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Mateus 20:15

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✍️ Por Alberto Adriano·29 de setembro de 2026·⏱️ 27 min de leitura·👁 61 acessos
Não tenho o direito de fazer o que quero com o que é meu? Ou o seu olho é mau porque eu sou bom?”
Closeup do rosto de um trabalhador ao fim do dia, os olhos fixos em algo fora do quadro, com uma moeda fechada na mão.

Estudo


Não tenho o direito de fazer o que quero com o que é meu? Ou o seu olho é mau porque eu sou bom?”

1. Introdução

O proprietário faz duas perguntas e vai embora da discussão sem responder a nenhuma delas. A primeira invoca a legalidade: ele não está fora de nenhuma regra ao dispor do que lhe pertence. A segunda muda de assunto e vira o olhar para o reclamante, usando uma expressão que naquele mundo tinha sentido fixo — o "olho mau" era o nome da avareza e da inveja, não de feitiço. A frase que resulta é a mais dura da parábola, porque nela o incômodo não é atribuído a uma injustiça, e sim à bondade de quem pagou. E a parábola termina sem que o trabalhador diga uma palavra.

2. Contexto Histórico e Cultural

Por que se falava do olho como se ele fizesse algo

No mundo antigo a explicação corrente da visão era a inversa da nossa: não se pensava que a luz entrasse no olho, mas que algo saísse dele. Ver era emitir. O olho lançava para fora um fluxo que alcançava o objeto, e era por isso que enxergávamos.

Dessa física decorria uma consequência moral direta: se o olho emite, o que vai dentro de uma pessoa pode sair pelos olhos e atingir quem está do outro lado. O texto antigo que expõe isso com mais detalhe é de Plutarco, nas Questões convivais ("Conversas de mesa", coleção de discussões travadas em jantares, do fim do primeiro século), livro V, capítulo 7. Ali ele descreve a crença no olhar que faz mal: a emoção ruim enche o corpo e sai pelos olhos em forma de emanação que fere. E liga isso explicitamente à inveja — pela proximidade entre a mente e os olhos, diz ele, o dano se lança num relance, e o invejoso chega a atingir os próprios parentes e amigos.

A crença tinha nome: em grego baskania, em latim fascinatio (de onde vem o nosso "fascinar", que originalmente significava enfeitiçar com o olhar). Amuletos contra esse mal eram objeto comum em todo o Mediterrâneo.

O "olho mau" da lei de Israel é outra coisa

Na Bíblia hebraica a expressão existe, é frequente, e em nenhum desses lugares significa feitiço. Significa mesquinhez.

O exemplo mais claro está numa lei. Deuteronômio 15 manda perdoar as dívidas no sétimo ano, e prevê a tentação de quem, vendo o ano chegar, se nega a emprestar porque não vai receber de volta. O aviso de Deuteronômio 15:9 chama isso de "o teu olho ser maligno contra teu irmão pobre, e não lhe dares nada". O olho mau, ali, é exatamente a recusa de dar — nada de mágico, nada de olhar que fere: um homem calculando e fechando a mão.

Provérbios 23:6 usa a expressão para descrever o anfitrião avarento, de quem não se deve comer o pão. E o Eclesiástico, livro de sabedoria judaica escrito por Jesus Ben Sira por volta de 180 antes de Cristo, dedica ao tipo um retrato de três versículos: em Eclesiástico 14:8-10, o homem de olho mau vira o rosto para o lado, despreza as pessoas, nunca se satisfaz com a sua parte, e é mesquinho até com o próprio pão, à própria mesa.

Um nome de caráter, já no vocabulário dos mestres

O tratado Pirkei Avot ("Capítulos dos Pais", a coleção de ditos dos mestres judeus que integra a Mishná) registra, em 2:9, uma cena de escola: Rabban Yohanan ben Zakai manda os discípulos saírem e voltarem com a resposta à pergunta de qual é o bom caminho a que o homem deve se apegar. Rabi Eliezer responde: um olho bom. Invertida a pergunta — qual é o mau caminho de que se deve fugir —, o mesmo Rabi Eliezer responde: um olho mau. A expressão não precisa de explicação nenhuma para os alunos, e é dada em série com "um bom companheiro", "um bom vizinho" e "um bom coração".

Como saber qual dos dois sentidos está em jogo aqui

Pelo antônimo. O proprietário não opõe o olho mau a um olho protegido, nem a um amuleto, nem a uma bênção: opõe-o a ele mesmo ser bom — e a bondade em questão é a que ele acaba de exercer, dando mais do que devia. Um par em que o oposto de "olho mau" é "eu sou generoso" só pode estar falando de mesquinhez.

A ressalva honesta é que os dois sentidos circulavam ao mesmo tempo, e no mesmo vocabulário. O Novo Testamento chega a usar o verbo do enfeitiçamento pelo olhar em Gálatas 3:1, onde Paulo pergunta quem "fascinou" os gálatas. Não é o vocabulário que decide, portanto, e sim o contraste que a frase monta. O sentido corrente da expressão no evangelho de Mateus está tratado no estudo de Mateus 6:22.

3. Análise Teológica do Versículo

"Não tenho o direito de fazer o que quero com o que é meu?"

O dono não responde com força, responde com legalidade.

A palavra que ele usa é a do que é permitido, a mesma que se emprega para discutir se algo é lícito segundo a lei. Isso importa porque muda a natureza da réplica: ele não diz "sou o patrão e acabou", nem "quem manda aqui sou eu". Diz que o que fez está dentro das regras — e portanto se coloca debaixo delas, não acima. É argumento, não demonstração de poder.

Duas leituras disputam o alcance da pergunta.

Primeira leitura: é o direito comum de propriedade. Quem é dono dispõe do que é seu, e ninguém de fora tem título para opinar sobre bens alheios. Ellicott formula assim: o proprietário tinha o direito de dar livremente o que era seu, respondendo apenas a Deus. Meyer fala do direito de agir dentro do próprio arbítrio sobre o que se possui. O custo é que essa leitura mantém a parábola inteira no plano econômico.

Segunda leitura: é a liberdade soberana de Deus ao distribuir. Gill lê os bens do proprietário como o que Deus tem para dar — dons externos, graça, o céu — e conclui que ele reparte segundo a sua vontade sem cometer injustiça. O custo é alto e precisa ser dito: a parábola nunca chama o proprietário de Deus. A leitura é antiga e possível dentro do gênero, mas o vínculo é trazido de fora.

Um detalhe de formulação amplia a pergunta: o grego não diz "com esta moeda", e sim, no plural, "nas minhas coisas". O proprietário não está defendendo uma decisão avulsa; está defendendo uma esfera inteira, dentro da qual o denário do último trabalhador se encontra.

E há um limite que o próprio dono reconhece. Se a primeira pergunta resolvesse a discussão, a segunda seria desnecessária. Ele a faz, e isso significa que ele sabe que legalidade não é a mesma coisa que bondade, e que provar que estava no seu direito não explica o desconforto do outro. O versículo não para na lei.

"Ou o seu olho é mau porque eu sou bom?"

Aqui o assunto muda de lugar. Até agora se discutiam moedas e horas; agora se discute o modo de olhar de uma pessoa.

A queixa do trabalhador havia sido sobre a conta — "você os igualou a nós", em Mateus 20:12. A segunda pergunta não contesta um número: desloca o problema dos números para o olho de quem os examinou. Nada no cálculo é negado; o que é posto em questão é quem está fazendo o cálculo, e com que disposição.

A frase acusa um órgão, e não um sentimento — e é essa peculiaridade que a maioria das traduções desfaz (item 10). Assim empregada, a expressão transforma o murmúrio de reclamação em sintoma, e é nisso que os comentaristas se detêm. Barnes observa que a inveja e a malícia se mostram no olhar mais diretamente do que qualquer outra paixão. Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) fala de um olho descontente com o bem dos outros, e chama a inveja de pecado que não tem prazer, nem proveito, nem honra. Bengel resume: a mente brilha através dos olhos. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) registra a crença oriental no olhar daninho e conclui que a frase, aqui, quer dizer simplesmente "você está invejoso?".

"porque eu sou bom"

Esta é a frase mais difícil da parábola, e a dureza dela não está no tom: está na lógica.

O dono não diz que o homem entendeu mal, nem que exagerou, nem que foi injusto com ele. Diz que o olho do homem está mau porque ele, o dono, é bom. O incômodo é apresentado como efeito da bondade. Não há injustiça no meio da cadeia para explicar a irritação — só generosidade de um lado e desconforto do outro.

A palavra traduzida por "bom" admite três leituras, e as duas primeiras têm apoio no contexto. Bom no sentido moral, isto é, íntegro. Bom no sentido de generoso, que dá mais do que a justiça exige — é como lê o Expositor's Greek Testament, e Gill diz o mesmo ao contrapor bondade e justiça. Bom como epíteto de Deus, terceira leitura, que só entra se já se decidiu que o proprietário representa Deus. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) reformula a pergunta na chave da segunda leitura: por que você olha com desagrado a minha liberalidade?

O que a pergunta pressupõe, e o que ela não faz

Ela pressupõe que um modo de olhar pode ser julgado. O proprietário trata o olhar como conduta, não como reação involuntária — do contrário a pergunta não faria sentido, porque não se cobra de alguém uma coisa que lhe acontece.

E há três coisas que a frase não faz, e que as leituras correntes costumam acrescentar. Ela não declara o trabalhador condenado. Não diz que ele estava errado nos fatos. E não afirma que ele errou ao sentir o que sentiu: o que a pergunta nega é que o sentimento constitua um direito. A forma interrogativa também não é detalhe — uma pergunta deixa a resposta com quem foi perguntado, e a parábola se encerra sem que ele responda.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

O proprietário — encerra a parábola falando, e as suas últimas palavras são duas perguntas. Ele se descreve com um adjetivo: bom. É a única autoavaliação de um personagem em toda a história, e ela vem no meio de uma discussão sobre dinheiro.

O trabalhador interpelado — recebe, aqui, o único juízo que a parábola pronuncia sobre alguém: o seu olho está mau. Não responde. Mateus fecha o episódio sem informar se ele aceitou, se retrucou ou se foi embora calado.

Os invisíveis da cena — os trabalhadores das horas intermediárias e o da última hora continuam no pátio, e nenhum deles é interpelado. A pergunta sobre o olho é feita no singular, a um homem só, na frente de todos.

Lugares

A vinha, depois do pagamento — o lugar já não é um canteiro de trabalho: virou o cenário de uma discussão. Todo o versículo se passa depois de o serviço ter terminado e de as contas estarem pagas.

"O que é meu" — o proprietário nomeia, no plural, o conjunto dos seus bens. A vinha deixa de ser o palco e passa a ser um item de um patrimônio maior, que a parábola não descreve.

Eventos

A invocação da legalidade — o dono não apela à autoridade, apela ao que é permitido. É a segunda vez que ele argumenta assim: em Mateus 20:13 tinha invocado o acordo, e aqui invoca o direito sobre o próprio bem.

A inversão da acusação — quem estava sendo acusado de injustiça devolve a pergunta ao acusador, e a devolve num terreno diferente: não sobre o que ele fez, mas sobre como o outro olhou.

O fim da parábola sem resposta — a história termina no meio de um diálogo. As duas perguntas ficam no ar, e a única pessoa que poderia respondê-las desaparece do texto.

5. Pontos de Ensino

Estar no direito não encerra a questão

O dono prova que não infringiu regra nenhuma e, ainda assim, faz uma segunda pergunta. Se a legalidade bastasse, ele teria parado na primeira. A parábola separa duas coisas que o debate costuma misturar: se um ato é permitido, e o que ele provoca em quem olha.

O "olho mau" é avareza, não feitiço

A expressão que o dono usa era, no vocabulário da Bíblia hebraica e dos mestres judeus, o nome de uma disposição: a mão fechada, o desprezo pelo outro, a insatisfação com a própria parte. Ler a frase como se ali houvesse magia é trocar um diagnóstico moral por uma superstição — e é mudar o assunto do versículo.

A bondade pode ofender, e o texto não ameniza isso

A frase diz que o olho está mau porque o dono é bom. Não há injustiça no caminho: há generosidade de um lado e desconforto do outro. É um dos poucos lugares em que um texto bíblico afirma que o bem feito a alguém é, por si, capaz de irritar um terceiro.

O problema é deslocado para quem olha

A queixa era sobre a conta; a resposta é sobre o olho. O dono não corrige um número, porque não há número errado. Ele muda o objeto de exame, e essa mudança é o argumento.

O olhar é tratado como conduta

Só se cobra de alguém aquilo que está no alcance dele. Ao perguntar pelo olho, o proprietário supõe que o modo de olhar não é algo que simplesmente acontece a uma pessoa — é algo que ela faz, e de que pode ser interpelada.

A parábola termina em pergunta, e isso é deliberado

Nenhuma das duas perguntas recebe resposta. Quem lê fica na posição do trabalhador interpelado, e não na do dono que interpela.

6. Aspectos Filosóficos

A pergunta do proprietário só faz sentido se for possível censurar alguém pelo modo como ele olha. E isso não é obviedade nenhuma: é uma posição filosófica, com adversários antigos.

A resposta depende de como se entende a visão. Se ver é receber — a luz entra, o olho registra o que está lá —, então o olhar é um acontecimento passivo, e cobrar de uma pessoa o que ela viu faz tão pouco sentido quanto cobrá-la por ter ouvido um ruído. Se ver é fazer algo, então o olhar entra no campo do que se julga. O versículo está inteiro do segundo lado. A física antiga da visão facilitava essa posição, porque supunha que o olho emitia (item 2); nós perdemos a física e conservamos a intuição moral, e é por isso que a frase ainda soa compreensível.

Quem levou essa intuição a sério como objeto de estudo foi Jean Starobinski, historiador das ideias e crítico literário suíço, em O olho vivo (1961). A tese do livro é que o olhar nunca é simples registro do que está diante de nós. Olhar é movimento: há desejo nele, há distância, há busca. Quem olha está fazendo algo, e o que ele vê depende do que procura — de modo que todo olhar diz alguma coisa sobre quem olha, e não apenas sobre o que é olhado.

É exatamente essa assimetria que o versículo explora. Dois homens observaram o mesmo acontecimento: uma moeda entregue a alguém que trabalhou uma hora. O acontecimento é idêntico para os dois, inclusive nos números, que ninguém contesta. Um viu generosidade; o outro viu prejuízo. Como o fato era o mesmo, a diferença não está nele. O dono aponta onde ela está: no olho.

Isso liga o versículo a uma corrente que atravessa a filosofia moral: a que trata as disposições, e não apenas os atos, como objeto de juízo. Nessa tradição, o que uma pessoa costuma notar — e o que ela sistematicamente deixa de notar — faz parte do caráter dela, e o caráter se forma ao longo do tempo, pelo que ela repetidamente faz. Um olhar pode então ser censurado, não como episódio isolado, mas como ponta visível de algo já formado. Era assim que os mestres judeus usavam "olho bom" e "olho mau": como nomes de caráter, e não de momentos.

A objeção precisa ser dita, porque é forte. Ninguém escolhe o que sente ao ver o vizinho receber o que não recebeu, e censurar o involuntário parece injusto. A frase do proprietário, no entanto, não afirma que o homem escolheu sentir aquilo: ela descreve um estado e nega a esse estado uma consequência — ele não constitui título para exigir nada. Sentir e ter direito são coisas diferentes, e é só a segunda que a pergunta recusa.

Dois limites. Starobinski escreve sobre literatura e sobre a história do olhar em autores modernos; a parábola não está no assunto dele, e o que se aproveita aqui é a tese sobre o olhar como ato, não as suas leituras. E a frase não autoriza transformar toda comparação em pecado: o que o proprietário interpela é um olhar que se converteu em cobrança, não a percepção de que dois trabalhadores receberam o mesmo por jornadas diferentes — essa percepção estava correta, e ele mesmo a confirmou.

7. Aplicações Práticas

Perguntar o que você viu, antes de perguntar o que aconteceu

Quando a notícia do ganho de outra pessoa incomoda, os fatos raramente estão em disputa. O proprietário não corrige nenhum número, porque não havia número errado. A pergunta útil não é "isso é justo?", e sim "o que eu vi quando soube disso?" — e as duas perguntas dão respostas diferentes.

Reconhecer o incômodo sem convertê-lo em direito

A frase não manda ninguém não sentir. O que ela recusa é a passagem do sentimento para a cobrança: eu me incomodei, logo alguém me deve algo. Separar as duas coisas é possível e é trabalhoso, e é praticamente a única aplicação que o versículo sustenta com firmeza.

Não usar a legalidade como resposta final

O dono estava no seu direito e mesmo assim não parou ali. Quem administra, contrata, herda ou reparte pode ter razão inteira na regra e ainda assim ter deixado alguém olhando de fora. Ter razão não dispensa de perceber isso.

Cuidar do que se olha com frequência

Se o modo de olhar se forma com o tempo, ele se muda também com o tempo, e não por decisão súbita. O caminho é o inverso da mesquinhez descrita nos livros de sabedoria: mão aberta em coisas pequenas, repetidamente, até que olhar o ganho alheio deixe de doer.

Fazer perguntas em vez de sentenças

O proprietário poderia ter dito "você é invejoso". Ele pergunta. A diferença prática é grande: a sentença encerra a conversa e a pergunta devolve a decisão a quem foi interpelado. Em qualquer correção entre pessoas, esse é o formato que deixa saída.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. O "olho mau" da frase é feitiço ou defeito de caráter?

É defeito de caráter, e o que decide não é o vocabulário — os dois sentidos circulavam juntos naquele mundo, e o Novo Testamento chega a usar o verbo do enfeitiçamento pelo olhar em Gálatas 3:1. O que decide é o antônimo: o proprietário opõe o olho mau a ele mesmo ser bom, isto é, generoso. O par avareza × generosidade não admite leitura mágica.

2. Se o dono estava no seu direito, por que faz a segunda pergunta?

Porque a primeira, sozinha, não responde ao incômodo. Legalidade e bondade são coisas diferentes, e o dono reconhece isso ao continuar falando. Se a prova de que estava no direito bastasse, a parábola terminaria uma frase antes.

3. O proprietário está chamando o trabalhador de mau?

Diz que o olho dele está mau, o que não é a mesma coisa. Nenhum dos dois versículos anteriores nem este contêm veredicto sobre a pessoa: ele foi chamado de "amigo" em Mateus 20:13, pago integralmente e interpelado em forma de pergunta. O texto não informa o que ele respondeu nem o que foi dele.

4. É lícito afirmar que o proprietário representa Deus?

É a leitura tradicional e ela é antiga — Gill lê os bens do dono como os bens de Deus, e nessa chave a pergunta sobre o direito é uma afirmação sobre a soberania divina. Mas a identificação não está no texto: a parábola compara o Reino dos céus a um proprietário que contrata, e não diz em nenhum ponto quem é quem. É leitura plausível, não dado.

5. A frase condena qualquer comparação?

Não. A comparação que o trabalhador fez estava correta nos fatos, e o próprio dono a confirmou em Mateus 20:14. O que a pergunta interpela é o passo seguinte: transformar a comparação em título de cobrança. Perceber a desigualdade de jornada não é o que está sendo chamado de olho mau.

6. Por que a parábola termina sem resposta?

O texto não explica, e a forma tem efeito. Uma pergunta sem resposta registrada fica valendo para quem lê, e nesta parábola são duas. Mateus não diz se o homem se calou, se aceitou ou se saiu revoltado — e a história que começou com o dono saindo de madrugada termina com ele falando sozinho.

7. O que quer dizer "com o que é meu"?

O grego está no plural — "nas minhas coisas" —, e não se refere apenas ao denário em questão. O dono está falando do conjunto dos seus bens, de modo que a pergunta é sobre uma esfera inteira de decisão, e não sobre um pagamento avulso.

9. Conexão com Outros Textos

A expressão na lei e na sabedoria de Israel

Deuteronômio 15:9 — "Guarda-te, que não haja um pensamento vil no teu coração, dizendo: Vai-se aproximando o sétimo ano, o ano da remissão; e que o teu olho seja maligno para com teu irmão pobre, e não lhe dês nada."

A ocorrência decisiva, porque vem dentro de uma lei e define a expressão pelo comportamento: o olho mau é a mão que se fecha. Não há magia nenhuma no contexto — há um cálculo de quem não quer emprestar porque a dívida será perdoada.

Provérbios 23:6 — "Não comas o pão de quem tem o olho maligno, nem cobices as suas comidas gostosas."

O mesmo par: olho mau equivale a anfitrião avarento, cuja comida é oferecida a contragosto.

A mesma expressão em Marcos, e o que Mateus fez com ela

Marcos 7:22 — "os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura."

A palavra traduzida por "inveja" nessa lista é, no grego, "olho mau" — a expressão figura entre os vícios que saem do coração. Mateus reduziu essa lista ao reescrevê-la, e deixou o olho mau de fora dela; o detalhe está tratado no estudo de Mateus 15:19. O evangelho de Mateus, que cortou a expressão do catálogo, a conserva aqui, na boca de um personagem.

O olho bom e o olho mau em Mateus

Mateus 6:22 — A lâmpada do corpo é o olho. Portanto, se o seu olho for bom, todo o seu corpo será cheio de luz;

Mateus 6:23 — mas, se o seu olho for mau, todo o seu corpo estará em trevas. Se, portanto, a luz que há em você é treva, quão grandes são essas trevas!

O par completo, no Sermão do Monte, cercado dos dois lados por ensinos sobre dinheiro. A diferença em relação a este versículo é de posição: lá a expressão está numa sentença de ensino, e aqui ela é pergunta dentro de uma discussão concreta sobre um pagamento.

Mateus 18:9 — E se o seu olho leva você a pecar, arranque-o e jogue-o longe. É melhor entrar na vida com um só olho do que, com os dois olhos, ser lançado no fogo do inferno.

Ali o olho é o que faz cair, e uma das leituras propostas é a do olho da inveja, num capítulo que começa com a disputa sobre quem é o maior.

O verbo do olhar que enfeitiça

Gálatas 3:1 — "Ó insensatos gálatas! quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade…"

O verbo é o do olhar daninho, o mesmo campo de palavras que os textos gregos usam para a crença no olho que fere. Paulo o emprega em sentido figurado, para uma persuasão enganosa, e a passagem mostra que o vocabulário mágico estava disponível aos escritores do Novo Testamento — o que torna significativo que o sentido moral seja o que se impõe em Mateus 20:15.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Não tenho o direito de fazer o que quero com o que é meu? Ou o seu olho é mau porque eu sou bom?”

Texto grego (Textus Receptus, Scrivener 1894)

ἢ οὐκ ἔξεστί μοι ποιῆσαι ὃ θέλω ἐν τοῖς ἐμοῖς; εἰ ὁ ὀφθαλμός σου πονηρός ἐστιν, ὅτι ἐγὼ ἀγαθός εἰμι;

Transliteração

e ouk exesti moi poiesai ho thelo en tois emois? ei ho ophthalmos sou poneros estin, hoti ego agathos eimi?

Análise palavra por palavra

ἢ — e, partícula disjuntiva: "ou". No Textus Receptus e no texto bizantino ela abre o versículo, ligando esta pergunta à frase anterior. O texto crítico não a traz aqui.

οὐκ — ouk, advérbio de negação. Numa pergunta, a negação em grego funciona como em português: "não me é permitido?" espera a resposta "sim, é". A pergunta é retórica e o proprietário já sabe a resposta.

ἔξεστι — exesti, verbo impessoal no presente do indicativo: "é permitido", "é lícito".

Esta é a palavra mais reveladora do versículo, e o motivo está nas outras vezes em que Mateus a usa. Ela é o verbo da pergunta de lei: aparece nas discussões sobre o sábado (Mateus 12:2, 12:10 e 12:12), na pergunta sobre o divórcio em Mateus 19:3 e na do tributo a César em Mateus 22:17. É a palavra com que se pergunta a um mestre se um ato está autorizado. O dono da vinha responde, portanto, na linguagem em que os fariseus fazem perguntas, e não na linguagem do poder: não diz "posso", no sentido de ter força; diz "é permitido".

μοι — moi, pronome pessoal no dativo: "a mim".

ποιῆσαι — poiesai, infinitivo aoristo ativo do verbo poieo, "fazer".

ὃ θέλω — ho thelo, pronome relativo no acusativo neutro mais o verbo da vontade: "o que eu quero". É o mesmo verbo do versículo anterior, e a repetição amarra as duas frases do proprietário: ali ele declarou o que quer fazer, aqui pergunta se pode querer.

ἐν τοῖς ἐμοῖς — en tois emois, preposição, artigo e adjetivo possessivo de primeira pessoa, no dativo neutro plural: "nas minhas coisas". O plural muda o alcance: não se trata de "com esta moeda", e sim do conjunto dos bens. A construção é a mesma que Mateus 20:14 usa do outro lado da mesa — lá "o teu", no singular, para o denário de um homem; aqui "as minhas", no plural, para um patrimônio.

εἰ — ei, conjunção: "se".

No Textus Receptus e no texto bizantino a segunda pergunta começa com esta palavra, e ela tem um uso que o português não tem: em grego, ei pode introduzir uma pergunta direta. Mateus faz isso duas vezes com o mesmo verbo deste versículo — em Mateus 12:10 ("é lícito curar nos sábados?") e em Mateus 19:3 ("é lícito ao homem repudiar a sua mulher?"), as duas perguntas começam com ei. É por isso que as traduções feitas a partir do Textus Receptus vertem a frase como interrogação, e não como condição pendurada.

ὁ ὀφθαλμός σου — ho ophthalmos sou, artigo, substantivo no nominativo e pronome no genitivo: "o teu olho". Dela vem a palavra portuguesa "oftalmologia".

πονηρός — poneros, adjetivo no nominativo masculino: "mau", "maligno". É um adjetivo forte, o mesmo de "livra-nos do mal" (Mateus 6:13) e de "geração má" (Mateus 12:39). Na expressão "olho mau" ele não descreve defeito de visão: descreve o caráter da pessoa por meio do órgão.

ἐστιν — estin, verbo ser, terceira pessoa do singular: "é".

ὅτι — hoti, conjunção causal: "porque". É a dobradiça da frase e a origem da dificuldade da parábola: a bondade de um é apresentada como a razão do estado do olho do outro. Não é comparação nem coincidência — é um porquê.

ἐγὼ — ego, pronome pessoal no nominativo: "eu". O grego não precisa do pronome, porque a forma do verbo já diz a pessoa; quando ele aparece, é ênfase. O proprietário diz "eu", e o diz na frase em que se qualifica de bom.

ἀγαθός — agathos, adjetivo no nominativo masculino: "bom".

O grego tinha dois adjetivos principais para "bom". Kalos tende ao belo, ao bem-feito; agathos tende ao bom em si, ao virtuoso, ao benéfico. Aplicado a uma pessoa em assunto de dinheiro, agathos ganha o sentido de generoso, liberal — e é por isso que a expressão do olho mau, do outro lado do par, tem de ser lida como mesquinhez.

εἰμι — eimi, verbo ser, primeira pessoa do singular: "sou".

Variantes

O versículo tem três diferenças entre o Textus Receptus e o texto crítico, e nenhuma altera o sentido.

A primeira é o "ou" inicial: o Textus Receptus e o texto bizantino de Robinson e Pierpont abrem o versículo com e ("ou"), ligando-o à frase anterior, e Nestle e Westcott e Hort começam direto pela negação. A segunda é a ordem das palavras — "fazer o que quero" no Textus Receptus, "o que quero fazer" no texto crítico —, e em português ela desaparece.

A terceira está na abertura da segunda pergunta: o Textus Receptus e o texto bizantino trazem ei ("se"), e o texto crítico traz e ("ou"). Nos dois casos a frase é uma pergunta, porque o ei grego introduz interrogação direta — é o que ele faz em Mateus 12:10 e em Mateus 19:3, com este mesmo verbo do "é permitido". Foi assim que a tradução inglesa clássica de 1611 verteu o trecho, e é por isso que "Ou" e "Se" chegam ao mesmo lugar em português.

Há uma quarta diferença que não está nos manuscritos, e sim nas traduções, e ela pesa mais para o leitor do que as três anteriores. A maioria das versões modernas não traduz a segunda pergunta: parafraseia. Onde o grego diz "é o teu olho mau", elas põem "você está com inveja", "você tem inveja" ou "você fica com má vontade" — isto é, entregam ao leitor a interpretação do idioma em lugar do idioma. A leitura resultante não é errada (é o que a expressão significa, e o item 2 mostra por quê), mas ela apaga o que há de peculiar na frase: que o dono acusa um órgão, e que a acusação só funciona porque naquele mundo o olho era tratado como algo que age. A ABC conserva a letra — "Ou o seu olho é mau porque eu sou bom?" — e deixa a explicação para o estudo, que é o lugar dela.

11. Conclusão

Quatro conclusões saem do versículo.

A primeira: o proprietário se defende pela regra, não pela força. A palavra que ele escolhe é a das perguntas de lei, a mesma com que Mateus registra as discussões sobre o sábado, o divórcio e o tributo. Um homem que diz "é permitido" se coloca debaixo de um critério, e não acima dele. Isso desautoriza ler a parábola como afirmação de que o dono manda porque manda.

A segunda: o "olho mau" é um diagnóstico moral, e traduzi-lo por superstição troca o assunto do versículo. A expressão tem história na lei, nos provérbios e na literatura de sabedoria de Israel, e em todos esses lugares nomeia a mão fechada. Aqui o antônimo fecha a questão: o oposto do olho mau, na própria frase, é o dono ser generoso.

A terceira: a frase afirma que a bondade pode ser a causa do incômodo, e não ameniza isso. A conjunção é causal, e não há injustiça no meio do percurso para explicar a irritação. Isso obriga a distinguir duas coisas que o senso comum funde: perder algo e ver alguém ganhar. O trabalhador não perdeu nada, e o texto não o acusa de ter percebido a diferença — acusa a conversão da percepção em cobrança.

A quarta: o julgamento recai sobre um modo de olhar, e a parábola se encerra devolvendo a pergunta. Tratar o olhar como algo de que se pode ser interpelado supõe que ele é conduta, e não acidente. Como a resposta não é registrada, a última palavra da história é uma pergunta dirigida a alguém que não fala — posição em que quem lê o versículo acaba, inevitavelmente, sendo colocado.

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