Eles responderam: “Porque ninguém nos contratou”. Ele lhes disse: “Vocês também vão para a vinha, e receberão o que for justo”.
1. Introdução
Quatro palavras, e são as únicas que um trabalhador pronuncia em toda a primeira metade da parábola: “porque ninguém nos contratou”. A resposta não alega preguiça nem a nega — ela desloca o assunto, porque não fala do que aqueles homens quiseram, fala do que não lhes foi feito. O verbo que eles usam é o mesmo com que a parábola começou, agora no negativo. E o dono da vinha não discute a resposta: contrata, e repete a estes a mesma promessa que fizera aos da hora terceira, agora dita do outro lado — não “eu darei”, mas “vocês receberão”.
2. Contexto Histórico e Cultural
O que existia para quem voltava da praça sem nada
Um homem que passou o dia no ponto e não foi contratado chega em casa sem o pão do dia. A pergunta prática é o que a sociedade dele tinha para essa situação — e a resposta judaica era um sistema de assistência com regras escritas, não apenas boa vontade.
A Mishná descreve dois mecanismos distintos, no tratado Peah. O tamhui (“a bandeja”, em hebraico) era a distribuição diária de comida pronta. A kuppah (“a arca”) era o fundo comunitário, recolhido por duas pessoas e distribuído por três, com entrega semanal. E havia critério de elegibilidade, que é o dado mais revelador do conjunto: quem tivesse comida para duas refeições não podia recorrer à bandeja; quem tivesse para catorze refeições — isto é, para uma semana — não podia recorrer à arca (Peah 8:7).
Repare no que esses números pressupõem. O limite da bandeja é duas refeições. Abaixo disso, um homem estava dentro do critério e podia comer daquilo no mesmo dia. Não é assistência para quem empobreceu: é assistência para quem não tem o almoço de amanhã — exatamente a margem em que vive quem depende de ser contratado de manhã. A mesma Mishná fixa ainda o mínimo para o pobre que vem de fora: um pão de valor determinado; se pernoitar, o necessário para a noite; se ficar para o sábado, comida para três refeições.
Duas ressalvas. Esses textos são um século e meio posteriores ao evangelho, e descrevem a prática já organizada em regra. O que eles conservam, e que serve à cena, é o raciocínio de um mundo que media a pobreza em refeições e não em patrimônio.
O que se pensava de quem vivia de salário
Trabalhar por paga era, na escala social antiga, o degrau de baixo — e há uma formulação famosa disso. Cícero (Marco Túlio Cícero, orador e político romano do século I antes de Cristo), num tratado sobre os deveres do homem público, classifica os modos de ganhar a vida e chega aos assalariados: são ganhos “indignos de um homem livre e sórdidos”, diz ele, “os de todos os assalariados cujo trabalho se compra, não a arte”, e a razão que dá é esta — neles a própria paga é a garantia da servidão (De officiis, “Sobre os deveres”, I.150).
A frase não descreve a lei: descreve o desprezo. Quem recebe por dia não vende uma habilidade, vende horas do próprio corpo, e por isso, na cabeça de um aristocrata romano, está próximo do escravo. É desse lugar que falam os homens deste versículo — e é contra esse lugar que a resposta deles, tão curta, se afirma.
E o que a tradição judaica pensava
O contraste é frontal. Um livro sapiencial judaico do século II antes de Cristo, o Eclesiástico — também chamado Sirac, ou Ben Sira, e conservado em grego —, trata o salário do trabalhador como matéria de vida e morte: “quem toma o sustento do próximo, mata-o; e quem defrauda o assalariado do seu salário é um homem de sangue” (Eclesiástico 34:22). Não é desprezo pelo assalariado; é equiparação da fraude ao homicídio.
Os dois mundos estavam em contato na Galileia do primeiro século, e a parábola se passa no segundo. Nele, um homem que passou o dia na praça sem ser contratado não é um degenerado nem um vagabundo: é alguém a quem faltou o que a lei considerava indispensável à vida.
Nesse mundo, um homem que passou o dia na praça sem ser contratado tem uma única coisa a seu favor, e é a de continuar lá: a possibilidade de que ainda apareça alguém. É por estarem no ponto na última hora de luz que estes são achados.
3. Análise Teológica do Versículo
“Eles responderam”
São as primeiras palavras de um trabalhador nesta parábola.
Cinco grupos foram contratados, e quatro passaram em silêncio: os da madrugada acordaram um valor sem que se registre uma sílaba deles, os da terceira hora foram e não falaram, os do meio do dia não têm nem cena. Aqui um grupo fala. A fala é de quatro palavras, e é a única que o texto concede a quem trabalha antes da reclamação do fim do dia.
“Porque ninguém nos contratou”
A pergunta pedia um motivo; a resposta devolve um responsável — e o responsável é uma ausência.
Essa é a articulação do versículo. Perguntado por que passou o dia sem trabalhar, um homem pode responder três coisas: que não quis, que não pôde, ou que não foi chamado. A terceira resposta muda o sujeito da frase: já não se trata do que ele fez, mas do que alguém deixou de fazer com ele. E é exatamente essa a resposta dada.
Repare no que ela não é. Não é defesa — eles não dizem que procuraram, não alegam esforço, não pedem desculpa. Não é protesto — não acusam ninguém em particular, não nomeiam patrão nenhum. É constatação, em quatro palavras e sem adjetivo: a contratação não aconteceu. E, dita assim, ela informa também o contrário do que a pergunta sugeria — aqueles homens estiveram disponíveis o tempo inteiro.
A resposta é boa desculpa?
Os comentaristas se dividem em três leituras.
Primeira leitura: é desculpa fraca. O Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) diz que é “uma desculpa pobre, porque, se eles estivessem no seu posto mais cedo, trabalho lhes teria sido oferecido”. Jamieson, Fausset e Brown (trio de comentaristas escoceses do século XIX) sugerem, na mesma direção, que ou eles não estavam ali antes, ou não estavam dispostos. O custo dessa leitura é alto: ela contraria dois dados do próprio texto. O dono da vinha tinha passado quatro vezes pela mesma praça naquele dia, e o versículo anterior afirma que esses homens estavam ali o dia todo.
Segunda leitura: é a resposta verdadeira, e basta. Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) observa que eles não recusaram nenhuma convocação anterior e que, chamados, obedeceram sem demora. O Expositor's Greek Testament (“O Novo Testamento Grego do Expositor”, comentário inglês do início do século XX) já havia dito, sobre a pergunta, que ela se responde a si mesma: ninguém fica parado a não ser por falta de trabalho. Nessa leitura, o problema não está nos homens — está no mercado. O custo é que o texto não confirma nem nega que eles tenham sido preteridos; ele só registra a frase deles.
Terceira leitura: os homens são os gentios. É a leitura da história da salvação, e é antiga. Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) escreve que os gentios entraram na hora décima primeira porque o evangelho não lhes havia sido pregado antes. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) é mais duro e diz que eles foram negligenciados durante séculos. Bengel (Johann Albrecht Bengel, filólogo alemão do século XVIII) anota, em uma linha, que o “nós” da frase convém aos gentios. O custo é que nenhum povo é nomeado no versículo, e que a leitura transforma um fato de mercado de trabalho numa cronologia de missão. O mérito, que é preciso reconhecer, é que ela toma a resposta ao pé da letra: a falha está do lado de quem devia chamar, não do lado de quem esperava.
Não é possível decidir entre as três pelo texto. O que o texto faz, e faz sem comentar, é a coisa mais eloquente da cena: o dono da vinha não responde. Não contesta a alegação, não a verifica, não diz “então vocês deviam ter vindo mais cedo”. Numa parábola que vai acabar em discussão sobre o que é justo, o único momento em que a alegação de um trabalhador poderia ser contestada passa sem contestação.
“Ele lhes disse: ‘Vocês também vão para a vinha, e receberão o que for justo’”
É a fórmula do versículo 4 de novo, com uma peça deslocada.
“Vocês também vão” é palavra por palavra o convite feito aos da hora terceira, e o “também” continua fazendo o mesmo serviço: acrescentar este grupo aos anteriores. Uma coisa cai — o possessivo, porque lá era “a minha vinha” e aqui é “a vinha”. E a promessa fica, com o mesmo critério e sem número: o que for justo.
Com isso a série se fecha do jeito mais simples possível. Um grupo tem valor combinado, e os outros quatro têm o mesmo critério aberto. Não há trabalhador que entre nesta vinha sem saber por que régua vai ser pago, e não há nenhum, tirante os primeiros, que saiba quanto essa régua vale.
A promessa mudou de pessoa
No versículo 4 o dono diz “eu lhes pagarei o que for justo”. Aqui diz “vocês receberão o que for justo”.
O critério é o mesmo, e quem paga saiu da frase. Na primeira forma há alguém que se obriga, escrito ali na primeira pessoa; na segunda há um resultado anunciado, sem autor — a diferença entre “eu devo a você” e “você vai ter”. Pode ser variação de estilo, e não é possível decidir pelo texto. Mas é a última fala do dono da vinha na praça, e é a única das cinco em que ele promete sem se nomear como quem promete — o que importa porque, no fim do dia, quem vai dizer o que é justo é justamente ele.
Uma nota de texto: a frase não está em todas as edições gregas. O Textus Receptus e o texto bizantino a trazem; as edições críticas a omitem. A ABC a conserva, e as duas decisões estão no item 10.
O que o versículo não diz
Não diz quem deveria ter contratado aqueles homens. Não diz se eles são responsáveis por algo. Não diz quantos são. Não diz se o dono acreditou na resposta. E não diz uma palavra sobre o que eles sentiram ao serem finalmente chamados — o texto vai direto da ordem para o anoitecer.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os homens da hora décima primeira
São o quinto e último grupo, e o único que fala na primeira metade da parábola. O texto não informa quantos são, de onde vêm, que idade têm nem por que não foram escolhidos antes. Sabe-se deles exatamente três coisas: estavam de pé na praça o dia todo, ninguém os havia contratado, e foram.
Na cena do pagamento eles voltam como “os que tinham sido contratados por volta da hora décima primeira” (Mateus 20:9), e são os primeiros a receber. Na reclamação, são “estes últimos” que trabalharam apenas uma hora (Mateus 20:12). Nas duas vezes, quem fala deles é outra pessoa.
O proprietário
Última fala dele na praça. Aqui ele ouve uma alegação, não a discute e contrata. As falas seguintes dele são todas dentro de casa: a ordem ao administrador e a resposta ao reclamante.
A vinha
Continua sendo o destino, agora sem o possessivo que aparecia no versículo 4.
O evento
O fim das contratações. Com este grupo, a parábola fecha a lista de cinco levas e passa ao anoitecer — que é onde a história de fato começa.
5. Pontos de Ensino
A resposta não é sobre preguiça, e a pergunta era
“Ninguém nos contratou” não responde “por que vocês não quiseram trabalhar”. Responde outra pergunta, que ninguém fez: o que aconteceu com vocês. A troca de assunto é o achado da cena.
Eles ficaram
Não foram embora ao meio-dia nem desistiram na hora nona. Estarem ainda lá na última hora é a razão de serem encontrados, e o texto registra o fato sem tirar lição dele.
O dono não contesta a alegação
Esse silêncio é dado, não lacuna. Ele tinha à mão a resposta óbvia — “passei aqui quatro vezes” — e não a usou. A parábola deixa a fala dos trabalhadores em pé.
Quatro dos cinco grupos têm critério, e só um tem número
A promessa do justo, repetida aqui, iguala os quatro últimos grupos entre si e separa todos eles do primeiro. A diferença que vai pesar no fim do dia não é de hora trabalhada: é de forma de contrato.
A promessa é feita sem que quem paga apareça nela
“Eu lhes pagarei” no versículo 4; “vocês receberão” aqui. O critério não muda e o devedor sai da frase — e é a última coisa que o dono da vinha diz antes de a cena mudar para o anoitecer.
Quem chega por último é quem tem de explicar-se
Os quatro primeiros grupos não prestaram contas de nada. O quinto respondeu a um interrogatório antes de ser aceito. É assim com quem vem depois, e o texto registra sem comentar.
O verbo do desemprego é o verbo da parábola
“Contratar” é a palavra com que a história começou, no versículo 1, como propósito de quem saía de casa. Aqui ela volta negada, na boca de quem ficou de fora.
6. Aspectos Filosóficos
Estar disponível para trabalhar e não ser chamado: é acidente de um dia ou é uma posição estável na sociedade?
O economista britânico Guy Standing (nascido em 1948), professor na Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres e durante muitos anos funcionário da Organização Internacional do Trabalho, respondeu que é posição, e deu um nome a ela. O livro é The Precariat: The New Dangerous Class (“O precariado: a nova classe perigosa”, 2011), seguido de A Precariat Charter (“Uma carta do precariado”, 2014).
A tese: ao lado das classes que a economia já descrevia formou-se um grupo grande que não se define pelo que faz, e sim pela forma da sua relação com o trabalho — sem contrato estável, sem identidade de ofício, sem renda previsível e sem os direitos que antes vinham atrelados ao emprego. Não é simplesmente gente pobre nem gente desempregada: é gente cuja vida de trabalho é feita de entradas e saídas, e que por isso vive administrando a própria disponibilidade.
Dessa análise sai o conceito que serve exatamente a este versículo. Standing distingue o trabalho remunerado do que ele chama de trabalho-para-o-trabalho: o tempo gasto em conseguir trabalho, esperar trabalho e permanecer disponível para o trabalho. Procurar, fazer fila, refazer o cadastro, manter o telefone carregado, estar no ponto de manhã. É esforço real, ocupa o dia, cansa — e não é pago, não é contado e não aparece em estatística nenhuma.
É o dia dos homens deste versículo. Eles trabalharam doze horas: ficaram de pé onde tinham de ficar, o dia inteiro, para o caso de alguém passar. O que receberam por isso foi uma pergunta sobre por que não estavam fazendo nada. E quando, no fim da parábola, alguém for medir quem se cansou mais, o cansaço medido será o dos que suportaram o peso e o calor do dia — nenhuma linha vai contar as onze horas de quem esperou.
Standing tem um segundo argumento que encosta na cena com precisão desagradável: o de que o discurso público converte a condição em defeito. O desempregado é descrito como desmotivado, acomodado, oportunista — e essa conversão, diz ele, é o que torna a condição administrável, porque desloca a intervenção da economia para o caráter. A palavra que o dono da vinha usa no versículo anterior faz exatamente essa dobra.
A objeção
A categoria de Standing é contestada, e por bons motivos. Críticos sustentam que “precariado” é larga demais para ser uma classe: põe no mesmo grupo o estagiário com diploma e o diarista imigrante, cujos interesses não coincidem. E há uma objeção mais forte, que este versículo confirma: insegurança no trabalho não é novidade nenhuma — é a condição histórica normal, e o emprego estável do meio do século XX foi a exceção. A praça de contratação tem dois mil anos. Standing responde que o novo não é a insegurança em si, e sim a escala e a combinação de fatores, num mundo que já teve proteção e a desmontou; a discussão continua aberta.
O limite
Standing escreve sobre mercados de trabalho desde os anos 1980 e não trata desta passagem, e dizer que a parábola descreve o precariado seria anacronismo — a categoria é de outro tempo. A parábola não diagnostica classe nenhuma: ela põe quatro palavras na boca de quatro homens e segue. O que o vocabulário dele permite é ouvir o que essas quatro palavras afirmam — que não trabalhar pode ser algo que se faz a uma pessoa, e não algo que ela faz.
7. Aplicações Práticas
Há uma inversão prática neste versículo, e ela cabe em duas palavras: não trabalhar pode ser voz passiva.
Quem está sem serviço é interrogado como se a situação fosse obra sua, e responde quase sempre como se fosse — explicando-se, desculpando-se, prometendo esforço. A resposta do versículo faz outra coisa: enuncia o fato. Ninguém contratou. Não é insolência nem vitimismo; é a informação correta, e é a informação que a pergunta não tinha considerado. Para quem está nessa posição, dizer o fato em lugar de produzir uma justificativa é mais exato — e é menos custoso.
Para quem pergunta, a aplicação é a de ouvir a resposta. O dono da vinha tinha o argumento na mão: passara quatro vezes pela praça. Não o usou. Perguntou, ouviu, aceitou o que ouviu e contratou — e essa sequência, num texto que registra tão pouco, está registrada por inteiro.
E há uma aplicação que vale a pena marcar pelo que ela não é. Este versículo não diz que quem espera será recompensado. Não há promessa nenhuma na fala do dono, e o denário só aparece dois versículos depois, por decisão dele. Transformar a cena em garantia de que a demora compensa é dizer mais do que o texto diz — e a parábola, no fim, vai insistir justamente que aquilo foi vontade de quem pagou, não direito de quem recebeu.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que ninguém os contratou?
O texto não explica, e a explicação faria diferença. Podiam ser velhos, doentes, forasteiros, sem referência, ou simplesmente mais gente do que a colheita exigia. Cada hipótese muda o peso moral da cena, e a parábola suprime todas — o que é coerente com o fato de ela nunca informar o número de trabalhadores de nenhuma das cinco levas.
O dono da vinha é um dos que não os contrataram?
Pela contagem da própria narrativa, sim: ele passou pela praça de madrugada, na terceira hora, na sexta e na nona. Se os homens estavam lá o dia todo, ele os viu quatro vezes e não os levou. O texto não levanta o ponto e não o resolve, e as leituras devocionais da passagem em geral o ignoram.
Eles pediram trabalho?
Não consta. Em nenhuma das cinco contratações um trabalhador pede: quem oferece é sempre o dono. Estar na praça já era o pedido, e é por isso que a fala deles é resposta e não requerimento.
Por que algumas Bíblias terminam este versículo em “vão para a vinha”?
Porque seguem o texto crítico, que omite a cláusula final. A frase está ausente dos dois manuscritos gregos mais antigos e da Vulgata, e presente na grande maioria dos gregos posteriores; a ABC segue o Textus Receptus e por isso a conserva. É a segunda questão de texto do capítulo, ao lado da do versículo 16, e o item 10 expõe as duas decisões. Quem compara duas traduções e encontra a diferença está diante de uma escolha de edição, não de um erro de tradutor.
A parábola está dizendo que Deus deixou de chamar algumas pessoas durante a vida delas?
É a pergunta que a leitura alegórica precisa enfrentar, e ela é incômoda. Se o dono é Deus, a frase “ninguém nos contratou” recai sobre quem chama. Matthew Henry e Gill a encaram e respondem pela história da missão: houve povos a quem o evangelho não foi anunciado antes. A resposta desloca o problema para o plano dos povos e não o resolve no plano das pessoas. Não há consenso, e o versículo não oferece material para resolvê-lo.
9. Conexão com Outros Textos
A palavra central deste versículo é a mesma com que a parábola abriu.
Mateus 20:1 — “Pois o reino dos céus é como um proprietário de terras que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha.”
“Contratar” lá é o propósito com que o dono sai de casa; “contratou” aqui é o que não aconteceu com o último grupo. A mesma palavra abre a parábola e volta negada no fim das contratações.
O convite repete o do segundo grupo, encurtado:
Mateus 20:4 — “E disse a eles: ‘Vocês também vão para a minha vinha, e eu lhes pagarei o que for justo’. E eles foram.”
As duas frases têm o mesmo convite e o mesmo critério. Duas coisas mudam: lá a vinha é “minha” e aqui é só “a vinha”; e lá quem promete se põe na frase — “eu lhes pagarei” —, enquanto aqui a promessa vem pelo lado de quem recebe. E há uma diferença que não é de palavra: lá os trabalhadores não abrem a boca, e aqui falam antes de ser chamados.
Mateus tem uma cena em que a falta está declaradamente do lado de quem devia agir, e não de quem espera:
Mateus 9:36 — “E, vendo as multidões, teve compaixão delas, porque estavam exaustas e desamparadas, como ovelhas que não têm pastor.”
A construção é a mesma deste versículo: o problema da multidão é uma ausência — não têm pastor —, e não um defeito dela. Dois versículos depois vem o pedido de que sejam enviados trabalhadores, porque são poucos. Vale a comparação com cuidado: lá faltam trabalhadores para a colheita, aqui falta colheita para os trabalhadores, e as duas escassezes são de sinal contrário.
O mesmo desenho de argumento aparece em Paulo, aplicado à pregação:
Romanos 10:14 — “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue?”
A cadeia de perguntas termina exatamente onde a resposta deste versículo termina: na falta de alguém que viesse. É leitura possível, não demonstrável, que a tradição cristã tenha lido a fala dos trabalhadores nessa chave — os comentaristas citados no item 3 fazem isso.
Por fim, o que o dono vai dizer no anoitecer mostra como ele entende a promessa que acaba de fazer:
Mateus 20:14 — “Pegue o que é seu e vá embora. Eu quero dar a este último o mesmo que dei a você.”
“Eu quero dar” é vontade, e não cumprimento de valor acordado — o que se espera de quem prometeu um critério e não uma quantia. O reclamante tem um número a invocar; estes têm a palavra “justo” e quem a define.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Eles responderam: “Porque ninguém nos contratou”. Ele lhes disse: “Vocês também vão para a vinha, e receberão o que for justo”.
Texto grego (Textus Receptus, Scrivener 1894)
λέγουσιν αὐτῷ, Ὅτι οὐδεὶς ἡμᾶς ἐμισθώσατο. λέγει αὐτοῖς, Ὑπάγετε καὶ ὑμεῖς εἰς τὸν ἀμπελῶνα, καὶ ὃ ἐὰν ᾖ δίκαιον λήψεσθε.
Transliteração
legousin autō, Hoti oudeis hēmas emisthōsato. legei autois, Hypagete kai hymeis eis ton ampelōna, kai ho ean ē dikaion lēpsesthe.
Análise palavra por palavra
λέγουσιν — legousin, presente do indicativo ativo, terceira pessoa do plural: “dizem”. O presente de narração continua o que começou no versículo anterior, e o português verte por passado.
Ὅτι — hoti, conjunção. Tem dois empregos possíveis aqui: pode ser causal, “porque”, e então a frase explica; ou pode ser o marcador que introduz fala direta, sem se traduzir, como as nossas aspas, e então a resposta é apenas “Ninguém nos contratou”. Os comentaristas em geral a leem como causal, e a tradução portuguesa segue isso.
οὐδεὶς — oudeis, “ninguém”, “nem um”. A palavra é composta de ou (“não”), uma partícula de reforço e heis (“um”): literalmente, “nem sequer um”. É a negação mais forte de que o grego dispõe para pessoas, e é o sujeito da frase. O único agente mencionado na resposta é um que não existe.
ἡμᾶς — hēmas, pronome pessoal no acusativo plural: “a nós”, “nos”. Está antes do verbo, posição de destaque em grego — “a nós, ninguém contratou”. O que a frase realça não é o ato ausente: é quem ficou de fora dele.
ἐμισθώσατο — emisthōsato, aoristo do indicativo médio, terceira pessoa do singular: “contratou”. Esta é a palavra-chave do versículo.
O verbo é misthoō, e ele só existe duas vezes em todo o Novo Testamento: em Mateus 20:1 e aqui — a formação da palavra e a voz média estão analisadas no estudo daquele versículo.
O que é próprio deste lugar é a forma. Lá o verbo está no infinitivo e é o propósito da saída do proprietário: ele sai para contratar. Aqui está no aoristo do indicativo e negado por oudeis. A palavra com que a história começa é a palavra com que o último grupo descreve o que não lhe aconteceu — a mesma, uma vez como finalidade e uma vez como falta, e nada entre as duas.
O aoristo, além disso, importa: não é “ninguém costuma nos contratar”, é “não houve contratação”. A frase relata um fato daquele dia, não uma condição permanente. Eles não estão dizendo que nunca trabalham.
λέγει αὐτοῖς — legei autois, “diz a eles”. Presente outra vez.
Ὑπάγετε καὶ ὑμεῖς εἰς τὸν ἀμπελῶνα — hypagete kai hymeis eis ton ampelōna, “vão vocês também para a vinha”. É a fórmula de Mateus 20:4 repetida sem alteração de uma sílaba. O possessivo “minha”, que o texto português traz no versículo 4, não está em nenhum dos dois lugares no grego impresso; o Códice de Beza, manuscrito do século V, acrescenta aqui μου (“minha”) e lê o verbo como indicativo em lugar de imperativo.
καὶ ὃ ἐὰν ᾖ δίκαιον — kai ho ean ē dikaion, “e o que quer que seja justo”. É a mesma construção de relativo indefinido do versículo 4, analisada no estudo dele, e o grego a tem exatamente para o caso em que o conteúdo não pode ou não quer ser especificado.
λήψεσθε — lēpsesthe, futuro do indicativo médio, segunda pessoa do plural, do verbo lambanō, “tomar, receber”. A grafia do Textus Receptus é λήψεσθε; as edições bizantinas modernas grafam λήμψεσθε, com o m que o grego mais antigo conservava — diferença de ortografia.
Aqui está o detalhe que mais rende neste versículo. No versículo 4 a promessa é δώσω ὑμῖν, “eu darei a vocês”: primeira pessoa, verbo de dar, e o credor no dativo. Aqui é λήψεσθε, “vocês receberão”: segunda pessoa, verbo de receber, e quem paga fora da frase. A cláusula é idêntica palavra por palavra até o verbo, e no verbo ela troca de lado — o mesmo compromisso, dito uma vez pelo devedor e uma vez pelo credor. Não há como decidir se a troca foi deliberada; registre-se que é a única das cinco contratações em que a promessa não nomeia o promitente.
A variante: o texto crítico omite o que a ABC conserva
Esta cláusula final é a questão de texto do versículo, e é do mesmo tipo da que existe em Mateus 20:16.
Trazem a cláusula o Textus Receptus de Scrivener, o texto bizantino majoritário e a grande maioria dos manuscritos gregos, entre eles dois antigos — o Códice de Éfrem, do século V, e o Códice de São Galo, do século IX. Com eles vão a tradição da King James e as traduções que a seguem. A ABC do Novo Testamento segue o Textus Receptus, e é esta a forma do texto português acima.
Omitem a cláusula os dois manuscritos gregos mais antigos que se conhecem, o Sinaítico e o Vaticano, ambos do século IV, e por isso as edições críticas modernas — Nestle, Westcott e Hort, e a edição da Sociedade Bíblica — a deixam fora. A Vulgata latina também não a tem: lê apenas Ite et vos in vineam meam (“vão vocês também para a minha vinha”). Gill registra a evidência com precisão: a frase falta na Vulgata e no evangelho hebraico de Münster, e não está no manuscrito grego mais antigo de Beza, “mas está em todos os demais”.
Os argumentos internos, dos dois lados. Contra a cláusula há um raciocínio geral e forte: copistas tendem a harmonizar frases paralelas, e esta é quase a do versículo 4 — acrescentá-la aqui deixa a série regular, e é a espécie mais comum de acréscimo involuntário. O Expositor's Greek Testament reforça dizendo que a frase soa fora de lugar, porque a paga a que a última turma tinha direito não valia menção. A favor da cláusula, o argumento é o inverso do mesmo fato: um copista pode tê-la suprimido justamente por achá-la estranha nesse lugar. E há um argumento que os dois lados costumam deixar passar — a cláusula não é idêntica à do versículo 4: um copista que harmonizasse teria escrito “eu darei a vocês”, e o que está escrito é “vocês receberão”. Quem acrescenta para igualar não troca o verbo e a pessoa.
O que cada decisão faz com a parábola. Com a cláusula, os cinco grupos entram na vinha sabendo por que régua serão pagos — um por valor combinado, quatro pelo critério do justo —, e o denário do anoitecer cumpre uma palavra dada. Sem a cláusula, o último grupo é o único que entra sem nada, e o denário deles não cumpre promessa alguma: é dádiva sem crédito anterior.
Não é possível decidir com certeza qual é a forma original. A evidência externa favorece a forma curta pela idade dos manuscritos e a longa pelo número deles.
11. Conclusão
Do que foi exposto seguem cinco conclusões.
A primeira é a do achado do versículo: “ninguém nos contratou” não é confissão de preguiça nem defesa contra a acusação de preguiça — é uma frase que troca o sujeito. Perguntados sobre a própria vontade, os homens respondem com a ação que faltou de outra pessoa. A pergunta era sobre eles; a resposta é sobre o mercado.
A segunda é que o verbo escolhido fecha o circuito da parábola. O que na primeira linha era o propósito da saída do proprietário é aqui, no negativo, o que não aconteceu com o último grupo — e não há entre as duas nenhuma outra ocorrência da palavra.
A terceira é o silêncio do dono da vinha. Ele tinha um contra-argumento evidente, porque passara quatro vezes pela mesma praça, e não o usou: ouviu e contratou. Numa parábola que termina em disputa sobre justiça, a única alegação de trabalhador que poderia ter sido contestada não foi.
A quarta é sobre o preço da espera. Doze horas de pé no ponto de contratação são o custo de continuar disponível, e ninguém as paga nem as conta — nem mesmo os trabalhadores da madrugada, quando forem medir, no fim do dia, quem se cansou mais.
A quinta é sobre a promessa que fecha o versículo. Ela repete o critério do versículo 4 e troca a pessoa do verbo: onde havia “eu lhes pagarei” há “vocês receberão”. O compromisso é o mesmo e quem se compromete sai da frase — e é a última coisa que o dono da vinha diz antes do acerto de contas em que a palavra “justo” vai ser preenchida por ele. A cláusula falta nas edições gregas críticas e está no Textus Receptus, que é o texto seguido aqui; sem ela, este grupo seria o único a entrar na vinha sem nada prometido.













