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Mateus 19:8

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✍️ Por Alberto Adriano·20 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 38 acessos
Ele respondeu: “Foi por causa da dureza do coração de vocês que Moisés permitiu que se divorciassem das suas mulheres; mas no princípio não foi assim.
Duas tábuas de pedra apoiadas numa parede de barro, com um rolo aberto ao lado sobre uma mesa baixa, iluminadas por uma lamparina.

Estudo


Ele respondeu: “Foi por causa da dureza do coração de vocês que Moisés permitiu que se divorciassem das suas mulheres; mas no princípio não foi assim.

1. Introdução

A resposta corrige uma palavra. Eles disseram que Moisés mandou; ele diz que Moisés permitiu.

E dá o motivo da permissão: a dureza do coração — de vocês, não dos antepassados.

A frase final desloca tudo de novo para o começo: "no princípio não foi assim". É a mesma expressão do versículo 4, e ela fecha o arco do argumento.

2. Contexto Histórico e Cultural

A ideia de uma lei dada por causa da fraqueza humana — que não aprova o que regula — não é estranha à tradição judaica. Ela tem nome, e tem um caso clássico.

"A Torá falou por causa da má inclinação"

Deuteronômio 21:10-14 trata de uma situação brutal: o soldado que, na guerra, vê entre as cativas uma mulher bonita e a deseja. A lei não proíbe. Ela impõe procedimento: ele a leva para casa, ela corta o cabelo e as unhas, troca a roupa de cativa e chora os pais por um mês inteiro; só depois ele pode tomá-la por mulher. E se depois não a quiser, não pode vendê-la nem tratá-la como escrava — tem de deixá-la ir livre.

O Talmude, discutindo essa lei no tratado Kidushin, aplica-lhe um princípio que se tornou fórmula: "a Torá só falou por causa da má inclinação". Isto é: a permissão não existe porque a coisa seja boa. Existe porque a coisa aconteceria de qualquer jeito, e a lei prefere pô-la sob regra a deixá-la solta.

A leitura tradicional daquela lei é ainda mais explícita: o mês de luto, o cabelo cortado, as unhas por fazer, a roupa trocada — tudo isso serve para que o desejo esfrie. A lei permite e, ao mesmo tempo, monta um caminho longo o bastante para que boa parte dos casos se desfaça antes do fim.

Isso importa para o versículo por uma razão precisa. A resposta de Jesus não inventa uma categoria nova nem importa um conceito estrangeiro. Ela aplica ao divórcio um tipo de raciocínio que os próprios mestres judeus aplicavam a outras leis: há disposições da Torá que existem contra um mal que não se conseguiria impedir.

O que é "dureza de coração" no vocabulário bíblico

A expressão traduz uma família de imagens hebraicas que não fala de crueldade, e sim de rigidez. Coração duro, nuca dura, coração de pedra, prepúcio do coração — o corpo do texto trata o coração como o órgão da decisão e da inteligência, e não do sentimento.

A consequência é grande para a leitura. "Dureza de coração" não é insensibilidade emocional; é resistência a mudar. O coração duro não é o que não sente: é o que não cede, o que não é moldável, o que não se deixa instruir. Daí a imagem médica que os profetas usam — trocar o coração de pedra por um de carne.

O que se discutia sobre Deuteronômio 24 no judaísmo do tempo

Não era consenso que a lei do divórcio fosse boa. Filo de Alexandria, filósofo judeu contemporâneo do Novo Testamento, comenta a passagem e chama de vergonhoso o comportamento do homem que quer a mulher de volta depois de ela ter se casado com outro. Ele lê a lei como censura a uma conduta, e não como concessão de um direito.

E há um texto profético que registra desagrado direto. Malaquias 2:16, no final do livro, é lido pela maior parte das traduções como uma declaração de que o divórcio é odioso a Deus. Há um problema textual conhecido nessa passagem: a frase hebraica é de construção difícil e comporta mais de uma leitura — uma delas faz o verbo "odiar" ter o marido por sujeito, o que mudaria o sentido de "ele odeia o divórcio" para algo como "se o odeias, despede-a". A discussão é antiga e não está encerrada. O que se pode afirmar é que a tradição de leitura dominante, no judaísmo e no cristianismo, sempre tomou o versículo como reprovação.

Por que a permissão existia, do ponto de vista da mulher

Ellicott faz uma observação que muda o ângulo: a legislação mosaica escolheu o menor de dois males. Sem a exigência do documento e da despedida formal, o homem que se cansasse da mulher a manteria em casa sem tratá-la como esposa, ou a expulsaria sem nada, ou a trataria como serva.

O procedimento obrigatório cortava essas saídas. Ele tornava a ruptura pública, documentada e cara, e devolvia à mulher a condição de pessoa livre para casar de novo. A permissão, vista assim, não é um favor ao marido — é um limite imposto a ele.

O mesmo Ellicott estende o raciocínio, e a extensão é significativa: outros pontos em que a Lei tolerou práticas duras, como a poligamia e a escravidão, poderiam ser lidos do mesmo modo — disposições que regulam o que não se conseguiria abolir. É uma leitura, e ela tem consequências grandes para quem a adota.

3. Análise Teológica do Versículo

"Ele respondeu: Foi por causa da dureza do coração de vocês"

A resposta não começa pela correção da palavra. Começa pelo diagnóstico — e o diagnóstico vem antes porque é ele que explica a correção.

"De vocês" é o detalhe que dói. A frase podia ter dito "dos seus pais", "daquela geração", "do povo naquele tempo". Diz "de vocês". Os homens que estão ali, fazendo a pergunta, são postos dentro da condição que motivou a permissão.

Isso muda o que a frase é. Não é uma explicação histórica sobre por que uma lei antiga foi dada; é uma acusação dirigida a quem está presente. Quem pergunta até onde pode ir na dispensa da mulher está, por esse mesmo fato, mostrando de que condição a lei falava.

E há um efeito de argumento. A lei que eles invocaram em favor da posição deles é apresentada como prova contra eles: existe porque eles são assim.

"que Moisés permitiu"

Uma palavra, e é o eixo da resposta.

Eles disseram que Moisés mandou — verbo do preceito, da ordem, do mandamento. Ele diz que Moisés permitiu — verbo de facultar, de deixar fazer, de não impedir. Nada mais na frase é contestado: Moisés é mantido, a Lei é mantida, o texto é mantido. Só o estatuto muda.

E o estatuto é tudo. Um mandamento exprime o que se deve fazer; uma permissão exprime o que não será punido. A distância entre os dois é justamente onde cabe a pergunta que os fariseus não fizeram — se aquilo era bom.

Repare no que a correção não faz. Não diz que Moisés errou. Não revoga a lei. Não acusa o texto de ser falso. Ela devolve à disposição a etiqueta que o uso havia apagado — e é por isso que o ataque dos fariseus não tem para onde ir: eles não podem acusá-lo de contradizer a Lei, porque ele não a contradisse.

Uma nota sobre os evangelhos, e ela é honesta: Marcos 10:5, no lugar correspondente, faz Jesus dizer que Moisés "vos escreveu este mandamento". Ali a palavra do preceito fica na resposta, e não na objeção. A diferença entre os dois relatos foi registrada no estudo de Mateus 19:7.

"que se divorciassem das suas mulheres"

O plural chama atenção. Em todo o diálogo, desde o versículo 3, a mulher aparece no singular: "a sua mulher". Aqui, uma vez, é "as suas mulheres".

O plural acompanha o "de vocês" — são muitos homens, cada um com a sua. Não há razão para ler nele uma referência à poligamia. Mas ele produz um efeito: por um instante, o assunto deixa de ser um caso e passa a ser uma prática coletiva.

"mas no princípio não foi assim"

A expressão é a mesma do versículo 4 — "desde o princípio". As duas pontas do argumento são a mesma palavra, e é isso que fecha o raciocínio: começou no princípio, volta ao princípio.

A forma do verbo merece atenção no sentido, não na gramática. A frase não diz "não era assim", como quem descreve um passado encerrado. Diz algo mais próximo de "não veio a ser assim" — um estado que se instalou e continua. O começo não é apresentado como uma época perdida, e sim como uma realidade que permanece em vigor por baixo da disposição posterior.

Vincent, comentando a passagem, faz exatamente essa observação: a ordem original continua em vigor, e a permissão de Moisés é acomodação temporária, não alteração do desenho.

O que a frase não resolve

É preciso dizer o que fica em aberto, porque é grande.

O versículo não revoga Deuteronômio 24. Não diz que a permissão acabou, não diz que a partir de agora não vale mais, não declara a lei suspensa. O que diz é por que ela existiu e que ela não corresponde ao começo.

Daí nasce a pergunta que atravessa toda a história cristã: se a dureza do coração continua — e nada no texto sugere que tenha acabado —, a permissão continua? Ou ela caiu porque o começo foi restabelecido? O versículo 9 vai dar uma resposta, e a discussão sobre o alcance dela não parou até hoje.

Há ainda um segundo ponto em aberto, mais incômodo. Se uma lei da Torá pode existir por concessão à fraqueza humana, quantas outras estão no mesmo caso, e como se sabe quais? O versículo abre essa porta e não a fecha. Ellicott propõe estender o raciocínio a outras tolerâncias da Lei; o texto, por si, não autoriza nem proíbe a extensão.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

Jesus — corrige um verbo e mantém tudo o mais. A resposta não ataca Moisés nem a Lei; reclassifica uma disposição.

Moisés — sujeito das duas frases em disputa. Na boca dos fariseus, quem mandou; na resposta, quem permitiu. O nome dele é o campo de batalha do capítulo.

Os fariseus — tratados na segunda pessoa e incluídos no diagnóstico: "a dureza do coração de vocês". Não voltam a falar; o diálogo com eles termina aqui.

Textos e ideias

Deuteronômio 24:1-4 — a disposição cuja natureza está em disputa.

A lei da cativa de guerra — Deuteronômio 21:10-14, o caso clássico em que a tradição judaica reconhece uma permissão dada contra um mal inevitável.

"A dureza do coração" — no vocabulário bíblico, rigidez e resistência a mudar, e não insensibilidade emocional. A imagem correspondente nos profetas é a do coração de pedra.

Eventos

A entrega da Lei por Moisés — o acontecimento invocado pelos dois lados.

O princípio — a criação, referida pela mesma expressão do versículo 4. É a segunda ponta do argumento.

5. Pontos de Ensino

Permitir não é mandar

A correção cabe num verbo e desfaz a objeção inteira. Um mandamento diz o que se deve fazer; uma permissão diz o que não será punido. Entre os dois cabe a pergunta que ninguém tinha feito.

A lei invocada vira prova contra quem a invocou

Os fariseus citaram Deuteronômio 24 a seu favor. A resposta mantém o texto e explica por que ele existe: por causa da condição de quem o está citando.

"De vocês", e não "dos antigos"

O diagnóstico é dirigido aos presentes. Não é uma explicação sobre uma geração distante; é uma acusação em segunda pessoa.

Dureza de coração é rigidez, não frieza

No vocabulário bíblico o coração é o órgão da decisão. O coração duro não é o que não sente: é o que não cede e não se deixa instruir.

O começo continua em vigor

"No princípio não foi assim" não apresenta a criação como época perdida, e sim como realidade que permanece por baixo da disposição posterior.

Uma lei pode ter data e motivo sem ser arbitrária

A tradição judaica já reconhecia disposições dadas contra um mal que não se conseguiria impedir. A resposta aplica ao divórcio um raciocínio que existia.

6. Aspectos Filosóficos

Há uma pergunta moral séria escondida no versículo, e ela não tem resposta pacífica: quando uma regra criada para conter um mal se torna cúmplice dele?

O raciocínio da concessão é conhecido e tem boa defesa. Existe uma prática que causa dano. Proibi-la inteiramente não a faria desaparecer — apenas a empurraria para fora do alcance de qualquer controle, onde o dano seria maior. Então se escolhe regular: impõe-se forma, prazo, publicidade, compensação para quem perde. O resultado é menos dano do que a proibição teria produzido.

Essa é uma das poucas ideias em ética que resistem bem ao teste da realidade. Ela reconhece que o legislador não trabalha com pessoas ideais e que uma norma inaplicável não protege ninguém. Quem a rejeita em nome da pureza costuma produzir mais sofrimento do que quem a aceita.

Mas ela cobra um preço, e o preço tem duas partes.

A primeira parte: a regra ensina

Uma norma nunca é só um instrumento. Ela também informa. Quem cresce sob um sistema de regras aprende com elas o que é normal, e aprende isso sem que ninguém precise dizer. A existência de um procedimento estabelecido para uma coisa comunica, com muito mais eficácia do que qualquer discurso, que aquela coisa faz parte da vida ordinária.

Isso significa que a concessão trabalha contra o seu próprio propósito ao longo do tempo. Ela foi feita para limitar uma prática; ao limitá-la, normaliza-a; ao normalizá-la, aumenta a sua frequência; e o aumento da frequência corrói o limite. Não é um defeito de aplicação — é o modo como concessões funcionam.

A segunda parte: a fraqueza vira permanente

Uma permissão dada em atenção à fraqueza pressupõe que a fraqueza exista. Ao existir, a permissão remove um dos incentivos para superá-la: a necessidade. Se há caminho previsto, não há urgência em não precisar dele.

Daí a acusação que sempre se faz a esse tipo de legislação: ela rebaixa a régua e depois usa o rebaixamento como prova de que a régua alta era irreal. O argumento é forte e não é decisivo, porque a alternativa — manter a régua alta e não proteger ninguém — também tem vítimas, e elas são contáveis.

Os dois julgamentos possíveis, e por que ambos sobrevivem

Diante disso, duas avaliações da mesma norma permanecem de pé, e não se pode dizer que uma delas seja irracional.

A primeira chama a concessão de misericórdia. Ela olha para quem seria esmagado se a norma não existisse — no caso deste versículo, a mulher que seria posta na rua sem documento, sem dote e sem direito de recomeçar — e conclui que a permissão a protegeu. Julga a norma pelas pessoas concretas que ela amparou.

A segunda chama a concessão de cumplicidade. Ela olha para o efeito de longo prazo — a prática consolidada, o direito presumido, o costume que engoliu a exceção — e conclui que a norma, ao organizar o dano, o perpetuou. Julga a norma pela cultura que ela produziu.

As duas olham para coisas diferentes, e as duas estão vendo o que há para ver. Este versículo, notavelmente, não escolhe. Ele não diz que a permissão foi boa nem que foi má; diz por que ela foi dada e que não é o começo. É uma classificação, não um veredito — e quem transforma o versículo em veredito está acrescentando ao texto.

7. Aplicações Práticas

Perguntar por que uma regra existe, e não só o que ela permite

Uma norma que se conhece só pelo enunciado se torna, com o tempo, uma autorização. Recuperar o motivo pelo qual ela foi feita é o que impede que ela seja usada contra a finalidade que tinha.

A distância entre o permitido e o bom

Saber que algo não será punido não responde à pergunta sobre se deve ser feito. São duas perguntas diferentes, e a primeira costuma ser usada para não ter de enfrentar a segunda.

Reconhecer-se no diagnóstico

A frase diz "de vocês", e não "dos antigos". Quem lê uma explicação sobre a fraqueza humana como se ela falasse de terceiros perdeu a parte que lhe cabia.

Uma regra também ensina

Toda norma comunica o que é normal, independentemente do que os seus autores quiseram dizer. Quem cria procedimento para alguma coisa está, sem querer, dizendo que aquilo é ordinário — e isso vale para regras de família, de trabalho e de qualquer instituição.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Jesus está dizendo que Moisés errou?

Não. A resposta mantém a lei, mantém Moisés e mantém o texto. O que ela faz é classificar a disposição: não é preceito, é permissão. Nenhuma palavra da frase acusa a Lei de ser falsa ou injusta; o que muda é o estatuto, não a validade.

2. O que é exatamente "dureza de coração"?

No vocabulário bíblico, o coração é o órgão da decisão e do entendimento, não do sentimento. Dureza de coração é rigidez, resistência a ser moldado, recusa de ceder. A imagem correspondente nos profetas é a do coração de pedra, que Ezequiel 36:26 promete trocar por um de carne. Não é frieza emocional.

3. A permissão acabou?

O versículo não diz. Ele explica por que ela foi dada e afirma que não corresponde ao começo. Se a dureza do coração continua — e nada aqui sugere que tenha acabado —, a permissão continuaria? Ou ela caiu porque o começo foi restabelecido? A resposta vem no versículo seguinte, e o alcance dela é discutido desde então.

4. Havia, no judaísmo, a ideia de uma lei dada por concessão?

Havia, e com fórmula própria. O Talmude, discutindo a lei da cativa de guerra em Deuteronômio 21:10-14, diz que "a Torá só falou por causa da má inclinação" — isto é, a permissão existe porque a coisa aconteceria de qualquer modo. O raciocínio da resposta não é estrangeiro à tradição em que ela foi dada.

5. Por que "as suas mulheres", no plural?

Porque o interlocutor é plural: "a dureza do coração de vocês", muitos homens, cada um com a sua. Não há razão para ler ali uma referência à poligamia. O efeito do plural é transformar, por um instante, um caso particular numa prática coletiva.

6. Se uma lei da Torá pode ser concessão, quantas outras são?

O versículo abre essa porta e não a fecha. Ellicott propõe estender o raciocínio a outras tolerâncias da Lei, como a poligamia e a escravidão. É uma leitura com consequências grandes, e o texto, sozinho, nem a autoriza nem a proíbe. Não há consenso.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma resposta em Marcos

Marcos 10:5 — "E Jesus lhes respondeu: Foi pela dureza dos vossos corações que ele vos escreveu este mandamento."

O diagnóstico é idêntico; a palavra "mandamento", que em Mateus está na objeção dos fariseus, aqui está na resposta.

O desagrado registrado por um profeta

Malaquias 2:16 — "Porque o SENHOR Deus de Israel diz que ele odeia o divórcio, e quem cobre a sua roupa de violência, diz o SENHOR dos exércitos. Guardai-vos pois em vosso espírito, e não sejais infiéis."

A construção da frase hebraica é difícil e comporta mais de uma leitura, mas a tradição dominante sempre a tomou como reprovação.

O coração que precisa ser cortado

Deuteronômio 10:16 — "Circuncidai pois o prepúcio de vosso coração, e não endureçais mais vossa cerviz."

Jeremias 4:4 — "Circuncidai-vos ao SENHOR, e tirai os prepúcios de vosso coração, ó homens de Judá e moradores de Jerusalém."

A mesma imagem, com o mesmo alvo: uma rigidez interna que precisa ser removida.

A promessa de troca do coração

Ezequiel 36:26 — "E vos darei um novo coração, e porei um novo espírito dentro de vós; e tirarei de vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne."

Se a dureza do coração é o motivo da permissão, esta é a promessa que a remove pela raiz.

A lei da cativa de guerra

Deuteronômio 21:11 — "E vires entre os cativos alguma mulher bela, e a cobiçares, e a tomares para ti por mulher,"

O caso em que a tradição judaica reconhece expressamente uma permissão dada contra um mal que não se conseguiria impedir.

A volta ao princípio

Mateus 19:4 — "Ele respondeu: Vocês não leram que aquele que os fez, desde o princípio, os fez homem e mulher,"

"Desde o princípio" e "no princípio" são a mesma expressão em grego, e amarram as duas pontas do argumento.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Ele respondeu: “Foi por causa da dureza do coração de vocês que Moisés permitiu que se divorciassem das suas mulheres; mas no princípio não foi assim.

Texto grego (Textus Receptus)

λέγει αὐτοῖς, Ὅτι Μωσῆς πρὸς τὴν σκληροκαρδίαν ὑμῶν ἐπέτρεψεν ὑμῖν ἀπολῦσαι τὰς γυναῖκας ὑμῶν· ἀπ’ ἀρχῆς δὲ οὐ γέγονεν οὕτω.

Transliteração

legei autois, Hoti Mōsēs pros tēn sklērokardian hymōn epetrepsen hymin apolysai tas gynaikas hymōn; ap' archēs de ou gegonen houtōs.

Análise palavra por palavra

πρὸς τὴν σκληροκαρδίαν ὑμῶν — pros tēn sklērokardian hymōn, "em vista da dureza de coração de vocês". A preposição pros com acusativo indica aqui consideração, atenção a uma circunstância: "tendo em vista", "em atenção a". Não é "por causa" no sentido de causa eficiente; é "diante disso", "considerando isso". A permissão é uma resposta a um estado de coisas.

σκληροκαρδίαν — sklērokardian, "dureza de coração". Palavra composta de sklēros, "duro, seco, áspero" — de onde vem "esclerose" —, e kardia, "coração". Ela quase não existe em grego fora da Bíblia: foi criada pelos tradutores da Septuaginta para verter a expressão hebraica de Deuteronômio 10:16 e de Jeremias 4:4, "prepúcio do coração". No Novo Testamento aparece três vezes: aqui, em Marcos 10:5 e em Marcos 16:14. Kardia, no vocabulário bíblico, é a sede da decisão, da memória e do entendimento; o coração duro é o que não se deixa moldar, e não o que não se comove.

ἐπέτρεψεν — epetrepsen, "permitiu". Aoristo do indicativo ativo de epitrepō, formado de epi e trepō, "voltar, virar": ao pé da letra, "entregar a decisão a alguém", e daí "facultar, deixar, consentir". É o verbo do pedido atendido — Mateus 8:21, "permite-me primeiro ir sepultar meu pai"; Mateus 8:31, os demônios pedindo permissão. A oposição com eneteilato, "mandou", do versículo 7, é o eixo da resposta: um verbo diz o que se deve fazer, o outro diz o que não será impedido.

ὑμῖν — hymin, "a vocês". Dativo do pronome de segunda pessoa do plural. É a terceira vez que a segunda pessoa aparece na frase — "de vocês", "a vocês", "de vocês" —, e é ela que põe os presentes dentro do diagnóstico, em vez de falar de uma geração passada.

ἀπολῦσαι τὰς γυναῖκας ὑμῶν — apolysai tas gynaikas hymōn, "mandar embora as mulheres de vocês". O mesmo verbo apolyō dos versículos 3, 7 e 9. O substantivo está no plural, única vez em toda a controvérsia: em todos os outros lugares é "a sua mulher", no singular. O plural acompanha o interlocutor plural.

ἀπ’ ἀρχῆς — ap' archēs, "desde o princípio". Expressão idêntica à do versículo 4. É a moldura do argumento inteiro: ele abre com ela e fecha com ela.

οὐ γέγονεν οὕτως — ou gegonen houtōs, "não veio a ser assim". Perfeito do indicativo ativo de ginomai, "vir a ser, tornar-se". O perfeito grego descreve uma ação passada cujo resultado permanece — e é por isso que a frase não é simplesmente "não era assim". O que ela afirma é que a situação do princípio nunca deixou de valer. A edição crítica traz o mesmo texto; não há variante no versículo.

11. Conclusão

A resposta desmonta a objeção corrigindo um verbo e não toca em mais nada. Moisés fica, a Lei fica, o texto fica. O que muda é o que aquela disposição é: não um preceito, mas uma permissão.

O motivo da permissão é dado antes da correção, e é dirigido aos presentes. "A dureza do coração de vocês" transforma a lei que eles invocaram em prova contra eles: ela existe por causa da condição de quem a está citando. No vocabulário bíblico, essa dureza é rigidez e recusa de ceder, e não frieza de sentimento.

O raciocínio não era estranho ao judaísmo. A tradição reconhecia disposições da Torá dadas contra um mal que não se conseguiria impedir, e o caso clássico — a lei da cativa de guerra — recebeu exatamente essa explicação: a Torá falou por causa da má inclinação. O que a resposta faz é aplicar ao divórcio uma categoria que já existia.

A frase final fecha o arco. "No princípio não foi assim" repete a expressão do versículo 4, e a forma do verbo apresenta o começo não como época perdida, mas como estado que permanece em vigor por baixo da permissão posterior.

O que o versículo deixa em aberto é maior do que o que ele resolve, e a honestidade pede que se diga. Ele não revoga Deuteronômio 24, não declara a permissão encerrada e não diz o que fazer com ela agora. E abre uma porta que não fecha: se uma lei da Torá pode existir por concessão à fraqueza, resta saber quantas outras estão no mesmo caso e como distingui-las. O versículo seguinte responde à primeira pergunta; a segunda continua aberta.

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