E disse a eles: “Vocês também vão para a minha vinha, e eu lhes pagarei o que for justo”. E eles foram.
1. Introdução
O dono da vinha volta à praça, contrata um segundo grupo e não diz quanto vai pagar. Com os primeiros ele havia fechado um valor; com estes promete apenas “o que for justo”. A troca de forma de contrato dentro do mesmo dia é o que vai sustentar tudo o que acontece na hora do pagamento. Nesse arranjo, quem decide o que é justo é quem paga. E os trabalhadores vão sem perguntar o valor.
2. Contexto Histórico e Cultural
Contratar sem dizer o preço
Um acordo de trabalho tem duas partes: o que se faz e quanto se recebe. Falte a segunda, e abre-se uma pergunta prática — quem preenche o que não foi combinado?
O direito romano tinha resposta seca: ninguém preenche, porque sem valor não existe contrato. A regra está no manual de Gaio (jurista romano do século II, autor das Institutas, o livro de introdução ao direito mais usado na Antiguidade), no capítulo sobre a locatio conductio (“locação e condução”, o nome romano do contrato em que alguém aluga uma coisa, um serviço ou uma obra). O texto diz: “se não tiver sido estipulada uma paga certa, não se considera contraída a locação” (Institutas III.142). A expressão latina é merces certa — “paga certa”. Sem ela o negócio não era aluguel de serviço nem dava ao trabalhador a ação judicial própria do aluguel de serviço.
E a versão mais branda do mesmo problema já dividia os juristas. Gaio relata, no parágrafo anterior, o caso de duas pessoas combinarem que o preço será “quanto Tício avaliar a coisa”, isto é, entregarem a fixação do valor a um terceiro. Labeão dizia que o negócio não tinha força nenhuma, e Cássio concordava; Ofílio sustentava que havia compra e venda, e Próculo o seguiu (Institutas III.140). O arranjo desta cena é mais extremo do que o que eles discutiam: o valor não fica no juízo de um terceiro neutro, fica no juízo de uma das partes — a que vai pagar.
A saída que os juristas romanos encontraram: o juízo do homem de bem
Anular todo negócio de preço não fixado era inconveniente demais, e os juristas construíram uma régua para os casos em que a determinação ficasse para depois. Ela tem nome: arbitrium boni viri (“o juízo do homem de bem”, em latim).
O raciocínio aparece no Digesto, a grande compilação de textos jurídicos romanos mandada organizar por Justiniano no século VI. Discutindo uma sociedade em que as quotas de cada sócio seriam fixadas por um terceiro, Próculo sustenta que a decisão desse terceiro deve ser seguida — e explica por quê: como a sociedade é contrato de boa-fé, o que se entrega ao terceiro não é a vontade dele, e sim o juízo de um homem de bem (Digesto 17.2.78). E os antigos, prossegue o texto, resolveram justamente assim: a determinação não pode repousar no arbítrio livre de quem tem interesse, porque isso tornaria o negócio nulo; ela repousa no juízo do homem de bem.
Transposto para a cena, o efeito é este: uma cláusula aberta não autoriza quem paga a pagar o que quiser. Ela remete a um padrão objetivo, verificável de fora, e quem se afasta dele responde. A promessa do dono da vinha, por essa régua, é exigível — e exigível segundo o que um homem de bem daria, não segundo o que ele resolver dar.
Tudo isso é direito romano, isto é, de fora da Galileia. A lei judaica tinha a sua própria resposta para a lacuna do contrato de trabalho, e ela está desenvolvida no estudo de Mateus 20:1: em resumo, o costume do lugar é que preenche o que as partes não disseram.
A aritmética que o ouvinte faria
O dia de trabalho valia um denário, e quem entra na terceira hora tem nove das doze horas de luz pela frente: três quartos do dia. Uma paga justa, medida por tempo, daria três quartos do denário. A parábola não diz que foi esse o cálculo, e o desfecho vai mostrar que não foi — mas é essa a conta que qualquer ouvinte do primeiro século faria ao ouvir a frase, e é dela que vem a surpresa mais adiante.
A leva da madrugada é escolhida primeiro, e quem escolhe escolhe os melhores; quem sobra na praça com o dia já começado é, em regra, quem não foi apanhado na primeira passada. O texto não descreve esses homens nem diz por que estavam lá. A posição em que a hora os coloca, porém, é a de quem negocia sem nada na mão — e aceitar serviço sem valor combinado é o que faz quem não pode recusar.
3. Análise Teológica do Versículo
“E disse a eles”
Não há negociação nesta cena, e havia na anterior.
Nos versículos 1 e 2 duas partes chegaram a um valor comum: o dono e os trabalhadores fizeram um acordo. Aqui o dono fala, e o que ele fala é uma ordem seguida de uma promessa — vão, e eu pago. Ninguém responde, ninguém pergunta, ninguém confirma. A forma da fala já é a forma do contrato que ela cria.
“Vocês também”
As duas palavras colam o segundo grupo no primeiro.
Sem elas haveria dois episódios separados; com elas há uma série. O “também” diz que o que está sendo oferecido é a mesma coisa que já foi oferecida a outros, e portanto que existe um primeiro grupo do qual estes ficaram de fora. É a fórmula com que o dono da vinha vai incorporar cada leva nova: ela volta, palavra por palavra, na última contratação, em Mateus 20:7.
“para a minha vinha”
O possessivo aparece aqui e não volta.
Na contratação da hora décima primeira o convite é “vão para a vinha”, sem o “minha” — e a diferença aponta para o argumento que o dono vai usar no fim, quando disser que faz o que quer com o que é seu (Mateus 20:15). A vinha é dele antes de ser lugar de trabalho de alguém. Quanto ao grego, o possessivo não está nas edições impressas, e o item 10 mostra de onde ele vem.
“e eu lhes pagarei o que for justo”
Aqui está a troca de forma de contrato, e ela é deliberada.
No versículo 2 havia um número: um denário pelo dia. Deste versículo em diante, até o fim das contratações, não há número nenhum — nem na hora sexta, nem na nona, nem na décima primeira. A parábola combina valor uma única vez, com um único grupo, e depois para de combinar. Quem lê a história inteira descobre que essa é a articulação de que ela precisa: no fim, o dono poderá dizer a um dos primeiros que cumpriu o combinado com ele, porque com os outros nada foi combinado.
A frase tem três partes que convém separar. Quem paga: “eu”. O que paga: “o que for justo”. E o que não diz: quanto.
Resta a pergunta que o versículo abre e não fecha: o que “justo” significa na boca de quem vai pagar? Quatro respostas foram propostas.
Primeira leitura: justo quer dizer proporcional ao tempo. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) glosa a expressão como “o quanto se verificar que vocês podem ganhar”, e Jamieson, Fausset e Brown (trio de comentaristas escoceses do século XIX) falam de pagamento equitativo, na proporção do tempo trabalhado. É a leitura mais natural e a que qualquer trabalhador faria. O custo dela é que o desfecho da parábola a contradiz frontalmente.
Segunda leitura: justo é uma generosidade anunciada de véspera. O Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) observa que o dono não oferece soma definida, garante apenas tratamento equitativo — e depois trata estes homens com muito mais generosidade do que eles esperavam. A leitura funciona, mas funciona porque lê o versículo 4 pelo versículo 9, isto é, de trás para diante.
Terceira leitura: a indeterminação é o ponto. Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) vê na ausência de valor combinado uma confiança implícita na equidade do dono da casa, e Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) acrescenta que a promessa exige fé e dependência, justamente porque a recompensa não foi dita. O custo é atribuir aos trabalhadores uma disposição interior que o texto não descreve: ele registra que eles foram, não o que sentiram ao ir.
Quarta leitura: o motivo é prosaico. Meyer (Heinrich Meyer, exegeta alemão do século XIX) explica a ausência de acordo pelo fato de que parte do dia já havia passado — não havia um dia inteiro a precificar. O custo dessa leitura é que a mesma fórmula sem valor se repete na hora sexta, na nona e na décima primeira, com frações do dia muito diferentes entre si; se fosse só questão de contar horas, bastaria oferecer a fração.
Não é possível decidir pelo versículo. O que ele faz, e faz sem ambiguidade, é deixar o número em aberto.
O que a frase não diz
Não diz “um denário”. Não diz “proporcional”. Não diz “o mesmo que aos primeiros”. Não diz quando paga. E não nomeia quem julga o que é justo — embora a resposta esteja na própria frase, já que quem promete é quem paga.
“E eles foram”
Duas palavras, e nenhuma pergunta.
Não perguntam quanto, não perguntam se há comida, não perguntam a que hora recebem. Gill lê nessa pressa o sinal de um chamado eficaz, que vence sem resistência; é leitura possível, e põe o acento em quem chama, não em quem vai. A leitura mais simples é econômica: homem que continua na praça depois do início do dia não regateia. O texto não afirma nenhuma das duas. Ele afirma que eles foram.
Um detalhe de divisão: as edições gregas modernas abrem o versículo 5 com essa frase, e a tradição do Textus Receptus a põe no fim do versículo 4, que é a divisão seguida aqui. A diferença não altera o sentido, e o item 10 mostra onde ela ocorre.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O proprietário
Ele não tem nome, e o que o texto informa dele é só a função: é o dono da casa e da terra. Nesta segunda contratação continua saindo pessoalmente, como na primeira. Ele tem um administrador — o texto o menciona em Mateus 20:8, na hora de pagar —, e não o usa para contratar. Quem vai à praça é o dono.
Os trabalhadores da hora terceira
Não se diz quantos são, nem de onde vêm, nem por que chegaram depois. Aparecem como “outros”, em contraste com a leva anterior, e serão o segundo dos cinco grupos da parábola. Diferentemente dos primeiros, não têm valor combinado; diferentemente dos últimos, não dizem uma palavra.
A vinha
A vinha é o lugar de trabalho e, na tradição dos profetas, uma imagem de Israel — Isaías 5:1-7 é a mais conhecida. O versículo, porém, não trabalha com a imagem: aqui a vinha é propriedade, mão de obra e prazo. Ela volta como cena em outras duas parábolas de Mateus, nos capítulos 21 e 22.
A praça e a hora terceira
A praça onde se contratava por dia e a posição da hora terceira no relógio antigo estão nos estudos de Mateus 20:3 e 20:5. O que a hora acrescenta a este versículo é só isto: já se foi um quarto da luz do dia, e o que restou é o que se está contratando.
O evento
A segunda das cinco saídas do dono. É a primeira em que ele contrata sem combinar valor, e a única em que, sem dizer um número, ele ainda assim nomeia um critério.
5. Pontos de Ensino
Duas formas de contrato no mesmo dia, e a diferença é de propósito
A parábola não é desatenta com o dinheiro. Ela fixa o valor com o primeiro grupo e depois nunca mais o fixa. Quem lê rápido acha que a frase “o que for justo” é uma maneira de dizer a mesma coisa com outras palavras; ela não é, e o resto da história depende de não ser.
Promessa de critério não é promessa de quantia
“Um denário” é verificável: no fim do dia se confere. “O que for justo” só se verifica depois de alguém dizer o que é justo. A primeira forma vincula quem paga; a segunda vincula quem paga a um padrão, e deixa em aberto quem enuncia o padrão.
Quem aceita sem valor combinado é quem não pode recusar
O versículo não moraliza a aceitação, e também não a elogia. Ele registra uma assimetria: de um lado, quem tem vinha, dia inteiro e escolha; do outro, quem está na praça às nove da manhã sem serviço.
O dono vai ele mesmo
Cinco vezes nesta parábola o proprietário sai. Ele tem quem faça isso por ele, e não manda. É um dado de caracterização, não uma lição: o texto não comenta.
Nenhum grupo é elogiado pela hora em que chegou
Não há mérito atribuído à madrugada nem censura à terceira hora. A hora serve para medir trabalho, não para medir caráter — e é por isso que a reclamação do fim da parábola, quando vier, precisará transformar horas em merecimento.
A ida imediata não é apresentada como virtude
“E eles foram” é a frase mais curta do versículo, e a mais desprovida de adjetivo. Compare com o filho de Mateus 21:30, que diz “eu vou, senhor” e não vai: lá o texto marca a diferença entre dizer e fazer. Aqui não há discurso nenhum, só a ida.
6. Aspectos Filosóficos
O que obriga quem prometeu sem dizer quanto?
A doutrina clássica do contrato, sistematizada no século XIX, responde que a obrigação é exatamente aquilo que as partes quiseram e disseram. O contrato é um encontro de vontades, e o seu conteúdo é o texto do acordo. O que não foi dito não é devido. Por essa régua, a promessa do versículo é ou nula, por indeterminada — foi a resposta romana, vista no item 2 —, ou vazia, porque quem a interpreta é quem a fez.
O jurista norte-americano Ian Macneil (1929-2010) dedicou a vida a mostrar que essa régua descreve a exceção e não a regra. A distinção que ele propôs, em The Many Futures of Contract (“Os muitos futuros do contrato”, artigo de 1974) e em Contracts: Adjustment of Long-Term Economic Relations (“Contratos: o ajuste de relações econômicas de longo prazo”, de 1978), separa duas coisas que o vocabulário jurídico chamava pelo mesmo nome.
O contrato discreto é a troca completa e fechada no instante do negócio: dinheiro contra mercadoria, tudo especificado, nenhum resíduo, nenhuma relação depois. Comprar gasolina num posto de estrada é o exemplo puro, e foi esse modelo que a teoria tomou como forma básica do contrato.
O contrato relacional é o que existe de fato na maior parte das trocas: um vínculo que se estende no tempo, cujas cláusulas não cobrem o que vai acontecer e não poderiam cobrir, e que funciona porque as partes compartilham normas não escritas — o papel de cada um, a reciprocidade, a flexibilidade diante do imprevisto, o interesse em preservar a relação. Emprego, sociedade, fornecimento contínuo, casamento. Quanto mais relacional o contrato, menos ele se parece com um texto e mais com uma prática.
Os dois modelos aparecem lado a lado nesta parábola, e no mesmo dia. O versículo 2 é o contrato discreto: um valor, um prazo, nada em aberto. O versículo 4 é o relacional: um critério em lugar de um número, e o preenchimento desse critério remetido ao que se faz por ali.
Isso não é elogio do segundo modelo. A fraqueza que os críticos de Macneil sempre apontaram é exatamente a que a cena expõe: o contrato relacional transfere risco para quem tem menos poder. Quando a cláusula é aberta, quem a preenche é quem manda — e quem depende do dia de trabalho para comer não está em posição de discutir o preenchimento. O contrato discreto é rígido, e a rigidez protege o fraco tanto quanto o engessa.
Há uma condição que muda o quadro, e a cena a tem. A promessa aberta só vincula se existir um padrão fora de quem prometeu. Sem padrão externo, “o que for justo” é promessa que o promitente cumpre quando quiser dizer que cumpriu; com padrão externo, é remissão a algo que ele não controla. A parábola vai terminar numa discussão sobre qual dos dois contratos estava em vigor.
O limite
Macneil descreveu práticas comerciais do século XX e não escreveu uma linha sobre esta passagem. A distinção dele ilumina a forma do que está escrito; não é o que o texto diz, e a parábola não é um tratado de direito das obrigações. O que se pode afirmar é que a diferença entre combinar um valor e prometer um critério é real, tem consequências jurídicas conhecidas há dois mil anos, e está posta no texto de propósito.
7. Aplicações Práticas
Há uma situação corrente que este versículo descreve com precisão: aceitar serviço sem preço fechado.
“Depois nós combinamos”, “faço um preço justo”, “confie em mim que eu reconheço”. Quem ouve isso e aceita não está sendo ingênuo nem sábio; está entrando na forma de contrato do versículo 4, com as consequências que ela tem. A promessa de justiça vale o que valer quem a faz — e, mais do que isso, vale o que valer o padrão a que ela remete. Perguntar “justo segundo o quê?” não é desconfiança: é a pergunta que transforma uma promessa vaga em promessa exigível.
Do outro lado da cena há uma aplicação mais desconfortável, para quem contrata. Prometer o justo sem dizer o quanto desloca o risco do dia para quem menos pode carregá-lo. Quem combina o valor assume a incerteza do próprio negócio; quem deixa o valor em aberto a repassa. Dizer o número, quando se tem o número, é uma forma concreta de respeito, e custa uma frase.
Resta a leitura que a parábola está fazendo, e nela há uma aplicação que cabe reter com cuidado. Existem chamados que não vêm com valor anunciado. O versículo não promete que vai ser mais do que o esperado — isso é o fim da história, não esta linha. Ele diz apenas que quem chama declarou um critério e se disse obrigado por ele. A diferença entre confiar num critério e calcular um resultado é o que a parábola vai cobrar dos personagens no fim do dia.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se “o que for justo” ia terminar em um denário, por que o dono não disse um denário?
Porque, dito o número, não há parábola. A discussão final é possível justamente porque um grupo tem valor combinado e os outros não: um pode alegar contrato, os outros só podem receber. Como decisão do personagem, dentro da lógica da cena, a resposta é outra e mais simples — ele ainda não sabia quanto ia pagar, ou não queria dizer. O texto não informa qual das duas.
Não dizer o valor foi má-fé?
Nem o direito romano nem a lei judaica deixavam a cláusula aberta ao gosto de quem paga: um anulava o negócio sem paga certa, o outro mandava preenchê-lo pelo costume do lugar, e os juristas romanos criaram para os casos intermediários a régua do juízo do homem de bem. Não há, portanto, base no texto para acusar o dono de armadilha. Há base para dizer que ele ficou com a palavra final sobre um valor que não anunciou.
Por que eles não perguntaram?
O texto não diz, e as respostas possíveis dividem os leitores. Quem lê a parábola como retrato social responde que não se pergunta quando não se pode recusar. Quem a lê como retrato de fé responde que a pressa é sinal de confiança. As duas leituras acrescentam algo que não está escrito.
“O que for justo” é promessa jurídica ou figura de linguagem?
Na cena é jurídica: são as palavras com que se fecha uma contratação diária, e há literatura legal antiga discutindo exatamente esse tipo de cláusula. Na parábola ela também funciona como figura, porque o dono da vinha representa alguém. As duas coisas se sustentam ao mesmo tempo, e é isso que torna o versículo difícil de reduzir a uma só delas.
O versículo ensina que o pagamento de Deus é proporcional ao esforço?
Não se pode afirmar isso a partir daqui. O versículo enuncia um critério — o justo — e não o define. Quem define o justo é o desfecho da parábola, e o desfecho não define por proporção.
9. Conexão com Outros Textos
A comparação decisiva está dois versículos antes, no mesmo dia.
Mateus 20:2 — “Ele fez um acordo com os trabalhadores de um denário pelo dia e os enviou para a sua vinha.”
Ali há acordo e há número. Aqui não há nem um nem outro — e a mesma fórmula sem número se repete na última contratação:
Mateus 20:7 — “Eles responderam: ‘Porque ninguém nos contratou’. Ele lhes disse: ‘Vocês também vão para a vinha’.”
Mateus tem uma frase própria sobre o que se deve a quem trabalha, e ela aparece na instrução aos doze:
Mateus 10:10 — “nem bolsa para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bordão; pois o trabalhador é digno do seu sustento.”
A palavra “trabalhador” é a mesma dos contratados da vinha, e o critério enunciado é o do sustento, não o da hora. Se essa é a régua de Mateus, a promessa do justo tem um conteúdo mínimo conhecido: o que mantém o trabalhador de pé.
A Lei já havia fixado o prazo do pagamento do diarista no fim do dia — Deuteronômio 24:14-15 e Levítico 19:13 —, e o conteúdo dessas duas ordens é assunto do estudo de Mateus 20:8, onde elas entram na cena.
A outra parábola da vinha em Mateus usa a mesma ordem e a mesma palavra:
Mateus 21:28 — “Mas o que acham? Um homem tinha dois filhos. Chegando ao primeiro, disse: ‘Filho, vá trabalhar hoje na minha vinha.’”
Lá o convite é ao filho, não a um contratado, e a pergunta é se ele vai. Aqui não há pergunta e não há recusa: o versículo termina com a ida. As duas parábolas trabalham o mesmo cenário e testam coisas diferentes — uma, a obediência; a outra, a paga.
Um último paralelo, pela imagem da falta de gente para o serviço:
Mateus 9:37 — “Então disse aos seus discípulos: Na verdade, a colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos.”
É o avesso da nossa cena. Em Mateus 9 falta trabalhador para a colheita; em Mateus 20 falta trabalho para quem está na praça. O mesmo vocabulário serve às duas escassezes.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
E disse a eles: “Vocês também vão para a minha vinha, e eu lhes pagarei o que for justo”. E eles foram.
Texto grego (Textus Receptus, Scrivener 1894)
κἀκείνοις εἶπεν, Ὑπάγετε καὶ ὑμεῖς εἰς τὸν ἀμπελῶνα, καὶ ὃ ἐὰν ᾖ δίκαιον δώσω ὑμῖν. Οἱ δὲ ἀπῆλθον.
Transliteração
kakeinois eipen, Hypagete kai hymeis eis ton ampelōna, kai ho ean ē dikaion dōsō hymin. Hoi de apēlthon.
Análise palavra por palavra
κἀκείνοις — kakeinois, fusão de kai (“e”) com ekeinois, pronome demonstrativo no dativo masculino plural: “e àqueles”. O Textus Receptus funde as duas palavras numa só; as edições modernas as separam, καὶ ἐκείνοις. O sentido é idêntico.
O demonstrativo escolhido é o do distanciamento — “aqueles”, não “eles”. Marca que se trata de outro conjunto de pessoas, diferente do grupo já contratado, e ocupa a primeira posição da frase, que em grego é posição de destaque.
εἶπεν — eipen, aoristo do indicativo ativo, terceira pessoa do singular: “disse”. Ação pontual, concluída. Note-se que o verbo do versículo 2 para o acordo com os primeiros é outro, o de combinar em conjunto; aqui o verbo é apenas “dizer”, de um lado só.
Ὑπάγετε — hypagete, imperativo presente ativo, segunda pessoa do plural: “vão”. O verbo é hypagō, formado de hypo (“sob”) e agō (“conduzir, levar”); o sentido corrente é partir, seguir para algum lugar. É o verbo com que, em Mateus, alguém é despachado com uma direção: “vai-te, Satanás” (Mateus 4:10), “vai, vende o que tens” (Mateus 19:21). A mesma palavra reaparece no fim desta parábola, em Mateus 20:14, onde já não é convocação e sim dispensa — o dono manda o reclamante pegar o seu e ir.
καὶ ὑμεῖς — kai hymeis, “vocês também”. O pronome é desnecessário em grego, porque a desinência do verbo já indica a segunda pessoa do plural. Estando escrito, é enfático — e é por isso que a tradução precisa do “também”.
εἰς τὸν ἀμπελῶνα — eis ton ampelōna, “para a vinha”. Ampelōn vem de ampelos, a videira, e designa o terreno plantado. No Novo Testamento a palavra ocorre quase só em parábolas de vinha, mais uma pergunta de Paulo em 1 Coríntios 9:7 sobre quem planta vinha e não come do fruto.
Sobre o possessivo: o grego, tanto no Textus Receptus como nas edições críticas, traz aqui apenas “a vinha”, sem “minha”. O “minha” do texto português vem da tradição latina — a Vulgata lê in vineam meam —, e o Códice de Beza, manuscrito grego do século V, acrescenta o possessivo em Mateus 20:7. A leitura com “minha” é antiga e bem atestada em latim; no grego impresso ela não está.
καὶ ὃ ἐὰν ᾖ δίκαιον — kai ho ean ē dikaion, “e o que quer que seja justo”. A construção é um relativo indefinido: pronome relativo neutro, mais a partícula condicional ean, mais o verbo “ser” no subjuntivo. O grego tem essa forma exatamente para o caso em que o conteúdo não pode ou não quer ser especificado. Não é vagueza de tradução: a indeterminação está na sintaxe.
δίκαιον — dikaion, neutro singular de dikaios, “justo”, “conforme ao direito”, “o que é devido”. A família da palavra vem de dikē, que em grego antigo significa tanto o costume quanto a sentença judicial.
Em Mateus o adjetivo qualifica pessoas: José (Mateus 1:19), o profeta e o justo (Mateus 10:41), Abel (Mateus 23:35) e o “justo” de quem a mulher de Pilatos fala (Mateus 27:19). Este é o único lugar do evangelho em que a forma neutra se aplica a uma quantia a pagar. A palavra que descreve caráter está sendo usada para descrever um salário.
δώσω — dōsō, futuro do indicativo ativo, primeira pessoa do singular: “darei”. O verbo é didōmi, dar.
O detalhe merece ser retido: o dono não diz “pagarei”, diz “darei”. O verbo de pagar existe em grego e aparece nesta mesma parábola, quando o dono ordena ao administrador que pague o salário, em Mateus 20:8 — lá o verbo é composto e significa devolver, entregar o que se deve. Aqui, na boca do contratante, o que se anuncia é um ato de dar. A tradução portuguesa usa “pagarei”, que é o sentido na prática, e com isso apaga a diferença.
ὑμῖν — hymin, pronome pessoal no dativo plural: “a vocês”, “lhes”.
Οἱ δὲ ἀπῆλθον — hoi de apēlthon, “e eles foram”. Aoristo do indicativo ativo, terceira pessoa do plural, de aperchomai, formado de apo (“de, a partir de”) e erchomai (“ir, vir”): partir dali. O artigo sozinho funciona como pronome — “os, por sua vez”.
Três palavras, sem advérbio, sem adjetivo e sem discurso. O contraste com a fala do dono, que tem dezesseis, é parte do efeito.
Variantes e divisão
O corpo do versículo é estável: fora a fusão κἀκείνοις em lugar de καὶ ἐκείνοις e a pontuação, o Textus Receptus, o texto bizantino e o texto crítico coincidem palavra por palavra.
A diferença está no ponto em que o versículo acaba. “E eles foram” fecha o versículo 4 no Textus Receptus e na tradição da King James, e abre o versículo 5 nas edições críticas modernas e na Vulgata. A ABC segue a primeira divisão. Não há diferença de texto, apenas de numeração. A instabilidade real desta série está em Mateus 20:6 e 20:7, e é tratada nos estudos deles.
11. Conclusão
Do que foi exposto seguem quatro conclusões.
A primeira é que a parábola muda de instrumento jurídico no meio do dia, e muda de propósito. Um grupo tem contrato com valor; todos os outros têm uma promessa de critério. Não é descuido de quem narra nem variação de estilo: é a peça que segura o desfecho, porque só quem combinou um número poderá, no fim, reclamar em nome de um número.
A segunda é que a promessa aberta não é necessariamente frágil. Ela vale na medida em que exista um padrão fora de quem promete, e os dois sistemas jurídicos do mundo da cena tinham um: o direito romano anulava o contrato sem paga certa e, quando a fixação ficava para depois, a remetia ao juízo do homem de bem; a lei judaica a remetia ao costume do lugar. Por nenhuma das duas réguas “o que for justo” significa “o que eu achar”.
A terceira é que o versículo não resolve o que é justo, e a omissão é o que ele tem de mais importante. Quatro leituras foram propostas para a expressão, e nenhuma se impõe pelo texto; a decisão fica para o fim da parábola, que vai definir “justo” de um modo que nenhum dos quatro comentadores previa a partir daqui.
A quarta é sobre quem aceita. Três palavras registram a ida, sem elogio, sem censura e sem explicação. A parábola não faz desses homens exemplo de confiança nem vítimas de um arranjo desigual. Ela os põe a caminho — e guarda para o anoitecer a pergunta sobre o que eles receberam e por quê.













