Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério.
1. Introdução
Jesus abre aqui mais um dos contrastes do Sermão do Monte, aquele padrão que se repete: "Ouvistes o que foi dito... eu porém vos digo". Desta vez o tema é o adultério, e o ponto de partida é o sétimo mandamento, gravado entre os dez. O versículo, sozinho, ainda não diz nada de novo — apenas cita a Lei que todos conheciam. Ele é a rampa de lançamento para o que vem no versículo seguinte.
Vale notar desde já a estratégia do Mestre. Ele não ataca o mandamento nem o dispensa; parte dele. Primeiro repete o que a tradição ensinava, para em seguida ir além do que a tradição alcançava. O adultério, que a Lei tratava como um ato consumado, será levado por Jesus até a sua origem, lá onde ninguém legislava: o desejo do coração. Este versículo apenas prepara o terreno.
2. Contexto Histórico e Cultural
O mandamento "não adulterarás" é o sétimo do Decálogo (Êxodo 20:14; Deuteronômio 5:18). No Israel antigo, o adultério não era falta leve: era crime capital, punível com a morte de ambos os envolvidos (Levítico 20:10). Não se tratava apenas de moral privada. O casamento sustentava a honra da família, a legitimidade dos filhos e a transmissão da herança e da terra dentro das tribos. Quebrar esse vínculo abalava toda a ordem social, e por isso a punição era severa.
A leitura corrente entre os mestres da Lei, no tempo de Jesus, tendia a se fixar no ato consumado. Adultério era o ato físico, verificável, punível. Enquanto não houvesse o ato, a Lei estava cumprida. É exatamente essa fronteira — a do gesto externo — que Jesus vai deslocar. Ele cita o mandamento no seu sentido tradicional para, logo depois, mostrar que a exigência de Deus alcança bem antes do gesto: alcança o olhar e o desejo. O versículo 27, portanto, é a voz da tradição; a novidade vem no 28.
3. Análise Teológica do Versículo
"Ouvistes o que foi dito"
A expressão indica que Jesus se dirige a um ensino já conhecido do seu público. O "ouvistes" aponta para a tradição oral, o modo como a Lei era transmitida e discutida nas sinagogas pelos escribas e fariseus. Jesus parte do entendimento herdado do mandamento para, em seguida, oferecer uma leitura mais profunda e espiritual dessa mesma Lei.
"Não adulterarás"
Este é o sétimo dos Dez Mandamentos, registrado em Êxodo 20:14 e Deuteronômio 5:18. No sentido bíblico, o adultério é a relação sexual de uma pessoa casada com alguém que não seja o seu cônjuge. Em Israel, era ofensa grave não só contra o cônjuge, mas contra Deus, pois violava o vínculo da aliança do casamento. A proibição protegia a santidade do matrimônio e da família, base da vida social e religiosa do povo. Nos profetas, o adultério aparece muitas vezes como imagem da infidelidade de Israel para com Deus, como no livro de Oseias. Jesus está prestes a ampliar o alcance desse mandamento para além do ato físico, incluindo as intenções e os desejos do coração.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
Jesus Cristo — quem pronuncia o ensino, no Sermão do Monte, momento decisivo do seu ministério.
Os ouvintes — sobretudo judeus e discípulos, familiarizados com a Lei de Moisés.
Lugares
O Monte das Bem-aventuranças — o lugar tradicionalmente associado à entrega do Sermão do Monte, junto ao mar da Galileia.
Eventos
O Sermão do Monte — o grande discurso em que Jesus expõe a Lei e apresenta os princípios mais profundos do Reino.
A Lei de Moisés — o contexto original do mandamento contra o adultério, parte do Decálogo.
5. Pontos de Ensino
A intenção da Lei
A Lei não trata apenas do ato externo, mas da pureza interior. O mandamento alcança a condição do coração, e não somente a conduta física.
Guardar o coração
O crente é chamado à vigilância sobre os pensamentos e os desejos, reconhecendo que o mal se origina na vida interior antes de aparecer nos atos.
O papel do Espírito Santo
É pela ação do Espírito que o crente recebe força para viver segundo a medida de Deus e vencer as inclinações ao pecado.
A importância da prestação de contas
A convivência com irmãos de confiança, dispostos a cobrar e amparar, ajuda a manter a integridade.
Refletir o caráter de Cristo
O discípulo é chamado a espelhar o caráter de Cristo em todas as áreas, demonstrando integridade e fidelidade.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo levanta, sem ainda resolver, uma questão antiga sobre a natureza da lei moral: uma norma diz respeito só ao que se faz, ou também ao que se quer fazer? A tradição que Jesus cita havia traçado a linha no ato. É uma linha compreensível: o ato é público, verificável, punível. O desejo é invisível, e nenhum tribunal humano consegue julgá-lo. Foi por prudência, e não por leviandade, que a lei dos homens se ateve ao gesto.
Mas há uma diferença entre o que um tribunal pode punir e o que de fato é justo diante de Deus. Ao citar o mandamento, Jesus aceita o seu peso e, ao mesmo tempo, prepara o leitor para ver que a fronteira do ato é boa para a justiça humana, porém curta demais para a santidade de Deus. O versículo, isolado, ainda é a moral do tribunal; a partir do próximo, será a moral do coração.
7. Aplicações Práticas
Levar o casamento a sério. O mandamento existe porque a fidelidade conjugal é um bem real, que sustenta pessoas e famílias. Honrar o próprio vínculo é obedecer a Deus na prática.
Não se contentar com a aparência de correção. Não ter cometido o ato não é, por si só, prova de um coração limpo. Vale examinar mais fundo do que o comportamento visível.
Respeitar o vínculo dos outros. A ordem protege não só o próprio casamento, mas o do próximo. Recuar diante do que ameaça o lar alheio é parte da mesma obediência.
Ouvir a Lei como quem aprende. Jesus parte do "ouvistes" para ir além. Também nós devemos receber o mandamento não como letra morta, mas como porta para uma vida mais reta.
Preparar-se para a exigência maior. Quem só mede a própria vida pelo que os outros veem ainda não entendeu o que Deus pede. Convém abrir o coração à exigência que vem a seguir.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Como o ensino de Jesus em Mateus 5:27 desafia a compreensão tradicional do mandamento contra o adultério?
O versículo, em si, ainda repete a tradição: cita o mandamento tal como era ensinado. O desafio começa a se formar justamente porque Jesus não para aqui. Ao dizer "ouvistes o que foi dito", ele sinaliza que virá um "eu porém vos digo" — e esse contraste anuncia que a exigência de Deus vai além do ato externo em que a tradição havia parado.
2. De que modo o crente pode guardar o coração contra a tentação do adultério, no corpo e na mente?
Cuidando do que alimenta o desejo antes que ele vire ação: o que os olhos buscam, o que a imaginação cultiva, as situações que se procuram. A vigilância honesta sobre a vida interior, e não apenas o controle do gesto, é o caminho que Jesus abrirá no versículo seguinte.
3. Como a ampliação do mandamento em Mateus 5:28 se relaciona com a ideia de que o pecado começa no coração, como em Tiago 1:14-15?
Tiago descreve o pecado como algo que nasce do próprio desejo, é concebido e só depois gera a morte. É exatamente a trajetória que Jesus expõe: o adultério não começa no ato, mas no desejo consentido. Os dois textos apontam para a mesma raiz interior.
4. Que papel o Espírito Santo tem em ajudar o crente a manter a pureza nos pensamentos e nas ações?
A obediência que Jesus pede alcança o interior, onde a força de vontade sozinha não basta. É o Espírito que transforma o coração, tira o gosto pelo que é errado e dá firmeza para resistir, tornando possível uma pureza que nasce de dentro.
5. Como a prestação de contas dentro da comunidade cristã pode ajudar a sustentar esse ensino?
O pecado se fortalece no escondido. Ter irmãos de confiança a quem se abrir, que perguntem e amparem sem condenar, quebra o isolamento em que a tentação prospera e ajuda cada um a andar na integridade que Cristo pede.
9. Conexão com Outros Textos
"Não cometerás adultério." (Êxodo 20:14)
A fonte direta da citação de Jesus: o sétimo mandamento, tal como foi entregue no Sinai.
"Não adulterarás." (Deuteronômio 5:18)
A repetição do mesmo mandamento na segunda entrega da Lei, confirmando o seu peso permanente para Israel.
"E o homem que adulterar com a mulher de outro, o que cometer adultério com a mulher de seu próximo, certamente se condenará à morte o adúltero e a adúltera." (Levítico 20:10)
Mostra quão grave era o adultério na Lei: crime capital. Ajuda a medir a seriedade do que Jesus está prestes a levar até o coração.
"Porque aquele que disse: 'Não cometerás adultério', também disse: 'Não matarás'. Portanto, se não cometeres adultério, mas matares, te tornaste um transgressor da lei." (Tiago 2:11)
Liga o sétimo mandamento ao conjunto da Lei: quebrá-lo em um ponto é ofender o mesmo Deus que a deu inteira.
"Porque estes mandamentos: não adulterarás, não matarás, não roubarás, não cobiçarás... nesta frase se resumem: 'Amarás ao teu próximo como a ti mesmo'." (Romanos 13:9)
Paulo reúne o mandamento contra o adultério sob o amor ao próximo, mostrando o seu sentido último: a fidelidade é uma forma de amar.
10. Original Grego e Análise
Texto em português: Vocês ouviram o que foi dito aos antigos: “Não adulterarás”.
Texto grego: Ἠκούσατε ὅτι ἐρρέθη τοῖς ἀρχαίοις, Οὐ μοιχεύσεις.
Transliteração: Ēkoúsate hóti erréthē toîs archaíois, Ou moicheúseis.
Análise palavra por palavra:
Ēkoúsate (Ἠκούσατε) — "ouvistes": verbo no passado, na segunda pessoa do plural. Não é "lestes", mas "ouvistes" — porque a maioria do povo conhecia a Lei pela leitura em voz alta na sinagoga e pelo ensino dos mestres, e não por um livro nas mãos.
erréthē (ἐρρέθη) — "foi dito": voz passiva, sem nomear quem disse. A forma impessoal aponta para a tradição recebida — o modo como o mandamento chegava ao ouvinte pela boca dos mestres.
toîs archaíois (τοῖς ἀρχαίοις) — "aos antigos": literalmente "aos antigos", isto é, às gerações passadas que receberam a Lei. Aqui há um detalhe honesto a registrar: este "aos antigos" aparece no Textus Receptus e por isso está no texto grego adotado, mas falta em muitos manuscritos deste versículo, e é por isso que a nossa tradução em português não o traz. Não muda o sentido — apenas mostra que o próprio texto tem pequenas variações que a erudição reconhece.
Ou moicheúseis (Οὐ μοιχεύσεις) — "não adulterarás": a negação ou com o verbo no futuro. Em grego, esse futuro com força de ordem é o modo próprio de expressar os mandamentos, reproduzindo a forma do Decálogo grego. Não é uma previsão ("tu não adulterarás"), mas um mandato firme ("não adulteres").
Nota teológica: o versículo é, propositalmente, apenas a metade de um pensamento. Jesus repete a Lei no seu sentido mais aceito para, no versículo seguinte, mostrar que a santidade que Deus busca não se satisfaz com o gesto evitado. O peso teológico não está em citar o mandamento, mas em quem o cita: aquele que tem autoridade para dizer, logo a seguir, "eu porém vos digo".
11. Conclusão
Mateus 5:27 é curto e, à primeira vista, sem novidade: Jesus apenas repete o sétimo mandamento. Mas a sua força está na posição que ocupa. É a voz da tradição, dita de propósito, para que se ouça, logo depois, a voz de quem tem autoridade para aprofundá-la.
O adultério, que a Lei tratava como ato consumado e a sociedade punia com a morte, será conduzido por Jesus até a sua origem escondida. Antes mesmo de ampliar o mandamento, o texto nos deixa diante de uma pergunta simples: se a justiça de Deus alcança bem antes do ato, quem de nós pode dizer que a cumpriu apenas por nunca ter sido pego? O versículo prepara essa pergunta — e o próximo a torna inevitável.













