Quem tem ouvidos, ouça.”
1. Introdução
Esta frase encerra a parábola do semeador (Mateus 13:1-8), a primeira e a mais conhecida das sete parábolas que Mateus reúne neste capítulo. Jesus acabou de descrever quatro terrenos que recebem a mesma semente e produzem resultados opostos — o caminho batido, o solo pedregoso, o meio dos espinhos e a terra boa. Ele não explica ali mesmo o que a imagem significa. Em vez de interpretar, lança um desafio: cabe a quem ouve o trabalho de entender.
É uma frase curta, quase um ditado, mas não é enfeite. Ela funciona como uma chave que separa os ouvintes em dois grupos: os que apenas registraram o som das palavras e os que se dispõem a deixá-las penetrar. Não por acaso, logo em seguida os discípulos perguntam por que Jesus fala em parábolas (13:10), e a resposta abre uma das passagens mais densas do evangelho sobre o "mistério do Reino" — o porquê de a mesma mensagem revelar-se a uns e permanecer fechada a outros. O versículo 9 é a dobradiça entre a parábola e essa explicação: um convite e, ao mesmo tempo, uma triagem.
2. Contexto Histórico e Cultural
A cena tem um enquadramento preciso. Naquele dia, Jesus saiu de casa e sentou-se à beira do mar da Galileia; a multidão foi tão grande que ele entrou num barco e dali ensinou, com as pessoas amontoadas na praia (13:1-2). É desse barco, diante de um público misto de camponeses, pescadores e curiosos, que sai a parábola do semeador — uma imagem tirada do cotidiano de todos ali. Na Palestina do primeiro século, o agricultor espalhava a semente à mão antes de arar, e o terreno era mesmo irregular: trilhas pisadas cruzavam os campos, a rocha calcária aflorava sob uma fina camada de terra, e os espinheiros rebrotavam. Quem ouvia sabia exatamente do que Jesus falava. A frase final cai sobre essa audiência concreta como uma provocação: vocês já viram essa cena mil vezes; agora vejam o que ela quer dizer.
Para medir o peso do verbo "ouvir" aqui, é preciso lembrar o que "ouvir" significava na tradição de Israel. A oração central do judaísmo começa com a palavra Shemá — "Ouve, ó Israel: o SENHOR nosso Deus é o único SENHOR" (Deuteronômio 6:4). Nessa mentalidade, ouvir nunca foi só captar um som: era prestar atenção, acolher e obedecer. Um filho que "ouve" o pai é o que obedece; um povo que "não ouve" a Deus é o que se rebela. Então, quando Jesus diz "quem tem ouvidos, ouça", ele não fala de audição física — todos ali tinham ouvidos e escutaram as palavras. Ele fala de uma segunda escuta, mais profunda, que acolhe e responde.
A fórmula também tem raízes proféticas. Séculos antes, Isaías recebera uma missão dura: pregar a um povo que ouve, mas não entende (Isaías 6:9-10). O chamado "quem tem ouvidos, ouça" é, em certo sentido, o avesso desse quadro — a porta que Isaías via fechada, Jesus a mantém aberta a quem quiser atravessá-la. Essa ligação não é acidental: poucos versículos adiante, Jesus cita explicitamente Isaías 6 para explicar por que ensina em parábolas (13:14-15). O versículo 9, portanto, já antecipa o tema de toda a seção: a mensagem do Reino não se impõe; ela se oferece, e exige um coração disposto a recebê-la.
3. Análise Teológica do Versículo
"Quem tem ouvidos"
Esta expressão é um chamado à atenção, que ressalta a importância da percepção espiritual acima da simples audição física. Nos tempos bíblicos, ter "ouvidos" simbolizava a capacidade de compreender e discernir as verdades espirituais. Essa expressão é usada por toda a Escritura para destacar a necessidade de estar receptivo à mensagem de Deus (por exemplo, Deuteronômio 29:4; Isaías 6:10). Ela sublinha a ideia de que nem todos os que ouvem as palavras de Jesus alcançarão o seu sentido mais profundo, pois para isso é preciso discernimento espiritual.
"ouça."
A ordem de "ouvir" vai além da recepção auditiva: implica obediência e ação a partir daquilo que se compreendeu. No contexto cultural da época, ouvir estava estreitamente ligado a obedecer, como se vê no Shemá (Deuteronômio 6:4-5), que convoca Israel a ouvir e a amar a Deus de todo o coração. Essa frase é um desafio ao ouvinte para que se envolva com as parábolas de Jesus, que muitas vezes exigiam reflexão e a disposição de buscar uma compreensão maior. Ela também se conecta à tradição profética, na qual ouvir a palavra de Deus era essencial para que o povo de Israel seguisse a sua aliança (Jeremias 7:23-24). No Novo Testamento, esse chamado a ouvir é um tema recorrente, que exorta os crentes a serem praticantes da palavra, e não apenas ouvintes (Tiago 1:22).
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus Cristo — quem pronuncia estas palavras, ensinando as multidões por meio de parábolas. É a figura central dos evangelhos, e o seu ensino forma o fundamento da doutrina cristã.
Os discípulos — presentes durante o ensino de Jesus, são os seus seguidores mais próximos e, com frequência, recebem explicações mais profundas das parábolas.
As multidões — o público geral a quem Jesus fala. Representam um grupo diverso, com graus variados de compreensão e de abertura à sua mensagem.
As parábolas — método de ensino usado por Jesus para transmitir verdades espirituais por meio de cenas simples do dia a dia. Este versículo encerra a parábola do semeador.
O Reino dos céus — tema central do ensino de Jesus, muitas vezes explicado por parábolas que ilustram a sua natureza e a resposta que ele exige de cada pessoa.
5. Pontos de Ensino
Discernimento espiritual — o chamado a "ouvir" não trata apenas da audição física, mas de compreender e acolher as verdades espirituais. Os crentes são incentivados a buscar discernimento pela oração e pelo estudo da Palavra.
Abertura à Palavra de Deus — ter "ouvidos para ouvir" implica prontidão e disposição para receber a mensagem de Deus e agir de acordo com ela. Isso exige humildade e um espírito disposto a aprender.
O papel das parábolas — as parábolas revelam verdades aos que estão abertos e as ocultam dos que não estão. Isso desafia o crente a examinar o próprio coração e a sua abertura ao ensino de Deus.
Escuta ativa — ouvir de verdade envolve um engajamento real com a Palavra, que conduz à transformação e à obediência. O crente deve procurar aplicar no dia a dia aquilo que aprende.
A responsabilidade de quem ouve — cada pessoa é responsável por como responde à Palavra de Deus. O chamado a ouvir é um convite a um relacionamento e a uma compreensão mais profundos.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo levanta uma pergunta que atravessa toda a teoria do conhecimento: por que a mesma mensagem, dita com as mesmas palavras às mesmas pessoas, é compreendida por uns e não por outros? A parábola do semeador já respondera em imagem — a semente é uma só, o que muda é o solo. O chamado "quem tem ouvidos, ouça" transporta essa resposta para o terreno da responsabilidade: a diferença não está na clareza da mensagem, mas na disposição de quem a recebe. Há um tipo de verdade que não se transmite à força; ela precisa ser acolhida para ser entendida. Compreender, aqui, não é um ato puramente intelectual — é também um ato moral, que envolve a vontade e o coração.
Isso conduz ao que Jesus chamará, no versículo 11, de "mistério do Reino dos céus". As parábolas têm uma função dupla e, à primeira vista, desconcertante: revelam e ocultam ao mesmo tempo. Para quem se aproxima com fome de entender, a história simples abre uma janela para Deus; para quem se aproxima fechado ou indiferente, ela permanece apenas um caso de agricultor. A parábola funciona como um filtro — não separa os inteligentes dos ignorantes, mas os dispostos dos indispostos. Aqui é preciso honestidade diante de uma tensão real do texto. Quando Jesus cita Isaías 6 (13:14-15), a linguagem é forte: fala de olhos que se fecham e ouvidos que se tornam pesados "para que não vejam nem ouçam". Ao longo dos séculos, os intérpretes se dividiram: seria Deus quem endurece o coração, ou seria o próprio ouvinte que se fecha e apenas colhe o fruto da sua recusa? O texto sustenta as duas leituras em tensão, e nenhuma delas sozinha esgota o sentido. O mais fiel é reconhecer que a Escritura afirma, lado a lado, a soberania de Deus e a responsabilidade humana, sem dissolver uma na outra. E o versículo 9, ao dizer "ouça", carrega toda a força do apelo à responsabilidade: a porta está aberta, e o convite é real.
Vale ainda uma observação sobre o gênero literário. Uma parábola não é uma alegoria em que cada detalhe esconde um código a ser decifrado ponto por ponto. É, em regra, uma história com um centro de sentido, feita para provocar uma decisão em quem ouve. A do semeador é uma exceção parcial, porque o próprio Jesus a interpreta elemento por elemento (13:18-23); mas mesmo ali o alvo não é a curiosidade intelectual, e sim o autoexame: que terreno sou eu? O chamado a ouvir, portanto, não convida a um jogo de adivinhação, mas a uma pergunta desconfortável e pessoal.
7. Aplicações Práticas
Examine o próprio terreno. Antes de perguntar se ouviu, pergunte que solo você tem sido: distraído como o caminho, raso como a pedra, abafado pelas preocupações como os espinhos, ou aberto como a terra boa. A parábola é um espelho, não um enigma para decifrar.
Passe da escuta à prática. Ouvir, no sentido bíblico, termina em obedecer. Um estudo, um sermão ou um versículo só cumprem o seu papel quando mudam alguma coisa em como você vive. Sem isso, houve som, mas não houve escuta.
Cultive a humildade de quem ainda tem o que aprender. Ter "ouvidos para ouvir" pressupõe reconhecer que não se entende tudo. O coração fechado, que já sabe tudo de antemão, é justamente o terreno em que a semente não germina.
Reserve tempo para a reflexão. As parábolas foram feitas para serem remoídas, não consumidas de passagem. Ler devagar, voltar ao texto, deixar a pergunta ecoar durante o dia — é assim que a semente encontra profundidade.
Assuma a sua responsabilidade diante da mensagem. Ninguém ouve por você. Diante da mesma palavra, cada pessoa responde por conta própria; a clareza recebida cobra uma resposta pessoal.
Guarde-se contra o coração endurecido. A indiferença repetida embota a percepção — quanto mais se ignora um chamado, mais difícil fica ouvi-lo. Manter os ouvidos abertos é uma escolha diária, não um estado garantido.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. O que significa Mateus 13:9?
É o convite com que Jesus encerra a parábola do semeador. Ao dizer "quem tem ouvidos, ouça", ele afirma que ouvir o som das palavras não basta: é preciso uma escuta mais profunda, que compreende, acolhe e obedece. A frase transfere a responsabilidade para o ouvinte e prepara a explicação sobre o porquê das parábolas, que vem nos versículos seguintes.
2. O que quer dizer "quem tem ouvidos, ouça"?
Não é uma constatação sobre ter ou não ter orelhas — todos ali ouviam. É uma provocação: quem foi capaz de perceber o sentido espiritual da parábola, que o leve a sério e responda a ele. "Ter ouvidos", nesse uso bíblico, significa ter disposição para entender; "ouvir" significa deixar a mensagem produzir fruto na vida.
3. Como garantir que temos "ouvidos para ouvir" a mensagem de Deus hoje?
Cultivando um coração aberto e humilde, disposto a ser corrigido e não apenas confirmado. Isso passa por ler a Escritura com atenção, orar pedindo discernimento e, sobretudo, colocar em prática o que já se entendeu. A abertura não é um estado automático; é uma escolha que se renova.
4. Como este versículo se conecta com Tiago 1:22, sobre ser praticante da palavra?
Diretamente. Tiago diz para sermos praticantes da palavra, e não apenas ouvintes que enganam a si mesmos. É a mesma ideia: no vocabulário bíblico, a escuta verdadeira desemboca na ação. Ouvir sem praticar não é ouvir de verdade — é um autoengano, porque cria a sensação de ter recebido a mensagem sem os seus efeitos.
5. De que formas podemos aplicar o princípio da escuta no dia a dia?
Dando tempo à Palavra em vez de consumi-la às pressas; voltando ao texto e deixando a pergunta que ele levanta amadurecer; e traduzindo em decisões concretas aquilo que se compreendeu. A escuta ativa se mede menos pelo que se sente ao ler e mais pelo que muda depois.
6. Como incentivar outros a atender a esse chamado?
Antes pelo exemplo do que pela cobrança. Quem vive o que ouve torna a mensagem visível e desejável. Ajuda também explicar as parábolas com paciência, criar espaço para a reflexão em comunidade e respeitar o tempo de cada um — pois a semente germina em ritmos diferentes conforme o solo.
7. Como o versículo desafia a nossa ideia de receptividade espiritual?
Ele desfaz a suposição de que entender a Deus é questão de inteligência ou de informação. A parábola revela-se aos dispostos e fecha-se aos indiferentes, o que desloca o problema do intelecto para o coração. A pergunta deixa de ser "sou capaz de entender?" e passa a ser "estou disposto a ser mudado pelo que ouço?".
8. Por que a escuta é tão enfatizada aqui?
Porque toda a parábola do semeador é, no fundo, sobre como as pessoas recebem a palavra do Reino. Ao fechar com "ouça", Jesus resume a lição: o destino da semente depende do terreno. A ênfase na escuta é a aplicação prática de tudo o que ele acabou de contar.
9. Conexão com Outros Textos
"Então ele me disse: Vai, e diz a este povo: certamente ouvireis, mas não entendereis; certamente vereis, mas não percebereis. Faze o coração deste povo se encher de gordura, e os ouvidos deles ficarem pesados, para que não vejam com seus olhos, nem ouçam com seus ouvidos, nem entendam com seus corações, e assim não se convertam, nem eu os cure." (Isaías 6:9-10)
É o pano de fundo profético do chamado de Jesus. O próprio Jesus cita esta passagem poucos versículos adiante (13:14-15) para explicar por que ensina em parábolas. "Quem tem ouvidos, ouça" é o convite que mantém aberta a porta que Isaías via se fechando diante de um povo endurecido.
"Quem tem ouvidos, ouça." (Mateus 11:15)
A mesma fórmula, dita por Jesus a respeito de João Batista. Ela reaparece em momentos-chave do ensino de Jesus, sempre para marcar uma verdade que exige atenção especial e uma decisão de quem escuta.
"E disse: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça." (Marcos 4:9)
O relato paralelo do mesmo episódio no evangelho de Marcos, que encerra a parábola do semeador com palavras quase idênticas. A coincidência mostra como essa frase estava fixada na memória da comunidade cristã como a assinatura desse ensino.
"E o SENHOR não vos deu coração para entender, nem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir, até o dia de hoje." (Deuteronômio 29:4)
Um antigo reconhecimento de que a percepção espiritual não é automática. O texto do Antigo Testamento já sabia que ter ouvidos físicos não garante ouvir de verdade — a mesma distinção que Jesus retoma.
"Ouvi agora isto, ó povo tolo e insensato, que têm olhos e não veem, que têm ouvidos e não ouvem." (Jeremias 5:21)
A denúncia do profeta contra um povo dotado dos sentidos, mas incapaz de perceber a mensagem de Deus. É exatamente o quadro que o chamado de Jesus procura reverter em quem se dispõe a ouvir.
"e sede praticantes da palavra, e não somente ouvintes, enganando a vós mesmos." (Tiago 1:22)
A tradução prática do "ouça" de Jesus. Tiago deixa explícito o que a fórmula supõe: a escuta que não vira prática é um autoengano, uma ilusão de ter recebido a palavra.
"Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao que vencer, eu lhe darei de comer da árvore da vida, que está no meio do paraíso de Deus." (Apocalipse 2:7)
A mesma fórmula ressurge no fim da Bíblia, agora como um refrão dirigido às igrejas. Do ensino de Jesus à visão do Apocalipse, o chamado a ouvir com atenção percorre toda a Escritura como uma insistência constante.
10. Original Grego e Análise
Texto em português (nossa tradução do Textus Receptus): "Quem tem ouvidos, ouça."
Texto grego (Textus Receptus): ὁ ἔχων ὦτα ἀκούειν, ἀκουέτω.
Transliteração: "ho échōn ôta akoúein, akouétō."
Palavra a palavra
"Ho echōn" (ὁ ἔχων) é o artigo com o particípio presente do verbo échō, "ter". A força do particípio é durativa: "aquele que tem", "o que possui". Não é uma condição momentânea, e sim uma disposição estável de quem já traz consigo a capacidade de escutar. Traduzimos por "quem tem", forma direta e natural em português.
"Ōta" (ὦτα) é o plural de ous, "ouvido". No uso bíblico, o ouvido é mais do que o órgão da audição: é o símbolo da capacidade de compreender e de obedecer. "Ter ouvidos", portanto, aponta para uma faculdade interior — a de perceber o sentido espiritual — e não apenas para a orelha física, que todos os ouvintes já possuíam.
"Akouein" (ἀκούειν) é o infinitivo presente de akoúō, "ouvir". Aqui funciona como um infinitivo de finalidade: "ouvidos para ouvir". A construção reforça a ideia — os ouvidos existem justamente para cumprir a sua função, que é escutar de verdade. É a diferença entre ter o instrumento e usá-lo para o que ele serve.
"Akouetō" (ἀκουέτω) é o imperativo presente, terceira pessoa do singular de akoúō: "que ele ouça", "ouça". O tempo presente do imperativo grego indica uma ação contínua, não pontual — não "ouça uma vez", mas "esteja ouvindo", "mantenha-se em escuta". É uma ordem que se prolonga: a atenção à palavra do Reino não é um instante, e sim um hábito do coração.
Nota textual e teológica
Há aqui uma diferença digna de nota entre as duas grandes tradições do texto grego. O Textus Receptus — base da tradução de Almeida e a que adotamos neste site — traz "ὦτα ἀκούειν", ou seja, "ouvidos para ouvir". Já o texto crítico moderno (Nestle-Aland), seguido por várias traduções contemporâneas, tem apenas "ὦτα", "ouvidos", sem o "para ouvir". A diferença é pequena no sentido — em ambos os casos, o chamado é o mesmo — mas é real, e ilustra como a transmissão manuscrita do Novo Testamento produziu, ao longo dos séculos, variantes menores entre as cópias. Somos transparentes quanto a isso: traduzimos numa tradição (o Textus Receptus) e apontamos abertamente onde ela diverge das outras. Vale observar que a nossa tradução, buscando o português mais fluente, dobra "ouvidos para ouvir" na forma enxuta "quem tem ouvidos, ouça", que preserva o sentido sem a redundância — a mesma opção de versões tradicionais em português.
No plano teológico, o vocabulário confirma o ponto do versículo. O ouvido, na Bíblia, é a porta da obediência; o imperativo contínuo pede uma escuta que não termina no som, mas segue até a prática. E a estrutura "ter ouvidos" / "ouvir" já distingue, na própria gramática, a posse do instrumento e o seu uso — exatamente a distinção entre escutar palavras e compreender o Reino que atravessa todo o capítulo 13.
11. Conclusão
Cinco palavras em português, três no grego: poucos versículos da Bíblia dizem tanto com tão pouco. Ao fechar a parábola do semeador com "quem tem ouvidos, ouça", Jesus não acrescenta uma informação — ele devolve a responsabilidade a quem escuta. A semente foi lançada; o que ela produzirá depende do solo. E o solo, aqui, é o coração de cada ouvinte.
O versículo resume, em forma de apelo, o tema que domina todo o capítulo: a palavra do Reino não se impõe, ela se oferece, e revela o seu sentido a quem se dispõe a acolhê-la. É honesto reconhecer a tensão que vem logo a seguir, quando Jesus cita Isaías 6 e fala de ouvidos que se tornam pesados — a Escritura mantém juntas a soberania de Deus e a responsabilidade humana, sem dissolver uma na outra. Mas o acento do versículo 9 está no convite: a porta continua aberta. Resta a pergunta que ele deixa em cada leitor, ontem à beira do mar da Galileia e hoje diante desta página: eu tenho apenas ouvidos, ou estou disposto a ouvir?













