distinguir o que a lei obriga do que se espera de um homem bom.
O texto não julga o preço
Não há adjetivo nenhum no versículo. Quem pregar sobre a generosidade ou sobre a mesquinhez do denário está pondo no texto o que o texto reteve — e é bom reter junto com ele, porque a ausência de veredito aqui é o que faz o versículo 10 funcionar.
6. Aspectos Filosóficos
Por que um salário diz mais sobre a posição de quem o recebe do que sobre o valor do que ele fez?
A tese de Moses Finley
Moses Finley (1912-1986) foi historiador da Antiguidade. Nascido em Nova York, perdeu o lugar na universidade norte-americana no período das perseguições políticas do começo dos anos 1950 e reconstruiu a carreira na Inglaterra, em Cambridge, onde escreveu o livro que mudou o debate: The Ancient Economy (1973), publicado em português como A economia antiga.
O argumento central é uma recusa. Finley sustenta que não havia, na Antiguidade, uma "economia" no sentido moderno — uma esfera separada, com leis próprias, que se pudesse estudar à parte da política e da religião. Gregos e romanos não tinham palavra para isso, e não porque lhes faltasse vocabulário: é que a coisa não existia como domínio autônomo. Comprar, vender, trabalhar e emprestar estavam presos dentro de outra coisa — a posição de cada um na comunidade.
Daí a categoria que ele põe no lugar de classe: estatuto. O mundo antigo, na leitura dele, se organizava numa escala de condições jurídicas e sociais — cidadão, liberto, escravo, devedor preso à dívida, estrangeiro residente — e não em posições dentro de um mercado. O que definia um homem não era quanto ele tinha, e sim em que condição ele estava.
E a consequência que interessa a este versículo: para Finley, o trabalho livre assalariado era marginal e irregular na Antiguidade. Não existia mercado de trabalho no sentido em que usamos a expressão. Alugar-se era ocasional, sazonal, e carregava uma mancha — a elite antiga via no homem que trabalha por paga alguém que se pôs à disposição de outro, e isso o aproximava perigosamente da servidão.
O que isso faz com o denário
Se Finley estiver certo, o denário deste versículo não é um preço. É um marcador de posição.
Os homens da praça não estavam "ofertando mão de obra" num mercado com cotação. Estavam se tornando disponíveis, um por um, para um homem determinado, que os escolheu pessoalmente. E é por isso que a parábola pode terminar numa discussão cara a cara, no portão, e não num processo: não há instituição impessoal a que apelar. Há um dono e há quem ele chamou.
Isso ilumina uma estranheza da história. A queixa do versículo 12 é aritmética — uma hora contra doze. A resposta do versículo 13 é contratual — você concordou. Nenhuma das duas fala da coisa que a categoria de Finley aponta: a diferença de condição entre quem tem vinha e quem precisa ser escolhido de manhã. Os dois lados discutem o número, e o número não é o assunto.
O guarda-corpo
A tese de Finley é contestada, e não se pode apresentá-la como resultado assente. Desde os anos 1990 um conjunto grande de trabalhos — arqueologia do comércio, contagem de naufrágios, distribuição de moedas e de cerâmica — argumenta que houve mais integração de mercados e mais crescimento do que ele admitia. Não há consenso, e o debate continua aberto.
O que sobrevive melhor à crítica é justamente a parte que este versículo pede: a observação de que as fontes antigas falam do assalariado em termos de estatuto e de dependência, não de preço. Quem escreveu sobre esses homens na Antiguidade não discutia quanto eles custavam — discutia o que eles eram.
7. Aplicações Práticas
Combinar antes muda a conversa depois
O único grupo que não pôde ser convencido de nada, no fim do dia, foi o que tinha um número acertado. E foi também o único que teve o dia inteiro sem dúvida sobre o que receberia.
Isso vale para qualquer acerto entre pessoas — trabalho, serviço, favor grande, divisão de despesa. O acordo prévio protege as duas partes e fecha as duas portas: quem combinou não pode pedir mais, e quem combinou não pode receber menos.
A diferença entre vender uma tarefa e vender o seu dia
São duas coisas, e quem confunde as duas se machuca. Vendida a tarefa, o tempo continua seu; vendido o dia, o tempo é de quem pagou. É útil saber qual das duas se está fazendo antes de aceitar.
Quem recebe por dia carrega um risco invisível
A pessoa contratada por diária, por entrega, por corrida ou por serviço avulso não está apenas ganhando de forma diferente: está com o próximo mês em aberto. Reconhecer isso é o mínimo devido por quem contrata assim — e a tradição de que a parábola vem tinha ao menos um padrão de comportamento acima do que o contrato obrigava.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Um denário por dia era salário justo?
Era a taxa corrente para trabalho rural, e ficava acima do que um legionário romano do ano 14 efetivamente recebia. Isso responde à pergunta sobre o mercado, e não à pergunta sobre a justiça — que depende de saber se um dia de trabalho braçal dava para sustentar uma família, e sobre isso não há dado suficiente para decidir.
Por que só este grupo recebeu um valor combinado?
O texto não explica. O que ele faz é registrar a diferença com cuidado: valor fechado aqui, promessa vaga no versículo 4, silêncio no versículo 7. Toda leitura que atribui intenção a essa variação — cálculo, generosidade crescente, pressa — acrescenta o que o evangelho não diz.
Se o trabalhador podia desistir no meio do dia, o acordo valia de quê?
Valia como medida. Ele fixava quanto e por quanto tempo, e é a isso que o dono apelará no versículo 13. A faculdade de romper, que a tradição judaica derivava de Levítico 25:55, não anulava o combinado: impedia que ele se tornasse vínculo de propriedade sobre a pessoa.
O dono foi com eles para a vinha?
O versículo diz que ele os enviou, e daqui até o versículo 8 ele não é visto na vinha. Sai à praça quatro vezes mais e não aparece trabalhando nem supervisionando. Quem ficou no comando do serviço é uma das coisas que a parábola deixa em branco.
Por que a parábola precisava de uma moeda de prata?
Porque o enredo depende de um pagamento que possa ser visto. Uma peça única na mão de quem está à frente da fila é visível; um punhado de cobre não é. A escolha da denominação neste versículo é a condição técnica do conflito que estoura nove versículos adiante.
9. Conexão com Outros Textos
O acordo invocado contra quem o fez
Mateus 20:13 — "Mas ele respondeu a um deles: 'Amigo, não estou lhe fazendo injustiça. Você não concordou comigo em um denário?'"
É o mesmo verbo do acordo e o mesmo valor, e é a única resposta que o dono dá a uma queixa em toda a parábola. Sem o combinado deste versículo, essa frase não existiria.
A mesma moeda, e a pergunta sobre a imagem dela
Mateus 22:19 — "Mostrem-me a moeda usada para pagar o tributo.' E lhe trouxeram um denário."
Mateus 22:20 — "Ele então lhes perguntou: 'De quem é esta imagem e esta inscrição?'"
A moeda que paga o trabalhador na vinha é a mesma que paga o imposto a Roma, e traz gravado o rosto de quem governa. O evangelho não faz essa ligação, e não se deve fingir que faz; o dado é material, e vale por si: o salário do diarista judeu vinha na moeda do império.
A moeda pequena, para comparação
Mateus 10:29 — "Não se vendem dois pardais por uma moedinha? E nenhum deles cairá ao chão sem o consentimento do Pai de vocês."
A "moedinha" é bronze, e vale uma fração do denário. A distância entre as duas denominações é o que torna o denário visível na mão de quem o recebe.
O salário retido, e o que ele faz
Tiago 5:4 — "O salário que vocês retiveram dos trabalhadores que ceifaram os seus campos está clamando, e o clamor dos ceifeiros chegou aos ouvidos do Senhor dos Exércitos."
A carta trata do lado oposto deste versículo: aqui o valor é combinado e será pago; ali é retido, e o texto trata a retenção como coisa que grita. Os dois pressupõem o mesmo arranjo — o ceifeiro contratado por dia, cuja vida depende de receber.
A experiência vista de dentro
Jó 7:1-2 — "Não é serviço obrigatório a vida do homem sobre a terra? E os seus dias não são como os dias de um assalariado? Como o escravo que suspira pela sombra, e como o assalariado que espera pelo seu salário."
Jó usa a condição do assalariado como imagem da vida humana inteira, e escolhe dois traços: a espera pelo fim do dia e a espera pelo pagamento. É a descrição mais antiga, em hebraico, do que se passa na cabeça do homem contratado neste versículo.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Ele fez um acordo com os trabalhadores de um denário pelo dia e os enviou para a sua vinha.
Texto grego (Textus Receptus)
συμφωνήσας δὲ μετὰ τῶν ἐργατῶν ἐκ δηναρίου τὴν ἡμέραν, ἀπέστειλεν αὐτοὺς εἰς τὸν ἀμπελῶνα αὐτοῦ.
Transliteração
symphōnēsas de meta tōn ergatōn ek dēnariou tēn hēmeran, apesteilen autous eis ton ampelōna autou.
Diferenças entre manuscritos
Não há variante a registrar: a tradição manuscrita é unânime aqui, inclusive na grafia. A única decisão textual de peso nesta parábola está no versículo 16, e tem estudo próprio.
Análise palavra por palavra
συμφωνήσας — symphōnēsas, "tendo combinado". Particípio aoristo ativo de symphōneō, composto de syn, junto, e phōnē, voz, som — literalmente "soar junto". É a palavra de que vem "sinfonia" em português. O sentido corrente no grego dos contratos é o de ajustar um preço.
O verbo aparece seis vezes no Novo Testamento, e o campo semântico dele está desenvolvido no estudo de Mateus 18:19. Dentro desta parábola ele volta uma vez, no versículo 13, e volta na boca do dono, como argumento.
O tempo do participio é o aoristo, que costuma indicar ação anterior à do verbo principal: primeiro combinou, depois enviou. A ordem dos atos está na gramática.
δὲ — de, partícula de ligação fraca, que aqui só dá continuidade: "e então". Não é adversativa neste caso.
μετὰ τῶν ἐργατῶν — meta tōn ergatōn, "com os trabalhadores". A preposição meta com genitivo marca companhia, e é a construção própria de quem acerta algo com outro, entre iguais na negociação. A palavra dos trabalhadores foi examinada no estudo do versículo 1.
ἐκ δηναρίου — ek dēnariou, literalmente "a partir de um denário". A preposição ek significa "de dentro de", "a partir de", e não é o que se esperaria aqui: para dizer o preço, o grego costuma usar o genitivo sozinho ou a preposição anti. A construção com ek nesse sentido é raríssima no Novo Testamento.
Duas explicações circulam, e é discutido qual vale. A primeira toma a expressão como um modo popular de dizer o padrão a partir do qual se calcula — "à razão de um denário". A segunda vê nela influência do aramaico falado, cuja preposição de preço admite esse uso. As duas dão o mesmo sentido prático; nenhuma se impõe sobre a outra.
δηναρίου — dēnariou, "denário". Não é palavra grega: é o latim denarius ("de dez", porque a moeda valia originalmente dez asses) transcrito em letras gregas. O grego do Novo Testamento está cheio desses empréstimos do latim no vocabulário do dinheiro, da administração e do exército, e cada um deles é um registro de quem mandava.
τὴν ἡμέραν — tēn hēmeran, "o dia". Acusativo sem preposição, usado para marcar a extensão de tempo — o mesmo recurso do português em "custa dez reais o quilo". A tradução "pelo dia" dá o sentido: um denário para cada dia de trabalho.
ἀπέστειλεν — apesteilen, "enviou". Aoristo do indicativo de apostellō, composto de apó, para longe de, e stellō, enviar, despachar. É a raiz de que vem "apóstolo", que significa simplesmente "enviado".
O verbo é comum e Mateus o usa para todo tipo de envio, inclusive o dos que vêm prender Jesus; não carrega aqui nenhum peso especial. O que ele diz é que o dono não foi com eles.
εἰς τὸν ἀμπελῶνα αὐτοῦ — eis ton ampelōna autou, "para a sua vinha". A frase fecha o versículo repetindo, palavra por palavra, o fim do versículo 1. A repetição literal não é comum em Mateus e pode ser apenas o modo econômico de retomar a cena; alguns leitores veem nela o efeito de emoldurar o acordo entre duas menções ao lugar. É leitura possível, e o texto não permite decidir.
11. Conclusão
Do que foi examinado saem quatro conclusões.
O contrato é a peça que faz a parábola funcionar nos dois sentidos. Ele dá a estes homens uma garantia que nenhum outro grupo terá, e é ele que, no fim, cala a queixa deles. O mesmo instrumento protege e limita, e a história usa as duas faces.
O que se compra aqui é tempo de pessoa, não resultado de trabalho. A unidade é o dia — e o comprimento do dia, que o costume do lugar fixava, ficou fora do combinado. O acordo tem uma metade escrita e uma metade que o mundo em volta escreveu, e será da segunda que os trabalhadores falarão no versículo 12.
O denário localiza quem o recebe. Não é a quantia que distingue este homem de quem lhe paga: é o fato de que o amanhã dele depende de ser escolhido outra vez. Uma diária descreve uma condição, e é isso que o número esconde de quem só olha o número.
A moeda escolhida é uma decisão narrativa. Prata, uma peça, indivisível e visível a distância. Sem essa escolha ninguém no fim da fila veria o que o da frente levou, e a parábola não teria conflito nenhum para resolver.













