Por volta da hora décima primeira, saiu e encontrou outros parados, e lhes perguntou: “Por que vocês ficaram aqui o dia todo sem trabalhar?”
1. Introdução
Falta uma hora de luz, e o dono da vinha sai pela quinta vez. Encontra homens parados e, antes de contratar, faz a única pergunta que dirige a alguém em toda a parábola — e a pergunta soa como acusação. A palavra que a tradução verte por “sem trabalhar” não diz preguiçoso: diz “sem trabalho”. É aqui também que a narrativa muda de tom e passa a registrar a conversa, depois de quatro contratações resumidas.
2. Contexto Histórico e Cultural
A última hora de luz
A hora décima primeira é a última das doze frações em que se dividia a luz do dia. Depois dela vem o pôr do sol, e com ele o fim do trabalho — não por convenção, mas porque em vinha não se colhe no escuro.
Quanto tempo restava, exatamente? Menos do que parece, porque o fim do dia não é um instante limpo. A tradição judaica tem um nome para a faixa duvidosa entre o dia e a noite — bein ha-shemashot (“entre os sóis”, em hebraico: o crepúsculo) — e uma discussão sobre a duração dela, no tratado Shabbat 34b do Talmude. Três posições: para Rabi Yehudá, é noite quando a parte alta do céu perdeu a cor e igualou a parte baixa; para Rabi Neemias, o crepúsculo dura o tempo de uma pessoa caminhar meio mil (a medida antiga de distância, cerca de um quilômetro) depois de o sol se pôr; para Rabi Yossi, não tem duração nenhuma mensurável — é como um piscar de olhos, em que a noite entra e o dia sai, e é impossível calcular.
A discussão não é curiosidade de calendário. Ela existe porque dela dependia saber a que dia pertencia um ato praticado naquela faixa — e, no caso de um jornaleiro, a que dia pertencia a última hora de serviço. O trabalhador contratado na hora décima primeira trabalha justamente no trecho do dia em que os especialistas não conseguiam dizer com certeza onde o dia acaba.
Contratar para uma hora
Falta uma hora, e ele contrata. Por que uma vinha aceita gente a essa altura, e por que um proprietário se dá o trabalho de ir buscá-la, é questão que depende do calendário agrícola e do modo como a colheita da uva concentra a necessidade de braços em poucos dias — o assunto está no estudo de Mateus 20:1.
O que cabe acrescentar aqui é a consequência para o resto do dia. Contratar na última hora cria, uma hora depois, uma obrigação de pagar: a Lei manda que o salário do diarista seja entregue antes do pôr do sol, e o estudo de Mateus 20:8 mostra como esse prazo funciona. Ou seja: o dono da vinha ganha sessenta minutos de trabalho e, com eles, um credor imediato. Esse é o dado prático que torna possível a cena do pagamento, e ele decorre desta contratação.
A carreira da expressão
“Hora décima primeira” virou expressão corrente em várias línguas, e veio deste versículo. Em inglês diz-se at the eleventh hour; em francês, à la onzième heure; em português, “na décima primeira hora” e, mais comumente, “na última hora”. Em todas quer dizer a mesma coisa: no limite do prazo, quando já não havia mais tempo.
O caminho foi a liturgia. A Vulgata, tradução latina do fim do século IV, lê aqui circa undecimam, e a parábola inteira era o texto do evangelho lido no domingo da Septuagésima, isto é, o terceiro domingo antes da Quaresma. Século após século, essa foi a passagem ouvida naquele dia por toda a Europa ocidental, e a homilia mais copiada sobre ela é a de Gregório Magno, que lê as cinco horas como cinco etapas — o conteúdo dessa leitura e o problema dela estão no estudo de Mateus 20:5.
O uso moderno inverteu a expressão. Quando alguém diz que chegou “na última hora”, o sujeito da frase é quem chega: o mérito, ou a sorte, é de quem correu. No versículo é o contrário. Os homens da hora décima primeira não chegaram na última hora — eles estavam lá desde sempre. Quem chegou na última hora foi o dono da vinha.
3. Análise Teológica do Versículo
“Por volta da hora décima primeira”
Quinta e última saída, e a mais improvável das cinco.
Nas quatro anteriores havia trabalho a ser feito e dia para fazê-lo. Aqui o dia está acabando. Bengel (Johann Albrecht Bengel, filólogo alemão do século XVIII, um dos fundadores da crítica textual do Novo Testamento) observa que o artigo diante do numeral é enfático no original: não é uma hora qualquer, é a hora décima primeira, a última.
“saiu e encontrou outros parados”
Três informações em cinco palavras, e a terceira é a que surpreende.
Ele saiu — pela quinta vez, sem mandar ninguém. Ele encontrou — o verbo é o de achar, e traz consigo a possibilidade de não achar; não era garantido que ainda houvesse gente ali. E encontrou outros: não os mesmos de antes, gente nova. Cada leva da parábola é de “outros”, e a soma dá cinco grupos distintos.
Isso abre uma pergunta que o texto não responde. Se ele já tinha ido à mesma praça quatro vezes naquele dia, como esses homens não foram vistos antes? Ou eles chegaram depois da quarta passada — e então não estiveram ali o dia todo —, ou estavam lá e não foram escolhidos. O versículo afirma que eles ficaram “o dia todo”, o que empurra para a segunda hipótese; e a segunda hipótese torna a pergunta do dono muito mais desconfortável, porque ele estaria perguntando por que continuam parados os homens que ele mesmo não levou nas quatro viagens anteriores. O texto não diz qual das duas, e não é possível decidir.
“e lhes perguntou”
É a única vez em toda a parábola que o dono pergunta algo a alguém antes de contratar.
Com o primeiro grupo ele acordou um valor. Com o segundo, mandou e prometeu. Com o terceiro e o quarto, fez o mesmo. Aqui ele para e interroga. A diferença de procedimento é do texto, não de quem o lê — e ela põe este grupo num lugar que nenhum outro ocupa: são os únicos que precisam responder antes de ser aceitos.
“Por que vocês ficaram aqui o dia todo sem trabalhar?”
A pergunta é uma repreensão? É o ponto disputado do versículo, e há três leituras.
Primeira leitura: sim, há censura. O Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) diz com essas palavras que há alguma repreensão na pergunta do dono, e a dirige à ausência deles da praça mais cedo. Jamieson, Fausset e Brown (trio de comentaristas escoceses do século XIX) formulam a acusação nas duas formas possíveis: ou não estavam lá antes, ou não estavam dispostos. O custo dessa leitura é que a resposta do versículo seguinte desmente as duas alternativas, e o dono não replica.
Segunda leitura: não é censura, é espanto. O Expositor's Greek Testament (“O Novo Testamento Grego do Expositor”, comentário inglês do início do século XX) responde em uma frase: a pergunta se responde a si mesma, porque ninguém ficaria parado a não ser por querer trabalho. Nessa leitura o dono não está acusando; está perguntando como é possível que ninguém os tenha levado. O custo é que a frase, dita a quem está sem serviço, tem forma de cobrança independentemente da intenção de quem a diz.
Terceira leitura: a pergunta existe para que a resposta possa ser dita. Sem ela, ninguém saberia que aqueles homens passaram o dia sem ser chamados. Nas quatro contratações anteriores o texto não informa nada sobre a situação de quem foi levado; aqui informa, porque houve pergunta. O custo dessa leitura é que ela explica a função da pergunta na narrativa e deixa de lado o que a pergunta significa na boca do personagem.
Não é possível decidir entre as três, e o texto não ajuda: ele não qualifica o tom, não diz que o dono se irritou nem que se surpreendeu.
A pergunta pede um motivo e usa uma palavra de condição
Esse desencontro é o mecanismo da cena, e ele passa em branco na leitura corrida.
“Por que” pede razão, intenção, escolha — algo do lado de quem responde. A palavra traduzida por “sem trabalhar”, porém, não descreve intenção nenhuma: descreve uma falta de ocupação, e a disputa sobre traduzi-la por “ociosos” ou por “sem trabalho” está exposta no estudo de Mateus 20:3, que é onde ela estreia na parábola.
O que é próprio deste versículo é o efeito da combinação. Interrogados sobre o motivo, os homens vão responder sobre a condição — não dirão o que quiseram, dirão o que lhes foi feito. E a palavra que o dono usou lhes dá abertura para isso, porque ela nomeia um estado e não uma culpa. Se ele tivesse usado o termo que significa apenas “vadio”, a resposta do versículo 7 teria de ser uma negativa; com esta palavra, ela pode ser uma informação.
“o dia todo”
Doze horas de pé no mesmo lugar.
Não é uma tarde de espera: é a jornada completa em que se poderia ter trabalhado, gasta em não trabalhar. A forma verbal grega, além disso, não descreve só o passado — ela diz que eles se puseram ali e continuam ali, no momento em que o dono fala (item 10). Estão parados enquanto respondem.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O proprietário
Quinta e última saída. É a única em que ele fala antes de contratar, e é a última vez na parábola que o texto o mostra fora de casa: as cenas seguintes acontecem na vinha e na hora do pagamento.
Os homens da hora décima primeira
Aparecem como “outros”, sem número e sem nome, como todos os grupos. Duas coisas os distinguem dos quatro grupos anteriores: são os únicos a quem se faz uma pergunta e os únicos que falam. No versículo seguinte eles dizem a única frase que um trabalhador pronuncia na primeira metade da parábola.
A praça
O mesmo lugar das quatro saídas anteriores. O texto não o nomeia aqui — diz apenas “aqui”, na boca do dono —, e é do estudo de Mateus 20:3 que vem o funcionamento dela como ponto de contratação.
A hora décima primeira
A última fração de luz do dia, e a única hora da parábola que virou expressão de língua. Uma hora de trabalho é também o que a queixa do fim vai medir: “estes últimos trabalharam apenas uma hora” (Mateus 20:12).
O evento
A quinta contratação, narrada em detalhe. É o ponto em que a parábola sai do resumo e volta ao diálogo — e todo o resto dela, do versículo 6 ao 16, é feito de falas.
5. Pontos de Ensino
A palavra do dono descreve uma falta de trabalho, não um defeito de caráter
“Sem trabalho” é o que o termo grego significa. Quem o traduz por “preguiçosos” resolve, dentro da tradução, a disputa que o versículo seguinte vai abrir — e resolve contra o texto.
A pergunta tem forma de cobrança, e isso vale mesmo se a intenção era outra
Perguntar a alguém por que passou o dia sem fazer nada é pedir que ele explique a própria situação. A forma da frase supõe que a situação tem explicação pelo lado de quem está nela.
Este é o único grupo interrogado
Os quatro anteriores foram chamados sem exame. Estes precisam responder primeiro. Quem chega por último é quem tem de justificar-se — e o texto registra isso sem comentar.
Estar parado o dia todo não é descanso
Doze horas de pé numa praça, esperando ser escolhido, é a forma de cansaço que a parábola não descreve. A queixa do fim do dia vai falar do peso e do calor de quem trabalhou; ninguém vai falar do dia de quem esperou.
O dono voltou uma quinta vez
Quatro passadas pela mesma praça não esgotaram o assunto. O que a quinta encontrou, as quatro anteriores tinham deixado passar.
A narrativa muda de marcha aqui
Quatro contratações couberam em três versículos; esta ocupa dois, com pergunta e resposta. Onde o texto gasta palavras é onde ele quer que se olhe.
6. Aspectos Filosóficos
Uma pergunta pode já conter a resposta que julga provável. “Por que vocês ficaram aqui o dia todo sem trabalhar?” pede um motivo — e só quem está na situação pode informá-lo. Toda a cena depende, portanto, de quanto crédito a palavra daqueles homens vai receber.
A filósofa britânica Miranda Fricker deu nome a esse problema em Epistemic Injustice: Power and the Ethics of Knowing (“Injustiça epistêmica: poder e a ética do conhecer”, 2007), e o nome pegou. A tese é que há um tipo de injustiça que não é material nem jurídica: é a que atinge alguém como quem sabe alguma coisa. Ela se divide em duas.
A primeira é a injustiça testemunhal. Acontece quando um preconceito sobre o tipo de pessoa que fala faz com que a palavra dela receba menos crédito do que merecia. Não é erro de cálculo: é um desconto aplicado antes de o conteúdo ser examinado. E o dano, insiste Fricker, é duplo — a pessoa perde a causa e perde a condição de informante, isto é, deixa de ser tratada como alguém de quem se aprende.
A segunda é a injustiça hermenêutica, e é mais sutil: acontece quando faltam à própria língua os conceitos de que um grupo precisaria para tornar a sua experiência compreensível. O prejuízo existe antes de alguém poder nomeá-lo.
As duas estão neste versículo, e a segunda de maneira quase literal. Não há, no vocabulário da cena, palavra para “desempregado”. A que o dono usa significa “sem trabalho”, e o mesmo termo serve para “vadio” — o que está exposto no item 10. Quem precisa descrever a própria condição está obrigado a fazê-lo com uma palavra que já carrega a acusação, ou a inventar um rodeio. É o que os homens vão fazer no versículo seguinte: em lugar de um nome para o que são, dão a negação do ato de outra pessoa.
E há a injustiça testemunhal, que a cena põe e desfaz. A pergunta parte de uma suposição desfavorável — que estar parado foi escolha. A resposta é um testemunho: só eles podem dizer se foram procurados. O que acontece então é o dado mais notável do episódio: o dono acredita. Não verifica, não contra-argumenta, não exige prova. Fricker sustenta que o corretivo para esse tipo de injustiça é uma virtude — uma sensibilidade treinada, que corrige de ofício o desconto que a gente tende a aplicar. Aqui a virtude, se é ela, aparece em uma linha e sem discurso: ele pergunta, ouve e contrata.
A objeção
A crítica mais forte a Fricker é de que ela põe a solução na virtude de quem escuta, quando o problema é de distribuição — quem tem crédito e quem não tem é coisa mantida por instituições, e um ouvinte bem-intencionado não altera isso. Ela reconhece parte da objeção e responde que a virtude individual é o que resta acessível a cada um, sem ser a reforma necessária. A discussão continua aberta, e na cena o corretivo é de fato individual: um proprietário decide acreditar em cinco homens, e nada no mundo deles muda por isso.
O limite
Fricker escreve filosofia analítica do século XXI e não trata desta passagem. E o texto não diz por que o dono não replicou: pode ter sido crédito dado, pode ter sido indiferença, pode ter sido pressa — faltava uma hora de luz. Dizer que o versículo condena a pergunta acusatória seria atribuir-lhe uma tese que ele não enuncia. O que se pode afirmar é mais estreito: a parábola põe lado a lado a pergunta que supõe culpa e a resposta que a desfaz, e não diz qual das duas tem razão.
7. Aplicações Práticas
Há uma pergunta que se faz a quem está sem trabalho e que este versículo reproduz palavra por palavra.
“Por que você não conseguiu nada ainda?” pede uma explicação, e a explicação pedida é sobre a pessoa. Quem pergunta raramente quer acusar; a forma da frase acusa de todo modo, porque toda pergunta por motivo supõe que existe um motivo do lado de quem responde. A alternativa não é calar: é perguntar outra coisa. “O que apareceu?”, “quem você procurou?”, “onde está travando?” pedem informação sobre o que aconteceu, e não sobre quem é.
Do lado de quem contrata há uma aplicação direta, e ela está no número cinco. O dono passou quatro vezes pela mesma praça antes de ver aqueles homens. Quem seleciona costuma concluir, depois de uma ou duas passadas, que já viu quem havia para ver — e a quinta passada deste versículo mostra o que essa conclusão deixa de fora. Não é uma lição sobre generosidade: é uma observação sobre a limitação de qualquer triagem rápida.
Uma aplicação que o versículo não autoriza, e convém dizer: ele não ensina que nunca é tarde. O texto não faz promessa nenhuma aqui. Ele conta que um proprietário saiu na última hora — e se isso vira princípio ou continua sendo o comportamento de um personagem, a parábola só decide no fim.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Faz sentido econômico contratar alguém para uma hora de trabalho?
Numa colheita, sim: uma hora de cinco pessoas é meio dia de uma, e uva madura não espera. O que não se sabe é se foi esse o cálculo. A parábola nunca informa quantos foram contratados em cada leva nem quanto faltava colher — e sem esses dois números não há como dizer se o dono estava apertado pelo prazo ou apenas empregando gente.
“O dia todo” quer dizer desde o amanhecer?
É o que a frase afirma, e ela é dita pelo dono, não pelos trabalhadores. Se for exata, esses homens estavam na praça nas quatro vezes anteriores em que ele passou por lá. Se for maneira de falar — “desde que eu me lembro” —, a contradição desaparece e a força da cena diminui. O texto não distingue as duas.
Por que perguntar, se ele ia contratá-los de qualquer maneira?
O versículo não diz que ele já tinha decidido. Pode ser que a pergunta fosse triagem — e que a resposta a tenha dispensado. Pode ser que a decisão estivesse tomada e a pergunta fosse só a abertura da conversa. A conduta registrada é esta: ele perguntou, ouviu e contratou, nessa ordem, sem discutir a resposta.
O dono é responsável por eles terem ficado sem trabalho?
Em parte, pela lógica da própria cena: ele passou quatro vezes pela praça e não os levou. O texto não levanta esse ponto e não o resolve. Quem lê a parábola como retrato de Deus chamando em etapas precisa decidir o que fazer com esse detalhe, e a leitura mais comum simplesmente o ignora.
A pergunta admite que os homens sejam culpados?
Admite. É por isso que ela é feita. A palavra escolhida, porém, não afirma culpa — ela afirma ausência de trabalho —, e a resposta do versículo seguinte vai preencher a lacuna na direção oposta à que a pergunta sugeria.
9. Conexão com Outros Textos
A comparação obrigatória é com a saída da hora terceira, três versículos antes, porque a fórmula é quase a mesma.
Mateus 20:3 — “Por volta da hora terceira, saiu e viu outros parados na praça, sem trabalho.”
Ali o texto diz “viu” e nomeia o lugar; aqui diz “encontrou” e não o nomeia. Ali a informação de que estavam sem trabalho é do próprio texto; aqui ela vem na boca do dono, dentro de uma pergunta. A mesma palavra grega descreve os dois grupos.
Quanto tempo esta leva trabalhou, quem diz é a reclamação do fim do dia:
Mateus 20:12 — “dizendo: ‘Estes últimos trabalharam apenas uma hora, e você os igualou a nós, que suportamos o peso e o calor do dia’.”
A conta confere: contratados na última das doze horas, trabalharam uma. O que a queixa não menciona é o que esses homens fizeram nas onze horas anteriores.
A palavra “sem trabalho” aparece em Mateus num outro lugar, aplicada a outra coisa:
Mateus 12:36 — “Eu digo a vocês que, no dia do juízo, os homens prestarão contas de toda palavra inútil que tiverem falado.”
“Inútil” traduz o mesmo termo grego de “sem trabalhar”: palavra que não faz nada, que não produz efeito. A ligação entre as duas passagens é de vocabulário e não de assunto — mas mostra o núcleo da palavra, que é a ausência de obra, e não o vício de quem se recusa a ela.
A saída para achar gente pelos caminhos reaparece em Mateus numa parábola de banquete:
Mateus 22:9 — “Vão, então, às esquinas dos caminhos e convidem para o banquete todos os que encontrarem.”
Mateus 22:10 — “Aqueles servos saíram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram, tanto maus como bons; e o salão do banquete ficou cheio de convidados.”
Há três diferenças que valem a comparação: lá quem sai são servos, e aqui é o dono; lá o convite é a comer, e aqui a trabalhar; lá o texto diz expressamente que entraram bons e maus, e aqui não se diz nada sobre a qualidade de quem foi levado. Lucas 14:21 tem a mesma cena com uma lista de convidados — pobres, aleijados, cegos e mancos — que Mateus não traz.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Por volta da hora décima primeira, saiu e encontrou outros parados, e lhes perguntou: “Por que vocês ficaram aqui o dia todo sem trabalhar?”
Texto grego (Textus Receptus, Scrivener 1894)
περὶ δὲ τὴν ἑνδεκάτην ὥραν ἐξελθών, εὗρεν ἄλλους ἑστῶτας ἀργούς, καὶ λέγει αὐτοῖς, Τί ὧδε ἑστήκατε ὅλην τὴν ἡμέραν ἀργοί;
Transliteração
peri de tēn hendekatēn hōran exelthōn, heuren allous hestōtas argous, kai legei autois, Ti hōde hestēkate holēn tēn hēmeran argoi?
Análise palavra por palavra
περὶ δὲ τὴν ἑνδεκάτην ὥραν — peri de tēn hendekatēn hōran, “e por volta da hora décima primeira”. Hendekatos é o ordinal de hendeka, onze, palavra formada de hen (“um”) e deka (“dez”): literalmente, “um e dez”.
O artigo diante do numeral é o que Bengel destaca: o grego marca a hora como determinada, e não como uma entre outras. A palavra hōran, “hora”, está no Textus Receptus e falta nas edições críticas — é a primeira das duas variantes deste versículo, tratadas no fim.
ἐξελθών — exelthōn, particípio aoristo ativo: “tendo saído”. O quinto e último da série de saídas da parábola.
εὗρεν — heuren, aoristo do indicativo ativo, terceira pessoa do singular: “encontrou”. O verbo é heuriskō, achar, descobrir; dele vêm “heurística” e a exclamação eureka (“achei”). Achar supõe procurar e supõe a possibilidade de não achar — diferentemente do verbo da hora terceira, que é simplesmente “viu”.
ἄλλους — allous, acusativo masculino plural de allos: “outros”. A palavra distingue este grupo dos anteriores: são pessoas diferentes.
ἑστῶτας — hestōtas, particípio perfeito ativo no acusativo plural, do verbo histēmi, “pôr-se de pé, estar de pé”. O perfeito grego descreve um estado presente que resulta de uma ação concluída: eles se puseram de pé ali e continuam de pé. “Parados” traduz o resultado e perde a permanência.
ἀργούς — argous, acusativo plural de argos, “sem trabalho”. O campo semântico da palavra, a formação dela e as suas oito ocorrências no Novo Testamento estão no estudo de Mateus 20:3, onde ela aparece pela primeira vez na parábola.
O que é próprio deste versículo é a repetição. Aqui a palavra aparece duas vezes — primeiro no acusativo, descrevendo os homens encontrados, e depois no nominativo, dentro da pergunta. É a única vez em toda a Bíblia em que ela ocorre duas vezes na mesma frase. E é justamente a primeira dessas duas que os manuscritos disputam, como se verá no fim.
καὶ λέγει αὐτοῖς — kai legei autois, “e diz a eles”. O verbo está no presente, e isso é uma mudança.
Até aqui a parábola inteira corre no aoristo, o tempo do relato: saiu, viu, disse, fez. Neste versículo o texto passa para o presente e não volta mais — “diz a eles” aqui, “dizem a ele” e “diz a eles” no versículo 7, “diz” no versículo 8. O grego usa esse presente para trazer a cena para diante dos olhos de quem lê. O português verte por passado, e a mudança desaparece na tradução; ela coincide com o ponto em que a parábola deixa o resumo e passa a ser feita de diálogo.
Τί — Ti, pronome interrogativo neutro: “o quê”. Usado assim, sem preposição, equivale a “por que”, “com que propósito”. A pergunta é por finalidade, não por causa: não é “o que aconteceu para vocês estarem aqui”, é “para que vocês estão aqui”.
ὧδε — hōde, advérbio: “aqui”, “neste lugar”. O dono não nomeia a praça; aponta.
ἑστήκατε — hestēkate, perfeito do indicativo ativo, segunda pessoa do plural, do mesmo histēmi de antes: “vocês estão de pé”. Como perfeito, diz que eles se colocaram ali e permanecem — o estado dura no momento em que a pergunta é feita. “Ficaram”, em português, empurra tudo para o passado e sugere que a espera acabou. No grego, eles ainda estão parados enquanto respondem.
ὅλην τὴν ἡμέραν — holēn tēn hēmeran, “o dia todo”. Acusativo de duração: mede quanto tempo durou a ação.
ἀργοί — argoi, nominativo plural da mesma palavra de antes, agora concordando com o sujeito do verbo: “sem trabalho”. Está na última posição da frase, que em grego é posição de peso — a pergunta termina exatamente na palavra que descreve a condição deles.
Variantes
As duas diferenças entre as edições vão na mesma direção, e a segunda tem consequência para a leitura.
A primeira é a palavra “hora”. O Textus Receptus e o texto bizantino trazem ὥραν depois do numeral; o texto crítico lê apenas “por volta da décima primeira”, sem o substantivo, que fica entendido. A Vulgata concorda com o texto crítico: circa undecimam. Não há diferença de sentido.
A segunda é a primeira ocorrência de ἀργούς. O Textus Receptus e o bizantino leem “encontrou outros parados sem trabalho”; o texto crítico e a Vulgata (invenit alios stantes) leem apenas “encontrou outros parados”, e a palavra aparece uma única vez no versículo, dentro da pergunta.
O efeito é este. Pela leitura do Textus Receptus, o próprio texto classifica aqueles homens como “sem trabalho” antes de o dono abrir a boca, e a pergunta apenas repete o que já foi dito. Pela leitura crítica, a palavra é exclusivamente do dono da vinha: quem chama aqueles homens de desocupados é o personagem, e o texto não endossa. A segunda leitura torna a cena mais aguda, porque deixa o julgamento inteiro na conta de quem pergunta.
A ABC, neste ponto, segue a forma sem a primeira ocorrência — “encontrou outros parados” —, e traz “sem trabalhar” só dentro da pergunta, como o texto crítico e a Vulgata.
11. Conclusão
Do que foi exposto seguem cinco conclusões.
A primeira é que a palavra do dono não acusa de preguiça. Ela nega o trabalho, e negar o trabalho é descrever uma situação, não um caráter. A tradução que põe “preguiçosos” decide, antes do versículo 7, a questão que o versículo 7 existe para decidir.
A segunda é que a pergunta, ainda assim, tem forma de cobrança. Perguntar por que alguém passou o dia sem fazer nada é pedir que ele explique a própria condição — e as três leituras propostas pelos comentaristas divergem justamente sobre se há censura no tom, sem que o texto permita escolher.
A terceira é que este grupo é tratado de modo diferente de todos os outros. Os quatro anteriores foram chamados sem exame; estes são interrogados antes de aceitos, e são os únicos que falam. Quem chega por último é quem precisa justificar-se.
A quarta é sobre a quinta saída. O dono já havia passado quatro vezes pela mesma praça naquele dia, e o versículo diz que esses homens estavam lá o dia todo. Ou a frase é uma aproximação, ou ele não os levou nas quatro passadas anteriores — e, nesse caso, a pergunta que ele faz recai em parte sobre ele mesmo. O texto expõe a dificuldade e não a resolve.
A quinta é formal e vale para o resto do capítulo: é aqui que a parábola muda de andamento. Quatro contratações couberam em três linhas; esta ocupa duas cenas, com pergunta e resposta, e o grego marca a virada passando para o tempo presente. Dali em diante tudo é diálogo — e o desfecho vai depender das palavras que as pessoas dizem, não das horas que elas cumpriram.













