E também digo a vocês: se dois de vocês concordarem na terra sobre qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito pelo meu Pai, que está nos céus.
1. Introdução
"Se dois de vocês concordarem na terra sobre qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito pelo meu Pai." O versículo é lido quase sempre como promessa sobre a oração feita em conjunto.
Mas ele vem logo depois do procedimento com o irmão que peca e da autoridade de ligar e desligar. A palavra traduzida por "coisa" também quer dizer "caso", "questão", e o verbo "concordar" é o de fechar um acordo. Por isso há quem leia o versículo como continuação do assunto anterior: dois que chegam a um acordo sobre uma questão entre irmãos.
2. Contexto Histórico e Cultural
Resolver questões dentro da comunidade
As comunidades judaicas do tempo de Jesus resolviam boa parte das suas disputas sem recorrer aos tribunais do governo. Questões de dinheiro, de propriedade e de contratos iam a um tribunal pequeno, formado dentro da própria comunidade.
A Mishná (a coleção de leis judaicas organizada por volta do ano 200) fixa que as causas de dinheiro são julgadas por três juízes (Sanhedrin 1:1). E descreve como eles podiam ser escolhidos: cada uma das partes indica um juiz, e os dois juízes escolhidos indicam o terceiro (Sanhedrin 3:1). O caso se resolvia, portanto, pelo acordo entre pessoas que as próprias partes aceitavam.
Paulo cobra dos cristãos de Corinto exatamente esse costume. Em 1 Coríntios 6:1-6, ele se espanta de que um irmão, tendo uma "questão" contra outro, a leve a juízes de fora, e pergunta se não há entre eles alguém sábio que possa julgar entre irmãos. A palavra que ele usa para "questão" é a mesma que este versículo usa para "coisa".
Esse fundo não prova que o versículo trate de uma disputa. Mostra que, para os ouvintes, "dois concordarem sobre uma questão" podia soar como linguagem de acordo entre partes, e não só de oração.
3. Análise Teológica do Versículo
"E também digo a vocês"
O "também" liga a frase ao versículo 18. Jesus acrescenta uma segunda afirmação à primeira, com a mesma estrutura: algo feito na terra, e a resposta do céu.
"se dois de vocês concordarem na terra"
Dois é o menor grupo possível. O versículo 18 falava de "vocês", a comunidade; este desce ao mínimo.
O verbo significa estar de acordo, soar junto, combinar. Em Mateus 20:2 e 20:13 é o acordo entre o dono da vinha e os trabalhadores sobre o salário de um denário. É linguagem de trato, não de sentimento.
"sobre qualquer coisa que pedirem"
Sobre o que os dois concordam, e o que pedem? Há duas leituras.
Primeira leitura: é uma promessa sobre a oração. Dois fiéis que pedem juntos, de comum acordo, qualquer coisa, serão atendidos pelo Pai. É a leitura mais conhecida, e combina com outras promessas de Mateus: "peçam, e será dado a vocês" (Mateus 7:7) e "tudo o que vocês pedirem em oração, se crerem, receberão" (Mateus 21:22). O acento está no acordo: não é a oração de um só, e sim a de quem chegou a um mesmo pedido.
Segunda leitura: continua o assunto da disciplina. A palavra traduzida por "coisa" é a mesma que Paulo usa para uma causa entre irmãos, e o verbo é o de fechar um acordo. Os "dois" seriam as duas partes do conflito dos versículos 15 a 17, que finalmente se entendem, ou dois membros que decidem juntos o caso. O que eles pedem a Deus, sobre essa questão, o Pai confirma. O versículo repetiria, em outras palavras, a garantia do versículo 18.
Não é possível decidir. A primeira leitura tem a seu favor o verbo "pedir" e as outras promessas de oração em Mateus. A segunda tem a seu favor o lugar do versículo, entre a frase sobre ligar e desligar e a pergunta de Pedro sobre perdão. É plausível que o versículo tenha nascido como promessa geral e que Mateus o tenha posto aqui por causa do assunto.
"isso lhes será feito pelo meu Pai, que está nos céus"
A frase é passiva, mas desta vez o agente é nomeado: "pelo meu Pai". No versículo 18, o céu "terá ligado" sem sujeito; aqui, o Pai é quem faz.
O versículo não põe condições além do acordo. Mas Mateus não apresenta a oração como garantia automática em outros lugares. O próprio Jesus pede, no Getsêmani, que o cálice passe, e acrescenta "não seja como eu quero, mas sim como Tu queres" (Mateus 26:39). Quem lê o versículo como promessa sem limite tem de explicá-lo ao lado dessa oração, e o texto não faz essa ligação.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os dois
Não são identificados. "Dois de vocês", isto é, dois dos discípulos a quem Jesus fala. Na segunda leitura do item 3, podem ser as duas partes do conflito dos versículos anteriores.
O Pai
"Meu Pai, que está nos céus", o mesmo do versículo 10. Aqui é o sujeito da ação: é ele quem faz o que foi pedido.
O contexto
O versículo está entre a autoridade de ligar e desligar (versículo 18) e a promessa da presença de Jesus entre dois ou três (versículo 20).
5. Pontos de Ensino
O acordo pesa
O versículo não fala de um que pede, e sim de dois que concordam.
O menor grupo basta
Dois. Não é preciso a comunidade inteira.
O Pai responde ao que se decide junto
Nas duas leituras, o versículo liga o acordo na terra à ação do Pai no céu.
O versículo não resolve o problema da oração não atendida
Ele não trata disso, e o resto de Mateus mostra que o pedido fica sujeito à vontade do Pai.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo dá peso ao acordo entre duas pessoas, e isso levanta a pergunta sobre o que o acordo acrescenta. Duas pessoas que concordam podem estar ambas certas, ou ambas enganadas. O que a concordância garante não é a verdade do que se pede, mas que o pedido deixou de ser de um só: passou pelo crivo de outro, que podia ter discordado. Nesse sentido, o acordo é uma forma mínima de controle contra o desejo individual. O versículo não diz que o acordo torna o pedido certo; diz que o Pai responde a ele.
7. Aplicações Práticas
Reconcilie-se antes de pedir juntos
O versículo vem logo depois de um conflito entre irmãos. Qualquer que seja a leitura, ele supõe que os dois estejam de acordo. Orar junto com alguém com quem se está em conflito, sem resolver o conflito, não é o que o texto descreve.
Peça com outra pessoa
Levar um pedido a Deus junto com alguém obriga a formulá-lo, a explicá-lo e a ouvir se o outro concorda. Muitos pedidos mudam nessa conversa, e alguns deixam de ser feitos.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O versículo garante que tudo o que dois pedirem será feito?
Lido isoladamente, parece que sim. Mas Mateus mostra o próprio Jesus pedindo e se submetendo à vontade do Pai (Mateus 26:39), e a segunda leitura do versículo limita o "qualquer coisa" às questões entre irmãos. Nenhuma das duas leituras autoriza tratar a frase como fórmula.
Por que dois, e não um?
O texto não explica. Na primeira leitura, o acordo seria a prova de que o pedido não é capricho individual. Na segunda, dois são as partes de um conflito, e o acordo é a própria reconciliação.
9. Conexão com Outros Textos
Outras promessas de oração em Mateus
Mateus 7:7-8 — "Peçam, e será dado a vocês; busquem, e vão encontrar; batam, e a porta será aberta para vocês. Pois todo aquele que pede recebe; quem busca encontra; e a quem bate, a porta será aberta."
Mateus 21:22 — "Tudo o que vocês pedirem em oração, se crerem, receberão."
Em Mateus 21:22 a condição é a fé; aqui, o acordo.
O limite da oração
Mateus 26:39 — "Indo um pouco mais adiante, prostrou-se com o rosto em terra e orou: 'Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como Tu queres.'"
A "questão" entre irmãos
1 Coríntios 6:1 — "Se algum de vocês tem uma questão contra outro, como ousa levá-la a julgamento diante dos injustos, e não diante dos santos?"
A mesma palavra que o versículo usa para "coisa". Paulo a aplica a uma disputa entre membros da igreja.
O verbo "concordar" em Mateus
Mateus 20:13 — "Mas ele respondeu a um deles: 'Amigo, não estou lhe fazendo injustiça. Você não concordou comigo em um denário?'"
Um acordo para o mal
Atos 5:9 — "Pedro lhe disse: 'Por que vocês combinaram entre si tentar o Espírito do Senhor?'"
O mesmo verbo, para Ananias e Safira. O acordo entre dois não é bom por si mesmo.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
E também digo a vocês: se dois de vocês concordarem na terra sobre qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito pelo meu Pai, que está nos céus.
Texto grego (Textus Receptus)
Πάλιν λέγω ὑμῖν ὅτι ἐὰν δύο ὑμῶν συμφωνήσωσιν ἐπὶ τῆς γῆς περὶ παντὸς πράγματος οὗ ἐὰν αἰτήσωνται, γενήσεται αὐτοῖς παρὰ τοῦ πατρός μου τοῦ ἐν οὐρανοῖς.
Transliteração
Palin legō hymin hoti ean dyo hymōn symphōnēsōsin epi tēs gēs peri pantos pragmatos hou ean aitēsōntai, genēsetai autois para tou patros mou tou en ouranois.
Uma nota textual
Parte dos manuscritos antigos acrescenta "amém" depois de "também" ("também, em verdade, digo a vocês") e põe "de vocês" depois do verbo; o sentido não muda.
Análise palavra por palavra
Πάλιν λέγω ὑμῖν — palin legō hymin, "e também digo a vocês". Palin significa "de novo, outra vez" e, como aqui, "além disso". Acrescenta uma afirmação à do versículo 18.
ἐὰν δύο ὑμῶν — ean dyo hymōn, "se dois de vocês". Ean com subjuntivo abre a condição. Hymōn, "de vocês", faz dos dois uma parte do grupo a quem Jesus fala.
συμφωνήσωσιν — symphōnēsōsin, "concordarem".
Aoristo do subjuntivo de symphōneō, formado de syn, "junto", e phōnē, "som, voz": literalmente "soar junto". Daí vem a palavra portuguesa "sinfonia".
No grego da época, o verbo servia para instrumentos afinados entre si, para opiniões que coincidem e para contratos. É este último uso que aparece em Mateus 20:2 e 20:13, no acordo de um denário entre o dono da vinha e os trabalhadores. Em Atos 5:9, é o acordo de Ananias e Safira para enganar. Em Lucas 5:36, o remendo novo que "não combina" com a roupa velha.
ἐπὶ τῆς γῆς — epi tēs gēs, "na terra". A mesma expressão do versículo 18, que prepara o contraste com "nos céus" no fim da frase.
περὶ παντὸς πράγματος — peri pantos pragmatos, "sobre qualquer coisa".
Pragma, de prassō, "fazer", é "coisa feita, assunto, negócio". Em grego jurídico, é também "causa, processo", o assunto em disputa. É o sentido de 1 Coríntios 6:1, "se algum de vocês tem uma questão contra outro". A palavra sozinha não decide entre "qualquer pedido" e "qualquer caso"; é ela que abre a segunda leitura do item 3.
οὗ ἐὰν αἰτήσωνται — hou ean aitēsōntai, "que pedirem". Aiteō, "pedir", na voz média, que pode indicar pedir para si ou em interesse próprio. É o verbo das promessas de oração de Mateus 7:7-11 e 21:22.
γενήσεται αὐτοῖς — genēsetai autois, "isso lhes será feito", literalmente "acontecerá para eles". Futuro de ginomai, "acontecer, vir a ser". É a mesma raiz de "seja feita a tua vontade" no Pai Nosso (Mateus 6:10).
παρὰ τοῦ πατρός μου τοῦ ἐν οὐρανοῖς — para tou patros mou tou en ouranois, "pelo meu Pai, que está nos céus". Para com genitivo indica origem: "da parte de". O que os dois pedem vem do Pai.
11. Conclusão
Do que se viu, o versículo leva a duas conclusões.
O acordo entre dois tem resposta do Pai. O verbo é o de chegar a um trato, e o grupo é o menor possível. O versículo liga esse acordo, feito na terra, à ação do Pai no céu, como o versículo anterior ligava a decisão da comunidade.
A frase pode ser promessa geral sobre oração ou garantia sobre questões entre irmãos, e o lugar dela pesa. A palavra "coisa" é também "caso", e o versículo está entre a disciplina e o perdão. Lida como promessa sem limite, ela entra em choque com o resto de Mateus; lida no seu contexto, ela diz que o Pai está do lado de quem se reconcilia.













