Pois do coração procedem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os furtos, os falsos testemunhos, as blasfêmias.
1. Introdução
O versículo anterior nomeou o lugar de onde a contaminação vem. Este diz o que sai de lá.
São sete itens. E a primeira coisa a notar é o que eles não são: não são defeitos de caráter, não são asperezas, não são pecados de pensamento no sentido leve da expressão. Cinco dos sete são crimes puníveis, e dois deles com a morte.
Três pontos merecem exame, e cada um é tratado adiante.
O primeiro é a ordem em que os itens aparecem. Ela não é aleatória: reproduz a sequência dos mandamentos da segunda metade do Decálogo, e a análise do original mostra isso pelas próprias palavras usadas.
O segundo é a comparação com Marcos. A lista dele é quase o dobro, está em outra ordem, tem itens que Mateus não tem — e não tem um que Mateus tem. A análise teológica examina o que essas escolhas revelam.
O terceiro é o peso da lista dentro do capítulo. Ela é o contrapeso obrigatório para quem lê o versículo 18 como régua de julgamento de tom e de palavra.
2. Contexto Histórico e Cultural
Um gênero conhecido
Listar vícios em sequência não era invenção de ninguém no primeiro século. Era formato reconhecido, com regras próprias, e quem ouvia uma lista dessas sabia que tipo de coisa estava ouvindo.
A filosofia grega o praticava com método. Os estoicos organizaram um mapa das paixões da alma dividido em quatro famílias — o desejo, o medo, o prazer e a aflição —, e sob cada uma penduraram dezenas de estados particulares. Não era catálogo de curiosidades: era instrumento de trabalho, feito para que a pessoa reconhecesse em si o que estava sentindo e soubesse a que família aquilo pertencia. A filosofia popular helenística difundiu o formato até as ruas, e ele aparece nos discursos morais de pregadores ambulantes que qualquer pessoa das cidades da região tinha ouvido.
A literatura judaica também o usava. Os livros de sabedoria escritos em grego, como o Eclesiástico e a Sabedoria de Salomão, trazem enumerações do mesmo tipo. E entre os manuscritos do mar Morto, o documento que organiza a vida da comunidade traz duas listas em espelho — as obras do espírito da verdade e as do espírito da perversidade —, com os vícios enfileirados um a um.
Quem ouvia esta lista, portanto, reconhecia o formato antes do conteúdo. E é por isso que a escolha dos itens carrega tanta informação: num gênero em que se esperava certa coisa, o que se põe e o que se tira dizem muito.
O texto que todos sabiam de cor
Há uma diferença entre esta lista e as dos filósofos, e ela depende de um dado cultural simples.
O Decálogo era decorado. Não era um texto que se consultava: era o texto que qualquer criança judia sabia de memória, recitado em casa, ensinado na sinagoga. Há indícios de que, no período do Segundo Templo, ele fosse recitado diariamente no Templo junto com a confissão de fé, e um dos papiros mais antigos que se conservaram do texto bíblico traz justamente os Dez Mandamentos ao lado dessa confissão.
A consequência é direta. Bastavam três ou quatro palavras na ordem certa para que o ouvinte reconhecesse a fonte. Não era preciso dizer "está escrito", não era preciso nomear Moisés — a sequência fazia o trabalho sozinha.
O que essas palavras significavam num tribunal
Vale, por fim, dimensionar a gravidade dos itens, porque a leitura devocional tende a nivelá-los como "coisas ruins".
No direito de Israel, homicídio e adultério eram crimes capitais — a morte está prevista em Números 35:16-21 e em Levítico 20:10. O furto era matéria de restituição multiplicada, conforme Êxodo 22:1-4. E o falso testemunho tinha tratamento particular: Deuteronômio 19:16-21 manda aplicar à testemunha mentirosa exatamente a pena que ela pretendia fazer cair sobre o inocente — quem mentiu para levar alguém à morte, morre.
Não são categorias morais difusas. São condutas com pena prevista, matéria de tribunal, coisas por que se podia perder a vida. Guardar isso é o que impede a leitura enfraquecida do versículo.
3. Análise Teológica do Versículo
"Pois do coração procedem"
A frase de abertura repete a do versículo anterior com uma diferença: agora o verbo está no plural, porque vem uma lista.
O "pois" amarra as duas frases: o versículo 18 afirmou que o que sai vem do coração, e este explica quais coisas são essas. E a construção traz uma afirmação embutida — os sete itens não são sete problemas diferentes que por acaso são todos ruins, e sim uma família definida pela origem comum. É a mesma nascente para o homicídio e para o falso testemunho.
"os maus pensamentos"
O primeiro item é o único que não é um ato, e ele está em primeiro lugar por isso.
A expressão traduzida assim não designa uma ideia passageira que atravessa a cabeça de alguém. Designa o processo de deliberação — a pessoa pesando alternativas consigo mesma e chegando a uma conclusão prática. É o momento anterior ao ato, aquele em que ele foi decidido.
Isso importa para a leitura da lista inteira. Se Jesus quisesse apenas enumerar más condutas, começaria por uma delas. Ao começar pela deliberação, ele indica a estrutura: primeiro o lugar em que a coisa se resolve, depois as coisas que de lá saem. A lista desce de dentro para fora.
E há uma consequência disso que as aplicações práticas desenvolvem: o que está descrito é o momento de decidir, e não tudo o que ocorre à cabeça de alguém.
"os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os furtos, os falsos testemunhos"
Os cinco itens do meio são atos, e a ordem em que aparecem é o achado do versículo. Homicídio, adultério, furto, falso testemunho: é exatamente a sequência dos mandamentos da segunda metade do Decálogo, na ordem em que Deuteronômio 5:17-20 os traz. A análise do original mostra que a correspondência não é apenas temática — as palavras usadas aqui são da mesma família das que a Bíblia grega emprega naqueles mandamentos.
Uma nota de cautela sobre a numeração: as tradições judaica, católica e protestante contam os Dez Mandamentos de modos ligeiramente diferentes, e por isso é mais seguro citá-los pelo versículo do que pelo número. A ordem, essa, é a mesma em todas.
Entre o adultério e o furto entra um item que não é do Decálogo: a imoralidade sexual, categoria mais larga. A distinção entre as duas palavras é real e o texto a preserva. O adultério pressupõe alguém casado e viola um vínculo específico; a imoralidade sexual cobre um campo maior — prostituição, relações fora do casamento, uniões proibidas por grau de parentesco, conforme a legislação de Levítico 18. Listar as duas não é redundância retórica: são categorias jurídicas diferentes.
"as blasfêmias"
O último item fecha a descida. Começou-se na deliberação interior; termina-se na fala.
A palavra tem dois alcances possíveis. Num sentido estreito, é falar contra Deus. Num sentido largo, é qualquer fala que causa dano — a injúria, a calúnia, o discurso que destrói alguém. O plural e a companhia dos outros itens da lista apontam para o sentido largo, sem excluir o estreito.
Reparar em onde este item foi posto ajuda a entender a arquitetura. A lista terminou na boca — que é justamente o órgão do versículo anterior. O percurso está completo: do lugar onde se decide até o lugar por onde a decisão sai.
O que Mateus fez com a lista de Marcos
A comparação é onde a composição se revela. Marcos, contando a mesma cena, traz treze termos; Mateus traz sete. E não se trata apenas de encurtar: a ordem foi refeita e o conteúdo foi mexido nos dois sentidos.
Mateus cortou a cobiça, as más ações, o dolo, a sensualidade, o olho mau, a soberba e a insensatez. Vale notar o perfil do que saiu: soberba e insensatez são categorias do vocabulário moral grego, mais próximas dos catálogos filosóficos do que da lei de Israel.
Mateus acrescentou o falso testemunho, que não está em Marcos. E acrescentou justamente o item que faltava para completar a sequência do Decálogo.
Mateus reordenou. A lista de Marcos abre pela imoralidade sexual, seguida de furtos, homicídios e adultérios. A de Mateus abre por homicídios e segue pela ordem de Deuteronômio 5.
As três operações apontam para o mesmo lado, e é isso que torna a leitura sólida: cortar o que era grego, acrescentar o que faltava do Decálogo e reordenar segundo o Decálogo são três movimentos coerentes entre si. A conclusão de que a ancoragem na lei escrita é deliberada não depende de nenhum deles isoladamente.
A cobiça que ficou de fora
Há um dado que corta na direção contrária e precisa ser registrado, porque ele complica a leitura acima.
O mandamento de Deuteronômio 5:21, que proíbe cobiçar, é o único do Decálogo que trata de um estado interior, e não de um ato. É, portanto, o mais próximo do argumento que este capítulo está fazendo. Marcos o tinha na lista. Mateus o cortou.
Cabem várias explicações — economia, já que a lista precisava ser curta; ou o entendimento de que a cobiça está pressuposta no adultério e no furto; ou a intenção de listar atos manifestos, deixando a parte interior por conta do primeiro item. Não é possível decidir entre elas, e o dado fica como está: uma escolha que a leitura mais provável não explica bem.
São crimes, e isso resolve uma questão do capítulo
Este é o ponto de maior consequência do versículo, e ele precisa ser dito com todas as letras.
O versículo 18 afirmou que o que sai da boca contamina o homem. Lida sozinha, essa frase vira régua universal de julgamento de linguagem: qualquer aspereza, qualquer resposta seca, qualquer frase dura passa a ser matéria de contaminação. Este versículo mostra que a régua é outra.
O que o texto põe sob o verbo "contaminar" é homicídio, adultério, imoralidade sexual, furto, falso testemunho, blasfêmia — e a deliberação de onde essas coisas saem. É a magnitude de um tribunal criminal. Não há na lista um único item que corresponda a falar com dureza, a ser ríspido, a magoar alguém com uma frase.
A consequência é direta para a leitura do capítulo. Quando, poucos versículos adiante, sair da boca de Jesus uma frase áspera a uma mulher estrangeira, em Mateus 15:26, essa aspereza não pode ser medida pelo versículo 18 — porque a lista que define o que o versículo 18 está falando não contém nada dessa ordem. A dificuldade daquela cena é real e permanece inteira; o que este versículo faz é impedir que ela seja resolvida por um atalho que o texto não oferece.
O limite da lista
A lista não é exaustiva e não pretende ser: Marcos tem outra sobre a mesma cena, Paulo tem várias, e nenhuma coincide com esta. O que se faz aqui é ilustrar uma tese com exemplos escolhidos, e o argumento não depende de a lista estar completa. Depende de os itens dela serem indiscutíveis, e são.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O Decálogo
É o texto que está por trás da lista, sem ser citado. Foi dado no Sinai segundo Êxodo 20 e repetido em Deuteronômio 5, na despedida de Moisés, com pequenas diferenças de redação entre as duas versões.
A tradição divide os dez mandamentos em duas partes: os primeiros tratam da relação com Deus, os últimos da relação com o próximo. É da segunda parte que esta lista se serve — os mandamentos sobre matar, adulterar, furtar e testemunhar falsamente, que estão em Deuteronômio 5:17-20.
Marcos, o texto que está sendo trabalhado
O evangelho de Marcos é personagem indireto deste versículo. A hipótese de que Mateus escreveu depois e com Marcos diante de si é a que reúne mais adesão entre os estudiosos, e é ela que dá sentido às operações de corte, acréscimo e reordenação examinadas na análise teológica.
A hipótese não é unânime. Quem a recusa lê as diferenças como duas lembranças independentes da mesma cena, e não como edição de uma sobre a outra — leitura em que as coincidências de vocabulário ficam sem boa explicação.
Os discípulos
Continuam sendo o auditório, e vale imaginar o efeito da lista sobre eles. Cada termo puxava de imediato o mandamento correspondente, decorado desde a infância. A operação retórica é forte justamente por isso: não se está inventando uma lista de males, está-se repetindo a que eles já conheciam.
É o que torna o argumento difícil de recusar. Discordar da lista seria discordar do Decálogo. O que se pode contestar é apenas o deslocamento do lugar de origem — e essa discussão o Sermão do Monte já tinha aberto, em Mateus 5:21-22 e 5:27-28.
5. Pontos de Ensino
A lista é de crimes. Homicídio, adultério, furto, falso testemunho. Não é catálogo de defeitos de temperamento nem de faltas de educação. Ler o versículo com essa magnitude é a condição para não usá-lo como régua de coisas pequenas.
A ordem ensina tanto quanto os itens. Começa na deliberação e termina na fala, com os atos no meio. A sequência afirma que o problema não está onde ele fica visível, e sim onde ele foi resolvido antes de aparecer.
Nada foi inventado. Os males nomeados são os que a lei de Israel já nomeava, na ordem em que ela os nomeia. O ensino não substitui a lei escrita por outra coisa: aponta de onde vem o que ela proíbe.
O primeiro item não é sobre pensamentos que passam. É sobre decisão. Quem usa esta lista para se acusar de tudo o que lhe ocorre está aplicando ao texto uma severidade que ele não tem, e trocando o exame de consciência por escrúpulo.
A lista não é completa e não pretende ser. Marcos tem outra sobre a mesma cena, e Paulo tem várias diferentes. Quem procurar aqui um inventário do mal humano vai encontrar exemplos, e exemplos escolhidos para vencer uma discussão específica.
6. Aspectos Filosóficos
O problema
Uma lista de vícios descreve a natureza humana, ou a forma?
A pergunta parece capciosa e não é. Quando alguém enumera os males possíveis, está fazendo duas coisas ao mesmo tempo: retratando o que existe e ensinando o leitor a organizar a própria experiência com aquelas categorias. Depois de ouvir a lista, a pessoa passa a ver os próprios atos por meio dela.
O que segue é leitura do comentarista sobre a questão que o formato levanta, e não interpretação do que Mateus quis dizer. O evangelho não teoriza sobre catálogos morais.
Os estoicos: a lista como remédio
A escola que levou o formato mais longe foi a estoica, e ela era explícita sobre a finalidade.
Zenão e, depois dele, Crisipo classificaram as paixões da alma em quatro famílias, organizadas por dois eixos: se o objeto é presente ou futuro, e se é tomado como bom ou como mau. Dá desejo, medo, prazer e aflição. Sob cada família, eles penduraram dezenas de estados particulares — a inveja e o ciúme sob uma, a vergonha e a ansiedade sob outra, e assim por diante.
A finalidade era terapêutica, e eles usavam essa palavra. Para o estoico, a paixão é um juízo errado sobre o valor das coisas, e por isso se corrige reconhecendo-a: a lista serve para que a pessoa nomeie o que está sentindo e veja o juízo equivocado que está por baixo. Nomear é o primeiro passo do tratamento.
Nessa concepção, a lista é descritiva e formativa ao mesmo tempo, sem contradição. Ela descreve porque o mapa é verdadeiro; forma porque o mapa, uma vez aprendido, muda quem o usa.
A objeção: enumerar é fabricar
Contra isso há uma suspeita moderna, e ela merece ser apresentada na sua melhor versão.
A suspeita é a de que os catálogos não encontram categorias prontas no mundo: eles as constituem. Antes de existir a lista, havia atos e pessoas; depois dela, passam a existir tipos de pessoa. A enumeração cria a grade pela qual todo mundo passa a se examinar, e o que fica fora da grade some — não porque não aconteça, mas porque não tem nome.
O caso mais citado dessa suspeita é o dos sete pecados capitais, que não estão na Bíblia. A lista se formou entre monges do deserto no século IV, foi reorganizada por Gregório Magno no século VI e virou, na Idade Média, o instrumento com que se examinava a consciência antes de confessar. Ninguém nasceu com sete gavetas na alma. As gavetas foram construídas, e depois pareceram naturais.
Onde a objeção não pega
Aplicada a este versículo, porém, a suspeita perde boa parte da força — e vale dizer por quê, porque o ponto é honesto.
Os itens desta lista não são tipos psicológicos. São condutas com vítima, com prova e com pena. O homicídio não é uma categoria que alguém precisou inventar para que as pessoas se examinassem: é um corpo. O falso testemunho não é uma grade de exame de consciência: é um processo judicial em que um inocente foi condenado. A objeção funciona bem contra listas de disposições interiores e mal contra listas de crimes.
Some-se a isso que a lista não é apresentada como grade de exame: aparece dentro de uma discussão, para provar uma tese, e é encerrada logo em seguida. O que sobra da suspeita, e vale guardar, é que toda lista ensina a olhar — quem aprende esta aprende a procurar a origem dos atos na deliberação, e não nas circunstâncias. É formação, ainda que involuntária.
A tese sobre a origem
Resta a afirmação mais pesada do versículo, e ela é uma tese sobre o ser humano: essas coisas todas vêm de um lugar só.
Não se diz que algumas venham da má formação, outras da miséria, outras da influência alheia. Diz-se que a fonte é uma, e que ela é interna. Isso aproxima o versículo de uma posição que Immanuel Kant defendeu bem mais tarde, em A religião nos limites da simples razão, de 1793, com o nome de mal radical: para ele, a inclinação a subordinar a lei moral ao amor-próprio não é acidente de circunstância nem herança de má educação, e sim uma propensão que está na raiz da vontade humana — em todo mundo, e por escolha de cada um, o que faz dela algo de que se é responsável sem que se lembre de tê-la escolhido.
Do outro lado está a tradição que trata o mal como privação, e que tem em Agostinho a formulação mais influente: o mal não é uma coisa, é a ausência de um bem, como a escuridão é a ausência de luz. Nada é mau por natureza; o que há é bem em falta.
Entre as duas, o versículo soa mais próximo da primeira. Ele fala em produção, não em falta: as coisas procedem, saem, são geradas em algum lugar. É linguagem de fonte, não de buraco.
Vale marcar o limite com clareza. Esta é uma frase de uma discussão sobre lavar as mãos, não um tratado sobre a origem do mal, e Mateus não tem os conceitos de vontade, de propensão nem de privação. A aproximação serve para pensar o problema, e não para atribuir ao texto uma doutrina que ele não formula.
7. Aplicações Práticas
A régua do versículo é criminal, não de etiqueta
A aplicação mais útil deste versículo é uma correção de escala, e ela vale contra um uso corrente e prejudicial da passagem.
É comum ouvir o argumento de que "o que sai da boca contamina" aplicado a discussões domésticas, respostas ásperas, opiniões impopulares e conversas difíceis. A lista mostra que a frase não estava falando disso. Falar com dureza pode ser errado por outras razões; não é o que este texto está tratando.
O efeito prático da confusão é sério. Quando se usa uma régua de crimes para medir tom de voz, duas coisas acontecem ao mesmo tempo: as coisas pequenas ficam pesadas demais, e as grandes perdem o tamanho. É a receita do escrúpulo em quem é sensível e do alívio indevido em quem não é.
A deliberação não é o pensamento que passa
O primeiro item da lista é sobre decidir, e não sobre o que ocorre à cabeça de alguém.
A distinção tem consequência prática direta para quem sofre com pensamentos indesejados. Ocorrer não é deliberar. A imagem que aparece sem convite, a frase agressiva que se formula por dentro e não se diz, a ideia que assusta quem a teve — nada disso está descrito aqui.
O que está descrito é o momento em que a pessoa pesa as alternativas e escolhe. É um momento identificável, e é sobre ele que o versículo fala. Confundir os dois transforma o texto num instrumento de tormento, e ele não é isso.
Olhar para a origem, não para a ocasião
A lista afirma origem única para coisas muito diferentes entre si. É afirmação forte, e ela tem uso prático.
Diante de algo que se fez e não se queria ter feito, a explicação mais confortável é sempre a circunstancial: estava cansado, fui provocado, era uma situação difícil. Essas explicações costumam ser verdadeiras e costumam ser incompletas — a circunstância revelou, não produziu.
O exame que este versículo sugere é outro, e é mais lento: o que estava disponível ali para ter saído aquilo? A resposta raramente é agradável e é a única que serve para alguma coisa. A circunstância vai se repetir, e o que se pode mudar é o que ela encontra.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que Mateus tem sete itens e Marcos tem treze?
Não há resposta segura sobre a intenção. O que se pode verificar é o padrão das escolhas: saíram sobretudo termos do vocabulário moral grego, entrou o item que faltava para completar a sequência do Decálogo, e a ordem foi refeita segundo essa sequência. Se a redução para sete tem valor simbólico, como o número costuma ter na Bíblia, é possível mas não demonstrável — não há em Mateus insistência sistemática nesse número.
Adultério e imoralidade sexual não são a mesma coisa?
Não. O adultério pressupõe alguém casado e viola um vínculo determinado; a imoralidade sexual é o campo mais largo, que inclui prostituição, relações fora do casamento e uniões proibidas por parentesco, conforme a lista de Levítico 18. A distinção é preservada em todo o Novo Testamento, e listar as duas não é repetição.
Este versículo diz que ter um mau pensamento equivale a cometer o ato?
Não é isso que a lista faz. Ela enumera coisas que procedem da mesma origem, sem estabelecer equivalência de gravidade entre elas. A discussão sobre equivalência aparece em outro lugar do evangelho, no Sermão do Monte, e mesmo lá a formulação é mais fina do que a leitura corrente supõe. Aqui, o que se afirma é a origem comum.
Por que a blasfêmia aparece numa lista de crimes contra o próximo?
Porque o alcance da palavra é maior do que "falar contra Deus". Ela cobre também a fala que causa dano a alguém — injúria, calúnia, discurso que destrói. O plural e a companhia dos outros itens apontam para esse sentido largo. E vale notar que, na lei de Israel, a blasfêmia contra Deus também era crime capital, conforme Levítico 24:16, de modo que a presença dela na lista não destoa.
A lista vale como exame de consciência?
Não foi apresentada assim. Ela aparece como prova de uma tese sobre a origem dos atos, dentro de uma discussão sobre lavar as mãos, e o capítulo não convida ninguém a se medir por ela item por item. Usá-la como grade de autoexame é possível, e é preciso saber que se está fazendo com o texto algo que o texto não pede.
9. Conexão com Outros Textos
A frase que este versículo desdobra
Mateus 15:18 — "Mas as coisas que saem da boca vêm do coração, e são essas que contaminam o homem." A tese de que esta lista é a demonstração.
A lista de Marcos
Marcos 7:21-22 — "Pois de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, as prostituições, os furtos, os homicídios, os adultérios, a cobiça, as maldades, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura." Treze termos, em outra ordem, e sem o falso testemunho.
Os mandamentos que a lista reproduz
Deuteronômio 5:17 — "Não matarás."
Deuteronômio 5:18 — "Não adulterarás."
Deuteronômio 5:19 — "Não furtarás."
Deuteronômio 5:20 — "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo."
Deuteronômio 5:21 — "Não cobiçarás a mulher do teu próximo, e não desejarás a casa do teu próximo." O mandamento que Marcos tem na lista e Mateus não tem.
A gravidade dos itens na lei
Levítico 20:10 — "O homem que adulterar com a mulher do seu próximo será morto, o adúltero e a adúltera." O adultério como crime capital.
Deuteronômio 19:18-19 — "Se a testemunha for falsa e tiver testemunhado falsamente contra seu irmão, far-lhe-eis como ele cuidava fazer a seu irmão." A pena do falso testemunho, medida pelo dano pretendido.
Levítico 24:16 — "Aquele que blasfemar o nome do SENHOR certamente morrerá." A blasfêmia como crime capital.
A origem interior, na tradição de Israel
Gênesis 6:5 — "E viu o SENHOR que era grande a maldade do homem na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração." O diagnóstico mais antigo, com a mesma localização.
Provérbios 6:16-19 — "Seis coisas o SENHOR aborrece, e a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que trama projetos iníquos, pés que se apressam para o mal, testemunha falsa que profere mentiras, e o que semeia contendas entre irmãos." Uma lista de sete na própria tradição de sabedoria, com o coração no meio dela.
A mesma operação, antes, no Sermão do Monte
Mateus 5:21-22 — "Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás. Eu, porém, vos digo que todo aquele que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento." O primeiro item da lista, tratado pela raiz.
Mateus 5:27-28 — "Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo que qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura já adulterou com ela no seu coração." O segundo item, pelo mesmo caminho.
Outras listas do mesmo gênero no Novo Testamento
Gálatas 5:19-21 — "Ora, as obras da carne são conhecidas e são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes." Quinze termos, com vocabulário misto.
Romanos 1:29-31 — "cheios de toda injustiça, malícia, avareza, maldade; possuídos de inveja, homicídio, contenda, dolo, malignidade; caluniadores, difamadores, inimigos de Deus, insolentes, soberbos, presunçosos." Lista longa, acumulativa, sem estrutura visível.
Colossenses 3:8 — "Agora, porém, despojai-vos igualmente de tudo isto: ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena." Lista curta, centrada na fala.
10. Original Grego e Análise
Nota preliminar: a análise abaixo é do grego koiné, língua em que Mateus foi composto. O versículo é um caso em que a forma é grega e a organização é hebraica: sete palavras gregas dispostas segundo a ordem de um texto da Torá.
Texto em português
Pois do coração procedem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os furtos, os falsos testemunhos, as blasfêmias.
Texto grego
ἐκ γὰρ τῆς καρδίας ἐξέρχονται διαλογισμοὶ πονηροί, φόνοι, μοιχεῖαι, πορνεῖαι, κλοπαί, ψευδομαρτυρίαι, βλασφημίαι.
Transliteração
ek gar tēs kardias exerchontai dialogismoi ponēroi, phonoi, moicheiai, porneiai, klopai, pseudomartyriai, blasphēmiai.
Análise palavra por palavra
ἐκ γὰρ τῆς καρδίας — ek gar tēs kardias, "pois do coração". A construção é a mesma do versículo 18, com o acréscimo da partícula gar, que introduz explicação. O campo da palavra kardia foi examinado ali e não se repete aqui: é a sede da deliberação, do juízo e da memória.
ἐξέρχονται — exerchontai, "procedem". Mesmo verbo do versículo anterior, agora no plural, para concordar com os sete itens. O presente descreve processo contínuo, e não um evento passado.
1. διαλογισμοὶ πονηροί — dialogismoi ponēroi, "deliberações destrutivas".
Dialogismos vem do verbo dialogizomai, formado de dia- (que indica ida e volta, de um lado a outro) com logos (razão, discurso). Literalmente, o pensamento que vai e vem: o raciocínio que pesa alternativas. Não é a ideia solta nem a imagem que ocorre — é o processo em que alguém discute consigo mesmo e chega a uma conclusão prática.
Vincent (Marvin Vincent, estudioso norte-americano do século XIX, autor de um estudo sobre as palavras do Novo Testamento) prefere traduzir por "raciocínios" ou "disputas internas", e aproxima a palavra do modo como os fariseus discutiam consigo mesmos ao interrogar Jesus.
O adjetivo ponēros não significa apenas ruim no sentido de fraco ou medíocre. Significa mau no sentido de ativamente danoso, e é palavra carregada em Mateus: é a que aparece no pedido final da oração do Pai-Nosso, em Mateus 6:13, e na explicação da parábola do semeador, em Mateus 13:19.
2. φόνοι — phonoi, "homicídios". Palavra do vocabulário jurídico: designa o ato de matar deliberadamente, e não o tirar a vida em geral, para o que o grego tem verbos mais neutros.
Aqui está a primeira ponta da correspondência com o Decálogo. O verbo da mesma família é phoneuō, e é ele que a Septuaginta usa para traduzir o mandamento de Deuteronômio 5:17: ou phoneuseis, "não matarás".
3. μοιχεῖαι — moicheiai, "adultérios". Palavra técnica: a relação sexual com pessoa casada, violando o vínculo do matrimônio.
O verbo da família é moicheuō, e é o da Septuaginta em Deuteronômio 5:18: ou moicheuseis, "não adulterarás".
4. πορνεῖαι — porneiai, "imoralidades sexuais". Este é o item que não vem do Decálogo, e o campo dele é largo.
A raiz é pornē, prostituta, ligada a um verbo antigo de vender. O sentido original é o da venda sexual. No grego bíblico o campo se estende, e a palavra passa a cobrir toda conduta sexual fora dos limites que a Torá estabelece.
As ocorrências medem o alcance. No decreto do concílio de Jerusalém, em Atos 15:20 e 15:29, o contexto sugere que se pensa nas uniões proibidas por parentesco de Levítico 18; em 1 Coríntios 5:1, Paulo usa a palavra para o caso de um homem com a mulher do pai, categoria da mesma lista; em 1 Coríntios 6:15-18, para o uso do corpo com prostitutas. A distinção com moicheia mantém-se em todo o Novo Testamento, e as duas nunca se confundem.
5. κλοπαί — klopai, "furtos". O verbo da família é kleptō, o da Septuaginta em Deuteronômio 5:19: ou klepseis, "não furtarás".
É palavra rara no Novo Testamento: aparece aqui e no lugar paralelo de Marcos 7:22, e mais nenhuma vez. A categoria está presente, mas não é objeto de discussão desenvolvida em nenhum outro texto.
6. ψευδομαρτυρίαι — pseudomartyriai, "falsos testemunhos". Palavra composta de pseudo- (falso) com martyria (testemunho, depoimento).
O verbo da família é pseudomartyreō, o da Septuaginta em Deuteronômio 5:20. Este é o item acrescentado por Mateus: Marcos não o tem.
É o dado que fecha a demonstração: sozinha, a semelhança de ordem poderia ser coincidência; com um item acrescentado exatamente onde faltava, a composição deliberada fica estabelecida. O Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) lê a lista assim, notando que os itens correspondem, em sucessão, aos mandamentos sobre matar, adulterar, furtar e testemunhar falsamente.
7. βλασφημίαι — blasphēmiai, "blasfêmias". Palavra composta de blaptō (prejudicar, danificar) com phēmi (falar). Literalmente, falas que causam dano.
No vocabulário religioso, especializou-se no sentido de falar mal de Deus. Mas o campo original é mais largo e continua ativo no Novo Testamento: em Efésios 4:31 e Colossenses 3:8 a palavra aparece ao lado de ira, gritaria e maledicência, o que aponta para fala injuriosa em geral. Em Mateus 12:31, ao contrário, o sentido é estritamente religioso.
Aqui, o plural e a vizinhança dos outros itens apontam para o sentido largo, sem excluir o estreito.
Nota textual
O versículo é estável nas principais edições críticas.
Há uma variante de ordem que vale registrar: alguns testemunhos ocidentais e bizantinos trocam moicheiai e porneiai de lugar, pondo a imoralidade sexual antes do adultério. É a ordem de Marcos, e a troca tem cara de harmonização de copista. A leitura adotada pelo texto crítico mantém a ordem mateana, que é a que corresponde ao Decálogo.
A palavra pseudomartyriai é firme em todos os testemunhos de Mateus. Nenhum manuscrito a omite, o que confirma que se trata de composição do próprio evangelista, e não de acréscimo posterior.
11. Conclusão
Do que foi examinado, este versículo leva a três conclusões.
A primeira é sobre a escala. O que o capítulo chama de contaminação tem o tamanho de um processo criminal: mortes, uniões rompidas, bens tomados, inocentes condenados por mentira. Toda leitura que reduza esta lista a faltas de delicadeza está trabalhando com outra régua, e uma régua que o texto não fornece. Isso vale, em particular, para quem quiser medir por aqui o tom de qualquer frase — inclusive as do próprio capítulo.
A segunda é sobre o método do evangelista. Cortar, acrescentar e reordenar são três operações independentes, e as três apontam para o mesmo lugar: a lei escrita de Israel. Não se está diante de um catálogo moral avulso, mas de uma peça montada para mostrar que os males em discussão são os que o próprio Decálogo nomeia. Quem quisesse acusar o argumento de vir de fora da tradição não teria por onde.
A terceira é a que fica em aberto, e é a mais interessante. A lista afirma origem única para coisas muito diferentes entre si, e não explica como essa origem chegou a produzir o que produz. Diz de onde vem, e para. É afirmação forte sobre o ser humano, feita de passagem, no meio de uma discussão sobre lavar as mãos — e o texto não volta a ela.













