Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos; porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos.
1. Introdução
A parábola termina com a mesma frase que a abriu, um capítulo antes: o dito dos primeiros e dos últimos está em Mateus 19:30 e volta aqui, de modo que a história inteira ficou dentro dele. A palavra que o introduz mudou — lá era uma ressalva, e aqui é "assim", isto é, uma conclusão tirada do que acabou de ser contado. As duas metades vêm em ordem trocada, e a troca acompanha a ordem em que o pagamento foi feito na vinha. O fecho, "porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos", está no Textus Receptus, que a ABC segue, e falta nos dois manuscritos gregos mais antigos. Este é o único versículo do capítulo em que a decisão sobre qual texto seguir muda o que a parábola parece ensinar.
2. Contexto Histórico e Cultural
A conta dos muitos e dos poucos era uma ferida aberta
A ideia de que Deus chama muita gente e salva pouca não nasce neste versículo, e no judaísmo do primeiro século ela não era um consolo: era um tormento.
O grupo que produziu os manuscritos do mar Morto se chamava, entre outros nomes, de "eleitos de Israel". Os textos daquela comunidade têm tom fortemente predestinacionista: eles se entendiam como a única parte fiel de um povo inteiro, escolhida e levantada por Deus.
O paralelo mais próximo do fecho deste versículo está num livro judaico do fim do primeiro século, mais ou menos contemporâneo do evangelho de Mateus: o Quarto Livro de Esdras, apocalipse conservado em latim e em outras traduções antigas. Em Quarto Esdras 8:1 o anjo diz a Esdras que "o Altíssimo fez este mundo por causa de muitos, e o mundo vindouro por causa de poucos". E em 8:3: "Muitos foram criados, mas poucos serão salvos".
O detalhe que faz esse paralelo valer é o que vem depois dele. Esdras não aceita a frase. Ele discute, protesta, pede misericórdia para a massa, argumenta que uma criação em que quase todos se perdem não presta homenagem a quem criou. O livro inteiro é essa discussão. Ou seja: a aritmética dos muitos e dos poucos circulava naquele mundo, era formulada quase nas mesmas palavras — e era objeto de briga, não de acordo.
"Chamados" tem um referente dentro da própria história
A palavra grega traduzida por "chamados" vem da mesma raiz do verbo que o dono da vinha usa em Mateus 20:8, quando manda o administrador chamar os trabalhadores para pagar.
Isso muda a coisa que o leitor imagina. Em Mateus 22:14, onde a mesma frase aparece, "chamados" são os convidados de um banquete de casamento — a palavra era, no grego corrente, o termo do convite para festa. Aqui, na vinha, o chamado é outro: é a convocação para a fila do pagamento. Quem foi chamado não foi convidado a comer; foi chamado a receber.
E é aí que o fecho aperta. Na história, todos os chamados receberam. Nenhum trabalhador ficou sem denário, nenhum foi mandado de volta, nenhum foi recusado na fila. Se "chamados" são eles, a parábola não mostra nenhum descarte — e a frase sobre os poucos escolhidos não tem, dentro da vinha, a quem se aplicar. O ponto joga contra a naturalidade do fecho e é preciso registrá-lo com honestidade, porque ele é o principal argumento de quem considera o fecho um acréscimo de copista.
Uma frase antes e a mesma frase depois
Repetir um dito nas duas pontas de uma história era procedimento de ensino oral, e servia para marcar onde a unidade começava e onde terminava — quem ouvia sem livro na mão precisava desse tipo de sinal.
O que a repetição produziu, no caso desta frase, foi uma história embutida num dito. E a decisão sobre o fecho teve consequência histórica larga: a Vulgata, a tradução latina de Jerônimo do fim do século IV, traz "porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos" — e, como ela foi a Bíblia do Ocidente por mais de mil anos, este versículo terminou assim para praticamente todos os leitores cristãos até o século XIX.
3. Análise Teológica do Versículo
"Assim"
A primeira palavra do versículo é a que mais muda em relação à vez anterior em que a frase foi dita.
Em Mateus 19:30 o dito entra com uma conjunção adversativa — "porém" —, e portanto se volta contra alguma coisa. Aqui ele entra com "assim": não contraria nada, e é apresentado como o que se tira da história que acabou de ser contada. A mesma sentença passou de ressalva a conclusão.
A consequência é grande. Se a frase é conclusão da parábola, então a parábola é a explicação da frase — e fornece justamente o que faltava na primeira aparição. Ali não havia sujeito; aqui existem primeiros e últimos concretos, os contratados de madrugada e os da hora décima primeira. Ali não havia motivo para a troca; aqui existe um, e é o dono ter decidido a ordem do pagamento.
O limite dessa vantagem precisa ser dito na mesma frase em que ela é apontada. O sujeito que a parábola fornece é um sujeito de dentro da história, e a história não diz quem, fora dela, são os primeiros e os últimos. A moldura estreita o dito; não identifica ninguém.
A parábola mora dentro do dito
A frase abre em Mateus 19:30 e fecha aqui, e é o único dito deste trecho do evangelho que Mateus repete. Daí sai uma regra prática de leitura: nenhuma das duas pontas se sustenta sozinha. Quem lê Mateus 19:30 sem a parábola tem uma sentença sem sujeito, e é por isso que quatro leituras diferentes foram propostas para ela. Quem lê a parábola sem Mateus 19:30 tem uma história cuja tese só aparece no fim, depois de o leitor já ter escolhido de qual lado está.
As duas metades estão em ordem trocada, e a troca tem razão
Em Mateus 19:30 a ordem é: os primeiros serão últimos, e os últimos serão primeiros. Aqui é o contrário: os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos.
A razão está na cena. Na vinha, os últimos foram literalmente pagos primeiro — a ordem do administrador, em Mateus 20:8, foi começar pelos últimos. A metade que vem na frente, neste versículo, é a metade que a história acabou de mostrar acontecendo. Meyer observa exatamente isso: a ordem invertida se ajusta à narrativa.
Há uma ressalva de coerência a fazer, e ela é honesta. O estudo de Mateus 19:30 concluiu, do próprio fato de as metades aparecerem trocadas nos dois lugares, que a ordem entre elas não carrega sentido próprio. Essa conclusão vale para a frase isolada, e continua valendo: como dito solto, ela pode ser recitada em qualquer das duas direções. Dentro da parábola, não vale mais — aqui a sequência acompanha o pagamento. A ordem é livre no provérbio e determinada na aplicação.
O artigo, e o "muitos" que mudou de lugar
Esta é a diferença mais consequente entre as duas versões da frase, e ela passa despercebida em português.
Em Mateus 19:30 o texto diz "muitos primeiros" e "muitos últimos". A palavra restringe: não todos. É dela que sai o ponto central daquele versículo — a frase não promete inversão, promete imprevisibilidade.
Aqui não há "muitos" em nenhuma das duas metades. Há artigo definido: os últimos e os primeiros, sem restrição nenhuma. Esta versão do dito afirma o que a outra tomou cuidado de não afirmar.
E a palavra "muitos" não desapareceu — mudou de posição. Reaparece no fecho, aplicada a outra coisa: muitos são chamados. Onde antes ela protegia os primeiros de uma queda automática, agora qualifica quantos são convocados.
Disso decorre um efeito que o debate textual costuma deixar de lado. No texto crítico, que não traz o fecho, a palavra "muitos" sai do versículo por completo — e Mateus 20:16 se torna a única forma do dito, em todo o Novo Testamento, sem qualquer palavra que o limite. Marcos 10:31 conserva "muitos" e Lucas 13:30 usa "alguns".
"porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos"
Os manuscritos e as edições estão no item 10. O que interessa decidir aqui é outra coisa: o que cada uma das duas decisões faz com a parábola.
Com o fecho, a parábola ganha uma peneira que não tinha. A leitura mais natural é a de Bengel: "chamados" são os convocados, e "escolhidos", os que de fato pertencem; Gill vai além e lê a eleição soberana de Deus. Nos dois casos a história passa a apontar para uma separação — e aí aparece a dificuldade: na vinha ninguém foi separado. O fecho tem de ser lido, portanto, como olhando para além da história.
Sem o fecho, o versículo permanece dentro da vinha. A conclusão da parábola é o que o proprietário disse nos dois versículos anteriores: o acordo foi honrado, e o que se dá não se deve. Não há peneira, não há separação, e a inversão anunciada é a que a cena exibiu — a fila do pagamento começando pelo fim.
Não é possível decidir pelo argumento interno, e a razão é que ele corta nos dois sentidos. O mau encaixe do fecho é o argumento mais forte de quem o considera acréscimo trazido de Mateus 22:14, onde a frase se ajusta perfeitamente. E o mau encaixe é também argumento contra o acréscimo, porque copista que harmoniza tende a juntar o que combina, não o que atrapalha. Ellicott e a Cambridge Bible dizem que o fecho é provavelmente acrescentado; o Pulpit Commentary diz que ele tem boa autoridade e é muito provavelmente genuíno.
Uma coisa, no entanto, vale nas duas hipóteses, e é a mais importante: esta parábola não sustenta doutrina de eleição. Nela não há ninguém de fora. Quem quiser argumentar a partir de "muitos chamados, poucos escolhidos" precisa argumentar a partir de Mateus 22, onde existe um homem lançado para fora — e aquela é outra história, com outro enredo e outro desfecho.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
Ninguém é nomeado — e essa é a informação. Depois de uma parábola com proprietário, administrador, trabalhadores de cinco turnos e um porta-voz que discute, o versículo final não traz um único personagem. Os que aparecem nele são posições: os últimos e os primeiros.
Os "chamados" — no fecho do versículo. Dentro da história, o chamado tem autor e hora: o administrador chamou os trabalhadores para pagar, em Mateus 20:8. Fora dela, o texto não diz quem chama nem quem é chamado.
Os "escolhidos" — não identificados, e sem verbo que diga quem escolhe. É o único grupo da parábola inteira que não tem nenhuma correspondência na cena: não há, na vinha, trabalhador que tenha sido selecionado entre os outros.
Jesus — quem fala. Esta é a última frase que ele diz antes de a subida para Jerusalém voltar ao primeiro plano, em Mateus 20:17. Os discípulos ouvem, e Mateus não registra reação nenhuma, nem pergunta, nem espanto.
Lugares
A vinha, que se fecha aqui — a paisagem da parábola desaparece com o versículo, e a partir do próximo a cena volta à estrada.
O caminho para Jerusalém — o pano de fundo que nunca saiu do lugar. A parábola inteira foi contada em trânsito, entre a saída do jovem rico e o terceiro anúncio da paixão.
Eventos
O fechamento da moldura — o dito que abriu em Mateus 19:30 volta, e o trecho que começou com a pergunta de Pedro sobre o que os discípulos teriam se encerra.
A repetição com duas alterações — a frase não volta idêntica: a conjunção mudou e as metades vieram em ordem trocada.
A história da frase depois de Mateus — o fecho sobre os chamados e os escolhidos entrou na Vulgata e atravessou mais de mil anos de leitura latina. A discussão sobre se ele pertence ao versículo só se tornou possível no século XIX, quando os manuscritos gregos mais antigos foram publicados e estudados.
5. Pontos de Ensino
A história está dentro da frase, e não a frase dentro da história
O dito abre em Mateus 19:30 e fecha aqui. Isso significa que a parábola foi contada para explicar uma sentença, e não que a sentença tenha sido acrescentada para resumir a parábola. Quem inverte a relação lê a história como ilustração de uma moral, quando ela é o argumento de que a moral precisava.
"Assim" não é a mesma coisa que "porém"
A primeira aparição da frase se voltava contra uma suposição; esta se apresenta como conclusão tirada de fatos narrados. A mesma sentença, com a mesma redação, faz trabalhos lógicos diferentes nos dois lugares. Prestar atenção à palavra que introduz uma frase muda o que ela afirma.
O "muitos" mudou de lugar, e isso pesa
Em Mateus 19:30 a palavra restringia a inversão: não todos os primeiros cairiam. Aqui os dois grupos vêm com artigo definido, e "muitos" reaparece falando de outra coisa — quantos são chamados. A frase deixou de limitar a troca de posições e passou a limitar a convocação.
Nesta parábola ninguém foi descartado
Todos os chamados receberam, e nenhum trabalhador foi recusado na fila. Qualquer leitura que transforme a vinha num processo de seleção precisa trazer o material de fora, e o lugar de onde se costuma trazê-lo é Mateus 22, que é outra parábola.
Um versículo com problema de texto se comenta dizendo que tem
O fecho está no Textus Receptus e falta nos dois manuscritos gregos mais antigos. Um estudo honesto não escolhe em silêncio: diz qual texto está comentando, mostra o que a outra decisão produziria, e não constrói doutrina em cima da parte disputada.
6. Aspectos Filosóficos
O problema deste versículo, antes de ser teológico, é de forma: uma história conta um caso, e uma máxima enuncia uma lei geral. Pode-se tirar a segunda da primeira? Aqui há uma narrativa e, colada às duas pontas dela, duas afirmações gerais. A primeira — os últimos serão os primeiros — encaixa. A segunda — muitos chamados, poucos escolhidos — não encaixa de modo evidente, porque na história ninguém ficou de fora.
A distinção que organiza esse problema foi formulada por Wilhelm Windelband, filósofo alemão, no discurso que pronunciou ao assumir a reitoria da universidade de Estrasburgo, em 1894. Ele separou dois tipos de conhecimento pelo objetivo, e não pelo assunto. Um procura o que acontece sempre e formula leis gerais; Windelband o chamou de nomotético (do grego, "o que estabelece lei"). O outro descreve o particular, o que aconteceu uma vez e não se repetirá; e a esse ele chamou de idiográfico (do grego, "o que descreve o singular").
O ponto do argumento é que os dois não são etapas um do outro. O caso singular não é matéria-prima à espera de virar lei: ele tem verdade própria, e perde alguma coisa quando é tratado apenas como exemplo de uma regra.
A parábola é idiográfica de ponta a ponta. É um caso: este proprietário, neste dia, este salário, esta reclamação, este homem que fala e este que fica calado. A sentença pregada nas duas extremidades é nomotética: diz o que será, em geral, sem nome de ninguém. O versículo é a costura entre os dois tipos, e a palavra "assim" é a linha dessa costura — ela apresenta o geral como tirado do singular, sem dizer até onde a derivação vai.
Visto assim, fica claro o que há de errado nas duas leituras apressadas. Quem guarda só a máxima trata a história como ilustração dispensável, e reduz o caso a matéria-prima; a parábola passa então a significar o que cada leitor quiser — elogio da generosidade, defesa do direito de propriedade, crítica ao mérito. Quem guarda só a história recusa qualquer afirmação geral, e a parábola deixa de dizer coisa alguma além de si mesma.
Mas a dificuldade de fundo permanece, e ela é real: de um caso não se deduz uma lei. A vinha mostra um proprietário decidindo uma vez. Isso não estabelece que os últimos serão sempre os primeiros. O "assim" afirma mais do que a história prova — e esse não é um defeito de Mateus, é a estrutura de todo ensino por exemplo, inclusive do nosso.
Com a segunda máxima o problema é de outra ordem, e mais agudo. "Muitos são chamados, mas poucos escolhidos" não enuncia apenas uma lei: enuncia uma proporção. E proporção exige contagem de muitos casos. A parábola oferece um só, e nele a proporção é de todos pagos, sem exceção. O fecho, portanto, não é apenas mal encaixado no enredo — é de um tipo que nenhuma narrativa singular poderia sustentar, por mais bem escolhida que fosse.
Dois limites. Windelband estava separando a história da ciência da natureza, dentro de uma discussão alemã do século XIX sobre o método das ciências humanas; parábolas não estavam no assunto dele, e o que se aproveita aqui é a distinção, não as teses sobre método. E a distinção não decide nada sobre o texto: para julgar se o fecho pertence ao versículo é preciso já ter uma leitura do conjunto, e para ter essa leitura é preciso já ter decidido quais são as partes. Não existe lugar neutro de onde decidir. Em Mateus 20:16 essa circularidade aparece na superfície, porque o que está em disputa não é o sentido de uma palavra: é onde o versículo termina.
7. Aplicações Práticas
Ler a parábola pelas duas pontas
A história tem uma frase antes e a mesma frase depois, e quem entra por uma só ponta lê outra coisa. Começar em Mateus 19:30 e terminar aqui é o modo de leitura que o próprio texto sugere — e vale para outras passagens: quando uma sentença se repete nas duas extremidades de um trecho, ela está marcando onde ele começa e onde acaba.
Ler dessa maneira evita o erro mais comum com esta parábola, que é tomá-la como resposta pronta a uma pergunta que ela não recebeu. A pergunta que a puxou foi a de Pedro, sobre o que os discípulos teriam por ter deixado tudo.
Não usar um versículo com problema de texto como base de doutrina
O fecho sobre os chamados e os escolhidos falta nos dois manuscritos gregos mais antigos. Isso não o torna falso — a mesma frase está em Mateus 22:14 com apoio pleno —, mas torna imprudente construir sobre ele, neste lugar, uma posição sobre quem é salvo e quem não é. A regra prática é simples e vale para toda a Bíblia: peso de manuscrito é parte do argumento, e quem discute doutrina sem saber disso está discutindo com uma informação a menos.
Desconfiar do uso da frase para medir a igreja
"Muitos são chamados, mas poucos escolhidos" costuma aparecer em pregação como conta sobre os outros: a maioria está fora, e quem fala está entre os poucos. Nem o versículo nem a parábola permitem isso. Não há aqui nome, número, sinal nem critério que autorize alguém a se localizar entre os escolhidos — e no livro judaico que traz a frase quase nas mesmas palavras, quem a ouve reage protestando contra ela, não aplaudindo.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Por que a mesma frase aparece duas vezes, em Mateus 19:30 e aqui?
Porque ela é a moldura da parábola: abre, a história é contada dentro, e ela fecha. Repetir um dito nas duas pontas de um trecho era procedimento de ensino oral, e servia de sinal para quem ouvia sem livro na mão. O efeito de leitura é que a parábola funciona como explicação da frase, e não como história independente.
2. O fecho "muitos são chamados, mas poucos escolhidos" é genuíno?
Não há consenso. Ele falta no Códice Sinaítico e no Códice Vaticano e está em muitos outros testemunhos, inclusive na Vulgata e nas versões siríacas (item 10). Ellicott e a Cambridge Bible o consideram provavelmente acrescentado; o Pulpit Commentary o considera muito provavelmente genuíno. A ABC segue o Textus Receptus e o conserva.
3. O fecho combina com a parábola?
Mal. Na vinha todos os chamados receberam, e ninguém foi recusado — de modo que não há, dentro da história, poucos escolhidos entre muitos chamados. A mesma frase encaixa sem atrito em Mateus 22:14, onde um convidado é lançado para fora. É esse mau encaixe que alimenta a hipótese do acréscimo; e é ele, também, que torna estranho que um copista o tivesse inserido aqui, já que harmonização costuma juntar o que combina.
4. Por que a ordem das duas metades está trocada?
Porque segue a ordem do pagamento. O administrador foi mandado começar pelos últimos, em Mateus 20:8, e a metade que vem na frente neste versículo é a que a cena mostrou primeiro. Meyer aponta esse ajuste à narrativa.
5. "Chamados" e "escolhidos" são dois grupos ou dois nomes do mesmo grupo?
O versículo os contrapõe, e portanto são dois — a conjunção "mas" só faz sentido se houver diferença de número entre eles. Bengel entende chamados como os convocados e escolhidos como os que de fato pertencem. O que o texto não faz é dizer quem passa de um grupo para o outro, nem como, nem por decisão de quem.
6. Quem é chamado, dentro da parábola?
Os trabalhadores, e a palavra tem hora marcada: o administrador os chamou para receber. A palavra grega do fecho vem da mesma raiz desse verbo. Isso ancora "chamados" na cena, e é o dado que torna o resto do fecho difícil de acomodar.
7. Este versículo serve para saber quem se salva?
Não, e por duas razões independentes. A parte que fala de chamados e escolhidos é a parte disputada nos manuscritos. E a parábola em que ela está não tem nenhum descartado: quem quiser discutir eleição a partir de Mateus tem de fazê-lo em Mateus 22, onde há alguém expulso, ou em Mateus 7:13-14, onde a porta estreita é encontrada por poucos.
9. Conexão com Outros Textos
A outra ponta da moldura
Mateus 19:30 — Porém muitos primeiros serão últimos, e muitos últimos serão primeiros.”
A mesma sentença, com duas diferenças que o português quase esconde: ali a conjunção é adversativa e aqui é conclusiva, e ali há "muitos" nas duas metades, que aqui desaparece delas.
A mesma frase nos outros evangelhos
Marcos 10:31 — "Porém muitos primeiros serão últimos, e últimos, primeiros."
Lucas 13:30 — "E eis que há alguns dos últimos que serão primeiros, e há alguns dos primeiros que serão últimos."
Marcos conserva "muitos" e Lucas troca por "alguns", que restringe ainda mais. Nenhum dos dois traz o fecho sobre os chamados e os escolhidos. Se o dito circulava com alguma palavra que o limitasse, a forma sem nenhuma — que é a do texto crítico neste versículo — fica isolada entre os paralelos.
O fecho, onde ele encaixa sem atrito
Mateus 22:12 — E lhe perguntou: ‘Amigo, como você entrou aqui sem roupa de casamento?’ O homem ficou sem palavras.
Mateus 22:13 — Então o rei disse aos que serviam: ‘Amarrem-lhe os pés e as mãos e lancem-no nas trevas de fora; ali haverá choro e ranger de dentes.’
Mateus 22:14 — Pois muitos são chamados, mas poucos são escolhidos.”
Ali a frase vem depois de alguém ser efetivamente posto para fora, e o grego dela é idêntico ao do fecho deste versículo. Essa identidade é o argumento central de quem lê o fecho de Mateus 20:16 como acréscimo — e é também a razão pela qual a discussão sobre eleição, se for feita em Mateus, tem de ser feita naquele capítulo.
Muitos e poucos em Mateus
Mateus 7:13 — Entrem pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ele.
Mateus 7:14 — Porque estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida, e são poucos os que o encontram.
A aritmética dos muitos e dos poucos aparece no Sermão do Monte sem nenhum problema de manuscrito, e com uma diferença de conteúdo: lá o que separa é um caminho que se encontra ou não se encontra, e aqui o que separa é uma escolha, sem sujeito declarado.
Mateus 24:22 — E, se aqueles dias não fossem encurtados, ninguém sobreviveria; mas, por causa dos escolhidos, aqueles dias serão encurtados.
Em Mateus a palavra "escolhidos" aparece sempre assim: um grupo já constituído, tratado como referência e protegido, e nunca um processo de seleção sendo descrito em ato.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos; porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos.
Texto grego (Textus Receptus, Scrivener 1894)
οὕτως ἔσονται οἱ ἔσχατοι πρῶτοι, καὶ οἱ πρῶτοι ἔσχατοι· πολλοὶ γάρ εἰσι κλητοί, ὀλίγοι δὲ ἐκλεκτοί.
Transliteração
houtos esontai hoi eschatoi protoi, kai hoi protoi eschatoi; polloi gar eisi kletoi, oligoi de eklektoi.
Análise palavra por palavra
οὕτως — houtos, advérbio de modo: "assim", "desse modo". Ele aponta para trás, para o que acabou de ser narrado, e é a palavra que faz da sentença uma conclusão. Em Mateus 19:30 a mesma frase começava com a partícula adversativa de ("porém"); a troca de uma por outra é a diferença gramatical mais consequente entre as duas aparições.
ἔσονται — esontai, futuro do indicativo médio, terceira pessoa do plural, do verbo ser: "serão". Um único verbo governa as duas metades, e a segunda não o repete — em português o acréscimo é obrigatório.
οἱ ἔσχατοι — hoi eschatoi, artigo definido mais adjetivo, nominativo masculino plural: "os últimos". O artigo é o ponto: em Mateus 19:30 os dois grupos vinham sem artigo e com a palavra "muitos" à frente, e aqui vêm com artigo e sem nenhum limitador, o que em grego designa o grupo inteiro.
πρῶτοι — protoi, "primeiros", sem artigo. A ausência não é descuido: em grego, quando dois adjetivos se ligam pelo verbo ser, o que leva artigo é o sujeito e o que fica sem é o predicado. É o artigo que impede embaralhar os papéis na tradução.
καὶ οἱ πρῶτοι ἔσχατοι — kai hoi protoi eschatoi, a mesma construção espelhada: artigo no sujeito, predicado sem artigo, verbo subentendido.
πολλοὶ — polloi, adjetivo no nominativo masculino plural: "muitos". Está na abertura da oração, posição de destaque em grego. Esta é a única aparição da palavra no versículo, e ela ocorre dentro da parte disputada nos manuscritos.
γάρ — gar, partícula explicativa: "porque", "pois". A função dela pesa na discussão sobre o fecho: ela não introduz observação lateral, e apresenta o que vem depois como razão do que veio antes. O fecho não acompanha a frase da inversão — oferece-se como a explicação dela.
εἰσι — eisi, presente do indicativo, terceira pessoa do plural, do verbo ser: "são".
κλητοί — kletoi, adjetivo verbal usado como substantivo, nominativo masculino plural: "chamados", "convocados".
A palavra vem do verbo kaleo, "chamar" — o mesmo que aparece em Mateus 20:8, na ordem do proprietário ao administrador: kaleson, "chame os trabalhadores". A ligação é de raiz, e amarra o fecho à cena. No grego corrente a palavra também designava o convidado de um banquete, e é nesse sentido que ela funciona em Mateus 22:14. Paulo a usará quase como título, em Romanos 1:6-7 e em 1 Coríntios 1:24.
ὀλίγοι — oligoi, adjetivo no nominativo masculino plural: "poucos". Dela vem a palavra portuguesa "oligarquia", o governo de poucos.
δὲ — de, partícula adversativa fraca: "mas". É a mesma partícula que abre o dito em Mateus 19:30.
ἐκλεκτοί — eklektoi, adjetivo verbal no nominativo masculino plural: "escolhidos", "eleitos".
A palavra é formada de ek ("de dentro de", "para fora de") mais o verbo de escolher, e a preposição dentro dela carrega a ideia de retirar de um conjunto maior. Por construção, ela implica um resto: não se escolhe para fora se não houver de onde. Em Mateus aparece em 22:14, 24:22, 24:24 e 24:31.
Variantes
As duas metades do dito são idênticas em todas as edições gregas. A discussão inteira está no fecho.
Edições que omitem o fecho: Westcott e Hort (1881), Nestle, Tischendorf, a 28ª edição de Nestle-Aland e a edição crítica publicada pela Sociedade de Literatura Bíblica.
Edições que o trazem: Stephanus (1550), Beza (1598), Scrivener (1894), o texto bizantino de Robinson e Pierpont e o texto usado pela Igreja Ortodoxa Grega.
Manuscritos que omitem: o Códice Sinaítico e o Códice Vaticano, os dois do século IV; o Códice Régio e o Códice Dublinense; o manuscrito catalogado como 085; os manuscritos em letra minúscula numerados 4 e 892; e a tradução copta do sul do Egito.
Manuscritos que o trazem: o Códice Efraimita e o Códice de Beza, do século V; o Códice de Washington, do fim do século IV ou do V; o Códice de Koridethi; os dois conjuntos de cópias que os estudiosos chamam de família 1 e família 13; o manuscrito 33; a grande maioria dos manuscritos gregos medievais; as versões latinas anteriores a Jerônimo; a Vulgata; e as versões siríacas, entre elas a Peshita.
O quadro é este: a omissão tem os dois manuscritos gregos mais antigos e uma versão copta; a presença tem manuscritos quase tão antigos, três tradições de língua diferentes e o peso numérico. O equilíbrio é parecido com o de outro caso do mesmo evangelho, tratado no estudo de Mateus 17:21, e com a mesma causa provável: a memória de quem copiava.
O argumento a favor do acréscimo é de identidade: o fecho é, palavra por palavra em grego, o mesmo texto de Mateus 22:14, e lá ele se encaixa no enredo, porque um convidado é lançado para fora. Um copista que conhecia o evangelho de cor podia completar uma passagem com a outra sem nenhuma má intenção. O argumento contra tem dois braços: harmonização costuma juntar o que combina, e aqui o fecho não combina; e os testemunhos da presença são antigos e espalhados por grego, latim e siríaco, o que é difícil de explicar por uma inserção tardia única.
Não há consenso entre os editores. A balança da pesquisa crítica pende para o acréscimo, e a posição contrária não é de amadores — o Pulpit Commentary a sustenta explicitamente. A ABC declara seguir o Textus Receptus e conserva o fecho; este estudo o comenta como parte do texto que a ABC traduz e registra que ele tem apoio mais fraco nos manuscritos antigos do que o restante do versículo.
11. Conclusão
Cinco conclusões saem do versículo, e a última é uma recusa.
A primeira: a parábola está dentro do dito, e não o contrário. A frase abre em Mateus 19:30, a história corre por dentro e ela fecha aqui. A consequência de leitura é direta: a parábola foi contada para dar sujeito e motivo a uma sentença que os não tinha. Ela fornece os dois — mas só dentro da própria história, e continua sem dizer quem, fora dela, são os primeiros e os últimos.
A segunda: a mesma redação muda de função pela palavra que a introduz. "Porém" faz da frase uma ressalva contra uma suposição; "assim" faz dela uma conclusão tirada de fatos. O trabalho lógico é diferente nos dois lugares, e a diferença não está no conteúdo da sentença: está na juntura.
A terceira: a inversão das metades acompanha a ordem em que o dinheiro foi pago. Os últimos vêm na frente porque foram pagos primeiro. Isso não vale como regra geral para o dito — recitado solto, ele admite as duas direções —, e vale aqui, onde a sequência está amarrada à cena.
A quarta: a palavra que restringia mudou de objeto. Em Mateus 19:30 "muitos" limitava a inversão e produzia imprevisibilidade em lugar de troca automática. Aqui os dois grupos vêm com artigo definido, sem limite nenhum, e "muitos" reaparece no fecho falando de quantos são chamados. A cautela saiu da fila e foi para a convocação.
A quinta, e é uma recusa: não se constrói doutrina de eleição a partir deste versículo. Duas razões independentes bastam. A frase sobre chamados e escolhidos é justamente a parte que falta nos dois manuscritos gregos mais antigos. E a parábola em que ela se encontra não tem nenhum descartado: todos os chamados receberam. Quem precisa da frase para discutir quem é salvo tem de ir a Mateus 22:14, onde alguém é posto para fora, ou a Mateus 7:13-14, onde poucos encontram o caminho. Aqui ela fica sem a quem se aplicar — e é esse desencaixe, mais do que qualquer contagem de manuscritos, o fato central deste versículo.













