para se cumprir o que foi dito pelo profeta: “Abrirei a minha boca em parábolas; anunciarei coisas escondidas desde a fundação do mundo.”
1. Introdução
Há momentos em que o narrador de um evangelho para de contar a cena e fala com o leitor. Mateus 13:35 é um desses momentos. Jesus acabou de ensinar a multidão inteiramente por parábolas, e Mateus interrompe a narrativa para dizer o que aquilo significa: não foi improviso, foi cumprimento. Um profeta antigo já havia dito que assim seria.
O leitor apressado passa por esse versículo sem parar. Ele parece apenas uma costura entre dois blocos do capítulo. Mas é aqui que Mateus entrega a chave de leitura do capítulo 13 inteiro. Ao citar aquele texto antigo, ele afirma três coisas: que a parábola é linguagem revelada, que existe um conteúdo guardado desde a origem do mundo, e que esse conteúdo está sendo aberto agora, na boca de Jesus.
Este também é um dos versículos mais discutidos pelos estudiosos, por motivos honestos. A citação vem do Salmo 78, atribuído a Asafe, e Mateus chama o autor de "profeta". Uma parte antiga dos manuscritos traz aqui o nome "Isaías", que seria uma atribuição errada. E "desde a fundação do mundo" tem um sentido no salmo original e outro, ampliado, no evangelho. Nada disso é motivo de escândalo. É motivo de estudo. Vamos tratar das três questões de frente, com técnica e sem sensacionalismo, e escutar também o que o versículo diz espiritualmente. É possível ser honesto com o invólucro humano do texto e reverente diante da verdade que ele carrega. As duas coisas só cabem juntas.
2. Contexto Histórico e Cultural
Mateus 13 é o terceiro dos cinco grandes discursos do primeiro evangelho. Ele reúne as parábolas do Reino: o semeador, o joio, o grão de mostarda, o fermento, o tesouro escondido, a pérola e a rede. A estrutura é clara: Jesus fala à multidão em parábolas, depois se retira e explica em particular aos discípulos. Os versículos 34 e 35 formam uma unidade e fecham a parte pública do discurso. O versículo 34 dá o fato: Jesus falou tudo à multidão por parábolas e sem parábola nada lhes dizia. O versículo 35 dá o sentido: aquilo cumpria uma palavra antiga.
Para entender o versículo, é preciso saber o que é uma fórmula de cumprimento em Mateus. É uma frase padronizada que o autor insere na narrativa para ligar um acontecimento da vida de Jesus a um texto das Escrituras de Israel. Ela tem sempre o mesmo formato: "para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta, dizendo", seguido da citação. Mateus usa esse recurso cerca de dez a doze vezes, dependendo de como se contam os casos, e este é normalmente contado como o décimo. Aparece no nascimento em Belém, na fuga para o Egito, nas curas, no silêncio do Servo, na entrada em Jerusalém, nas trinta moedas de prata.
Essa fórmula não é invenção de Mateus. Era um modo judaico de ler as Escrituras no primeiro século. Os textos encontrados em Cunrã, junto ao mar Morto, mostram a mesma prática: pegar um texto antigo e dizer "isto é aquilo", ou seja, este acontecimento de agora é o que aquele texto anunciava. Os estudiosos chamam esse método de pesher, palavra hebraica que quer dizer "interpretação". Não era leitura de previsão pura, do tipo "o profeta viu o futuro em detalhe". Era leitura de correspondência: a história de Deus com o seu povo tem um desenho, e ele se repete e se completa em Jesus.
Isso muda o que devemos esperar da citação. Ao citar o Salmo 78:2, Mateus não afirma que Asafe estava conscientemente descrevendo Jesus à beira do mar da Galileia. Afirma que aquela palavra encontra em Jesus a sua realização plena. Para o leitor judeu do primeiro século, era o modo normal e respeitoso de tratar a Escritura.
Há ainda um dado do contexto que costuma passar despercebido. O Salmo 78 é um salmo de ensino sobre a história de Israel. Ele recorda o Êxodo, o deserto, o maná, as pragas do Egito, e insiste num tema doloroso: o povo viu tudo isso e mesmo assim não creu. É, em grande medida, um retrato da incredulidade de Israel diante das obras de Deus. Ora, o capítulo 13 de Mateus vem logo depois da rejeição de Jesus pelos fariseus no capítulo 12 e desemboca, no fim, na rejeição em Nazaré. O tema atravessa o salmo e atravessa o capítulo. A citação, portanto, não é decorativa: ela carrega junto o contexto inteiro do salmo.
3. Análise Teológica
"Assim se cumpriu o que foi dito pelo profeta:"
Esta frase indica o cumprimento da profecia do Antigo Testamento, enfatizando a continuidade entre o Antigo e o Novo Testamentos. O uso do cumprimento de profecia é um tema comum em Mateus, destacando Jesus como o Messias. O profeta a que se refere aqui é provavelmente Asafe, já que a citação é do Salmo 78:2. Essa conexão sublinha a inspiração divina e a autoridade dos ensinos de Jesus.
"Abrirei a minha boca em parábolas;"
As parábolas são um método de ensino usado por Jesus para transmitir verdades espirituais profundas por meio de histórias simples. Essa abordagem era ao mesmo tempo um cumprimento de profecia e um método estratégico para revelar verdades àqueles dispostos a entender, enquanto as ocultava daqueles que não eram receptivos. As parábolas envolvem os ouvintes, levando-os a refletir e a discernir a mensagem subjacente. Esse método está alinhado com a literatura sapiencial do Antigo Testamento, na qual o entendimento é concedido àqueles que o buscam com sinceridade.
"Anunciarei coisas escondidas desde a fundação do mundo."
Esta frase sugere que os ensinos de Jesus revelam mistérios e verdades divinas que estiveram ocultos desde a criação. Ela implica que as parábolas contêm percepções a respeito do Reino de Deus e do seu plano redentor, que não haviam sido plenamente divulgados em revelações anteriores. Isso está alinhado com o conceito de revelação progressiva, segundo o qual o plano de Deus é gradualmente desvelado ao longo da história bíblica. A expressão "a fundação do mundo" indica a natureza eterna dessas verdades, enraizadas no desígnio e no propósito soberanos de Deus.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
1. Jesus Cristo — a figura central do evangelho de Mateus, que está ensinando as multidões por meio de parábolas.
2. O Profeta — refere-se a Asafe, o autor do Salmo 78, que é citado neste versículo.
3. As Multidões — as pessoas reunidas para ouvir o ensino de Jesus, um grupo diverso em busca de entendimento.
4. Os Discípulos — os seguidores de Jesus, que muitas vezes recebiam explicações mais profundas dos ensinos.
5. A Fundação do Mundo — expressão que indica o começo da criação, enfatizando a natureza atemporal das verdades de Deus.
5. Pontos de Ensino
O propósito das parábolas — Jesus usa parábolas para revelar verdades espirituais profundas de um modo que desafia os ouvintes a buscar entendimento e discernimento.
O cumprimento da profecia — o uso de parábolas por Jesus cumpre a profecia do Antigo Testamento, demonstrando a continuidade e a confiabilidade da Palavra de Deus.
Verdades ocultas reveladas — os mistérios do Reino de Deus, antes ocultos, são agora revelados por meio de Cristo, convidando os que creem a explorá-los e compreendê-los.
Receptividade espiritual — compreender as parábolas depende da abertura de cada um ao Espírito Santo e da disposição de buscar a sabedoria de Deus.
Envolvimento com a Escritura — os que creem são encorajados a se aprofundar na Palavra, buscando os sentidos e as aplicações dos ensinos de Jesus.
6. Aspectos Filosóficos
Existe uma pergunta antiga por trás deste versículo: por que a verdade mais importante não é dita de forma direta? Se há algo escondido desde a fundação do mundo, e se esse algo é decisivo, por que comunicá-lo em histórias de sementes e fermento de pão? A resposta que o próprio capítulo 13 oferece é incômoda e libertadora ao mesmo tempo. A parábola não é um enfeite colocado sobre a verdade. Ela é a forma que a verdade precisa ter para não ser destruída pelo ouvinte errado. Uma informação direta pode ser memorizada sem ser compreendida, repetida sem ser vivida, usada como arma sem ser obedecida. A parábola resiste a esse uso. Ela obriga a pessoa a entrar na história e a descobrir qual terreno ela é. O entendimento vem junto com a implicação pessoal, ou não vem.
Isso levanta uma segunda questão: a do conhecimento que depende da disposição de quem conhece. Boa parte do saber humano é impessoal: a fórmula da área do círculo funciona igual para o santo e para o canalha. Mas há um conhecimento que não se separa da pessoa. Ninguém entende de fato o que é perdoar sem alguma disposição para perdoar. As parábolas se movem nesse território. Não escondem por crueldade. Escondem porque o conteúdo delas só se torna visível de dentro.
Há ainda a questão do tempo. "Escondidas desde a fundação do mundo" implica uma realidade em camadas: os fatos que vemos não esgotam o que existe. E o oculto não é oculto para sempre. Tem hora marcada para ser dito.
7. Aplicações Práticas
1. Leia as parábolas procurando o seu lugar dentro delas. A pergunta útil não é "o que esta parábola ensina em geral", e sim "onde eu estou nesta história". No semeador, qual terreno eu tenho sido neste mês.
2. Volte ao texto antigo que está sendo citado. Quando o Novo Testamento cita o Antigo, leia o capítulo inteiro de onde a citação veio. Aqui, leia o Salmo 78 completo. Mateus não pegou apenas uma frase bonita: trouxe junto o tema da incredulidade de um povo que viu as obras de Deus e não creu.
3. Não confunda ouvir com entender. A multidão ouviu tudo. Os discípulos perguntaram. A diferença não foi o acesso à informação, foi a decisão de voltar e perguntar. Quando algo na Escritura não fecha para você, o passo certo é procurar e estudar, e não deixar de lado.
4. Aceite que a fé madura convive com perguntas abertas. Este versículo tem um problema textual real, discutido há séculos. Quem só aprendeu uma versão lisa da Bíblia costuma entrar em crise ao descobrir isso. Quem olha de frente percebe que a fé não depende de o texto ser perfeito em cada letra, e sim de Deus ser verdadeiro naquilo que o texto carrega.
5. Ensine como Jesus ensinou. Ao explicar algo importante a um filho ou a um amigo, pense em como transformar o conceito numa imagem concreta. A imagem fica. O conceito abstrato evapora.
6. Guarde a paciência de quem espera o tempo certo. As coisas ficaram escondidas desde a fundação do mundo até serem ditas. Muita coisa na sua vida também tem um tempo de permanecer sem explicação. Nem tudo que ainda não foi dito está negado.
8. Perguntas e Respostas
1. De que modo compreender o propósito das parábolas melhora a sua leitura dos ensinos de Jesus nos evangelhos?
Compreender o propósito muda a expectativa. Quem lê a parábola como fábula com moral simples sai com um conselho e nada mais. Quem entende que ela foi criada para separar o ouvinte curioso do ouvinte disposto passa a ler mais devagar, aberto a ser incomodado. Também ajuda a aceitar que nem tudo na parábola tem correspondência ponto a ponto: ela tem um centro, e é dele que se deve partir.
2. De que maneiras você pode cultivar um coração receptivo às verdades ocultas da Palavra de Deus?
Pela regularidade e pela honestidade. Regularidade porque o entendimento das parábolas se acumula com a convivência, e não com um único lampejo. Honestidade porque a maior barreira não é a falta de estudo, é a defesa: quem já decidiu a conclusão lê apenas para confirmar. O coração receptivo aceita sair do texto diferente de como entrou.
3. Como o cumprimento da profecia nos ensinos de Jesus fortalece a sua fé na confiabilidade da Escritura?
Aqui vale uma resposta com grau de certeza. O cumprimento em Mateus não funciona como previsão fechada, do tipo "estava escrito o endereço exato e aconteceu". Funciona como correspondência. O que isso fortalece não é a ideia de um livro sem costura humana, e sim a percepção de um desenho contínuo atravessando séculos, autores e gêneros muito diferentes. Essa continuidade impressiona mesmo depois de reconhecidas as marcas humanas do texto.
4. Que passos você pode dar para garantir que não está apenas ouvindo, mas de fato compreendendo e aplicando os ensinos de Jesus na sua vida?
Três passos. Repetição com intervalo: voltar ao mesmo texto depois de semanas e ver o que mudou. Verbalização: explicar a parábola a outra pessoa, porque só se explica bem o que se entendeu. Decisão concreta: cada leitura deveria terminar com uma ação pequena e verificável, e não com um sentimento genérico.
5. Como você pode usar o conceito de "verdades ocultas agora reveladas" para encorajar outras pessoas na caminhada espiritual delas?
Mostrando que o esconderijo tinha prazo. Muita gente vive a fé com a sensação de estar do lado de fora de um segredo. O anúncio aqui é o oposto: o que estava guardado foi dito em voz alta, para uma multidão, em histórias que qualquer pessoa consegue repetir. O acesso está aberto. O que se pede não é erudição, é atenção.
9. Conexão com Outros Textos
Salmo 78:2 — o texto do Antigo Testamento que está sendo cumprido, no qual Asafe fala de ensinar em parábolas e de revelar coisas ocultas.
"Abrirei em parábola a minha boca; proferirei enigmas antigos."
Mateus 13:10-17 — explica por que Jesus usa parábolas: elas revelam verdades aos que são espiritualmente receptivos e as ocultam dos que não são.
"Porque a vós é dado conhecer os mistérios do Reino dos céus, mas a eles não lhes é dado. (...) Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem."
1 Coríntios 2:7 — a sabedoria de Deus como mistério que esteve oculto e agora é revelado por meio de Cristo.
"Mas falamos a sabedoria de Deus, oculta em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para a nossa glória."
Efésios 3:9 — o mistério oculto por eras, agora tornado conhecido por meio da igreja.
"E mostrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo."
Colossenses 1:26 — o mistério oculto por eras e gerações, agora revelado aos santos.
"O mistério que esteve oculto desde os séculos e desde as gerações, e que agora foi manifesto aos seus santos."
Mateus 12:17 — a mesma fórmula de cumprimento, com o nome do profeta declarado.
"Para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías, que diz:"
Romanos 16:25 — o mistério guardado em silêncio desde tempos eternos.
"Conforme a revelação do mistério que desde tempos eternos esteve oculto."
10. Original Grego e Análise
Texto ABC: "para se cumprir o que foi dito pelo profeta: 'Abrirei a minha boca em parábolas; anunciarei coisas escondidas desde a fundação do mundo.'"
Grego (Textus Receptus): ὅπως πληρωθῇ τὸ ῥηθὲν διὰ τοῦ προφήτου λέγοντος· Ἀνοίξω ἐν παραβολαῖς τὸ στόμα μου, ἐρεύξομαι κεκρυμμένα ἀπὸ καταβολῆς κόσμου.
Transliteração: hopōs plērōthē to rhēthen dia tou prophētou legontos: Anoixō en parabolais to stoma mou, ereuxomai kekrymmena apo katabolēs kosmou.
Palavra por palavra:
ὅπως (hopōs) — conjunção: "para que". Introduz finalidade e abre a fórmula de cumprimento.
πληρωθῇ (plērōthē) — aoristo do subjuntivo, voz passiva: "se cumprisse". A raiz significa "encher". A imagem é a de um recipiente que se enche até a borda, e não a de uma previsão que se confirma.
τὸ ῥηθὲν (to rhēthen) — artigo mais particípio aoristo passivo: "o que foi dito". A voz passiva deixa o sujeito subentendido: quem falou, no fundo, foi Deus, ainda que por meio de um homem.
διὰ τοῦ προφήτου (dia tou prophētou) — "por meio do profeta". A preposição diá indica instrumento: o profeta é o canal, não a origem.
λέγοντος (legontos) — particípio presente: "dizendo". Fórmula fixa que abre a citação.
Ἀνοίξω (Anoixō) — futuro do indicativo ativo: "abrirei". Abrir a boca, no idioma bíblico, é o gesto solene de quem vai fazer um pronunciamento importante.
ἐν παραβολαῖς (en parabolais) — "em parábolas". Parabolē vem de "lançar ao lado", ou seja, pôr uma coisa ao lado da outra para comparar. Traduz o hebraico mashal.
τὸ στόμα μου (to stoma mou) — "a minha boca".
ἐρεύξομαι (ereuxomai) — futuro do indicativo, voz média: "anunciarei", "proferirei". Palavra forte e pouco comum. O sentido original é jorrar, transbordar, deixar sair o que estava contido: não é fala calculada, é conteúdo represado que vem à tona.
κεκρυμμένα (kekrymmena) — particípio perfeito passivo, plural neutro: "coisas que foram escondidas e permanecem escondidas". O perfeito grego indica ação passada com efeito que continua. O esconderijo durou.
ἀπὸ καταβολῆς κόσμου (apo katabolēs kosmou) — "desde a fundação do mundo". Katabolē é literalmente "o lançar para baixo", como quem assenta o alicerce de uma construção. Kosmos é "mundo", "ordem do universo".
Nota de crítica textual: a variante "Isaías"
Duas definições rápidas. Um manuscrito é uma cópia do texto bíblico feita à mão, antes da imprensa; existem hoje milhares deles, de séculos e regiões diferentes. A crítica textual é a disciplina que compara essas cópias entre si para determinar qual era a forma mais antiga do texto, já que nenhum original sobreviveu.
Neste versículo há uma diferença real entre as cópias. A maioria dos manuscritos traz apenas "pelo profeta", sem nome. Mas um grupo antigo e respeitável traz "pelo profeta Isaías". Entre esses testemunhos está o Códice Sinaítico na sua forma original, antes de ser corrigido por um revisor posterior, além de outros códices. Eusébio de Cesareia e Jerônimo conheciam cópias com o nome de Isaías ali, e Jerônimo relata que a leitura foi retirada por copistas.
Se "Isaías" fosse a leitura original, seria um erro claro de atribuição, porque a citação é do Salmo 78:2. E é aí que entra um princípio conhecido da crítica textual: a lectio difficilior, a regra da leitura mais difícil. Ela diz que, entre duas leituras, a mais difícil tende a ser a original, porque os copistas tinham a tendência de corrigir problemas, e não de criá-los. Ninguém acrescentaria um nome errado a um texto que já estava certo. Mas é compreensível que alguém, ao encontrar um nome errado, o apagasse.
Aqui o princípio joga a favor da hipótese de que "Isaías" foi escrito e depois removido. E o grau de certeza precisa ser dito com clareza: isso é uma hipótese fortemente defendida por parte dos estudiosos, não um fato estabelecido. A evidência externa, ou seja, a quantidade e a distribuição dos manuscritos, favorece a leitura sem nome. A evidência interna, o raciocínio sobre o comportamento dos copistas, favorece "Isaías". Quando as duas apontam para lados opostos, o resultado honesto é um debate em aberto, e não uma sentença.
Qual leitura a nossa tradução seguiu, e por quê. O texto ABC traz apenas "pelo profeta", sem nome. A nossa tradução segue o Textus Receptus, a edição do Novo Testamento grego montada a partir dos manuscritos bizantinos, base das traduções clássicas em português, e ele não traz o nome. Não escolhemos essa leitura por ser mais confortável, e sim por coerência com a base textual adotada em todo o projeto. Registramos a variante porque o leitor tem direito de saber que ela existe.
O que não se deve fazer é transformar isso em escândalo. A variante não prova que o evangelho seja falso, nem que os copistas fossem desonestos. Prova o que já sabemos: o texto foi transmitido por mãos humanas ao longo de séculos, e essas mãos deixaram marcas. E sabemos que ela existe justamente porque os manuscritos foram guardados e comparados, em vez de destruídos.
Nota sobre "pelo profeta" e o Salmo de Asafe. Mesmo ficando com a leitura sem nome, permanece a questão: por que chamar de "profeta" o autor de um salmo? A resposta tem base. Asafe é apresentado em 2 Crônicas 29:30 como "vidente", termo usado para profetas, e em 1 Crônicas 25:1-2 os filhos de Asafe são descritos como quem profetizava com harpas e címbalos. Além disso, no judaísmo do primeiro século os salmos eram lidos como voz profética, e "os profetas" nomeava uma parte inteira das Escrituras, e não apenas os livros que hoje chamamos de proféticos. Pedro, em Atos 2:30, chama Davi de profeta pelo mesmo motivo. A atribuição tem explicação legítima. Ainda assim, é honesto dizer que ela é incomum, porque o normal em Mateus é reservar a fórmula para os livros proféticos propriamente ditos.
Nota sobre "desde a fundação do mundo". O Salmo 78:2, no hebraico, fala de "enigmas antigos", coisas dos tempos passados. O contexto do salmo é a história de Israel: o Egito, o deserto, os pais. Mateus amplia o horizonte e escreve "desde a fundação do mundo", levando o mistério para antes da criação. A ampliação é interpretativa e proposital: para Mateus, o plano que agora se abre não começou no Egito, começou antes de tudo. Vale registrar que a palavra "mundo" (kosmou) tem apoio variado nos manuscritos: parte deles traz apenas "desde a fundação", forma que aparece em testemunhos antigos importantes. A diferença de sentido é pequena, mas existe.
11. Conclusão
Mateus 13:35 é um versículo pequeno com três camadas. Na superfície, é uma nota do narrador fechando o discurso público das parábolas. Abaixo, é uma declaração teológica: o modo de ensinar de Jesus não foi improviso, e sim cumprimento de uma palavra antiga. No fundo, é um anúncio: existe um conteúdo guardado desde a origem do mundo, e ele está sendo dito agora, para quem quiser ouvir.
Ao mesmo tempo, é um dos versículos onde as marcas humanas do texto ficam mais visíveis. Um salmo de Asafe é chamado de palavra de profeta. Parte dos manuscritos traz um nome que não caberia ali. Uma expressão do salmo é ampliada pelo evangelista. Nada disso foi escondido neste estudo, e nada disso precisa ser escondido de ninguém. A honestidade com o invólucro humano não tira nada do que o texto carrega: torna a leitura confiável, porque o leitor sabe que não está sendo poupado.
E o que o texto carrega é isto. Deus guardou o essencial por um tempo muito longo, e depois falou. Não em fórmulas para especialistas: em sementes, redes, pão e tesouro enterrado, de um jeito que qualquer camponês da Galileia podia repetir em casa naquela noite, e que ninguém esgota em dois mil anos de estudo.
A diferença nunca foi o acesso. Foi a decisão de voltar e perguntar. Continua sendo a mesma hoje.













