📖 Navegar na Bíblia:

Mateus 6:23

✍️ Por Alberto Adriano·20 de novembro de 2025·⏱️ 11 min de leitura·👁 521 acessos
mas, se o seu olho for mau, todo o seu corpo estará em trevas. Se, portanto, a luz que há em você é treva, quão grandes são essas trevas!
Mateus 6:23 — o olho mau enche o corpo de trevas; a luz que vira escuridão

Estudo


Mas se os seus olhos forem maus, todo o seu corpo será cheio de trevas. Portanto, se a luz que está dentro de você são trevas, que tremendas trevas são!

1. Introdução

Este versículo é o lado escuro do anterior. Se o olho bom enche o corpo de luz, o olho mau o enche de trevas. Jesus completa o ditado com o seu polo negativo e acrescenta uma frase de peso quase assustador: "Assim, se a luz que há em ti são trevas, como são grandes essas trevas!" Não é só a ausência de luz que está em jogo, mas algo pior — a luz que se corrompeu em escuridão sem que a pessoa perceba.

Assim como no versículo 22, a chave é a expressão semita. "Olho mau" (ra ayin), no idioma da época, significava avareza, inveja, mesquinhez. Colocado entre o ensino dos tesouros e a escolha entre Deus e Mamom, o "olho mau" aqui é, com alto grau de certeza, o olhar cobiçoso, agarrado ao dinheiro. A avareza não deixa apenas de iluminar; ela escurece por dentro, e escurece de um jeito especialmente perigoso, porque se disfarça de bom senso, de prudência, de cuidado. É a treva que se toma por luz.

2. Contexto Histórico e Cultural

A expressão "olho mau" tinha, no mundo semita, um sentido bem definido, que a tradução literal esconde. Não se referia a mau-olhado no sentido supersticioso, mas à avareza e à inveja. Provérbios 28:22 é explícito: "Quem tem pressa para ter riquezas é um homem de olho mau." O olho mau é o do avarento que cobiça, que não reparte, que olha o próximo e os bens com ganância. Jesus fala a ouvintes que entendiam essa carga sem explicação.

A imagem da luz e das trevas, por sua vez, era universal e forte. No escuro, o corpo tropeça, se perde, não encontra o caminho. Mas Jesus leva a metáfora a um extremo inquietante: e se a própria fonte de luz interior estiver apagada? A lâmpada que deveria iluminar, apagada, não deixa apenas o quarto escuro — deixa quem confia nela completamente cego, e pior, cego sem saber. Essa é a treva "grande" do versículo: não a escuridão de fora, mas a de dentro, a de quem perdeu a capacidade de distinguir a luz da sombra.

3. Análise Teológica do Versículo

"Porém se o teu olho for maligno"

Um olho "mau" representa a falta de discernimento espiritual ou de clareza moral. Historicamente, a expressão podia denotar inveja ou ganância, como ilustra Provérbios 28:22. O alerta adverte contra deixar que os desejos pecaminosos ou o materialismo obscureçam o foco espiritual.

"Todo o teu corpo será cheio de trevas"

A frase enfatiza que a cegueira espiritual afeta toda a vida moral e ética da pessoa. Assim como a cegueira física limita a locomoção no mundo, a cegueira espiritual impede o acesso à verdade e à direção divinas, resultando numa vida apartada de Deus.

"Assim, se a luz que há em ti são trevas"

Esta afirmação paradoxal expõe o perigo da autoilusão: aquilo que se toma por "luz" ou verdade pode, na realidade, ser trevas, quando a percepção espiritual está corrompida. Ecoa Isaías 5:20, que adverte contra inverter as categorias morais, chamando o mal de bem e o bem de mal.

"Como são grandes essas trevas!"

A exclamação sublinha a severidade e a profundidade das trevas espirituais de quem está iludido. Não se trata de mera ausência, mas de um estado profundo e abrangente que afeta a relação da pessoa com Deus e com os outros, apontando, por contraste, para Cristo como a verdadeira luz.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

Jesus Cristo — quem profere este versículo no Sermão do Monte.

Os discípulos — o público principal, representando todos os seguidores de Cristo.

Eventos

O Sermão do Monte — o grande ensino em que Jesus expõe os princípios do Reino dos céus.

O contraste entre luz e trevas — símbolo do discernimento espiritual e da cegueira produzida pela cobiça.

5. Pontos de Ensino

A importância da percepção espiritual

O nosso "olho" ou foco determina o estado do ser interior. Um olhar centrado em Deus conduz à saúde e à clareza espiritual.

Guardar-se das trevas espirituais

Assim como a escuridão física obscurece a visão, a cobiça e o materialismo turvam o juízo e conduzem ao erro.

As consequências do olho mau

Deixar que os desejos mundanos dominem o foco resulta em trevas espirituais que afetam todo o ser e a relação com Deus.

Buscar a luz de Cristo

Procurar ativamente a luz por meio da oração, da Escritura e da comunhão mantém a visão espiritual clara.

O perigo da autoilusão

A treva mais grave é a de quem toma a própria escuridão por luz e não percebe o próprio engano.

6. Aspectos Filosóficos

A frase mais forte do versículo não é sobre a treva, mas sobre a treva disfarçada de luz. "Se a luz que há em ti são trevas, como são grandes essas trevas!" Aqui Jesus toca no ponto mais perigoso da condição humana: não o erro que se reconhece como erro, mas o erro que se toma por verdade. O avarento não se vê como avarento; chama a sua cobiça de prudência, o seu apego de responsabilidade, a sua mesquinhez de bom senso. A escuridão que se sabe escuridão ainda pode buscar a luz; a que se crê luz não busca nada — está satisfeita consigo.

Há uma lucidez desconcertante nisso. O texto não fala do descrente declarado, mas de quem tem uma "luz interior" — uma consciência, um senso moral, uma bússola — e a deixou corromper sem notar. Isaías já denunciara os que "chamam o mal de bem, e o bem de mal". É o estágio em que o próprio instrumento de julgar está avariado, de modo que a pessoa não tem como perceber o próprio estado: usaria, para avaliar-se, exatamente a faculdade que está quebrada. Por isso a treva é "grande". Não pela intensidade do escuro, mas pela impossibilidade de reconhecê-lo de dentro. E é aí que o versículo, sem dizê-lo diretamente, aponta para a necessidade de uma luz que venha de fora — porque quem se iludiu por inteiro não consegue se resgatar sozinho.

7. Aplicações Práticas

Duvidar da própria certeza. A treva mais perigosa é a que se sente luz. Vale cultivar a humildade de suspeitar de si mesmo, sobretudo quando se está convicto demais de estar certo.

Nomear a cobiça pelo nome. A avareza raramente se apresenta como avareza; veste-se de prudência. Vale o exame honesto de quando o cuidado com os bens virou apego cego.

Buscar luz de fora. Quem se iludiu inteiro não se corrige sozinho. A Escritura, o conselho sincero e a comunidade servem justamente para trazer a luz que o olho corrompido já não vê.

Vigiar o que entra pelos olhos. Aquilo em que fixamos o olhar molda o interior. Deixar a cobiça ocupar a visão é deixar as trevas se instalarem por dentro.

Não confundir sucesso com luz. Uma vida próspera e admirada pode estar, por dentro, cheia de trevas. O brilho exterior não garante a saúde do olho.

Voltar-se para a verdadeira luz. O versículo aponta, em silêncio, para Cristo. Manter-se perto dele é o modo de não trocar, sem perceber, a luz pela escuridão.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Qual é o significado de Mateus 6:23?

É o polo negativo do versículo anterior: o olho mau — no contexto, o olhar avarento — enche a vida de trevas. E há um agravante: quando a própria luz interior se corrompe, a escuridão é total e não se percebe.

2. Como o versículo define a cegueira espiritual no dia a dia?

Como o estado de quem deixou a cobiça turvar o juízo a ponto de não distinguir mais o bem do mal. É uma cegueira que se ignora.

3. Que passos evitam essa "grande treva"?

Duvidar das próprias certezas, nomear a avareza, buscar a correção de fora — na Escritura e no conselho sincero — e manter-se perto da luz de Cristo.

4. Como o versículo se conecta a Provérbios sobre o caminho das trevas?

Provérbios 4:19 diz que "o caminho dos perversos é como a escuridão; não sabem nem em que tropeçam" — exatamente a cegueira que não se reconhece, descrita aqui.

5. Como garantir que o "olho" permaneça são?

Praticando a generosidade em vez da cobiça, guardando o que se fixa com o olhar e submetendo o próprio juízo à luz da verdade de Deus.

6. O que significa "se a luz que há em ti são trevas"?

Significa que a bússola interior — a consciência, o senso moral — pode se corromper e passar a apontar errado. Quando o próprio instrumento de julgar falha, o engano se torna total.

7. Por que essas trevas são chamadas de "grandes"?

Não pela intensidade do escuro, mas pela impossibilidade de reconhecê-lo de dentro. Quem toma a própria treva por luz não procura sair dela — e essa é a pior das cegueiras.

9. Conexão com Outros Textos

"A lâmpada do corpo é o olho... porém se for mau, também todo teu corpo será tenebroso." (Lucas 11:34)

A versão paralela em Lucas traz o mesmo contraste, confirmando que o olho mau escurece a pessoa inteira.

"Olha pois que a luz que em ti há não sejam trevas." (Lucas 11:35)

Lucas acrescenta o alerta direto: vigie para que a sua "luz" não seja, na verdade, escuridão — o próprio ponto deste versículo.

"Ai dos que chamam o mal de bem, e o bem de mal; que trocam as trevas pela luz, e a luz pelas trevas..." (Isaías 5:20)

Isaías descreve exatamente a inversão de que Jesus fala: tomar a treva por luz é o auge da cegueira moral.

"E esta é a condenação: que a luz veio ao mundo, e as pessoas amaram mais as trevas que a luz, porque suas obras eram más." (João 3:19)

João mostra a raiz da preferência pelas trevas: não é falta de luz, mas amor à escuridão por causa das obras.

"Quem tem pressa para ter riquezas é um homem de olho mau; e ele não sabe que a miséria virá sobre ele." (Provérbios 28:22)

A definição bíblica do "olho mau" como avareza, que sustenta a leitura econômica do versículo.

10. Original Grego e Análise

Texto em português: mas, se o seu olho for mau, todo o seu corpo estará em trevas. Se, portanto, a luz que há em você é treva, quão grandes são essas trevas!

Texto grego: ἐὰν δὲ ὁ ὀφθαλμός σου πονηρὸς ᾖ, ὅλον τὸ σῶμά σου σκοτεινὸν ἔσται. εἰ οὖν τὸ φῶς τὸ ἐν σοὶ σκότος ἐστίν, τὸ σκότος πόσον;

Transliteração: Ean de ho ophthalmos sou ponēros ē, holon to sōma sou skoteinon estai. Ei oun to phōs to en soi skotos estin, to skotos poson?

Análise palavra por palavra:

  • ponēros (πονηρὸς) — "mau, maligno": o oposto de haplous ("simples") do versículo anterior. No idioma semita, "olho mau" (ra ayin) significava avareza e inveja; a palavra grega carrega aqui essa mesma carga moral, não a de mera doença ocular.
  • skoteinon (σκοτεινὸν) — "cheio de trevas, tenebroso": o contraponto exato de phōteinon ("cheio de luz"). O olho mau produz na pessoa o oposto do que o olho são produzia.
  • to phōs to en soi (τὸ φῶς τὸ ἐν σοὶ) — "a luz que há em ti": a fonte de luz interior, a consciência ou o discernimento. O drama do versículo é justamente essa luz se apagar.
  • skotos (σκότος) — "trevas, escuridão": a palavra é repetida três vezes na segunda frase, martelando a ideia. Não é falta de luz, é a luz virada em treva.
  • to skotos poson (τὸ σκότος πόσον) — "quão grandes as trevas": literalmente "as trevas, quanto?". A construção é uma exclamação de espanto diante da magnitude da escuridão.

Nota teológica: a genialidade do versículo está na frase final. Jesus não fala da treva comum, a ausência de luz que qualquer lâmpada resolve, mas da treva que ocupou o lugar da luz. Quando o órgão que deveria iluminar — a consciência, o juízo moral — está ele mesmo corrompido, a pessoa perde até a régua para medir o próprio estado. A escuridão exterior se combate com uma luz; a escuridão interior, a de quem chama a sua treva de luz, é "grande" porque não se sabe escura. É a condição do avarento que se acha prudente, do iludido que se acha lúcido. E o único remédio, que o texto sugere sem nomear, é uma luz que venha de fora do eu — pois de dentro, o olho quebrado nada mais enxerga.

11. Conclusão

Mateus 6:23 fecha o ditado do olho com uma advertência que ultrapassa o tema do dinheiro sem o abandonar. O olho mau — o olhar avarento — não apenas deixa de iluminar; escurece a vida inteira. E o pior não é a escuridão em si, mas a escuridão que se toma por luz, a cobiça que se convence de ser virtude, o engano que se sente verdade.

Fica o alerta e, nas entrelinhas, a esperança. O alerta: é possível estar em trevas profundas e chamá-las de luz, satisfeito com a própria cegueira. A esperança: quem desconfia da própria escuridão já começou a procurar a saída — e a saída existe, mas vem de fora, da luz que o versículo aponta sem nomear. Antes de servir a Deus ou a Mamom, como dirá o próximo versículo, é preciso enxergar direito qual dos dois se está, de fato, servindo.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Mateus 6:23

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia1.039 / 31.102 3,34%
Antigo Testamento548 / 23.145 2,37%
Novo Testamento491 / 7.957 6,17%