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Mateus 21:12

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 20 acessos
Jesus entrou no templo de Deus e expulsou todos os que ali vendiam e compravam. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas,
No pátio de colunas do templo de Jerusalém, Jesus derruba uma mesa de cambista, com moedas caindo no chão de pedra, enquanto vendedores de pombas se levantam assustados dos seus assentos ao lado das gaiolas e peregrinos recuam.

Estudo


Jesus entrou no templo de Deus e expulsou todos os que ali vendiam e compravam. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas,

1. Introdução

Jesus entra no templo e põe para fora quem vendia e quem comprava. Derruba as mesas dos que trocavam dinheiro e os assentos dos que vendiam pombas — a oferta que a Lei reservava aos pobres.

Mateus põe a cena no mesmo dia da entrada em Jerusalém; Marcos, no dia seguinte; João, no começo do ministério. O Textus Receptus diz “templo de Deus”, e as edições críticas dizem só “templo”.

O que o gesto quis dizer é uma das perguntas mais disputadas dos evangelhos: limpeza, protesto, interrupção do culto ou anúncio do fim.

2. Contexto Histórico e Cultural

Onde a cena acontece

“O templo”, em Mateus, não é o santuário fechado onde só sacerdotes entravam, e sim o recinto inteiro: uma esplanada enorme, ampliada por Herodes, o Grande, a partir de cerca de 20 a.C., cercada de pórticos com colunas. A Mishná (a coletânea da lei oral judaica, fechada por volta do ano 200) a chama de “Monte da Casa” e lhe dá quinhentos côvados de lado, e acrescenta um dado que interessa a esta cena: a maior parte da área ficava ao sul, e “onde estava a maior parte da medida, ali estava a maior parte do uso” (Middot 2:1). O movimento se concentrava no lado sul, por onde se chegava da cidade baixa.

Dentro da esplanada havia uma barreira baixa, que a Mishná chama de soreg (“grade”, “balaustrada”) e descreve com dez palmos de altura (Middot 2:3), com placas que proibiam o estrangeiro de passar adiante. A mesma passagem guarda uma memória de violência: a grade tinha treze brechas abertas pelos “reis gregos” — os soberanos selêucidas do século II a.C. —, e quando foram consertadas os mestres instituíram treze prostrações diante delas. Daí para dentro ficavam os pátios reservados aos israelitas; daí para fora, a área aberta a qualquer pessoa, judeu ou não.

É essa área de fora que a tradição cristã passou a chamar de “pátio dos gentios”. A expressão não aparece na Mishná nem no Novo Testamento: é nome posterior, prático e um pouco enganoso, porque o lugar não era dos estrangeiros, e sim de todos. Era ali, quase com certeza, que se vendia e se trocava dinheiro, e é ali que Mateus põe a cena.

Por que havia comércio no templo

O comércio não era uma intrusão. Era exigido pela própria Lei. Deuteronômio 14:24-26 manda que quem mora longe venda o dízimo da colheita, leve o dinheiro ao lugar escolhido por Deus e ali compre “o que desejar”: bois, ovelhas, vinho. Um peregrino da Galileia ou do Egito não trazia animais por centenas de quilômetros. Comprava em Jerusalém.

E comprava de quem garantisse o animal. A Lei exigia ofertas sem defeito (Levítico 22:17-25), e um animal reprovado na inspeção era dinheiro perdido. Vender no próprio recinto, com animais já aprovados, era um serviço. O problema que os estudiosos discutem não é a existência do mercado, e sim onde ele ficava e quem lucrava com ele.

O mercado sempre esteve lá dentro?

Talvez não. O Talmude de Jerusalém (a compilação de discussões rabínicas da terra de Israel, fechada por volta do ano 400) guarda uma lembrança do comércio do templo fora dele: no monte das Oliveiras havia dois cedros, e sob um deles quatro lojas que vendiam o necessário para a purificação; do outro, tiravam-se todo mês quarenta medidas de filhotes de pomba, e dali se abastecia todo Israel com os pares de aves das ofertas (Talmude de Jerusalém, Taanit 4:5). Os números são de lenda; a localização é o dado.

Em 1964, o estudioso Victor Eppstein, numa revista alemã de Novo Testamento, juntou essa memória a outra. O Talmude Babilônico registra que, quarenta anos antes da destruição do templo, o Sinédrio (o grande tribunal judaico) “foi exilado e se instalou nas lojas” — em hebraico, chanuyot (Shabat 15a; Avodá Zará 8b). A hipótese de Eppstein: por volta do ano 30, em conflito com o tribunal, o sumo sacerdote Caifás teria trazido para dentro da esplanada um comércio que antes ficava no monte das Oliveiras. Se for assim, Jesus não teria atacado um costume antigo, e sim uma novidade recente.

A hipótese é engenhosa e discutida. Junta fontes de datas e de gêneros muito diferentes, e “as lojas” do tribunal podem não ter nada a ver com o mercado de animais. Não é possível prová-la, nem descartá-la.

Quem lucrava com as lojas também deixou rastro. Um comentário rabínico ao Deuteronômio, o Sifre, conta que “as lojas dos filhos de Hanan” foram destruídas três anos antes da terra de Israel, porque os donos tiravam os seus produtos da obrigação do dízimo (Sifre Deuteronômio 105). Muitos identificam essa família com a do sumo sacerdote Anás, sogro de Caifás, mas a identificação se apoia só no nome.

As pombas, oferta dos pobres

As pombas tinham lugar próprio na Lei: eram o substituto para quem não podia pagar um animal maior. A mulher que dava à luz devia oferecer um cordeiro e uma ave; “se ela não tiver recursos para um cordeiro, tomará duas rolinhas ou dois pombinhos” (Levítico 12:8). A mesma concessão vale para a oferta pelo pecado do pobre (Levítico 5:7), para a purificação do leproso pobre (Levítico 14:22), para homens e mulheres curados de fluxos do corpo (Levítico 15:14 e 15:29) e para o nazireu que se contaminava (Números 6:10).

Maria e José pagaram assim. Lucas 2:24 conta que, na apresentação de Jesus no templo, ofereceram “um par de rolinhas ou dois pombinhos” — a oferta de quem não tinha para o cordeiro. O preço das aves, por isso, pesava sobre os mais pobres e sobre as mulheres, e podia disparar na época das festas; um caso extremo, registrado na Mishná, está no estudo de Mateus 21:13.

O pátio como atalho

A Mishná proíbe tratar a esplanada como rua: ninguém deve entrar no Monte da Casa com o cajado, as sandálias ou a bolsa de dinheiro presa à cintura, nem fazer dele atalho para encurtar caminho (Berakhot 9:5). A regra mostra que a tentação existia, porque a esplanada ficava entre bairros da cidade. É o que Jesus impede em Marcos 11:16, num detalhe que Mateus não traz.

3. Análise Teológica do Versículo

“Jesus entrou no templo de Deus”

A primeira coisa que Jesus faz em Jerusalém, em Mateus, é ir ao templo. Não há pausa entre a entrada na cidade e a entrada no recinto: a cidade pergunta quem ele é, e ele responde com um ato. Marcos põe a ação no dia seguinte, depois da figueira (Marcos 11:11-17); João, no começo do ministério, com um chicote de cordas (João 2:13-17).

A divergência é dado, não defeito. Meyer e Ellicott (Charles John Ellicott, bispo anglicano do século XIX) defendiam duas expulsões; a maioria dos estudiosos modernos pensa num só episódio. Mateus, ao juntar entrada e expulsão no mesmo dia, faz da ação no templo a resposta imediata à pergunta “quem é este?”.

“de Deus”

As duas palavras só estão em parte dos manuscritos. O Textus Receptus (a edição grega que a ABC segue no Novo Testamento), o texto bizantino e o Códice de Beza (manuscrito greco-latino do século V, guardado em Cambridge) trazem “o templo de Deus”. Os dois manuscritos completos mais antigos, o Sinaítico e o Vaticano (ambos do século IV), e mais alguns manuscritos e versões antigas trazem só “o templo”, como Marcos e Lucas. As edições críticas seguem a forma curta.

Os argumentos se cruzam. A favor da forma curta: os manuscritos mais antigos; e a suspeita, registrada por Bruce Metzger (o principal estudioso norte-americano de crítica textual do Novo Testamento no século XX), de que um copista acrescentou “de Deus” para realçar a profanação do lugar santo. Lembra-se também que Mateus costuma evitar o nome de Deus, preferindo “Reino dos céus” a “Reino de Deus”.

A favor da forma longa: Meyer observa que a expressão “templo de Deus” com esta palavra grega não aparece em nenhum outro lugar do Novo Testamento — o que tornaria fácil um copista achá-la estranha e cortá-la para igualar Marcos e Lucas. E o argumento do nome de Deus enfraquece neste mesmo capítulo: Mateus diz “Reino de Deus” duas vezes nele (Mateus 21:31 e 21:43). Mais ainda: em Mateus 26:61, as testemunhas acusam Jesus de ter dito “posso destruir o templo de Deus”, onde Marcos 14:58 diz apenas “este templo”. Ali, Mateus acrescenta “de Deus” sem nenhuma dúvida de manuscrito.

Não é possível decidir. Mas o efeito da forma longa no texto da ABC é claro: o templo tem dono. E no versículo seguinte Jesus vai falar em nome desse dono: “a minha casa”.

“e expulsou todos os que ali vendiam e compravam”

O detalhe que mais incomoda as leituras fáceis está aqui: Jesus não expulsa só os vendedores. Expulsa também os compradores. Os que compravam eram peregrinos, gente comum que vinha cumprir a Lei — inclusive, pelo que diz a frase seguinte, os pobres que precisavam das pombas.

Isso pesa contra a leitura de um protesto apenas contra comerciantes gananciosos. Quem só quisesse denunciar o lucro pouparia os fregueses. O gesto atinge a operação inteira, de um lado e do outro do balcão.

E o “todos” levanta a pergunta prática: como um homem só esvaziou uma esplanada cheia na semana da Páscoa, sem reação da guarda do templo nem da guarnição romana? Jerônimo (o tradutor da Vulgata, a Bíblia latina, no século IV), no seu comentário a Mateus, viu milagre: dos olhos de Jesus saía uma luz de fogo. Bengel (Johann Albrecht Bengel, comentarista luterano alemão do século XVIII) fala em “grande milagre”, que nem uma tropa ousaria. A explicação mais aceita hoje é simples: a ação foi localizada, num ponto do pátio, e por isso não provocou intervenção armada. O “todos” diria o alcance simbólico, não a extensão física.

“Derrubou as mesas dos cambistas”

Os cambistas trocavam as moedas que os peregrinos traziam — romanas, gregas, de todas as cidades — pela moeda aceita no templo, sobretudo para o imposto anual de meio siclo. Quem eram, como cobravam e de onde vinha o imposto está no estudo de Mateus 17:24.

O que se soma aqui é o sentido do gesto. Derrubar a mesa não é discutir a taxa; é interromper o serviço. Sem a troca, o imposto não se pagava, e com o imposto se compravam as ofertas públicas que o templo sacrificava todos os dias em nome do povo inteiro. Jacob Neusner (estudioso norte-americano do judaísmo rabínico) leu o gesto exatamente assim, num artigo de 1989: virar as mesas era recusar o sistema que garantia, pelo sacrifício diário, o perdão de todo Israel — e Neusner via nisso a ponte para a Ceia, onde Jesus põe outro meio de perdão. É leitura forte e discutida, e depende de supor que o gesto mirava o culto, e não os abusos.

“e as cadeiras dos que vendiam pombas”

Mateus distingue: as mesas são dos cambistas; as cadeiras, dos vendedores de pombas. O vendedor de pombas ficava sentado, com as gaiolas ao lado.

E aqui está o paradoxo da cena. Os vendedores de pombas eram os fornecedores da oferta dos pobres. Derrubar o assento deles atinge justamente a parte do mercado que servia a quem tinha menos. Duas leituras disputam o sentido.

Primeira leitura: Jesus defende os pobres contra quem lucrava com a obrigação deles. O preço das aves podia disparar, e o vendedor de pombas é o rosto mais próximo da exploração do pobre no templo.

Segunda leitura: Jesus não poupa nem o serviço aos pobres, porque o alvo não é o preço, é a própria compra. Bruce Chilton (estudioso norte-americano do judaísmo antigo e do Novo Testamento), no livro O templo de Jesus (1992), sustentou que a objeção era ao sacrifício comprado no próprio recinto: a oferta deixava de ser algo que a pessoa trazia do que era seu e virava mercadoria adquirida na hora.

Mateus não diz qual. E não diz que Jesus soltou as aves; em João 2:16 ele manda os vendedores de pombas tirarem as gaiolas, sem derrubar nada.

O que o gesto quis dizer

A tradição chamou a cena de “purificação do templo”, e a leitura da purificação tem raízes fundas. Malaquias anunciou que o Senhor viria de repente ao seu templo e “purificará os filhos de Levi” como se purifica a prata no fogo (Malaquias 3:1-3). Neemias, depois do exílio, entrou numa sala do templo que tinham cedido a um estrangeiro e “jogou fora todos os móveis” (Neemias 13:8). Judas Macabeu purificou o templo profanado em 164 a.C., e daí nasceu a festa da Dedicação. Nessa linha, Jesus age como os reformadores de Israel: limpa a casa para que ela volte a ser o que deve ser.

Outros leem o contrário. Nos textos judaicos do período havia também a esperança de um templo novo, e não só limpo. Na visão dos animais do Primeiro Livro de Enoque (apocalipse judaico de antes de Jesus, preservado inteiro só na Igreja etíope), a casa velha é dobrada e levada embora, e Deus traz uma casa nova, maior (1 Enoque 90:28-29). Entre os manuscritos do mar Morto, o texto chamado Florilégio (4Q174) fala de uma casa que Deus mesmo construirá no fim. Lido contra esse fundo, o gesto não reforma o templo; anuncia que ele vai ser substituído. É a leitura que E. P. Sanders levou mais longe, em 1985.

O próprio Mateus mostra como o gesto foi lembrado pelos adversários. No julgamento, a acusação que pesa é sobre o templo: “posso destruir o templo de Deus e reconstruí-lo em três dias” (Mateus 26:61). Na cruz, os que passam repetem: “Você, que destrói o templo e o reconstrói em três dias, salve-se a si mesmo!” (Mateus 27:40). Mateus não liga essas frases à cena do versículo 12, e chama as testemunhas de falsas. Mas é difícil imaginar de onde mais viria, em Jerusalém, a fama de um galileu que ameaçava o templo.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

Jesus — agora nomeado, depois de dois versículos em que a cidade perguntava quem era. Age sozinho; Mateus não diz que os discípulos tenham participado.

Os que vendiam — negociantes de animais, de aves e provavelmente de outros itens das ofertas (farinha, óleo, vinho, sal). Trabalhavam com autorização da administração do templo; o texto não diz se pagavam por ela.

Os que compravam — peregrinos e moradores que precisavam de animais para ofertas, sacrifícios de purificação e a refeição da Páscoa.

Os cambistas — trocadores de moeda, com as suas mesas.

Os vendedores de pombas — sentados, com as aves que serviam às ofertas dos pobres e das purificações.

Os ausentes — a guarda do templo, formada por levitas e chefiada pelo oficial que o livro de Atos chama de “capitão do templo” (Atos 4:1), e a guarnição romana. Nenhum dos dois aparece. A ausência é um dos argumentos para pensar numa ação de alcance limitado.

Lugares

O templo — o recinto inteiro, e nele a área externa aberta a todos, onde ficava o comércio. Os pórticos de colunas que cercavam a esplanada davam sombra a mestres, vendedores e cambistas.

O monte das Oliveiras — segundo a memória rabínica, antigo lugar de venda das aves para as ofertas, do outro lado do vale do Cedrom.

Eventos

A expulsão dos vendedores — narrada pelos quatro evangelhos (Mateus 21:12-13, Marcos 11:15-17, Lucas 19:45-46, João 2:13-17), em três momentos diferentes da vida de Jesus.

A semana da Páscoa — o período de maior movimento do ano no templo, e de maior procura por animais e por troca de moeda.

5. Pontos de Ensino

O lugar santo tem dono

Com ou sem as palavras “de Deus”, a cena trata o templo como casa de alguém que não é nem o sacerdote nem o comerciante. O gesto de Jesus parte dessa premissa: quem administra a casa não é dono dela.

O que é útil não é, por isso, inocente

O mercado servia à Lei: permitia ao peregrino cumprir o que Deuteronômio mandava. Mesmo assim, foi derrubado. O texto mostra que um serviço religioso necessário pode se tornar o próprio problema — e não dá a régua exata de quando isso acontece.

O gesto atinge todos os lados

Vendedores e compradores, cambistas e vendedores das ofertas dos pobres: ninguém fica de fora. A cena não divide os presentes em culpados e vítimas; interrompe um sistema de que todos participavam.

O ato antes da palavra

Mateus põe primeiro o gesto, depois a explicação (no versículo 13). É a ordem dos profetas de Israel, que encenavam a mensagem antes ou no lugar de dizê-la.

6. Aspectos Filosóficos

Mesas no chão não mudam um sistema. No dia seguinte, provavelmente, os cambistas estavam de volta, e o templo funcionou até ser destruído, quarenta anos depois. Se o gesto não tinha eficácia prática, o que ele fazia? A pergunta é filosófica: que tipo de ação age não pelo resultado, mas pela imagem que deixa?

Georges Sorel e o mito que mobiliza

Georges Sorel (1847-1922), engenheiro francês que largou a carreira para escrever sobre política, publicou em 1908 as Reflexões sobre a violência, um dos livros mais incômodos do século XX.

A ideia central do livro é a de mito. Para Sorel, os grandes movimentos não se movem por programas nem por previsões, e sim por imagens que concentram toda uma esperança numa cena só. O mito do seu tempo era a greve geral: o dia em que todos os trabalhadores parariam e a ordem burguesa cairia. Sorel não se importava se esse dia viria de fato. Um mito, dizia, não se julga como previsão — julga-se pelo que faz com quem o carrega.

Sorel lia os primeiros cristãos

O exemplo que Sorel mais usa para explicar o mito é justamente o cristianismo antigo. Os primeiros cristãos, lembra ele, esperavam a volta de Cristo e a ruína do mundo pagão para muito em breve. Nada disso aconteceu como imaginavam. E, no entanto, essa expectativa catastrófica deu às comunidades uma firmeza que nenhum programa daria. O erro sobre a data não tirou força à imagem.

Sorel também valorizava o que chamava de cisão: o gesto que torna impossível a conciliação, que marca com nitidez a linha entre dois campos e impede que um absorva o outro com acordos. Para ele, a violência proletária servia sobretudo a isso — não a ferir, mas a tornar a paz social impossível.

O que isso ilumina no versículo

Lido com Sorel, o gesto no templo é uma imagem, não uma reforma. Não organiza um mercado melhor, não propõe nova administração, não ocupa o recinto: Jesus sai da cidade naquela mesma noite (Mateus 21:17). O que fica é a cena — mesas no chão, moedas espalhadas, gaiolas caídas — e a cena trabalha na memória de quem a viu e de quem a ouviu contar. O próprio Mateus mostra que foi assim: a acusação do julgamento e o insulto da cruz são sobre destruir o templo.

E o gesto é cisão. Depois dele, a conciliação entre Jesus e a administração do templo deixa de ser possível. A pergunta que os chefes dos sacerdotes fazem em Mateus 21:23 — “Com que autoridade você faz estas coisas?” — já é a de dois campos separados.

Onde a comparação precisa parar

Sorel é uma companhia perigosa, e é preciso dizer isso por inteiro. O seu elogio da violência foi lido com entusiasmo por Mussolini, que se declarou devedor dele, e o próprio Sorel flertou, no fim da vida, tanto com a extrema direita monarquista quanto com Lênin. A lógica do mito que não se refuta e da cisão que não se negocia alimentou movimentos que mataram muito.

Por isso a comparação só vale até um ponto. A cena de Mateus não descreve ninguém ferido, não convoca seguidores a repetir o gesto, e é seguida, no versículo 14, por cegos e coxos curados no mesmo lugar. Se há mito aqui, não é o de uma força que destrói o adversário; é o de uma casa que muda de uso — do comércio para a cura. Sorel ajuda a entender por que um gesto sem eficácia ficou para sempre na memória; não ajuda a dizer o que ele significava.

7. Aplicações Práticas

Perguntar quanto custa a fé dos pobres

O versículo põe as pombas no centro: a oferta de quem não podia pagar mais. Toda comunidade religiosa tem as suas “pombas” — taxas, contribuições esperadas, roupas adequadas, gastos para participar —, e quem paga proporcionalmente mais são os que têm menos. A cena convida a olhar o próprio ambiente pelo lado de quem compra a oferta mais barata.

Distinguir o serviço do negócio

O comércio do templo começou como serviço necessário. Na prática de qualquer igreja, livraria, cantina ou evento religioso pode acontecer a mesma passagem silenciosa, do que ajuda o fiel ao que vive dele. O texto não dá uma régua; dá uma pergunta para fazer periodicamente.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. A família de Jesus comprou pombas naquele mesmo lugar?

Segundo Lucas, sim: na apresentação do menino, Maria e José ofereceram as aves da purificação da mãe, a oferta de quem não podia pagar o cordeiro (Lucas 2:24). Mateus não conta esse episódio. Mas o leitor que junta os dois evangelhos percebe que o homem que derruba as cadeiras dos vendedores de pombas é filho de uma mulher que, depois de dá-lo à luz, ofereceu no templo as pombas dos pobres. O texto não tira conclusão disso, e qualquer conclusão é do leitor.

2. Por que a cena se chama “purificação do templo”, se o texto não usa essa palavra?

O título é da tradição, não dos evangelhos. Ele se impôs porque a Igreja leu a cena como modelo de reforma, e a arte o fixou. No fim do século XVI, El Greco (Doménikos Theotokópoulos, pintor grego radicado em Toledo) pintou a cena muitas vezes, num tempo em que a Igreja católica falava de purificar a si mesma depois da ruptura protestante; a cena virou emblema da reforma da Igreja por dentro. O título orienta a leitura para uma das interpretações possíveis e esconde as outras. Muitos estudiosos hoje preferem falar em “ação” ou “incidente” no templo, justamente para não decidir de antemão o que o gesto significava.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma cena nos outros evangelhos

Marcos 11:15-16 — “Chegaram a Jerusalém. Jesus entrou no templo e começou a expulsar os que ali vendiam e compravam; derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas, e não permitia que ninguém atravessasse o templo carregando objetos.”

Quase palavra por palavra, mas no dia seguinte à entrada e com o detalhe dos objetos.

João 2:15-16 — “Então fez um chicote de cordas e expulsou todos do templo, com as ovelhas e os bois; espalhou o dinheiro dos cambistas e virou as mesas. Aos que vendiam pombas disse: ‘Tirem estas coisas daqui!’”

No começo do ministério, com chicote, e com os vendedores de pombas tratados à parte.

Os reformadores do templo

Malaquias 3:1-3 — “De repente virá ao seu templo o Senhor, a quem vocês buscam […] Ele se assentará como fundidor e purificador de prata; purificará os filhos de Levi e os refinará como ouro e como prata.”

A vinda ao templo como purificação.

Neemias 13:8 — “Fiquei muito indignado e joguei fora da sala todos os móveis da casa de Tobias.”

Um governador de Judá esvaziando à força uma sala do templo.

Oseias 9:15 — “Por causa da maldade das suas obras, eu os expulsarei da minha casa; não os amarei mais.”

Na Septuaginta, o verbo é o mesmo “expulsar” de Mateus 21:12, e o lugar é “a minha casa”.

A oferta dos pobres

Levítico 12:8 — “Se ela não tiver recursos para um cordeiro, tomará duas rolinhas ou dois pombinhos, um para o holocausto e outro para a oferta pelo pecado; o sacerdote fará expiação por ela, e ela ficará pura.”

Lucas 2:24 — “e para oferecer um sacrifício, conforme o que está dito na Lei do Senhor: um par de rolinhas ou dois pombinhos.”

A regra e o caso da família de Jesus.

O templo em Mateus

Mateus 26:61 — “Por fim, apresentaram-se duas falsas testemunhas, que declararam: ‘Este homem disse: Posso destruir o templo de Deus e reconstruí-lo em três dias’.”

A acusação no julgamento, onde Mateus escreve “templo de Deus” sem variante de manuscrito.

A cadeira

Mateus 23:2 — “Os escribas e os fariseus se assentam na cadeira de Moisés.”

A outra “cadeira” de Mateus, a do ensino (item 10).

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Jesus entrou no templo de Deus e expulsou todos os que ali vendiam e compravam. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas,

Texto grego (Textus Receptus)

Καὶ εἰσῆλθεν ὁ Ἰησοῦς εἰς τὸ ἱερὸν τοῦ Θεοῦ, καὶ ἐξέβαλε πάντας τοὺς πωλοῦντας καὶ ἀγοράζοντας ἐν τῷ ἱερῷ, καὶ τὰς τραπέζας τῶν κολλυβιστῶν κατέστρεψε, καὶ τὰς καθέδρας τῶν πωλούντων τὰς περιστεράς·

Transliteração

Kai eisēlthen ho Iēsous eis to hieron tou Theou, kai exebale pantas tous pōlountas kai agorazontas en tō hierō, kai tas trapezas tōn kollybistōn katestrepse, kai tas kathedras tōn pōlountōn tas peristeras;

Texto crítico: as edições críticas (Westcott e Hort, Nestle, SBL) não trazem tou Theou (“de Deus”) nem o artigo antes de “Jesus”: Kai eisēlthen Iēsous eis to hieron. A discussão está no item 3.

Análise palavra por palavra

Καὶ εἰσῆλθεν ὁ Ἰησοῦς — kai eisēlthen ho Iēsous, “e entrou Jesus”. Aoristo do indicativo de eiserchomai, “entrar” — o mesmo verbo do versículo 10, que lá estava em particípio sem sujeito nomeado (“ao entrar ele”). Aqui o verbo é principal e o sujeito tem nome. A ação começa sem transição: entrou na cidade, entrou no templo.

εἰς τὸ ἱερὸν τοῦ Θεοῦ — eis to hieron tou Theou, “no templo de Deus”. Hieron é o recinto sagrado inteiro, com pátios e pórticos — não o naos, o santuário fechado.

A combinação hieron tou Theou é única no Novo Testamento. Quando o Novo Testamento diz “templo de Deus” em outros lugares, usa naos — Mateus 26:61, 1 Coríntios 3:16, Apocalipse 11:1. Para quem defende a forma longa, a raridade explica por que copistas a teriam cortado; para quem defende a curta, a raridade é sinal de acréscimo tardio.

ἐξέβαλε — exebale, “expulsou”. Aoristo de ekballō, “lançar para fora”. A palavra, que em Mateus serve sobretudo à expulsão de demônios, já está analisada no estudo de Mateus 17:19. Aqui ela tem um eco próprio: na Septuaginta de Oseias 9:15, Deus diz “da minha casa os expulsarei” com o mesmo verbo.

πάντας τοὺς πωλοῦντας καὶ ἀγοράζοντας — pantas tous pōlountas kai agorazontas, “todos os que vendiam e compravam”. Dois particípios presentes, de pōleō (“vender”) e agorazō (“comprar”, de agora, a praça do mercado), sob um só artigo. O grego trata vendedores e compradores como um único grupo — os participantes da transação —, e o “todos” abrange os dois lados.

ἐν τῷ ἱερῷ — en tō hierō, “no templo”. A repetição da palavra no mesmo versículo marca o lugar da falta: o problema é que a compra e a venda acontecessem ali dentro.

τὰς τραπέζας τῶν κολλυβιστῶν — tas trapezas tōn kollybistōn, “as mesas dos cambistas”. Trapeza é a mesa comum e também a banca do trocador de dinheiro.

Kollybistēs, “cambista”, vem de kollybos, palavra grega para uma moeda pequena e, por extensão, para a taxa cobrada na troca. O cambista é, pelo nome, “o homem da taxa miúda”. A palavra é rara: no Novo Testamento só aparece nesta cena (aqui, em Marcos 11:15 e em João 2:15).

κατέστρεψε — katestrepse, “derrubou”, “virou de pernas para o ar”. Aoristo de katastrephō, de kata (“para baixo”) e strephō (“virar”).

Na Septuaginta, é o verbo da derrubada de cidades e de poderes: Sodoma e Gomorra são “derrubadas” (Gênesis 19:25, na tradução grega). E em Ageu 2:22, logo depois da promessa de “sacudir” o céu e a terra — o verbo do versículo 10 —, Deus diz: “derrubarei os tronos dos reinos”, com este mesmo verbo. Em dois versículos seguidos, Mateus usa as duas palavras que Ageu usa em sequência: a sacudida e a derrubada.

καὶ τὰς καθέδρας — kai tas kathedras, “e as cadeiras”, “os assentos”. Kathedra, de kata e hedra (“assento”), é o assento de quem fica sentado no seu posto. A palavra deu “cátedra” e “catedral” — a igreja onde está a cadeira do bispo.

Em Mateus ela aparece só duas vezes: aqui e em Mateus 23:2, “a cadeira de Moisés”, onde se assentam escribas e fariseus. Uma é a cadeira do comércio no templo; a outra, a cadeira do ensino. Jesus derruba a primeira; a segunda, ele manda respeitar no que ela ensina e não imitar no que ela faz (Mateus 23:3).

τῶν πωλούντων τὰς περιστεράς — tōn pōlountōn tas peristeras, “dos que vendiam as pombas”. O artigo antes de “pombas” é de categoria: as pombas conhecidas, as das ofertas. Peristera é a pomba comum; na Septuaginta de Levítico 12:8, as aves da oferta dos pobres são “rolinhas” (trygones) e “filhotes de pomba”. Em Mateus, a mesma palavra é a do Espírito que desce “como uma pomba” no batismo (Mateus 3:16) e a da simplicidade pedida aos discípulos (Mateus 10:16).

O versículo termina, no Textus Receptus, com o ponto alto grego, sinal que equivale ao nosso ponto e vírgula: a frase continua no versículo 13, com a explicação do gesto.

11. Conclusão

Com base no que o versículo mostra, a primeira conclusão é que o gesto de Jesus não cabe numa só explicação. Ele atinge vendedores e compradores, o serviço do imposto e a oferta dos pobres, e por isso resiste tanto à leitura do simples protesto contra a ganância quanto à da simples limpeza. O texto descreve a ação com precisão e deixa o sentido em aberto, à espera da palavra do versículo seguinte.

A segunda é que a cena é a resposta de Mateus à pergunta da cidade. Perguntaram “quem é este?”, e a multidão disse “o profeta”; Jesus responde indo direto ao templo e agindo sobre ele como alguém que fala em nome do dono da casa. Com ou sem as palavras “de Deus”, é isso que o versículo afirma.

A terceira é um limite que a história da leitura obriga a guardar. A cena trata da administração de um templo, num momento preciso, e o próprio texto aponta compradores comuns entre os atingidos. Ela não autoriza a imagem, tão repetida, de um judaísmo reduzido a mercado — e quem a usa assim lê no versículo o que ele não diz.

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Mateus 21:12

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