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Mateus 19:9

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✍️ Por Alberto Adriano·20 de setembro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 35 acessos
Eu digo a vocês que todo aquele que se divorciar da sua mulher, a não ser por imoralidade sexual, e se casar com outra, comete adultério; e quem se casar com a mulher divorciada comete adultério.”
Um papiro grego de divórcio estendido sobre uma mesa de pedra, com escrita em colunas estreitas e um selo de barro partido ao lado.

Estudo


Eu digo a vocês que todo aquele que se divorciar da sua mulher, a não ser por imoralidade sexual, e se casar com outra, comete adultério; e quem se casar com a mulher divorciada comete adultério.”

1. Introdução

Agora vem a sentença, e ela traz uma ressalva de três palavras: "a não ser por imoralidade sexual".

Essas três palavras são o trecho mais discutido do evangelho em matéria de casamento. Marcos e Lucas contam a mesma coisa sem elas.

A segunda metade do versículo — sobre quem se casa com a divorciada — está na edição grega que a ABC segue e não está nos manuscritos mais antigos. E o adultério, na frase, não está no divórcio: está no casamento seguinte.

2. Contexto Histórico e Cultural

Fora do mundo judaico, o divórcio era de outra natureza. Saber disso muda a escala da frase.

Roma: o casamento durava enquanto se quisesse

No direito romano, o casamento não se fundava num ato jurídico que o criasse, e sim na intenção continuada dos dois de estarem casados. Enquanto essa intenção existia, havia casamento. Quando cessava em um dos dois, acabava.

A consequência é radical e custa a entrar na cabeça de quem só conhece sistemas modernos: não era preciso autorização de ninguém para se divorciar. Não havia juiz, não havia processo, não havia causa a ser provada, não havia registro obrigatório. Bastava a decisão, comunicada.

Havia fórmulas para comunicá-la, e elas eram secas. "Fica com as tuas coisas", dizia uma. "Sai fora", dizia outra. A primeira aparece em textos jurídicos romanos como a expressão típica do repúdio.

E qualquer dos dois podia fazê-lo. A mulher romana casada sem ficar sob a autoridade do marido — que era o arranjo comum no período imperial — podia decidir sozinha, e decidia. O divórcio iniciado pela mulher era corriqueiro entre as famílias de posses.

Uma lei de Augusto, de 18 antes de Cristo, contra o adultério, acrescentou uma exigência de forma: a declaração de repúdio devia ser feita diante de sete testemunhas, cidadãos romanos adultos, e entregue por um liberto de quem repudiava. Isso não criou controle sobre o motivo — criou prova de que a comunicação fora feita, o que importava para a devolução do dote e para as acusações de adultério.

O dote, aliás, era o grande freio prático. Quem se divorciava tinha de devolvê-lo, e havia ação judicial própria para cobrá-lo. O casamento romano era fácil de desfazer e caro.

O Egito: os papéis que sobreviveram

Nas areias do Egito ficaram guardados documentos privados gregos que mostram o divórcio funcionando como negócio entre as partes.

Um deles é de 13 antes de Cristo. Uma mulher chamada Zóis, filha de Heráclides, e um homem chamado Antípatro, filho de Zenão, declaram que se separaram um do outro, desfazendo a união que haviam formado por acordo anterior. Zóis reconhece que recebeu de volta o que entregara como dote: roupas no valor de cento e vinte dracmas e um par de brincos de ouro.

Outro é de 96 depois de Cristo, achado na cidade de Oxirrinco. Taésis, filha de Tônis, e Petosárapis, filho de Tompecúsis, dissolvem o casamento; o dote de quatrocentas dracmas é devolvido, o contrato de casamento é entregue cancelado, e as duas partes declaram não ter mais nada a reclamar uma da outra.

O que esses papéis mostram é o formato: divórcio por acordo mútuo, documento redigido pelos dois lados, dote devolvido, quitação recíproca. Ninguém precisa alegar falta de ninguém. A mulher é parte no documento, não objeto dele.

Judias que se divorciaram, e o escândalo que isso causou

No judaísmo, como se viu, só o marido dissolvia o vínculo. Mas há casos registrados de mulheres judias fazendo o contrário — e a reação das fontes mostra o quanto era anômalo.

Josefo conta que Salomé, irmã de Herodes, o Grande, enviou ao marido Costobar um documento dissolvendo o casamento. E comenta o ato, nas Antiguidades 15.259, dizendo que aquilo contrariava a lei judaica, porque entre eles é ao homem que se permite fazer isso, e a mulher que sai por vontade própria não pode casar de novo sem consentimento do primeiro marido.

O mesmo historiador registra que Herodias deixou o marido, ainda vivo, para casar-se com o irmão dele, Antipas — e diz que ela fez isso passando por cima das leis do país. É o casamento por causa do qual João Batista foi morto, no mesmo território em que esta conversa acontece.

Os dois casos são de mulheres da família reinante, com poder para fazer o que não era permitido. Josefo os relata como transgressões, não como exercício de direito.

Há ainda um documento achado no deserto da Judeia, conhecido pelo nome da coleção em que foi publicado, que Tal Ilan leu como uma certidão de divórcio entregue por uma mulher chamada Shelamsion ao marido. Adiel Schremer respondeu contestando a leitura: para ele, o texto é um recibo que cita a certidão que ela havia recebido. A discussão entre os dois, publicada em revista acadêmica nos anos 1990, permanece sem desfecho. Se a leitura de Ilan estiver certa, o documento seria a única prova direta de uma judia dando o get; se a de Schremer estiver, não prova nada disso.

Um antecedente vale uma frase: na colônia judaica de Elefantina, no sul do Egito, contratos de casamento do século V antes de Cristo davam aos dois cônjuges a mesma cláusula de ruptura, com a mesma multa, e a fórmula da ruptura era declarar em assembleia "eu odeio o meu marido" ou "eu odeio a minha mulher". A colônia em si é assunto do estudo de Êxodo 8:25.

Por que isso importa para o versículo

A frase de Jesus é dita num mundo em que o divórcio era fácil em toda parte: largo no judaísmo, larguíssimo em Roma, negociado no Egito. E é dita a homens que perguntavam sobre a extensão do direito deles.

Num cenário assim, a sentença do versículo não é um ajuste na régua. É um corte.

3. Análise Teológica do Versículo

"Eu digo a vocês"

A fórmula opõe uma pessoa a um texto. O versículo anterior terminou dizendo o que Moisés permitiu; este começa com "eu". Não é "está escrito", não é "os mestres ensinam": é a primeira pessoa, sem apoio citado.

Em Mateus, essa fórmula já tinha sido usada seis vezes no Sermão do Monte, sempre no mesmo desenho — o que foi dito aos antigos, e então o "eu, porém, digo a vocês". Aqui ela reaparece no meio de uma controvérsia pública, contra especialistas, e sem a metade inicial.

"todo aquele que se divorciar da sua mulher"

O sujeito é indeterminado: qualquer um. A frase não faz distinção de caso, de classe, de motivo ou de circunstância — exceto a que vem a seguir.

O verbo é o mesmo que atravessa o capítulo, o de soltar e mandar embora. Continua sendo um ato do marido.

"a não ser por imoralidade sexual"

Três palavras em português, uma em grego, e o trecho mais discutido do assunto em dois mil anos.

A palavra grega é porneia ("imoralidade sexual"). Ela é ampla: cobre relações fora do casamento em geral, e não tem contorno definido. E aqui está a primeira dificuldade — a frase, logo adiante, usa outra palavra, a do adultério, que é precisa. Se fosse para dizer "exceto em caso de adultério", havia a palavra exata, e ela está na mesma sentença. A escolha de uma palavra larga num lugar em que cabia uma estreita é o que abre tudo.

Quatro leituras se formaram, e cada uma tem o seu preço.

Primeira leitura: é infidelidade dentro do casamento. É a leitura corrente, e a mais antiga. A favor dela: a palavra larga comporta a estreita, e há textos judaicos gregos do período que usam porneia para a mulher casada. O Pulpit Commentary defende essa posição e recusa as alternativas. Custo: não explica por que a palavra precisa foi trocada por uma vaga a poucas palavras de distância.

Segunda leitura: é uma união proibida por parentesco. Trata-se de casamentos que a Lei não admitia por grau de parentesco — os graus de Levítico 18. Sob essa leitura, a ressalva não abre exceção nenhuma: apenas diz que uma união nula desde o começo não conta como casamento, e desfazê-la não é divórcio. A favor: explica por que Marcos e Lucas não trazem a ressalva — não haveria o que ressalvar; e o termo aparece com esse sentido em outros lugares, como a decisão do concílio de Jerusalém, dirigida a convertidos vindos do paganismo, e a denúncia de Paulo sobre o homem que tomou a mulher do pai. Custo: nada no versículo indica que o sentido seja tão restrito, e o leitor precisa trazer a restrição de fora.

Terceira leitura: é infidelidade durante o noivado. No judaísmo, o compromisso formal já criava vínculo jurídico antes da vida em comum, e romper esse vínculo exigia certidão de divórcio. A favor: esse caso exato aparece no primeiro capítulo do mesmo evangelho, quando José, já marido de Maria pelo compromisso, decide deixá-la em segredo antes de se unirem. Se há um evangelho em que essa leitura faz sentido, é este. Custo: o versículo fala da "sua mulher" e do casamento com outra, o que se encaixa melhor num casamento completo.

Quarta leitura: é qualquer união irregular. Um sentido largo que cobre desde o concubinato até uniões que a Lei não reconhecia por outros motivos. A favor: respeita a amplitude do termo. Custo: por ser tão larga, quase não diz nada — e uma ressalva que não delimita não funciona como ressalva.

Não é possível decidir. A palavra é ampla, a frase é curta, e o contexto não a define. Quem afirma o contrário está resolvendo por convicção o que o texto deixou aberto.

A dificuldade que vem de fora do versículo

Marcos 10:11-12 e Lucas 16:18 registram o mesmo ensino sem ressalva nenhuma. Ali a proibição é lisa.

Três explicações circulam, e nenhuma se impôs.

Primeira: Mateus explicita o que estava pressuposto. A infidelidade já teria rompido o vínculo, de modo que Marcos e Lucas não precisariam dizê-lo.

Segunda: Mateus escreve para um público judaico, que discutia exatamente os motivos do divórcio, e por isso registra a ressalva que os outros dois omitem por não interessar aos seus leitores.

Terceira: a ressalva é acréscimo posterior, feito na tradição em que Mateus se formou. É a leitura que mais incomoda, e Meyer a rejeita, sustentando que a exceção corresponde à natureza do vínculo.

A honestidade manda dizer que não há consenso nem perspectiva de haver. O que se pode afirmar é que as duas formas do ensino — com e sem ressalva — circulavam cedo, porque estão nos três evangelhos.

"e se casar com outra, comete adultério"

O adultério não está no divórcio. Está no casamento seguinte.

A frase tem duas ações ligadas: divorciar-se e casar com outra. A condenação recai sobre a segunda. Isso supõe uma coisa que nenhuma das partes discute e que é o fundamento silencioso da sentença inteira: o primeiro vínculo não acabou. Se tivesse acabado, o segundo casamento seria apenas um casamento.

E aqui está o nó gramatical que dividiu a cristandade, e que é preciso expor sem fingir que existe solução. A ressalva — "a não ser por imoralidade sexual" — está no meio da frase, entre as duas ações. A ela se ligam duas construções possíveis, ambas legítimas em grego.

Numa, a ressalva alcança as duas ações: quem se divorcia por imoralidade sexual e casa com outra não comete adultério. É a leitura que admite novo casamento, e foi a adotada pela Reforma protestante.

Na outra, a ressalva alcança apenas o divórcio: divorciar-se por imoralidade sexual é permitido, mas casar de novo, não. É a leitura que admite separação sem dissolução do vínculo, e é a que a Igreja Católica sustenta. O Pulpit Commentary a defende expressamente.

As igrejas orientais seguiram um caminho terceiro, tolerando o segundo casamento por razão pastoral sem fazer disso uma dedução do texto.

Três posições, três tradições, um versículo. E a gramática grega não decide entre elas.

"e quem se casar com a mulher divorciada comete adultério"

Esta segunda metade está na edição grega que a ABC segue e não está nos manuscritos mais antigos. A nota textual fica no item 10.

O que a frase diz é duro, e é preciso dizê-lo sem suavizar. A responsabilidade alcança um terceiro — o homem que se casa com uma mulher já divorciada — por um rompimento em que ele não teve parte. Ele não repudiou ninguém. Casa com alguém que, segundo a frase, ainda está ligada a outro.

Isso é coerente com a lógica do versículo. Se o vínculo não acabou, ninguém pode casar com ela, e não apenas ela é que não pode casar. A consequência recai sobre quem entra depois.

A mesma frase fecha Mateus 5:32, e está também em Lucas 16:18, o que mostra que ela circulava junto com o resto do ensino e não é peculiar deste versículo.

Onde o argumento chegou, e o que ele não fez

A pergunta do versículo 3 era "por qualquer motivo?". A resposta, depois de seis versículos, é: por nenhum — salvo uma ressalva cujo alcance ninguém conseguiu fixar.

O que a sentença não faz também importa. Não descreve procedimento, não diz o que acontece depois, não trata dos filhos, não fala da mulher abandonada, não menciona arrependimento, não prevê caso algum de violência ou abandono. Ela enuncia uma regra e para.

Os espaços que ela deixa foram preenchidos depois, por Paulo e por vinte séculos de decisões — e cada preenchimento é leitura, não é o versículo.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

Jesus — fala em primeira pessoa, sem citar texto. A fórmula "eu digo a vocês" é a mesma do Sermão do Monte, aqui usada no meio de uma controvérsia pública.

Os fariseus — ouvintes. Não respondem: o diálogo com eles termina neste versículo, e quem reage no seguinte são os discípulos.

"A mulher divorciada" — a única figura do versículo que não age. Ela é despedida por um, e o texto trata de quem casa com ela depois. Nada é dito sobre o que ela quis.

Salomé e Herodias — mulheres da família herodiana que dissolveram os próprios casamentos. Josefo relata os dois casos como transgressões da lei judaica.

Zóis, Antípatro, Taésis, Petosárapis — nomes de pessoas comuns em documentos de divórcio achados no Egito, de 13 antes de Cristo e de 96 depois.

Lugares

Roma — onde o casamento durava enquanto durasse a intenção dos dois, e o divórcio dispensava juiz, causa e registro.

Oxirrinco — cidade do Egito cujos depósitos de papéis descartados conservaram milhares de documentos privados, entre eles contratos de divórcio.

Conceitos

Porneia — "imoralidade sexual", termo grego amplo para relações fora do casamento, sem contorno fixo. É a palavra da ressalva.

Adultério — termo preciso, que designa a relação com a mulher de outro. É a palavra da condenação, na mesma frase.

5. Pontos de Ensino

A condenação recai sobre o segundo casamento

A frase não diz que divorciar-se é adultério. Diz que casar de novo é. A diferença supõe que o primeiro vínculo não acabou — e é esse pressuposto que sustenta tudo.

A palavra da ressalva é larga, e podia ser estreita

Havia, na mesma frase, uma palavra precisa para adultério. A ressalva usa outra, ampla. É dessa escolha que nasce toda a discussão.

As três posições cristãs saem de uma ambiguidade real

Se a ressalva alcança só o divórcio ou também o novo casamento é questão de construção da frase, e o grego permite as duas. Católicos, protestantes e ortodoxos não divergem por má-fé: divergem porque o texto admite as leituras.

Marcos e Lucas não têm a ressalva

O mesmo ensino circula em duas formas desde cedo. Fingir que não há diferença é desonesto; concluir que uma das formas é falsa é ir além do que se sabe.

A frase entra num mundo de divórcio fácil

Em Roma bastava a decisão de um dos dois; no Egito, um acordo entre as partes; no judaísmo, a palavra e o documento do marido. É contra esse pano de fundo que se mede o corte.

O versículo enuncia e para

Não trata de procedimento, de filhos, de abandono, de violência, de arrependimento. Os espaços deixados foram preenchidos depois, e o preenchimento é leitura.

6. Aspectos Filosóficos

Toda regra com exceção tem o seu ponto de maior disputa na exceção, e não na regra. É ali que se decide quem fica de fora — e ficar de fora de uma proibição é o bem mais valioso que um sistema de regras distribui.

A razão é estrutural. A regra se aplica ao normal, e o normal raramente é objeto de conflito: ninguém discute os casos pacíficos. Os casos que chegam à discussão são os difíceis, e os difíceis se resolvem pela fronteira. De modo que a exceção, que ocupa três palavras num texto de trinta, acaba decidindo a maior parte das situações reais.

Há um efeito adicional, e é o que explica dois mil anos de discussão sobre uma palavra. Quanto mais severa é a regra, mais pressão se acumula sobre a exceção. Uma regra branda distribui alívio por toda parte, e a brecha importa pouco. Uma regra que proíbe quase tudo faz da brecha a única saída — e então cada milímetro do seu contorno é disputado, porque cada milímetro corresponde a vidas.

Isso não é corrupção do raciocínio jurídico. É o que acontece quando se aplica uma norma geral a pessoas particulares, e não há como evitar. O que se pode evitar é fingir que a disputa é sobre gramática quando ela é sobre o que está em jogo.

Um enunciado sobre classes, aplicado a pessoas

Há uma segunda dificuldade, e ela é de outra ordem.

A frase do versículo é geral: "todo aquele que". Ela descreve um tipo de ato e diz o que esse tipo de ato é. Não se refere a ninguém em particular, não conhece circunstâncias, não distingue o homem que abandonou a família do homem que foi abandonado.

Enunciados assim são indispensáveis. Uma norma que dependesse de examinar cada caso não seria uma norma — seria uma coleção de decisões, e não haveria como saber de antemão o que se pode fazer. A generalidade é o que torna uma regra capaz de orientar antes do fato.

Mas a generalidade cobra. Uma regra geral, aplicada a uma pessoa concreta, chega a ela sem nada saber da sua história. E o que se ganha em previsibilidade se perde em ajuste: haverá sempre casos em que a aplicação estrita produz um resultado que a própria regra não queria produzir.

Os sistemas jurídicos lidam com isso há milênios e não resolveram. Criaram instrumentos — a equidade, a atenuação, a dispensa, o julgamento caso a caso — que são todos maneiras de reconhecer que a regra geral, sozinha, não basta. Nenhum desses instrumentos elimina a tensão; apenas a administra.

O que se ganha e o que se perde ao ler este versículo

Cabe, aqui, apenas descrever a dificuldade, e não resolvê-la — porque resolvê-la seria exatamente o que a natureza deste texto não permite.

De um lado, um enunciado geral, severo, sem circunstância e com uma ressalva de contorno incerto. De outro, situações humanas que nunca são gerais: cada uma com uma história, um começo, um desgaste, uma culpa repartida de modo desigual, e quase sempre pessoas que não escolheram nada — filhos, sobretudo.

Entre as duas coisas há uma distância que nenhuma leitura fecha. Quem finge que o versículo resolve casos está usando um enunciado geral como sentença, o que ele não é. Quem finge que ele não diz nada está apagando um texto que diz algo, e algo duro.

O que se pode fazer com honestidade é ler o que está escrito, expor as leituras em disputa, mostrar o que cada uma custa, e reconhecer que o versículo é um enunciado e não um juízo sobre ninguém.

7. Aplicações Práticas

Ler a ressalva antes de aplicar a regra

O trecho mais curto do versículo é o que decide a maior parte dos casos, e o seu alcance está em disputa há dois mil anos. Qualquer uso do versículo que trate a ressalva como clara está tratando como resolvido o ponto que nunca se resolveu.

Saber qual leitura se está usando, e dizer

Católicos, protestantes e ortodoxos leem a mesma frase de três modos, e cada leitura é defensável. Quem cita o versículo está, sem sempre perceber, escolhendo uma delas. Declarar a escolha é mais honesto do que apresentá-la como o texto.

Não usar um enunciado geral como sentença sobre alguém

A frase descreve um tipo de ato e não conhece circunstâncias. Transformá-la em juízo sobre uma pessoa concreta é atribuir-lhe uma função que ela não tem — e a distância entre as duas coisas é onde moram as histórias reais.

Notar quem não fala no versículo

A mulher divorciada aparece na frase e não age nela. A discussão inteira, desde o versículo 3, se dá entre homens sobre o que homens podem fazer. Ver isso não muda o que o texto diz; muda o que se pode concluir dele sobre o que ele não tratou.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. O que significa a palavra traduzida por "imoralidade sexual"?

É um termo grego amplo para relações fora do casamento, sem contorno fixo. Quatro leituras foram propostas: infidelidade dentro do casamento; união proibida por grau de parentesco; infidelidade durante o noivado; união irregular em geral. Cada uma explica bem alguns dados e mal outros. Não é possível decidir, e a frase é curta demais para definir o termo.

2. Por que a palavra importa tanto?

Porque, na mesma frase, existe uma palavra precisa para adultério, e a ressalva não a usa. A troca de uma palavra estreita por uma larga, a poucas palavras de distância, é o que abre a discussão inteira. Se dissesse "exceto por adultério", não haveria dois mil anos de debate.

3. A ressalva permite casar de novo?

Depende de a que ela se liga, e o grego permite as duas construções. Se alcança as duas ações — divorciar-se e casar —, o novo casamento está permitido; é a leitura da Reforma. Se alcança só o divórcio, permite-se a separação e não o novo casamento; é a leitura católica, defendida pelo Pulpit Commentary. As igrejas orientais toleram o novo casamento por razão pastoral, sem derivá-lo da gramática. O texto não decide.

4. Por que Marcos e Lucas não trazem a ressalva?

Três explicações circulam: Mateus explicitou o que estava pressuposto; Mateus escreveu para um público que discutia justamente os motivos do divórcio; a ressalva foi acrescentada na tradição em que Mateus se formou. Meyer rejeita a terceira. Não há consenso, e as duas formas do ensino circulavam cedo, porque estão nos três evangelhos.

5. A última frase do versículo está em todos os manuscritos?

Não. A frase sobre quem se casa com a divorciada está na edição grega que a ABC segue e falta nos manuscritos mais antigos. A mesma frase, porém, fecha Mateus 5:32 e aparece em Lucas 16:18, o que mostra que ela circulava junto com o restante do ensino.

6. Por que o terceiro — quem casa com a divorciada — é alcançado?

Porque a lógica do versículo supõe que o primeiro vínculo não acabou. Se não acabou, a mulher continua ligada ao primeiro marido, e quem casa com ela entra numa união que o texto trata como impedida. A frase é dura e é coerente com o restante do raciocínio.

7. O que o versículo não trata?

Procedimento, filhos, abandono, violência, arrependimento, sustento de quem fica desamparado. A sentença enuncia uma regra e para. Tudo o que foi acrescentado depois — por Paulo e por vinte séculos de decisões — é leitura, e não o versículo.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma sentença, no Sermão do Monte

Mateus 5:32 — "Eu, porém, digo a vocês que qualquer um que se divorciar de sua mulher, a não ser por causa de imoralidade sexual, faz com que ela cometa adultério; e quem se casar com a divorciada comete adultério."

A ressalva está nas duas vezes em que Mateus registra o ensino. A diferença é o sujeito do adultério: ali é ela quem é levada a cometê-lo; aqui é ele quem o comete.

O mesmo ensino, sem ressalva

Marcos 10:11 — "E disse-lhes: Qualquer um que deixar a sua mulher, e se casar com outra, adultera contra ela."

Marcos 10:12 — "E se ela deixar o seu marido, e se casar com outro, adultera."

Marcos não tem a ressalva e acrescenta o caso da mulher que se divorcia — hipótese que a lei judaica não previa e a romana previa.

Lucas 16:18 — "Qualquer que deixa sua mulher, e casa com outra, adultera; e qualquer que se casa com a deixada pelo marido, também adultera."

Lucas também não tem a ressalva, e traz a frase sobre o terceiro.

O caso de noivado no primeiro capítulo de Mateus

Mateus 1:19 — "José, seu marido, sendo justo e não querendo expô-la à desonra pública, resolveu deixá-la em segredo."

O mesmo verbo do divórcio, aplicado a um compromisso ainda não completado. É o apoio principal da leitura que entende a ressalva como infidelidade durante o noivado.

A mesma palavra, aplicada a união proibida

1 Coríntios 5:1 — "Totalmente se ouve que há entre vós pecados sexuais, e tais pecados sexuais que nem mesmo entre os gentios há, como alguém que tomou como mulher a esposa de seu pai."

Paulo usa o termo para uma união de grau proibido, o que sustenta a segunda leitura da ressalva.

O que os apóstolos exigiram dos convertidos vindos do paganismo

Atos 15:29 — "Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, do sangue, da carne sufocada, e do pecado sexual; das quais, se vos guardardes, fareis bem."

A mesma palavra numa lista de proibições dirigida a quem vinha de fora do judaísmo. O seu sentido exato ali também é discutido.

A primeira aplicação a um caso que o versículo não previu

1 Coríntios 7:15 — "Mas se o descrente se separar, separe-se também. Em tal situação o irmão ou a irmã não estão sujeitos à servidão; mas Deus vos chamou para a paz."

Paulo trata de uma hipótese ausente deste versículo, e a resolve por conta própria. É o começo de uma longa série de preenchimentos dos espaços que a sentença deixou.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Eu digo a vocês que todo aquele que se divorciar da sua mulher, a não ser por imoralidade sexual, e se casar com outra, comete adultério; e quem se casar com a mulher divorciada comete adultério.”

Texto grego (Textus Receptus)

λέγω δὲ ὑμῖν ὅτι ὃς ἂν ἀπολύσῃ τὴν γυναῖκα αὐτοῦ, εἰ μὴ ἐπὶ πορνείᾳ, καὶ γαμήσῃ ἄλλην, μοιχᾶται· καὶ ὁ ἀπολελυμένην γαμήσας μοιχᾶται.

Transliteração

legō de hymin hoti hos an apolysē tēn gynaika autou, ei mē epi porneia, kai gamēsē allēn, moichatai; kai ho apolelymenēn gamēsas moichatai.

O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega que a ABC segue) traz a frase final kai ho apolelymenēn gamēsas moichatai, "e quem se casar com a divorciada comete adultério"; os manuscritos mais antigos, entre eles o Sinaítico e o Vaticano, não a trazem, e as edições críticas modernas a omitem.

Análise palavra por palavra

λέγω δὲ ὑμῖν — legō de hymin, "eu digo a vocês". Presente do indicativo ativo de legō. O pronome "eu" não está escrito, porque o verbo grego já o traz na desinência; em Mateus 5:32 ele aparece explícito, egō de legō hymin, o que dá ênfase maior. A fórmula opõe a palavra de quem fala ao texto que acabou de ser citado.

ὃς ἂν ἀπολύσῃ — hos an apolysē, "todo aquele que se divorciar". Pronome relativo com a partícula an, que torna a frase indeterminada — "quem quer que" —, seguido do aoristo do subjuntivo de apolyō. É o mesmo verbo dos versículos 3, 7 e 8: soltar, despedir, mandar embora.

εἰ μὴ ἐπὶ πορνείᾳ — ei mē epi porneia, "a não ser por imoralidade sexual". Ei mē é a fórmula da exceção, "se não", "exceto". A preposição epi com dativo indica aqui a base ou o motivo: "com fundamento em". Em Mateus 5:32 a construção é outra, parektos logou porneias, "à parte de motivo de imoralidade sexual".

πορνείᾳ — porneia, "imoralidade sexual". Substantivo derivado de pornē, "prostituta", e da raiz de pernēmi, "vender" — a ligação original é com a mulher vendida. No grego bíblico o termo se alargou muito e passou a cobrir relações sexuais fora do casamento em geral. A Septuaginta o usa também em sentido figurado, para a infidelidade do povo a Deus. É essa amplitude que abre as quatro leituras discutidas no item 3.

καὶ γαμήσῃ ἄλλην — kai gamēsē allēn, "e se casar com outra". Aoristo do subjuntivo de gameō, "casar-se". Allēn é "outra", no feminino. A posição desta oração depois da ressalva é o ponto gramatical mais disputado do versículo: se a exceção alcança também esta ação, o novo casamento fica ressalvado; se alcança só a anterior, não fica. As duas construções são possíveis em grego.

μοιχᾶται — moichatai, "comete adultério". Presente de moichaō, na forma média, de moichos, "adúltero". Esta é a palavra precisa: no uso judaico e grego, designa a relação com a mulher de outro homem. É ela que está no sétimo mandamento, em Êxodo 20:14 na tradução grega, e no versículo 18 deste mesmo capítulo. A existência dessa palavra exata na mesma frase é o que torna a escolha de porneia na ressalva tão discutida.

ὁ ἀπολελυμένην γαμήσας — ho apolelymenēn gamēsas, "o que se casa com a que foi despedida". Apolelymenēn é particípio perfeito passivo de apolyō: "a que foi despedida e permanece nessa condição". O perfeito grego marca um estado que dura. Gamēsas é particípio aoristo ativo de gameō. O sujeito é um terceiro, que não participou do rompimento.

11. Conclusão

A resposta chega ao fim e é severa. Perguntaram por quais motivos se pode; a sentença responde que por nenhum, com uma ressalva de três palavras cujo alcance nunca foi fixado.

A condenação recai sobre o novo casamento, e não sobre o ato de despedir. Isso supõe o que o argumento vinha construindo desde o versículo 4: o primeiro vínculo não terminou. É esse pressuposto, e não uma severidade avulsa, que faz a frase dizer o que diz.

A ressalva usa uma palavra larga num lugar onde cabia uma estreita — a palavra precisa para adultério está na mesma frase, poucas sílabas adiante. Quatro leituras se formaram a partir dessa escolha, e cada uma paga um preço. Não é possível decidir entre elas, e quem afirma o contrário está fechando por convicção o que o texto deixou aberto.

Duas outras coisas ficam registradas sem solução. A posição da ressalva na frase admite duas construções, e é daí que saem as três posições cristãs sobre o novo casamento — nenhuma delas produto de má-fé, todas defensáveis a partir do grego. E a última frase do versículo, que alcança um terceiro, está na edição que a ABC segue e falta nos manuscritos mais antigos.

Resta o tamanho do corte, que só se mede contra o pano de fundo. Em Roma o casamento acabava quando um dos dois deixava de querer; no Egito, por acordo entre as partes; no judaísmo, pela palavra e pelo documento do marido, por motivos que iam até a comida queimada. Num mundo assim, esta sentença não ajusta uma régua. Ela recusa a pergunta que a régua pressupunha.

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Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%