Pegue o que é seu e vá embora. Eu quero dar a este último o mesmo que dei a você.
1. Introdução
O dono da vinha encerra a discussão devolvendo ao reclamante exatamente o que havia sido combinado, e manda que ele vá embora. A segunda metade do versículo dá o motivo do pagamento igual ao último contratado, e o motivo é um só: ele quer. Ficam lado a lado, na mesma frase, duas coisas de natureza diferente — um salário que se pode exigir e uma dádiva que não se pode exigir. O texto não diz se o trabalhador aceitou a moeda, nem apresenta nenhuma razão de mérito para a decisão do dono. É a primeira das duas respostas do proprietário, e a mais seca das duas.
2. Contexto Histórico e Cultural
O documento que uma frase dessas substituía
"Pegue o que é seu" é, em três palavras, um ato jurídico corriqueiro no mundo daquela cena — e existe um tipo de papel que fazia exatamente o que essa frase faz.
Os papiros gregos achados no Egito conservam milhares de recibos do dia a dia, e o gênero tem nome: apoché ("quitação"). A fórmula deles é sempre a mesma em substância — quem recebeu declara que recebeu, diz o valor, e acrescenta que nada mais tem a reclamar a esse título. O recibo não serve para provar que o dinheiro passou de mão; serve para encerrar a possibilidade de cobrança futura. Era o instrumento que transformava um pagamento em assunto fechado.
O proprietário da vinha não tem papel nem escriba na cena, e faz o mesmo movimento com a voz. Ele não diz "aqui está o seu denário", o que seria a entrega; diz "pegue o que é seu", o que é a declaração de que a obrigação está cumprida e o vínculo terminou. A espécie de contrato em que esses dois homens entraram de manhã, e o que a ausência de valor combinado fazia com ele, estão tratados nos estudos de Mateus 20:2 e Mateus 20:4.
Dar não era uma variedade de pagar
A segunda metade do versículo cai numa categoria jurídica inteiramente diferente da primeira, e os juristas romanos a mantinham separada com cuidado.
A doação — donatio, em latim — não era um contrato de troca. Não havia duas prestações se equilibrando, não havia preço, e não nascia dela nenhuma obrigação para quem recebia. E, o que mais importa aqui, ela não podia ser exigida: ninguém tinha ação para pedir em juízo uma doação que não lhe foi feita, nem para reclamar de uma doação feita a terceiro.
Roma chegou a legislar sobre isso, e o modo como legislou mostra o quanto a categoria era tratada à parte. A lex Cincia, de 204 antes de Cristo, limitou o valor das doações a quem não fosse parente e proibiu os advogados de receber presentes por defender causas. Era uma lei para conter a liberalidade, não para organizá-la como se fosse comércio — o que só faz sentido se doar e vender fossem coisas de naturezas distintas.
O versículo põe as duas categorias numa única frase: "pegue o que é seu" é quitação de contrato, e "eu quero dar a este último" é doação. Elas estão lado a lado, e a reclamação do trabalhador consiste em tratá-las como se fossem a mesma coisa.
A dispensa tinha um custo que hoje passa despercebido
Quem trabalhava por diária não tinha relação nenhuma com o empregador depois do pagamento.
O vínculo começava de manhã na praça e terminava na hora da moeda. No dia seguinte era preciso voltar à praça e ser contratado outra vez, por esse mesmo homem ou por outro. Numa aldeia havia poucos proprietários de vinha e uma janela curta de colheita, de modo que ouvir "vá embora" de um deles plausivelmente custava mais do que o fim de uma conversa. O texto não diz isso, e a inferência vem de como funcionava o trabalho por dia, não do versículo. Mas ela explica por que a ordem soa dura mesmo acompanhada do pagamento integral.
Uma última observação sobre o que a frase encerra. Ela fecha a conta e fecha a relação ao mesmo tempo, e no mundo do trabalho por diária essas duas coisas caminhavam juntas: não havia contrato por prazo, não havia aviso prévio e não havia nada a rescindir. A única coisa que ligava os dois homens era o denário, e o denário acabou de ser entregue.
3. Análise Teológica do Versículo
"Pegue o que é seu"
A moeda já é dele, e o dono diz isso em três palavras.
Chamar o denário de "o que é seu" é uma concessão inteira: o pagamento não é favor, não é gesto de boa vontade, não é algo que o proprietário poderia ter retido. É propriedade do trabalhador, adquirida pelo acordo da manhã.
Por que dizer isso, se o homem já estava com a moeda na mão? Duas leituras. Primeira: o trabalhador tinha recusado o denário, ou estava devolvendo-o — a ordem "pegue" teria objeto visível, e é assim que o Expositor's Greek Testament ("O Testamento Grego do Expositor", comentário inglês do fim do século XIX) imagina a cena. Segunda: é a fórmula que fecha uma conta, o modo corrente de declarar que nada mais está pendente. Mateus não descreve gesto nenhum, e não é possível decidir; a diferença muda o tom do episódio, não o seu conteúdo.
O que o dono não diz pesa mais. Ele não afirma que o homem trabalhou mal, não reduz o pagamento, não o chama de mau, não cancela o acordo. A resposta inteira se mantém dentro dos termos do contrato — e por isso as leituras que transformam o primeiro trabalhador num réprobo acrescentam ao versículo uma condenação que ele não pronuncia.
"e vá embora"
Aqui está a aspereza do versículo, e ela é real.
A ordem dispensa o homem. Depois dela não há mais conversa com ele: o proprietário diz uma frase, faz duas perguntas no versículo seguinte, e a parábola termina. O trabalhador não responde em momento nenhum.
O alcance da dispensa é disputado. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) a lê como afastamento do serviço e dos privilégios — o homem é mandado para fora, e não apenas para casa. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) lê só o encerramento do acerto, sem carga punitiva. O texto favorece Barnes, porque não há acusação nenhuma no versículo; o tom do imperativo favorece Gill. O que se pode afirmar é que a parábola não informa se o homem voltou à praça no dia seguinte.
"Eu quero dar a este último"
Agora vem o motivo — e o motivo é uma vontade.
Repare no que está ausente. O dono não diz que é justo. Não diz que o último merecia. Não diz que ele trabalhou mais numa hora do que os outros no dia inteiro — que era a saída disponível, e é a que o rei usa na parábola judaica de enredo igual, tratada no estudo de Mateus 20:12. Não invoca lei, costume, necessidade do trabalhador nem interesse da lavoura. Diz que quer.
Bengel (Johann Albrecht Bengel, estudioso alemão do século XVIII) observa que a força desse verbo é muito grande, e vê nele a liberdade da graça e a soberania da vontade divina. Vincent (Marvin Vincent, filólogo norte-americano do século XIX) marca que a frase não é um futuro simples, e sim uma declaração de vontade: não "eu darei", mas "é minha vontade dar". Em português a diferença se ouve na hora.
A ausência de argumento de mérito é o que dá peso à frase, e é também o que a torna difícil. Uma decisão fundada em vontade não pode ser discutida com quem a tomou: não há premissa a contestar. Foi isso que o reclamante encontrou pela frente, e é por isso que ele não tem o que responder.
Há ainda um detalhe de cena. O dono aponta: "este último". O trabalhador de uma hora está ali, presente, enquanto o outro reclama dele na terceira pessoa e o proprietário o usa como exemplo. São três pessoas na cena, e a que menos fala é a que está sendo discutida.
"o mesmo que dei a você"
O dono repete a queixa como sua própria decisão.
A reclamação de Mateus 20:12 tinha sido exatamente esta: "você os igualou a nós". O proprietário não nega o fato, não corrige a descrição, não alega mal-entendido. Confirma: sim, o mesmo. O desacordo entre os dois não é sobre o que aconteceu, e sim sobre se o que aconteceu podia ser exigido.
Duas categorias numa frase só
Na primeira metade do versículo há um salário: devido, acordado, exigível, com valor definido antes de o trabalho começar. Na segunda há uma dádiva: não devida, não acordada, não exigível, e de valor decidido por quem dá.
A reclamação lê a segunda como se fosse um caso da primeira. Se o último recebeu um denário por uma hora, então — pensa o reclamante — o valor da hora subiu, e as minhas doze horas passaram a valer doze denários. A resposta do dono desmonta a conversão: não houve tabela nova, porque nunca houve tabela. Houve um acordo com você e uma decisão sobre ele. O erro do murmúrio é de categoria, não de aritmética.
O limite
A parábola não diz o que o denário representa, e o versículo não ajuda a decidir.
Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano e comentarista do século XIX) levanta a questão: o denário seria a vida eterna, e os que murmuraram teriam sido excluídos das bênçãos de Deus? Ele levanta como pergunta, e o texto não responde nenhuma das duas partes. Toda leitura que identifica o denário com um bem determinado — salvação, recompensa, entrada no Reino — é construção do leitor sobre um silêncio.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
O proprietário da vinha — fala em primeira pessoa por todo o versículo e é o único a falar. Das duas frases que diz aqui, a primeira é jurídica e a segunda é pessoal: uma trata do que foi combinado, a outra do que ele quer.
O trabalhador que reclamou — não é nomeado nem descrito. Foi contratado de madrugada, aceitou o valor de um denário e é chamado de "amigo" no versículo anterior. Aqui ele ouve, recebe e é dispensado, e Mateus não registra uma palavra dele depois de Mateus 20:12.
"Este último" — o trabalhador da hora décima primeira, apontado pelo dono. Está presente na cena, já recebeu o seu denário e não diz nada em momento nenhum da parábola. É discutido na terceira pessoa por dois homens que falam perto dele.
Os outros trabalhadores — os das horas terceira, sexta e nona, e os demais do primeiro grupo. Estavam reclamando junto, em Mateus 20:11, e o proprietário responde a um só, o que deixa o resto da fila ouvindo uma conversa que não é diretamente com eles.
Lugares
A vinha, ao fim do dia — o pagamento acontece no lugar do trabalho, não num escritório nem num banco. Os que já receberam continuam ali, e é isso que torna a cena possível: ninguém saberia quanto o outro recebeu se o pagamento fosse feito em outra hora ou em outro lugar.
A praça da aldeia — não aparece neste versículo, e é para onde o homem dispensado volta no dia seguinte, se quiser trabalhar. O lugar em que a parábola começou é também o destino de quem ouve "vá embora".
Eventos
A quitação do acordo — o dono declara cumprido o contrato da manhã, e nada mais é devido em nenhuma direção.
A dispensa — o homem é mandado embora no meio da própria reclamação, sem que ela seja respondida ponto por ponto.
A declaração de vontade — o proprietário anuncia o que vai fazer com o último contratado, como decisão sua, sem apoio em mérito, em regra ou em costume. É o único momento da parábola em que ele diz por que agiu como agiu, e a razão que dá é ele mesmo.
5. Pontos de Ensino
O que foi combinado é propriedade, não favor
O dono chama o denário de "o que é seu" antes de dizer qualquer outra coisa. Quem cumpriu um acordo tem direito ao que o acordo previa, e esse direito não depende do humor de quem paga. A parábola não relativiza contrato nenhum: ela o cumpre à risca e discute o que está fora dele.
A dádiva não tem de ser explicada
"Eu quero dar" é a razão inteira. Uma decisão de dar não se sustenta em cálculo de merecimento, porque no momento em que se sustentasse deixaria de ser dádiva e passaria a ser pagamento.
O que o outro recebeu não saiu do seu bolso
O denário do reclamante continua na mão dele, intacto, enquanto ele reclama. A generosidade com um terceiro não retirou nada de ninguém, e é por isso que a queixa não consegue apontar prejuízo. Ela aponta comparação.
Ser dispensado não é ser condenado
O dono manda o homem embora sem chamá-lo de mau, sem reduzir-lhe o salário e sem declarar o acordo nulo. A parábola, até aqui, não diz que ele perdeu coisa alguma. Quem lê o versículo como sentença contra o reclamante acrescenta um veredicto que o texto não pronuncia.
Quem está sendo discutido às vezes está ouvindo
O trabalhador de uma hora assiste calado a dois homens falando dele na terceira pessoa. A cena tem uma pessoa cujo nome não aparece, cuja voz não se ouve, e que é o motivo da discussão. Essa é, quase sempre, a posição de quem foi beneficiado por uma decisão alheia.
6. Aspectos Filosóficos
Existe uma fronteira entre o que se pode exigir e o que só se pode receber, e o problema filosófico é saber por que ela é tão instável — por que uma dádiva feita a um terceiro se converte tão facilmente, na cabeça de quem assiste, em dívida para consigo.
O historiador francês Paul Veyne estudou esse mecanismo num material que parece distante da vinha e não é. Em O pão e o circo (1976), ele examinou o costume pelo qual os homens ricos das cidades gregas e romanas pagavam do próprio bolso os jogos, os banquetes públicos, as distribuições de trigo, os banhos e os edifícios da cidade. Veyne deu a esse costume o nome de evergetismo (do grego euergetes, "benfeitor" — aquele que faz o bem à cidade).
A tese dele começa por três negações. O evergetismo não era caridade: não visava aos pobres como pobres, e o rico gastava com a cidade inteira. Não era imposto: nenhuma lei obrigava, e a recusa não dava pena. E não era pagamento: o benfeitor não quitava nada nem comprava serviço prestado. Era despesa que o notável fazia porque era notável, e o que recebia de volta era honra — inscrições, estátuas, aclamação.
Daí sai a consequência que interessa: quem recebia não adquiria direito. A multidão que comia no banquete não podia cobrar o banquete seguinte. A dádiva era dirigida a ela e, ainda assim, não se tornava propriedade dela. Veyne insiste nesse ponto contra a tentação de ler a cidade antiga como um sistema de assistência: havia distribuição sem garantia, e recebimento sem título.
E há, no trabalho dele, uma observação sobre o que o tempo faz com isso, que descreve o murmúrio da vinha com precisão. O que se dá uma vez começa a ser esperado; o que é esperado começa a ser cobrado; e o benfeitor, que gastava por honra, acaba gastando por obrigação — a liberalidade vira encargo, e a cidade passa a tratar como devido aquilo que nasceu gratuito. A conversão não se dá por decisão de ninguém: ela se dá pelo hábito de receber.
É o movimento que o trabalhador da parábola tenta fazer em um único dia, e num único gesto alheio. Nisso a vinha é mais severa do que a cidade antiga: ali a expectativa levava séculos para virar direito, e aqui basta um pagamento observado de perto.
Por trás de tudo está uma exigência que atravessa a discussão filosófica sobre justiça distributiva: para que uma repartição possa ser chamada de justa ou injusta, é preciso que exista um critério público, conhecido de antemão, pelo qual cada um verifique a própria parte. Salário tem esse critério. Dádiva, por definição, não tem — se tivesse, seria pagamento. Daí decorre uma conclusão desconfortável, e ela é lógica antes de ser teológica: a dádiva não é injusta; ela é incomparável. Não existe medida com que o reclamante possa medir o que foi dado ao outro, porque a decisão não foi tomada em nenhuma unidade.
Dois limites precisam ficar ditos. Veyne descreve uma prática política das cidades antigas, com finalidade política, e a parábola não fala de notável financiando jogos — a analogia vale pela estrutura da dádiva que não cria direito, não pelo conteúdo. E a parábola em nenhum momento afirma que o proprietário é Deus. Tudo o que se conclui aqui sobre a liberdade de quem dá vale para a figura da história; transformá-lo imediatamente numa proposição sobre Deus é um passo que o texto permite, mas não dá.
7. Aplicações Práticas
Conferir se o que você cobra é acordo ou comparação
Antes de reclamar de um tratamento, cabe uma pergunta de uma linha: o que eu estou cobrando foi combinado comigo, ou eu estou cobrando porque vi o que outra pessoa recebeu? As duas reclamações usam as mesmas palavras e são coisas diferentes. A primeira tem onde se apoiar; a segunda se apoia no que aconteceu entre outras duas pessoas.
Não transformar precedente em tabela
Um aumento dado a um colega, uma isenção concedida a um vizinho, um desconto feito para um cliente — nenhum desses atos cria automaticamente uma regra. Eles podem criar, se quem decidiu quiser que criem, e é legítimo pedir que criem. O que não se sustenta é tratá-los como se já tivessem criado, e chamar de injustiça a recusa.
Dar sem devolver a decisão a quem assiste
Quem dá algo a alguém costuma ser cobrado por quem estava perto e não recebeu. A resposta do dono faz três coisas ao mesmo tempo: confirma o direito de quem reclama, não nega o fato alegado e não abre a decisão à negociação de terceiros.
Reparar que a sua parte continua inteira
O detalhe mais concreto da cena é que o denário está na mão do reclamante enquanto ele reclama. Em quase toda indignação comparativa esse é o caso: nada saiu do bolso de quem se queixa. Verificar isso primeiro — o que exatamente eu perdi? — desarma uma boa parte do que sentimos como injustiça, e deixa em pé a parte que é injustiça de verdade.
Não usar a dispensa como veredicto
Quando alguém é mandado embora de uma conversa, de um serviço ou de um grupo, a dispensa costuma ser lida como condenação, tanto por quem sai quanto por quem fica. O versículo não autoriza essa leitura: o homem é dispensado com o pagamento inteiro e sem uma única acusação. Cabe a quem lê, e a quem dispensa, distinguir o fim de um vínculo do julgamento de uma pessoa.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Por que o dono não disse que o último merecia?
Porque o argumento de mérito resolveria o caso e desmontaria a parábola. Numa versão judaica desta mesma história, o rei responde justamente assim: o trabalhador de poucas horas produziu mais do que os outros no dia inteiro. O dono da vinha tinha essa saída à mão e não a usou, e não pôs nenhuma outra no lugar.
2. O primeiro trabalhador perdeu algo por reclamar?
O texto não diz que perdeu. Ele foi pago integralmente, chamado de amigo e dispensado. Ellicott pergunta se os que murmuraram teriam ficado fora das bênçãos, e deixa a pergunta aberta, porque a parábola não a responde. Quem afirma que ele perdeu a salvação, o Reino ou a recompensa está trazendo de fora um veredicto ausente.
3. Então o dono agiu por capricho?
Depende do que se entende por capricho. A decisão não tem fundamento externo — não se apoia em lei, mérito ou costume —, e nisso ela é pura vontade. Mas é vontade de dar mais, não de dar menos, e não prejudica ninguém: o valor do reclamante permaneceu intacto. Uma vontade que só beneficia é difícil de chamar de arbítrio, ainda que seja tão imotivada quanto o arbítrio.
4. Por que o dono fala com um trabalhador só, se vários reclamavam?
Mateus 20:11 tem o grupo murmurando e Mateus 20:13 tem a resposta dirigida "a um deles". Uma explicação plausível é que o murmúrio coletivo tenha tido um porta-voz. Outra é que a parábola precise de um interlocutor singular para que a última pergunta, no versículo seguinte, tenha a quem ser feita — ninguém pergunta "o seu olho é mau" a uma multidão. O texto não escolhe.
5. O trabalhador de uma hora diz alguma coisa?
Nada, em toda a parábola. Ele é contratado por uma frase, recebe sem comentário e aqui é apontado por outro homem como exemplo. Quem foi beneficiado pela decisão é o único personagem da história que não tem voz — e é sobre ele que os dois estão discutindo.
6. A ordem "vá embora" vale para os outros do grupo também?
Os verbos estão no singular, e a fala é dirigida a um homem. Se a dispensa alcança os demais, o texto não o diz; eles simplesmente desaparecem da cena sem que Mateus registre o que fizeram. É um dos vários silêncios do fim desta parábola, e todos eles caem sobre o mesmo lado: nunca se sabe o que os murmuradores decidiram.
9. Conexão com Outros Textos
A resposta do pai, e a resposta do dono
Lucas 15:31 — "E ele lhe disse: Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas."
O pai da parábola do filho perdido responde ao irmão mais velho com as duas metades deste versículo, na ordem inversa: primeiro confirma que o que é do reclamante continua sendo dele, depois defende a festa feita ao outro. A ordem invertida tem efeito diferente — ali a garantia vem antes do argumento, e aqui a dispensa vem no meio. E as duas histórias terminam do mesmo jeito: sem a resposta de quem reclamou. A aproximação entre o murmúrio dos trabalhadores e o do irmão mais velho está tratada no estudo de Mateus 20:11.
O profeta que se irritou com a bondade
Jonas 4:1 — "Mas isto desagradou muito a Jonas, e ele ficou irado."
Jonas 4:2 — "…porque eu sabia que és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade, e que te arrependes do mal."
Jonas dá a razão da sua ira, e a razão é a bondade de Deus. É o antecedente veterotestamentário da posição do murmurador: o incômodo não nasce de ter sido lesado, e sim de ver alguém receber o que não estava previsto. O livro de Jonas termina, como esta parábola, com uma pergunta do lado generoso e sem resposta do lado irritado.
A vontade de quem dá
Êxodo 33:19 — "…e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer."
A fórmula hebraica constrói a frase sobre ela mesma: o critério da misericórdia é a misericórdia. Nenhuma condição externa é oferecida, e nisso a construção se aproxima do "eu quero dar" do dono da vinha.
Romanos 9:16 — "Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece."
Paulo cita a frase do Êxodo e tira dela a consequência. A aproximação com a parábola é legítima e precisa de um cuidado: Paulo fala de Deus explicitamente, e a parábola fala de um proprietário de vinha, sem nunca fazer a identificação.
Mateus 25:15 — A um deu cinco talentos, a outro dois, e a outro um, a cada um conforme a sua capacidade; e partiu em viagem.
Na parábola dos talentos a distribuição é desigual desde o começo e tem critério declarado — a capacidade de cada um. Aqui é igual e não tem critério nenhum. Os dois textos são do mesmo evangelho e resolvem a repartição de maneiras opostas, o que impede extrair de Mateus uma regra única sobre como o senhor reparte.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Pegue o que é seu e vá embora. Eu quero dar a este último o mesmo que dei a você.
Texto grego (Textus Receptus, Scrivener 1894)
ἆρον τὸ σὸν καὶ ὕπαγε· θέλω δὲ τούτῳ τῷ ἐσχάτῳ δοῦναι ὡς καὶ σοί.
Transliteração
aron to son kai hypage; thelo de touto to eschato dounai hos kai soi.
Análise palavra por palavra
ἆρον — aron, imperativo aoristo ativo, segunda pessoa do singular, do verbo airo: "levantar", "tomar", "carregar". O aoristo indica ato único e concluído: pegue, de uma vez. É o mesmo verbo das ordens de Mateus 9:6 ("levante o seu leito") e de Mateus 16:24 ("tome a sua cruz"), e não tem em si nada de agressivo — é o verbo comum de apanhar um objeto.
τὸ σόν — to son, artigo neutro mais o adjetivo possessivo de segunda pessoa, substantivado: "o teu", no sentido de "aquilo que te pertence".
O grego podia dizer isso com o pronome no genitivo — "o denário de você". O que está aqui é o adjetivo possessivo sos, a forma enfática, substantivado no neutro e sem substantivo ao lado, de modo que o objeto não é nomeado. O dono não diz "o seu denário": diz "o seu", e deixa a categoria da propriedade fazer o trabalho.
καὶ — kai, conjunção: "e".
ὕπαγε — hypage, imperativo presente ativo, segunda pessoa do singular, do verbo hypago. A formação da palavra é "conduzir por baixo", e no grego dos evangelhos ela se especializou no sentido de ir, partir, retirar-se.
O contraste de tempos entre os dois imperativos é o detalhe gramatical do versículo: o primeiro no aoristo, um ato só; o segundo no presente, ação em curso. Ao pé da letra: "pegue, e vá indo". Em Mateus o verbo aparece tanto em dispensas quanto em ordens cordiais — Mateus 4:10 ("Vá, Satanás") e Mateus 19:21 ("vá, venda o que você tem") —, e por isso não decide, por si, se a dispensa é dura.
θέλω — thelo, presente do indicativo ativo, primeira pessoa do singular: "eu quero", "é minha vontade".
Esta é a palavra decisiva do versículo. O grego tem futuro próprio para o verbo dar, e o dono não o usou: em lugar de "eu darei", construiu "quero dar", com o verbo da vontade seguido de infinitivo. A escolha transforma o pagamento ao último trabalhador de fato anunciado em decisão declarada, e põe a vontade de quem paga no lugar onde se esperaria uma razão.
δὲ — de, partícula de ligação e de contraste fraco: "mas", "e", "por outro lado". É a mesma partícula que abre Mateus 19:30, e marca aqui a passagem da conta encerrada com o reclamante para a decisão sobre o outro trabalhador.
τούτῳ τῷ ἐσχάτῳ — touto to eschato, pronome demonstrativo, artigo e adjetivo, no dativo masculino singular: "a este último". O demonstrativo aponta para alguém presente: "este" só funciona se houver o que apontar. O adjetivo eschatos ("último") é o mesmo que reaparecerá duas vezes em Mateus 20:16.
δοῦναι — dounai, infinitivo aoristo ativo do verbo didomi, "dar". Completa "quero": quero dar. Para o primeiro trabalhador o dono havia usado o vocabulário da propriedade; para o último, usa o verbo dar. Nenhuma das duas palavras invade o campo da outra.
ὡς καὶ σοί — hos kai soi, advérbio de comparação, advérbio aditivo e pronome no dativo: "como também a você". O pequeno kai no meio da expressão não é a conjunção "e", mas o advérbio "também". Sem ele a frase diria apenas "quanto a você"; com ele, diz "o mesmo que também a você" — e a igualdade fica declarada pelo próprio dono, nos termos exatos em que o trabalhador a havia denunciado.
Variantes
O versículo não tem variante de conteúdo. Nestle, Westcott e Hort, Tischendorf, o texto bizantino de Robinson e Pierpont, Stephanus de 1550 e Scrivener de 1894 trazem as mesmas palavras na mesma ordem, e as diferenças entre as edições se limitam a maiúscula inicial e à pontuação, que nos manuscritos antigos não existia.
11. Conclusão
Quatro conclusões saem do versículo.
A primeira: o contrato é cumprido à risca, e a parábola não o relativiza. O denário é chamado de propriedade do trabalhador antes de qualquer outra frase. Nada do que vem depois retira, diminui ou condiciona esse direito. Quem lê a parábola como se ela ensinasse que acordos podem ser desfeitos por generosidade está lendo o contrário do que o proprietário diz — ele paga integralmente e só então fala do que é seu.
A segunda: a razão do pagamento igual é uma vontade, e nenhuma outra é oferecida. Havia uma razão de mérito disponível, e a versão judaica desta mesma história a usa. O dono da vinha não usa esse argumento nem nenhum outro. Uma decisão assim não pode ser rebatida, porque não apresenta premissa que se possa contestar.
A terceira: o versículo separa o exigível do dado, e a queixa consiste em confundir os dois. Salário tem critério público, é acordado antes e pode ser cobrado; dádiva não tem critério, não é acordada e não pode ser cobrada por ninguém, muito menos por terceiros. O reclamante tenta transformar o denário pago ao outro em precedente, o precedente em tabela e a tabela em dívida. Essa cadeia é recusada no primeiro elo.
A quarta: a dispensa não é uma condenação, e o texto não diz o que foi do homem. Ele sai pago, chamado de amigo e sem nenhuma acusação registrada. A parábola não informa se voltou à praça, se foi contratado de novo, se aceitou a resposta ou se guardou a mágoa. Esse silêncio é o que mantém a cena aberta — e é o que faz com que a segunda pergunta do proprietário, no versículo seguinte, continue dirigida a quem lê.













