Então os discípulos se aproximaram e lhe perguntaram: “Por que falas a eles por parábolas?”
1. Introdução
A parábola do semeador acabou de ser contada à multidão, e Jesus a fechou com um chamado seco: quem tem ouvidos, ouça. As pessoas ficaram na praia, com a história ecoando na cabeça, sem explicação. É nesse silêncio que os discípulos se movem: eles se aproximam e fazem uma pergunta simples, quase de bastidores. Não perguntam o que a parábola significa — isso virá depois. Perguntam por que Jesus escolheu ensinar daquele jeito, por enigmas, em vez de dizer as coisas de forma clara.
O versículo é curto, mas é uma dobradiça. Ele abre o bloco mais importante do capítulo 13, aquele em que Jesus explica a razão de ensinar por parábolas (13:11-17), citando Isaías. Toda a teologia difícil que vem a seguir — a ideia de que a parábola ao mesmo tempo revela e esconde, de que a alguns é dado entender o mistério do Reino e a outros não — nasce dessa pergunta. Sem ela, não haveria a resposta. Entender este versículo é entender por que os evangelhos guardam, no coração do ensino de Jesus, uma pergunta sobre o próprio método de Jesus.
2. Contexto Histórico e Cultural
A parábola não era invenção de Jesus. Ela pertencia a uma tradição judaica antiga. A palavra hebraica mashal, que o grego traduz por parabolē, cobria um leque largo: comparação, provérbio, enigma, história ilustrativa. O Antigo Testamento está cheio delas — a parábola da ovelha do pobre que o profeta Natã conta a Davi (2 Samuel 12), a canção da vinha em Isaías 5, os enigmas de Provérbios. Os mestres judeus do primeiro século, os que a tradição depois chamaria de rabinos, ensinavam com essas pequenas histórias do dia a dia: um rei e seus servos, uma semente, um campo, um banquete. Quem ouvia Jesus reconhecia o formato. A pergunta dos discípulos, portanto, não é sobre o gênero em si — parábola era coisa comum.
O que muda o quadro é a cena imediata. Mateus contou nos versículos anteriores que a multidão era tão grande que Jesus entrou num barco e ensinava de dentro dele, com as pessoas amontoadas na praia (13:2). O ensino era público, aberto, para uma massa. A aproximação dos discípulos sugere um momento mais reservado — eles chegam perto, num círculo menor, e é ali que a pergunta cabe. O texto não diz onde exatamente isso acontece; Marcos, no relato paralelo, situa a conversa "quando ficou só" (Marcos 4:10). Há, portanto, uma distinção física e social que o versículo já insinua: de um lado a multidão, do outro os discípulos. Essa distinção vai virar o eixo teológico da resposta de Jesus.
Vale um cuidado histórico aqui. É comum ler este episódio como se Jesus tivesse um "método secreto" reservado a um clube fechado. O texto é mais sóbrio: os discípulos são, antes de tudo, aprendizes — é o que a palavra grega significa — e a proximidade deles não é privilégio de casta, mas condição de quem se dispôs a seguir e a perguntar. A linha que separa os de dentro dos de fora, no capítulo 13, não é traçada por sangue ou status, e sim pela disposição de ouvir. Esse ponto é decisivo para não transformar o versículo num elitismo espiritual que ele não ensina.
3. Análise Teológica do Versículo
“Então os discípulos se aproximaram e lhe perguntaram,”
Esta frase indica um momento reservado entre Jesus e os seus discípulos, sugerindo uma relação próxima em que eles se sentiam à vontade para pedir esclarecimento. Os discípulos muitas vezes buscavam entender mais a fundo os ensinamentos de Jesus, o que destaca o papel deles como aprendizes e futuros líderes da Igreja. Esse cenário ressalta a importância do discipulado e da transmissão dos ensinamentos de Jesus às gerações futuras.
“Por que falas a eles por parábolas?”
As parábolas eram um método de ensino comum na cultura judaica, usando situações do cotidiano para transmitir verdades espirituais. O uso de parábolas por Jesus cumpriu a profecia do Salmo 78:2, que fala de ensinar por parábolas para revelar verdades escondidas. As parábolas serviam tanto para revelar quanto para ocultar: revelavam verdades aos que estavam abertos a entender e as ocultavam dos que eram espiritualmente insensíveis ou resistentes. Esse método está alinhado com Isaías 6:9-10, onde o profeta fala de um povo que ouve, mas não entende. O uso de parábolas por Jesus era uma abordagem estratégica para envolver os ouvintes, provocar a reflexão e separar os que buscavam de verdade dos que eram indiferentes ou hostis.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus — a figura central da passagem; ensina os discípulos e as multidões por meio de parábolas.
Os discípulos — seguidores de Jesus que buscam compreender os seus ensinamentos e lhe fazem perguntas para entender mais a fundo.
As multidões — o grupo maior que se reúne para ouvir Jesus falar e que muitas vezes recebe os ensinamentos em forma de parábolas.
As parábolas — método de ensino usado por Jesus, que emprega situações simples para transmitir verdades espirituais mais profundas.
O Reino dos céus — tema central nos ensinamentos de Jesus; representa o governo e o domínio de Deus, tanto presente quanto futuro.
5. Pontos de Ensino
Entender depende de revelação — o uso de parábolas por Jesus mostra que compreender de verdade as coisas espirituais depende de revelação divina. O crente deve buscar a orientação do Espírito Santo ao interpretar a Escritura.
O privilégio de entender — os discípulos tiveram o privilégio de receber as explicações de Jesus. Hoje, o crente tem o privilégio do Espírito Santo e de toda a Escritura completa para compreender a Palavra de Deus.
Discernimento espiritual — as verdades espirituais se discernem espiritualmente. O crente deve cultivar um coração aberto e receptivo à Palavra de Deus, evitando a insensibilidade espiritual.
O valor de perguntar — a pergunta dos discípulos mostra a importância de perguntar e de buscar um entendimento mais profundo em nossa caminhada de fé.
O mistério do Reino — o Reino dos céus é um mistério profundo, que exige estudo diligente e um coração afinado com a voz de Deus para compreender a sua profundidade.
6. Aspectos Filosóficos
A pergunta dos discípulos abre um problema que atravessa toda teoria do conhecimento: por que um mestre esconderia justamente aquilo que quer ensinar? Se o objetivo é comunicar a verdade, o caminho mais direto seria dizê-la sem rodeios. Jesus faz o contrário — envolve a verdade numa história de sementes e solos, deixando que cada ouvinte tropece ou avance conforme o que carrega dentro de si. A parábola não entrega o sentido de graça; ela o oferece a quem se dispuser a cavar.
Há aqui uma intuição funda sobre a natureza da verdade espiritual. Certas coisas não podem ser simplesmente informadas, como se anota um telefone. Elas precisam ser reconhecidas por dentro, e esse reconhecimento exige um estado do coração, não só do intelecto. A parábola funciona como um espelho: devolve a cada um o que ele traz. O indiferente ouve uma historinha rural; o que busca ouve o Reino. O mesmo texto, os mesmos sons, e resultados opostos — porque a diferença não está na mensagem, mas no ouvinte. É por isso que a resposta de Jesus, no versículo seguinte, fala de "ter" e "receber mais" (13:12): o entender gera mais entendimento, e a recusa aprofunda a cegueira.
É preciso, porém, honestidade diante da parte incômoda. A resposta que Jesus dará cita Isaías 6:9-10 num tom que soa duro: falar por parábolas "para que, vendo, não vejam". A leitura mais crua sugere que a parábola serve para endurecer, para impedir que alguns entendam e se convertam. Não se deve suavizar isso a ponto de fazê-lo desaparecer. Ao mesmo tempo, o próprio evangelho não trata o endurecimento como um destino arbitrário imposto de fora: o versículo 15 de Mateus 13 dirá que "o coração deste povo está endurecido" — a recusa vem primeiro. A tensão é real: há um lado em que Deus vela, e um lado em que o homem fecha os olhos. Os estudiosos discutem essa relação há séculos, e não é possível resolvê-la com uma fórmula limpa. O que se pode afirmar com segurança é que a parábola não é neutra: ela julga o ouvinte no ato de ser ouvida.
7. Aplicações Práticas
A primeira aplicação é aprender a perguntar. Os discípulos não fingiram entender; chegaram perto e admitiram a dúvida. Muita gente trava na fé por vergonha de perguntar, por medo de parecer ignorante diante de Deus ou da comunidade. A cena ensina o contrário: a proximidade e a pergunta sincera são o caminho do entendimento, não um sinal de fraqueza.
A segunda é reconhecer que compreender a Palavra não é só esforço intelectual. É possível estudar muito e continuar sem enxergar, porque falta a disposição do coração. Antes de abrir o texto, cabe pedir olhos para ver — a mesma dependência que a cena pressupõe.
A terceira é examinar o próprio tipo de ouvinte que somos. A parábola revela ao que busca e esconde do indiferente. Vale perguntar com honestidade: eu chego à Palavra querendo de fato ouvir, ou só confirmar o que já penso?
A quarta é sobre paciência com a verdade que não se entrega de imediato. Nem tudo na fé é claro no primeiro contato. Assim como a parábola precisa ser remoída, há verdades que só se abrem com o tempo, a oração e a insistência.
A quinta é valorizar o privilégio que temos. Os discípulos dependiam de Jesus para explicar; nós temos a Escritura inteira e o Espírito Santo. Desperdiçar esse acesso, deixando a Bíblia fechada, é ignorar um privilégio que gerações desejaram ter.
A sexta é sobre como ensinamos e comunicamos a fé. Jesus usava imagens do cotidiano — sementes, campos, redes — para tocar as pessoas onde elas estavam. Comunicar bem o evangelho é falar a língua concreta de quem ouve, não empilhar termos que ninguém entende.
A sétima é guardar o coração da insensibilidade. Isaías descreve um povo de coração "gordo", pesado, incapaz de sentir. Essa dureza não vem de um dia para o outro; vem de pequenas recusas repetidas. Manter o coração macio diante de Deus é um cuidado diário.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Qual é o significado de Mateus 13:10?
Descreve o momento em que os discípulos se aproximam de Jesus, em particular, e perguntam por que ele ensina a multidão por parábolas em vez de falar diretamente. A pergunta abre o bloco em que Jesus explica a razão desse método (13:11-17), ligando o ensino por parábolas à profecia de Isaías 6 e ao Salmo 78:2.
2. Por que Jesus falava por parábolas, segundo Mateus 13:10?
O versículo levanta a pergunta; a resposta vem nos versículos seguintes. Jesus ensinava por parábolas porque elas revelam e ocultam ao mesmo tempo: abrem a verdade a quem está disposto a ouvir e a fecham para quem é indiferente ou resistente. A parábola separa o ouvinte sincero do indiferente pelo próprio ato de ser ouvida.
3. Como buscar hoje um entendimento mais profundo dos ensinamentos de Jesus?
Aproximando-se com a mesma atitude dos discípulos: perguntando com sinceridade, estudando a Escritura com atenção e pedindo a Deus um coração receptivo. O entendimento cresce em quem se dispõe a ouvir de verdade, não em quem só quer confirmar o que já pensa.
4. Quais profecias do Antigo Testamento se ligam ao uso de parábolas por Jesus?
Duas principalmente. O Salmo 78:2 — "Abrirei minha boca em parábolas; falarei mistérios dos tempos antigos" — que Mateus vê cumprido no ensino de Jesus (13:35). E Isaías 6:9-10, que descreve um povo que ouve mas não entende, vê mas não percebe, por ter o coração endurecido.
5. Como garantir que o nosso coração esteja receptivo à Palavra de Deus?
Cultivando a humildade de perguntar, mantendo o coração macio pela oração e evitando as pequenas recusas que endurecem aos poucos. Isaías fala de um coração "gordo", pesado; a receptividade é o oposto: um coração leve, atento, disposto a mudar diante do que ouve.
6. Como parábolas podem ao mesmo tempo revelar e ocultar a verdade?
Porque não entregam o sentido pronto. A parábola apresenta uma imagem que exige interpretação, e essa interpretação depende do coração de quem ouve. Para o que busca, a imagem se abre e revela o Reino; para o indiferente, permanece só uma história. O mesmo texto produz resultados opostos, conforme o ouvinte.
7. Qual é a importância de entender as parábolas?
Entender as parábolas é entender o próprio Reino dos céus, que Jesus chama de mistério (13:11). Não se trata de decifrar charadas, mas de deixar que a verdade escondida na imagem transforme quem a compreende. Por isso o esforço vale: o que está em jogo é a substância do ensino de Jesus.
8. Como Mateus 13:10 nos desafia a comunicar o evangelho com eficácia?
Mostra que Jesus falava com imagens do cotidiano de quem o ouvia — sementes, solos, campos. Comunicar bem a fé é traduzir a verdade para a linguagem concreta das pessoas, encontrá-las onde elas estão, e não empilhar termos que afastam. O método de Jesus é um convite à clareza e à proximidade.
9. Conexão com Outros Textos
“E respondeu-lhes: A vós é concedido o mistério do Reino de Deus; mas aos que são de fora, todas estas coisas se fazem por meio de parábolas.” (Marcos 4:11)
O relato paralelo em Marcos traz a mesma cena e já adianta o cerne da resposta: existe uma distinção entre os que recebem o mistério e os que ficam de fora. É a chave que Mateus vai desdobrar nos versículos 11 a 17.
“Ele disse: A vós é dado conhecer os mistérios do reino de Deus; mas aos outros por parábolas, para que vendo, não vejam; e ouvindo, não entendam.” (Lucas 8:10)
Lucas registra o mesmo ensino e cita Isaías dentro dele. Aqui aparece, sem rodeios, o lado duro do método: a parábola também vela, "para que vendo, não vejam". A tensão entre revelar e ocultar está no próprio texto, e não deve ser suavizada.
“Abrirei minha boca em parábolas; falarei mistérios dos tempos antigos.” (Salmo 78:2)
É a profecia que Mateus verá cumprida no ensino de Jesus (13:35). O salmista ensina a história de Israel por parábolas, revelando "mistérios antigos" — o mesmo padrão que Jesus assume ao falar do Reino por imagens.
“Então ele me disse: Vai, e diz a este povo: certamente ouvireis, mas não entendereis; certamente vereis, mas não percebereis.” (Isaías 6:9)
O texto que Jesus cita como pano de fundo do seu método. Descreve um povo cujos sentidos funcionam, mas cujo coração se recusa a entender. A parábola, em Mateus 13, se encaixa nesse quadro: ela expõe a surdez que já existe no ouvinte.
“Estas coisas vos falei por parábolas; porém a hora vem quando não mais vos falarei por parábolas; mas vos falarei abertamente sobre o Pai.” (João 16:25)
Jesus reconhece o caráter velado das parábolas e aponta para um tempo de fala aberta. Confirma que o método por enigmas era próprio de uma etapa, e que a plena clareza pertence ao que vem depois — luz sobre o mesmo mistério.
10. Original Grego e Análise
Texto em português (nossa tradução do Textus Receptus): “Então os discípulos se aproximaram e lhe perguntaram: “Por que falas a eles por parábolas?””
Texto grego (Textus Receptus): Καὶ προσελθόντες οἱ μαθηταὶ εἶπον αὐτῷ, Διατί ἐν παραβολαῖς λαλεῖς αὐτοῖς;
Transliteração: “Kaì proselthóntes hoi mathētaì eîpon autô, Diatí en parabolaîs laleîs autoîs?”
Palavra a palavra
“Proselthóntes” (προσελθόντες) é o particípio aoristo de proserchomai, “chegar-se”, “aproximar-se”. O verbo carrega a ideia de vir para perto de alguém, e Mateus o usa com frequência para descrever quem se acerca de Jesus com um pedido ou uma pergunta. O particípio marca o gesto que abre a cena: os discípulos deixam a distância da multidão e vêm para junto do mestre. É um movimento físico que espelha um movimento do coração — a aproximação de quem quer entender.
“Mathētaí” (μαθηταὶ) significa “discípulos”, mas a raiz da palavra é manthanō, “aprender”. Discípulo, em grego, é literalmente “aprendiz”. O termo não descreve um grau de santidade, e sim uma posição: a de quem se colocou na escola de outro para aprender. Por isso a pergunta que fazem é coerente com o que são — aprendizes perguntam. A distinção que o capítulo faz entre discípulos e multidão não é de mérito, mas de disposição: os discípulos são os que ficaram para ouvir mais.
“Eîpon” (εἶπον) é o aoristo de legō, “dizer”. O aoristo registra a fala como um fato pontual: eles disseram, perguntaram. Não há aqui hesitação nem longo preâmbulo; a pergunta é direta, quase abrupta, o que reforça o tom de conversa reservada entre pessoas próximas.
“Diatí” (Διατί) é a expressão interrogativa “por quê”, formada por dià (“por causa de”) e tí (“quê”). Literalmente, “por causa de quê”. A pergunta não é sobre o conteúdo da parábola do semeador — os discípulos não perguntam “o que significa” —, mas sobre o método: por que razão Jesus escolhe esse formato. É uma pergunta sobre a estratégia do ensino, e é ela que provoca toda a explicação teológica que vem a seguir.
“En parabolaîs” (ἐν παραβολαῖς) é “em parábolas” ou “por parábolas”. A palavra parabolē vem de para (“ao lado”) e ballō (“lançar”): é algo “lançado ao lado” de outra coisa, uma comparação. A parábola coloca uma imagem do cotidiano ao lado de uma verdade espiritual para que uma ilumine a outra. O grego traduz o hebraico mashal, termo largo que ia do provérbio ao enigma — o que ajuda a entender por que a parábola pode tanto clarear quanto obscurecer.
“Laleîs” (λαλεῖς) é o presente de laleō, “falar”. O presente indica ação contínua, habitual: “por que estás falando”, “por que costumas falar” a eles por parábolas. Os discípulos notam um padrão, não um caso isolado — Jesus vinha ensinando assim, e é esse hábito que os intriga.
“Autoîs” (αὐτοῖς) é o pronome “a eles”, e aqui está o detalhe fino do versículo. “Eles” não são os discípulos; são as multidões. A pergunta é, ao pé da letra, “por que falas a eles — àquela gente na praia — por parábolas?”. O pronome já marca a fronteira entre os dois grupos: os discípulos, que vêm perto, e a multidão, a quem Jesus fala de longe, por enigmas. É essa separação que a resposta de Jesus vai explicar.
Nota textual e teológica
Não há aqui variante textual relevante entre o Textus Receptus e o texto crítico moderno — o versículo é estável na tradição manuscrita, e o sentido não muda. O que merece atenção não é a crítica textual, mas a força do pequeno pronome “a eles” (autoîs). Ele revela que a pergunta dos discípulos já pressupõe a distinção que Jesus vai desenvolver: há os de perto e os de longe, os que recebem o mistério e os que ficam com a casca da história. É honesto reconhecer que a resposta de Jesus, citando Isaías 6, tem um lado severo — a parábola também endurece. O evangelho não esconde esse lado; antes de tentar dissolvê-lo, é preciso deixá-lo falar. A distinção, contudo, não é de raça nem de casta: ao longo do capítulo, o que separa um grupo do outro é a disposição de ouvir, e essa fronteira continua aberta a quem se aproxima.
11. Conclusão
Mateus 13:10 é um versículo de passagem, e no entanto sustenta todo o peso do que vem depois. Uma pergunta curta, feita em voz baixa por aprendizes que se chegaram para perto, destrava a explicação mais densa do capítulo: por que Jesus ensina por parábolas. A cena guarda uma lição já no formato — o entendimento pertence a quem se aproxima e pergunta, não a quem fica de longe, satisfeito com a superfície.
A resposta que vem a seguir não é confortável. Ela diz que a parábola revela e esconde, que a alguns é dado compreender o mistério do Reino e a outros não, e cita Isaías num tom que fere a sensibilidade moderna. Seria fácil suavizar isso; mais honesto é reconhecer a tensão. Há, no ensino de Jesus, um véu real, e há também um coração humano que se fecha antes do véu. As duas coisas estão no texto, e o texto não as reconcilia numa fórmula limpa. O que ele deixa claro é que a Palavra nunca é neutra: ela julga quem a ouve no próprio ato de ser ouvida. Diante disso, a única postura sábia é a dos discípulos — aproximar-se, perguntar e pedir olhos para ver.













