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Mateus 14:13

✍️ Por Alberto Adriano·18 de agosto de 2026·⏱️ 38 min de leitura·👁 7 acessos
Quando Jesus ouviu isso, retirou-se dali de barco para um lugar deserto, sozinho. Mas as multidões, ao saberem, saíram das cidades e o seguiram a pé.
Homem sentado num barco a vela, cabisbaixo, com uma multidão caminhando pela margem ao fundo.

Estudo


Quando Jesus ouviu isso, retirou-se dali de barco para um lugar deserto, sozinho. Mas as multidões, ao saberem, saíram das cidades e o seguiram a pé.

1. Introdução

Jesus recebe a notícia da morte de João e faz a coisa mais humana possível: procura ficar sozinho.

Pega um barco e vai para um lugar deserto.

E não consegue. As multidões descobrem, saem das cidades e o seguem a pé, contornando o lago.

Quando ele desembarca, já tem gente esperando.

2. Contexto Histórico e Cultural

A geografia da fuga

Convém montar o mapa, porque a cena depende dele.

O mar da Galileia é um lago de água doce, com cerca de vinte e um quilômetros de comprimento por doze de largura. Não é grande.

A margem ocidental, onde ficava Cafarnaum, era povoada e movimentada — cidades, aldeias, estradas, pesca. A margem oriental e nordeste era menos ocupada.

Atravessar de barco de um lado ao outro levava algumas horas, dependendo do vento. Contornar a pé, pela margem, levava mais tempo, mas era perfeitamente possível num dia.

É isso que explica o versículo. Jesus embarca para atravessar; as multidões percebem a direção do barco e vão pelo contorno.

Não é milagre nem coincidência: é a geometria de um lago pequeno, num lugar em que todo mundo via de onde os barcos saíam e para onde iam.

O que era um "lugar deserto"

A expressão pode enganar o leitor moderno.

Não se trata de deserto de areia. O termo grego designa lugar despovoado — mato, encosta, região sem aldeias, sem estradas movimentadas, sem gente.

A margem oriental do lago tinha várias áreas assim: colinas descampadas, boas para pastagem, sem povoação próxima.

Vale reter o dado, porque ele importa para o que virá em seguida. Quando os versículos seguintes falarem de uma multidão sem comida num lugar assim, o problema não será falta de dinheiro. Será que não havia onde comprar.

A situação política no momento

Convém lembrar em que ponto o capítulo está.

O tetrarca da Galileia acabou de executar um profeta popular. E, no versículo 1, ele estava perguntando sobre Jesus — e formulando, no versículo 2, uma explicação de homem assombrado.

Jesus atuava exatamente no território administrado por esse homem.

Ou seja: no momento em que a notícia chega, quem a recebe é um pregador com multidões atrás, num território cujo governante acabou de matar outro pregador com multidões atrás, e que estava perguntando a respeito dele.

Isso não determina a leitura do versículo, e o texto não menciona nenhuma consideração desse tipo. Mas é o quadro em que a retirada acontece, e ignorá-lo seria empobrecer a cena.

Parentesco: o que os textos dizem e o que não dizem

Convém tratar de um ponto que a pregação corrente repete sem base clara.

É comum ouvir que João Batista era primo de Jesus.

Mateus não menciona parentesco nenhum entre os dois. Marcos também não. O evangelho de João, inclusive, registra o Batista dizendo que não o conhecia.

A única base para a ideia está em Lucas, que informa que Isabel, mãe de João, era parenta de Maria. A palavra grega empregada indica parentesco, sem especificar o grau — e algumas traduções em português a vertem por "prima".

Ou seja: havia vínculo familiar segundo Lucas, mas o grau não é determinado pelo texto, e "primo" é aproximação nossa.

Registro a distinção porque ela importa para não colorir esta cena com uma intimidade que os evangelhos não afirmam.

3. Análise Teológica do Versículo

"Quando Jesus ouviu isso"

O capítulo se fecha sobre si mesmo com esta palavra, e vale reparar em como isso acontece.

O verbo é akoúō, ouvir — exatamente o mesmo que abriu o capítulo no versículo 1, quando Herodes ouviu a fama de Jesus.

E ele reaparecerá ainda uma terceira vez, na segunda metade deste próprio versículo, quando as multidões ouvirem para onde ele foi.

Três audições, portanto, no mesmo capítulo. E três reações completamente diferentes.

Herodes ouve e conclui que um morto voltou. Age a partir do medo e da culpa, e a conclusão dele é o retrato do que ele carregava.

Jesus ouve e se retira. Não reage, não denuncia, não anuncia juízo sobre o assassino — vai embora.

As multidões ouvem e se põem a caminho, a pé, contornando um lago.

Vale enunciar o que essa estrutura mostra: a notícia é a mesma, e o resultado depende inteiramente de quem a recebe.

Registro que Mateus não comenta a estrutura. A observação é de leitura, feita a partir da repetição do vocabulário — mas a repetição está no texto, e é o próprio evangelista quem a produz.

Convém ainda notar o que o versículo não diz.

Não descreve o que Jesus sentiu. Não há uma palavra sobre dor, luto, choque ou revolta.

Isso é notável, porque os evangelhos não têm pudor de registrar emoção. O quarto evangelho diz que Jesus chorou diante do túmulo de um amigo. Mateus registra, no capítulo 26, que ele começou a entristecer-se e a angustiar-se, e que disse ter a alma triste até a morte.

Aqui, nada.

Há um gesto, e o leitor precisa deduzir o resto — se é que deve deduzir.

Vale marcar isso com honestidade: atribuir luto a esta cena é leitura razoável, e é leitura. O texto registra que ele ouviu e que se retirou. A ligação entre as duas coisas é feita por quem lê.

"retirou-se dali"

Este é o verbo mais interessante do versículo, e ele merece tratamento demorado.

O grego é anachōréō, composto de uma preposição que indica movimento de afastamento e de um verbo que significa dar lugar, ceder espaço, mover-se. O sentido é retirar-se, afastar-se, sair de cena.

Não é o verbo comum de ir embora. É mais específico: designa a saída de uma situação, e não apenas de um lugar.

Vale acompanhar esse verbo em Mateus, porque ele é praticamente uma assinatura deste evangelho. Nenhum outro livro do Novo Testamento o usa tanto.

Percorra-se a lista, porque ela é reveladora.

No capítulo 2, os magos, avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retiram-se por outro caminho. Logo depois, José toma o menino e a mãe de noite e se retira para o Egito, porque Herodes procurava a criança para matá-la. E, mais adiante, ao saber que Arquelau reinava na Judeia, retira-se para a Galileia.

No capítulo 4, ao ouvir que João Batista fora preso, Jesus se retira para a Galileia.

No capítulo 12, depois que os fariseus se reúnem para planejar como matá-lo, o texto diz que Jesus, sabendo disso, retirou-se dali.

No capítulo 14, aqui.

No capítulo 15, retira-se para as regiões de Tiro e Sidom.

E, no capítulo 27, é o verbo que descreve Judas saindo do templo depois de lançar as moedas — e indo enforcar-se.

Repare-se no padrão. Em quase todas as ocorrências, o verbo está ligado a ameaça. Alguém soube de um perigo e saiu.

Duas dessas ocorrências merecem destaque especial.

A primeira é a do capítulo 2: a família se retira porque um Herodes quer matar a criança. Aqui, no capítulo 14, ele se retira depois que outro Herodes matou o precursor.

O evangelho começa e continua com o mesmo movimento diante da mesma família.

A segunda é a do capítulo 4, e é a mais próxima. Ali, a notícia é exatamente a mesma: algo aconteceu com João Batista. João foi preso — e Jesus se retira.

Agora João foi morto — e Jesus se retira.

Duas notícias sobre o mesmo homem, dois afastamentos, no mesmo evangelho, com o mesmo verbo.

Registro que Mateus não aponta essa correspondência. Mas ela é do texto, e não do comentarista: é o próprio evangelista que usa o mesmo verbo nas duas ocasiões.

Convém agora tratar da questão que o padrão levanta, sem escondê-la.

Se o verbo está quase sempre associado a ameaça, esta retirada é luto ou é prudência?

Há argumentos para as duas leituras.

A favor do luto: a proximidade imediata da notícia, o destino escolhido — um lugar deserto —, a expressão que indica solidão, e o fato de que a tentativa de ficar só reaparecerá no versículo 23, quando ele finalmente subir ao monte sozinho.

A favor da prudência: o padrão do verbo em Mateus, a situação política concreta — o tetrarca acabara de matar um profeta popular e estava perguntando por Jesus, como o versículo 1 registra —, e o precedente do capítulo 12, em que ele se retira ao saber de um plano contra a própria vida.

Não é possível decidir, e as duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Um homem enlutado que também tem motivo para não estar por perto faz uma coisa só, e ela serve às duas razões.

Registro as duas leituras e não escolho.

"de barco para um lugar deserto, sozinho"

Três informações, e as três importam.

O barco explica o método. O mar da Galileia é um lago pequeno, e atravessá-lo de uma margem à outra levava algumas horas. Era o modo mais rápido de sair de uma região povoada e chegar a uma vazia.

O lugar deserto merece explicação, porque o português pode enganar.

O termo grego designa lugar despovoado — mato, encosta, região sem aldeias. Não é deserto de areia.

Mas convém notar o peso que essa palavra carrega neste evangelho.

É no deserto que João Batista pregava, segundo o capítulo 3. É ao deserto que Jesus foi levado para ser tentado, segundo o capítulo 4.

E é a um lugar deserto que ele vai agora, ao saber da morte daquele que pregava no deserto.

Há mais. Nos versículos seguintes, esse mesmo lugar deserto será o cenário em que uma multidão faminta receberá pão em abundância.

Para um leitor formado nas Escrituras, a associação é imediata: o deserto é o lugar onde um povo faminto foi alimentado com pão vindo do céu.

Registro que Mateus não faz essa ligação de modo explícito — não cita o Êxodo, não diz "para que se cumprisse". Mas a escolha do cenário e o que acontece nele produzem o eco, e os primeiros leitores dificilmente deixariam de ouvi-lo.

Resta a terceira informação, e é a mais delicada: sozinho.

O grego diz literalmente "segundo o próprio" — expressão idiomática que significa à parte, em separado, em particular.

Mateus a usa em outros lugares, sempre para indicar afastamento do grupo maior: quando Jesus sobe ao monte para orar, quando leva três discípulos ao monte da transfiguração, quando os discípulos o interrogam em particular, quando toma os doze à parte no caminho para Jerusalém.

Aqui, ela indica a intenção de ficar sem companhia.

E é justamente essa intenção que não se cumpre.

"Mas as multidões, ao saberem, saíram das cidades e o seguiram a pé"

A segunda metade do versículo desfaz a primeira, e vale observar com que economia isso é feito.

O verbo é o mesmo: ouviram. É a terceira ocorrência da raiz no capítulo.

E a reação delas é oposta à de Herodes. Aquele ouviu e teve medo; estas ouvem e se põem a caminho.

O detalhe "a pé" explica a mecânica da cena.

Jesus atravessou o lago de barco. As multidões viram a direção e contornaram a margem, caminhando. Num lago daquele tamanho, isso era possível — mais demorado que a travessia, e possível num dia.

Não há nada de sobrenatural aqui. Há gente disposta a andar horas.

E o texto acrescenta que saíram das cidades, no plural. Não é um grupo de uma aldeia: é gente vindo de vários lugares.

Vale medir o que isso significa sobre o momento.

Aquela era a região que acabara de perder João Batista. O povo tinha o profeta em alta conta — o versículo 5 registrou que era exatamente por isso que o tetrarca não o matara antes.

Não é possível saber se as multidões já sabiam da execução. O texto não diz.

Mas o movimento delas, no dia em que a notícia corria, tem um significado que dispensa comentário: perderam um pregador e foram atrás do outro.

Registro que essa leitura é do comentarista, e que Mateus não a formula.

Um retiro que não acontece

Convém fechar observando o que este versículo deixa em aberto, porque é a chave para ler o resto do capítulo.

Ele saiu para ficar só, e não conseguiu.

O versículo 14 mostrará o que aconteceu quando desembarcou: viu a multidão, compadeceu-se e curou os doentes. Depois virá a alimentação dos cinco mil.

Só no versículo 23, depois de despedir as multidões, ele finalmente subirá ao monte à parte para orar — e o texto registrará que, chegada a noite, ele estava ali sozinho.

Ou seja: a solidão procurada no versículo 13 só se realiza dez versículos depois.

Entre uma coisa e outra há um dia inteiro de trabalho, feito por alguém que tinha saído justamente para não trabalhar.

Vale registrar o que o texto não diz sobre isso.

Não há queixa. Não há registro de irritação, não há pedido para que se afastassem, não há observação sobre o mau momento.

O versículo 14 registra compaixão.

Convém não transformar isso num sermão sobre disponibilidade, porque o texto não o faz. O que ele mostra é apenas a sequência: uma retirada interrompida, e o que aconteceu na interrupção.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus — recebe a notícia da morte de João e se retira de barco para um lugar despovoado.

Os discípulos de João — trouxeram a notícia no versículo anterior; são a causa do movimento.

As multidões — descobrem, saem de várias cidades e contornam o lago a pé.

O barco — meio de fuga rápida, que não foi suficiente.

O lugar deserto — região despovoada, e não necessariamente arenosa.

O evento — a tentativa de ficar sozinho, frustrada antes mesmo do desembarque.

5. Pontos de Ensino

Três pessoas ouvem no mesmo capítulo. Herodes ouve e vê um morto; Jesus ouve e se retira; as multidões ouvem e caminham. A notícia é a mesma.

O verbo de retirar-se é assinatura de Mateus. Dez ocorrências, quase sempre ligadas a ameaça — inclusive na fuga para o Egito e na prisão de João.

Já houve uma retirada por causa de João. No capítulo 4, ao saber que ele fora preso. Agora, ao saber que foi morto. Mesmo verbo.

Luto ou prudência? As duas leituras se sustentam, e podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Não é possível decidir.

O texto não descreve o que ele sentiu. Nem dor, nem revolta, nem choque. Há um gesto, e o leitor deduz o resto.

A multidão contornou o lago a pé. Não há nada de sobrenatural: há gente disposta a andar horas.

O retiro não acontece. A solidão procurada aqui só se realiza no versículo 23, depois de um dia inteiro de trabalho.

6. Aspectos Filosóficos

A mesma notícia, três pessoas

Vale começar pela estrutura, porque este versículo fecha o capítulo sobre si mesmo.

O verbo ouvir abriu o capítulo, no versículo 1, com Herodes. Reaparece aqui duas vezes: com Jesus, e com as multidões.

Três audições, e três reações incompatíveis entre si.

O tetrarca ouve e conclui que um morto voltou dos mortos para operar num vivo. A reação dele é feita inteiramente do que ele carregava — ninguém mais, no evangelho inteiro, chegou àquela conclusão.

Jesus ouve e se retira. Não denuncia, não anuncia juízo, não organiza resposta. Sai.

As multidões ouvem e caminham horas, contornando um lago.

Convém enunciar o que essa estrutura mostra, porque é o eixo do capítulo: a informação é a mesma, e o que decide o resultado é quem a recebe.

Não é uma tese que o evangelista formule. É o que ele constrói ao repetir o mesmo verbo em três situações e deixar o leitor comparar.

O luto que o texto se recusa a descrever

Um ponto que merece cuidado, porque a pregação corrente costuma preencher demais.

Jesus recebe a notícia da morte de um homem que ele mesmo declarara o maior entre os nascidos de mulher, e o evangelho não registra emoção nenhuma.

Nem dor, nem revolta, nem choque, nem lágrima.

Isso é notável porque os evangelhos não têm pudor de registrar sentimento. O quarto evangelho diz que Jesus chorou diante do túmulo de um amigo. O próprio Mateus registra, no capítulo 26, que ele começou a entristecer-se e a angustiar-se, e que declarou ter a alma triste até a morte.

Aqui há apenas um gesto: ele foi embora, de barco, para um lugar sem gente.

Vale marcar o limite com honestidade. Ler luto nesse gesto é razoável, e é leitura. O texto registra que ele ouviu e que se retirou; a ligação entre as duas coisas é feita por quem lê.

Convém, porém, reconhecer o que essa contenção tem de justo.

Luto descrito em detalhe vira material de contemplação para o leitor — algo que se acompanha e se comenta. Luto registrado apenas como movimento permanece do enlutado.

O evangelho, aqui, não expõe. Diz que ele foi para longe e para de contar.

Um verbo que percorre o evangelho

Vale desenvolver o verbo da retirada, porque ele estrutura o livro de Mateus mais do que se costuma notar.

Nenhum outro escrito do Novo Testamento o usa tanto. E, em quase todas as ocorrências, ele aparece ligado a ameaça.

Os magos se retiram por outro caminho para não voltar a Herodes. José toma o menino e foge para o Egito, porque Herodes o procurava para matá-lo. Ao voltar, retira-se para a Galileia ao saber quem reinava na Judeia. Ao saber que João fora preso, Jesus se retira para a Galileia. Ao saber que os fariseus planejavam matá-lo, retira-se dali. Aqui, ao saber da morte de João, retira-se de barco.

E, no fim do livro, é o verbo que descreve Judas saindo do templo depois de lançar as moedas.

Convém extrair disso uma observação que corrige uma leitura devocional comum.

Há uma ideia difusa de que a fé consiste em enfrentar sempre, em não recuar, em confrontar a ameaça de frente.

Não é o que este evangelho mostra. Ele mostra alguém que, repetidamente, ao perceber perigo, sai de cena.

Não há nenhuma censura a isso no texto. Não se diz que faltou coragem, não se diz que devia ter ficado.

Vale reconhecer, ao mesmo tempo, o limite dessa observação. Chegará o ponto, na paixão, em que ele não se retira. A diferença entre os dois momentos não é explicada pelo evangelho, e não vou explicá-la por ele.

O que se pode registrar é que sair não é, neste livro, sinal de fraqueza — é o que se faz enquanto ainda não é a hora.

Duas notícias sobre o mesmo homem

Um paralelo interno que vale destacar, porque é do texto e não do comentarista.

No capítulo 4, o evangelho registra que Jesus, ao ouvir que João estava preso, retirou-se para a Galileia. É o mesmo verbo.

Aqui, ao ouvir que João está morto, retira-se de barco.

Duas notícias sobre o mesmo homem, dois afastamentos, o mesmo vocabulário.

Convém observar o que essa correspondência sugere sem afirmar demais.

A vida pública de Jesus, em Mateus, é emoldurada por notícias sobre João Batista. A primeira retirada abre o ministério na Galileia; esta acontece no meio dele.

Registro que o evangelista não aponta a correspondência, e que ela pode ser apenas hábito de vocabulário. Mas é o mesmo autor usando a mesma palavra nas duas ocasiões, e a repetição está disponível para quem lê.

Luto ou prudência

Aqui está a questão que o versículo levanta e não resolve, e convém não fingir que ela não existe.

Se o verbo da retirada está quase sempre ligado a ameaça neste evangelho, esta saída é luto ou é cálculo?

Há argumentos dos dois lados, e vale apresentá-los com o mesmo peso.

A favor do luto: a proximidade imediata da notícia, o destino escolhido — um lugar sem gente —, a expressão que indica solidão, e o fato de que a busca por ficar só reaparece no versículo 23.

A favor da prudência: o padrão do verbo no evangelho, a situação política concreta — o tetrarca acabara de executar um profeta popular e, no versículo 1, estava perguntando sobre Jesus —, e o precedente do capítulo 12, em que ele se retira exatamente ao saber de um plano contra a própria vida.

Não é possível decidir.

E convém acrescentar que talvez a pergunta esteja mal formulada. As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo: um homem enlutado que também tem motivo para não estar por perto faz um gesto só, e ele serve às duas razões.

A vida raramente separa motivos com a limpeza que a interpretação gostaria.

O deserto como lugar de duas coisas

Vale desenvolver a escolha do cenário, porque ela prepara tudo o que vem depois.

O termo grego designa lugar despovoado — encosta, mato, região sem aldeias. Não é deserto de areia.

Mas a palavra carrega peso neste evangelho.

É no deserto que João Batista pregava. É ao deserto que Jesus foi levado para ser tentado. E é a um lugar deserto que ele vai agora, ao saber da morte daquele que pregava no deserto.

Há ainda o que acontecerá ali. Nos versículos seguintes, esse mesmo lugar sem povoação será o cenário em que uma multidão faminta receberá pão em abundância.

Para um leitor formado nas Escrituras, a associação é imediata: o deserto é, na memória de Israel, o lugar em que um povo faminto foi alimentado com pão vindo do céu.

Registro que Mateus não faz a ligação explicitamente — não cita o Êxodo, não usa fórmula de cumprimento. Mas a escolha do cenário e o que nele acontece produzem o eco, e os primeiros leitores dificilmente deixariam de ouvi-lo.

Vale notar a inversão que isso produz dentro do capítulo. Num salão fechado, com convidados selecionados e comida farta, serviu-se uma cabeça. Num lugar deserto, com uma multidão sem convite e sem nada, repartiu-se pão até sobrar.

O evangelista põe as duas refeições no mesmo capítulo e não as compara.

O retiro interrompido

Um último ponto, e ele é o que amarra o capítulo.

Ele saiu para ficar só, e não conseguiu.

A expressão grega traduzida por "sozinho" indica intenção de ficar à parte. Mateus a usa em outros lugares para descrever afastamento do grupo maior.

Essa intenção não se cumpre aqui. O versículo 14 mostrará o que aconteceu quando ele desembarcou: viu a multidão, compadeceu-se e curou os doentes. Depois virá a alimentação de milhares.

A resolução vem apenas no versículo 23: despedida a multidão, ele sobe ao monte à parte para orar, e o texto anota que, já de noite, permanecia ali sem ninguém.

A solidão procurada no versículo 13 só se realiza dez versículos depois, e entre uma coisa e outra há um dia inteiro de trabalho feito por quem tinha saído justamente para não trabalhar.

Convém não transformar isso num sermão sobre disponibilidade, porque o texto não o faz.

Ele não registra queixa nem irritação, e também não registra entusiasmo. Registra compaixão, no versículo seguinte.

E registra, dez versículos adiante, que ele voltou a procurar o que tinha procurado aqui — o que é, no fundo, o comentário mais honesto que o texto poderia fazer sobre a interrupção.

7. Aplicações Práticas

A notícia é a mesma; a reação é sua

O verbo ouvir aparece três vezes neste capítulo. Herodes ouve e conclui que um morto voltou. Jesus ouve e se retira. As multidões ouvem e caminham horas contornando um lago. A mesma informação, três resultados incompatíveis.

Nada disso estava no conteúdo da notícia. O que decidiu foi quem a recebeu — o que cada um carregava antes de ouvir.

Isso muda o modo de examinar as próprias reações. Quando algo lhe atinge com força desproporcional, o dado relevante não está no fato: está no que ele encontrou em você. Vale perguntar o que estava ali antes, esperando um gatilho.

Retirar-se não é covardia

O verbo usado aqui é praticamente uma assinatura do evangelho de Mateus, e em quase todas as ocorrências está ligado a ameaça: a fuga para o Egito, a mudança para a Galileia, a saída depois que os fariseus planejaram matá-lo, e esta.

Há uma ideia difusa de que a fé consiste em enfrentar sempre. Não é o que o texto mostra. Ele mostra alguém que, repetidamente, ao perceber perigo, sai de cena — e o evangelho não censura isso em momento nenhum.

Se você está numa situação em que ficar significa apenas se desgastar, considere que sair pode ser a decisão certa e não a fraca. A pergunta útil não é "estou fugindo?", e sim "o que exatamente eu conseguiria ficando?". Se a resposta for nada além de provar alguma coisa a alguém, saia.

Nem todo luto se expressa

Jesus recebe a notícia da morte do homem que ele mesmo declarara o maior entre os nascidos de mulher, e o evangelho não registra emoção nenhuma. Nem dor, nem revolta, nem lágrima. Há um gesto: foi embora, de barco, para um lugar sem gente.

Isso é notável porque os evangelhos registram sentimento em outros pontos com naturalidade. Aqui, o texto não expõe — diz que ele foi para longe e para de contar.

Vale respeitar isso em quem está de luto perto de você. Nem todo mundo chora, fala ou explica, e a ausência de manifestação não significa ausência de dor. Cobrar de alguém a expressão que você esperava é acrescentar um peso à conta de quem já está carregando o suficiente.

Procure o lugar vazio quando levar um baque

Ele não convocou ninguém, não fez pronunciamento, não organizou resposta. Entrou num barco e atravessou para uma região sem povoação. O primeiro movimento depois da notícia foi afastar-se de todo mundo.

Há sabedoria prática nisso. As primeiras horas depois de um baque são o pior momento para conversar, decidir e responder — e são justamente as horas em que se sente maior pressão para fazer as três coisas.

Crie a possibilidade de sumir por algumas horas quando algo grave acontecer. Não para resolver nada: para não decidir nada. As mensagens podem esperar, as respostas melhoram, e quase todo arrependimento desse tipo de momento vem do que foi dito antes de o choque passar.

Motivos raramente vêm separados

Esta retirada é luto ou é prudência? Há argumentos dos dois lados. A favor do luto: a notícia acabara de chegar, o destino é um lugar sem gente, a expressão indica solidão. A favor da prudência: o tetrarca acabara de matar um profeta popular e, no versículo 1, estava perguntando sobre Jesus.

Não é possível decidir, e talvez a pergunta esteja mal formulada. As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo: um homem enlutado que também tem motivo para não estar por perto faz um gesto só, e ele serve às duas razões.

Pare de exigir de si um motivo puro. Você pode ajudar alguém por afeto e por conveniência, aceitar um trabalho por vocação e por dinheiro, sair de um lugar por princípio e por cansaço. Exigir pureza de intenção costuma resultar em paralisia — ou em autoengano sobre qual era o motivo real.

Nem todo plano de descanso sobrevive ao dia

Ele saiu para ficar só e não conseguiu. Ao desembarcar, encontrou uma multidão que contornara o lago a pé. O versículo 14 registra que se compadeceu e curou os doentes; depois vem a alimentação de milhares. Só dez versículos adiante ele finalmente sobe ao monte e fica sozinho.

Entre uma coisa e outra há um dia inteiro de trabalho feito por quem tinha saído justamente para não trabalhar. E o texto não registra queixa nem irritação.

Mas repare no que vem depois: ele voltou a procurar o que tinha procurado aqui. Quando o descanso é interrompido, o erro não é atender à interrupção — é dar o descanso por perdido e não remarcá-lo. O que foi adiado precisa de nova data, ou nunca acontece.

As pessoas vão atrás do que lhes falta

Aquelas multidões saíram das cidades, no plural, e caminharam horas contornando um lago. Era a região que acabara de perder João Batista — o povo o tinha em alta conta, e foi exatamente por isso que o tetrarca demorou a matá-lo.

Não se sabe se já tinham notícia da execução; o texto não diz. Mas o movimento delas naquele dia dispensa comentário: perderam um pregador e foram atrás do outro.

Quando muita gente se desloca por alguma coisa, há sempre uma falta por trás. Vale aplicar isso ao que você observa nas pessoas ao seu redor — a pergunta produtiva não é "por que estão indo atrás disso?", e sim "o que está faltando para que isso pareça valer a caminhada?".

Duas mesas no mesmo capítulo

Num salão fechado, com convidados selecionados e comida farta, serviu-se uma cabeça numa travessa. Num lugar deserto, com uma multidão sem convite e sem nada, repartiu-se pão até sobrar. O evangelista põe as duas refeições no mesmo capítulo e não as compara.

A diferença não está na abundância — havia comida nos dois lugares. Está em quem podia estar à mesa e no que se fez com o que havia.

Olhe para as suas mesas com essa régua. Quem é convidado, quem nunca é, e o que acontece ali. Uma mesa que só reúne quem já está por dentro produz um tipo de coisa; uma que recebe quem chegou sem nada produz outro. É uma das escolhas mais reveladoras que alguém faz, e quase nunca é feita conscientemente.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que Jesus se retirou ao saber da morte de João?

O texto não explica, e as duas leituras se sustentam. A favor do luto: a notícia acabara de chegar, o destino é um lugar sem gente, e a expressão empregada indica intenção de ficar só. A favor da prudência: o tetrarca acabara de executar um profeta popular e, no versículo 1, estava perguntando sobre Jesus. Não é possível decidir, e as duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.

O evangelho descreve o que ele sentiu?

Não. Nem dor, nem revolta, nem choque, nem lágrima. Isso é notável, porque os evangelhos registram emoção em outros pontos com naturalidade — o quarto evangelho diz que Jesus chorou diante do túmulo de um amigo, e Mateus registra a angústia dele no Getsêmani. Aqui há apenas um gesto, e ler luto nele é razoável, mas é leitura.

O que há de especial no verbo "retirou-se"?

É praticamente uma assinatura de Mateus: nenhum outro escrito do Novo Testamento o usa tanto. E, em quase todas as ocorrências, está ligado a ameaça — a fuga para o Egito, a mudança para a Galileia por causa de Arquelau, a saída depois da prisão de João, a saída depois que os fariseus planejaram matá-lo, e esta.

Já houve outra retirada por causa de João Batista?

Houve, no capítulo 4: ao ouvir que João estava preso, Jesus retirou-se para a Galileia. É o mesmo verbo. Duas notícias sobre o mesmo homem, dois afastamentos, o mesmo vocabulário. Mateus não aponta a correspondência, mas ela é do texto — é o próprio evangelista quem usa a mesma palavra nas duas ocasiões.

Isso significa que fugir do perigo é aceitável?

O evangelho não censura em momento nenhum esses afastamentos. Não diz que faltou coragem nem que ele deveria ter ficado. Convém, ao mesmo tempo, marcar o limite: chegará o ponto, na paixão, em que ele não se retira — e a diferença entre os dois momentos não é explicada pelo texto.

O que era esse "lugar deserto"?

Não é deserto de areia. O termo grego designa lugar despovoado — encosta, mato, região sem aldeias. A margem oriental do lago tinha várias áreas assim. O dado importa para o que vem depois: quando os versículos seguintes falarem de uma multidão sem comida, o problema não será falta de dinheiro, e sim que não havia onde comprar.

Como as multidões chegaram lá antes dele?

Contornando o lago a pé. O mar da Galileia tem cerca de vinte e um quilômetros de comprimento, e todos viam de onde os barcos saíam e para onde iam. Não há nada de sobrenatural na cena: há gente disposta a caminhar horas.

João Batista era primo de Jesus?

Mateus não menciona parentesco nenhum, e Marcos também não — o evangelho de João, inclusive, registra o Batista dizendo que não o conhecia. A única base está em Lucas, que informa que Isabel era parenta de Maria, usando uma palavra grega que indica parentesco sem especificar o grau. Havia vínculo familiar segundo Lucas; "primo" é aproximação nossa.

Ele conseguiu ficar sozinho?

Não. O versículo 14 mostra que, ao desembarcar, encontrou a multidão, compadeceu-se e curou os doentes. A solidão procurada aqui só se realiza no versículo 23, depois de despedir as multidões — e entre uma coisa e outra há um dia inteiro de trabalho feito por quem tinha saído justamente para não trabalhar.

Há alguma relação entre o deserto deste versículo e o Êxodo?

O eco existe e não é afirmado pelo texto. O deserto é, na memória de Israel, o lugar em que um povo faminto recebeu pão vindo do céu — e é nesse lugar despovoado que uma multidão será alimentada, nos versículos seguintes. Mateus não cita o Êxodo nem usa fórmula de cumprimento, mas a escolha do cenário produz a associação, e os primeiros leitores dificilmente deixariam de percebê-la.

9. Conexão com Outros Textos

Mateus 4:12Mas quando Jesus ouviu que João estava preso, voltou para a Galileia.

O paralelo mais forte, e é do próprio evangelista: mesmo verbo grego de retirar-se, e a mesma causa — uma notícia sobre João Batista. Ali ele fora preso; aqui, foi morto.

Mateus 2:13-14Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito... porque Herodes buscará o menino para o matar.

A primeira retirada do evangelho, com o mesmo verbo, diante de outro Herodes. O livro começa e continua com o mesmo movimento diante da mesma família.

Mateus 2:22Porém ao ouvir que Arquelau reinava na Judeia em lugar de seu pai Herodes, ele teve medo de ir para lá.

Outra ocorrência, e nela o texto nomeia expressamente o motivo: medo. Ajuda a medir o que o verbo carrega neste evangelho.

Mateus 12:14-15Então os fariseus saíram e se reuniram para planejar contra ele, como o matariam. Mas Jesus, sabendo disso, retirou-se dali.

O precedente mais próximo do ponto de vista do motivo. Ali a retirada é explicitamente resposta a um plano contra a própria vida.

Mateus 27:5Então ele lançou as moedas de prata no templo, saiu, e foi enforcar-se.

O mesmo verbo aplicado a Judas. Serve para lembrar que a palavra não carrega, por si, nenhuma virtude — descreve apenas a saída de uma situação.

Mateus 14:23Depois de despedir as multidões, subiu ao monte, à parte, para orar. Tendo chegado a noite, ele estava ali sozinho.

O que este versículo procurava e não conseguiu. A solidão pretendida aqui só se realiza dez versículos adiante, depois de um dia inteiro de trabalho.

Mateus 14:14Quando Jesus saiu, viu uma grande multidão. Ele se compadeceu deles, e curou dentre eles os enfermos.

O que aconteceu na interrupção. Não há queixa registrada, não há pedido para que se afastassem — há compaixão.

Mateus 3:1E naqueles dias veio João Batista, pregando no deserto da Judeia.

O deserto era o lugar de João. É a um lugar deserto que Jesus vai ao saber da morte dele.

Mateus 4:1Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo diabo.

O mesmo termo, em outro momento decisivo. No evangelho de Mateus, o lugar despovoado é cenário de coisas graves.

Marcos 6:31E ele lhes disse: Vinde vós à parte a um lugar deserto, e descansai um pouco; pois havia muitos que iam e vinham, e não tinham tempo para comer.

O relato paralelo dá outro motivo para a mesma travessia: o cansaço dos discípulos, que voltavam da missão. As duas explicações não se excluem, e cada evangelista escolheu a que servia ao seu relato.

Lucas 1:36E eis que Isabel, tua prima, também está grávida de um filho na sua velhice.

A única base para a ideia de que João era parente de Jesus. A palavra grega indica parentesco sem especificar o grau, e Mateus não menciona vínculo nenhum.

João 11:35Jesus chorou.

O contraste que mede o silêncio deste versículo. Os evangelhos registram emoção quando querem — aqui, não registram nada.

Mateus 26:37-38Ele começou a se entristecer e a se angustiar muito. Então lhes disse: Minha alma está completamente triste até a morte.

Outra medida do mesmo silêncio, agora dentro do próprio Mateus. O evangelista sabe descrever angústia, e escolheu não descrever nenhuma aqui.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Quando Jesus ouviu isso, retirou-se dali de barco para um lugar deserto, sozinho. Mas as multidões, ao saberem, saíram das cidades e o seguiram a pé.

Texto grego

Καὶ ἀκούσας ὁ Ἰησοῦς ἀνεχώρησεν ἐκεῖθεν ἐν πλοίῳ εἰς ἔρημον τόπον κατ’ ἰδίαν· καὶ ἀκούσαντες οἱ ὄχλοι ἠκολούθησαν αὐτῷ πεζῇ ἀπὸ τῶν πόλεων.

Transliteração

Kaì akoúsas ho Iēsoûs anechṓrēsen ekeîthen en ploíō eis érēmon tópon kat’ idían; kaì akoúsantes hoi óchloi ēkoloúthēsan autō pezē apò tōn póleōn.

Palavra por palavra

ἀκούσας (akoúsas) — "quando ouviu"

Particípio aoristo de akoúō, ouvir. É o mesmo verbo que abriu o capítulo, no versículo 1, com Herodes.

E ele reaparece na segunda metade deste próprio versículo, aplicado às multidões.

Três audições no mesmo capítulo, portanto, e três reações incompatíveis: pavor supersticioso, retirada, e caminhada.

ἀνεχώρησεν (anechṓrēsen) — "retirou-se"

Aoristo de anachōréō, composto de uma preposição que indica afastamento e de um verbo que significa dar lugar, mover-se. O sentido é retirar-se, afastar-se, sair de cena.

Não é o verbo comum de ir embora: designa a saída de uma situação, e não apenas de um lugar.

É praticamente uma assinatura de Mateus — nenhum outro escrito do Novo Testamento o usa tanto. E, em quase todas as ocorrências, aparece ligado a ameaça: a fuga para o Egito, a mudança para a Galileia por causa de Arquelau, a saída depois da prisão de João, a saída depois do plano dos fariseus, esta, e a de Judas no capítulo 27.

ἐκεῖθεν (ekeîthen) — "dali"

Advérbio de lugar: daquele lugar. Mateus o usa com frequência para marcar mudança de cena.

ἐν πλοίῳ (en ploíō) — "de barco"

Preposição com dativo e o substantivo que designa embarcação. Era o modo mais rápido de sair da margem povoada e chegar a uma vazia, num lago daquele tamanho.

εἰς ἔρημον τόπον (eis érēmon tópon) — "para um lugar deserto"

Preposição de direção mais adjetivo e substantivo. O adjetivo érēmos significa despovoado, abandonado, sem habitantes.

Não é deserto de areia. Designa a região sem aldeias — encosta, mato, campo aberto.

Vale registrar o peso da palavra neste evangelho: é no deserto que João Batista pregava, e é ao deserto que Jesus foi levado para ser tentado.

κατ’ ἰδίαν (kat’ idían) — "sozinho"

Expressão idiomática: literalmente "segundo o próprio", com o sentido de à parte, em separado, em particular.

Mateus a usa em outros lugares para indicar afastamento do grupo maior — quando Jesus sobe ao monte para orar, quando leva três discípulos ao alto, quando os discípulos o interrogam em particular.

Aqui indica a intenção de ficar sem companhia. E é justamente essa intenção que não se cumpre.

οἱ ὄχλοι (hoi óchloi) — "as multidões"

Substantivo no plural, com artigo. É a mesma palavra do versículo 5, onde estava no singular — a multidão cujo temor impedira o tetrarca de matar João.

ἠκολούθησαν (ēkoloúthēsan) — "o seguiram"

Aoristo de akolouthéō, seguir, acompanhar, ir atrás. É o verbo técnico do discipulado nos evangelhos — o mesmo empregado quando Jesus chama alguém para segui-lo.

Aqui, porém, descreve o movimento físico de uma multidão. Convém não sobrecarregar o termo: ele serve para as duas coisas, e o contexto indica deslocamento.

πεζῇ (pezē) — "a pé"

Advérbio derivado da palavra que significa pé. Indica o modo do deslocamento, em contraste com o barco.

É o detalhe que explica a mecânica da cena: ele atravessou a água, elas contornaram a margem caminhando.

ἀπὸ τῶν πόλεων (apò tōn póleōn) — "das cidades"

Preposição de origem mais substantivo no plural. Não é gente de uma aldeia só: é gente vindo de vários lugares.

Nota — a moldura do capítulo

Vale reunir o que o vocabulário de ouvir faz na composição do bloco.

O versículo 1 abre com Herodes ouvindo a fama de Jesus. Este versículo traz Jesus ouvindo a notícia da morte de João, e as multidões ouvindo para onde ele foi.

O bloco inteiro está emoldurado por audições, e a estrutura é evidente para quem lê o capítulo de uma vez.

Registro que Mateus não comenta a construção. Mas ela é dele: é o mesmo autor usando a mesma raiz nas três ocasiões.

Nota — o que Marcos dá como motivo

Convém registrar uma diferença entre os evangelhos, sem forçar harmonização.

Marcos, no relato paralelo, atribui a mesma travessia a outro motivo: os discípulos acabavam de voltar da missão, havia muita gente indo e vindo, e eles não tinham tempo nem para comer. Jesus então os convida a ir a um lugar deserto para descansar.

Mateus não menciona nada disso. Liga a retirada diretamente à notícia da morte de João.

As duas explicações não se excluem, e podem descrever o mesmo episódio a partir de interesses diferentes. Registro a diferença porque ela existe, e não vou dissolvê-la à força.

Nota textual

O versículo é estável nos manuscritos gregos. As edições divergem em detalhes menores de ordem de palavras e na presença de um pronome, sem efeito de sentido.

Uma observação de tradução: a expressão traduzida por "sozinho" significa, mais exatamente, "à parte" ou "em separado". A diferença é pequena e vale ser notada — o grego enfatiza o afastamento do grupo, e não a solidão como estado.

11. Conclusão

O capítulo se fecha com a mesma palavra que o abriu.

No versículo 1, Herodes ouviu. Aqui, Jesus ouve — e, na segunda metade da frase, as multidões também ouvem. Três audições, e três reações que não têm nada em comum.

O tetrarca ouve e conclui que um morto voltou para operar num vivo. Jesus ouve e vai embora. As multidões ouvem e caminham horas contornando um lago.

Nada disso estava na notícia. O que decidiu, em cada caso, foi quem a recebeu.

Sobre a reação de Jesus, convém dizer primeiro o que o texto não faz: ele não descreve emoção nenhuma. Nem dor, nem revolta, nem choque, nem lágrima. E isso é notável, porque os evangelhos registram sentimento em outros pontos sem nenhum pudor — inclusive este mesmo evangelho, que descreverá a angústia do Getsêmani em detalhe.

Aqui há apenas um gesto: entrou num barco e foi para um lugar sem gente. Ler luto nisso é razoável, e é leitura — a ligação entre a notícia e a partida é feita por quem lê.

O verbo empregado merece atenção, porque é quase uma assinatura de Mateus. Nenhum outro escrito do Novo Testamento o usa tanto, e em quase todas as ocorrências ele está ligado a ameaça: a fuga para o Egito, a mudança de território por causa de Arquelau, a saída depois que os fariseus planejaram matá-lo.

E — este é o dado mais forte — a saída registrada no capítulo 4, quando ele ouviu que João fora preso.

Duas notícias sobre o mesmo homem, dois afastamentos, o mesmo verbo. A correspondência não é do comentarista: é o próprio evangelista quem escolhe a mesma palavra nas duas ocasiões.

Isso levanta a pergunta que o versículo não resolve. A retirada é luto ou é prudência? A favor do luto pesa a proximidade da notícia, o destino escolhido e a expressão que indica intenção de ficar só. A favor da prudência pesa o padrão do verbo, o precedente do capítulo 12 e a situação concreta — o tetrarca acabara de executar um profeta popular e estava perguntando sobre ele.

Não é possível decidir, e talvez a pergunta esteja mal formulada. As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, e a vida raramente separa motivos com a limpeza que a interpretação gostaria.

Resta o destino, que prepara tudo o que vem depois. O lugar despovoado é, neste evangelho, onde João pregava e onde Jesus foi tentado. E será, dentro de poucos versículos, o cenário em que uma multidão faminta receberá pão em abundância — num eco que o texto não enuncia e que quem conhecia as Escrituras não deixaria de ouvir.

Vale notar a inversão que isso produz no capítulo. Num salão fechado, com convidados selecionados e mesa farta, serviu-se uma cabeça. Num lugar sem nada, com uma multidão sem convite, repartiu-se pão até sobrar. O evangelista põe as duas refeições lado a lado e não as compara.

Por fim, o que não deu certo.

Ele saiu para ficar só, e não conseguiu. Quando desembarcar, encontrará a multidão que contornou o lago a pé — e o versículo seguinte registrará compaixão, não queixa.

A solidão procurada aqui só se realizará no versículo 23, depois de um dia inteiro de trabalho feito por quem tinha saído justamente para não trabalhar.

E talvez seja esse o comentário mais honesto que o texto oferece sobre a interrupção: ele voltou a procurar, dez versículos adiante, exatamente o que procurava aqui.

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Mateus 14:13

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