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Mateus 20:3

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✍️ Por Alberto Adriano·29 de setembro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 27 acessos
Por volta da hora terceira, saiu e viu outros parados na praça, sem trabalho.
Grupo de homens de pé na praça de uma povoação da Judeia, de manhã, esperando ser contratados, com o proprietário de uma vinha aproximando-se.

Estudo


Por volta da hora terceira, saiu e viu outros parados na praça, sem trabalho.

1. Introdução

A hora terceira não é nove da manhã: é um quarto do dia de trabalho já gasto.

A praça é o lugar onde se contratava, e estar de pé nela era a única forma de se oferecer.

A palavra grega traduzida por "sem trabalho" pode significar preguiçoso, e os comentaristas se dividem exatamente aí.

Jerusalém conheceu, na mesma geração, um caso documentado de mais de dezoito mil homens sem serviço.

Ninguém na cena tinha relógio: a hora é informação dada ao leitor, não consultada pelos personagens.

2. Contexto Histórico e Cultural

Uma hora que não tinha sessenta minutos

O dia, naquele mundo, ia do nascer ao pôr do sol e era dividido em doze partes iguais. A consequência é imediata e quase sempre esquecida: como a duração da luz muda com a estação, a hora mudava de tamanho ao longo do ano.

Na latitude de Jerusalém, o dia mais longo tem cerca de quatorze horas de luz e o mais curto cerca de dez. A "hora" antiga, portanto, variava entre uns cinquenta minutos no inverno e uns setenta no verão. Perto dos equinócios — e a vindima cai justamente no fim do verão — ela ficava próxima dos nossos sessenta.

Daí sai a leitura correta da "hora terceira". Ela não localiza um ponto no mostrador de um relógio: mede uma fração da jornada. Três de doze são um quarto. Quando este homem sai, um quarto do dia de trabalho já foi gasto, e é isso que a expressão informa — seja em janeiro, seja em setembro.

A prova de que a conversão para o nosso relógio é imprecisa está nos próprios comentaristas, que não concordam. Barnes, Gill e Jamieson-Fausset-Brown dizem nove da manhã; o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) põe a primeira hora às sete e a terceira às nove; Ellicott, contando das seis, chega às oito. Jamieson-Fausset-Brown é quem enuncia o ponto que importa, e o enuncia bem: "depois que um quarto do dia de trabalho havia expirado".

Os instrumentos existiam, e não estavam na mão de ninguém

Havia como medir. Vitrúvio, arquiteto romano do século I antes de Cristo, dedica o livro IX do De architectura ("Sobre a arquitetura") aos relógios: cataloga mais de uma dezena de tipos de relógio de sol, cada um com o nome do inventor, e descreve os relógios de água de Ctesíbio, com engrenagens e figuras móveis.

Dois dados saem dessa lista. O primeiro é técnico: justamente porque as horas mudavam de tamanho, o mostrador de um relógio de sol tinha de ser riscado com linhas curvas, uma para cada mês — a engenharia antiga do tempo é toda ela um esforço para acomodar horas desiguais. O segundo é social: relógio era peça fixa, de praça pública, templo ou casa rica. Ninguém carregava um. A contagem geral das horas do dia no mundo antigo, com Plínio, está no estudo de Êxodo 12:17.

Isso muda a cena. Nenhum dos homens da praça sabia que hora era, com precisão, e o dono da vinha também não. A hora do versículo é informação que o evangelho dá ao leitor, para que ele possa fazer a conta que os personagens não fizeram. E o leitor vai precisar dela: sem as horas, o conflito do versículo 12 não se mede.

A praça era o mercado de trabalho

A palavra grega do lugar designa a praça do mercado, o espaço aberto onde a povoação se reunia para comprar, vender, conversar e tratar de negócios. Em Mateus 11:16 são crianças que estão sentadas nela; em Mateus 23:7 é onde se recebem as saudações públicas. É o espaço em que se é visto.

E era ali que se contratava braço. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) diz sem rodeios que a praça era "o lugar onde os trabalhadores costumavam ser contratados"; o Pulpit Commentary a chama de "o lugar habitual em que ociosos e trabalhadores à espera se juntavam". As regras da Mishná sobre contratação, examinadas no estudo do versículo 1, pressupõem um lugar assim: para haver "costume da região" sobre a hora de começar, é preciso que a contratação aconteça em público, na vista de todos.

Quem se oferece na praça não expõe um produto: expõe a si mesmo. Estar de pé ali é a forma inteira da oferta — não há amostra, não há currículo, não há intermediário. O homem é o anúncio.

Dezoito mil homens sem serviço, na mesma geração

Que a praça de uma cidade da Judeia tivesse homens parados a manhã inteira não é invenção literária, e há um caso documentado.

Flávio Josefo, historiador judeu do primeiro século, encerra as Antiguidades dos Judeus com um episódio de Jerusalém por volta do ano 63, uma geração depois da cena desta parábola. As obras do templo foram concluídas, e com isso os operários ficaram sem trabalho — mais de dezoito mil, pela conta dele. Eles passavam necessidade, porque era do canteiro do templo que tiravam o pão. A população propôs gastar o tesouro depositado no templo com eles e pediu ao rei Agripa que autorizasse a reconstrução do pórtico oriental, só para dar serviço a essa gente. Agripa recusou a obra do pórtico, por ser grande demais, e em lugar dela permitiu que a cidade fosse pavimentada de pedra branca — o que empregava os mesmos homens.

Josefo acrescenta um detalhe do costume de pagamento naquele canteiro: quem trabalhasse ainda que uma única hora recebia a sua paga imediatamente. Repare no que ele diz e no que não diz. Diz que se pagava na hora, por pouco que se tivesse trabalhado; não diz que se pagava um dia inteiro por uma hora. O pagamento imediato é o costume documentado; a equiparação do valor é a invenção da parábola, e ela aparece no versículo 9.

O limite é grande e não se pode dissimular. Josefo escreve décadas depois, sobre um canteiro de obras da capital, e nada indica que a parábola aluda a esse episódio. O que ele estabelece é mais modesto e suficiente: numa cidade da Judeia daquele século, milhares de homens de repente sem trabalho era coisa que acontecia, e a solução que ocorreu à população foi inventar serviço para eles.

3. Análise Teológica do Versículo

"Por volta da hora terceira"

A expressão é aproximada de propósito.

O grego começa com uma preposição que significa "em torno de", e a parábola vai usá-la nas quatro saídas seguintes. Nenhuma hora é dada como exata. Isso combina com a cena: quem conta a história está medindo o dia por frações, e não cronometrando.

Três de doze é um quarto. Quando o dono chega à praça pela segunda vez, um quarto do dia já se foi — e esses homens perderam esse quarto sem escolher perdê-lo, porque na primeira saída não foram levados.

O Textus Receptus traz o artigo ("a terceira hora") e as edições críticas o omitem. A diferença não muda nada: com artigo ou sem, a hora é a mesma (item 10).

"saiu"

É a segunda das cinco saídas, com o mesmo verbo do versículo 1. E é a primeira em que o texto diz o que ele encontrou lá.

No versículo 1 o evangelho informa a finalidade — saiu para contratar. Aqui não há finalidade declarada: ele sai, e vê. A parábola não diz se ele foi à praça procurando mais gente ou se passou por ela. Quem afirma que as cinco viagens compunham um plano está preenchendo esse silêncio.

"e viu outros"

O verbo é o de ver, e no versículo 6, na última saída, o evangelho trocará por outro: lá ele encontrou. A diferença entre ver e encontrar é pequena e pode ser só variação de estilo; quem a transforma em argumento sobre a intenção do dono está construindo mais do que o texto sustenta.

"Outros" diz que é gente diferente da do amanhecer. O texto não diz que eles estavam ausentes de madrugada — Bengel deduz que não estavam, e a dedução é razoável e continua sendo dedução. Também não diz quantos eram, o que é curioso numa história que vai terminar em comparação de contas.

"parados na praça"

A postura é de pé, e isso não é detalhe de cenário.

O grego usa uma forma verbal que indica posição tomada e mantida: eles se puseram em pé e continuam assim. De pé é a postura de quem está disponível. Quem senta ou se deita está fora do mercado; quem fica de pé está dizendo, com o corpo, que pode ser levado.

O contraste dentro deste mesmo capítulo é forte. Em Mateus 20:30 dois cegos estão sentados à beira do caminho, e ninguém os está contratando para nada — eles não se oferecem, eles pedem. Os dois grupos estão à vista do público, na mesma posição de dependência, e a diferença de postura é a diferença entre oferecer-se e suplicar.

E há o custo de ficar ali. A praça é o lugar onde se é visto: estar nela a manhã inteira, sem ter sido escolhido, é uma exposição pública do fato de que ninguém quis você.

"sem trabalho"

Aqui está a palavra em que os intérpretes se dividem, e a divisão é real.

A palavra grega é formada por negação mais "obra": sem-obra. Ela é neutra na formação e não é neutra no uso. Mateus a emprega em Mateus 12:36 para a "palavra inútil" de que se prestará contas no juízo — palavra que não produz nada, e ali é censura. No restante do Novo Testamento ela aparece na fé que não tem obras e é inútil, em Tiago 2:20, e em "barrigas ociosas", em Tito 1:12. Todos os outros usos são desabonadores.

Daí as duas leituras, e a pergunta que as separa é esta: o texto está descrevendo a situação desses homens ou o caráter deles?

Primeira leitura: descreve o caráter. Gill diz que estavam "sem disposição para trabalhar, e com medo de um pouco de perigo e de incômodo". Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) vai além e faz da ociosidade uma figura da condição do pecador antes da graça: até sermos contratados no serviço de Deus, ficamos o dia todo parados, e é um estado culpável. A leitura tem o peso dos outros usos da palavra a seu favor.

Segunda leitura: descreve a situação. O Expositor's Greek Testament ("Testamento Grego do Expositor", comentário inglês do começo do século XX baseado no texto original) é taxativo: não se trata de ócio como hábito, e sim de gente desempregada e à procura de trabalho.

A segunda é a que o próprio texto sustenta, e por dois motivos que não dependem de léxico. O primeiro é que a parábola responde à pergunta em voz alta, no versículo 7, e a resposta não é preguiça — é assunto daquele estudo, e ele a trata. O segundo é a conduta do dono: ele não repreende ninguém, não faz sermão, não exige explicação neste momento. Contrata.

Quando o vocabulário empurra para um lado e a narrativa diz o contrário em voz alta, a narrativa decide. A tradução da ABC toma partido ao verter "sem trabalho", e é honesto dizer que é um partido tomado: "ociosos" também seria defensável pela palavra, e seria enganoso pela história.

O que o versículo não diz

Não diz quantos homens eram, se o dono precisava de mais braços, se a vinha estava atrasada, nem se ele voltou à praça de propósito. E não diz há quanto tempo aqueles homens estavam ali — três horas, ou desde antes do amanhecer, tendo sido preteridos na primeira escolha. O texto deixa as duas possibilidades abertas, e elas fazem diferença.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

A praça

Nas cidades gregas e romanas era um espaço retangular aberto, cercado de colunas e de lojas, com o tribunal, os templos e o mercado em volta: o centro da vida pública. Nas povoações judaicas menores, a função cabia ao largo junto à porta da muralha ou à rua larga do mercado.

Era onde se comprava e vendia, onde se julgava, onde se conversava e onde se contratava braço. Nos evangelhos ela aparece como o lugar em que se é visto: em Mateus 11:16 crianças estão sentadas nela chamando as outras, e em Mateus 23:7 é onde se recebem as saudações que os mestres apreciavam.

A hora terceira

Um quarto do dia de trabalho. Contada do nascer do sol, em horas que mudavam de tamanho conforme a estação, a terceira hora caía entre as oito e as nove da nossa manhã, dependendo do mês e de como se converte.

É a primeira das quatro horas numeradas da parábola. As outras são a sexta e a nona, no versículo 5, e a décima primeira, no versículo 6. A entrada dos primeiros trabalhadores, no versículo 1, é a única sem número.

Os outros trabalhadores

Um segundo grupo, de tamanho não informado. O texto não diz de onde vinham, se eram da povoação, se tinham família, nem se já haviam sido preteridos na primeira rodada. Sabe-se deles três coisas: estavam de pé, estavam na praça, e não tinham serviço.

O dono da casa

O mesmo do versículo 1, na segunda de cinco saídas. Continua sem nome e continua indo pessoalmente, embora tenha um administrador — o que o estudo do versículo 1 examina.

5. Pontos de Ensino

As horas da parábola medem fração de jornada, não posição de relógio

Lida como "nove da manhã", a terceira hora não diz nada. Lida como "um quarto do dia já gasto", ela entra na conta que a parábola vai pedir ao leitor no versículo 12. É a segunda leitura que o texto usa.

Estar de pé na praça era a forma inteira da oferta

Sem amostra, sem intermediário e sem recomendação: o corpo presente era o anúncio. Isso explica por que o texto registra a postura e não só o lugar.

A exposição tem custo

A praça é onde se é visto, e ficar nela sem ser escolhido é tornar público que ninguém o quis. Quem lê a cena como simples espera está subestimando o que ela cobrava.

A palavra que o texto usa é dura, e a história a corrige

O termo grego significa "sem obra" e em todos os outros lugares do Novo Testamento serve de censura. Aqui não serve: a parábola dá a razão da ociosidade quatro versículos adiante, e o dono não repreende ninguém. Quem ensina este versículo como advertência contra a preguiça está ensinando o dicionário, e não o texto.

Ninguém na cena sabia a hora

Relógio era peça de praça pública ou de casa rica. A hora é dada ao leitor, e a precisão do relato não é a precisão dos personagens — o que é um bom aviso geral para quem lê números em narrativa antiga.

Homens sem serviço em massa era fato daquele mundo

O caso dos dezoito mil operários do templo, registrado por Josefo, mostra que a praça cheia de gente parada não é figura de retórica. O cenário da parábola era o que qualquer ouvinte dela tinha visto.

6. Aspectos Filosóficos

Uma pessoa vale menos quando ninguém a contratou?

À terceira hora, esses homens foram preteridos. Pela única medida que a praça oferece — alguém apareceu e escolheu outros —, ninguém precisava deles. A leitura espontânea de qualquer leitor moderno é que isso é uma perda de valor, e vale examinar de onde vem essa leitura.

A tese de Dominique Méda: o trabalho é uma invenção

Dominique Méda é socióloga e filósofa francesa, e ficou conhecida por um livro de 1995 de título provocador: Le travail, une valeur en voie de disparition ? ("O trabalho, um valor em vias de desaparecer?"). O título foi lido como manifesto contra o trabalho, e não é isso.

O argumento é histórico. Méda percorre os textos filosóficos e a história das ideias políticas para mostrar que "trabalho", como categoria única — a atividade que ao mesmo tempo integra a pessoa na sociedade, lhe dá lugar e a realiza —, é uma construção moderna, e não um traço permanente da vida humana. Ela não nega que sempre se tenha lavrado, tecido e construído; nega que essas atividades tenham sido reunidas sob um conceito único encarregado de fundar a posição social de quem as exerce. Sociedades que não se organizavam assim existiram, e o mundo antigo é uma delas: tinha ofícios, obrigações, tarefas e condições jurídicas, e não tinha o trabalho como fonte do lugar de um homem.

Daí a proposta dela, que é analítica antes de ser política: separar as funções que hoje o emprego cumpre — renda, reconhecimento, pertencimento — do sistema que por ora as cumpre. Se as funções são necessárias e o sistema é datado, então perguntar "o que acontece com quem não tem emprego" é perguntar sobre o sistema, e não sobre a natureza humana.

O que isso faz com os homens da praça

O que eles estavam perdendo à terceira hora era o pão do dia e o favor de um patrão. Não era a identidade.

Numa povoação da Judeia, quem alguém era vinha da família, da linhagem, da casa, do lugar de nascimento e do pertencimento a Israel. Nada disso dependia de ter sido chamado naquela manhã. A ferida existencial que o leitor de hoje coloca nesta cena — "eles não valiam nada" — é acréscimo nosso, e é o tipo de acréscimo que passa por evidência porque ninguém se lembra de que é histórico.

E aqui vem a metade que impede a conclusão fácil, porque a perda era real e uma parte dela era pública. Numa povoação onde todos se conhecem, não ser escolhido acontece à vista de todos, e a reputação de trabalhador decidia se você comia: a própria Mishná adverte o homem a não ser guloso justamente para não ficar por último na próxima contratação (estudo do versículo 1). A exposição, portanto, era sobre crédito e sobre patronato — sobre quanto você valia como aposta —, e não sobre o que você é. É uma ferida diferente, e não é uma ferida menor.

Os limites, e há dois

O primeiro é de objeto. Méda escreve sobre a França contemporânea e sobre a crise do emprego assalariado; estender a moldura dela a uma praça do primeiro século é um uso, e não uma demonstração. Além disso, há historiadores que sustentam o contrário — que o desprezo antigo pelo trabalho pago já continha algo muito parecido com o vínculo moderno entre ocupação e posição. Não há consenso, e a conclusão prudente é negativa: não se pode supor que o desemprego fizesse com aquelas pessoas o que faz com as de hoje.

O segundo é o silêncio do texto. O evangelho não diz uma palavra sobre o que esses homens sentiam. Diz onde estavam, em que postura e sem o quê. Qualquer descrição do estado de espírito deles é construção do comentarista, e é honesto marcar isso antes de construir.

O que sobra, e é bastante, é um cuidado de leitura: a palavra que o versículo usa para descrevê-los carrega um juízo (item 3), e a categoria antiga pode não sustentar o juízo que a nossa lhe empresta.

7. Aplicações Práticas

A espera que não foi escolhida

Há uma diferença grande entre descansar e sobrar, e o versículo mostra a segunda. Esses homens não estavam de folga: estavam de pé, disponíveis, e o dia passando sem que nada dependesse deles.

Para quem está nessa posição — desempregado, entre contratos, esperando resposta —, a aplicação direta é que o texto não trata esse estado como culpa. A palavra que o grego usa serviria de censura em qualquer outro lugar do Novo Testamento, e aqui a história a desarma.

Ficar à vista custa, e ainda assim é o que funciona

A praça era humilhante e era o único lugar onde se era contratado. Quem se retira da vista se poupa e sai da lista.

Isso vale hoje para qualquer forma de se colocar disponível — pedir trabalho, oferecer serviço, dizer em voz alta que se está procurando. O custo é real e o cálculo continua sendo o mesmo daquela manhã.

Um quarto do dia já foi, e ainda houve dia

À terceira hora, esses homens já haviam perdido a melhor parte da jornada, e é nessa hora que são chamados. A parábola não trata o tempo perdido como impedimento — nem, é bom marcar, como coisa que não aconteceu. Eles trabalharam menos, e isso vai ser dito em voz alta no versículo 12 por quem trabalhou mais.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

A terceira hora eram nove da manhã?

Aproximadamente, e a aproximação é inevitável: as horas antigas eram um doze avos da luz do dia e por isso mudavam de tamanho com a estação. Os comentaristas chegam a resultados diferentes — oito, nove, entre as duas — e a divergência deles é a melhor prova de que a conversão não é exata. O dado firme é a fração: um quarto do dia.

Por que o evangelho informa a hora, se ninguém ali tinha relógio?

Porque a informação é para quem lê. Sem as horas numeradas não há como medir a desproporção que vai produzir a queixa do versículo 12, e é o leitor quem faz essa conta — não os personagens, que não tinham como fazê-la.

O texto está chamando esses homens de preguiçosos?

A palavra permitiria, e em todos os outros lugares do Novo Testamento ela censura. A história não permite: a razão da ociosidade será dita no versículo 7 e não é preguiça, e o dono não repreende ninguém. A tensão entre o vocabulário e a narrativa é real, e é resolvida pela narrativa, que é explícita.

Eles estavam na praça desde a madrugada?

O texto não diz, e as duas possibilidades mudam a cena. Se chegaram depois, perderam o começo por circunstância própria; se já estavam lá, foram vistos e não escolhidos na primeira rodada. O evangelho mantém o silêncio, e nenhuma das duas leituras pode ser descartada.

Por que a parábola não diz quantos eram?

Não diz em nenhum dos cinco grupos, e a omissão é sistemática. Uma história que termina em comparação de pagamentos retira do leitor todos os números exceto os das horas e o do denário — o que impede fazer a conta total e obriga a olhar o caso de cada homem.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma palavra, usada como censura

Mateus 12:36 — "Eu digo a vocês que, no dia do juízo, os homens prestarão contas de toda palavra inútil que tiverem falado."

"Inútil" e "sem trabalho" traduzem a mesma palavra grega: o que não produz. Ali ela acusa; aqui descreve uma situação de que o próprio texto dará a causa. É a comparação que mostra por que a tradução deste versículo é uma decisão, e não uma obviedade.

Tiago 2:20 — "Você quer uma prova, homem sem juízo, de que a fé sem obras é inútil?"

Mesmo termo, e outra vez como acusação. Os usos desabonadores são a maioria no Novo Testamento, e é por isso que a leitura de Gill tem apoio real no vocabulário, mesmo estando contra a história.

A praça como lugar de ser visto

Mateus 11:16 — "Com quem compararei esta geração? É semelhante a crianças sentadas nas praças, que gritam às outras:"

Mateus 23:7 — "as saudações nas praças e serem chamados 'Rabi' pelos homens."

Nos três lugares a palavra é a mesma, e nos três a praça é o espaço em que a pessoa aparece diante da cidade. Nos dois primeiros quem está ali chama atenção; neste versículo, quem está ali espera ser notado.

Sentados, no mesmo capítulo

Mateus 20:30 — "Dois cegos estavam sentados à beira do caminho e, ao ouvirem que Jesus passava, gritaram: 'Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós!'"

O capítulo fecha com dois homens na posição oposta à deste versículo: sentados, e não de pé; à beira do caminho, e não na praça; pedindo, e não se oferecendo. Dois modos de estar à vista do público sem nada, e a diferença de postura é a diferença entre oferecer-se e suplicar.

A hora contada como fração

Mateus 20:5 — "Saindo de novo por volta da hora sexta e da nona, fez o mesmo."

Sexta é metade do dia; nona são três quartos. Junto com a terceira hora deste versículo e com a décima primeira do versículo 6, a série forma a régua com que o leitor mede o que cada grupo trabalhou.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Por volta da hora terceira, saiu e viu outros parados na praça, sem trabalho.

Texto grego (Textus Receptus)

καὶ ἐξελθὼν περὶ τὴν τρίτην ὥραν, εἶδεν ἄλλους ἑστῶτας ἐν τῇ ἀγορᾷ ἀργούς.

Transliteração

kai exelthōn peri tēn tritēn hōran, eiden allous hestōtas en tē agora argous.

Diferenças entre manuscritos

Uma, e é mínima. O Textus Receptus (a edição grega impressa que a ABC segue) traz o artigo tēn antes de "terceira hora", acompanhando o texto bizantino; as edições críticas modernas o omitem e leem apenas peri tritēn hōran. Com artigo ou sem, a tradução é a mesma, e nenhuma consequência de sentido depende disso.

Análise palavra por palavra

καὶ ἐξελθὼν — kai exelthōn, "e tendo saído". Particípio aoristo ativo do mesmo verbo do versículo 1. O particípio subordina a saída ao verbo principal, que é "viu": a frase, ao pé da letra, diz que, tendo saído, ele viu. O ato central do versículo é o de ver.

περὶ — peri, "por volta de", "em torno de". Com acusativo de tempo, a preposição marca aproximação. Ela reaparece nos versículos 5, 6 e 9 — a parábola nunca dá uma hora como exata.

τὴν τρίτην ὥραν — tēn tritēn hōran, "a hora terceira". Hōra é a hora, e no sistema antigo é um doze avos do tempo de luz, contado do nascer do sol; por isso a duração dela mudava com a estação. Três de doze são um quarto da jornada.

εἶδεν — eiden, "viu". Aoristo do indicativo, da raiz de horaō, ver — a mesma de que vem "panorama" em português. No versículo 6, na última saída, o evangelho usa outro verbo, heuren, "encontrou".

ἄλλους — allous, "outros". Acusativo plural de allos, que designa outro do mesmo tipo — distinto dos primeiros, e não de natureza diferente. Não vem acompanhado de número.

ἑστῶτας — hestōtas, "parados", "de pé". Particípio perfeito ativo de histēmi, pôr-se de pé, estar de pé. O perfeito grego descreve um estado presente resultante de uma ação já concluída: eles se puseram em pé e permanecem assim. Não é "estavam passando" nem "acabaram de chegar" — é posição tomada e mantida.

A escolha da forma tem consequência. O grego tinha como dizer "sentados" (kathēmenous, o particípio usado dos dois cegos em Mateus 20:30) e não o usou aqui.

ἐν τῇ ἀγορᾷ — en tē agora, "na praça". Agorá vem do verbo de reunir, e designa o lugar onde a cidade se junta: praça pública e mercado ao mesmo tempo. Dela vem o verbo agorazō, comprar, e por outro caminho a palavra portuguesa "ágora". O artigo definido indica a praça daquela povoação — a única que havia.

ἀργούς — argous, "sem trabalho". Acusativo plural de argos, formado pela negação a- mais ergon, obra, trabalho: literalmente "sem-obra". A palavra é a última do versículo em grego, em posição de ênfase, separada do particípio "parados" pela indicação do lugar.

Ela ocorre oito vezes no Novo Testamento: Mateus 12:36 e 20:3 e 20:6; duas vezes em 1 Timóteo 5:13, das viúvas jovens; Tito 1:12, nas "barrigas ociosas" da citação sobre os cretenses; Tiago 2:20, da fé sem obras; e 2 Pedro 1:8. Com exceção das duas deste capítulo, todas as ocorrências são desabonadoras — dado que pesa a favor de quem lê aqui uma censura, e que a narrativa contraria. A palavra também aparece no grego clássico, em Homero e em Heródoto, com o sentido de inativo.

A tradução tem de escolher, e a escolha muda o versículo. "Ociosos" traduz a palavra e acusa os homens; "sem trabalho" traduz a situação e deixa a acusação de fora. A ABC segue a segunda, pelas razões examinadas no item 3.

11. Conclusão

Do que foi examinado saem quatro conclusões.

As horas desta parábola são frações, não posições de relógio. Medindo um doze avos da luz do dia, elas variavam de tamanho com a estação, e "terceira hora" quer dizer que um quarto da jornada já se gastou. É por essa régua que o leitor poderá, mais adiante, medir a desproporção de que alguém vai reclamar.

A hora é dada ao leitor, não aos personagens. Relógio era peça de praça pública ou de casa rica, e ninguém na cena sabia que horas eram com precisão. A exatidão do relato não é a exatidão da experiência de quem está dentro dele.

Estar de pé na praça era a oferta inteira. Sem amostra, sem intermediário e sem garantia, o corpo presente era todo o anúncio — e o preço de fazer esse anúncio era tornar público que ninguém havia querido você naquela manhã. O capítulo fecha com dois homens na postura oposta, sentados e pedindo.

O vocabulário acusa e a narrativa absolve. A palavra grega deste versículo serve de censura em todos os outros lugares do Novo Testamento, e aqui a história dá outra explicação em voz alta e o dono não repreende ninguém. Quando as duas coisas se contradizem, decide a que está escrita — e quem pregar este versículo como advertência contra a preguiça estará pregando o dicionário contra o texto.

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