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Mateus 22:13

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✍️ Por Alberto Adriano·21 de outubro de 2026·⏱️ 30 min de leitura·👁 2 acessos
Então o rei disse aos que serviam: ‘Amarrem-lhe os pés e as mãos e lancem-no nas trevas de fora; ali haverá choro e ranger de dentes.’
Convidado amarrado pelos pés e pelas mãos sendo levado por serventes do salão iluminado do banquete para a escuridão do lado de fora

Estudo


Então o rei disse aos que serviam: ‘Amarrem-lhe os pés e as mãos e lancem-no nas trevas de fora; ali haverá choro e ranger de dentes.’

1. Introdução

A ordem do rei tem quatro verbos, e nenhum deles é de julgamento: amarrar, levar, lançar, e um futuro que diz o que haverá no lugar de chegada. Quem executa não é a guarda: são os garçons da festa. O homem é amarrado embora esteja reclinado e não tenha oferecido resistência. O destino não recebe nome próprio — é chamado pelo que lhe falta, "as trevas de fora", fórmula que só existe em três lugares do Novo Testamento, os três de Mateus. E o fecho, o choro e o ranger de dentes, depende de uma decisão que ninguém consegue tomar com segurança: se o ranger é de dor ou de raiva.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que era "fora" numa cidade antiga depois do pôr do sol

A expressão "trevas de fora" só tem peso para quem sabe o que era a noite antes da iluminação pública. Dentro do salão havia lamparinas de barro cheias de azeite e, nas casas grandes, candelabros de vários bicos; azeite custava dinheiro, e manter uma sala iluminada por horas era parte visível da despesa da festa. Do lado de fora não havia nada: nenhuma cidade antiga iluminava as suas ruas, e quem saía à noite levava a própria lamparina ou andava às escuras.

Havia ainda o portão. As cidades muradas o fechavam ao anoitecer — Neemias 13:19 manda fechar as portas de Jerusalém ao escurecer na véspera do sábado, e Josué 2:5 fala do portão de Jericó fechado "quando já era escuro". Quem ficava do lado de fora depois disso não entrava mais até de manhã. Ser posto para fora à noite não era figura de linguagem.

Amarrar não era prender

A lei de Israel não previa pena de prisão. Quem lê a legislação do Pentateuco encontra morte, açoites, restituição em dobro, indenização, expulsão — e nada que corresponda a cumprir uma sentença atrás de grades. A prisão existia como depósito provisório, para guardar o acusado até o julgamento ou até a execução. A amarração, nesse sistema, tinha função de transporte, não de castigo: amarra-se quem vai ser levado a algum lugar. Sansão é amarrado e levado a Gaza, em Juízes 16:21; Zedequias é preso com correntes de bronze e levado para a Babilônia, em 2 Reis 25:7. A amarração antecede sempre um deslocamento, e é esse o sentido que a ordem do rei tem.

Amarrado pelos pés e pelas mãos e lançado nas trevas — a frase já existia

Há um texto judaico anterior ao Evangelho em que a mesma ordem aparece quase palavra por palavra, e ele raramente é citado a propósito deste versículo. É o Primeiro Livro de Enoque (coleção judaica de visões, composta em partes entre os séculos III e I antes de Cristo, fora da Bíblia hebraica e conservada inteira numa tradução etíope). No capítulo 10, Deus dá uma ordem ao anjo Rafael a respeito de Azazel, o chefe dos anjos rebeldes: amarrá-lo pelas mãos e pelos pés e lançá-lo nas trevas. O lugar recebe até um nome, Dudael, e o anjo deve abrir ali um buraco no deserto e cobri-lo de escuridão.

A coincidência de elementos é grande: a ordem é dada a um subordinado, o verbo é amarrar, os membros nomeados são as mãos e os pés, e o destino é a escuridão. Isso não significa que Mateus esteja citando esse livro. Significa que a sequência "amarrar e lançar nas trevas" era, no judaísmo do período, fórmula pronta para falar de exclusão definitiva, e que o ouvinte do primeiro século provavelmente a reconhecia. A mesma imagem reaparece no Novo Testamento aplicada a anjos, na Segunda Carta de Pedro e na carta de Judas. Grau de certeza sobre a existência da fórmula: alto. Sobre dependência direta entre os textos: nenhum, e não é possível decidir.

E a escuridão, nessa literatura, não é cenário: é a pena. O mesmo Primeiro Livro de Enoque, no capítulo 108, põe os espíritos dos ímpios num lugar de trevas em que há lamento, e a Sabedoria de Salomão (livro judaico escrito em grego, provavelmente do século I antes de Cristo), no capítulo 17, relê a praga das trevas do Egito como figura do juízo.

Quem servia num banquete real, e por que isso estranha

As pessoas a quem o rei dá a ordem não são soldados nem guardas. São os que atendem à mesa, e a função está examinada no estudo de Mateus 20:26. O dado que pesa aqui é a organização de uma casa real helenística ou herodiana, em que o serviço de mesa e a segurança eram corpos distintos, com chefias distintas. Mandar os garçons amarrarem um convidado é usar o pessoal errado — ou é dizer que, naquela casa, a distinção não existe.

E tirar alguém da mesa, naquele mundo, era sanção pesada e reconhecida, não má educação: partilhar a mesa declarava reconhecimento mútuo. Grupos judaicos organizados do período usavam exatamente essa pena, com a exclusão da refeição comum como castigo graduado e a exclusão definitiva como pena máxima. Numa corte a lógica é a mesma, elevada de grau: estar à mesa do rei é estar sob a proteção dele.

3. Análise Teológica do Versículo

"Então o rei disse aos que serviam"

O rei troca de pessoal, e a troca está escrita no grego com duas palavras diferentes que o português cobre com uma só. Até aqui, todos os enviados foram chamados pela palavra do escravo de uma casa; agora o rei fala com outro grupo, nomeado pela palavra do serviço de mesa. Bengel (Johann Albrecht Bengel, filólogo luterano alemão do século XVIII) resume a diferença numa linha: os escravos são enviados, os serventes servem à mesa. Meyer (Heinrich Meyer, comentarista alemão do século XIX) faz a mesma distinção.

A consequência é desagradável. Quem executa a sentença não é um corpo de segurança convocado de fora: são as pessoas que minutos antes serviam vinho ao homem que vai ser amarrado. O rei usa quem já está lá, e o salão continua cheio enquanto um dos reclinados é atado por quem acabou de lhe servir.

Há também o que o rei não faz. Não convoca testemunhas, não ouve ninguém, não pronuncia acusação formal. Entre a pergunta sem resposta e a ordem de amarrar não existe intervalo — e essa ausência de processo é dado do texto, não falha de narração. Uma parábola que quisesse mostrar um juízo justo teria montado um juízo. Esta não monta.

"Amarrem-lhe os pés e as mãos"

A ordem dos membros chama atenção. Em português e em grego a expressão corrente é "mãos e pés", e é assim que a maioria das traduções inverte; o texto grego traz primeiro os pés. Quem amarra pelos pés não impede alguém de reagir — impede-o de andar. É a ordem de quem vai carregar, e de fato o passo seguinte, no texto grego que a ABC segue, é "tomem-no".

E o homem está reclinado. Amarrar pés e mãos de um convidado deitado de lado num divã, no meio de outros deitados do mesmo jeito, é cena fisicamente estranha, e o texto não a suaviza. Ele não corre, não se levanta, não grita, não reage. Este é o terceiro ato seguido em que o homem é objeto e nunca sujeito: foi trazido da estrada, foi calado, está sendo amarrado. A parábola só individualiza um personagem além do rei, e o constrói como alguém a quem as coisas acontecem.

O verbo de amarrar atravessa este evangelho, e o percurso dele surpreende. É o verbo da prisão de João Batista, em Mateus 14:3, e o da prisão de Jesus, em Mateus 27:2 — "e, amarrado, levaram-no". E é o verbo da autoridade entregue aos discípulos: "tudo o que você ligar na terra terá sido ligado nos céus", em Mateus 16:19, repetido em Mateus 18:18. O mesmo ato, no mesmo livro, descreve o poder dado à comunidade e o que foi feito a Jesus na madrugada da entrega. O evangelho não comenta a coincidência, e seria imprudente transformá-la em tese; quem leu o livro inteiro, porém, ouve o eco.

"e lancem-no nas trevas de fora"

O verbo é o de expulsar, de pôr para fora com força — o mesmo que Mateus usa, dezenas de vezes, para a expulsão de demônios. Aplicado a um convidado, ele trata o homem como aquilo que não pode permanecer num lugar consagrado.

O destino não tem nome, e é essa a informação principal da frase. O texto não diz "para a prisão", "para o deserto", "para a Geena". Diz "para a escuridão, a de fora", e o lugar fica definido por duas negações: não tem luz e não é aqui.

O contraste da parábola fecha nesse ponto. O salão está iluminado porque é noite e porque é festa; a escuridão começa onde a festa termina. O homem não é levado para longe — é levado para o outro lado da porta, que é o único lugar que a história tem além do salão. O juízo, aqui, é geográfico: há dentro e há fora, e não há terceira opção.

A fórmula completa existe em três lugares do Novo Testamento, e os três são de Mateus: Mateus 8:12, este versículo e Mateus 25:30. Nenhum outro autor do Novo Testamento a usa. E nos três casos o expulso é alguém que tinha razões para se considerar de dentro — em Mateus 8:12 são "os filhos do reino", enquanto estrangeiros se reclinam com Abraão; em Mateus 25:30 é um servo da própria casa, que recebeu um talento do senhor; aqui é um convidado já sentado à mesa. A fórmula não descreve o destino de quem nunca foi chamado. Ela descreve sempre o destino de alguém que estava dentro.

O que o versículo não diz, e costuma ser lido como se dissesse

A pregação corrente lê este versículo como descrição do inferno, e aqui é preciso separar o escrito do acrescentado. O texto não diz fogo: Mateus tem a imagem da fornalha ardente e a usa em Mateus 13:42 e 13:50, com esta mesma frase final, e aqui escolheu o contrário dela. As duas imagens são incompatíveis como descrição física, e a incompatibilidade mostra que nenhuma das duas é descrição física. O texto não diz eterno: não há no versículo uma única palavra de duração, embora Mateus tenha e use, em outros lugares, adjetivos que marcam o que não termina. O texto não diz punição, nem tormento, nem morte. E não diz quem é esse homem — nenhuma identificação, nenhum nome de grupo, nenhuma alegoria explicada.

O quadro é duro e não deve ser amaciado. A dureza dele, porém, não autoriza preenchê-lo com informação que não está nele.

"ali haverá choro e ranger de dentes"

Esta é a frase mais repetida de Mateus nesse registro: seis vezes no evangelho — em Mateus 8:12, 13:42, 13:50, neste versículo, 24:51 e 25:30 — e uma única vez fora dele, em Lucas 13:28. É fórmula fixa, repetida sem variação, do tipo que a transmissão oral conserva inteira. No grego, os dois substantivos vêm com artigo definido: não "haverá choro", mas "haverá o choro e o ranger dos dentes". O artigo aponta para uma imagem que o público já tinha; não é informação nova.

E aqui está a dificuldade real do versículo, que a leitura devocional costuma atravessar sem ver. O choro é inequívoco: é dor. O ranger de dentes, não. Quando a Bíblia hebraica fala de alguém rangendo os dentes, quase sempre se trata do inimigo manifestando hostilidade contra o justo — é assim no Salmo 35:16, no Salmo 37:12, em Jó 16:9 e em Lamentações 2:16. O caso mais próximo deste versículo é o do Salmo 112:10: o ímpio vê a prosperidade do justo, se irrita, range os dentes e se desfaz. Ali o ranger é raiva impotente diante do bem alheio, não dor física. E o mesmo sentido reaparece em Atos 7:54, onde os ouvintes do discurso de Estêvão ficam furiosos e rangem os dentes contra ele. Não há sofrimento ali: há ódio.

Daí saem duas leituras, e as duas são defensáveis. Primeira leitura: a fórmula inteira expressa desespero, e choro e ranger são dois sinais do mesmo sofrimento, como se diria "choro e gritos". É a leitura corrente, e tem a seu favor o fato de os dois termos virem sempre juntos em Mateus, o que puxa o segundo para o campo do primeiro. Segunda leitura: os dois termos dizem coisas diferentes — há o choro, que é dor, e há o ranger, que é revolta. Nessa chave, o expulso não se arrepende: continua hostil do lado de fora. A favor dela está o uso da imagem em todo o resto da Bíblia.

Não é possível decidir, e a escolha muda o quadro inteiro. Na primeira, as trevas de fora são lugar de arrependimento tardio. Na segunda, são lugar onde a disposição que levou alguém para lá permanece intacta.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O rei — Fala por segunda vez na cena, e agora não pergunta: ordena. É a única pessoa que abre a boca em toda a parábola. Não executa nada com as próprias mãos e não explica a sua decisão a ninguém.

Os que serviam — O grupo que atende à mesa durante o banquete, nomeado no grego por uma palavra diferente da que designou os enviados do rei nos versículos anteriores. Este é o único lugar do Evangelho de Mateus em que essa palavra aparece com sentido literal, descrevendo gente que de fato serve comida. O sentido que ela ganha como função dentro da comunidade está examinado no estudo de Mateus 20:26.

O homem — Continua sem nome, sem origem e sem fala. Nos três versículos em que aparece, é notado, é interpelado, é emudecido e é amarrado. O texto não lhe atribui uma única ação.

As trevas de fora — O único lugar nomeado no versículo, e nomeado pelo que não tem. A expressão existe em três passagens do Novo Testamento, todas no Evangelho de Mateus. Não é a Geena, não é o fogo, não é a sepultura: é o espaço imediatamente externo ao salão iluminado da festa.

O salão — Permanece cheio. Ninguém se levanta, ninguém protesta, ninguém é consultado. A expulsão acontece diante de todos os convidados que ficam.

O que aconteceu antes e o que vem depois — O rei entrou para ver a festa, notou um homem sem a roupa de casamento e lhe perguntou como havia entrado; o homem não respondeu. Entre essa pergunta e a ordem deste versículo não há acontecimento intermediário. Depois dele vem uma única frase, sobre muitos chamados e poucos escolhidos, e em seguida os fariseus saem para armar a pergunta sobre o tributo a César. A parábola não tem desfecho narrado: termina na ordem de expulsão e num provérbio.

5. Pontos de Ensino

Quem executa a sentença é quem servia a mesa. O rei não chama a guarda: dá a ordem às pessoas que estavam enchendo as taças. Não há, naquela casa, um corpo separado para a parte desagradável do trabalho, e isso impede a leitura cômoda em que o juízo é terceirizado a um poder distante.

A expulsão é decidida sem processo. Nenhuma testemunha, nenhuma acusação formulada, nenhuma deliberação. Quem quiser ler aqui um modelo de justiça terá de acrescentar ao texto tudo o que faz um julgamento ser julgamento.

Amarrar vem antes de levar. No uso da época, a amarração servia ao transporte, não ao castigo. A ordem dos membros no grego — pés primeiro — confirma isso: não se está contendo uma reação, está-se preparando um carregamento. O detalhe diz algo sobre o homem: ele não está lutando.

A fórmula das trevas de fora é sempre usada contra quem estava dentro. Nos três lugares em que o Evangelho de Mateus a emprega, o expulso é alguém com título de pertença: os filhos do reino, um servo da casa, um convidado já reclinado. Nenhum deles é um estranho que nunca foi chamado. É uma advertência dirigida a quem se considera seguro, não a quem está longe.

O ranger de dentes pode não ser dor. Em quase todo o resto da Bíblia, rangem os dentes os inimigos, de raiva, e não os sofredores, de aflição. Se for esse o sentido, a cena não mostra arrependimento algum do lado de fora — mostra a mesma disposição que já estava lá dentro, agora sem disfarce. A leitura não é obrigatória, e a possibilidade dela muda o que se pode pregar a partir do versículo.

Mateus não descreve o inferno aqui. Ele tem outras imagens para isso, inclusive o fogo, e neste versículo escolheu o contrário do fogo. Tratar escuridão e fornalha como descrições do mesmo lugar físico é confundir imagem com informação, e perder as duas.

6. Aspectos Filosóficos

Existe castigo que nenhum bem posterior consegue compensar?

A pergunta nasce de uma conta: se Deus é bom, e se há no mundo sofrimentos que arruínam uma vida inteira, de que modo a bondade e a ruína cabem no mesmo quadro? A filósofa que tratou esse problema com mais rigor no século passado foi Marilyn McCord Adams (1943-2017, norte-americana, professora em Michigan, em Los Angeles, em Yale e em Oxford, especialista em filosofia medieval e também sacerdote da Igreja Anglicana). Ela chamou esses sofrimentos de males horrendos, e deu uma definição estreita.

A definição, e por que ela é estreita

Um mal é horrendo, para Adams, quando dá a quem participa dele — a vítima ou o autor — razão à primeira vista para duvidar de que a sua vida, incluindo aquilo, possa ser um grande bem para ele próprio. O decisivo está nas três últimas palavras: a pergunta não é se o mundo, no conjunto, ficou melhor, e sim se aquela pessoa, olhando a própria vida com tudo dentro, poderia considerá-la boa.

Daí Adams tira a distinção que organiza o argumento dela. Um mal pode ser contrabalançado: põe-se na outra ponta da balança um bem maior, e a soma do universo fica positiva. Ou um mal pode ser derrotado: ele é integrado à própria vida de quem o sofreu, de tal modo que aquela vida, inteira, se torna um grande bem para aquela pessoa. Contrabalançar é aritmética do conjunto; derrotar é transformação do particular. A tese dela é que a bondade de Deus exige a segunda coisa, porque a primeira trata pessoas como casas decimais de uma conta geral.

O que isso faz com este versículo

O quadro do versículo é o de um homem amarrado e posto no escuro, com choro e ranger de dentes. Se esse estado for final e sem termo, ele é, pela definição de Adams, um mal horrendo por construção: nenhuma vida que termine ali pode ser um grande bem para quem a viveu, e não há bem posterior capaz de derrotá-lo, porque não há mais "posterior" para aquela pessoa. Um destino irreversível de ruína é o único tipo de mal que, na estrutura do argumento, não admite derrota.

Adams enfrentou essa consequência num ensaio dedicado ao assunto, em que tratou o inferno entendido como tormento consciente sem fim não como dado a ser aceito, mas como um problema do mal interno ao próprio cristianismo. E acrescentou um segundo argumento, independente, que chamou de desproporção de tamanho: criaturas finitas, mal informadas, formadas num ambiente que não escolheram, não têm a estatura necessária para contrair uma culpa cuja medida justa seja a ruína sem termo. A objeção não nega que haja culpa; nega que haja culpa desse tamanho.

Os limites, e eles são vários

O primeiro é o de sempre: Adams não está comentando Mateus. Ela discute uma doutrina formada ao longo de séculos, com vocabulário próprio — castigo eterno, tormento, condenação definitiva —, e o versículo, como se mostrou, não contém nenhuma palavra de duração. Aplicar a objeção dela a este texto exige antes aceitar a leitura que faz do versículo uma descrição do destino final dos indivíduos, e essa leitura é discutida.

O segundo é que Adams não oferece saída fácil, e usá-la para amaciar o versículo é usá-la contra ela mesma. O método dela começa por nomear o mal em toda a sua dureza, e recusa explicitamente as consolações que explicam o sofrimento como lição, aprendizado ou parte necessária de um plano. Quem a cita para dizer que a cena não é tão grave assim entendeu o contrário do que ela escreveu.

O terceiro é que a posição dela é minoritária, contestada, e não resolve o problema do texto: o versículo descreve o que haverá e cala sobre duração, reversibilidade e finalidade. A dificuldade permanece inteira, e quem a enfrenta a partir daqui trabalha com menos material do que precisaria.

7. Aplicações Práticas

Quem usa este versículo para assustar está usando-o errado

A aplicação mais comum do versículo em pregação é o medo: descreve-se o escuro, o choro, os dentes, e conclui-se com um apelo. O problema não é moral, é de leitura. Nos três lugares em que Mateus usa esta fórmula, o alvo é alguém que se considera dentro — e por isso o versículo não serve para falar dos outros. Serve para interromper a tranquilidade de quem está à mesa.

Dar a ordem desagradável a quem já está ali

O rei manda os garçons amarrarem um convidado. Em qualquer organização isso acontece: a tarefa penosa cai sobre quem está por perto, e não sobre quem foi contratado para ela. O versículo não condena a prática nem a elogia. Mostra o que ela produz: pessoas que servem e removem a mesma pessoa, na mesma noite.

Excluir alguém diante de todos

A retirada acontece no salão, com a festa em andamento, e isso tem efeito sobre quem fica: os outros convidados passam o resto da noite sabendo que aquilo é possível. Quem conduz grupos decide com frequência entre resolver em particular e resolver à vista. A segunda opção disciplina os espectadores e custa a confiança deles — o versículo mostra o preço sem discuti-lo.

O que não dá para aplicar

Não há aqui regra de conduta para quem é excluído, porque o homem não age. Não há critério para decidir quem fica e quem sai, porque a roupa nunca foi explicada. E não há autorização para ninguém inspecionar ninguém: quem vê o homem é o rei, e quem dá a ordem é o rei.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que amarrar um homem que vai ser posto para fora?

A pergunta tem resposta prática e resposta de sentido, e as duas aparecem. A prática: no uso da época, a amarração servia ao transporte de quem ia ser levado, e o texto grego que a ABC segue tem, depois de amarrar, a ordem de tomá-lo — ele vai ser carregado. A de sentido: amarrar alguém que já está calado e deitado é um excesso, e o excesso é o que o versículo mostra. Não é possível decidir se Mateus registra um detalhe de procedimento ou se escreve a desproporção de propósito.

As "trevas de fora" são o inferno?

O versículo não usa nenhuma das palavras que, no próprio Evangelho de Mateus, designam o lugar do castigo: não diz Geena, não diz fogo, não diz destruição, não diz eterno. A identificação com o inferno é leitura posterior, antiga e amplamente repetida, mas é leitura — quem a faz está somando este versículo a outros.

Por que a ordem é dada aos que serviam, e não aos que o rei havia enviado antes?

Porque são grupos diferentes, nomeados por palavras diferentes no grego: os primeiros eram escravos da casa, com função de representação, e estes são o pessoal de mesa. A troca pode ser realismo de cena, e pode ser escolha de composição, para que a mesma mão que serviu retire. Há ainda uma terceira leitura, alegórica: o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) propõe que estes serventes sejam anjos, porque não são os portadores do convite e não podem ser pregadores. É leitura possível e não está no texto.

O ranger de dentes é dor ou é raiva?

É a questão em aberto mais consequente do versículo. Em quase todas as passagens da Bíblia hebraica em que alguém range os dentes, trata-se de hostilidade de um inimigo, e não de sofrimento — e o mesmo vale para Atos 7:54, onde os ouvintes de Estêvão rangem os dentes de fúria. Por outro lado, Mateus nunca usa o termo sozinho: ele vem sempre colado ao choro, o que puxa o conjunto para o campo da aflição. Não há consenso, e a escolha decide se o lado de fora é lugar de arrependimento ou de revolta persistente.

Esta parábola fala do juízo final ou dos dirigentes de Israel?

Há debate. A leitura histórica entende o capítulo como sequência contra os dirigentes de Jerusalém — o convite recusado, a cidade castigada e, por fim, a advertência a quem entrou na nova mesa. A leitura final toma a cena como figura do juízo do fim. As duas encontram apoio no capítulo, e o próprio Evangelho de Mateus, que usa esta fórmula nos dois contextos, não permite escolher com segurança.

A pena é proporcional à falta?

Lida como história de etiqueta, não é — ninguém amarra um convidado por causa de roupa. É essa desproporção que obriga o leitor a procurar outra coisa debaixo da roupa. A alternativa honesta é reconhecer que a parábola usa uma escala deliberadamente desproporcional, como faz com o credor de Mateus 18:27, que perdoa de uma vez uma dívida que levaria milhares de anos para ser paga. O exagero é o instrumento, e tratá-lo como informação sobre a gravidade de usar a roupa errada é perder o fio.

9. Conexão com Outros Textos

As outras duas vezes em que o Evangelho de Mateus fala das trevas de fora

Mateus 8:11 — "E eu lhes digo que muitos virão do oriente e do ocidente, e se sentarão à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no Reino dos céus;"

Mateus 8:12 — "mas os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes."

A estrutura é a mesma deste versículo, e em ordem inversa: estrangeiros reclinados à mesa, herdeiros no escuro. O grego das duas expressões é idêntico ao daqui, embora a ABC as verta com palavras diferentes.

Mateus 25:30 — "E lancem esse servo inútil para fora, nas trevas; ali haverá choro e ranger de dentes."

O terceiro e último caso. O expulso é um servo da própria casa, que recebeu um talento do senhor e o devolveu intacto. Também ali a ordem é dada a terceiros, e também ali o castigado não responde.

A fornalha, que é a imagem oposta e tem o mesmo fecho

Mateus 13:42 — "e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes."

A mesma frase final, com fogo em lugar de escuridão — e a frase volta idêntica em Mateus 13:50. A incompatibilidade entre as duas imagens é o argumento mais forte contra tratar qualquer uma delas como descrição de um lugar.

O ranger de dentes como hostilidade, e não como dor

Salmos 37:12 — "O ímpio conspira contra o justo e range os dentes contra ele."

Salmos 112:10 — "O ímpio verá e se irritará; rangerá os dentes e se consumirá; o desejo dos ímpios perecerá."

Lamentações 2:16 — "Todos os seus inimigos abrem a boca contra você; assobiam e rangem os dentes."

Em nenhum desses lugares quem range está sofrendo. Em todos, quem range está atacando. O mesmo vale para o único caso fora dos evangelhos.

Atos 7:54 — "Ao ouvirem isso, ficaram furiosos e rangeram os dentes contra ele."

Amarrar, no mesmo evangelho

Mateus 27:2 — "E, amarrado, levaram-no e o entregaram a Pôncio Pilatos, o governador."

O verbo que o rei manda aplicar ao homem sem veste é o mesmo que descreve o que foi feito a Jesus na manhã da entrega.

Anjos amarrados nas trevas

Judas 6 — "E aos anjos que não guardaram a sua posição, mas abandonaram a sua própria habitação, ele os guardou em prisões eternas, debaixo de trevas, para o julgamento do grande dia."

A fórmula "amarrar e lançar nas trevas" circulava antes do Evangelho e tinha por sujeito, em geral, seres angélicos — a Segunda Carta de Pedro, no capítulo 2, versículo 4, fala das mesmas cadeias de escuridão. Aplicada a um homem num banquete, ela traz consigo esse peso.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Então o rei disse aos que serviam: ‘Amarrem-lhe os pés e as mãos e lancem-no nas trevas de fora; ali haverá choro e ranger de dentes.’

Texto grego (Textus Receptus)

τότε εἶπεν ὁ βασιλεὺς τοῖς διακόνοις, Δήσαντες αὐτοῦ πόδας καὶ χεῖρας, ἄρατε αὐτὸν καὶ ἐκβάλετε εἰς τὸ σκότος τὸ ἐξώτερον· ἐκεῖ ἔσται ὁ κλαυθμὸς καὶ ὁ βρυγμὸς τῶν ὀδόντων.

Transliteração

tote eipen ho basileus tois diakonois, Dēsantes autou podas kai cheiras, arate auton kai ekbalete eis to skotos to exōteron; ekei estai ho klauthmos kai ho brygmos tōn odontōn.

Análise palavra por palavra

τότε εἶπεν ὁ βασιλεύς (tote eipen ho basileus) — "então disse o rei". Tote é a conjunção preferida de Mateus, que a usa cerca de noventa vezes, muito acima dos outros evangelhos; ela emenda sem explicar, marcando sequência e não causa. O Textus Receptus põe o verbo antes do sujeito e as edições críticas invertem a ordem, sem diferença de sentido.

τοῖς διακόνοις (tois diakonois) — "aos que servem". Dativo plural de diakonos, o servidor de mesa. A palavra aparece três vezes no Evangelho de Mateus, e esta é a única em que descreve pessoas que de fato servem comida; nas outras duas é ensino sobre a comunidade, assunto do estudo de Mateus 20:26. É palavra diferente de doulos, "escravo", usada para todos os enviados do rei nos versículos 3, 4, 6, 8 e 10.

Δήσαντες (dēsantes) — "tendo amarrado". Particípio aoristo de deō, "amarrar, atar, prender". Não é imperativo: descreve a ação anterior à ordem principal. O grego diz, literalmente, "tendo-o amarrado pelos pés e pelas mãos, levem-no e lancem-no".

αὐτοῦ πόδας καὶ χεῖρας (autou podas kai cheiras) — "dele os pés e as mãos". O genitivo vem à frente dos dois substantivos, posição de ênfase, e a ordem dos membros é a do original: pés antes de mãos. A expressão corrente é a inversa, e várias traduções a restabelecem sem aviso.

ἄρατε αὐτὸν καί (arate auton kai) — "levem-no e". Aoristo imperativo de airō, "erguer, tomar nos braços, carregar": o verbo de quem pega um peso e o leva. Está no Textus Receptus, que a ABC segue, e falta nas edições críticas. A ABC não o verte, e por isso o português tem dois verbos onde o grego seguido tem três.

ἐκβάλετε (ekbalete) — "lancem para fora". Aoristo imperativo de ekballō, de ek, "para fora de", e ballō, "lançar, arremessar". No Evangelho de Mateus é, antes de tudo, o verbo da expulsão de demônios, e também o da expulsão dos vendedores do templo, em Mateus 21:12. Não descreve conduzir alguém até a porta: descreve pôr para fora.

εἰς τὸ σκότος τὸ ἐξώτερον (eis to skotos to exōteron) — "para a escuridão, a de fora". Skotos é a ausência de luz e, na Bíblia grega, por extensão, o domínio do mal e da morte. Exōteros se forma sobre o advérbio exō, "fora", na forma comparativa — "mais de fora" —, que no grego do período funciona como superlativo. A construção repete o artigo antes do adjetivo, e isso destaca a qualificação em vez de fundi-la ao substantivo: não "a escuridão exterior", mas "a escuridão, aquela que é de fora". A expressão só existe em três passagens do Novo Testamento, as três em Mateus: 8:12, este versículo e 25:30. O grego é idêntico nas três; a ABC as traduz de três maneiras — "trevas exteriores", "trevas de fora" e "para fora, nas trevas" —, o que esconde do leitor em português que se trata de fórmula fixa.

ἐκεῖ ἔσται (ekei estai) — "ali haverá". Ekei é o advérbio de lugar que o versículo 11 havia usado para situar o homem dentro do salão, quando o rei "viu ali um homem" entre os reclinados: em dois versículos o mesmo "ali" atravessa a porta. O futuro estai não diz quando nem por quanto tempo.

ὁ κλαυθμός (ho klauthmos) — "o choro". Derivado de klaiō, "chorar em voz alta": o lamento audível, não as lágrimas discretas. A palavra aparece sete vezes em Mateus, seis nesta fórmula e uma em Mateus 2:18, no choro de Raquel pelos filhos mortos em Belém — e esse único uso fora da fórmula dá a medida do termo.

ὁ βρυγμὸς τῶν ὀδόντων (ho brygmos tōn odontōn) — "o ranger dos dentes". Brygmos vem de brychō, "morder com força, ranger os dentes", e em todo o Novo Testamento o substantivo só aparece dentro desta fórmula, sete vezes: seis em Mateus e uma em Lucas 13:28. O verbo da mesma raiz aparece uma única vez, em Atos 7:54, e ali significa fúria. Os dois substantivos vêm com artigo definido, o que aponta para algo já conhecido do ouvinte, e não para informação nova.

Variantes

Há uma diferença real entre as edições, e ela afeta a tradução. O Textus Receptus (a edição grega impressa a partir do século XVI, que a ABC segue) e o texto bizantino majoritário trazem arate auton kai, "levem-no e", antes de "lancem". As edições críticas modernas — Westcott e Hort, Tischendorf, Nestle-Aland e a edição da Sociedade de Literatura Bíblica — leem apenas ekbalete auton, "lancem-no". A omissão está nos dois manuscritos gregos mais antigos, o Códice Sinaítico e o Códice Vaticano; a presença está na grande maioria dos manuscritos medievais, e os editores críticos a consideram desenvolvimento secundário, que explicita o transporte do homem amarrado. A diferença não muda o rumo da cena, e muda o número de gestos: com o texto mais longo, a amarração ganha função, porque alguém vai carregá-lo. O restante do versículo é estável, inclusive a fórmula final, que nenhum testemunho importante omite nem altera.

11. Conclusão

Do que foi examinado saem quatro conclusões, e a última é uma recusa.

A primeira é que a cena não tem forma de julgamento: nenhuma acusação formulada, nenhuma testemunha, nenhuma deliberação, nenhum motivo declarado. Daí se conclui que a parábola não exibe um processo justo nem um processo injusto — exibe uma decisão, e a ausência de processo é parte do que ela mostra.

A segunda é que a ordem descreve um carregamento, e não uma contenção. Os pés vêm antes das mãos, e o texto grego que a ABC segue manda tomá-lo antes de lançá-lo. O homem não resiste em nenhum momento dos três versículos em que aparece. Conclui-se que a violência da cena não está num confronto: está na desproporção entre um homem imóvel e quatro verbos aplicados sobre ele.

A terceira é que a fórmula das trevas de fora é sempre dirigida a quem está dentro. Nos três lugares em que o Evangelho de Mateus a usa, o expulso tem título de pertença — herdeiro, servo da casa, convidado à mesa. Nenhum deles é um estranho. Decorre disso que o versículo não serve como advertência sobre os de fora: ele é uma advertência sobre a segurança de quem já se sentou.

A quarta é a recusa. Este versículo não descreve o inferno: não traz fogo, não traz duração, não traz a palavra que Mateus usa em outros lugares para o lugar do castigo, e não identifica o condenado. Quem constrói a partir daqui uma descrição do destino final dos indivíduos está somando textos; quem pretende amaciar a cena está apagando o que ela tem de mais áspero. As duas operações falham pelo mesmo motivo: o versículo diz menos do que se quer que ele diga, e o que ele diz é mais duro do que se consegue repetir sem desconforto.

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Mateus 22:13

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