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Mateus 15:18

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✍️ Por Alberto Adriano·1 de setembro de 2026·⏱️ 28 min de leitura·👁 38 acessos
Mas as coisas que saem da boca vêm do coração, e são essas que contaminam o homem.
Homem de meia-idade em vestes do primeiro século, sentado em silêncio à luz de uma lamparina, com a mão fechada apoiada no peito.

Estudo


Mas as coisas que saem da boca vêm do coração, e são essas que contaminam o homem.

1. Introdução

A primeira metade da explicação mostrou de onde a contaminação não vem. Esta mostra de onde ela vem.

É o versículo em que o argumento se decide. Tudo o que veio antes preparou o terreno; tudo o que vem depois é lista e veredicto. Aqui se nomeia o lugar.

Três pontos merecem exame, e cada um é tratado adiante.

O primeiro é a palavra "coração". Ela não significa, no texto bíblico, o que significa hoje em português, e a diferença muda a gravidade da frase. A análise do original mostra o campo da palavra.

O segundo é o que se entende por "sair da boca". A lista do versículo seguinte trará homicídios e furtos, que não saem da boca de ninguém — e a análise teológica trata do que a expressão está cobrindo.

O terceiro é o verbo "contaminar". Jesus não diz que a categoria não existe. Ele a mantém, e move a causa — e isso é o oposto do que a pregação corrente costuma extrair da passagem.

2. Contexto Histórico e Cultural

A palavra que fazia coisas

Para entender por que "o que sai da boca" é assunto sério neste capítulo, é preciso recuperar um modo de tratar a fala que se perdeu quase inteiramente.

No mundo em que a cena acontece, certas palavras não descreviam a realidade: alteravam a realidade. Dizer a fórmula certa nas condições certas criava uma obrigação, transferia um direito ou fechava uma porta — e nenhuma retratação desfazia o efeito. A palavra era um ato jurídico, e um ato jurídico feito só com a boca.

O voto

Números 30 legisla sobre isso em detalhe. Quem faz um voto ao SENHOR ou jura obrigar a própria alma não pode violar a palavra: tem de fazer tudo o que saiu da boca — e a expressão da lei é exatamente essa, o que sai da boca. Deuteronômio 23:21-23 repete a regra e acrescenta que não votar não é pecado; o pecado é votar e não cumprir.

O capítulo de Números dedica-se, dali em diante, a um problema concreto: quando e como um voto pode ser anulado. Havia hipóteses — o pai da moça, o marido da mulher casada, dentro do prazo. Ou seja: existia uma máquina jurídica inteira montada em torno de palavras ditas, porque essas palavras vinculavam de verdade e a comunidade precisava de um modo de lidar com elas.

A bênção que não volta atrás

O caso mais eloquente está em Gênesis 27. Isaque abençoa Jacó pensando que abençoa Esaú. Descoberto o engano, o velho estremece — e não desfaz nada. Diz que abençoou e que abençoado será. Esaú chora e pede outra bênção, e o que recebe é o que sobrou.

A cena só faz sentido se a palavra dita tiver saído do controle de quem a disse. Não é teimosia de Isaque nem crueldade com o filho: é que aquilo já estava fora dele.

O caso que este capítulo já examinou

E há o exemplo dentro do próprio Mateus 15. Nos versículos 5 e 6, a discussão tratou de uma declaração que um filho podia fazer sobre os próprios bens, dedicando-os, e que tinha por efeito desobrigá-lo de socorrer o pai e a mãe. Uma frase saída da boca, e o dever de honrar os pais deixava de valer.

Guardada essa cena, o versículo 18 ganha outra dimensão. Quando se diz que o que sai da boca contamina, não se está falando apenas de grosseria ou de fofoca. Está-se falando de um mundo em que a boca produz obrigações, cancela deveres e transfere heranças.

3. Análise Teológica do Versículo

"Mas"

Uma palavra, e ela liga esta frase à anterior como as duas metades de um espelho.

A construção é montada peça por peça em cima da do versículo 17. Lá, o que entra; aqui, o que sai. Lá, para dentro da boca; aqui, de dentro da boca. Lá, para o ventre; aqui, do coração. Cada elemento tem o seu par com o sinal trocado.

O efeito da simetria é obrigar a comparação. Duas coisas atravessam a mesma abertura em direções contrárias, e o que as distingue não é a abertura — é o ponto de partida. Uma vem de fora e termina fora. A outra vem de dentro e revela quem a produziu.

"as coisas que saem da boca"

Aqui há um problema de leitura que precisa ser enfrentado, porque a frase parece dizer menos do que o contexto exige.

Se "sair da boca" fosse apenas falar, a lista do versículo seguinte não faria sentido. Ela trará homicídios, adultérios e furtos — coisas que não saem da boca de ninguém. Ou o versículo 19 não é o desdobramento do 18, ou "sair da boca" está cobrindo mais do que a fala.

A segunda hipótese é a que se sustenta. A boca, aqui, é a saída de tudo o que a pessoa produz para fora: as palavras em primeiro lugar, e com elas os atos que nascem da mesma decisão. O texto escolheu o órgão da fala como imagem de toda a expressão exterior, e o versículo seguinte confirma isso ao listar sob a mesma origem coisas verbais e coisas não verbais.

Não é figura arbitrária. A tradição de sabedoria de Israel já tratava a boca assim, como o lugar onde o que estava dentro fica visível. Provérbios 16:23 diz que o coração do sábio torna sábia a boca dele — a boca é a saída, e o que ela mostra é o que se formou antes, em outro lugar.

"vêm do coração"

Esta é a proposição decisiva do trecho inteiro, e ela é lida errado com uma frequência que vale enfrentar de frente.

Em português, "coração" virou palavra do afeto, e o leitor entende sentimento sem perceber que está entendendo. No vocabulário bíblico é outra coisa: é onde a pessoa pensa, decide, lembra e delibera — a análise do original mostra o campo da palavra e as passagens que o definem.

A consequência é dura, e é o contrário do que a leitura sentimental produz. Se o mal viesse dos sentimentos, haveria desculpa disponível: foi impulso, não foi de propósito, perdi a cabeça. O texto fecha essa porta. O que ele diz é que aquilo vem da faculdade que escolhe — e o que vem de onde se escolhe foi escolhido.

Há um segundo efeito, e ele desmonta outra leitura corrente. Se a origem é a deliberação, o ato exterior é sintoma, e não a doença. Quem corrige o comportamento sem tocar no que o produziu está tratando a manifestação — o que pode ser útil e não é o mesmo que curar.

"e são essas que contaminam o homem"

O fecho é onde a pregação corrente mais erra, e o erro é simples de descrever: lê-se o capítulo como se Jesus estivesse dizendo que impureza não existe.

Ele não diz isso. A palavra técnica do sistema de pureza — o verbo que significa tornar uma coisa comum, retirá-la do domínio consagrado — continua na frase, e continua afirmativa. Há contaminação, ela é real, e produz na pessoa um estado.

O que muda é a causa. E manter a palavra enquanto se muda a causa é uma operação bem mais radical do que abolir a categoria. Abolir seria dizer: esqueçam isso, não existe. Manter é dizer: existe, vocês têm razão em levar a sério, e vocês estão olhando para o lado errado.

É a mesma operação que o Sermão do Monte faz com os mandamentos. Ali, "não matarás" não é revogado — é levado até a irritação que precede o golpe; "não adulterarás" não é revogado — é levado até o olhar. Nem uma vez o mandamento é dispensado. Em todos os casos, a origem é recuada para dentro.

O que este versículo não diz

Convém marcar os limites, porque a extensão é fácil e é onde a leitura cristã costuma exagerar.

O versículo não diz que a religião externa é falsa. Não diz que os ritos são inúteis. Não diz que a lei cerimonial caducou. Não diz que "agora tudo é espiritual". Nenhuma dessas frases está aqui, e algumas delas são incompatíveis com o que o mesmo evangelho afirma em Mateus 5:17, quando registra que Jesus não veio revogar a lei.

O que está escrito é mais preciso e menos confortável: o lugar em que a contaminação se produz é o coração, e não o aparelho digestivo. É uma correção de endereço, não uma demolição.

Uma tensão dentro do próprio capítulo

Há um ponto que a honestidade obriga a registrar, e é melhor registrá-lo do que deixá-lo no ar.

Este versículo afirma que o que sai da boca contamina. Poucos versículos adiante, em Mateus 15:26, sai da boca de Jesus uma frase áspera sobre pães e cachorrinhos, dita a uma mulher estrangeira que pedia ajuda. O leitor atento percebe a tensão, e ela não deve ser abafada.

O contrapeso está no versículo seguinte a este, e é decisivo. A lista que virá não é uma lista de asperezas de linguagem: é de homicídio, adultério, furto, falso testemunho. São crimes. O que o texto põe sob o verbo "contaminar" tem essa magnitude, e usar o versículo 18 para julgar o tom de uma frase é aplicar a ele uma régua que ele não traz.

Isso resolve a tensão? Resolve o mal-entendido, que é diferente. A dificuldade de Mateus 15:26 permanece inteira e será tratada onde ela está. O que este versículo permite dizer é apenas que ele não é a régua com que aquela dificuldade se mede.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os discípulos

Continuam sendo o auditório, sem que nenhum seja nomeado. Este é o ponto da explicação em que mais se exige deles: aceitar que o eixo da pureza se desloca do objeto físico para a deliberação interior. Se houve resistência em algum momento, é plausível que tenha sido aqui — mas o texto não registra reação nenhuma, e a suposição é do leitor.

Os fariseus, ausentes e presentes

Não estão na sala desde o versículo 14. A frase mais radical de toda a discussão é dita, portanto, sem eles — no espaço em que se pode formular um argumento sem administrar o escândalo que ele causaria em público.

Vale reparar no efeito disso sobre o capítulo. O dito público, em Mateus 15:11, foi curto e enigmático. O desdobramento, feito em particular, é explícito. O evangelho distingue os dois planos, e essa distinção é característica do modo como Mateus organiza o ensino.

Nenhum profeta é citado

O versículo não traz fórmula de citação, não diz "está escrito", não nomeia texto nenhum. E, no entanto, a ideia de que a religião se decide no interior não é invenção dele: Deuteronômio 30:6 fala de circuncidar o coração, Jeremias 31:33 promete a lei escrita no coração, Ezequiel 36:26 promete um coração novo.

Jesus opera com esses textos sem os nomear, contando que o interlocutor os reconheça pelo vocabulário. É o mesmo estilo do Sermão do Monte, e é o estilo de quem fala para dentro de uma comunidade que compartilha as mesmas escrituras.

5. Pontos de Ensino

A categoria de contaminação não foi negada. Foi mantida e teve a causa trocada. Quem usa esta passagem para dizer que a preocupação com pureza é atraso religioso está afirmando o contrário do que o versículo afirma.

A origem do mal é a deliberação, não o sentimento. Isso retira a desculpa mais usada — a de que foi impulso, de que não foi de propósito. O que vem do lugar onde se decide foi decidido, e a Bíblia não trata o coração como o lugar dos afetos descontrolados.

O comportamento exterior é sintoma. Corrigir a conduta sem tocar no que a produz é trabalho legítimo e incompleto. O versículo não dispensa a correção do comportamento; diz apenas onde a coisa começa.

A boca revela. A tradição de sabedoria de Israel já dizia isso, e o versículo a assume: o que se diz não é uma camada separada da pessoa, é o que dela sai. Quem se surpreende com o próprio comentário deveria se interessar mais pelo que o produziu do que pelo comentário.

Radicalizar não é abolir. Este é o padrão do Jesus de Mateus, e ele aparece aqui como aparece no Sermão do Monte: o mandamento não é retirado, a origem dele é recuada para dentro. Ler radicalização como abolição é o erro que atravessa boa parte da pregação sobre este capítulo.

6. Aspectos Filosóficos

O problema

Onde reside o mal de um ato mau? No ato, ou na decisão que o produziu?

A pergunta parece escolástica e não é. Dela dependem coisas práticas: como se julga alguém, o que se corrige quando se quer corrigir uma pessoa, e se é possível ser mau sem nunca ter feito nada.

Este versículo dá uma resposta clara: o que contamina vem do lugar onde se delibera. O que segue é leitura do comentarista sobre a discussão filosófica que essa resposta abre, e não interpretação do que Mateus quis dizer. O evangelho não tem o conceito de vontade, não distingue intenção de motivo, não teoriza.

A resposta da interioridade

Uma linha de resposta é antiga e tem em Immanuel Kant (filósofo alemão do século XVIII) a formulação mais radical: o que decide o valor de um ato não é o resultado dele nem a conformidade exterior a uma regra, e sim o princípio a partir do qual a pessoa agiu. Um ato exteriormente correto praticado por interesse não vale moralmente nada; uma disposição correta que fracasse por falta de meios continua valendo integralmente.

A afinidade com o versículo é evidente e já foi bastante explorada. Os dois localizam a qualidade moral no interior, e os dois recusam avaliar a pessoa pelo que se vê. Só que a afinidade não é o que há de interessante aqui — o interessante é a objeção que vem de fora dessa tradição, e que ninguém costuma pôr ao lado deste versículo.

Aristóteles: a virtude se forma fazendo

A tese contrária é mais antiga e não é menos séria.

Na Ética a Nicômaco, Aristóteles trata a virtude como uma disposição adquirida, e o modo de adquiri-la é praticar. Ninguém nasce justo e ninguém se torna justo por convencimento. Torna-se justo praticando atos justos, do mesmo jeito que se torna construtor construindo e citarista tocando cítara. A frase dele é direta: as virtudes se adquirem pelo exercício, e é da prática repetida que nasce o caráter.

Daí decorre uma inversão. Para Aristóteles, não é o interior que produz o exterior — pelo menos não no começo. É o exterior que forma o interior. Por isso ele dá tanta importância ao hábito, à educação desde criança, ao ambiente e à lei: são essas coisas exteriores que fabricam a disposição de onde, mais tarde, os atos bons sairão espontaneamente.

Nessa leitura, o rito não é encenação vazia. É treinamento. Lavar as mãos todo dia antes de comer não seria uma exigência sobre a matéria: seria um exercício que produz uma pessoa de determinado tipo — e o programa farisaico de estender a disciplina do sacerdote ao leigo comum faz muito sentido dentro dessa lógica.

Onde a disputa realmente está

Feita a apresentação dos dois lados, é preciso desfazer uma oposição fácil demais.

Aristóteles não discordaria de que os atos maus procedem de quem os pratica. Ele diz expressamente que o homem injusto age injustamente porque é injusto. O que ele acrescenta é uma pergunta que o versículo não faz: e de onde veio o coração que decide assim?

Aí está a disputa real. Não é sobre onde o ato nasce; é sobre a direção da formação. O versículo afirma que o que sai vem de dentro, e para. Não diz nada sobre como o dentro chegou a ser o que é, e portanto não fecha a porta para a resposta de Aristóteles.

Isso importa porque a leitura protestante corrente costuma usar esta passagem para desqualificar toda prática exterior como formalismo. O versículo não autoriza esse salto. Ele diz de onde a contaminação vem; não diz que os hábitos não formam ninguém.

O que fica sem resposta

Nenhuma das duas posições resolve um problema que o versículo cria: se o que decide está dentro, ninguém tem acesso a ele — nem ao próprio. O próprio Kant admite que jamais se pode ter certeza de que um ato foi feito por dever, e não por alguma inclinação bem disfarçada.

O evangelho oferece um contorno prático, em Mateus 7:16: julga-se pelo fruto. É o único acesso disponível, e continua sendo acesso indireto — o exterior deixa de ser a causa e passa a ser o indício, o que é outra coisa e não é a mesma segurança.

7. Aplicações Práticas

O impulso não é álibi

A desculpa mais usada depois de um ato de que a pessoa se envergonha é a de que aquilo não foi decidido: saiu, foi impulso, perdeu-se a cabeça.

O versículo não aceita essa descrição. O que sai vem da faculdade que escolhe, e não da que sente. Isso não significa que toda reação seja premeditada em detalhe — significa que aquilo saiu de algum lugar que já estava formado, e que esse lugar é a pessoa.

A aplicação prática é desconfortável e é útil. Depois de dizer aquilo que não devia ter dito, a pergunta produtiva não é "por que perdi o controle?". É "o que estava ali, para ter saído aquilo?". A primeira pergunta termina em desculpa; a segunda termina em trabalho.

Trabalhar no sintoma tem limite

Corrigir o comportamento é legítimo e às vezes urgente. Mas o versículo estabelece uma ordem de causas, e quem a ignora gasta esforço no lugar errado por muito tempo.

Quem só administra a manifestação — vigia a palavra, evita a situação, controla a reação — obtém resultado real e instável, porque a fonte continua produzindo. É trabalho que precisa ser refeito todo dia e que fracassa exatamente nos momentos em que a vigilância cede.

Isso não é argumento para abandonar a vigilância. É argumento para não confundi-la com a solução, e para reservar parte do esforço para o que está antes dela.

A palavra dita não volta

O capítulo mostra um mundo em que dizer produzia efeitos que ninguém desfazia — uma bênção que não se retomava, um voto que obrigava, uma fórmula que cancelava o dever para com os pais.

Muito disso continua verdadeiro sem nenhuma máquina jurídica por trás. A frase dita numa discussão de família, o comentário sobre alguém que chega ao ouvido de quem foi comentado, a promessa feita para encerrar uma conversa: nada disso se apaga com retratação. O que a retratação faz é acrescentar informação, não remover a primeira.

A consequência prática é cara: o cuidado tem de ficar antes, e não depois. Quase toda a energia que se gasta em consertar teria rendido mais se tivesse sido gasta em não dizer.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Então os sentimentos não são o problema?

O versículo não fala deles, e essa é a resposta exata. Ele localiza a origem na faculdade que delibera, não na que sente. Isso não significa que a Bíblia trate os afetos como irrelevantes — significa que não é sobre eles que esta frase está falando. Atribuir ao versículo uma doutrina sobre emoções é acrescentar o que ele não traz.

Se tudo vem do coração, adianta alguma coisa mudar de comportamento?

O versículo não responde. Ele estabelece de onde os atos procedem e não diz como o coração se forma. A tradição filosófica que sustenta que a prática forma o caráter — tratada nos aspectos filosóficos — não é contrariada por esta frase, porque ela responde a outra pergunta. Quem quiser decidir a questão terá de fazê-lo com outros textos.

Por que Jesus continua usando a palavra "contaminar" se está mudando o sistema?

Porque discute de dentro. Manter o vocabulário do interlocutor e mostrar que ele aponta para outro lugar é mais eficaz do que trocar de vocabulário — e, no caso, mais honesto, porque a categoria não estava sendo negada. A observação vale para toda a passagem: nenhuma palavra nova é introduzida.

Este versículo diz que os ritos não servem para nada?

Não. Ele não fala de ritos. Diz de onde vem a contaminação, e o que se conclui a partir daí sobre o valor das práticas religiosas é conclusão do leitor. O próprio evangelho registra, em Mateus 5:17, que a lei não estava sendo revogada, o que dificulta bastante a leitura demolidora.

Como saber o que está no coração de alguém, se ele é invisível?

Não se sabe. O evangelho oferece um critério indireto — o do fruto, em Mateus 7:16 —, que é o único acesso disponível e que continua sendo indireto. A pretensão de ler intenções alheias é justamente o que este critério dispensa: julga-se o que se vê, sabendo que se está julgando um indício.

9. Conexão com Outros Textos

A frase que este versículo desdobra

Mateus 15:11 — "Não é o que entra na boca que contamina o homem; mas o que sai da boca, isso contamina o homem." O dito público, do qual este versículo é a explicação.

Mateus 15:19 — "Pois do coração procedem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios..." A lista que responde à pergunta que este versículo deixa aberta.

A mesma cena em Marcos

Marcos 7:20-23 — "O que sai do homem, isso é que contamina o homem. Pois de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios..." A formulação paralela, com lista mais longa e outra ordem.

A palavra que obriga, na lei

Números 30:2 — "Quando um homem fizer voto ao SENHOR ou jurar, obrigando-se a alguma coisa, não violará a sua palavra; segundo tudo o que saiu da sua boca, fará." A expressão da lei é a mesma que este versículo usa.

Deuteronômio 23:23 — "O que saiu dos teus lábios guardarás e cumprirás, tal como voluntariamente votaste ao SENHOR teu Deus." O voto como palavra que vincula.

A lei escrita no interior

Deuteronômio 30:6 — "O SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração e o coração da tua descendência, para amares o SENHOR teu Deus de todo o teu coração." A operação interior prometida pela própria Torá.

Jeremias 31:33 — "Porei a minha lei no interior deles e a escreverei no seu coração." A aliança nova, com a lei fora das tábuas de pedra.

Ezequiel 36:26 — "Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne." A substituição do órgão da decisão.

O coração na tradição de sabedoria

Provérbios 4:23 — "Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida." A imagem da fonte, a mais próxima deste versículo.

Provérbios 16:23 — "O coração do sábio torna sábia a sua boca e aumenta o saber dos seus lábios." A boca como saída do que se formou antes.

Jeremias 17:9-10 — "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração." O coração como objeto do exame divino.

A mesma operação no Sermão do Monte

Mateus 5:21-22 — "Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás. Eu, porém, vos digo que todo aquele que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento." O mandamento levado até a origem interior.

Mateus 5:27-28 — "Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo que qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura já adulterou com ela no seu coração." A mesma operação, com outro mandamento.

Mateus 7:16 — "Pelos seus frutos os conhecereis." O critério indireto que o evangelho oferece diante de uma origem invisível.

A herança do argumento

Romanos 2:28-29 — "Judeu não é o que o é exteriormente; a circuncisão é a do coração, no espírito, e não segundo a letra." A mesma operação em vocabulário paulino.

Tiago 1:26 — "Se alguém supõe ser religioso, deixando de refrear a língua, antes enganando o próprio coração, a religião desse é vã." A antítese entre a língua e o coração, retomada.

10. Original Grego e Análise

Nota preliminar: a análise abaixo é do grego koiné, língua em que Mateus foi composto. O versículo é um caso típico do evangelho: a forma da frase é grega, e o conteúdo das palavras é hebraico, herdado da tradução grega do Antigo Testamento.

Texto em português

Mas as coisas que saem da boca vêm do coração, e são essas que contaminam o homem.

Texto grego

τὰ δὲ ἐκπορευόμενα ἐκ τοῦ στόματος ἐκ τῆς καρδίας ἐξέρχεται, κἀκεῖνα κοινοῖ τὸν ἄνθρωπον.

Transliteração

ta de ekporeuomena ek tou stomatos ek tēs kardias exerchetai, kakeina koinoi ton anthrōpon.

Análise palavra por palavra

τὰ δὲ ἐκπορευόμενα — ta de ekporeuomena, "mas as coisas que saem". Artigo neutro plural, partícula de e particípio presente de ekporeuomai.

A partícula de é adversativa: marca a oposição com o versículo 17, e não uma simples ligação.

O particípio é a peça do espelho. No versículo 17 estava eisporeuomenon, com o prefixo eis- ("para dentro"); aqui está ekporeuomena, com ek- ("para fora"). Mesmo verbo de trajeto, prefixo invertido.

E há uma diferença de número que faz trabalho: lá o particípio estava no singular, porque o que entra é uma coisa só, o alimento. Aqui está no plural, e o plural abre espaço para a lista que virá no versículo seguinte.

ἐκ τοῦ στόματος — ek tou stomatos, "da boca". Preposição ek ("de dentro de") com genitivo, construção padrão para indicar de onde algo vem. É a mesma palavra stoma do versículo 17, agora funcionando como saída, e não como entrada.

ἐκ τῆς καρδίας — ek tēs kardias, "do coração". A mesma construção da anterior, e a repetição é deliberada.

Reparar nos dois ek em sequência é entender a frase. As coisas saem da boca e vêm do coração. São duas origens em níveis diferentes: a boca é a porta imediata; o coração é a fonte. A sintaxe distingue os dois, e é por isso que a frase não é redundante.

O campo da palavra kardia

Esta é a palavra que decide o versículo, e o campo dela não é o que o leitor de português espera.

No grego clássico, kardia designava o órgão físico, o músculo. Nos autores helenísticos, o uso se ampliou para incluir a sede dos afetos. Mas o grego da Bíblia não é o grego clássico: nele, o campo da palavra é ditado pelo uso da Septuaginta — a tradução grega do Antigo Testamento, feita a partir do século III a.C. —, onde kardia traduz sistematicamente o hebraico lev.

E lev é outra coisa. É a palavra mais frequente do vocabulário interior da Bíblia hebraica, com mais de oitocentas ocorrências, e o que ela designa é a sede da vida deliberativa. Vale ver os usos, porque eles definem o campo melhor do que qualquer definição.

É onde a pessoa pensa: Ester 6:6 diz que Hamã disse no seu coração — quer dizer, pensou consigo.

É onde a pessoa decide: Daniel 1:8 registra que Daniel assentou no seu coração não se contaminar com as iguarias do rei. A decisão é tomada ali.

É onde a pessoa guarda: o Salmo 119:11 fala de esconder a palavra no coração, no sentido de memorizá-la.

É onde a pessoa planeja: Provérbios 16:9 diz que o coração do homem traça o seu caminho.

E é o que Deus examina quando quer saber quem alguém é, segundo Jeremias 17:10 e 1 Samuel 16:7.

Os afetos, nesse mapa, tendem a ficar em outros lugares do corpo. Os rins aparecem como sede das emoções profundas, no Salmo 16:7; as entranhas, como sede da compaixão, em Isaías 63:15; o fígado, em Lamentações 2:11, em contexto de dor extrema. O coração é o órgão do juízo.

O problema de tradução

Daí resulta uma dificuldade real, e ela não tem solução elegante.

"Coração", em português contemporâneo, virou palavra do afeto. A mudança é antiga: o latim cor ainda tinha o sentido deliberativo — dele vem "recordar", que é trazer de volta ao coração, isto é, à memória, e "acordo", que é pôr dois corações no mesmo lugar. O deslocamento para a esfera sentimental se completou nos séculos seguintes, e o período romântico o consolidou.

O resultado é que o leitor de hoje lê "coração" e entende sentimento, quando o texto está dizendo deliberação. Traduções mais exatas exigiriam algo como "sede da decisão" ou "coração que delibera", e nenhuma dessas expressões cabe numa frase que precisa soar natural. Mantém-se "coração", com a advertência de que a palavra carrega, no texto bíblico, bem mais do que os afetos.

ἐξέρχεται — exerchetai, "sai", "procede". Verbo exerchomai, presente do indicativo na terceira pessoa do singular — o singular com sujeito neutro plural é regra normal do grego, e não indica nada de especial.

É verbo de procedência, e compartilha com o particípio inicial o prefixo ek-. O presente descreve processo contínuo, e não evento passado: as coisas continuam saindo.

κἀκεῖνα — kakeina, "e essas". Contração de kai ("e") com ekeina ("aquelas"). O demonstrativo é enfático: essas, e não as outras — quer dizer, não as que entram, tratadas no versículo anterior.

κοινοῖ — koinoi, "contamina". Verbo koinóō, presente do indicativo. É a palavra técnica de todo o capítulo, e merece exame.

Ela vem do adjetivo koinos, que significa "comum, ordinário, partilhado" — a mesma raiz de koinōnia ("comunhão") e do próprio nome da língua, koinē, "a comum". Fora do vocabulário religioso judaico, a palavra não tem carga negativa nenhuma: comum é bom.

Dentro do judaísmo de língua grega, porém, koinos ganhou sentido técnico e virou o oposto exato de hagios, "santo, separado". O que é comum é o que está fora do domínio consagrado, o que não pode ser levado à presença de Deus sem tratamento prévio. E o verbo koinóō é o causativo disso: tornar comum, retirar do domínio do sagrado — daí "profanar", "contaminar".

O uso aparece em 1 Macabeus 1:47 e 1:62, no relato da perseguição selêucida do século II antes de Cristo: os fiéis preferem morrer a comer o alimento comum que lhes é imposto, para não profanar a aliança santa. Para um leitor judeu de língua grega, a palavra carregava essa memória de martírio — e não era, portanto, termo neutro.

Um dado que vale registrar: koinóō aparece cinco vezes em Mateus, e as cinco estão neste capítulo — duas no versículo 11, uma aqui e duas no versículo 20. Fora desta discussão, o evangelista não usa o verbo em lugar nenhum. Ele importou o vocabulário técnico da pureza exatamente onde precisava dele.

τὸν ἄνθρωπον — ton anthrōpon, "o homem". Anthrōpos designa o ser humano como espécie, em oposição a anēr ("varão"). O artigo tem valor genérico: não um homem específico, mas qualquer pessoa.

Nota textual

A redação é uniforme entre as principais edições críticas — Nestle-Aland em sua 28ª edição, o texto das Sociedades Bíblicas Unidas e o texto bizantino de Robinson e Pierpont —, sem divergências que afetem o sentido.

Há uma variante menor: alguns testemunhos trazem o verbo no singular em lugar do particípio plural na abertura. A leitura adotada é a mais antiga e a mais difícil, e a variante tem cara de acerto de copista. As palavras kardia e koinóō são estáveis em toda a tradição.

11. Conclusão

Do que foi examinado, este versículo leva a quatro conclusões.

A primeira é que a acusação é mais grave do que a leitura corrente supõe. Localizar a origem na faculdade que delibera, e não na que sente, retira do quadro a figura do impulso incontrolável. O que sai foi produzido onde se escolhe — e isso vale como diagnóstico antes de valer como condenação.

A segunda é que a categoria de pureza permanece de pé. O verbo do sistema continua na frase, afirmativo. Não se está diante de uma passagem que dissolve a noção de contaminação: está-se diante de uma que a confirma e lhe muda o endereço. Quem lê aqui a abolição da pureza está lendo o oposto do que a frase faz.

A terceira é sobre o método. A resposta é construída inteiramente com as palavras do interlocutor — a boca, a contaminação, o homem —, sem introduzir um termo novo sequer. É o mesmo procedimento do argumento anterior, e ele explica por que a discussão do capítulo é difícil de recusar: não há de onde acusá-la de vir de fora.

A quarta é um problema que fica aberto, e é justo terminar por ele. Se o que decide está dentro e é invisível, nenhuma comunidade humana consegue verificar o que passou a ser decisivo. O evangelho oferece o critério do fruto, que é indício e não prova. Deslocar a pureza para o interior tornou o julgamento mais verdadeiro e menos praticável ao mesmo tempo, e essa é a herança concreta que este versículo deixa.

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Mateus 15:18

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