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Mateus 21:31

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 38 acessos
Qual dos dois fez a vontade do pai?” “O primeiro”, responderam. Disse-lhes Jesus: “Digo a vocês a verdade: os cobradores de impostos e as prostitutas estão entrando à frente de vocês no Reino de Deus.
No pátio do templo de Jerusalém, Jesus responde a um grupo de sacerdotes de mantos ricos; ao fundo, à margem da multidão, um cobrador de impostos com sua bolsa e uma mulher de véu simples observam a cena.

Estudo


Qual dos dois fez a vontade do pai?” “O primeiro”, responderam. Disse-lhes Jesus: “Digo a vocês a verdade: os cobradores de impostos e as prostitutas estão entrando à frente de vocês no Reino de Deus.

1. Introdução

Jesus pergunta qual dos dois filhos fez a vontade do pai, e os chefes dos sacerdotes respondem certo: o primeiro, o que disse "não" e depois foi. A resposta os condena, e Jesus tira a conclusão em voz alta.

Os manuscritos antigos não concordam sobre a ordem dos filhos nem sobre a resposta, e há três formas do texto, cada uma com um efeito diferente.

A frase final põe cobradores de impostos e prostitutas à frente dos líderes do templo no Reino de Deus. Se ela fecha a porta para os líderes ou só os deixa para trás é a pergunta que o verbo "ir à frente" deixa em aberto.

2. Contexto Histórico e Cultural

Dois ofícios que se tocavam pelo dinheiro

O par "cobradores de impostos e prostitutas" só aparece aqui e no versículo seguinte em todo o Novo Testamento. O par corrente nos evangelhos é outro, "publicanos e pecadores". A troca tem uma lógica que os documentos do mundo romano mostram: o cobrador e a prostituta não eram só dois tipos de má fama. Um cobrava do outro.

Suetônio (historiador romano do século II, autor das Vidas dos Doze Césares) conta, na vida de Calígula, capítulo 40, que o imperador criou um imposto sobre a prostituição: cada mulher pagava ao fisco o que ganhava num único encontro. E acrescenta um detalhe cruel: a lei alcançava também quem já tinha deixado o ofício. As que tinham sido prostitutas e os que tinham sido rufiões continuavam devedores do tributo, e nem o casamento os livrava. O imposto existia, portanto, para ser cobrado por alguém, e quem saía da vida continuava no registro de quem cobrava.

Na Síria, um século depois, a mesma coisa aparece gravada em pedra. A Tarifa de Palmira (lei fiscal da cidade caravaneira de Palmira, no deserto sírio, publicada pelo conselho da cidade no ano 137, em grego e em aramaico) lista o que o arrendatário dos impostos podia cobrar de cada atividade. Entre as mercadorias estão as prostitutas: de cada mulher que cobrasse um denário ou mais, um denário; das que cobravam menos, o valor de um encontro. Quem fazia a cobrança era exatamente a figura que os evangelhos chamam de publicano — o particular que arrematava o direito de recolher o tributo e lucrava com a diferença.

O limite tem de vir junto. Calígula reinou entre os anos 37 e 41, depois desta cena; a tarifa de Palmira é do século II e de outra província. Não há documento de um imposto sobre prostituição na Judeia ou na Galileia dos anos 30. O que os textos mostram é um arranjo fiscal comum no Oriente romano, em que a prostituta era contribuinte e o cobrador era quem batia à sua porta. Que os ouvintes de Jesus pensassem nisso ao ouvir o par é plausível, não demonstrável.

O dinheiro que não entrava no templo

Os ouvintes desta frase eram os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo (Mateus 21:23). Para essa plateia, a prostituta não era só uma pecadora: era o oposto exato da pureza sacerdotal, e a Lei dizia isso em três lugares.

Deuteronômio 23:18 proíbe trazer à casa do SENHOR, como pagamento de voto, "o salário da prostituta". O dinheiro dela não podia entrar no templo. Levítico 21:7 proíbe o sacerdote de se casar com uma prostituta. E Levítico 21:9 manda queimar a filha de sacerdote que se prostitui, porque ela "profana o pai".

O dinheiro da prostituta era recusado no lugar que esses homens administravam. Jesus lhes diz que a dona desse dinheiro está entrando no Reino antes deles.

Quem eram as prostitutas da Judeia

Pouco se sabe de concreto, e o pouco vem de fora. No mundo greco-romano a maioria das prostitutas era escrava ou ex-escrava, e muitas tinham sido meninas abandonadas ao nascer e recolhidas por quem as criava para isso — a prática da exposição de recém-nascidos, comum entre gregos e romanos e condenada pelos judeus. Outras eram viúvas ou mulheres repudiadas sem família que as recebesse. Os lugares eram as estalagens, os portos, as cidades com guarnição e as rotas de peregrinação.

Os evangelhos não descrevem nenhuma prostituta concreta; a mulher de Lucas 7:37 é chamada apenas de "pecadora". As prostitutas desta frase são uma categoria — a mais baixa que a frase podia nomear —, não um grupo identificado.

3. Análise Teológica do Versículo

"Qual dos dois fez a vontade do pai?"

A pergunta não é qual dos dois tinha razão, nem qual falou melhor. É qual fez. O verbo é o mesmo nas duas metades da parábola: um disse e não fez, o outro não disse e fez.

"Fazer a vontade do Pai" é uma das fórmulas mais firmes de Mateus. Está na oração ("seja feita a tua vontade", Mateus 6:10). Está na advertência do fim do Sermão da Montanha: "Nem todo aquele que me diz: 'Senhor, Senhor' entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai" (Mateus 7:21). Está na definição de família: quem faz a vontade do Pai é irmão, irmã e mãe (Mateus 12:50). E volta no Getsêmani, na boca do próprio Jesus: "faça-se a tua vontade" (Mateus 26:42).

A ligação com Mateus 7:21 é a mais próxima. Ali, quem diz "Senhor" e não faz fica fora; aqui, o filho que responde "Eu vou, senhor" e não vai é o reprovado. A parábola encena o que o sermão tinha dito em forma de regra.

"'O primeiro', responderam."

No texto que a ABC segue, os chefes respondem certo, e a resposta certa é a armadilha. Eles julgam um caso de fora e, sem perceber, julgam a si mesmos. A resposta não é de Jesus: é deles. Jesus só aplica.

Mas "o primeiro" não é a única resposta que os manuscritos trazem. Os copistas antigos produziram três formas do texto, e cada uma muda o sentido da cena.

Primeira forma: o primeiro filho recusa e vai; a resposta é "o primeiro". É a forma do Textus Receptus, do Códice Sinaítico (manuscrito grego do século IV) e da maioria dos manuscritos, e é a que as edições críticas atuais imprimem. O efeito é o descrito acima: a lógica corre limpa, a resposta é correta, e a correção da resposta é o que condena quem a deu.

Segunda forma: a ordem dos filhos se inverte; a resposta é "o último". No Códice Vaticano (outro manuscrito grego do século IV, guardado na Biblioteca Vaticana) e num grupo de testemunhas aparentadas, o primeiro filho diz "Eu vou" e não vai; o segundo diz "Não quero" e depois vai. A resposta dos chefes então é "o último". A lógica continua certa, porque o filho aprovado continua sendo o que obedeceu. O que muda é a ordem. Lida assim, a parábola fica parecida com uma história da salvação em miniatura — Israel, chamado primeiro, que prometeu e não cumpriu; os pecadores, ou os povos, chamados depois, que recusaram e acabaram indo. E encaixa no dito que Mateus repete duas vezes, "os últimos serão os primeiros" (Mateus 19:30; Mateus 20:16). Meyer (Heinrich Meyer, comentarista alemão do século XIX) já suspeitava de que a inversão nasceu dessa leitura: um copista que via nos dois filhos judeus e gentios teria posto os filhos na ordem da história. Paul Foster, num estudo publicado em 2001, propôs o contrário: a forma do Vaticano seria a de Mateus, e a do Sinaítico, mais antiga, teria sido a forma da parábola antes dele, que voltou depois a circular entre os copistas.

Terceira forma: o primeiro filho recusa e vai, mas a resposta é "o último". É a forma do Códice de Beza (manuscrito bilíngue, grego e latim, do século V) e de vários manuscritos latinos antigos. A ordem dos filhos é a do Textus Receptus, mas os chefes respondem que fez a vontade do pai o filho que disse "Eu vou, senhor" e não foi. A resposta é absurda.

Jerônimo (tradutor da Bíblia para o latim, morto em 420) já conhecia essa forma, porque a encontrava nas Bíblias latinas que corrigia. No comentário a Mateus, escrito em 398, ele diz que nas cópias corretas se lê "o primeiro", para que os chefes sejam condenados pela própria sentença. E acrescenta que, se alguém quiser ler "o último", a explicação é clara: os judeus entendiam a verdade, mas fugiam dela e não queriam dizer o que pensavam. A comparação com a cena de poucos versículos antes se impõe: sobre o batismo de João, os mesmos homens tinham respondido "Não sabemos" (Mateus 21:27).

A saída de Jerônimo transforma o absurdo em retrato. Na terceira forma, os chefes respondem errado de propósito, por teimosia, e a frase dura que vem a seguir é a resposta de Jesus à má-fé. Houve quem defendesse essa forma como a original: J. Ramsey Michaels, num artigo de 1968, e, recentemente, Tyler Culp, numa tese de 2025. O argumento é a regra da crítica textual segundo a qual a versão mais difícil costuma ser a original, porque nenhum copista criaria um absurdo de propósito. O contra-argumento é que um absurdo também nasce de erro, e um erro não precisa de motivo.

O que se pode dizer com segurança é pouco. As três formas são antigas — a terceira já circulava no século IV, porque Jerônimo a combate. As edições críticas ficaram com a primeira, que é também a do Textus Receptus e a da ABC. Não é possível decidir com certeza qual delas Mateus escreveu. Mas é possível ver o que cada uma faz: a primeira condena os chefes pela própria boca; a segunda conta a história da salvação; a terceira mostra os chefes mentindo. As três chegam ao mesmo veredito por caminhos diferentes.

"os cobradores de impostos e as prostitutas"

A parábola não falava de cobradores nem de prostitutas. Falava de dois filhos. Jesus põe esses dois grupos no lugar do filho que disse "não": gente cuja vida inteira era uma recusa pública da Lei e que, apesar disso, foi. O versículo seguinte diz para onde foram: atrás de João.

A palavra "prostitutas" é concreta. Jesus podia ter dito "pecadores", como em outros lugares, e escolheu o grupo mais baixo da escala de pureza — o que, diante de sacerdotes, é escolha deliberada. Os cobradores de impostos têm estudo próprio no acervo: o que significava comer com eles, e o par "pagão e cobrador de impostos", está em Mateus 18:17.

Há um dado de premissa que precisa ser dito. Esses cobradores e essas prostitutas eram judeus. A frase não opõe judeus a não judeus; opõe, dentro de Israel, os que dirigiam o templo aos que o templo mantinha do lado de fora. Usar este versículo, como se usou na história, para dizer que "os judeus" ficaram fora do Reino é ler nele o que ele não diz.

"estão entrando à frente de vocês"

O verbo grego é o de "ir adiante", "ir na frente". A pergunta que ele levanta divide os comentaristas há séculos: os cobradores e as prostitutas entram e os chefes ficam de fora, ou entram antes e os chefes podem vir depois?

Primeira leitura: é exclusão. Joachim Jeremias (estudioso alemão das parábolas, século XX) sustentou que o verbo tem aqui sentido excludente, como em certos modos de comparar do aramaico: "eles entram, e vocês não". A favor, o próprio capítulo: dez versículos adiante, Jesus diz aos mesmos ouvintes que o Reino "será tirado de vocês" (Mateus 21:43), e em Mateus 23:13 acusa os escribas e fariseus de não entrar e não deixar entrar.

Segunda leitura: é precedência, e a porta continua aberta. Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX) e o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) leem que os chefes perderam o lugar que deveriam ocupar, não a entrada. Meyer, mais cauteloso, observa que "ir à frente" não implica por si mesmo que alguém venha atrás. Orígenes (teólogo de Alexandria, século III) já tinha lido o verso pela lente de Paulo: quando a plenitude dos gentios entrar, todo Israel será salvo (Romanos 11:25-26).

Terceira observação, que pesa na balança: o uso do próprio Mateus. O verbo aparece seis vezes no evangelho. A estrela vai adiante dos magos, e eles a seguem até a casa (Mateus 2:9). Os discípulos vão adiante de Jesus para a outra margem, e ele chega depois, andando sobre o mar (Mateus 14:22). As multidões vão adiante de Jesus na entrada em Jerusalém, e ele vem atrás (Mateus 21:9). E duas vezes Jesus diz que irá adiante dos discípulos para a Galileia (Mateus 26:32; Mateus 28:7) — e eles vão. Em todas as outras ocorrências, quem está atrás chega. Se Mateus usa o verbo do mesmo modo aqui, a frase descreve uma fila, não uma porta fechada.

O tempo do verbo também conta. A ABC traduz bem, "estão entrando": é presente, uma coisa que acontece enquanto Jesus fala. Naquele momento, os de fora já estão a caminho e os de dentro ainda não se mexeram. A parábola, aliás, guardava a saída: o filho aprovado também começou dizendo "não". O versículo seguinte diz o que faltou aos chefes — mudar de ideia depois — e isso é exatamente o que o primeiro filho fez.

Não é possível decidir entre as leituras só pela gramática. O que o texto permite afirmar é que, no presente da cena, a ordem está invertida; se a inversão é definitiva, o versículo não diz.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os que responderam

São os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo que vieram perguntar com que autoridade Jesus agia (Mateus 21:23). Os chefes dos sacerdotes eram o sumo sacerdote em exercício, os antigos sumos sacerdotes e os membros das famílias de onde eles saíam; os anciãos eram os chefes das famílias leigas mais ricas de Jerusalém. Juntos, formavam a cúpula que administrava o templo e respondia ao governador romano.

Os cobradores de impostos

Na Galileia, cobravam para Herodes Antipas; na Judeia, que desde o ano 6 era província governada por um prefeito romano, cobravam tributos e taxas de passagem por conta de quem arrematava o direito de recolhê-los. Eram judeus a serviço de um poder que muitos consideravam ilegítimo.

As prostitutas

Não há nenhuma prostituta com nome nos evangelhos. A única prostituta nomeada no evangelho de Mateus é Raabe, na genealogia de Jesus (Mateus 1:5).

O lugar e o momento

A cena se passa nos pátios do templo de Jerusalém, onde Jesus ensinava (Mateus 21:23). Na contagem de Marcos, que separa os dias (Marcos 11:11-12, 11:20, 11:27), é o terceiro dia depois da entrada na cidade; Mateus junta os episódios e não marca o dia.

Os manuscritos da crux

O Códice Sinaítico foi achado no século XIX no mosteiro de Santa Catarina, no Sinai, e está quase todo na Biblioteca Britânica. O Códice Vaticano está na Biblioteca do Vaticano desde pelo menos o século XV. O Códice de Beza tem o nome do reformador Teodoro de Beza, que o deu à Universidade de Cambridge em 1581, e é conhecido por divergir muito dos outros manuscritos.

Jerônimo (cerca de 347 a 420) revisou as Bíblias latinas a pedido do bispo de Roma — o trabalho que deu origem à Vulgata. Comentou Mateus em 398, em Belém, e é ele quem dá a notícia mais antiga de que a terceira forma do texto circulava.

5. Pontos de Ensino

O que conta é o que se faz, não o que se promete

A pergunta de Jesus mede os dois filhos por um único critério: quem foi. O "sim" sem a ida e o "não" seguido da ida são julgados pelo fim, não pelo começo.

Uma resposta certa pode condenar quem a dá

Os chefes sabiam a resposta. Saber não os pôs do lado do filho aprovado. O conhecimento correto da regra convive com a recusa de aplicá-la a si mesmo.

A ordem pode se inverter no presente

Jesus não fala de um futuro distante. Diz que, naquele momento, os de fora estão entrando antes dos de dentro. A posição religiosa herdada não garante a dianteira.

O alvo é a liderança, não um povo

Os dois grupos postos à frente são judeus, e os ouvintes são os dirigentes do templo. Ler a frase contra os judeus como povo é sair do texto.

O texto chegou até nós com marcas de leitura

As três formas do versículo mostram que os copistas também interpretavam. Conhecer a variação não enfraquece o texto; mostra como ele foi lido desde cedo.

6. Aspectos Filosóficos

Ler a partir de baixo

O versículo põe os de baixo à frente. Os que a sociedade religiosa tinha por mais longe de Deus estão mais perto, e os que se tinham por mais perto estão atrás. A pergunta filosófica que isso levanta é antiga e tem um nome moderno: existe um lugar social de onde se vê melhor a verdade?

Leonardo Boff (teólogo e filósofo brasileiro, nascido em 1938, um dos fundadores da teologia da libertação) respondeu que sim, com ressalvas. Em Jesus Cristo Libertador (1972) e, mais tarde, em Como fazer Teologia da Libertação (1986, escrito com o irmão, Clodovis Boff), ele sustenta que todo pensamento nasce de um lugar e que esse lugar condiciona o que se enxerga. Daí a tese que ficou conhecida como "opção preferencial pelos pobres": não que os pobres sejam melhores, mas que o ponto de vista deles revela o que o ponto de vista dos poderosos esconde.

O versículo parece confirmar a tese. Os chefes do templo, do alto do seu lugar, não reconheceram João; os cobradores e as prostitutas, do lugar mais baixo, reconheceram. O lugar de onde se olha decidiu o que cada um viu.

O limite que o próprio texto põe

Mas o versículo também resiste à tese, e de dois modos.

Primeiro: o critério não é o lugar social, é o que cada um fez. O versículo seguinte diz por que os cobradores e as prostitutas vão à frente — porque "creram". Não é a condição de prostituta que dá a dianteira; é a mudança. Nem todos os cobradores creram, e o texto não diz que a pobreza ou a exclusão bastassem. Uma leitura que transforme o lugar social em credencial repete, ao contrário, o erro dos chefes: eles também achavam que a posição garantia a entrada.

Segundo: o lugar privilegiado, se existe, não é um ponto fixo. O filho aprovado da parábola começou do lado errado. Se a posição de partida decidisse, ele estaria reprovado. A parábola premia o deslocamento, não o endereço.

Boff conhecia essa objeção, e ela lhe foi feita com força. A Igreja Católica, em documentos de 1984 e 1986, criticou na teologia da libertação o risco de reduzir a fé a uma leitura de classe; em 1985 ele foi condenado a um período de silêncio. A resposta dele foi que o lugar do pobre não substitui a fé, mas a situa — que a fé é a mesma, e o que muda é a pergunta com que se chega ao texto. É uma resposta defensável, e o versículo a sustenta em parte: Jesus não diz aos chefes que eles precisam virar cobradores, diz que precisam fazer o que os cobradores fizeram.

O que o versículo oferece a essa discussão é uma tensão, não uma solução. Ele confirma que a posição religiosa e social pode cegar — os mais preparados para reconhecer João foram os que não o reconheceram. E nega que a posição oposta salve por si: quem entra, entra porque se moveu.

7. Aplicações Práticas

Desconfiar da própria resposta certa

Os chefes responderam bem a uma pergunta sobre outros e não perceberam que ela era sobre eles. Quem lida com regras — pais, chefes, líderes religiosos, juízes — corre o mesmo risco: julgar com acerto o caso alheio e não reconhecer o próprio. A pergunta útil diante de qualquer veredito que se dá é "e eu, em qual dos dois filhos estou?".

Não fixar ninguém no "não" que disse

O filho aprovado começou recusando. Uma pessoa que disse "não" a uma obrigação, a uma fé ou a uma família ainda não terminou a sua história. Classificar alguém pela primeira resposta é fazer o que a parábola desmente.

Tratar o "sim" fácil com cautela, a começar pelo próprio

O "Eu vou, senhor" custa pouco. Compromissos assumidos em público e não cumpridos têm, no versículo, o pior lugar. Vale para promessas religiosas e para as comuns.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

As prostitutas realmente seguiram João Batista?

Só este trecho diz isso. Lucas 3:12 menciona cobradores de impostos que vieram ser batizados por João, e Lucas 7:29 diz que o povo e os cobradores "reconheceram a justiça de Deus" ao receber o batismo dele. Prostitutas não aparecem em nenhum outro relato sobre João. Pode ser memória preservada só aqui, ou pode ser a ampliação do grupo para dar força à frase. O texto não permite decidir.

As prostitutas que "creram" deixaram o ofício?

O texto não diz. "Creram" é tudo o que o versículo seguinte afirma. É razoável supor que a pregação de João, que exigia frutos de arrependimento (Mateus 3:8), levasse a mudanças de vida. Mas o versículo não descreve nenhuma, e quem conhece o imposto de Calígula, que cobrava até de quem já tinha saído da vida, sabe que sair nem sempre dependia só da vontade.

Por que os copistas mexeriam numa parábola tão simples?

Porque ela era simples demais para ficar sem interpretação. Assim que os dois filhos foram lidos como dois povos, a ordem passou a significar alguma coisa, e houve quem pusesse os filhos na ordem da história. E porque a cópia à mão produz erros, e um erro numa palavra só — "primeiro" ou "último" — muda tudo.

Se a frase é dura, por que Jesus a disse no templo, diante de todos?

Porque os ouvintes tinham pedido uma resposta pública sobre a autoridade dele (Mateus 21:23). A parábola é parte dessa resposta. Jesus se recusou a dizer de onde vinha a sua autoridade; mas disse, com uma história, quem tinha reconhecido a autoridade de João e quem não.

9. Conexão com Outros Textos

A vontade do Pai, feita e não dita

Mateus 7:21 — "Nem todo aquele que me diz: 'Senhor, Senhor' entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus."

A regra que a parábola dos dois filhos põe em cena: dizer "senhor" não é fazer.

Mateus 26:42 — "Retirou-se outra vez, pela segunda, e orou: 'Meu Pai, se não for possível que este cálice passe sem que eu o beba, faça-se a Tua vontade'."

O próprio Jesus vive o caminho do filho que hesita e vai.

O mesmo verbo de ir à frente

Mateus 28:7 — "E vão depressa dizer aos discípulos dele que ele ressuscitou dos mortos. E eis que ele vai adiante de vocês para a Galileia; ali vocês o verão. Eis que eu já disse a vocês."

Quem está atrás chega aonde chegou quem foi à frente. É a base da leitura de precedência no item 3.

A porta fechada

Mateus 23:13 — "Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas! Porque fecham o Reino dos céus diante dos homens; vocês mesmos não entram, nem deixam entrar os que estão querendo entrar."

A passagem que apoia a leitura de exclusão: os líderes não entram.

Mateus 8:11-12 — "E eu lhes digo que muitos virão do oriente e do ocidente, e se sentarão à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no Reino dos céus; mas os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes."

A mesma inversão, com os de longe à mesa e os "filhos do reino" fora. Aqui os de longe vêm de outros povos; no versículo de Mateus 21:31 vêm de dentro de Israel.

A inversão de lugares

Mateus 20:16 — "Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos; porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos."

O dito que a segunda forma do texto, a do Códice Vaticano, parece ilustrar.

O dinheiro recusado no templo

Deuteronômio 23:18 — "Não traga à casa do SENHOR, o seu Deus, o salário de uma prostituta nem o pagamento de um cão, para cumprir voto algum, porque uns e outros são abominação para o SENHOR, o seu Deus."

A regra que fazia da prostituta o oposto da casa que os ouvintes de Jesus dirigiam.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Qual dos dois fez a vontade do pai?” “O primeiro”, responderam. Disse-lhes Jesus: “Digo a vocês a verdade: os cobradores de impostos e as prostitutas estão entrando à frente de vocês no Reino de Deus.

Texto grego (Textus Receptus)

Τίς ἐκ τῶν δύο ἐποίησε τὸ θέλημα τοῦ πατρός; Λέγουσιν αὐτῷ, Ὁ πρῶτος. Λέγει αὐτοῖς ὁ Ἰησοῦς, Ἀμὴν λέγω ὑμῖν ὅτι οἱ τελῶναι καὶ αἱ πόρναι προάγουσιν ὑμᾶς εἰς τὴν βασιλείαν τοῦ Θεοῦ.

Transliteração

Tis ek tōn dyo epoiēse to thelēma tou patros? Legousin autō, Ho prōtos. Legei autois ho Iēsous, Amēn legō hymin hoti hoi telōnai kai hai pornai proagousin hymas eis tēn basileian tou Theou.

Uma nota sobre o texto

Conferido na edição de Scrivener publicada pelo eBible e no interlinear do Bible Hub. Duas diferenças entre o Textus Receptus e as edições críticas. A pequena: o Textus Receptus traz legousin autō, "dizem-lhe", e as edições críticas só legousin, "dizem". A grande: a ordem dos filhos e a palavra da resposta, que variam nos manuscritos em três formas — o assunto inteiro está no item 3. Aqui basta o vocabulário: ho prōtos, "o primeiro", é a resposta do Textus Receptus e das edições críticas; ho hysteros, "o de depois", a do Códice Vaticano; ho eschatos, "o último", a do Códice de Beza e de outros.

Análise palavra por palavra

Τίς ἐκ τῶν δύο — tis ek tōn dyo, "qual dos dois". Tis é o pronome interrogativo; ek com genitivo marca o grupo do qual se escolhe um.

ἐποίησε — epoiēse, "fez". Aoristo de poieō, "fazer". O aoristo vê a ação como um todo concluído: não pergunta quem estava disposto, pergunta quem cumpriu. É o mesmo verbo de Mateus 7:21 e de Mateus 12:50.

τὸ θέλημα τοῦ πατρός — to thelēma tou patros, "a vontade do pai". Thelēma é o que se quer, o desejo transformado em determinação. Na parábola, o pai não dá uma ordem genérica: diz o que quer que seja feito hoje, na vinha dele. Note-se o jogo com o versículo 29, onde o primeiro filho responde ou thelō, "não quero", com o verbo da mesma família: o filho recusa com a palavra da vontade e acaba fazendo a vontade de outro.

Λέγουσιν αὐτῷ, Ὁ πρῶτος — legousin autō, ho prōtos, "dizem-lhe: o primeiro". Presente histórico: o presente usado para narrar o passado com vivacidade. Prōtos é ordinal: o primeiro a ser abordado pelo pai.

Λέγει αὐτοῖς ὁ Ἰησοῦς — legei autois ho Iēsous, "diz-lhes Jesus". Outro presente histórico.

Ἀμὴν λέγω ὑμῖν — amēn legō hymin, "em verdade digo a vocês". Amēn é palavra hebraica, de uma raiz que significa "firme", "seguro". No Antigo Testamento ela vem depois de uma fala, para confirmá-la; nos evangelhos, Jesus a põe antes da própria fala, uso que, segundo a maioria dos estudiosos, não tem paralelo claro nos textos judaicos da época. A ABC traduz "Digo a vocês a verdade".

ὅτι — hoti, "que". Introduz o conteúdo do que é dito; aqui equivale aos dois-pontos.

οἱ τελῶναι — hoi telōnai, "os cobradores de impostos". Plural de telōnēs, de telos, "taxa", "tributo": literalmente, "o homem da taxa".

καὶ αἱ πόρναι — kai hai pornai, "e as prostitutas". Plural de pornē. A palavra é a mais direta que o grego tinha para a mulher que vende o corpo; a família dela, e a ligação com o verbo de vender, foi tratada no estudo de Mateus 19:9. É a única ocorrência da palavra em Mateus, e as duas vezes estão neste versículo e no seguinte. O artigo definido diante de cada grupo os apresenta como classes conhecidas: "os cobradores", "as prostitutas".

προάγουσιν ὑμᾶς — proagousin hymas, "vão à frente de vocês". Presente do indicativo de proagō, formado de pro, "adiante", e agō, "conduzir", "ir". Com objeto direto de pessoa, significa "preceder alguém". O presente descreve ação em curso, e a ABC o traduz bem: "estão entrando à frente". Em Mateus o verbo aparece seis vezes (Mateus 2:9; 14:22; 21:9; 21:31; 26:32; 28:7). O debate entre exclusão e precedência está no item 3.

εἰς τὴν βασιλείαν τοῦ Θεοῦ — eis tēn basileian tou Theou, "para dentro do Reino de Deus". Eis com acusativo marca movimento para dentro. Basileia é tanto o território quanto o ato de reinar. "De Deus" no lugar do habitual "dos céus" é raro em Mateus (também em Mateus 6:33; 12:28; 19:24; 21:43), e não há consenso sobre o motivo.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a duas conclusões.

A primeira é sobre o critério. Jesus não pergunta qual dos filhos era melhor, mais respeitoso ou mais sincero no momento da resposta; pergunta qual fez. E os chefes dos sacerdotes, que conheciam esse critério melhor do que ninguém, aplicaram-no com acerto a um caso de fora e não o reconheceram quando ele se voltou para eles. O saber religioso não os protegeu; foi o instrumento da condenação.

A segunda é sobre a ordem. Os de fora estão entrando antes, agora, e entram por ter mudado. O versículo não diz que os de dentro ficaram fora para sempre, e o uso que Mateus faz do verbo "ir à frente" pende para uma fila, não para uma porta fechada. Mas a fila só anda para quem se mexe. As três formas em que os copistas transmitiram a cena — a sentença pela própria boca, a história da salvação, a resposta de má-fé — concordam no ponto principal: quem está atrás, naquele momento, são os que dirigiam o templo.

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