Chegando ao segundo, disse a mesma coisa. Este respondeu: ‘Eu vou, senhor’; mas não foi.
1. Introdução
O pai repete ao segundo filho o mesmo pedido, e este responde com a cortesia que faltou ao primeiro: "Eu vou, senhor".
No grego, a resposta nem tem o verbo "ir": são duas palavras, "eu" e "senhor", e o filho chama o pai pelo título que um servo dá ao patrão.
Depois vem a frase mais curta do versículo — "e não foi" —, sem tempo marcado, sem motivo e sem nenhuma mudança narrada.
O versículo põe em cena o "sim" que não vira ato, e Jesus vai mostrar a quem ele se aplica.
2. Contexto Histórico e Cultural
O segundo filho chama o pai de "senhor". Hoje isso soaria servil; no mundo antigo, nem tanto. Para saber o que a palavra comunicava, é preciso saber como os filhos se dirigiam aos pais quando queriam ser respeitosos — e como os mestres judeus distinguiam o respeito de fachada do respeito de fato.
"Meu senhor" na boca de uma filha
A Bíblia hebraica já registra o tratamento. Quando Labão revista a tenda à procura dos ídolos roubados, Raquel, sentada sobre eles, fala ao pai assim: "Não se irrite, meu senhor, por eu não poder me levantar diante de você" (Gênesis 31:35). A filha chama o pai de "meu senhor" justamente no momento em que o engana. A fórmula de deferência era corrente e não garantia nada sobre o que estava por trás dela.
"Ao pai e senhor": uma carta de soldado
Os papiros gregos do Egito mostram que o hábito continuava nos tempos do Novo Testamento. O mais conhecido é uma carta do século II depois de Cristo, guardada no Museu de Berlim e publicada na série de documentos gregos daquele museu (Berliner Griechische Urkunden, "Documentos gregos de Berlim", volume II, número 423). Um rapaz egípcio chamado Ápion, alistado na frota romana e recém-chegado à base naval de Miseno, na Itália, escreve para casa. A carta abre assim: "Ápion a Epímaco, seu pai e senhor, muitíssimas saudações."
O filho conta que chegou bem, que a viagem foi dura, que recebeu o dinheiro da viagem e que já tem nome romano. E pede notícias, dizendo que quer beijar a mão do pai, que o criou bem. O "senhor" do cabeçalho não é bajulação nem medo: é a forma educada de um filho adulto se dirigir ao pai por escrito.
O contraste com a carta do menino Teão, que só chama o pai de "pai" na saudação (ver o item 2 de Mateus 21:29), mostra o espectro: o filho bem-educado diz "pai e senhor"; o malcriado, só "pai". O segundo filho da parábola fala como o filho bem-educado. O texto não o acusa de falta de respeito; mostra que o respeito estava todo na fórmula.
Os faisões e o moinho
Os mestres judeus tinham uma frase para a distância entre a forma e o fato no trato com os pais, e ela está no Talmude da Babilônia, no tratado Kiddushin 31a: "Há quem dê ao pai faisões para comer e, por isso, seja expulso do mundo; e há quem o ponha para girar o moinho e, por isso, herde o mundo vindouro."
O Talmude de Jerusalém, no tratado Peá 1:1, conta as duas histórias por trás da frase. O primeiro filho servia ao pai aves gordas e caras. Um dia o pai perguntou de onde vinham, e o filho respondeu: "Velho, coma e cale-se, como os cães comem e se calam." O segundo filho trabalhava num moinho. Quando o rei convocou os moleiros para trabalho forçado, ele pôs o pai no moinho da família e foi ele mesmo servir ao rei, para que o velho não fosse humilhado no serviço da corte.
À primeira vista, o primeiro filho honra o pai e o segundo o explora. Por dentro, é o contrário. A comida cara vinha com desprezo; o trabalho pesado vinha com proteção. O critério dos mestres não está no gesto que se vê, mas no que o gesto faz pelo pai.
A comparação com a parábola é direta, embora a história rabínica seja posterior e não dependa dela. O segundo filho de Mateus dá ao pai a forma mais fina — o pronome enfático, o título de senhor, a prontidão — e nenhuma substância. O primeiro dá a forma mais grosseira e o trabalho. A tradição judaica conhecia, com outras imagens, exatamente o juízo que Jesus pede aos chefes no versículo 31.
3. Análise Teológica do Versículo
“Chegando ao segundo, disse a mesma coisa.”
O pai não muda nada. Não adapta o pedido ao segundo filho, não conta que o primeiro recusou, não pede que este compense a falta do irmão. Faz a mesma visita e diz as mesmas palavras. A parábola trata os dois filhos com exatamente a mesma oportunidade, e por isso a diferença entre eles só pode estar na resposta.
O texto resume a fala do pai numa expressão só, "a mesma coisa", em vez de repeti-la. O efeito é passar depressa pelo pedido e chegar logo à resposta deste filho.
“Este respondeu: ‘Eu vou,”
No grego, o segundo filho não diz "eu vou". Diz duas palavras: "Eu, senhor." O verbo fica subentendido. Bengel (Johann Albrecht Bengel, comentarista luterano alemão do século XVIII) completa com "vou", e as traduções fazem o mesmo; é a leitura natural, porque o pai disse "vá". A ABC acompanha.
Mas a forma elíptica tem efeito. A resposta é rápida, pronta, sem pensar: o tipo de frase que se diz para encerrar uma conversa. E o pronome "eu", que em grego não é necessário porque o verbo já indica a pessoa, aparece sozinho e na frente. Quando o grego põe o "eu" explícito, ele costuma ser enfático (item 10).
Por que a ênfase? Há três leituras.
A primeira diz que o "eu" compara: "eu, sim", ao contrário do irmão. Jamieson, Fausset e Brown (trio de comentaristas britânicos do século XIX) ouvem nele a complacência de quem se acha melhor do que os outros, a do fariseu que agradece não ser como os demais. A favor, a aplicação do versículo 32, que mira justamente os que se julgavam justos. Contra, o texto não diz que o segundo filho sabia da recusa do primeiro (o pai fala com cada um a sós), e sem esse saber não há com quem comparar.
A segunda diz que o "eu" é o da prontidão: "eu, senhor!", como quem diz "pode deixar comigo". É o tom de um servo que responde a um patrão. A favor, o título "senhor", que vem logo depois e é a palavra dos servos. Contra, nada no texto; é a leitura mais simples.
A terceira é uma hipótese, e ouve na resposta um eco das respostas de prontidão da Bíblia hebraica. Quando Deus chama Abraão, ele responde "Eis-me aqui" (Gênesis 22:1); Samuel responde o mesmo ao ser chamado no templo (1 Samuel 3:4). A versão grega dessas passagens traduz a resposta hebraica por "eis, eu" — com o mesmo pronome enfático. O segundo filho falaria a língua de Abraão e de Samuel, a língua da disponibilidade total, e depois não se moveria. A leitura é plausível, mas não demonstrável: Mateus não usa o "eis" e não aponta para nenhum desses textos.
“senhor’;”
O pai disse "filho". O segundo filho responde "senhor". O primeiro filho não usou título nenhum; o segundo usa o título que, em Mateus, é a palavra dos servos para o dono da casa (Mateus 13:27; 25:20-24) e a dos que se aproximam de Jesus pedindo socorro. É a palavra certa para um patrão e uma palavra estranha para um pai que acabou de chamar de "filho" (item 2).
Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX) vê no tom de respeito exterior, em contraste com a recusa rude do outro, o retrato exato da religião de superfície que Jesus atribui aos fariseus. O retrato funciona porque o respeito não é fingido no sentido grosseiro: a fórmula é correta, educada, a que um bom filho usaria. O que falta não é a fórmula; é o que deveria vir com ela.
É a mesma dupla da advertência de Mateus 7:21 — dizer "Senhor, Senhor", fazer a vontade do Pai —, que o versículo 31 vai cobrar dos ouvintes. Aqui ela está concentrada numa palavra só, dita uma vez, por um filho ao próprio pai.
“mas não foi.”
O grego diz "e não foi", com a conjunção mais simples. A ABC escreve "mas", e o sentido pede o "mas"; o grego, porém, não marca o contraste. Ele só junta as duas coisas, lado a lado: disse que ia, e não foi. A secura é mais dura do que qualquer adversativa.
E repare no que falta. O primeiro filho teve um "depois" e uma mudança de ideia. O segundo não tem nada disso. O texto não diz quando ele deixou de ir, nem por quê. Não há mudança narrada, nem tentação, nem desculpa. Ele não muda de ideia para o mal da mesma forma que o irmão mudou para o bem — simplesmente não vai.
O segundo filho mentiu? Três leituras disputam o versículo.
Primeira: mentiu desde o começo. Jamieson, Fausset e Brown afirmam que nele "não havia intenção de ir"; o "sim" foi só um jeito de se livrar do pai. A favor, a falta de qualquer "depois" que indicasse mudança.
Segunda: foi sincero no momento e mudou depois, para pior. Ele quis ir quando disse; depois, o dia o levou para outro lado. A favor, a simetria com o primeiro filho, que também mudou. Contra, o texto deu ao primeiro o verbo da mudança e negou-o ao segundo; se Mateus quisesse a simetria, tinha a palavra à mão.
Terceira: o "sim" não chegou a ser uma decisão. Foi resposta automática, sem compromisso real, nem verdade nem mentira — e por isso não houve nada para mudar. A favor, a forma elíptica, rápida, do "Eu, senhor".
O texto não permite decidir. E a parábola não precisa que se decida: a pergunta do versículo 31 não é "qual dos dois foi sincero?", e sim "qual dos dois fez?". O segundo filho é julgado pelo que não fez, seja qual for a razão.
Quem é o segundo filho?
Jesus dá a resposta no versículo 32: são os chefes que viram João e não creram. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) aplica a figura aos escribas e fariseus; Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX), a quem professa obedecer a Deus e guarda os ritos exteriores, mas resiste ao Reino. Nessa leitura, que é a do próprio texto, a fronteira entre os dois filhos passa dentro de Israel: de um lado, os cobradores e as prostitutas, judeus; do outro, as autoridades do templo, judeus.
A leitura antiga foi outra. Jerônimo (padre da Igreja do século IV, tradutor da Bíblia latina), no seu comentário a Mateus, viu no primeiro filho os povos gentios, que no começo recusaram a Deus, e no segundo o povo judeu, que no Sinai respondeu a Moisés "tudo o que o SENHOR disse, faremos" (Êxodo 24:7) e não foi à vinha. A leitura teve longa vida, e com ela a ideia de que o "sim" de Israel era vazio por natureza. O próprio Jerônimo registra que outros liam a parábola como contraste entre pecadores e justos, sem divisão de povos. E a leitura de povos contradiz a aplicação que Jesus faz: os que creram em João eram judeus, e o capítulo inteiro se passa entre judeus. Transformar o segundo filho num retrato do povo judeu foi uma das vias pelas quais a parábola entrou na teologia que via a Igreja tomando o lugar de Israel — a discussão dessa teologia e da crítica a ela está no estudo de Mateus 21:43.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
O segundo filho. É o personagem da parábola que fala melhor e faz menos. Dá ao pai o título de respeito e a resposta pronta, e é o único que não se move. Não muda, não se explica, não reaparece. É definido inteiramente por duas palavras ditas e uma ida que não houve.
O pai. Repete o pedido sem mudar uma palavra. Recebe um "sim" e não fica sabendo, dentro da história, que o "sim" não se cumpriu. A parábola não lhe dá reação.
Os chefes dos sacerdotes e os anciãos. São os ouvintes, e são eles que o segundo filho retrata, segundo o próprio Jesus no versículo 32: os que viram João e não creram. O versículo 45 confirma que eles entenderam: "era deles que ele falava".
Os fariseus. Mateus os inclui entre os que ouviram as parábolas (Mateus 21:45). Para os comentaristas, eles são o tipo mais acabado do segundo filho: estudiosos da Lei, observantes, com a palavra de obediência sempre pronta. A acusação de Mateus 23:3 — "dizem e não fazem" — é o resumo do versículo na boca de Jesus, dois capítulos depois.
Eventos
A segunda visita do pai. Idêntica à primeira.
A promessa. Feita na hora, sem condição.
A ida que não aconteceu. É um não-evento: o texto registra a ausência de um ato. Não diz onde o filho estava nem o que fez em vez de ir.
5. Pontos de Ensino
A mesma oportunidade, respostas diferentes
O pai diz ao segundo filho exatamente o que disse ao primeiro. Ninguém foi chamado com mais insistência, mais promessa ou mais clareza. Por isso a diferença entre os dois não pode ser atribuída ao chamado — está toda na resposta.
A forma correta não substitui o ato
O segundo filho faz tudo certo com a boca: responde depressa, chama o pai de senhor, se apresenta com o "eu". Nenhuma dessas coisas é condenada em si. O problema é que nenhuma delas leva à vinha.
O "sim" fácil pode ser o mais perigoso
Quem diz "não" sabe que recusou e pode reconsiderar. Quem diz "sim" e não vai tem a sensação de ter obedecido. A resposta educada protege quem a dá da própria consciência — e é por isso que, na parábola, o segundo filho não tem nenhum "depois".
O título não faz o servo
"Senhor" é a palavra de quem serve. Dita e não cumprida, vira o contrário do que significa.
A parábola não precisa decidir se houve mentira
O texto não diz se o segundo filho mentiu ou só desistiu. O juízo do versículo 31 dispensa a pergunta: mede o que foi feito. Para quem esperava ser julgado pela sinceridade das intenções, essa é a parte mais incômoda.
O retrato é de quem está dentro
O segundo filho é filho. Não é um estranho nem um inimigo da casa; é alguém que mora ali e sabe o que o pai quer. Jesus o aplica às autoridades religiosas, não aos de fora. O alvo da parábola é a religião de quem já está dentro.
6. Aspectos Filosóficos
O segundo filho promete e não cumpre. A pergunta que o versículo deixa é velha e incômoda: o que acontece entre a promessa e o ato? E por que é tão fácil dar o "sim" e tão difícil dar o passo?
La Rochefoucauld e o amor-próprio
François de La Rochefoucauld (1613-1680), nobre francês que lutou nas guerras civis da Fronda e passou a velhice nos salões de Paris, publicou em 1665 um livro de frases curtas, as Máximas. A epígrafe da obra resume o programa: "As nossas virtudes não são, na maioria das vezes, mais do que vícios disfarçados." Para ele, por trás de quase todo gesto nobre trabalha o amor-próprio, o interesse por si mesmo, que se veste de qualquer roupa para conseguir o que quer. "O interesse fala todas as línguas e representa todos os papéis, até o de desinteressado" (máxima 39).
Três máximas tocam diretamente o versículo.
Prometer e cumprir
"Prometemos segundo as nossas esperanças e cumprimos segundo os nossos medos" (máxima 38). A frase explica o segundo filho sem precisar chamá-lo de mentiroso. No momento da promessa, o que fala é a esperança: a imagem de si mesmo como filho obediente, a vontade de agradar o pai, o alívio de encerrar a conversa com um "sim". No momento de cumprir, o que fala é outra coisa — o cansaço, o sol, o que se perde indo para a vinha. A promessa e o ato saem de partes diferentes da pessoa, e por isso podem se contradizer sem que ninguém minta.
É a segunda das três leituras sobre o segundo filho (item 3): sincero ao prometer, ausente ao cumprir. La Rochefoucauld a torna banal, no sentido mais duro da palavra — não exige um vilão, só um homem comum.
A homenagem do vício à virtude
"A hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude" (máxima 218). O segundo filho não desafia o pai. Ao contrário: reconhece em voz alta tudo o que o pai tem direito de esperar — obediência, prontidão, respeito. O "Eu, senhor" é uma homenagem perfeita. Só não é seguida pelo ato.
A máxima tem um lado que costuma passar despercebido. Se a hipocrisia homenageia a virtude, então o hipócrita sabe qual é a virtude. O segundo filho sabe exatamente o que um bom filho faz; é por isso que responde tão bem. O primeiro filho, grosseiro, nem se dá ao trabalho de fingir. A parábola põe frente a frente o vício sem homenagem e a homenagem sem virtude — e julga pelo que cada um fez.
Enganar a si mesmo
"Estamos tão acostumados a nos disfarçar diante dos outros que acabamos nos disfarçando diante de nós mesmos" (máxima 119). Esta é a mais grave das três para o versículo. O segundo filho talvez nem saiba que não pretendia ir. A fórmula correta, repetida, acaba convencendo quem a diz. E então ninguém precisa mudar de ideia, porque ninguém percebe que há algo a mudar.
É a diferença que o texto marca sem comentar: o primeiro filho tem um "depois", o segundo não. Quem se disfarçou para si mesmo não tem ocasião de se arrepender.
O limite
La Rochefoucauld era um moralista amargo, e as suas máximas suspeitam de tudo, inclusive da bondade real. A parábola não é tão pessimista: ela tem um filho que muda para melhor, e o seu juízo não diz que toda promessa é vazia. O que ela compartilha com as Máximas é a desconfiança da palavra bem-feita, e a regra de olhar o que as pessoas fazem em vez do que dizem de si.
7. Aplicações Práticas
Conferir os próprios "sins"
Todo mundo dá respostas automáticas: "pode deixar", "vou ver isso", "conte comigo". A maioria é inofensiva. Algumas viram compromissos que alguém esperava ver cumpridos — o pai, o colega, o amigo, a comunidade. Um exame simples ajuda: dos "sins" desta semana, quais viraram ato?
Preferir o "não" honesto ao "sim" de cortesia
Para quem pede, um "não" claro permite procurar outra saída; um "sim" que não se cumpre deixa a vinha vazia e o pai contando com quem não vem. Quando não se pretende fazer, dizer que não é uma forma de respeito.
Desconfiar da própria boa educação
A fórmula correta pode virar substituto do ato. Na vida religiosa isso é especialmente fácil: a linguagem da obediência é conhecida, e repeti-la dá a sensação de estar obedecendo. O segundo filho chama o pai de senhor; o problema é que a palavra basta para ele.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. O segundo filho é pior que o primeiro?
A parábola não pergunta qual é o pior, e sim "qual dos dois fez a vontade do pai?". A resposta é o primeiro. Daí se tira que o segundo falhou onde o primeiro acertou, mas não que a grosseria do primeiro seja boa. Os dois ofenderam o pai: um com a palavra, outro com o ato. A ofensa que pesa no juízo é a do ato.
2. Por que o pai não volta para cobrar o segundo filho?
Porque a história termina antes. A parábola é curta e para no momento em que os dois quadros estão completos. Na aplicação, o "pai" não precisa cobrar: Jesus faz os ouvintes julgarem, e o juízo deles vale como cobrança. Na parábola seguinte, a dos lavradores, o dono da vinha vai mandar cobrar, e a cobrança vai terminar em morte.
3. Como fica o "sim, sim; não, não" do Sermão do Monte?
Mateus 5:37 manda que a palavra seja simples: "sim" quando é sim, "não" quando é não. Os dois filhos falham na regra, cada um de um lado. O primeiro disse "não" e o seu não virou sim; o segundo disse "sim" e o seu sim virou não. Nenhum dos dois tem a palavra que corresponde ao ato. A parábola prefere quem acertou no ato, mas não elogia a contradição de nenhum.
4. Se a intenção era boa na hora, conta alguma coisa?
Para a pergunta do versículo 31, não. O texto nem diz se havia intenção. A parábola não nega que intenções importem; nega que elas substituam o que se fez. Em Mateus, as intenções são julgadas pelos frutos: "vocês os reconhecerão pelos seus frutos" (Mateus 7:20) é a régua do mesmo Sermão do Monte que traz o "Senhor, Senhor".
9. Conexão com Outros Textos
O "Senhor" que não basta
Mateus 7:21 — "Nem todo aquele que me diz: 'Senhor, Senhor' entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus."
Lá o título vem dobrado e dirigido a Jesus; aqui vem uma vez só, dirigido a um pai. Nos dois, é a palavra certa sem o ato que ela promete.
Dizer e não fazer
Mateus 23:3 — "Portanto, tudo o que eles disserem a vocês, façam e observem. Mas não imitem as obras deles, porque dizem e não fazem."
A acusação contra escribas e fariseus, dois capítulos depois, em três palavras. É o segundo filho como regra de comportamento de um grupo.
Mateus 15:8 — "'Este povo se aproxima de mim com a boca e me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.'"
Isaías citado por Jesus. A honra "com os lábios" é exatamente a do "Eu, senhor".
O outro "eu" enfático que não se cumpriu
Mateus 26:33-35 — "Pedro, porém, respondeu-lhe: 'Ainda que todos te abandonem, eu jamais te abandonarei'. Respondeu-lhe Jesus: 'Eu lhe asseguro que, ainda esta noite, antes que o galo cante, você me negará três vezes'. Disse-lhe Pedro: 'Ainda que eu tenha de morrer contigo, de forma alguma te negarei'."
O mesmo "eu" na frente, com comparação explícita — "ainda que todos" —, e a mesma distância entre a promessa e o ato. Mas Pedro, ao contrário do segundo filho, terá o seu "depois": chorará amargamente (Mateus 26:75) e será reencontrado.
A promessa coletiva no Sinai
Êxodo 24:7 — "E tomou o livro da aliança e o leu aos ouvidos do povo, e eles disseram: Tudo o que o SENHOR falou, faremos e obedeceremos."
Tradução nossa do hebraico. O texto que Jerônimo associou ao segundo filho (item 3). Dentro do próprio Êxodo, o "faremos" é seguido pelo bezerro de ouro — e, depois dele, pela renovação da aliança.
Êxodo 32:8 — "Depressa se desviaram do caminho que eu lhes ordenei; fizeram para si um bezerro de metal fundido."
Tradução nossa do hebraico. A Bíblia hebraica conta a distância entre o "faremos" e o ato com a mesma franqueza com que Mateus conta a do segundo filho — e é por isso que ela não serve para fazer de um povo inteiro o filho que não foi: o mesmo livro registra o perdão e o recomeço.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Chegando ao segundo, disse a mesma coisa. Este respondeu: ‘Eu vou, senhor’; mas não foi.
Texto grego (Textus Receptus, Scrivener 1894)
Καὶ προσελθὼν τῷ δευτέρῳ εἶπεν ὡσαύτως. Ὁ δὲ ἀποκριθεὶς εἶπεν, Ἐγώ, κύριε· καὶ οὐκ ἀπῆλθε.
Transliteração
Kai proselthōn tō deuterō eipen hōsautōs. Ho de apokritheis eipen, Egō, kyrie; kai ouk apēlthe.
Diferenças entre as edições
Duas, ambas pequenas. O Textus Receptus e o texto bizantino abrem com kai, "e"; as edições críticas abrem com de depois do particípio ("e, chegando…"), sem diferença de sentido. E onde o Textus Receptus diz tō deuterō, "ao segundo", a edição de Tischendorf e parte dos manuscritos dizem tō heterō, "ao outro". "Ao outro" é a forma natural do grego quando há só dois; "ao segundo" faz par com o "ao primeiro" do versículo 28 e marca a sequência. A ABC segue o Textus Receptus.
Análise palavra por palavra
Καὶ προσελθὼν — kai proselthōn, "e, tendo-se aproximado". O mesmo particípio do versículo 28: o pai repete o gesto de ir até o filho.
τῷ δευτέρῳ — tō deuterō, "ao segundo". Dativo de deuteros, "segundo", o ordinal de que vem "Deuteronômio", a "segunda lei".
εἶπεν ὡσαύτως — eipen hōsautōs, "disse do mesmo modo". Hōsautōs é o advérbio que evita repetir por extenso o que já foi dito, analisado no estudo de Mateus 20:5. Aqui ele cobre só a fala do pai; a resposta do filho vem inteira.
Ὁ δὲ ἀποκριθεὶς εἶπεν — ho de apokritheis eipen, "e ele, respondendo, disse". A mesma abertura do versículo 29, palavra por palavra. Os dois filhos começam a responder com a mesma fórmula; a diferença está toda no que vem depois dela.
Ἐγώ — egō, "eu". Pronome pessoal da primeira pessoa, no nominativo. O grego não precisa dele, porque a forma do verbo já diz quem fala; quando aparece explícito, costuma dar ênfase ou contraste. Aqui o verbo nem aparece: a frase é só o pronome. O leitor tem de completá-la, e o complemento natural é hypagō, "vou", o verbo da ordem do pai (hypage, "vá"). Bengel já registrava essa elipse no século XVIII. Pedro usará o mesmo egō enfático na promessa que não cumprirá: egō oudepote, "eu, jamais" (Mateus 26:33).
Na versão grega do Antigo Testamento, a resposta de quem é chamado por Deus — o hebraico hinneni, "eis-me aqui" — é traduzida por idou egō, "eis, eu" (Gênesis 22:1; 1 Samuel 3:4). A semelhança com o egō do segundo filho é de forma, não de citação; se Mateus quis o eco, não o marcou.
κύριε — kyrie, "senhor!". Vocativo de kyrios, "senhor", "dono", "aquele que tem poder sobre algo ou alguém". A palavra cobre toda a escala: é o "senhor" educado dirigido a um desconhecido, o "senhor" do servo ao dono, e, na versão grega do Antigo Testamento, a palavra que substitui o nome divino. Nos evangelhos, nenhum outro filho chama o pai de kyrie; o filho de Lucas 15 diz "Pai" (pater). Nas cartas particulares em grego do mesmo período, porém, "pai e senhor" é fórmula corrente de respeito filial (item 2).
Em Mateus, kyrie é a palavra dos servos ao dono da casa (Mateus 13:27) e a de quem pede socorro a Jesus. Dobrada, "kyrie, kyrie", é a palavra dos que serão recusados (Mateus 7:21-22; 25:11).
καὶ οὐκ ἀπῆλθε — kai ouk apēlthe, "e não foi". Kai, "e", a conjunção mais neutra do grego, sem valor de contraste — o "mas" da ABC é interpretação, justificada pelo sentido. Ouk é a forma de ou, a negação de fato, antes de vogal. Apēlthe, aoristo de aperchomai, "partir", "ir-se". É a mesma palavra com que termina o versículo 29, onde o primeiro filho "foi". Os dois versículos acabam no mesmo verbo, um afirmado e outro negado: a parábola inteira está nessa partícula de três letras.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que a parábola tira do segundo filho todas as desculpas antes de julgá-lo. Ele recebeu o mesmo pedido, nas mesmas palavras, pela mesma visita do pai. Respondeu com a fórmula mais respeitosa que um filho podia dar. O que lhe faltou não foi chamado, clareza nem educação; foi o ato.
A segunda é que o texto não diz se ele mentiu, e não precisa dizer. O "Eu, senhor" pode ter sido falso desde o começo, sincero e abandonado depois, ou simplesmente automático. A pergunta que vem a seguir não é sobre sinceridade, é sobre o que foi feito — e, por esse critério, as três hipóteses dão o mesmo resultado.
A terceira é que o retrato é de alguém de dentro. Quem diz "senhor" e não vai não é o inimigo da casa, é o filho que conhece a linguagem da obediência. Jesus o aplica às autoridades religiosas que o ouviam, não a um povo inteiro, e a leitura que fez dele o retrato de Israel contradiz a aplicação dada pelo próprio texto.













