Saindo de novo por volta da hora sexta e da nona, fez o mesmo.
1. Introdução
Duas saídas do dono da vinha cabem numa linha. Ao meio-dia e no meio da tarde ele volta à praça, contrata mais gente e repete a promessa sem valor — e o texto não conta nenhuma das duas cenas: resume as duas em três palavras. As horas escolhidas não são horas quaisquer, porque a sexta era a do calor e do descanso e a nona era hora de oração. A compressão da narrativa é o que permite à parábola ter cinco contratações sem ter cinco histórias.
2. Contexto Histórico e Cultural
A única hora antiga que traduz sem erro
A hora daquele mundo era a duodécima parte da luz do dia, e por isso mudava de tamanho conforme a estação — o funcionamento do relógio antigo e os instrumentos que existiam para medi-lo estão no estudo de Mateus 20:3.
Da variação decorre uma consequência que interessa justamente a este versículo. Se a hora é fração da luz, nenhuma delas corresponde a um ponto fixo do nosso mostrador: a terceira é um quarto do caminho entre o amanhecer e o anoitecer, a décima primeira é a última hora de luz, e o relógio de pulso sempre erra ao converter. Há uma exceção, e ela está aqui: a hora sexta é o meio-dia com precisão, em qualquer época do ano, porque é o meio da luz. Das quatro horas numeradas da parábola, é a única que se pode traduzir sem ressalva — e a nona, que vem com ela nesta frase, é a segunda mais segura, porque três quartos da luz é uma fração fácil de ler na sombra.
O que se fazia em cada hora
Há um poema que serve de horário. Marcial (Marco Valério Marcial, poeta latino do século I) escreveu um epigrama em que percorre o dia de Roma hora por hora: a primeira e a segunda consomem os que vão cumprimentar os patronos; a terceira ocupa os advogados roucos; até a quinta a cidade estende os seus trabalhos variados; a sexta é descanso para os cansados; a sétima será o fim (Epigramas IV.8).
Duas coisas saem daí. A primeira é que a hora sexta era, na cidade, a hora de parar — a mais quente do dia, a do almoço e do repouso. A segunda é que o expediente urbano acabava por volta da sétima, e o trabalho do campo não: na vinha se trabalhava enquanto houvesse luz, até a décima segunda. O horário de Marcial é o de uma cidade de funcionários, advogados e clientes; a parábola se passa no outro calendário, o da terra, em que o fim do dia é o fim da luz.
Por isso as duas horas deste versículo são estranhas para contratar. Ao meio-dia, quem tem juízo está à sombra; e é do calor dessa hora que os trabalhadores da madrugada vão reclamar no fim da parábola.
As duas horas deste versículo eram horas de oração
A nona hora tinha função religiosa fixa: era a da oferta e da oração da tarde no Templo. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) chama a atenção para isso a propósito deste versículo — as duas horas em que o dono da vinha sai são as duas horas de oração do dia.
Quem confirma é o livro de Atos, que usa as horas exatamente como marcas reconhecidas. Pedro e João sobem ao Templo “na hora da oração, a nona” (Atos 3:1). O centurião Cornélio tem a sua visão “por volta da hora nona” (Atos 10:3). Pedro sobe ao terraço para orar “por volta da hora sexta” (Atos 10:9). E, no dia de Pentecostes, ele desfaz a acusação de embriaguez com um argumento de relógio: “são apenas as nove da manhã”, diz o texto — literalmente, “é a hora terceira do dia” (Atos 2:15), o que supõe que ninguém estaria bêbado tão cedo.
Ou seja: as quatro horas numeradas desta parábola — a terceira, a sexta, a nona e a décima primeira — não são marcas escolhidas ao acaso. Três delas são precisamente as que os próprios escritos cristãos usam quando precisam situar um acontecimento no dia. Eram os pontos que todo mundo sabia reconhecer.
O texto não comenta a coincidência, e é discutido se ela foi buscada. O dado fica de pé: enquanto o Templo se enchia, o dono da vinha estava na praça, contratando.
3. Análise Teológica do Versículo
“Saindo de novo”
É a terceira e a quarta vez que ele sai, e continua saindo ele mesmo.
A parábola é feita de saídas: de madrugada, na terceira hora, na sexta, na nona, na décima primeira. Cinco vezes o proprietário deixa a vinha e vai à praça, e nenhuma vez manda alguém em seu lugar, embora tenha um administrador — que aparece justamente na cena em que ele não vai, a do pagamento, em Mateus 20:8. Enquanto se trata de chamar gente, quem vai é o dono.
“por volta da”
A expressão aparece três vezes na parábola, e não é imprecisão de quem escreve.
Ninguém sabia a hora ao minuto, porque a hora se lia no sol (item 2). Dizer “por volta da sexta” é dizer o que se podia dizer. E a aproximação tem um segundo efeito: ela impede a leitura da parábola como um esquema de intervalos exatos.
Vale conferir os intervalos. As contratações acontecem ao amanhecer, na terceira hora, na sexta, na nona e na décima primeira. Entre as quatro primeiras há três horas de distância; entre a quarta e a quinta, duas. A série não é regular. Se a intenção fosse construir uma escala, a simetria estava disponível: bastava a décima segunda hora.
A leitura das cinco idades, e o que ela custa
A irregularidade importa porque há uma tradição interpretativa antiga que depende de os cinco momentos formarem uma escala. Ela foi fixada por Gregório Magno, papa e comentarista do século VI, numa homilia sobre esta parábola, e teve enorme circulação na Idade Média por ser o texto lido no domingo em que a passagem entrava na liturgia.
Gregório propõe duas leituras, uma sobre a outra. Na primeira, as horas são as idades do mundo: a manhã vai de Adão a Noé; a hora terceira, de Noé a Abraão; a sexta, de Abraão a Moisés; a nona, de Moisés à vinda do Senhor; a décima primeira, da vinda do Senhor ao fim do mundo. Na segunda, são as idades de um homem: a infância é a manhã, a adolescência a hora terceira, a maturidade a sexta, o declínio a nona e a velhice a décima primeira. A conclusão que ele tira das duas é a mesma — Deus chama em todas as etapas, e nenhuma é tarde demais.
A leitura é coerente e explica por que a parábola ficou associada à conversão em qualquer idade. O custo dela é triplo. O texto nunca atribui conteúdo a nenhuma hora. A escala tem degraus desiguais, e nem a história bíblica nem a vida humana se repartem em quatro blocos iguais e um menor. E, principalmente, a parábola não termina em chamado: termina em pagamento, e a discussão do fim não é sobre quando cada um entrou, é sobre quanto cada um recebeu. Não é possível decidir se Mateus pensava em etapas; o que se pode afirmar é que ele não escreveu nenhuma.
“da hora sexta e da nona”
Duas horas numa só frase, e é preciso decidir se houve uma saída ou duas.
A construção grega liga as duas horas a um único verbo, o que poderia sugerir uma saída só, cobrindo o intervalo. Contra isso está o sentido da frase seguinte: se ele “fez o mesmo”, fez o que fizera antes, e antes ele saiu, encontrou, chamou e enviou. Jamieson, Fausset e Brown (trio de comentaristas escoceses do século XIX) leem duas contratações distintas, com trabalhadores novos em cada uma. É a leitura que a história exige, já que no fim haverá cinco grupos e não quatro.
“fez o mesmo”
Três palavras que carregam duas cenas inteiras — e a pergunta é o que exatamente se repetiu.
Repetiu-se a saída, repetiu-se o encontro na praça, repetiu-se o envio. E repetiu-se, sobretudo, a forma do contrato: Meyer (Heinrich Meyer, exegeta alemão do século XIX) faz questão de explicitar que o dono os mandou embora prometendo-lhes também apenas o que fosse justo. É essa a informação que “o mesmo” transporta. A parábola enuncia a promessa sem valor uma única vez, em Mateus 20:4, e depois a repete três vezes sem reescrevê-la.
O efeito sobre a leitura é grande. A história tem uma madrugada detalhada, uma hora décima primeira detalhada e um anoitecer detalhado; o meio do dia é uma linha. Os dois extremos são exatamente o que vai ser comparado na hora do pagamento, e o meio serve para que existam extremos.
O que o versículo não diz
Não diz quantos foram contratados em cada hora. Não diz se alguém recusou. Não diz se a vinha precisava de mais gente ou se já tinha braços suficientes — e essa omissão é importante, porque uma parábola sobre necessidade de mão de obra e uma parábola sobre vontade de empregar não são a mesma parábola. O texto permite as duas leituras e não escolhe.
E há uma ausência que passa desapercebida na leitura corrida: o versículo não diz que havia gente esperando ao meio-dia e no meio da tarde. Ele diz que o dono fez o mesmo, e é o leitor que conclui que houve quem encontrar. Os únicos grupos que a parábola mostra de fato parados na praça são o da hora terceira e o da décima primeira, em Mateus 20:3 e 20:6. Os do meio existem porque o pagamento do versículo 8 chama cinco levas, não porque alguma linha os tenha visto de pé em lugar nenhum.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O proprietário
Terceira e quarta aparição dele em cinco versículos, sempre no mesmo movimento: sai, vê, contrata, envia. Nada novo se informa a seu respeito, e é precisamente a ausência de informação nova que justifica a frase resumida.
Os dois grupos novos
São o terceiro e o quarto dos cinco. Não têm número, não têm origem, não falam e não são descritos. Existem no texto apenas como consequência de “fez o mesmo”. No fim da parábola, quando as levas forem chamadas para receber, eles estarão lá — sem que nenhuma linha lhes tenha sido dedicada.
A hora sexta
O meio-dia. Metade da luz gasta, metade por vir. É a hora mais quente e, na cidade, a do descanso.
A hora nona
Três quartos do dia gastos. É a hora da oferta e da oração da tarde no Templo, e a hora em que, no mesmo evangelho, Jesus morre (Mateus 27:46). Aqui é a hora em que um proprietário volta à praça.
A praça
O lugar em que se contratava por dia, e onde o dono encontra gente a cada saída. O que ela era e como funcionava está no estudo de Mateus 20:3.
O evento
Duas contratações não narradas — as únicas da parábola que o texto se recusa a contar.
5. Pontos de Ensino
A repetição é narrada como repetição
O texto tinha a opção de contar quatro vezes a mesma cena e não a usou. Isso ensina algo sobre como a parábola foi construída: ela gasta palavras onde há diferença e economiza onde não há.
Só uma das horas antigas traduz sem erro
Quem lê “hora terceira” como nove da manhã está certo por acaso e em algumas semanas do ano. A hora sexta é o meio-dia sempre. As outras são frações da luz, e a luz muda.
A série das horas não é simétrica, e isso limita a alegoria
Três, seis, nove — e então onze. O intervalo final é menor. Toda leitura que faça das cinco contratações cinco idades precisa dar conta disso, e nenhuma dá a partir do texto.
O dono sai nas horas em que ninguém sai
Ao meio-dia, por causa do calor; no meio da tarde, por causa da oração. Ele vai à praça nas duas. O texto não elogia nem critica; registra.
“Fez o mesmo” transporta um contrato
O que se repete não é só o gesto de contratar: é a promessa sem valor combinado. Duas contratações inteiras entram na parábola dentro de um advérbio, e com elas a cláusula aberta que vai produzir a discussão do fim do dia.
O meio do dia é uma linha
Numa história sobre quem trabalhou mais e quem trabalhou menos, as horas do meio — as que não são nem as primeiras nem as últimas — não recebem descrição nenhuma. É o extremo que interessa à comparação, e o texto já sabe disso aqui.
6. Aspectos Filosóficos
Fazer outra vez a mesma coisa: isso esvazia um ato ou o aperfeiçoa?
A pergunta tem um tratado clássico, e é curto. Félix Ravaisson (1813-1900), filósofo francês, publicou em 1838 uma tese chamada De l'habitude (“Do hábito”) que virou referência obrigatória sobre o assunto. O ponto de partida dele é a constatação comum de que a repetição embrutece — quem faz a mesma coisa mil vezes deixa de sentir o que faz. Ravaisson aceita metade disso e recusa a outra metade, e é a recusa que interessa.
A metade que ele aceita: repetir enfraquece a receptividade. O cheiro que se sente todos os dias deixa de ser notado; a dor que continua deixa de doer tanto. A sensação se apaga com o costume.
A metade que ele recusa: repetir fortalece a atividade. O ato repetido fica mais fácil, mais rápido, mais seguro — e, no limite, deixa de exigir decisão. O que era esforço passa a ser tendência; o que era vontade passa a ser inclinação. Daí a formulação pela qual Ravaisson é lembrado: o hábito é uma segunda natureza, e ele é o modo pelo qual se adquire uma natureza. Não é a morte do movimento; é a forma em que o movimento se instala.
Aplicado ao versículo, o argumento explica a economia da frase. A quarta saída do dono da vinha não é uma versão gasta da primeira: é a mesma ação já instalada, que não precisa mais ser deliberada e por isso não precisa mais ser contada. “Fez o mesmo” é exatamente o que se diz de um ato que virou disposição. O texto gasta palavras onde há decisão, e aqui já não há: há uma tendência em funcionamento.
A objeção
Ravaisson descreve o hábito adquirido por quem age, e não distingue isso do que se faz a alguém. A crítica que se lhe faz é justamente essa: chamar de segunda natureza aquilo que também pode ser o nome da docilidade — a rotina que se suporta porque se deixou de senti-la. Numa vinha, a facilidade que o costume dá ao patrão que sai contratar não é da mesma espécie que a que dá ao homem que espera na praça, e a teoria não tem instrumento para separar as duas. É discutido se esse é defeito do argumento ou apenas o seu limite de alcance.
E há o que a parábola faz com a ideia. O dia resumido em três palavras vai terminar numa quebra: quem chegou por último recebe primeiro, e a ordem que o costume sustentava deixa de valer. A moldura da história — Mateus 19:30 e Mateus 20:16 — anuncia essa quebra antes e depois dela. O hábito explica o meio do dia; o fim é construído contra a expectativa que o meio do dia criou.
O limite
Ravaisson escreveu metafísica francesa do século XIX e não comentou esta passagem. O texto, por sua vez, não diz que o dono agiu por hábito: ele diz que o dono fez igual. Ler na economia da frase uma ação já instalada é leitura plausível da forma, não afirmação da parábola.
7. Aplicações Práticas
O versículo dedica uma linha ao miolo do dia, e o miolo do dia é onde cabe quase tudo o que se faz.
Quem conta a própria história conta a entrada e a saída: o dia em que começou, o dia em que entregou, o dia em que recebeu. As horas do meio — as sextas e as nonas de qualquer semana — não rendem narrativa, e é nelas que o trabalho acontece. Não há aqui uma lição sobre isso; há um texto que se comporta desse jeito e que, por se comportar assim, mostra o formato de um dia de trabalho real: dois extremos lembrados e um longo meio resumido.
Há uma aplicação mais direta, do lado de quem oferece. O dono sai cinco vezes. Não conclui, depois da primeira passada pela praça, que já tinha visto quem havia; não conclui, depois da terceira, que quem quisesse trabalhar já teria aparecido. Repetir uma oferta quatro vezes é diferente de fazê-la uma vez e tirar conclusões sobre quem não apareceu — e a diferença entre as duas condutas vai ficar visível dois versículos adiante, quando aparecerem homens que passaram o dia inteiro sem que ninguém os chamasse.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que o texto não conta as duas contratações do meio do dia?
Porque não haveria o que contar de novo: a fala, o lugar e o contrato são os mesmos da hora terceira. A parábola detalha a madrugada, a hora décima primeira e o anoitecer, que são os três pontos de que a comparação final precisa. O meio existe para que haja extremos.
O dono contratou gente demais?
A pergunta é legítima e o texto não a responde. Uma vinha tem um tamanho, e um tamanho pede um número de braços; cinco levas ao longo de um dia podem significar que a colheita era maior do que a previsão, ou que o dono não estava calculando braços. As duas leituras mudam a parábola: na primeira ele é um administrador apertado pelo prazo; na segunda, alguém que emprega porque quer empregar. O versículo 8 vai mostrar que todos foram pagos, e não que todos foram necessários.
Se a hora sexta era a do descanso, por que havia gente na praça ao meio-dia?
Porque o descanso da hora sexta é de quem tem o que descansar do quê. Quem não foi contratado não tem de que descansar: tem de esperar. O texto não diz isso; diz que o dono encontrou gente lá, nas duas vezes.
Quantos trabalhadores foram contratados em cada hora?
Não se sabe, e a parábola nunca informa — nem aqui, nem no pagamento. A distribuição dos números seria decisiva para julgar a conta do fim, e o texto a suprime em todos os cinco grupos.
A que horas do nosso relógio correspondem a sexta e a nona?
A sexta é o meio-dia com precisão, em qualquer época do ano. A nona é três quartos do caminho entre o amanhecer e o anoitecer: em pleno verão cai perto das quatro da tarde, em pleno inverno perto das duas e meia. Falar de “três horas” é aproximação de equinócio.
9. Conexão com Outros Textos
As três saídas contadas usam a mesma construção, e a comparação entre elas é o que mostra o desenho da parábola.
Mateus 20:3 — “Por volta da hora terceira, saiu e viu outros parados na praça, sem trabalho.”
Mateus 20:6 — “Por volta da hora décima primeira, saiu e encontrou outros parados, e lhes perguntou: ‘Por que vocês ficaram aqui o dia todo sem trabalhar?’”
Nas duas há hora, saída, encontro e gente parada. No versículo 5 a fórmula é substituída por um advérbio, e é a única das cinco saídas que não tem cena.
As duas horas deste versículo reaparecem juntas no mesmo evangelho, e no episódio mais grave dele:
Mateus 27:45 — “Desde a hora sexta até a hora nona, houve trevas sobre toda a terra.”
São exatamente as duas horas em que o dono da vinha sai para contratar. Mateus usa as mesmas palavras nas duas passagens, e nada indica que a coincidência seja intencional — a hora sexta e a nona são, afinal, as duas balizas naturais de qualquer dia antigo. Mas quem lê o evangelho inteiro vê a mesma faixa do dia servindo, num lugar, de horário de trabalho e, no outro, de medida de trevas.
A hora nona como hora de oração aparece em Atos, e é a mesma hora deste versículo:
Atos 3:1 — “Pedro e João subiam ao templo na hora da oração, a nona.”
E a hora sexta, com a mesma função, em Atos 10:9, onde Pedro sobe ao terraço para orar por volta dela.
Há um paralelo do meio-dia como hora de parar, no quarto evangelho:
João 4:6 — “Jesus, cansado da caminhada, sentou-se junto ao poço. Era por volta da hora sexta.”
Ali a hora sexta é a hora do cansaço e da pausa, o que o epigrama de Marcial confirma do lado romano. É o horário em que o dono da vinha vai buscar gente para trabalhar.
Por fim, o advérbio “do mesmo modo” reaparece na outra parábola de vinha de Mateus, com a mesma função de não repetir a cena:
Mateus 21:30 — “Chegando ao segundo, disse a mesma coisa. Este respondeu: ‘Eu vou, senhor’; mas não foi.”
Lá o resumo cobre a fala do pai, e o que importa vem depois, na resposta do filho. Aqui o resumo cobre tudo, e não há resposta nenhuma.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Saindo de novo por volta da hora sexta e da nona, fez o mesmo.
Texto grego (Textus Receptus, Scrivener 1894)
πάλιν ἐξελθὼν περὶ ἕκτην καὶ ἐννάτην ὥραν, ἐποίησεν ὡσαύτως.
Transliteração
palin exelthōn peri hektēn kai ennatēn hōran, epoiēsen hōsautōs.
Análise palavra por palavra
πάλιν — palin, advérbio: “de novo”, “outra vez”, “de volta”. Dele vem o prefixo de “palimpsesto”, o pergaminho raspado e escrito de novo. A palavra marca retomada, e é a primeira do versículo: antes de qualquer informação, o texto diz que aquilo já aconteceu.
ἐξελθὼν — exelthōn, particípio aoristo ativo, nominativo masculino singular: “tendo saído”. O verbo é exerchomai, de ek (“fora de”) e erchomai (“ir, vir”) — sair de dentro para fora.
É o mesmo particípio das outras saídas, em Mateus 20:3 e 20:6, e é a articulação da parábola inteira: cinco particípios de sair, cinco idas à praça. O sujeito continua sendo o proprietário, que o versículo não nomeia de novo.
περὶ — peri, preposição: “em torno de”, “a respeito de”. Com expressões de tempo significa “por volta de”, e é a forma grega de dizer uma hora aproximada. Dela vêm “perímetro” e “periferia”.
ἕκτην — hektēn, acusativo feminino singular de hektos, “sexto”. Concorda com “hora”, que em grego é palavra feminina. A raiz é a de hex, seis, de onde “hexágono”.
καὶ ἐννάτην — kai ennatēn, “e nona”. O Textus Receptus grafa com dois n, ἐννάτην; as edições críticas grafam com um só, ἐνάτην. É variação de ortografia, sem efeito nenhum sobre o sentido.
ὥραν — hōran, acusativo singular de hōra: “hora”. Um único acusativo serve às duas ordinais, de modo que o grego diz literalmente “por volta da sexta e nona hora”.
A palavra é mais larga do que a nossa. Hōra designava também a estação do ano, o tempo próprio de alguma coisa, o momento oportuno — e é dessa amplitude que vem a expressão “ter chegado a hora”, que o Novo Testamento usa com frequência. No sentido de medida, é a duodécima parte da luz do dia, e por isso não é unidade constante: o conteúdo desse dado está no item 2.
Dela vêm, em português, “hora” e “horóscopo” — literalmente, o observador da hora.
ἐποίησεν — epoiēsen, aoristo do indicativo ativo, terceira pessoa do singular: “fez”. O verbo é poieō, o verbo geral de fazer, produzir, realizar; dele vem “poesia”, que em grego era simplesmente a coisa feita, a fabricação.
ὡσαύτως — hōsautōs, advérbio: “do mesmo modo”, “igualmente”. É formado por hōs (“como”) e uma forma adverbial de autos (“o mesmo”): literalmente, “como o mesmo”.
No Novo Testamento a palavra aparece dezessete vezes, quatro delas em Mateus — nesta passagem, duas vezes na parábola dos dois filhos e dos lavradores da vinha (Mateus 21:30 e 21:36) e uma na dos talentos (Mateus 25:17). A função é sempre a mesma: evitar repetir por extenso uma cena já contada.
Aqui o advérbio carrega mais do que gesto. Não há, em todo o versículo, uma só palavra sobre salário — nem número, nem promessa, nem menção a contrato. Todo o arranjo jurídico das duas contratações está dentro de hōsautōs, isto é, dentro da remissão ao que foi dito em Mateus 20:4. Traduzido cru, o versículo diz: ele saiu outra vez em duas horas do dia e fez igual.
Variantes e divisão
Há três diferenças entre as edições, todas pequenas.
O texto crítico e o bizantino abrem este versículo com οἱ δὲ ἀπῆλθον (“e eles foram”); o Textus Receptus põe essa frase no fim do versículo 4, que é a divisão seguida pela ABC, e o assunto está tratado no estudo daquele versículo.
O texto crítico traz πάλιν δὲ, “e de novo”, com a partícula de ligação; o Textus Receptus e o bizantino trazem apenas πάλιν. A grafia de “nona” varia, como se viu. Nenhuma das três afeta o sentido, e as palavras do corpo do versículo são as mesmas em todas as edições.
11. Conclusão
Do que foi exposto seguem quatro conclusões.
A primeira é sobre o relógio. As horas desta parábola são frações da luz, não posições de um mostrador, e só a hora sexta atravessa a tradução sem distorção. Quem fixa as outras em números do nosso relógio está lendo com precisão que o texto não tem e que o mundo dele não podia ter — e é isso que as três ocorrências de “por volta de” reconhecem.
A segunda é que a série das cinco contratações não é simétrica. O intervalo final é de duas horas, e não de três. Qualquer escala alegórica construída sobre as cinco horas tropeça nesse degrau, e o texto não oferece nada para consertá-lo.
A terceira é que a economia da frase não é descuido, e sim desenho. Duas contratações inteiras — com trabalhadores, fala, envio e a cláusula sem valor — entram na parábola dentro de um advérbio. O que ficou de fora é o miolo do dia; o que ficou dentro, em detalhe, são a primeira hora, a última e o anoitecer, que são justamente os três pontos de que a comparação final precisa.
A quarta é que a repetição tem duas faces neste dia, e a parábola vai usar as duas. Até aqui o dia é feito do que volta: a mesma saída, a mesma praça, a mesma promessa. A história que está sendo contada existe, no entanto, para mostrar o momento em que isso se rompe — e o rompimento não estará nas horas, estará na ordem do pagamento.













