Mas ele respondeu a um deles: “Amigo, não estou lhe fazendo injustiça. Você não concordou comigo em um denário?
1. Introdução
O proprietário não responde ao grupo. Responde a um deles, no singular, e com isso desfaz a fala coletiva do versículo anterior.
A palavra com que ele começa é a que dá nome ao problema. Em todo o Novo Testamento esse vocativo grego aparece três vezes, e as três em Mateus: aqui, ao trabalhador que reclama; ao homem sem veste de festa que será posto fora, em Mateus 22:12; e a Judas, no instante da traição, em Mateus 26:50. Nas três é Jesus quem fala, e nas três a palavra abre uma repreensão.
Depois do vocativo vêm duas coisas. Uma negativa de caráter jurídico — "não estou lhe fazendo injustiça" —, que é verdadeira. E uma pergunta cuja resposta o homem não pode recusar: você não combinou comigo esse valor?
O que a resposta não faz é negar os fatos do versículo 12. Ela troca de terreno.
2. Contexto Histórico e Cultural
Como se chamava alguém, e o que o chamamento dizia
No mundo grego a forma de tratamento não era enfeite: era instrumento social. Ao escolher o vocativo, quem fala coloca as duas pessoas em posição — a si mesmo e o outro —, e quem ouve entende imediatamente onde foi posto.
O grego da época tinha uma escala para isso, e vale conhecê-la para ouvir o que o proprietário faz.
"Companheiro" — o termo deste versículo — vem de uma raiz que designa o membro da mesma gente ou do mesmo clã, e no uso corrente significa camarada, parceiro, sócio: alguém com quem se compartilha uma situação, uma mesa ou um negócio. Não uma afeição. O Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) o descreve como tratamento geral, sem a ideia de amizade afetuosa, usado entre senhor e escravo ou entre convidados de uma mesma mesa. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) vai além e o chama de termo de indiferença, dirigido a um inferior.
"Amigo", no sentido forte, era outra palavra — philos, do mesmo campo de "amar". É a que Jesus usa em João 15:14-15 para dizer aos discípulos que não os chama mais de servos. As traduções portuguesas usam "amigo" para as duas, e é por isso que este versículo soa, em português, mais caloroso do que é.
"Homem" — ánthrōpe — era o vocativo de distância. Jesus o emprega em Lucas 12:14 a um homem que lhe pedia para intervir numa partilha de herança: "Homem, quem me constituiu juiz ou repartidor sobre vocês?" A situação é parecida com a deste versículo — alguém apresentando uma pretensão sobre bens —, e o tratamento escolhido é mais frio.
Entre um proprietário de vinha e um trabalhador de um dia não havia amizade a invocar. A relação era de patrono e dependente, e não tinha nome afetuoso. O vocativo do versículo reconhece o homem como alguém que esteve naquela vinha naquele dia — e não como igual.
O que custava discutir com um proprietário cara a cara
Aqui entra a peça que a leitura moderna não vê, porque pressupõe emprego estável.
Aquele homem não tinha vínculo com aquela vinha. Ele tinha um dia. Na manhã seguinte estaria de novo na praça, e o proprietário — ou o administrador dele — estaria de novo escolhendo quem levar. Discutir de frente com quem contrata, em voz própria e diante de testemunhas, não punha em risco o denário do dia, que já estava na mão: punha em risco os dias seguintes.
Isso explica por que a queixa do versículo 11 foi dita em voz de grupo e sem destinatário, e explica o alcance do que acontece aqui. Ao escolher um homem e falar com ele, o proprietário o retira do abrigo do número — e o põe, sozinho, na posição de quem acusou o patrão na frente de todos.
Não há no texto sinal de que isso seja ameaça, e seria exagero ler ameaça onde não está escrito. Mas o silêncio absoluto daquele homem do versículo 13 até o fim da parábola é dado do texto, e a situação dele o torna inteligível.
O acordo que está sendo cobrado
A pergunta do proprietário invoca o combinado da manhã, e o direito da época dava a esse combinado existência plena: o contrato de aluguel de serviço nascia do consenso, sem escrita, sem testemunha e sem formalidade. O que ele era juridicamente, e por que a fixação de um valor certo importava tanto, está desenvolvido nos estudos de Mateus 20:2 e Mateus 20:4.
O que cabe aqui é apenas a consequência prática: a única prova daquele acordo era a memória das duas partes e o fato de o homem ter ido trabalhar. E é exatamente por isso que o proprietário não afirma o acordo — ele pergunta. A confirmação tinha de sair da boca do trabalhador.
3. Análise Teológica do Versículo
"Mas ele respondeu a um deles"
A resposta é no singular, e o efeito disso é de duas ordens. A frase ganha dono: aquele homem passa a ser responsável pelo que o grupo dizia. E o grupo é dissolvido sem uma palavra sobre ele — não há repreensão coletiva, não há discurso aos trabalhadores, não há ordem geral. A conversa que segue, até o fim do versículo 15, é entre dois homens, e os verbos estão todos no singular.
Mateus não diz qual dos trabalhadores foi escolhido, nem por quê. O texto não permite decidir se foi o que falou mais alto, o mais antigo ou simplesmente o primeiro da mão.
"Amigo"
Esta é a palavra do versículo, e ela tem um padrão que se pode verificar.
O vocativo grego traduzido por "amigo" aparece três vezes em todo o Novo Testamento, e as três estão em Mateus. Não há uma ocorrência em Marcos, em Lucas, em João, nas cartas nem no Apocalipse. Nas três, é Jesus quem fala. E nas três ela é a primeira palavra de uma confrontação:
Aqui, ao trabalhador que acabou de acusá-lo de injustiça: "Amigo, não estou lhe fazendo injustiça."
Em Mateus 22:12, ao convidado que entrou no banquete sem a roupa de festa: "Amigo, como você entrou aqui sem veste nupcial?" O homem emudece, e é lançado para fora.
Em Mateus 26:50, a Judas, no momento do beijo: "Amigo, a que você veio?" É a última palavra de Jesus a ele.
O padrão se confirma nos três casos, e ele diz algo sobre o que a palavra faz. Ela não insulta e não abraça. Reconhece a pessoa, mantém o canal aberto — e recusa o que ela está alegando ou fazendo. É o tratamento de quem vai discordar sem romper.
Há, porém, um traço mais sombrio no conjunto, e é honesto registrá-lo: nos três casos o homem chamado de "amigo" acaba fora. O convidado é expulso; Judas entrega e se perde; e este trabalhador ouve, no versículo 14, a ordem de pegar o que é seu e ir embora. Não se pode transformar isso em regra — três ocorrências são pouco, e Mateus em nenhum momento comenta a escolha da palavra —, mas a coincidência é dado do texto, não invenção do leitor.
Os comentaristas registram o tom e discordam sobre o grau. Ellicott (Charles John Ellicott, bispo anglicano e comentarista inglês do século XIX) diz que a palavra carrega "um tom de reprovação". Bengel (Johann Albrecht Bengel, teólogo e crítico textual alemão do século XVIII) observa que é expressão usada também com quem não se tem intimidade, e que nos outros dois lugares ela assume "um aspecto mais solene". Vincent (Marvin Vincent, comentarista norte-americano do século XIX) recusa a carga e traduz apenas: "literalmente, companheiro, camarada". A divergência não se resolve pelo grego — resolve-se, se se resolver, pelo que acontece nas três cenas.
Uma ressalva de crítica textual completa o quadro, e está detalhada no item 10: em Mateus 11:16 parte dos manuscritos traz esta mesma palavra, e as edições críticas preferem outra, parecida. O padrão descrito acima vale para as três ocorrências seguras.
"não estou lhe fazendo injustiça"
O verbo grego é o de causar dano jurídico: violar o direito de alguém, lesar. Não é o verbo da grosseria nem o da falta de consideração.
O que o proprietário nega é, portanto, preciso — nega que um direito tenha sido violado. E a negativa é verdadeira: nada foi tirado daquele homem, nada lhe foi devido e não pago, nenhuma cláusula foi descumprida. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) resume sem enfeite: o dono cumpriu integralmente o contrato e pagou tudo o que prometeu.
Só que não é disso que o homem reclamou. A queixa do versículo 12 não foi "você me pagou menos", e sim "você os igualou a nós". O dono responde no registro do que se deve, e a acusação tinha sido feita no registro da posição.
O Pulpit Commentary tem, aqui, a frase mais honesta de todo o comentário clássico a esta parábola: o trabalhador "realmente não tinha do que se queixar em justiça estrita", mas "sentiu, muito naturalmente, que não havia sido tratado de modo justo". As duas metades da frase são verdadeiras ao mesmo tempo, e é essa simultaneidade que faz o texto difícil. Meyer (Heinrich August Wilhelm Meyer, exegeta alemão do século XIX) delimita a fala do mesmo modo: ela é dita "do ponto de vista da justiça" — e esse ponto de vista é um entre outros.
"Você não concordou comigo em um denário?"
A forma da pergunta importa. Em grego ela é construída com uma negativa que espera "sim" por resposta — é o nosso "você não combinou isso comigo?", dito por quem já sabe que combinou. Não é pedido de informação: é pergunta que obriga o outro a concordar em voz alta.
E o sujeito do verbo é o trabalhador. O dono não diz "eu lhe paguei um denário", nem "o combinado era um denário". Diz: você concordou. O termo de que o homem agora se queixa foi posto por ele também, de livre vontade, de manhã, quando ainda não havia comparação possível — os outros grupos nem existiam. A defesa não é "eu fui correto"; é "esse número é seu".
O verbo empregado é o mesmo que Mateus usa em Mateus 18:19 para dois que concordam em oração, e o campo de sentido dele está desenvolvido ali.
O que esta resposta resolve, e o que não resolve
Resolve a acusação de injustiça, e resolve por completo. Não resolve a queixa — e a prova disso é o próprio texto: se o apelo ao acordo encerrasse o assunto, a conversa terminaria neste versículo, e ela não termina. O proprietário ainda precisa mandá-lo embora com o que é seu e afirmar que dá a quem quiser o que é dele (Mateus 20:14), e depois perguntar sobre o próprio direito de fazer com o seu o que quer (Mateus 20:15). Três argumentos para uma queixa que, em estrita justiça, já estava respondida no primeiro.
Isso é observação sobre a estrutura da fala, e não sobre a intenção de Jesus, que o texto não declara. Mas sugere que o versículo 13 é o começo de uma resposta, e não a resposta — e que o argumento do contrato, sozinho, não convence quem esteja medindo outra coisa.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
"Um deles"
É o único indivíduo da parábola além do proprietário. Todos os outros personagens são grupos — os da primeira hora, os da terceira, os da última, os trabalhadores em geral — ou funções, como o administrador de Mateus 20:8.
Ele não tem nome, não tem idade e não tem história. Tem, porém, algo que nenhum outro trabalhador tem: um interlocutor. É a ele que a fala do dono se dirige até o fim do versículo 15, e é a ele que a ordem de sair é dada.
Os outros dois "amigos" de Mateus
O convidado sem veste nupcial, de Mateus 22:12, aparece na parábola do banquete de casamento. O rei o encontra na festa sem a roupa devida, chama-o de "amigo", pergunta como entrou — e o homem não responde nada. É levado para fora, atado.
Judas Iscariotes, em Mateus 26:50, recebe a palavra no jardim, no instante em que se aproxima para beijar Jesus e assim identificá-lo à escolta. É a última fala de Jesus dirigida a ele em todo o evangelho.
São três homens muito diferentes — um trabalhador honesto e cansado, um convidado desleixado ou atrevido, e um traidor —, e o vocativo é o mesmo. O que os três têm em comum não é a culpa: é a posição de quem vai ser confrontado.
O denário
A moeda de prata romana que valia o salário de um dia de trabalho comum. O que ela era, quanto comprava e por que serve de medida na parábola está no estudo de Mateus 20:2.
Neste versículo ela não funciona como valor: funciona como prova. É o número que existiu antes do trabalho e que, por isso, pode ser invocado depois dele.
5. Pontos de Ensino
Responda a uma pessoa, não ao grupo
Uma queixa dita por muitos não tem autor, e por isso não tem com quem discutir. O proprietário desfaz o coletivo escolhendo um homem e falando com ele no singular. É o primeiro movimento da resposta, e vem antes de qualquer argumento.
O tratamento pode reconhecer a pessoa e recusar o que ela alega
"Amigo" faz as duas coisas ao mesmo tempo. Não há insulto e não há capitulação. Quem discorda não precisa desumanizar o outro para discordar — e também não precisa fingir concordância para ser educado.
Não ter cometido injustiça não é o mesmo que ter respondido à queixa
Aqui está o ensino mais útil e o mais desconfortável. A negativa do proprietário é verdadeira: nenhum direito foi violado. E ela não encerra a conversa — o texto continua por dois versículos. Quem administra pessoas aprende isso do jeito difícil: "eu cumpri o combinado" é uma defesa completa e uma resposta incompleta.
Lembre a pessoa de que o número foi dela também
A pergunta não é "eu paguei o combinado?", e sim "você não concordou?". Chamar o outro de autor daquilo que ele aceitou é diferente de acusá-lo de má-fé, e é mais difícil de responder.
A pergunta que espera "sim" é um instrumento, e tem limite
Ela obriga o interlocutor a admitir em voz alta um fato que não pode negar. Funciona, e é bom saber que funciona: ganhar a admissão não é ganhar a adesão. O homem vai dizer sim e continuar se sentindo lesado — e a parábola não esconde isso.
6. Aspectos Filosóficos
Por que o dono da vinha argumenta, se ele não precisava argumentar?
A assimetria entre os dois homens é enorme. De um lado, o proprietário de uma vinha, com administrador, dinheiro em moeda e o direito inteiro a seu favor. Do outro, um diarista sem contrato escrito, sem testemunhas e sem recurso. Ele podia mandar o homem embora sem dizer nada. Podia não ouvir. Podia responder com o silêncio de quem não deve explicação a quem depende dele.
Ele faz outra coisa: dá ao homem um nome, nega a acusação e apresenta uma razão que o próprio acusador pode conferir. Isso não é cortesia decorativa — é uma escolha, e ela tem nome na filosofia.
Eric Weil: discurso ou violência
Eric Weil (1904-1977), filósofo alemão radicado na França, construiu toda a sua obra em torno de uma alternativa única. Em Logique de la philosophie ("Lógica da filosofia", 1950) ele sustenta que a filosofia nasce de uma escolha: a do discurso coerente contra a violência. E define violência de modo mais amplo do que o uso corrente — violência, para ele, é a recusa do discurso, a posição de quem não aceita dar razão do que faz nem responder a quem o interpela.
Daí decorre uma consequência que ele desenvolveu na Philosophie politique ("Filosofia política", 1956): a diferença entre um mundo humano e um mundo de puro poder não está no conteúdo das decisões, e sim em haver ou não alguém obrigado a explicá-las. Quem manda sem explicar não está sendo apenas antipático: está fora do discurso.
Weil não é ingênuo, e é por isso que a tese aguenta peso. Ele reconhece que o discurso só funciona entre quem aceita as suas regras, e que contra quem as recusa a violência continua sendo, na prática, inevitável. A razão não vence a violência por ser razão: ela é uma escolha que tem de ser refeita.
Onde o discurso começa e onde ele termina, no texto
Lida assim, a cena fica legível em três tempos.
Em Mateus 20:11 os trabalhadores não falam com o dono: falam contra ele, entre si. Está fora do discurso, no sentido de Weil, porque uma queixa dita sem destinatário não pode ser respondida.
Neste versículo o proprietário abre o discurso. Escolhe um interlocutor, o trata por um nome e argumenta. É o único trecho da parábola em que duas pessoas estão, em princípio, num mesmo plano de fala — e, num mundo em que aquele homem não tinha a quem recorrer, isso é mais do que parece.
E em Mateus 20:14 o discurso termina. "Pegue o que é seu e vá embora" não é argumento: é ordem. O proprietário voltou à posição de onde nunca saiu. O versículo 13, então, marca com exatidão até onde aquele poder estava disposto a argumentar — e até onde argumentar lhe era conveniente.
O caso difícil: a pergunta que só admite uma resposta
Aqui a leitura precisa ser honesta consigo mesma, porque há um problema.
"Você não concordou comigo em um denário?" é construída, no grego, para obter um sim. Não abre possibilidade de discussão: obriga o outro a ratificar em voz alta um fato que não pode negar. É discurso na forma e é pressão no efeito — e a prova disso é que o trabalhador, a partir deste versículo, não diz mais uma palavra em toda a parábola.
Weil daria o nome disso sem hesitar. Um discurso que não admite resposta é a forma do discurso posta a serviço da posição de quem fala, e a fronteira entre argumentar e constranger é justamente onde essa forma deixa de aceitar contestação. O versículo fica dos dois lados dessa fronteira ao mesmo tempo, e não é possível decidir de que lado Mateus o quis.
O limite
Weil escreveu depois de 1945, sobre a violência do século XX, e nunca comentou esta passagem. A alternativa que ele formulou serve para descrever o que acontece na cena; não é o que o texto ensina, e a parábola não é um tratado sobre poder e palavra.
O que se pode afirmar, e é bastante, é isto: a resposta deste versículo é a única coisa que aquele proprietário não devia ao trabalhador. O denário ele devia, e pagou. A explicação não era devida, e ele deu.
7. Aplicações Práticas
Combine antes, e combine com número
É a aplicação mais direta do versículo: estipule antes que o trabalho comece — princípio que a tradição judaica já havia formulado, e que está tratado no estudo de Mateus 20:1. Vale para salário, para prazo, para escopo de serviço, para a ajuda que um parente vai dar na obra. Promessa aberta — "depois a gente vê", "eu reconheço quem trabalha" — parece generosidade e produz dois prejuízos: quem recebe fica sem medida para conferir, e quem paga fica sem limite para cumprir.
E há o custo oculto, que o versículo mostra melhor do que qualquer manual: o número combinado também é a régua que vai ser usada contra você. Ainda assim é melhor tê-lo.
Quando o grupo reclama, escolha uma pessoa
Não por tática de intimidação, e sim porque conversa com fila não é conversa. Uma queixa coletiva não tem autor que a possa esclarecer, corrigir ou aceitar resposta. Falar com um, no singular, devolve a frase a alguém que pode responder por ela.
Separe "eu não fiz nada de errado" de "eu respondi ao que você disse"
São coisas diferentes, e confundi-las é o erro mais comum de quem tem razão. O dono da vinha tinha razão e ainda teve de falar mais dois versículos. Se numa discussão a sua primeira frase é que você cumpriu o combinado, é provável que você esteja certo — e que o assunto não seja aquele.
Um limite honesto
Nada disto autoriza usar o versículo para encerrar reclamações. A cena tem um dado que raramente se repete: o reclamante recebeu integralmente o que lhe era devido. Onde isso não for verdade, a frase do proprietário não está disponível.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
"Amigo" é ironia?
Não há como decidir, e os comentaristas se dividem exatamente aí. A palavra, em si, é neutra: designa companheiro, camarada. O que a carrega é o que vem depois dela — nas três ocorrências de Mateus, uma repreensão. Ironia exigiria que o falante quisesse dizer o contrário do que diz, e isso o texto não informa. O mais que se pode afirmar é que a palavra é usada para confrontar sem romper.
Por que ele responde a um só, se todos reclamaram?
O texto não explica. Uma leitura plausível é que a resposta individual seja a única possível: a acusação era sobre a relação entre o dono e cada trabalhador, e essa relação é individual — cada homem tinha o seu acordo. Falar com a fila obrigaria a um argumento geral, e o argumento do dono é particular ("você não concordou comigo?").
Se o dono estava certo, por que a parábola não termina aqui?
Porque a razão dele responde à acusação e não à queixa. É a pergunta mais útil que se pode fazer ao versículo, e a resposta está no que vem depois: dois versículos, dois argumentos novos e uma ordem de sair. Uma discussão em que um lado está juridicamente certo pode prosseguir indefinidamente, e prossegue.
O trabalhador respondeu alguma coisa?
Não. Nem aqui, nem no versículo 14, nem no 15. Ele fala uma vez, em coro, no versículo 12, e depois disso nunca mais. A parábola termina sem que se saiba se ele aceitou, se foi embora calado ou se continuou murmurando pelo caminho. O silêncio é do texto, e é a mesma coisa que acontece com o convidado de Mateus 22:12 — que "emudeceu".
O dono podia ter pagado mais aos primeiros?
Podia, evidentemente, e o argumento dele em Mateus 20:15 é justamente esse — o dinheiro é dele, e ele faz o que quer. A parábola não diz por que ele não o fez, e essa é a lacuna que a maior parte dos leitores tenta fechar por conta própria. Não é possível fechá-la com o texto.
Um contrato pode ser injusto mesmo quando cumprido?
A pergunta é legítima e não é a do versículo: aqui o valor combinado era o salário normal de um dia, e ninguém na parábola sugere que fosse baixo. Quem quiser discutir contratos injustos precisa de outro texto — e a Bíblia tem vários, começando pelas leis que obrigam a pagar o diarista antes do anoitecer.
9. Conexão com Outros Textos
As outras duas vezes em que Jesus diz "amigo"
Mateus 22:12 — "e perguntou-lhe: Amigo, como entraste aqui sem veste nupcial? Ele, porém, emudeceu."
Mateus 26:50 — "Jesus perguntou-lhe: Amigo, a que vieste? Nisto se aproximou a escolta e, pondo as mãos em Jesus, prendeu-o."
São as duas outras ocorrências do vocativo em todo o Novo Testamento. Nas três, a palavra abre uma pergunta que o interlocutor não tem como responder bem.
O acordo que o dono invoca
Mateus 20:2 — "Ele fez um acordo com os trabalhadores de um denário pelo dia e os enviou para a sua vinha."
É o versículo que a pergunta deste cobra, e é o único lugar da parábola em que um valor é combinado com alguém.
O mesmo verbo grego de "concordar"
Mateus 18:19 — "E também digo a vocês: se dois de vocês concordarem na terra sobre qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito pelo meu Pai, que está nos céus."
Atos 5:9 — "Mas Pedro disse-lhe: Por que é que vós combinastes provar o Espírito do Senhor? Eis à porta os pés dos que sepultaram teu marido, e eles te levarão a ti para fora."
O verbo serve para o acordo em oração, para o acordo salarial e para o acordo de Ananias e Safira em mentir. Ele descreve a forma do ato, não o seu valor moral.
A mesma negativa, aplicada a Deus
Romanos 9:14 — "Que diremos, pois? Há, porventura, em Deus injustiça? De modo nenhum!"
Paulo faz a mesma negativa que o proprietário faz aqui, e a faz num contexto parecido: a discussão sobre por que Deus dá a alguns o que não deve a ninguém. A palavra grega da injustiça é da mesma família.
Jó 40:8 — "Porventura, farás tu vão o meu juízo? Condenar-me-ás para te justificares a ti?"
A pergunta que Deus faz a Jó tem a mesma estrutura retórica da pergunta do dono: uma interrogação que não pede informação e que põe o outro na posição de quem acusou sem base.
O outro lado: quando a injustiça é real
Levítico 19:13 — "Não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás; a paga de um jornaleiro não ficará contigo até pela manhã."
1 Coríntios 6:8 — "Pelo contrário, vós mesmos sois os que fazeis injustiça e defraudais, e isso a irmãos."
Aqui está o mesmo verbo de "fazer injustiça", agora afirmado e não negado. A Bíblia conhece muito bem o caso do trabalhador lesado, e o legisla em favor dele. Este versículo não é esse caso, e é a diferença entre os dois que dá sentido à negativa do proprietário.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Mas ele respondeu a um deles: “Amigo, não estou lhe fazendo injustiça. Você não concordou comigo em um denário?
Texto grego (Textus Receptus)
ὁ δὲ ἀποκριθεὶς εἶπεν ἑνὶ αὐτῶν, Ἑταῖρε, οὐκ ἀδικῶ σε· οὐχὶ δηναρίου συνεφώνησάς μοι;
Transliteração
ho de apokritheis eipen heni autōn, Hetaire, ouk adikō se; ouchi dēnariou synephōnēsas moi?
Uma nota textual
Não há variante de conteúdo neste versículo: o Textus Receptus (o texto grego impresso a partir do século XVI, que a ABC segue no Novo Testamento) e as edições críticas modernas coincidem palavra por palavra. Os manuscritos divergem apenas na pontuação, que é acrescentada pelos editores e não vem dos originais.
Análise palavra por palavra
ὁ δὲ ἀποκριθεὶς εἶπεν — ho de apokritheis eipen, "mas ele respondeu", literalmente "ele, tendo respondido, disse".
A construção com dois verbos — o particípio de "responder" seguido do verbo "dizer" — é um hebraísmo (modo de falar hebraico transposto para o grego) e reproduz a fórmula das narrativas do Antigo Testamento, "e respondeu e disse". Não acrescenta nada ao sentido: em português se traduz por um verbo só.ἑνὶ αὐτῶν — heni autōn, "a um deles".
Dativo de heis, "um", com o genitivo partitivo "deles": um extraído do conjunto. A escolha é do texto, e é ela que individualiza a conversa — tudo o que o proprietário diz daqui até o versículo 15 está no singular.
Ἑταῖρε — Hetaire, "Amigo".
Vocativo singular de hetairos. A palavra deriva de etēs, termo antigo para o membro do mesmo clã ou da mesma gente, e o seu sentido corrente no grego da época é companheiro, camarada, parceiro — quem compartilha uma situação, uma mesa, uma tarefa ou um negócio.
Não é a palavra da amizade afetuosa — essa é philos, do campo de phileō, "amar, ter afeição", a de João 15:14-15 (ver o item 2).
No Novo Testamento hetairos tem três ocorrências, todas em Mateus e todas no vocativo: Mateus 20:13, Mateus 22:12 e Mateus 26:50. Não aparece em nenhum outro livro, em nenhum outro caso gramatical e em nenhuma outra boca que não a de Jesus. Nas três, é a palavra de abertura de uma repreensão — o padrão está exposto no item 3.
A ressalva de crítica textual: em Mateus 11:16 parte dos manuscritos traz hetairois ("aos companheiros") e parte traz heterois ("aos outros"). As duas formas diferem por uma letra e se confundem facilmente na cópia. As edições críticas preferem heterois, com o argumento de que a outra leitura era a mais tentadora para um copista, e a tradução da ABC de Mateus 11:16 acompanha essa escolha ("que gritam às outras"). Se hetairois fosse original, haveria uma quarta ocorrência da palavra em Mateus, no dativo plural e sem repreensão nenhuma.
οὐκ ἀδικῶ σε — ouk adikō se, "não estou lhe fazendo injustiça".
Presente do indicativo ativo de adikeō, formado do prefixo negativo a- mais dikē, "direito, justiça" — literalmente "agir fora do direito". O campo de sentido é jurídico: lesar, prejudicar, violar o direito de alguém, cometer dano. É o verbo de 1 Coríntios 6:8, sobre irmãos que se lesam entre si.
O presente grego, aqui, descreve o que está em curso: não "eu não lhe fiz", mas "eu não estou lhe fazendo", com o pagamento acontecendo naquele momento. A tradução da ABC conserva essa nuance.
O objeto é o pronome se, "a você", no singular. O dono não diz "não faço injustiça a ninguém" nem "não cometi injustiça"; diz que àquele homem nada foi feito de errado. A negativa é individual, como a conversa inteira.
οὐχὶ — ouchi, "não".
Forma reforçada da negação ou. Usada no início de pergunta, ela indica que a resposta esperada é sim — é a mesma construção do português "você não combinou isso comigo?". Não é pedido de informação: é pergunta feita para obter uma confirmação que o interlocutor não pode negar.
δηναρίου — dēnariou, "em um denário".
Genitivo de dēnarion, a moeda romana de prata. O caso genitivo aqui indica preço — é o genitivo com que o grego expressa "por quanto" se compra, se vende ou se contrata. O que a moeda era e quanto comprava está no estudo de Mateus 20:2.
συνεφώνησάς μοι — synephōnēsas moi, "você concordou comigo".
Aoristo do indicativo ativo, segunda pessoa do singular, de symphōneō — literalmente "soar junto", de onde vem a palavra "sinfonia". O verbo servia, no grego da época, tanto para instrumentos afinados entre si quanto para contratos, e o seu campo de sentido está desenvolvido no estudo de Mateus 18:19.
O que é próprio deste versículo é a forma. O sujeito do verbo é o trabalhador, não o dono: "você concordou", e não "nós acertamos" nem "eu lhe prometi". O aoristo situa o ato num ponto fechado do passado — aquela manhã, na praça. E o dativo moi, "comigo", põe o proprietário como a outra parte, e não como o autor da condição.
Das seis ocorrências do verbo no Novo Testamento, esta é a única em forma de pergunta.
11. Conclusão
Do que foi examinado seguem quatro conclusões.
Primeira: "amigo", em Mateus, é a palavra da confrontação. As três ocorrências do vocativo em todo o Novo Testamento estão neste evangelho, todas na boca de Jesus, e todas abrindo uma repreensão — ao trabalhador que acusa, ao convidado sem veste e a Judas. Nas três o homem chamado assim acaba fora. Três casos são pouco para fazer regra, e são suficientes para desautorizar a leitura sentimental do vocativo.
Segunda: a negativa do proprietário é verdadeira e é estreita. Ele nega ter violado um direito, e não violou. O que ele não nega é o que lhe foi dito — que igualou os últimos aos primeiros. Há, portanto, perdas que não são lesões, e a distinção protege quem tem direito ao mesmo tempo que deixa de fora o que as pessoas sentem.
Terceira: o argumento é o acordo, e o sujeito do acordo é o trabalhador. A pergunta não diz "eu paguei"; diz "você concordou". O termo de que ele agora se queixa foi aceito por ele naquela manhã, antes de existir qualquer comparação. Um termo fixado antes do começo é a única coisa que, depois, pode ser invocada.
Quarta: estar juridicamente certo não encerra a conversa. Se encerrasse, a parábola pararia aqui. Ela não para: o proprietário ainda precisa mandá-lo embora com o que é seu e afirmar o direito de fazer com o seu o que quiser. Nada no versículo promete que o argumento do contrato convença quem está medindo outra coisa — e o silêncio do trabalhador, do versículo 13 ao 15, sugere que não convenceu.













