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Mateus 13:37

✍️ Por Alberto Adriano·9 de agosto de 2026·⏱️ 19 min de leitura·👁 13 acessos
Ele respondeu: “Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem.
Jesus dentro de uma casa de pedra explica a parábola aos discípulos, com as mãos em gesto de explicação, iluminado pela luz quente do fim de tarde que entra por uma janela pequena.

Estudo


Ele respondeu: “Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem.

1. Introdução

Mateus 13:37 abre a explicação que Jesus dá da parábola do joio. Os discípulos acabaram de pedir, em particular, dentro da casa: "Explica-nos a parábola do joio do campo" (v. 36). A resposta começa aqui. E começa pelo elemento mais importante de todos: quem é o semeador.

A frase é curta. "Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem." Uma identificação, sem rodeio. Nos versículos seguintes virão as outras: o campo é o mundo, a boa semente são os filhos do reino, o joio são os filhos do maligno, o inimigo é o diabo, a ceifa é o fim da era, os ceifeiros são os anjos. Sete chaves ao todo. Esta é a primeira, e ela sustenta as demais.

Há três assuntos de peso escondidos nessas poucas palavras. O primeiro é o título "Filho do homem", que Jesus usa aqui e que é, provavelmente, a expressão mais discutida de todos os evangelhos. O segundo é o fato de Jesus se colocar como o semeador, algo que ele não fez na parábola anterior, a do semeador (vv. 3-9), onde a figura de quem semeia ficou sem nome. O terceiro é o próprio método: Jesus alegoriza a sua própria parábola, elemento por elemento, e isso é raro nos evangelhos. Tem consequência direta para a forma como lemos todas as outras parábolas.

Vamos tratar dos três com honestidade. Onde a erudição concorda, diremos que concorda. Onde ela discute, diremos que discute, e com que grau de certeza cada leitura se sustenta. O objetivo não é reduzir o texto a um problema acadêmico. É deixar o texto falar sem a maquiagem que a leitura devocional apressada costuma passar por cima dele.

2. Contexto Histórico e Cultural

Mateus 13 é o terceiro dos cinco grandes blocos de ensino do primeiro evangelho. Ele reúne parábolas sobre o reino dos céus. A estrutura do capítulo tem um movimento claro: Jesus fala à multidão à beira do mar (vv. 1-35), depois entra em casa e fala apenas aos discípulos (vv. 36-52). O versículo 37 está do lado de dentro dessa porta. É ensino reservado.

Essa divisão entre o público e o privado não é um detalhe de cenário. É um dos temas do capítulo. Em 13:11 Jesus diz que aos discípulos foi dado conhecer os mistérios do reino, e aos de fora, não. A explicação do joio é a demonstração prática disso. Fora, a parábola; dentro, a decodificação.

O pano de fundo agrícola era óbvio para quem ouvia. Semear a lanço em campo aberto, sem cerca, tornava o sabotador uma possibilidade real. O joio da parábola é quase certamente o lolium temulentum, o azevém-anual, uma erva que na fase inicial é praticamente indistinguível do trigo e cujos grãos, contaminados por um fungo, causam tontura e mal-estar. O direito romano previa pena para quem semeasse ervas daninhas no campo alheio, o que indica que o crime existia de fato. Ou seja: a parábola parte de um caso plausível, não de uma fantasia.

O ambiente religioso importa igualmente. No judaísmo do primeiro século havia uma expectativa forte de que Deus interviria para separar os justos dos ímpios, e havia grupos, como o de Qumran, que já organizavam a própria vida em torno da divisão entre "filhos da luz" e "filhos das trevas". A linguagem de Mateus 13:38, "filhos do reino" e "filhos do maligno", é do mesmo mundo. A diferença é o adiamento: Jesus manda deixar crescer juntos até a ceifa. Isso contrariava tanto a impaciência zelota quanto o rigor separatista.

E há o ambiente político. A Galileia estava sob Herodes Antipas, e a Judeia sob procurador romano. Qualquer um que se declarasse rei ungido de Israel entrava numa rota conhecida, que terminava em cruz. Esse dado é indispensável para entender por que Jesus prefere um título ambíguo como "Filho do homem" a um título direto como "o Messias". Voltaremos a isso.

3. Análise Teológica

"Ele respondeu"

Nesta passagem, Jesus está respondendo ao pedido de seus discípulos por uma explicação da parábola do joio. Isso indica um momento de ensino em que Jesus esclarece verdades espirituais aos seus seguidores. O uso de parábolas era um método de ensino comum na cultura judaica, permitindo que verdades mais profundas fossem reveladas àqueles que estavam espiritualmente receptivos.

"Aquele que semeia a boa semente"

O ato de semear representa o início do Reino de Deus na terra. A "boa semente" simboliza a mensagem do Evangelho e os filhos do Reino. Essa imagem é coerente com as práticas agrícolas da antiga Palestina, onde semear era uma atividade familiar. A boa semente contrasta com o joio, que representa os filhos do maligno, destacando a batalha espiritual em curso entre o bem e o mal.

"é o Filho do homem"

O título "Filho do homem" é um termo messiânico que Jesus usava com frequência para si mesmo, enfatizando tanto a sua humanidade quanto a sua autoridade divina. Esse título tem raiz em Daniel 7:13-14, onde ao Filho do homem são dados domínio e glória. Ao identificar-se como o semeador, Jesus afirma o seu papel no estabelecimento e na expansão do Reino de Deus. Isso também se conecta à narrativa mais ampla de Jesus como o cumprimento da profecia do Antigo Testamento e à sua missão de redimir a humanidade.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

1. Jesus Cristo (Filho do homem) — Nesta parábola, Jesus se refere a si mesmo como o "Filho do homem", um título que ele usa com frequência, enfatizando o seu papel como o Messias e a sua ligação com a humanidade.

2. O Semeador — Representa Jesus, que espalha a mensagem do Reino de Deus por meio de seus ensinos e de suas ações.

3. A Boa Semente — Simboliza a mensagem do Reino e aqueles que a recebem e a encarnam, crescendo como seguidores fiéis.

4. O Campo — Representa o mundo onde a mensagem do Reino é semeada.

5. A Parábola do Joio — Esta parábola, na qual o versículo se encontra, ilustra a coexistência do bem e do mal no mundo até o julgamento final.

Vale acrescentar o lugar físico. O versículo 36 situa a cena numa casa, provavelmente em Cafarnaum, à beira do mar da Galileia. A casa aparece em Mateus como o espaço do ensino reservado. E há um evento implícito: a ceifa, que ainda não aconteceu no tempo da narrativa, mas já está anunciada como desfecho.

5. Pontos de Ensino

Jesus como o Semeador divino — Jesus, como o "Filho do homem", é o semeador supremo da verdade e da vida. Os seus ensinos são as sementes que trazem vida eterna àqueles que os aceitam.

O papel dos que creem — Como seguidores de Cristo, somos chamados a participar da semeadura da boa semente, compartilhando o Evangelho e vivendo as suas verdades no cotidiano.

A realidade da coexistência — A parábola reconhece a presença do bem e do mal no mundo. Os que creem são encorajados a permanecer fiéis e pacientes, confiando no plano final de Deus para o julgamento e a redenção.

A importância do crescimento espiritual — Assim como as sementes precisam de cuidado para crescer, quem crê precisa cultivar a fé por meio da oração, do estudo da Palavra e da comunhão com outros cristãos.

A expectativa da ceifa — A parábola aponta para uma ceifa futura, que simboliza o julgamento final. Quem crê é lembrado de viver com perspectiva eterna, com o foco no Reino de Deus.

6. Aspectos Filosóficos

O primeiro problema filosófico do versículo é o da agência. Numa parábola sobre o bem e o mal crescendo juntos, quem plantou o quê? O texto dá duas respostas distintas: a boa semente vem do Filho do homem; o joio vem de um inimigo. O mal não é apresentado como falha do semeador nem como acidente do solo. É apresentado como ato deliberado de outra vontade. Isso afasta a parábola tanto do dualismo puro, no qual as duas forças seriam eternas e equivalentes, quanto do monismo que atribuiria tudo diretamente a Deus. A assimetria é clara: o semeador é o dono do campo, o inimigo é intruso.

O segundo problema é o da paciência. A ordem "deixai crescer juntos" (v. 30) levanta uma questão moral incômoda: por que tolerar o mal quando se tem poder de arrancá-lo? A parábola dá uma razão prática, não sentimental: arrancar o joio agora arrancaria trigo junto. Em linguagem filosófica, o argumento é sobre os limites do juízo humano. Não conseguimos separar com precisão suficiente. A separação exige um conhecimento que não temos. Isso é uma limitação epistemológica, não uma indiferença moral.

O terceiro problema é o da identidade. Ao dizer "Filho do homem", Jesus adota uma expressão que, tomada ao pé da letra, significa simplesmente "ser humano". Ele podia ter dito "eu". Disse "o Filho do homem". Falar de si na terceira pessoa e com um título produz uma distância deliberada entre o falante e a figura descrita. Filosoficamente, isso cria espaço para que a identificação seja feita pelo ouvinte, e não imposta pelo falante. É um modo de afirmar sem obrigar.

Por fim, há a questão do método interpretativo. Ao decodificar cada elemento, Jesus estabelece que uma parábola pode, sim, ter camada alegórica. Mas o fato de ele fazer isso explicitamente aqui sugere algo importante: se fosse o padrão, não precisaria explicar. A explicação é a exceção que sinaliza a regra.

7. Aplicações Práticas

1. Cheque a origem antes de checar o resultado. A parábola separa as coisas pela semente, não pela aparência. Antes de avaliar um trabalho, um relacionamento ou um projeto pelo que ele parece hoje, pergunte de onde veio o que foi plantado ali. Origem explica desfecho melhor do que aparência explica.

2. Aceite conviver com o que você não pode arrancar. Existem situações no trabalho, na família e na igreja em que a limpeza total causaria mais estrago que a convivência. Saber distinguir o que deve ser confrontado agora do que deve ser suportado até o tempo certo é maturidade, não covardia.

3. Semeie mesmo sabendo que haverá sabotagem. O semeador da parábola não parou de semear por causa do inimigo. Quem só age quando as condições estão limpas nunca age. Faça o bem contando com a interferência, não apesar dela.

4. Desconfie do impulso de separar as pessoas em times. Os servos quiseram arrancar o joio imediatamente. O dono disse não. Toda vez que a vontade de classificar quem é bom e quem é ruim aparece muito rápido e muito certa de si, ela merece suspeita.

5. Trabalhe com prazo longo. O texto opera com dois tempos: agora e a ceifa. Decisões tomadas apenas pelo resultado imediato ignoram metade da equação. Pergunte o que a sua escolha de hoje produz daqui a dez anos, não apenas na próxima semana.

6. Aprenda a pedir explicação. Os discípulos receberam a chave porque perguntaram. Não entenderam, entraram em casa e perguntaram. Ficar com a dúvida por vergonha de perguntar é o modo mais comum de permanecer do lado de fora.

7. Não force alegoria onde o texto não deu. Aqui Jesus explicou cada elemento. Na maioria das parábolas ele não explicou. Ler cada detalhe de cada parábola como código secreto produz mais engano que compreensão. Onde o texto autoriza, siga; onde não autoriza, contenha-se.

8. Perguntas e Respostas

1. Como o entendimento de Jesus como o "Filho do homem" aprofunda a nossa compreensão do seu papel como semeador nesta parábola?

Porque une duas coisas que normalmente andam separadas. "Filho do homem" tem sentido humano comum, "aquele que é humano", e tem sentido celeste, ligado a Daniel 7. O semeador da parábola faz um trabalho de gente: anda pelo campo, joga a semente, espera. Mas é o mesmo que, no fim, envia os anjos e preside a ceifa (vv. 41-43). O título mantém as duas pontas juntas: o que semeia no chão é o mesmo que julga no fim.

2. De que maneiras podemos participar ativamente da semeadura da boa semente nas nossas comunidades hoje?

Convém notar uma coisa antes de responder. Em 13:38 a boa semente são os filhos do reino, ou seja, pessoas, não mensagens. Nessa leitura, participar da semeadura é menos distribuir conteúdo e mais existir de determinada maneira num lugar determinado. Isso significa presença constante, trabalho honesto, palavra confiável, socorro concreto a quem precisa. A pregação entra nisso, mas não sozinha.

3. Como a coexistência do bem e do mal no mundo desafia a nossa fé, e como podemos permanecer firmes?

Desafia porque cria a impressão de que Deus não está agindo. A parábola responde que o intervalo entre a semeadura e a ceifa não é ausência, é decisão. Permanecer firme, no vocabulário do texto, é continuar crescendo em terreno misto sem exigir que o terreno seja limpo primeiro. A fé aqui é resistência, não isolamento.

4. Que passos práticos podemos dar para cultivar bem o nosso crescimento espiritual?

A imagem agrícola sugere três coisas: regularidade, raiz e tempo. Regularidade é hábito que não depende de humor. Raiz é entender o que se crê, e não apenas repetir. Tempo é aceitar que não há colheita antecipada. O capítulo acrescenta uma quarta: os discípulos cresceram porque perguntaram.

5. Como a expectativa da ceifa final influencia as nossas decisões e prioridades diárias?

Muda o critério de sucesso. Se tudo se decide agora, vence quem colhe mais rápido. Se há uma ceifa no fim, a pergunta passa a ser o que permanece. Isso torna certas perdas suportáveis e certos ganhos suspeitos. Também retira das nossas mãos a função de juiz, o que alivia. Não somos os ceifeiros. Somos a plantação.

9. Conexão com Outros Textos

Daniel 7:13-14 — a fonte por trás do título. "Eu estava olhando nas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como o filho do homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e o fizeram chegar até ele. E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará."

Ezequiel 2:1 — o outro uso, humano e comum, da mesma expressão. "E disse-me: Filho do homem, põe-te em pé, e falarei contigo." Deus chama Ezequiel assim dezenas de vezes ao longo do livro, e ali a expressão significa apenas "mortal", "ser humano".

Gênesis 3:15 — a promessa de um Salvador que derrotará o mal, que se conecta a Jesus como semeador da boa semente, trazendo redenção. "E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar."

João 1:14 — a Palavra que se fez carne, destacando Jesus como o semeador divino que traz a mensagem da salvação à humanidade. "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade."

Mateus 28:19-20 — a Grande Comissão, na qual Jesus instrui os seus seguidores a continuar semeando a boa semente, fazendo discípulos de todas as nações. "Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações... ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado."

Gálatas 6:7-9 — o princípio de semear e colher, que encoraja quem crê a semear para o Espírito e a não desanimar de fazer o bem. "Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará."

Lucas 8:11"A semente é a palavra de Deus." Note a diferença: na parábola do semeador a semente é a palavra; aqui, em Mateus 13:38, a boa semente são pessoas. O mesmo símbolo tem dois valores em duas parábolas diferentes. É um argumento forte contra a alegorização automática.

João 5:27"E deu-lhe poder para exercer o juízo, porque é o Filho do homem." Aqui a função de julgar é ligada diretamente ao título, o que confirma a carga de Daniel 7 e prepara Mateus 13:41-43.

10. Original Grego e Análise

Texto (Textus Receptus): Ὁ δὲ ἀποκριθεὶς εἶπεν αὐτοῖς, Ὁ σπείρων τὸ καλὸν σπέρμα ἐστὶν ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου·

Transliteração: Ho de apokritheis eipen autois, Ho speirōn to kalon sperma estin ho huios tou anthrōpou.

Palavra por palavra:

Ho de (Ὁ δὲ) — "E ele". A partícula de marca a transição da pergunta para a resposta.

apokritheis (ἀποκριθεὶς) — particípio de apokrinomai, "responder". Forma passiva com sentido ativo, muito comum nos evangelhos. Traduz um jeito hebraico de introduzir fala: "respondendo, disse".

eipen autois (εἶπεν αὐτοῖς) — "disse-lhes". O aoristo indica ação pontual. O pronome no plural confirma o público restrito: os discípulos.

ho speirōn (ὁ σπείρων) — artigo mais particípio presente de speirō, "semear". Literalmente "o que semeia", "o semeador". O presente sugere ação em curso, não apenas um evento passado.

to kalon sperma (τὸ καλὸν σπέρμα) — "a boa semente". Kalos não significa apenas "bom" no sentido moral; carrega a ideia de belo, adequado, de boa qualidade. Sperma é a raiz de onde vem "esperma" e "espermatozoide" em português: aquilo que é lançado para gerar.

estin (ἐστὶν) — "é". Verbo de identificação. Numa alegoria, este verbo funciona como sinal de igual: A equivale a B.

ho huios tou anthrōpou (ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου) — "o Filho do homem". Aqui está o centro do versículo.

Aprofundando ho huios tou anthrōpou

Primeiro, a estranheza gramatical. O grego traz dois artigos definidos: o filho do homem. Grego natural não fala assim. A construção é decalque de expressão semítica. Em hebraico, ben adam; em aramaico, bar enash ou bar nasha. E o sentido básico dessas expressões, em ambos os idiomas, é simplesmente "ser humano". "Filho de" indica pertença a uma categoria: filho de homem é membro da espécie humana, como "filhos do reino" no v. 38 são os que pertencem ao reino.

Essa é a primeira camada, e ela é sólida. Em Ezequiel, Deus dirige-se ao profeta como "filho do homem" mais de noventa vezes, e ali não há nenhuma carga messiânica. O sentido é "mortal", em contraste com Deus. Grau de certeza: alto. Nenhum estudioso sério disputa que bar enash possa significar apenas "ser humano".

A segunda camada vem de Daniel 7:13-14. Ali, na visão noturna, alguém "como um filho de homem" vem com as nuvens do céu, chega diante do Ancião de Dias e recebe domínio eterno sobre todos os povos. Note que o texto de Daniel diz "como um filho de homem", uma comparação: a figura tem aparência humana, em contraste com as bestas dos versículos anteriores, que representavam impérios. No próprio capítulo de Daniel a figura é depois interpretada como os "santos do Altíssimo" (7:18, 27), o que abre uma leitura coletiva. Mas na literatura judaica posterior, especialmente nas Parábolas de Enoque e em 4 Esdras, essa figura já aparece claramente individualizada, celeste e preexistente. Grau de certeza sobre a existência dessa leitura messiânica no judaísmo do período: alto. Grau de certeza sobre o quanto ela era difundida entre o povo comum na Galileia dos anos 30: médio, porque a datação das Parábolas de Enoque é discutida.

Terceira camada: por que Jesus escolheria justamente esse título? Aqui a discussão é real e vale expô-la sem fingir consenso. Há três posições principais entre os estudiosos.

A primeira sustenta que Jesus usava a expressão apenas no sentido idiomático corrente, algo como "alguém", "um homem", ou uma forma modesta de dizer "eu", e que a igreja primitiva teria depois carregado o título com o material de Daniel. Grau de certeza: baixo a médio; explica bem os ditos mais simples, mas explica mal os ditos de juízo, que são numerosos e antigos.

A segunda sustenta que Jesus usava a expressão já com a carga de Daniel 7 desde o começo, aplicando a si mesmo a figura celeste. Grau de certeza: médio a alto; é a leitura que melhor explica passagens como Marcos 14:62 e Mateus 13:41, onde o Filho do homem envia os anjos.

A terceira, e talvez a mais persuasiva, sustenta que Jesus escolheu a expressão exatamente pela ambiguidade. Este é o ponto que merece atenção. "Messias" e "Filho de Davi" eram títulos de leitura única, e leitura política: quem os assumisse publicamente estava reivindicando o trono e seria tratado como sedicioso. "Filho do homem", ao contrário, soava inofensivo a ouvidos romanos, que ouviriam apenas "aquele homem", e soava eletrizante a ouvidos que conheciam Daniel. Um mesmo som, dois alcances. Grau de certeza: médio a alto, e é a posição que integra melhor os dados históricos e literários.

Um dado adicional pesa nessa discussão. Nos evangelhos, praticamente só Jesus usa a expressão, e quase sempre em discurso direto dele; a igreja primitiva, nas cartas, quase não a utiliza, preferindo "Cristo" e "Senhor". Se o título tivesse sido criação posterior da comunidade, seria estranho que a comunidade não o usasse nas próprias cartas. Isso sugere fortemente que a expressão vem do próprio Jesus. Grau de certeza: alto.

O semeador ganha nome

Vale comparar com a parábola anterior. Em Mateus 13:3 lê-se "saiu o semeador a semear", e na explicação (vv. 18-23) Jesus detalha os quatro terrenos, mas não diz quem é o semeador. Fica em aberto. Aqui, na parábola do joio, a primeira coisa que ele identifica é justamente o semeador, e é ele mesmo. A mudança de foco é significativa: na primeira parábola o assunto é a recepção da palavra; nesta, o assunto é a autoria do bem e a autoria do mal no campo do mundo.

11. Conclusão

Mateus 13:37 faz duas coisas ao mesmo tempo. Entrega a primeira chave de uma parábola e entrega uma declaração sobre quem Jesus é. As duas coisas estão amarradas, e nenhuma funciona sem a outra.

A chave: o bem plantado no mundo tem autor, e o autor tem nome. Não é acaso, não é mérito do solo, não é resultado de esforço coletivo anônimo. Alguém semeou. O que vier depois, inclusive o joio, será interpretado a partir desse dado inicial.

A declaração: o semeador é "o Filho do homem". Uma expressão que, dita na rua, significava apenas "um ser humano", e que, lida dentro de Daniel 7, significava aquele que recebe domínio eterno diante do Ancião de Dias. Jesus escolhe a palavra ambígua. Não a mais segura nem a mais explosiva: a que permite as duas leituras e obriga o ouvinte a decidir qual delas assume.

Fica também uma lição de método. Este é um dos poucos lugares em que Jesus decodifica a própria parábola item por item. Justamente por ser raro, funciona como advertência: onde o texto abre a alegoria, siga o texto; onde ele não abre, a prudência é maior que a criatividade. Ler bem é saber onde parar.

E resta o essencial, que a discussão erudita não substitui. Alguém semeou o bem num campo que não estava protegido, sabendo que haveria sabotagem, e não desistiu de semear por causa disso. Essa decisão, mais do que qualquer título, descreve o que Deus tem feito com o mundo.

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