Depois os discípulos se aproximaram de Jesus em particular e perguntaram: “Por que nós não conseguimos expulsá-lo?”
1. Introdução
A multidão ficou para trás. Os discípulos procuram Jesus longe dela e fazem a pergunta que não fizeram em público.
O versículo é curto e tem três pontos.
O primeiro é o lugar: "em particular". O capítulo começou com Jesus levando três discípulos à parte para ver a glória; agora são os discípulos que o levam à parte para falar do fracasso.
O segundo é a forma da pergunta: "por que nós não conseguimos?" Não "como se faz", mas "por que falhamos". E com um "nós" que carrega surpresa.
O terceiro é a palavra escolhida: "expulsá-lo". O pai tinha pedido que curassem; os discípulos falam de expulsar. Eles entenderam o caso como o texto o entendeu no versículo 18.
A resposta ocupa os versículos 20 e 21.
2. Contexto Histórico e Cultural
A pergunta feita depois que o público vai embora
No ensino judaico antigo havia um padrão reconhecível: o mestre responde a alguém de fora de um jeito, e depois, a sós, os discípulos cobram dele a explicação verdadeira. A literatura rabínica guarda um caso que, por coincidência, envolve exatamente a expulsão de espíritos.
Está na Pesiqta de Rav Kahana (coletânea de sermões rabínicos compilada na terra de Israel entre os séculos V e VI, com tradições mais antigas), no capítulo 4. Um pagão pergunta a Rabban Yohanan ben Zakkai (o mestre judeu que reorganizou o ensino depois da destruição do templo, no ano 70) por que os judeus usam as cinzas de uma novilha vermelha para purificar quem tocou um morto. Parece feitiçaria, diz o pagão.
O mestre responde com uma pergunta: você já viu alguém tomado por um espírito de loucura? O pagão diz que sim. E o que vocês fazem? Trazemos raízes, fazemos fumaça debaixo dele, borrifamos água, e o espírito foge. Pois é o mesmo, responde o mestre: o impuro é um espírito, e a água da purificação o faz fugir.
O pagão vai embora satisfeito. Então os discípulos dizem ao mestre: "Esse aí você despachou com um caniço. E a nós, o que você diz?" E Yohanan dá a eles outra resposta: não é o morto que contamina nem a água que purifica; é um decreto de Deus, que não se discute.
O que o paralelo mostra
A história é posterior aos evangelhos e não tem relação de dependência com eles. Mas mostra duas coisas sobre o mundo em que a cena de Mateus faz sentido.
A primeira é que o discípulo tinha direito, e quase dever, de voltar ao mestre em particular e pedir a explicação completa. A resposta pública não esgotava o ensino.
A segunda é o pano de fundo dos exorcismos populares. A história menciona de passagem, como coisa conhecida de todos, a prática de expulsar espíritos com raízes, fumaça e água. Era esse o repertório disponível no mundo em que os discípulos tentaram curar o menino — técnicas, substâncias, procedimentos. A resposta que eles vão receber, no versículo seguinte, não fala de nada disso.
3. Análise Teológica do Versículo
"Depois os discípulos se aproximaram de Jesus em particular"
A expressão "em particular" é a mesma que abre o capítulo. Em Mateus 17:1, Jesus leva Pedro, Tiago e João "sozinhos" a um monte alto — no grego, as mesmas palavras. O capítulo usa a expressão duas vezes, para duas conversas à parte: uma no alto, onde se viu a glória, e esta, embaixo, onde se fala do fracasso.
A inversão é notável. No versículo 1, é Jesus quem toma a iniciativa de separar os discípulos. Aqui, são os discípulos que se aproximam dele. E o grupo mudou: lá eram os três escolhidos; aqui, o texto diz apenas "os discípulos", sem restringir.
O padrão de perguntar a Jesus depois, longe do público, é frequente em Mateus. Em Mateus 13:10 os discípulos se aproximam para perguntar por que ele fala por parábolas; em Mateus 13:36, para pedir a explicação da parábola do joio; em Mateus 15:12 e 15:15, para comentar a reação dos fariseus e pedir explicação. É o momento em que o ensino se aprofunda.
Marcos 9:28 dá o lugar: foi em casa. Mateus não diz onde.
O silêncio em público
O que se nota por contraste é que os discípulos não disseram nada diante da multidão. Ouviram o pai relatar que eles não conseguiram; ouviram a queixa de Jesus contra a "geração incrédula"; viram a cura. E esperaram. O texto não diz por quê. Pode ser vergonha, pode ser prudência, pode ser que a pergunta só tenha surgido depois. Não é possível decidir.
"Por que nós não conseguimos"
A pergunta tem uma ênfase que o português deixa passar. Em grego, o verbo já indica a pessoa, e o pronome "nós" só aparece quando se quer destacar. Aqui ele aparece: "por que nós não conseguimos?"
O destaque carrega surpresa. É a pergunta de quem esperava conseguir. E havia motivo: eles tinham recebido autoridade para aquilo em Mateus 10:1, como examina o estudo de Mateus 17:16. A pergunta supõe que o fracasso não era o resultado normal.
Pode carregar também um contraste: "você conseguiu, e nós não". Isso é leitura possível, não afirmação do texto.
E vale notar o que a pergunta não é. Não é "como se faz?", pedido de técnica. É "por que?", pedido de causa. Os discípulos não pedem uma fórmula melhor; querem saber o que faltou. A resposta do versículo 20 vai corresponder exatamente a essa pergunta: vai dar uma causa, não um método.
O que a pergunta não traz
Ela não traz desculpa. Os discípulos não dizem que o caso era difícil demais, que o demônio era forte, que o pai não tinha fé, que a multidão atrapalhou. Assumem o fracasso como deles e perguntam pela causa.
Isso é mais do que parece. As saídas estavam disponíveis, e algumas seriam defensáveis. Nenhuma é usada.
"expulsá-lo"
O verbo mudou. O pai, no versículo 16, disse que os discípulos não conseguiram "curá-lo". Os discípulos, agora, perguntam por que não conseguiram "expulsá-lo". E o pronome, no grego, é neutro: refere-se ao demônio, não ao menino.
Os discípulos falam do caso como o texto falou no versículo 18. Para eles, a tentativa foi de expulsão, e o que resistiu foi o demônio. A diferença de vocabulário entre o pai e os discípulos é a mesma que o estudo de Mateus 17:18 examina entre o pai e o texto.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os discípulos
O texto não restringe o grupo. Podem ser os nove que falharam ou os doze. A resposta do versículo 20 é dirigida a todos, com "vocês".
Jesus
Procurado depois da cura, longe da multidão.
O lugar
Não informado por Mateus. Marcos 9:28 diz que foi em casa, depois que Jesus entrou.
Rabban Yohanan ben Zakkai
Mestre judeu do século I, contemporâneo do fim do templo. Personagem do relato rabínico citado no item 2, em que os discípulos pedem, a sós, a explicação que ele não deu a um pagão.
A Pesiqta de Rav Kahana
Coletânea de sermões rabínicos para as festas e sábados especiais, compilada na terra de Israel por volta dos séculos V e VI.
5. Pontos de Ensino
O fracasso vira pergunta
Os discípulos não escondem nem justificam a falha. Levam-na ao mestre e perguntam a causa. É o caminho do aprendizado.
Há perguntas que se fazem a sós
A pergunta não foi feita diante da multidão. O texto registra o lugar próprio para tratar da falha: a conversa em particular.
Perguntar pela causa, não pela técnica
"Por que nós não conseguimos?" pede um diagnóstico. Quem pergunta assim está disposto a ouvir que o problema está em si mesmo.
A autoridade recebida não dispensa perguntar
Os discípulos tinham a comissão de Mateus 10:1 e mesmo assim precisaram voltar ao mestre. Ninguém se forma de uma vez.
6. Aspectos Filosóficos
O que se aprende com a falha
A pergunta dos discípulos toca uma questão antiga sobre o conhecimento prático: a experiência do fracasso ensina alguma coisa por si mesma, ou só ensina quando alguém a interpreta? Os discípulos tiveram o fracasso, e não sabiam o que ele queria dizer. Precisaram perguntar.
O versículo sugere que a falha, sozinha, é muda. Pode produzir vergonha, desculpa ou desistência. Só se torna ensino quando é levada a quem pode explicá-la — e quando quem pergunta aceita que a resposta talvez fale dele.
7. Aplicações Práticas
Voltar ao que deu errado
Depois de uma falha, o impulso comum é passar para o próximo assunto. Os discípulos fizeram o contrário: esperaram a multidão ir embora e voltaram ao ponto. Para quem serve numa igreja, ensina, cuida de alguém ou lidera um trabalho, o gesto é concreto: marcar a conversa sobre o que não funcionou, com quem pode ajudar a entender.
Perguntar sem trazer a desculpa pronta
A pergunta não diz "foi difícil" nem "a culpa foi de fulano". Diz "por que nós?". Quem quer aprender com um erro precisa, ao menos por um momento, deixar de lado as explicações que o protegem.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que os discípulos não perguntaram na frente da multidão?
O texto não diz. É plausível que fosse constrangimento depois do fracasso público, ou que a pergunta só tenha surgido depois. Mateus registra apenas que foi em particular.
Todos os discípulos perguntaram, ou só os que tentaram?
O texto diz "os discípulos", sem especificar. A resposta vem no plural e serve para todos.
Eles esperavam conseguir?
A ênfase no "nós" indica que sim. Tinham recebido autoridade para isso, e o fracasso os surpreendeu.
Por que eles dizem "expulsar" e não "curar"?
Porque entenderam o caso como expulsão de um demônio, como o texto o descreve no versículo 18. O pai tinha falado de cura. O pronome grego que usam é neutro, referindo-se ao demônio.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma pergunta em Marcos
Marcos 9:28 — "Quando Jesus entrou em casa, os seus discípulos lhe perguntaram em particular: Por que nós não conseguimos expulsá-lo?"
O mesmo pedido, com o dado do lugar.
A mesma expressão no começo do capítulo
Mateus 17:1 — Seis dias depois, Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago, e os conduziu, sozinhos, a um monte alto.
O "sozinhos" que no grego é o mesmo "em particular" deste versículo.
Outras perguntas feitas à parte
Mateus 13:10 — Então os discípulos se aproximaram e lhe perguntaram: “Por que falas a eles por parábolas?”
Outro "por que" dos discípulos, depois do ensino público.
Mateus 13:36 — Depois de despedir as multidões, Jesus entrou em casa. Seus discípulos se aproximaram dele e disseram: “Explica-nos a parábola do joio do campo.”
A multidão despedida, a casa, o pedido de explicação.
A pergunta à parte no fim do evangelho
Mateus 24:3 — Depois, sentado no monte das Oliveiras, os discípulos se aproximaram dele em particular e perguntaram: “Diga-nos, quando vão acontecer essas coisas? E qual será o sinal da sua vinda e do fim dos tempos?”
A mesma expressão, "em particular", para a última grande conversa a sós antes da paixão.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Depois os discípulos se aproximaram de Jesus em particular e perguntaram: “Por que nós não conseguimos expulsá-lo?”
Texto grego
Τότε προσελθόντες οἱ μαθηταὶ τῷ Ἰησοῦ κατ᾽ ἰδίαν εἶπον, Διατί ἡμεῖς οὐκ ἠδυνήθημεν ἐκβαλεῖν αὐτό;
Transliteração
Tote proselthontes hoi mathētai tō Iēsou kat' idian eipon, Diati hēmeis ouk ēdynēthēmen ekbalein auto?
Análise palavra por palavra
Τότε — Tote, "então, depois". Advérbio de tempo.
É uma das marcas do estilo de Mateus: o evangelho o usa cerca de noventa vezes, contra seis em Marcos. Serve para encadear cenas, e nem sempre indica sequência imediata. Aqui liga a cura pública à conversa privada sem dizer quanto tempo passou.
προσελθόντες — proselthontes, "tendo se aproximado". Particípio aoristo de proserchomai, o verbo de aproximação preferido de Mateus, examinado no estudo de Mateus 17:14.
οἱ μαθηταὶ — hoi mathētai, "os discípulos". Com artigo, sem especificar quantos.
κατ᾽ ἰδίαν — kat' idian, "em particular, à parte".
A expressão junta a preposição kata com o feminino de idios, "próprio, particular". Literalmente, "segundo o que é próprio", isto é, em privado. De idios vêm "idioma" (a língua própria de um povo) e "idiota", que em grego designava o cidadão comum, o que cuidava só dos próprios assuntos.
Mateus a usa em Mateus 14:13 (Jesus se retira a um lugar deserto, à parte), em Mateus 14:23 (sobe ao monte sozinho para orar), em Mateus 17:1 (leva os três "sozinhos" ao monte), aqui, em Mateus 20:17 (toma os doze à parte para anunciar a paixão) e em Mateus 24:3 (os discípulos o procuram em particular no monte das Oliveiras). No capítulo 17 ela aparece duas vezes, no começo e no meio.
εἶπον — eipon, "disseram". Aoristo de legō. A ABC traduz "perguntaram", porque o que segue é pergunta.
Διατί — Diati, "por quê?". Formado de dia, "por causa de", e ti, "que". Literalmente, "por causa de quê?". Pergunta pela causa.
A resposta de Jesus, no versículo 20, começa com a mesma preposição: dia, "por causa de". A pergunta e a resposta se encaixam gramaticalmente: "por causa de quê?" — "por causa da incredulidade de vocês".
ἡμεῖς — hēmeis, "nós".
O verbo grego já traz a pessoa na terminação, e o pronome é dispensável. Quando aparece, marca ênfase ou contraste. Aqui a ênfase é clara: "nós, justamente nós".
οὐκ ἠδυνήθημεν — ouk ēdynēthēmen, "não pudemos, não conseguimos". Aoristo de dynamai, na primeira pessoa do plural.
É o mesmo verbo com que o pai relatou o fracasso no versículo 16, agora na boca dos discípulos. O pai disse "eles não puderam"; eles dizem "nós não pudemos". A análise do verbo está no estudo de Mateus 17:16.
ἐκβαλεῖν — ekbalein, "expulsar". Infinitivo aoristo de ekballō, composto de ek, "para fora", e ballō, "lançar, atirar".
Literalmente, "lançar para fora". É o verbo técnico dos evangelhos para expulsar demônios, e está na comissão de Mateus 10:1 e 10:8: "para os expulsarem", "expulsem os demônios". Mas tem também uso comum e forte: é o verbo de Jesus expulsando os vendilhões do templo em Mateus 21:12 e o de lançar o servo inútil nas trevas em Mateus 25:30.
O pai usou therapeuō, "curar". Os discípulos usam ekballō, "expulsar". A troca de verbo é a troca de descrição.
αὐτό — auto, "o", "ele". Pronome neutro.
O gênero decide a referência. O menino é masculino, pais; o demônio é neutro, daimonion. O pronome neutro só pode ser o demônio. A tradução "expulsá-lo" é correta, mas o português não mostra que o "lo" não é o menino.
11. Conclusão
Com base no que se viu, o versículo leva a duas conclusões.
A primeira é que o capítulo constrói duas conversas à parte com a mesma expressão, e elas se espelham. Na primeira, Jesus separa três discípulos para mostrar a glória. Na segunda, os discípulos separam Jesus para entender o fracasso. O lugar em particular serve tanto para a revelação quanto para a correção, e os discípulos precisam das duas.
A segunda é que a pergunta é bem feita. Pede causa e não técnica, assume o fracasso sem desculpa, e usa um "nós" que admite a surpresa de quem esperava conseguir. O vocabulário mostra ainda que os discípulos entenderam o caso como expulsão de demônio, na mesma chave em que o texto o descreveu. A pergunta está pronta para uma resposta que fale deles — e é o que o versículo seguinte fará, começando pela mesma preposição com que eles perguntaram.













