Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão, teve compaixão dela e curou os que estavam doentes.
1. Introdução
Ele desembarca esperando silêncio e encontra uma multidão.
E a reação registrada não é cansaço nem irritação.
"Teve compaixão dela, e curou os que estavam doentes."
O verbo grego usado aqui é dos mais físicos da língua — descreve algo que se sente nas entranhas.
2. Contexto Histórico e Cultural
A palavra da compaixão
O verbo grego é notável e vale conhecê-lo.
Ele deriva do substantivo que designa as vísceras — os órgãos internos, o que hoje chamaríamos de entranhas.
Para os gregos, era ali que se localizavam as emoções profundas.
Traduzir por "teve compaixão" é correto e perde a força física. O sentido é de algo que revira por dentro.
Vale notar que, nos evangelhos, esse verbo aparece quase sempre com Jesus como sujeito — e sempre diante de multidões famintas, doentes ou perdidas.
O que ele viu
O texto diz que ele saiu e viu.
Não é abstração. Ele desembarca e olha para gente concreta — pessoas que andaram horas, carregando doentes.
A compaixão vem depois de ver, e não antes.
O que ele fez
Curou os doentes.
Mateus não registra pregação neste versículo. Marcos diz que ele começou a ensinar muitas coisas; Lucas menciona que falou do Reino.
Mateus escolhe registrar a cura.
O contraste com o capítulo
Vale notar onde esta cena está.
Dois versículos antes, um governante ordenou uma morte para não passar vergonha numa festa.
Aqui, um homem em luto atende doentes que atrapalharam o seu único dia de descanso.
O evangelista não compara. Coloca as duas coisas próximas.
3. Análise Teológica do Versículo
"Ao desembarcar"
A frase é curta e carrega o peso de tudo o que veio antes dela. Para senti-lo, é preciso lembrar por que ele estava naquele barco.
O versículo anterior informa: ao ouvir a notícia da execução de João, ele se retirou dali de barco para um lugar deserto, sozinho. A expressão grega traduzida por "sozinho" é kat' idían — literalmente "por conta própria", "à parte", a fórmula que os evangelhos usam para o afastamento deliberado, longe da multidão.
Havia, portanto, uma intenção declarada. Ele não estava viajando a trabalho nem mudando de cidade. Estava saindo de circulação.
O particípio que abre o versículo 14 é de exérchomai, sair. O movimento é o da saída do barco para a margem — e é o instante exato em que a intenção do versículo 13 se desfaz.
Vale medir a distância física envolvida, porque ela explica a cena. A travessia foi feita pela água, provavelmente da região de Cafarnaum para a margem nordeste do lago, perto de Betsaida. A multidão fez o mesmo trajeto a pé, contornando a ponta norte do lago — talvez dez ou doze quilômetros de caminhada, com doentes sendo carregados.
Marcos acrescenta que eles correram por terra e chegaram antes. Mateus não diz isso. Registro a diferença: o que Mateus escreve é apenas que, quando ele saiu, a multidão já estava lá.
E há um dado que a leitura devocional costuma inventar sem base. Mateus não escreve, em nenhum lugar deste capítulo, que Jesus estava triste pela morte de João. Não há verbo de emoção ligado a João. O que há é um verbo de movimento: ele se retirou.
O luto é uma leitura razoável e é leitura, não afirmação do texto. Registro como plausível, marcando que o evangelista não a enuncia. O que ele enuncia é a retirada — e uma retirada logo depois de uma notícia de execução fala por si.
"Jesus viu uma grande multidão"
O verbo é eîden, aoristo de horáō, ver. É ação pontual: houve um momento em que ele olhou.
O substantivo merece atenção maior do que costuma receber. O grego é óchlos, e a escolha não é neutra.
A língua grega tinha outras palavras disponíveis para conjunto de pessoas. Havia laós, o povo enquanto entidade religiosa — é a palavra que a versão grega do Antigo Testamento usa para Israel como povo de Deus. Havia dēmos, o corpo de cidadãos com direitos políticos, a raiz de "democracia". E havia óchlos: a massa, o ajuntamento, a gente amontoada sem organização.
Na literatura grega, óchlos costuma ter tom depreciativo. É a palavra dos oradores para a turba que não pensa, para o bando que atrapalha. O verbo aparentado significa incomodar, importunar — o que dá a medida da conotação.
Mateus usa esse termo cerca de cinquenta vezes, e quase sempre sem carga negativa. Mas o pano de fundo permanece: a palavra escolhida para a gente que ele atende é a palavra da gente sem estatuto.
Vale acompanhar o termo dentro do próprio capítulo, porque ele aparece três vezes em três posturas diferentes.
No versículo 5, Herodes queria matar João e não matou por medo da óchlos — a massa é obstáculo político, força que se calcula.
Aqui, no versículo 14, a mesma palavra é objeto de compaixão.
No versículo 15, os discípulos pedirão que a óchlos seja despedida — a massa é problema logístico, algo a resolver mandando embora.
A mesma palavra, três vezes, com três relações distintas: uma que teme, uma que se compadece, uma que dispensa. O evangelista não comenta a diferença. Ela está no vocabulário.
Há ainda um fundo social que o texto pressupõe e não enuncia. Aquela era gente do campo galileu — camponeses, pescadores, diaristas, gente que não tinha condições de cumprir com rigor as regras de pureza ritual, porque a vida de trabalho não permitia.
A literatura rabínica posterior chama esse estrato de 'am ha-'arets, "o povo da terra", com evidente desdém, e discute se se pode comer com eles, confiar no dízimo que declaram, dar-lhes a filha em casamento.
Convém marcar o limite com clareza, porque aqui se erra muito. Os textos rabínicos que trazem essas discussões são de séculos posteriores, e projetá-los sem cuidado sobre a Galileia dos anos trinta é anacronismo. Não é possível afirmar que essas regras específicas vigorassem ali naquele momento.
O que se pode afirmar, e já basta, é o seguinte: havia uma hierarquia religiosa entre quem podia manter a observância e quem não podia, e a multidão que caminhou pela margem do lago estava do lado de baixo dessa hierarquia. O próprio evangelho de Mateus registra a acusação de que ele comia com publicanos e pecadores — o que só faz sentido dentro de um sistema desses.
"teve compaixão dela"
Esta é a palavra do versículo, e ela é uma das mais estranhas do Novo Testamento.
O verbo grego é splanchnízomai. Deriva do substantivo splánchna, que designa as vísceras — o coração, os pulmões, o fígado, os rins, os intestinos. As partes internas do corpo.
É preciso entender o que esse substantivo significava concretamente, e não é bonito. Na prática religiosa grega, splánchna eram as vísceras do animal sacrificado: a parte que se assava e se comia na refeição do sacrifício, e a parte que os adivinhos examinavam para ler presságios.
Daí vem o dado que costuma passar despercebido. Nos textos gregos clássicos, o verbo splanchnízomai aparece com o sentido de comer as vísceras do sacrifício, ou de consultá-las. Como verbo de emoção, é praticamente inexistente no grego clássico.
Ou seja: o verbo que os evangelhos usam para a reação mais característica de Jesus não é um verbo grego comum para "compadecer-se". A língua tinha os seus termos usuais para isso — eleéō, ter misericórdia; oikteírō, apiedar-se; sympathéō, sofrer junto. Nenhum deles é o escolhido.
De onde veio, então, esse uso? Provavelmente do modo judaico de falar em grego, e é aí que a coisa fica interessante.
O hebraico localiza a compaixão no corpo, e no corpo por dentro. A palavra hebraica para misericórdia é rachamim, e ela vem de rechem, útero. Compaixão, em hebraico, tem raiz de ventre materno.
E há a palavra me'im, as entranhas, usada exatamente como órgão da emoção. Isaías clama a Deus perguntando onde estão o zelo e o comover-se das suas entranhas. Jeremias põe na boca de Deus a frase sobre Efraim: as minhas entranhas se comovem por ele, deveras me compadecerei. Nas Lamentações, o poeta diz que as suas entranhas se turbaram. E no julgamento de Salomão, a mãe verdadeira é identificada porque as suas entranhas se acenderam pelo filho.
Há ainda Oseias, no capítulo 11, com uma das frases mais impressionantes do Antigo Testamento: como te deixaria, ó Efraim? O meu coração se revolve dentro de mim, todas as minhas compaixões estão acesas.
Reúna-se isso, e o quadro fica claro. O grego oferecia palavras frias para a piedade; o hebraico oferecia um vocabulário de vísceras. O verbo dos evangelhos é o hebraico vestido de grego.
Na versão grega do Antigo Testamento, aparece uma forma aparentada em Provérbios, num versículo que diz que quem se compadece alcançará misericórdia. É o precedente mais próximo, e é discutido o quanto ele já traz o sentido pleno que os evangelhos dão à palavra.
Vale agora percorrer onde o verbo aparece no Novo Testamento, porque a lista é curta e o padrão é notável.
São doze ocorrências, todas nos três primeiros evangelhos. Nenhuma nas cartas, nenhuma no evangelho de João, nenhuma no Apocalipse.
Em Mateus: diante das multidões desgarradas como ovelhas sem pastor; aqui; diante da multidão de quatro mil que estava havia três dias sem comer; e diante de dois cegos à beira do caminho.
Em Marcos: diante de um leproso; na cena paralela a esta; e diante da multidão faminta.
Em Lucas: diante de uma viúva que enterrava o filho único.
Sobram três, e são as mais reveladoras, porque não são narrativas: são parábolas.
Na parábola do rei que acerta contas, o servo deve uma quantia impagável e é condenado com a família à venda. Pede prazo. O senhor, diz o texto, moveu-se de compaixão — e não dá prazo: perdoa a dívida inteira.
Na parábola do samaritano, dois homens religiosos passam pelo ferido e desviam. O terceiro, o estrangeiro desprezado, vê e move-se de compaixão. Todo o resto da história — o óleo, o vinho, o animal, a hospedaria, o dinheiro — sai daquele verbo.
Na parábola do filho pródigo, o pai avista o filho ainda longe e move-se de compaixão. Depois disso é que corre, abraça, beija, e interrompe o discurso decorado do rapaz.
Repare no que essas três têm em comum. Em todas, quem sente é a figura que representa Deus na história. E em todas, o verbo é a dobradiça da trama: é ali que o enredo vira.
Há uma única ocorrência em que o sujeito não é Jesus nem uma figura divina de parábola. Em Marcos, o pai de um menino doente pede: se podes alguma coisa, tem compaixão de nós e ajuda-nos. É pedido, não descrição — o homem está justamente solicitando aquilo que o verbo nomeia.
A consequência teológica disso merece ser dita devagar.
Os evangelhos não definem a misericórdia de Deus em termos abstratos. Não há, neles, um tratado sobre os atributos divinos. O que há é um verbo de vísceras, aplicado a um homem que olha para gente concreta, e aplicado às figuras paternas e reais das parábolas.
Ou seja: a resposta divina à miséria humana é apresentada como reação física, não como decisão administrativa. Não é um deferimento. É um revirar-se por dentro.
Agora o limite, e ele é importante para não vender gato por lebre.
Há um erro comum na divulgação bíblica, o de tratar a etimologia de uma palavra como se fosse o seu significado. Palavras se desgastam. Em português dizemos "sinceramente" sem pensar em cera, e "desastre" sem pensar em astro.
É perfeitamente possível que, no grego do primeiro século, splanchnízomai já funcionasse como um verbo comum para apiedar-se, com a força visceral apagada pelo uso. Não é possível decidir isso com segurança, e quem afirma categoricamente que todo leitor antigo sentia as entranhas ao ler a palavra está afirmando mais do que se pode provar.
O que sobrevive à ressalva, e sobrevive inteiro, é outra coisa: a escolha do termo. Os autores dos evangelhos tinham palavras usuais à disposição e usaram esta, repetidamente, e quase só para ele. Isso é dado, não interpretação.
Há ainda um detalhe gramatical que vale registrar com cuidado. A forma esplanchnísthē é morfologicamente passiva: "foi movido nas entranhas".
Convém não construir castelo sobre isso. O verbo é do tipo que os gramáticos chamam depoente — tem forma passiva e sentido ativo, como acontece com vários verbos gregos de emoção. A forma passiva, portanto, não prova por si que o autor quisesse indicar passividade.
Mas o sentido do verbo e a forma dele apontam para o mesmo lugar, e isso é digno de nota: compaixão, aqui, é algo que acontece com alguém, e não algo que alguém resolve fazer.
Por fim, a preposição. O texto diz que ele se compadeceu ep' autoîs, sobre eles. A compaixão é descrita como algo que se derrama sobre um grupo, e não como sentimento voltado para dentro de quem sente.
"e curou os que estavam doentes"
O verbo é therapeúō, e ele é a raiz da nossa palavra "terapia". O sentido primeiro, porém, não é médico: é servir, cuidar, prestar atenção a alguém.
No grego comum, therapeúō descrevia o serviço de um escravo ao senhor, o cuidado com um doente, e também o culto prestado a uma divindade — atender ao deus, servir no templo. O substantivo aparentado designava tanto o tratamento quanto a criadagem de uma casa.
Vale reparar no que a escolha implica. O grego tinha o verbo iáomai, que é o termo propriamente médico, e o substantivo iatrós, médico — que sobrevive em "pediatra" e "psiquiatra". Os evangelhos usam iáomai algumas vezes, mas preferem largamente o outro.
Ou seja: o vocabulário dominante para as curas de Jesus é o do serviço prestado, e não o do procedimento técnico. É uma diferença de enquadramento, e ela é dado do texto.
O objeto da cura é dito com precisão: toùs arrṓstous autōn, "os doentes deles". O adjetivo árrōstos é formado por negação sobre o verbo que significa ter força — literalmente, os sem força, os debilitados.
É palavra rara: aparece cinco vezes no Novo Testamento, e é notável que uma delas seja o relato de Nazaré, em Marcos, onde se diz que ele não pôde fazer ali maravilha alguma, senão que curou uns poucos arrṓstous. A mesma palavra marca o lugar onde muitos são atendidos e o lugar onde quase ninguém é.
Repare também no possessivo: os doentes deles. Não são doentes soltos no mundo; são os enfermos daquela multidão, trazidos por ela. Alguém decidiu levá-los e alguém os carregou pela margem do lago. O texto não diz uma palavra sobre essas pessoas, mas elas estão pressupostas na frase.
O que este versículo é, do ponto de vista literário
Convém registrar, com honestidade, o tipo de texto que se está lendo, porque isso afeta o que se pode extrair dele.
O versículo não narra uma cura. Narra que houve curas — no plural, sem nome, sem doença especificada, sem diálogo, sem descrição de gesto, sem reação de ninguém.
Os estudiosos chamam esse tipo de trecho de sumário: uma frase que condensa um período inteiro de atividade e serve de ligação entre episódios narrados em detalhe. Mateus tem vários, e este é um deles.
Isso tem duas consequências que vale enunciar.
A primeira é interpretativa: não se deve procurar aqui o que o texto não pretende dar. Quem quiser saber como Jesus curava precisa ir aos episódios detalhados, não a este.
A segunda é histórica, e mais delicada. Sumários como este são o tipo de material sobre o qual há mais debate entre os historiadores, justamente porque não trazem detalhe verificável. Não é possível decidir, a partir de uma frase assim, o que exatamente aconteceu naquela margem.
Registro isso não para diminuir o texto, e sim porque a alternativa — tratar um sumário como se fosse um relatório — é ruim para os dois lados. O que o versículo oferece não é documentação clínica. É o retrato de uma disposição.
O que a cena pressupõe sobre crença
Vale expor o que aquela multidão evidentemente pensava, porque o texto conta com isso sem discutir.
Aquela gente andou horas carregando doentes até uma margem deserta. Ninguém faz isso por curiosidade. Faz-se isso quando se acredita que a doença pode ser revertida por um homem — e que aquele homem em particular pode fazê-lo.
É a mesma convicção que reaparece no fim deste capítulo, e ali de forma ainda mais explícita: em Genesaré, trazem-lhe todos os enfermos e rogam apenas que possam tocar a barra da sua roupa, e os que tocam ficam curados.
Repare no que essa segunda cena pressupõe. Não é só que ele cura: é que a cura passa pelo contato com o tecido da veste, sem palavra, sem pedido dirigido, sem que ele decida caso a caso. É a mesma lógica da mulher que, capítulos antes, toca a orla da roupa dele por trás, pensando que basta tocar.
Há aí uma concepção de santidade que funciona quase como propriedade física, transmissível pelo contato. Ela não é estranha ao mundo antigo, e não é estranha ao Antigo Testamento — as regras do Levítico tratam a impureza exatamente assim, como algo que se transmite pelo toque, e há o episódio dos ossos de Eliseu, em que um morto revive ao encostar neles.
Convém dizer o que se pode e o que não se pode concluir disso. O texto não avalia essa crença. Não a corrige e não a endossa em palavras: registra que as pessoas pensavam assim e registra que foram curadas.
Quem quiser sustentar que a fé daquela gente era supersticiosa terá de explicar por que o texto não a repreende. Quem quiser sustentar que o contato físico transmite poder terá de lidar com o fato de que, na maioria das curas dos evangelhos, o que opera é a palavra, e não o objeto.
Não há como decidir isso pelo versículo. O que há é a constatação de que a cena inteira depende de uma expectativa que o evangelista considera normal, e que a leitura moderna costuma apagar sem perceber.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus — desembarca, vê, sente e cura; nenhuma reação de irritação é registrada.
A multidão — grande, já esperando na margem depois de caminhar.
Os doentes — parte da multidão; foram carregados quilômetros para chegar ali.
O verbo da compaixão — derivado do substantivo que designa as vísceras; emoção sentida no corpo.
A ordem dos fatos — ele vê primeiro, e a compaixão vem depois de ver.
O evento — o atendimento que acontece no dia em que ele queria ficar sozinho.
5. Pontos de Ensino
Ele esperava silêncio e achou multidão. E não reagiu com irritação.
O verbo é físico. Vem da palavra que designa as entranhas.
A compaixão vem depois de ver. Ele desembarca, olha, e então sente.
Curou os doentes. Mateus registra a cura, não a pregação.
Nem todos estavam doentes. Ele atende os que estavam.
Dois versículos antes, um rei matava por vergonha. O contraste está no mesmo capítulo.
A palavra é hebraica vestida de grego. O grego tinha termos próprios para a piedade e nenhum foi usado; o que se emprega vem do modo judaico de localizar a compaixão nas vísceras.
Doze ocorrências, nenhuma nas cartas. O verbo só aparece nos três primeiros evangelhos — em Jesus e nas figuras que representam Deus nas parábolas.
Nas parábolas, é ali que a história vira. O rei perdoa a dívida, o samaritano socorre, o pai corre — tudo depois do verbo.
Curar, aqui, é servir. O verbo grego é o de prestar serviço e cuidado, e não o termo técnico da medicina.
Mateus não diz que ele estava de luto. Diz que se retirou. O resto é leitura, e vale marcá-la como leitura.
É um sumário, não um relato. Não há nome, doença nem gesto descrito — o texto condensa, e convém não pedir a ele o que não pretende dar.
6. Aspectos Filosóficos
Uma palavra que dói
Vale conhecer o verbo, porque ele é dos mais expressivos do Novo Testamento.
O grego usa um verbo derivado do substantivo que designa as vísceras — o coração, os pulmões, o fígado, os intestinos. Aquilo que está dentro do corpo.
Na cultura antiga, era ali que se localizavam as emoções profundas, do mesmo modo que nós localizamos no coração.
Traduzir por "teve compaixão" está correto e é insuficiente. O sentido literal é algo como: as entranhas dele se reviraram.
É reação corporal, não decisão intelectual.
Vale notar onde esse verbo aparece nos evangelhos. Quase sempre com Jesus como sujeito, e sempre diante de gente em necessidade concreta — multidões sem pastor, um leproso, uma viúva enterrando o filho único, dois cegos, e o pai da parábola ao ver o filho voltando de longe.
Não é palavra usada para sentimento genérico. É usada quando alguém olha para o sofrimento de outro e sente aquilo no corpo.
O que a compaixão exige antes
Vale reparar na ordem das ações neste versículo.
Ele saiu. Ele viu. Ele se compadeceu. Ele curou.
A compaixão não vem primeiro. Vem depois de ver.
Isso parece óbvio e não é. É perfeitamente possível estar diante de uma multidão e não ver ninguém — registrar uma massa, um problema logístico, um contratempo.
Foi o que os discípulos fizeram, e o versículo 15 mostrará: eles olharam para a mesma multidão e viram um problema a ser despachado.
Duas pessoas olham para a mesma cena. Uma vê gente; a outra vê complicação.
A diferença não está nos olhos. Está no que se está disposto a deixar entrar.
Compaixão em dia ruim
Convém situar o que este versículo tem de difícil.
Jesus acabara de saber que João fora decapitado. Tinha pegado um barco para ficar sozinho. Desembarca e encontra milhares de pessoas esperando.
Qualquer pessoa entenderia uma reação de cansaço. Ninguém o acusaria de nada se ele tivesse pedido um dia.
O texto não registra nada disso.
E vale dizer com cuidado o que isso significa e o que não significa.
Não significa que a dor dele não fosse real, nem que estivesse acima do luto. O versículo 23 mostrará que, assim que possível, ele subiu ao monte sozinho — o retiro aconteceu, apenas mais tarde.
Significa que, entre a própria dor e a necessidade que estava na frente dele, ele atendeu a necessidade primeiro e guardou a dor para depois.
Convém não transformar isso em regra geral. Há gente que se anula sistematicamente, e o resultado não é santidade — é adoecimento.
O que o texto mostra é uma escolha pontual, num dia específico, com o retiro sendo apenas adiado, e não cancelado.
Curar quem atrapalhou
Uma observação sobre o objeto da ação.
As pessoas que ele cura são exatamente as que estragaram o plano dele.
Foram elas que descobriram para onde ele tinha ido, que saíram de várias cidades, que andaram quilômetros contornando o lago e que estavam esperando quando o barco encostou.
E são elas que ele atende.
Vale registrar isso sem sentimentalismo: não há indicação de que ele tenha gostado da interrupção. O texto não diz que ficou feliz em vê-los.
Diz que sentiu, e que curou.
São coisas diferentes de gostar. Compaixão não exige que a pessoa seja conveniente.
O que Mateus escolheu registrar
Uma última observação sobre as diferenças entre os evangelhos.
Marcos, no paralelo, diz que Jesus teve compaixão porque eram como ovelhas sem pastor, e que começou a ensinar-lhes muitas coisas.
Lucas diz que falou do Reino e curou os que precisavam.
Mateus registra a cura, e não menciona ensino.
Não é contradição — os três podem ter acontecido, e cada evangelista destaca o que serve ao seu propósito.
Vale notar, porém, a ênfase de Mateus. No capítulo em que um homem morreu por causa de uma festa, o que se registra do outro lado não é discurso.
É gente sendo curada.
O que a cura significava ali
Vale considerar o que estava em jogo quando o texto diz que ele curou os doentes.
Naquele mundo não havia medicina no sentido que damos hoje. Doença crônica significava, na prática, exclusão: o doente não trabalhava, dependia da família, e em alguns casos era afastado do convívio por razões religiosas.
Curar não devolvia apenas a saúde. Devolvia a possibilidade de trabalhar, de participar do culto, de andar entre as pessoas.
E vale lembrar de onde aqueles doentes vieram: foram carregados por quilômetros, por parentes e vizinhos, contornando um lago.
Alguém precisou decidir levá-los. Alguém carregou.
O texto não registra nada sobre essas pessoas — os que carregaram não aparecem. Mas eles estão implícitos na cena, e vale notá-los.
Cura e alimento
Uma observação sobre a sequência do capítulo.
Ele cura no versículo 14 e alimenta no 19.
São duas necessidades diferentes, atendidas no mesmo dia e no mesmo lugar.
Vale notar que a segunda não foi pedida por ninguém. Os doentes foram trazidos; a fome, ninguém mencionou até que os discípulos a levantassem como problema logístico.
Ou seja: uma necessidade veio até ele, e a outra ele resolveu sem que lhe pedissem.
Duas emoções no mesmo capítulo
Vale colocar lado a lado duas reações emocionais que Mateus registra a poucas linhas de distância, porque a comparação é instrutiva.
No versículo 9, diante do pedido da cabeça de João, o texto diz que o rei ficou triste. O verbo grego é o da aflição, do pesar — e não há razão para duvidar de que a tristeza fosse real.
Só que ela não produziu nada. O rei ficou triste e mandou executar.
Aqui, cinco versículos adiante, há outra emoção, e ela produz cura.
A diferença não está na intensidade do sentimento — não há como medir isso, e o texto não tenta. Está no que veio depois. Uma emoção ficou onde nasceu; a outra atravessou para o gesto.
É um bom critério, e é incômodo: sentir alguma coisa diante do sofrimento alheio não distingue ninguém. Herodes sentiu. O que distingue é o que a pessoa faz nos cinco minutos seguintes.
O problema da escala
Convém encarar uma dificuldade real que este versículo levanta e não resolve.
A compaixão descrita aqui é dirigida a uma multidão — o texto usa a palavra da massa, não o nome de ninguém. E, no entanto, o verbo é o das entranhas, que é a palavra do sentimento diante de uma pessoa concreta.
Há uma tensão nisso, e ela é conhecida de qualquer pessoa que já tentou se importar com um número grande. Diante de uma criança faminta, sente-se algo. Diante da estatística de milhões de crianças famintas, sente-se pouco ou nada — e isso não é cinismo, é limitação do aparelho humano.
O texto não explica como se sente nas entranhas por cinco mil pessoas. Registra que aconteceu, e passa adiante.
O que se pode observar é o método que vem a seguir, no restante do capítulo: a multidão será feita sentar em grupos, o alimento será distribuído por doze pares de mãos, e o atendimento acontecerá pessoa a pessoa. A massa é partida em porções manejáveis.
Registro isso como leitura, e não como afirmação do texto: o modo de agir diante de um número grande parece ser transformá-lo em números pequenos. Não há no versículo nenhuma frase que diga isso — há a narrativa que faz isso.
Ninguém agradece
Uma observação sobre o que o relato não contém.
Não há, em todo o episódio, uma única palavra de gratidão. Ninguém curado diz nada. Ninguém volta para agradecer. Não há reação da multidão registrada — nem aplauso, nem espanto, nem fé confessada.
A ausência é notável porque Mateus sabe registrar essas coisas quando quer: em outras curas, ele anota que a fama se espalhou, que as multidões se maravilharam, que glorificaram a Deus.
Aqui, nada. Ele curou, e o versículo seguinte já traz os discípulos preocupados com o jantar.
Vale extrair disso uma consequência sóbria. O gesto não é apresentado como investimento com retorno. É apresentado como coisa feita, encerrada na frase em que é dita.
Quem só consegue ajudar mediante reconhecimento vai encontrar aqui um exemplo desconfortável: a narrativa nem se dá ao trabalho de informar como o atendimento foi recebido.
7. Aplicações Práticas
Ver vem antes de sentir
A ordem no versículo é precisa: ele saiu, viu, se compadeceu, curou. A compaixão não vem primeiro — vem depois de ver.
É perfeitamente possível estar diante de uma multidão e não ver ninguém, registrando apenas uma massa ou um problema logístico. Foi o que os discípulos fizeram: olharam para a mesma gente e viram um contratempo a despachar.
Se você anda insensível a algo que deveria mover você, o problema provavelmente não é falta de sentimento. É que você parou de olhar. Chegue perto de uma situação concreta, com nome e rosto, e veja o que acontece.
Compaixão é física, não conceitual
O verbo grego deriva do substantivo que designa as vísceras. O sentido literal é que as entranhas se reviraram — reação do corpo, não decisão intelectual. E nos evangelhos ele aparece sempre diante de necessidade concreta: um leproso, uma viúva enterrando o filho, cegos, multidões famintas.
Não é palavra para sentimento genérico sobre o sofrimento do mundo.
Repare na diferença entre lamentar uma estatística e sentir algo no corpo diante de uma pessoa. A primeira não move ninguém; a segunda é o que faz alguém atravessar a rua. Se quiser ser movido, aproxime-se do particular.
Adiar a própria dor não é anular-se
Jesus tinha acabado de saber da decapitação de João e queria ficar só. Desembarcou, encontrou milhares esperando, e atendeu. Ninguém o acusaria de nada se tivesse pedido um dia.
Mas o versículo 23 mostrará que o retiro aconteceu — apenas mais tarde. Foi adiado, não cancelado.
Convém não transformar isso em regra geral: há gente que se anula sistematicamente, e o resultado não é santidade, é adoecimento. A diferença está em adiar com data ou abandonar de vez. Se você vive adiando o próprio cuidado sem nunca chegar a hora, não está seguindo esse exemplo.
Compaixão não exige que a pessoa seja conveniente
As pessoas que ele cura são exatamente as que estragaram o plano dele — foram elas que descobriram para onde ele ia, andaram quilômetros e estavam esperando quando o barco encostou.
E o texto não diz que ele gostou da interrupção nem que ficou feliz em vê-los. Diz que sentiu, e que curou. São coisas diferentes de gostar.
Isso libera você de uma exigência falsa: para ajudar alguém, não é preciso achar a pessoa agradável nem a hora oportuna. Sentir e agir bastam, e o resto é literatura.
Atenda quem está na frente
Ele não organizou uma comissão, não marcou para outro dia, não pediu triagem. Desembarcou e atendeu os doentes que estavam ali.
Havia gente carregada por quilômetros esperando na margem — o problema estava definido e presente.
Quando você quiser ajudar e não souber por onde, pare de procurar a melhor causa e olhe para quem está na sua frente. A necessidade que chegou até você já vem com endereço, o que é mais do que a maioria das boas intenções consegue.
Repare no que cada relato escolhe destacar
Marcos diz que Jesus ensinou muitas coisas; Lucas, que falou do Reino e curou; Mateus registra a cura e não menciona ensino. Não é contradição — os três podem ter acontecido, e cada um destaca o que serve ao seu propósito.
No capítulo em que um homem morreu por causa de uma festa, o que Mateus registra do outro lado não é discurso: é gente sendo curada.
Vale ao ouvir versões diferentes de um mesmo fato: em vez de perguntar qual está certa, pergunte o que cada narrador quis destacar. Isso costuma ensinar mais sobre o assunto do que a caça à versão verdadeira.
Curar devolvia mais do que saúde
Naquele mundo, doença crônica significava exclusão: o doente não trabalhava, dependia da família, e em alguns casos era afastado do convívio por razões religiosas. Curar devolvia a possibilidade de trabalhar, de participar do culto, de andar entre as pessoas.
O que estava em jogo não era apenas o corpo.
Vale ao pensar em quem ajudar: pergunte o que a pessoa recupera junto com o problema resolvido. Um emprego devolve rotina e lugar social; um transporte devolve autonomia. O efeito costuma ser maior do que o item.
Repare em quem carregou
Aqueles doentes não chegaram sozinhos. Foram carregados por quilômetros, contornando um lago, por parentes e vizinhos. Alguém decidiu levá-los, alguém carregou — e o texto não registra nada sobre essas pessoas.
Elas estão implícitas na cena e não aparecem no relato.
Em toda história de superação há gente que carregou e não é mencionada. Se você é quem foi ajudado, procure nomeá-las. Se é quem carrega, saiba que a ausência do seu nome no relato não diminui o que você fez.
Sentir sem fazer não distingue ninguém
No mesmo capítulo, o rei fica triste e manda executar. A tristeza dele provavelmente era real — o texto não sugere fingimento. Só que ela morreu onde nasceu.
Cinco versículos depois, outra emoção aparece, e dela sai cura para gente que estava doente. A diferença não está na intensidade do que se sentiu, e sim no que veio depois.
Vale como exame pessoal: a próxima vez que alguma injustiça ou sofrimento comover você, marque o que aconteceu nas horas seguintes. Se a resposta for "nada", o sentimento foi consumo, não compaixão. O critério é chato, e é honesto.
Divida o número grande
Compadecer-se de uma multidão é quase impossível na prática — o aparelho humano sente diante de rostos, e não diante de estatísticas. Diante de um doente, alguém se move; diante de "os doentes", raramente.
Repare no que a narrativa faz em seguida: manda a multidão sentar em grupos, distribui o alimento por doze pares de mãos, atende pessoa a pessoa. O número grande vira números pequenos.
Se uma causa parece grande demais para você agir, provavelmente o problema não é falta de vontade: é que você está olhando para o total. Escolha uma pessoa, uma rua, um mês. A escala manejável é a única em que a compaixão vira gesto.
Faça sem contar com o retorno
Não há uma palavra de gratidão em todo o episódio. Ninguém curado agradece, ninguém volta, a multidão não reage. E Mateus sabe registrar reações quando existem — em outras curas ele anota o espanto e a fama que se espalha.
Aqui, nada. Ele cura, e a cena seguinte já é sobre o jantar.
Isso serve de vacina contra um vício comum: ajudar esperando reconhecimento, e ficar ressentido quando ele não vem. Se o gesto só se sustenta com agradecimento, ele não estava de pé. Faça e siga, como o texto faz.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O que significa exatamente "teve compaixão"?
O verbo grego deriva do substantivo que designa as vísceras — os órgãos internos, onde a cultura antiga localizava as emoções profundas. O sentido literal é que as entranhas dele se reviraram. É reação corporal, não decisão intelectual.
Esse verbo é comum no Novo Testamento?
Não é frequente, e quase sempre aparece com Jesus como sujeito — diante de multidões sem pastor, de um leproso, de uma viúva enterrando o filho único, de dois cegos. E também na parábola do filho pródigo, quando o pai vê o filho de longe. Sempre diante de necessidade concreta.
Por que o texto diz que ele viu antes de se compadecer?
Porque a ordem importa: saiu, viu, compadeceu-se, curou. É possível estar diante de uma multidão e não ver ninguém — registrar uma massa ou um problema logístico. É o que os discípulos farão no versículo seguinte, olhando para a mesma gente e vendo um contratempo.
Ele não estava de luto?
Estava. Tinha acabado de saber da decapitação de João e pegara um barco para ficar sozinho. O que o texto mostra é que ele atendeu primeiro a necessidade que estava na frente e guardou a dor para depois — o versículo 23 registra o retiro acontecendo à noite. Foi adiado, não cancelado.
Isso significa que devemos sempre nos anular pelos outros?
O texto não formula regra. Mostra uma escolha pontual, num dia específico, com o retiro apenas adiado. Convém não generalizar: há quem se anule sistematicamente, e o resultado não é santidade, é adoecimento.
Por que Mateus não menciona o ensino?
Marcos diz que ele ensinou muitas coisas e Lucas que falou do Reino. Não é contradição — os três podem ter acontecido, e cada evangelista destaca o que serve ao seu propósito. No capítulo em que um homem morreu por causa de uma festa, Mateus registra do outro lado gente sendo curada.
Esse verbo da compaixão existia no grego comum?
Como verbo de emoção, quase não. Nos textos gregos clássicos ele aparece ligado ao sacrifício — comer ou examinar as vísceras do animal. A língua tinha outros termos usuais para apiedar-se, e nenhum deles é o escolhido pelos evangelhos. O uso emocional provavelmente vem do modo judaico de falar grego, já que em hebraico a misericórdia é nomeada por uma palavra de ventre materno e as entranhas são o órgão do comover-se.
Não é exagero tirar tanto da etimologia de uma palavra?
A ressalva é justa e precisa ser feita. Palavras se desgastam, e é possível que no primeiro século o termo já funcionasse como um "apiedar-se" qualquer. Não é possível decidir isso. O que não depende de etimologia é a escolha do vocabulário: havia alternativas correntes e esta palavra foi usada, doze vezes, quase sempre para ele.
Por que a palavra usada para a multidão tem tom depreciativo?
Porque o grego óchlos designa a massa amontoada, sem organização nem estatuto — distinta do povo enquanto entidade religiosa e do corpo de cidadãos. É a palavra dos oradores para a turba. Vale seguir o termo dentro do capítulo: no versículo 5 a massa é obstáculo que se teme, aqui é objeto de compaixão, no 15 é problema que se despacha.
O que significa dizer que este versículo é um sumário?
Significa que ele não narra um episódio: condensa um período. Não há nome, doença, gesto, diálogo nem reação. Mateus tem vários trechos assim, e eles servem de costura entre as cenas detalhadas. A consequência prática é que não se deve pedir a este versículo o que ele não pretende dar — e que, historicamente, frases assim são as que menos permitem verificação.
Por que "curou" e não outro verbo?
O grego usado é o verbo de servir, cuidar, atender — o mesmo empregado para o serviço prestado num templo, e raiz da nossa palavra "terapia". A língua tinha o termo propriamente médico, e os evangelhos preferem largamente este. O enquadramento, portanto, é o do serviço prestado, e não o do procedimento técnico.
O que aquela multidão acreditava, para caminhar tanto?
Que a doença podia ser revertida por um homem, e que aquele homem podia fazê-lo. O fim deste mesmo capítulo torna a crença ainda mais explícita: em Genesaré, pedem apenas para tocar a barra da roupa dele, e os que tocam são curados. Há aí uma ideia de santidade que se transmite pelo contato, parente do modo como o Levítico trata a impureza. O texto registra essa expectativa sem avaliá-la — não a corrige nem a comenta.
Por que ninguém agradece no relato?
O texto não explica, e a ausência chama atenção porque Mateus registra reações quando elas existem. Aqui não há espanto, aplauso nem gratidão: curou, e o versículo seguinte já trata do jantar. Registro como observação, não como tese — o efeito, seja intencional ou não, é apresentar o gesto como coisa encerrada em si mesma.
9. Conexão com Outros Textos
Mateus 9:36 — E, vendo as multidões, teve grande compaixão delas, porque andavam desgarradas e errantes, como ovelhas que não têm pastor.
O mesmo verbo, com o motivo explicitado.
Marcos 6:34 — E Jesus, saindo, viu uma grande multidão... e começou a ensinar-lhes muitas coisas.
O paralelo, que destaca o ensino.
Lucas 7:13 — E, vendo-a, o Senhor moveu-se de íntima compaixão por ela, e disse-lhe: Não chores.
O mesmo verbo diante de uma viúva enterrando o filho único.
Lucas 15:20 — E, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão.
O mesmo verbo na parábola, com a mesma sequência: viu e sentiu.
Mateus 14:15 — Despede a multidão, para que vão pelas aldeias, e comprem comida para si.
O contraste imediato: os discípulos veem a mesma multidão e propõem despachá-la.
Mateus 14:23 — Subiu ao monte para orar à parte.
O retiro que aconteceu, apenas mais tarde.
Mateus 15:32 — E Jesus, chamando os seus discípulos, disse: Tenho íntima compaixão da multidão, porque já está comigo há três dias e não tem o que comer.
O mesmo verbo, na segunda multiplicação, e aqui com o motivo dito por ele mesmo.
Mateus 20:34 — Então Jesus, movido de íntima compaixão, tocou-lhes nos olhos, e logo viram.
O mesmo verbo diante de dois cegos à beira do caminho, e de novo o gesto vem imediatamente depois.
Marcos 1:41 — E Jesus, movido de grande compaixão, estendeu a mão, e tocou-o, e disse-lhe: Quero, sê limpo.
Diante de um leproso — alguém de quem a lei mandava manter distância. A compaixão produz justamente o toque proibido.
Mateus 18:27 — Então o senhor daquele servo, movido de íntima compaixão, soltou-o, e perdoou-lhe a dívida.
Na parábola, o verbo é a dobradiça: o servo pediu prazo e recebeu perdão integral.
Lucas 10:33 — Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão.
Dois homens religiosos já haviam passado e desviado. Todo o resto da parábola sai deste verbo.
Jeremias 31:20 — Não é Efraim para mim um filho precioso? Por isso se comovem por ele as minhas entranhas; deveras me compadecerei dele, diz o Senhor.
O vocabulário hebraico que está por trás do verbo grego: as entranhas como órgão do comover-se de Deus.
Oseias 11:8 — Como te deixaria, ó Efraim? O meu coração se revolve dentro de mim, todos os meus arrependimentos juntamente estão acesos.
A mesma linguagem visceral, aplicada à hesitação de Deus diante do castigo.
Mateus 14:36 — E rogavam-lhe que ao menos pudessem tocar a orla do seu vestido; e todos os que a tocavam ficavam sãos.
O fim do mesmo capítulo, e a crença que a cena de agora pressupõe sem enunciar.
Marcos 6:5 — E não podia fazer ali obra maravilhosa alguma; somente curou alguns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos.
A mesma palavra para "enfermos" que aparece aqui — marcando o lugar onde muitos são atendidos e o lugar onde quase ninguém é.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão, teve compaixão dela e curou os que estavam doentes.
Texto grego
καὶ ἐξελθὼν εἶδεν πολὺν ὄχλον, καὶ ἐσπλαγχνίσθη ἐπ᾽ αὐτοῖς καὶ ἐθεράπευσεν τοὺς ἀρρώστους αὐτῶν
Transliteração
kaì exelthṑn eîden polỳn óchlon, kaì esplanchnísthē ep' autoîs kaì etherápeusen toùs arrṓstous autōn
Palavra por palavra
ἐξελθὼν (exelthṑn) — "tendo saído"
Particípio do verbo sair. Do barco para a margem.
εἶδεν (eîden) — "viu"
Aoristo do verbo ver. Ação pontual.
É o primeiro dos quatro verbos da sequência, e o que torna os outros possíveis.
πολὺν ὄχλον (polỳn óchlon) — "grande multidão"
O mesmo substantivo usado no versículo 5, quando Herodes temia a multidão.
Vale a coincidência: a massa que um governante teme é a mesma que aqui é atendida.
ἐσπλαγχνίσθη (esplanchnísthē) — "compadeceu-se"
Aqui está a palavra central.
O verbo deriva de splánchna, substantivo que designa as vísceras — as entranhas, os órgãos internos.
Em português, a mesma raiz sobrevive em termos médicos como "esplênico", relativo ao baço.
O grego clássico usava splánchna tanto para as vísceras do sacrifício quanto, metaforicamente, para a sede das emoções mais fortes.
A forma verbal está na voz passiva, o que reforça o caráter involuntário: ele foi movido nas entranhas.
Não é escolha deliberada de sentir. É algo que acontece com quem olha.
ἐθεράπευσεν (etherápeusen) — "curou"
Do verbo therapeúō, servir, cuidar, tratar — raiz de "terapia".
Vale notar que o sentido original é o de cuidar, servir. A cura é entendida como serviço prestado, e não como demonstração de poder.
τοὺς ἀρρώστους αὐτῶν (toùs arrṓstous autōn) — "os doentes deles"
O adjetivo significa sem força, débil, enfermo.
Note-se o possessivo: os doentes deles. São os enfermos daquela multidão — carregados por parentes e vizinhos ao longo da caminhada.
Nota — quatro verbos e uma ordem
Vale fechar observando a cadeia de ações, porque ela é uma pequena lição de método.
Saiu. Viu. Compadeceu-se. Curou.
Quatro verbos, em ordem necessária.
Sair é o que o coloca diante da situação. Se tivesse ficado no barco, não haveria nada.
Ver é o que permite o terceiro passo. Sem olhar, não há o que sentir.
Compadecer-se é passivo — a única ação da lista que ele não decide fazer. Acontece com ele.
Curar é a consequência prática.
Vale reparar em como a sequência falha se qualquer elo é retirado. É possível sair e não ver. É possível ver e não sentir. É possível sentir e não fazer nada.
O versículo 15 mostrará os discípulos parando no segundo elo: eles viram a multidão, calcularam o problema, e propuseram despachá-la.
Mesma cena, mesma gente, sequência interrompida.
Nota — a passiva e o que ela não prova
Vale examinar com cuidado a forma verbal, porque ela costuma render afirmações apressadas.
Esplanchnísthē é morfologicamente passiva: a tradução literal seria "foi movido nas entranhas".
A tentação é concluir daí que o evangelista quis marcar a passividade do sentimento — que a compaixão acontece com a pessoa em vez de ser decidida por ela.
Convém segurar a conclusão. Este verbo pertence à classe que os gramáticos chamam de depoente: tem forma passiva e sentido ativo, como acontece com vários verbos gregos de emoção. A forma, sozinha, não prova intenção nenhuma.
O que se pode dizer com segurança é mais modesto: forma e sentido apontam para o mesmo lado, e o resultado, quer tenha sido buscado ou não, é que a frase descreve algo que sucede a alguém.
Nota — de onde vem esse verbo
Vale registrar a estranheza do vocábulo, porque ela é o dado mais interessante do versículo.
O substantivo splánchna designa as vísceras, e na religião grega designava concretamente as vísceras do animal sacrificado — a parte que se assava e comia, e a parte que os adivinhos examinavam à procura de presságios.
Como verbo de emoção, splanchnízomai é praticamente ausente do grego clássico. A língua dispunha de eleéō, ter misericórdia, de oikteírō, apiedar-se, e de sympathéō, padecer junto — e nenhum deles é o termo escolhido.
A explicação mais provável é o substrato hebraico. Em hebraico, a misericórdia se chama rachamim, palavra derivada de rechem, útero; e as entranhas, me'im, aparecem como sede da emoção em Isaías, em Jeremias, nas Lamentações e no julgamento de Salomão.
Registro o grau de certeza: a derivação a partir do modo judaico de falar grego é a hipótese mais aceita, e não é demonstrável de forma definitiva, porque o material grego judaico anterior aos evangelhos é escasso.
Nota — as doze ocorrências
Vale ter a lista à mão, porque o padrão é mais eloquente do que qualquer definição.
O verbo aparece doze vezes no Novo Testamento, e todas nos três primeiros evangelhos. Nenhuma nas cartas, nenhuma no evangelho de João, nenhuma no Apocalipse.
Nove descrevem Jesus diante de gente concreta: multidões desgarradas, esta multidão, a dos quatro mil, dois cegos, um leproso, uma viúva enterrando o filho único.
Três estão em parábolas — o rei que perdoa a dívida, o samaritano na estrada, o pai que avista o filho de longe. Nas três, quem sente é a figura que representa Deus, e nas três a trama vira exatamente naquele ponto.
Resta uma, e é diferente das outras: em Marcos, o pai de um menino doente pede "tem compaixão de nós". Não é descrição, é pedido — o único caso em que a palavra está na boca de quem precisa dela.
Nota — o vocabulário da cura
Uma observação sobre a escolha entre dois verbos disponíveis.
O grego tinha iáomai, o termo propriamente médico, e o substantivo iatrós, médico, que sobrevive em palavras como "pediatra".
Os evangelhos usam iáomai algumas vezes, e preferem largamente therapeúō — o verbo de servir, cuidar, atender, empregado também para o serviço prestado a uma divindade no templo.
A diferença de enquadramento é dado do texto, e não interpretação: o vocabulário dominante para as curas é o do serviço, e não o do procedimento.
11. Conclusão
Uma frase separa duas cenas neste capítulo, e a distância entre elas é toda a distância que existe entre dois modos de usar o poder. Antes, um palácio, uma festa de aniversário, convidados selecionados, um juramento imprudente e uma cabeça servida numa travessa. Depois, uma margem sem estrutura, gente que ninguém convidou, doentes carregados por quilômetros — e um homem que desce de um barco e atende.
O evangelista não faz a comparação. Ele apenas coloca as duas coisas a poucas linhas de distância e segue adiante. Cabe ao leitor notar que, no mesmo capítulo, alguém mata para não perder a compostura diante da mesa e alguém abre mão do próprio descanso diante de estranhos.
É preciso corrigir, aliás, uma imprecisão que a pregação repete. Mateus não escreve que Jesus estava de luto. Não há, em todo o capítulo, um verbo de emoção associado à morte de João. O que o texto registra é um deslocamento: ele soube e se retirou de barco para um lugar deserto, por conta própria. O luto é inferência — inferência razoável, mas inferência. O que está escrito é a retirada, e a retirada, vindo logo depois de uma execução, já diz o suficiente sem que se precise inventar o resto.
A palavra em torno da qual o versículo gira é das mais estranhas da língua grega. Ela é construída sobre o substantivo das vísceras, aquelas mesmas que se assavam nos sacrifícios e que os adivinhos examinavam à procura de presságios. Como verbo de sentimento, ela mal existe fora dos escritos judaicos e cristãos: o grego dispunha de termos próprios para a piedade e nenhum deles foi o escolhido. O que se tem aqui é um jeito hebraico de falar, transposto para o grego — porque em hebraico a misericórdia se chama por uma palavra de ventre materno, e as entranhas são o órgão a que os profetas atribuem o comover-se de Deus.
A distribuição dessa palavra no Novo Testamento diz mais do que qualquer definição. Doze ocorrências, todas nos três primeiros evangelhos, nenhuma nas cartas. Metade descreve Jesus diante de gente concreta: um leproso, dois cegos à beira da estrada, uma viúva que enterrava o filho único, multidões famintas. E três estão em parábolas — no rei que perdoa uma dívida impagável, no estrangeiro que socorre um homem espancado na estrada, no pai que avista o filho ainda longe. Nas três, quem sente é a figura que ali representa Deus, e nas três a história vira exatamente naquele ponto. Nada acontece antes do verbo; tudo acontece depois dele.
Convém, ainda assim, não exagerar a mão. Palavras envelhecem e perdem o sabor da origem, e é bem possível que no primeiro século o termo já funcionasse como um "apiedar-se" qualquer, sem que ninguém pensasse em vísceras ao ouvi-lo. Isso não se pode decidir. O que permanece de pé, e não depende de etimologia nenhuma, é a escolha: havia outras palavras e esta foi usada, repetidamente, quase sempre para ele.
A ordem dos quatro verbos do versículo também não é acidental, e ela funciona como pequeno diagnóstico. Saiu, viu, compadeceu-se, curou. Sair é o que expõe alguém à situação; ver é o que permite sentir; sentir é o que produz o gesto. A cadeia se rompe em qualquer elo, e o rompimento mais comum é o segundo — estar diante de uma multidão e registrar apenas uma massa. É o que acontece na cena seguinte, com os mesmos homens, diante da mesma gente: eles olham e enxergam um problema de logística a ser despachado antes que anoiteça.
Resta observar o que o vocabulário da cura acrescenta. O verbo empregado não é o termo médico da língua, e sim o verbo de servir, cuidar, atender — o mesmo que os gregos usavam para o serviço prestado num templo. E os doentes são chamados pela palavra que significa "sem força". Curar, no enquadramento do texto, é serviço prestado a gente sem força, e não demonstração de capacidade diante de plateia.
Um último registro, de método. Este versículo não narra cura alguma: informa que houve curas, sem nome, sem doença, sem gesto, sem diálogo. É um sumário, o tipo de frase que costura episódios e condensa períodos inteiros. Quem procurar aqui documentação do que exatamente aconteceu naquela margem não vai encontrar, e não é possível decidir a questão por um texto assim. O que o versículo entrega é outra coisa, e é o que interessa: o retrato de uma disposição diante de gente que chegou na hora errada, atrapalhou o plano e foi atendida assim mesmo.













