📖 Navegar na Bíblia:

Mateus 13:36

✍️ Por Alberto Adriano·9 de agosto de 2026·⏱️ 19 min de leitura·👁 16 acessos
Depois de despedir as multidões, Jesus entrou em casa. Seus discípulos se aproximaram dele e disseram: “Explica-nos a parábola do joio do campo.”
Interior de uma casa simples de pedra em Cafarnaum ao fim da tarde, com Jesus de túnica cor de creme e manto vermelho sentado e um pequeno grupo de discípulos reunido ao redor, em conversa reservada, iluminados pela luz que entra por uma janela pequena.

Estudo


Depois de despedir as multidões, Jesus entrou em casa. Seus discípulos se aproximaram dele e disseram: “Explica-nos a parábola do joio do campo.”

1. Introdução

Há um momento em Mateus 13 que quase ninguém percebe, porque nele não acontece milagre nenhum. Jesus para de falar, despede a gente reunida na beira do lago e entra numa casa. A porta se fecha. Do lado de fora ficam centenas de pessoas que ouviram histórias sobre o reino dos céus e foram jantar. Do lado de dentro ficam poucos homens que não entenderam quase nada e, por isso mesmo, resolveram perguntar.

O versículo 36 é uma dobradiça: separa duas metades do capítulo e dois modos de ensinar, a parábola dita em público, sem chave de leitura, e a explicação dada em ambiente reservado, a pedido. Por parecer só um detalhe de cena, costuma ser lido depressa demais.

Só que aqui está uma das informações mais desconcertantes dos evangelhos: os discípulos também não entenderam. Estavam ao lado de Jesus, ouviram a parábola do joio inteira, e precisaram pedir explicação. A compreensão, na cena que Mateus monta, não é automática nem é prêmio por proximidade. Começa com uma frase difícil de dizer em voz alta: eu não entendi.

2. Contexto Histórico e Cultural

O capítulo inteiro tem moldura de casa. Mateus 13 começa assim: "Naquele dia, saindo Jesus da casa, sentou-se à beira-mar" (Mt 13:1). E chega ao versículo 36 com o movimento inverso: ele deixa as multidões e entra na casa. O artigo definido em grego aponta para trás, para a mesma casa de onde saíra de manhã. Sai de casa, ensina a multidão, volta para casa, ensina os discípulos: o capítulo tem uma geografia interna, e o versículo 36 é o ponto onde ela vira.

Que casa é essa? O texto não diz. Mateus 4:13 informa que Jesus deixou Nazaré e passou a morar em Cafarnaum; Mateus 8:14 o coloca dentro da casa de Pedro, na mesma cidade; Marcos 2:1 fala de Jesus "em casa" ali. Somando as peças, muitos estudiosos propõem que seja a casa de Pedro, base da atividade na Galileia — inferência razoável, não um dado. A arqueologia escavou em Cafarnaum uma habitação do primeiro século, sob uma igreja octogonal bizantina, com reboco coberto de inscrições de peregrinos desde o século IV — a chamada casa de Pedro. A veneração antiga é um fato; a identificação com o apóstolo é tradição provável, impossível de confirmar.

Como era essa casa. Cafarnaum era uma aldeia de pescadores na margem norte do lago da Galileia. As casas eram de basalto preto, cobertas de vigas, ramos e barro batido. As janelas eram poucas, pequenas e altas: serviam para tirar fumaça e deixar entrar um facho de luz, não para dar vista. Os cômodos eram escuros e apertados, e a vida acontecia no pátio comum. Uma reunião de doze ou quinze pessoas num cômodo desses é gente com o joelho encostado no joelho do outro: quando o texto diz que os discípulos "se aproximaram", a proximidade é física antes de ser espiritual. E a casa era a sala de aula do período: o mestre ensinava no pátio ou dentro de casa, em modelo conversacional, e perguntar não era desrespeito, era o método.

O joio. A palavra grega é zizanion, e os estudiosos identificam a planta com boa probabilidade como o Lolium temulentum, o joio ou cizânia. O detalhe agronômico é o que faz a parábola funcionar: nos primeiros estágios, o joio é quase indistinguível do trigo, e só quando a espiga se forma a diferença fica óbvia — o grão do joio é escuro e miúdo, e costuma ser colonizado por um fungo que produz substância tóxica, capaz de causar tontura em quem come o pão contaminado. Arrancar cedo demais significa arrancar trigo junto, porque as raízes se entrelaçam e ninguém diferencia as duas plantas ainda verdes. A parábola supõe ainda um inimigo que semeia erva daninha no campo alheio de noite; comentaristas observam que sabotagem agrícola desse tipo era conhecida no mundo mediterrâneo, com previsão de punição em legislação romana. É plausível, embora não se meça a frequência real.

A comunidade de Mateus. O evangelho foi provavelmente escrito entre os anos 80 e 90 da era comum, para uma comunidade de origem judaica que já convivia com não judeus e vivia na prática o problema do joio: havia gente dentro do grupo que, aos olhos de outros, não deveria estar ali. A pergunta dos discípulos era, também, a da igreja que leria o texto meio século depois.

3. Análise Teológica

"Então Jesus despediu as multidões"

Nesta passagem, Jesus conclui o seu ensino público às multidões. Essa dispensa marca uma transição do ministério público para a instrução privada. As multidões muitas vezes seguiam Jesus por causa dos seus milagres e dos seus ensinos, mas nem todos estavam receptivos às verdades espirituais mais profundas. Essa separação destaca a distinção entre os ouvintes em geral e aqueles que buscam uma compreensão mais profunda.

"e entrou na casa."

A casa provavelmente se refere a uma residência particular em Cafarnaum, um lugar central para o ministério de Jesus na Galileia. Esse cenário oferece um ambiente mais íntimo para ensinar os seus discípulos. A mudança do público para o privado ressalta a importância do discipulado pessoal e da revelação mais profunda concedida àqueles que estão comprometidos em seguir Jesus.

"Seus discípulos se aproximaram dele"

Os discípulos, distintos das multidões, são aqueles que se comprometeram a seguir Jesus e a aprender com ele. A aproximação deles em relação a Jesus indica um desejo de compreensão e de clareza mais profundas. Isso reflete o papel do discipulado como uma busca ativa por conhecimento e verdade.

"e disseram: 'Explica-nos a parábola do joio do campo.'"

O pedido de explicação mostra o reconhecimento, por parte dos discípulos, da necessidade que eles têm de compreender os ensinos de Jesus. A parábola do joio, dada anteriormente em público, contém verdades espirituais complexas sobre o reino dos céus, o juízo e a coexistência do bem e do mal. A indagação dos discípulos demonstra a disposição deles para aprender e a confiança que depositam em Jesus como fonte da sabedoria divina. Este momento também ilustra o padrão de Jesus oferecer explicações mais profundas àqueles que o buscam com sinceridade, cumprindo a promessa de que aqueles que pedem receberão.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

1. Jesus — A figura central do Novo Testamento, o Filho de Deus, que ensina por meio de parábolas para revelar as verdades do reino dos céus.

2. Os discípulos — Seguidores de Jesus que buscam uma compreensão mais profunda dos ensinos dele. Representam aqueles que estão comprometidos em aprender e em aplicar o que Jesus ensina.

3. As multidões — Grandes grupos de pessoas que seguiam Jesus, muitas vezes em busca de milagres ou de ensinos. São despedidas aqui, o que indica uma mudança em direção a um ensino mais íntimo.

4. A casa — Um ambiente privado onde Jesus frequentemente explicava verdades espirituais mais profundas aos seus discípulos, longe dos olhos do público.

5. A parábola do joio — Uma ferramenta de ensino usada por Jesus para ilustrar a coexistência do bem e do mal no mundo até o juízo final.

5. Pontos de Ensino

A importância de buscar compreensão — Assim como os discípulos buscaram esclarecimento junto a Jesus, os que creem hoje devem buscar ativamente a compreensão da Palavra de Deus por meio da oração, do estudo e da orientação do Espírito Santo.

O papel da intimidade no aprendizado — As explicações privadas de Jesus aos seus discípulos destacam o valor do estudo pessoal e íntimo e da reflexão sobre a Escritura, para além do ensino público.

A coexistência do bem e do mal — A parábola sublinha a realidade do bem e do mal existindo juntos até os últimos tempos, encorajando os que creem a permanecer firmes e fiéis em meio às dificuldades.

A necessidade do discernimento espiritual — Compreender as parábolas exige discernimento, que vem do relacionamento com Cristo e da obra do Espírito Santo na vida de quem crê.

O chamado a ser discípulo — Como os discípulos, os que creem são chamados a ser aprendizes e seguidores de Cristo, comprometidos em crescer no conhecimento e na aplicação dos ensinos dele.

6. Aspectos Filosóficos

A pergunta como ato. Os discípulos não recebem entendimento; eles pedem. Entre ouvir a parábola e compreendê-la existe um passo que ninguém dá por outro: reconhecer o próprio não saber. A filosofia grega conhecia esse ponto de partida — a figura de Sócrates é construída em cima dele, com a diferença de que Sócrates levava o interlocutor à ignorância pelo interrogatório, enquanto aqui os aprendizes chegam sozinhos à confissão.

O que uma parábola faz. A parábola não entrega o sentido de bandeja: obriga o ouvinte a trabalhar e a decidir quem ele é dentro da história. Quando alguém fornece a chave alegórica, a história ganha precisão e perde alcance: a explicação salva o sentido e, ao mesmo tempo, fecha o texto.

Uma questão acadêmica honesta. A explicação que vem nos versículos 37 a 43 é objeto de debate antigo. Pesquisadores como Joachim Jeremias observaram que o vocabulário desse trecho — expressões como "consumação do século", "filhos do reino", "o maligno" — coincide de modo notável com o vocabulário do redator de Mateus, e não com o estilo mais direto das parábolas em si. Daí uma corrente propor que a explicação alegórica seja formulação da igreja primitiva, e não transcrição do que Jesus disse dentro daquela casa. Outra responde que mestres judeus explicavam mesmo as próprias parábolas em círculo restrito, e que a coincidência pode refletir a passagem do aramaico para o grego pela mão do evangelista. Nenhum dos lados dispõe de prova, e tratar a questão como resolvida é ir além do que os dados permitem.

O risco do elitismo. A leitura mais perigosa deste versículo é a que divide a humanidade em dois andares: a massa lá fora, que só merece histórias, e os iniciados aqui dentro, que recebem o segredo. Essa é a estrutura básica das correntes gnósticas do segundo século. O texto de Mateus resiste a ela por três motivos. Primeiro, porque os de dentro são apresentados exatamente como quem não entendeu. Segundo, porque no versículo 11 do mesmo capítulo o acesso aparece como algo dado, e não conquistado. Terceiro, porque o conteúdo do segredo é o oposto de um privilégio: é o aviso de que ninguém deve separar joio de trigo antes da colheita. Acrescente-se que a multidão não é acusada de nada aqui: ela é despedida e vai embora, e fazer dessa diferença um julgamento moral é acrescentar ao texto o que ele não diz.

7. Aplicações Práticas

1. Perguntar em voz alta. Dúvida guardada não vira conhecimento. Se há um texto que você lê há anos sem entender, diga isso a alguém. O constrangimento de três minutos custa menos do que uma década de leitura no automático.

2. Construir a sua casa. O ensino público é a praia; o esclarecimento é o cômodo. Um culto ou um vídeo raramente resolvem uma dúvida séria. Reserve espaço e horário fixos para estudar sem pressa.

3. Levar gente junto. O pedido no texto é "explica-nos", no plural. Estudar em grupo expõe as próprias lacunas: a dúvida de um quase sempre é a dúvida silenciosa de outros três.

4. Não confundir presença com compreensão. Estar perto de Jesus não fez os discípulos entenderem, e frequência à igreja não garante entendimento. Eu sei mesmo o que este texto diz, ou só me acostumei com o som dele?

5. Não usar o entendimento como distintivo. Quem aprende sente a tentação de se separar dos que não sabem. A explicação que Jesus dá logo depois desmonta isso: separar trigo de joio não é tarefa nossa e não é para agora. Saber mais serve para julgar menos.

6. Aceitar que algumas respostas não chegam agora. A explicação pedida aqui aponta para uma colheita futura. Forçar certeza onde não há dado é uma forma de mentira devocional.

8. Perguntas e Respostas

1. O que o cenário de Jesus explicando a parábola dentro de uma casa sugere sobre a natureza do aprendizado e do crescimento espiritual?

Sugere que o aprendizado espiritual tem lugar, tempo e proximidade. A praia comporta a multidão e a história; a casa comporta o pequeno grupo e a pergunta, porque na massa não se pergunta e não se é corrigido. A casa implica permanência: entrou quem não foi embora quando o discurso público acabou.

2. Como podemos aplicar o exemplo dos discípulos, que buscaram compreensão, ao nosso próprio estudo da Escritura hoje?

Aplicando o método deles, que tem três partes: ouviram o texto inteiro antes de perguntar, formularam uma pergunta específica em vez de uma queixa vaga, e a dirigiram a quem podia responder. Na prática: leia a passagem e o contexto ao redor, escreva a dúvida de forma precisa e leve-a a uma fonte séria.

3. De que modos a parábola do joio desafia a viver com fidelidade num mundo em que o bem e o mal coexistem?

A parábola desmonta duas saídas fáceis. A primeira é a ilusão de pureza, a expectativa de encontrar um ambiente — igreja, família, país — em que só haja trigo; esse campo não existe antes da colheita. A segunda é a pressa em arrancar: quem arranca cedo arranca trigo junto. Viver com fidelidade é continuar plantando num campo misto, sem assumir uma separação que o texto reserva ao fim.

4. Como a promessa do Espírito Santo em João 16:13 encoraja na busca por compreender a Palavra de Deus?

A promessa encoraja porque tira o entendimento do terreno do talento pessoal: ninguém depende só da própria inteligência para compreender. Convém não abusar dela, porém. Em João ela é dita a discípulos que perguntavam e não entendiam quase nada; a orientação prometida não substitui o estudo, a pergunta e o tempo.

5. Que passos práticos podemos dar para garantir que não sejamos apenas ouvintes da Palavra, mas também praticantes, como enfatiza Tiago 1:22?

Um passo é converter cada estudo em uma decisão concreta e com prazo: uma conversa a ter, uma dívida a pagar, um perdão a pedir. Outro é prestar contas a alguém, porque intenção sem testemunha evapora. E um terceiro, específico deste texto: identificar alguém que você já classificou mentalmente como joio e suspender o veredicto.

9. Conexão com Outros Textos

Mateus 13:24-30 — Esta passagem contém a parábola do joio, que Jesus é solicitado a explicar em Mateus 13:36. Ela estabelece o contexto do pedido de esclarecimento feito pelos discípulos.

"Propôs-lhes outra parábola, dizendo: O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo. Mas, enquanto os homens dormiam, veio o inimigo dele, semeou joio no meio do trigo e retirou-se. Quando a erva cresceu e produziu fruto, apareceu também o joio. Então os servos do dono da casa se aproximaram e lhe disseram: Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? De onde vem, pois, o joio? Ele lhes respondeu: Um inimigo fez isso. Os servos lhe perguntaram: Queres, então, que vamos e o arranquemos? Ele disse: Não, para que, ao arrancar o joio, não arranqueis também o trigo junto com ele. Deixai crescer ambos juntos até a colheita; e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: Ajuntai primeiro o joio e atai-o em feixes para ser queimado; mas recolhei o trigo no meu celeiro."

Marcos 4:34 — Este versículo destaca que Jesus muitas vezes explicava as parábolas em particular aos seus discípulos, enfatizando a importância de buscar uma compreensão mais profunda.

"E sem parábolas não lhes falava; mas, em particular, explicava tudo aos seus discípulos."

Marcos descreve um hábito; Mateus o transforma numa cena única, com hora, lugar e diálogo. É composição literária, não contradição.

João 16:13 — A promessa do Espírito Santo guiando os que creem a toda a verdade conecta-se ao desejo de compreensão dos discípulos e ao papel da revelação divina.

"Quando vier, porém, aquele, o Espírito de verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará as coisas que hão de vir."

Um eco importante. Mateus 13:10-11 registra a primeira vez em que os discípulos interromperam para perguntar: "E, aproximando-se os discípulos, disseram-lhe: Por que lhes falas por parábolas? Ele, respondendo, disse-lhes: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado." Note o verbo: é dado. O acesso aparece como dádiva, não como conquista.

10. Original Grego e Análise

Texto ABC: "Depois de despedir as multidões, Jesus entrou em casa. Seus discípulos se aproximaram dele e disseram: 'Explica-nos a parábola do joio do campo.'"

Grego (Textus Receptus, Stephanus, 1550):

Τότε ἀφεὶς τοὺς ὄχλους ἦλθεν εἰς τὴν οἰκίαν ὁ Ἰησοῦς, καὶ προσῆλθον αὐτῷ οἱ μαθηταὶ αὐτοῦ λέγοντες, Φράσον ἡμῖν τὴν παραβολὴν τῶν ζιζανίων τοῦ ἀγροῦ.

Transliteração: Tote apheis tous ochlous elthen eis ten oikian ho Iesous, kai proselthon auto hoi mathetai autou legontes, Phrason hemin ten parabolen ton zizanion tou agrou.

Palavra por palavra:

Τότε (tote) — advérbio: "então", "naquele momento". Palavra favorita de Mateus, que a usa cerca de noventa vezes; serve de costura narrativa e nem sempre marca sequência cronológica.

ἀφεὶς (apheis) — particípio aoristo ativo de aphiemi: soltar, deixar ir, dispensar. É o mesmo verbo que noutros contextos se traduz por "perdoar": perdoar, em grego, é soltar a dívida. Aqui, "tendo despedido".

τοὺς ὄχλους (tous ochlous) — acusativo plural de ochlos: a multidão, a massa sem organização, o povo comum.

ἦλθεν (elthen) — aoristo do indicativo ativo de erchomai: veio, foi.

εἰς τὴν οἰκίαν (eis ten oikian) — preposição de movimento para dentro, mais oikia, casa. O artigo definido é significativo: não é uma casa qualquer, é a casa de onde ele saiu no versículo 1.

ὁ Ἰησοῦς (ho Iesous) — "o Jesus", com artigo, como o grego costuma fazer com nomes conhecidos. Aqui há uma diferença textual real: o Textus Receptus e o texto bizantino trazem o nome por extenso; os manuscritos gregos mais antigos deste trecho não o trazem, só o verbo na terceira pessoa. A explicação mais aceita é que copistas acrescentaram o nome para deixar claro quem era o sujeito — a alteração de escriba mais comum que existe. O sentido não muda, mas o caso mostra como o texto chegou até aqui: por mãos humanas, com ajustes de clareza pelo caminho.

καὶ (kai) — conjunção: "e". Frequência altíssima nos evangelhos, reflexo do estilo semítico, que encadeia frases por adição.

προσῆλθον (proselthon) — aoristo, terceira pessoa do plural de proserchomai: aproximar-se. Em Mateus, costuma marcar a aproximação diante de uma autoridade: não é o gesto de quem esbarra num colega, é o de quem se apresenta.

αὐτῷ (auto) — pronome no dativo: "a ele", a direção da aproximação.

οἱ μαθηταὶ αὐτοῦ (hoi mathetai autou) — "os discípulos dele". Mathetes vem de manthano, aprender: aprendiz, alguém em formação, sem ideia de domínio — o que combina com a cena.

λέγοντες (legontes) — particípio presente ativo de lego: dizendo. Indica simultaneidade: aproximaram-se dizendo.

Φράσον (phrason) — imperativo aoristo ativo de phrazo: declarar, explicar, tornar claro. É a forma do Textus Receptus e do texto bizantino. Os manuscritos mais antigos trazem no lugar Διασάφησον (diasapheson), de diasapheodia, que intensifica, mais saphes, claro: "esmiúça isso para nós". Esse verbo é raro, com apenas duas ocorrências no Novo Testamento, aqui e em Mateus 18:31. A troca se explica bem por copistas substituindo uma palavra rara por outra comum. Grau de certeza: não é possível determinar qual das formas Mateus escreveu, embora a crítica textual moderna prefira a mais rara, pelo princípio de que o copista tende a facilitar. Nas duas versões, o imperativo aoristo dá ao pedido um tom urgente.

ἡμῖν (hemin) — primeira pessoa do plural no dativo: "a nós". Pequeno e decisivo: a pergunta é coletiva, e nenhum discípulo aparece perguntando só por si.

τὴν παραβολὴν (ten parabolen) — de parabole, formada por para, ao lado, e ballo, lançar: o que se lança ao lado de outra coisa para comparar. Corresponde ao hebraico mashal, que abrange provérbio, enigma e comparação.

τῶν ζιζανίων (ton zizanion) — genitivo plural de zizanion, joio. Não é grego clássico: parece empréstimo semítico, aparentado do aramaico zunin, e no Novo Testamento só aparece em Mateus 13. Muitos leem nisso um indício de que a parábola nasceu no ambiente aramaico de Jesus: plausibilidade, não prova.

τοῦ ἀγροῦ (tou agrou) — genitivo de agros, campo cultivado. É o termo que, na explicação seguinte, será identificado com o mundo.

11. Conclusão

Mateus 13:36 é um versículo de movimentação de cena, e é aí que está a sua força: não traz doutrina explícita, não cita profecia, não registra sinal. Traz uma porta, um grupo pequeno e um pedido.

Três coisas ficam de pé. A primeira é que os discípulos não entenderam, o que desmonta a imagem confortável de um círculo interno que captava tudo de imediato: a distância entre ouvir e compreender foi vencida do jeito mais comum do mundo, perguntando. A segunda é que o lugar importa: o capítulo sai de casa no versículo 1 e volta no 36, e a praça comporta a história enquanto o cômodo comporta a pergunta. A terceira é que a divisão entre fora e dentro não fabrica uma casta: o que os discípulos recebem por trás da porta é a ordem de não arrancar ninguém antes do tempo. Um privilégio que produz cautela em vez de superioridade é um privilégio estranho.

Fica também o registro honesto do que não se sabe: de quem era a casa, se Mateus escreveu phrason ou diasapheson, se a explicação alegórica dos versículos seguintes veio da boca de Jesus naquela tarde ou tomou forma na comunidade que guardou a memória. Essas incertezas fazem parte de um livro escrito, copiado e transmitido por gente, e reconhecê-las é o que permite ler o resto com confiança.

E, no meio do invólucro humano, permanece um dado espiritual simples e duro: a compreensão foi para quem admitiu não ter. A multidão foi embora inteira, sem dúvidas declaradas. Os poucos que ficaram levaram para dentro de casa a única coisa que abre a porta de qualquer aprendizado: a confissão de que não haviam entendido.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Mateus 13:36

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia1.063 / 31.102 3,42%
Antigo Testamento572 / 23.145 2,47%
Novo Testamento491 / 7.957 6,17%