Os demônios imploravam a Jesus: "Se nos expulsas, manda-nos entrar naquela manada de porcos"
1. Introdução
A cena dá uma guinada reveladora. As forças que momentos antes fechavam um caminho inteiro e gritavam com fúria agora fazem uma coisa inesperada: suplicam. Os demônios rogam a Jesus e, ao rogar, revelam o quanto são pequenos diante dele. “Se nos expulsares”, dizem, admitindo que a decisão não está em suas mãos; “manda-nos entrar naquela manada de porcos”, pedindo permissão para o próprio destino.
O versículo desmonta qualquer imagem de um mal soberano, capaz de agir por conta própria. Aqui, o mal negocia, implora e depende de uma autorização. A pequena palavra “se” e o verbo “rogar” dizem mais sobre a autoridade de Cristo do que muitos discursos: diante dele, os demônios não exigem, pedem.
Há ainda o conteúdo estranho do pedido — por que os porcos? A resposta abre uma janela sobre a natureza destrutiva daquelas forças e prepara o desfecho dramático que virá no versículo seguinte. Mas o essencial já está dito nesta cena: o mal só faz o que lhe é permitido fazer.
2. Contexto Histórico e Cultural
No imaginário do mundo antigo, acreditava-se que os espíritos buscavam habitar corpos, e que ficar “sem morada” era, para eles, uma forma de tormento. O pedido dos demônios para entrar nos porcos reflete essa ideia: preferem um corpo, ainda que de animais impuros, a serem lançados fora, sem lugar. Lucas registra que o que mais temiam era serem enviados ao “abismo”, a prisão dos espíritos — de modo que os porcos aparecem quase como uma alternativa desesperada.
A escolha dos porcos não é neutra. Sendo os animais mais impuros para a mentalidade judaica, eles formam o par perfeito para os espíritos imundos: o impuro pede para entrar no impuro. Há aqui uma lógica narrativa que o leitor judeu de Mateus captaria de imediato — o mal se dirige naturalmente para aquilo que já estava fora da esfera do sagrado.
É importante notar o gesto de rogar. Numa cultura marcada por hierarquias e relações de poder, suplicar era o que fazia o inferior diante do superior. Que seres tão temidos, capazes de dominar homens e aterrorizar uma região inteira, se ponham a rogar diante de Jesus, diz tudo sobre a relação de forças. A cena inverte por completo a impressão inicial de poder demoníaco.
3. Análise Teológica do Versículo
“E os demônios rogaram-lhe”
Este pedido revela que os demônios reconhecem a autoridade divina de Jesus. O ato de rogar demonstra ao mesmo tempo o seu desespero e o seu reconhecimento da superioridade de Cristo sobre as forças do mal. Quem antes aterrorizava agora suplica.
“Se nos expulsares”
A condição “se” mostra que os demônios têm plena consciência de que Jesus tem o poder de expulsá-los. Não há dúvida da parte deles quanto à autoridade dele; a única questão é para onde irão. Isso se alinha ao tema, recorrente nos evangelhos, do domínio de Cristo sobre o mal.
“manda-nos entrar naquela manada de porcos”
O pedido específico carrega peso teológico. O desejo de entrar nos porcos pode refletir a ideia de que os espíritos buscam um corpo para habitar. Além disso, os porcos eram considerados impuros pela lei judaica, e a sua presença naquela região gentia reforça o cenário e antecipa a derrota final do mal pelo poder purificador de Jesus.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
Jesus — figura central, que exerce autoridade sobre o mundo espiritual; é a ele que os demônios se dirigem.
Os demônios — seres espirituais opostos a Deus, que reconhecem a autoridade de Jesus e agora lhe suplicam.
Os dois homens dominados — atormentados pelos demônios, são o alvo da intervenção libertadora de Jesus.
Lugares
A região gentia — onde a manada de porcos torna possível o pedido dos demônios.
Eventos
A súplica dos demônios — o momento em que as forças do mal, longe de exigir, pedem permissão, revelando a sua submissão a Cristo.
5. Pontos de Ensino
A autoridade de Jesus
O comando de Jesus sobre os demônios demonstra a sua autoridade suprema sobre toda a criação, física e espiritual. Nada acontece à revelia dele.
O reconhecimento do poder de Jesus
Até os demônios reconhecem e se submetem à autoridade de Jesus, o que lembra o poder inerente ao seu nome.
A realidade do conflito espiritual
A cena ilustra a realidade da luta espiritual e a necessidade de o cristão apoiar-se no poder de Jesus nas próprias batalhas.
Compaixão e libertação
A disposição de Jesus para libertar os dois homens mostra a sua compaixão e o seu desejo de libertar as pessoas de toda escravidão.
O custo de seguir a Jesus
A destruição da manada, que se aproxima, pode ser vista como lembrete de que seguir a Jesus às vezes implica perdas — mas a liberdade que ele traz não tem preço.
6. Aspectos Filosóficos
O ponto filosófico mais forte deste versículo é a questão da permissão. Os demônios não podem sequer escolher para onde ir sem o consentimento de Jesus. Isso toca um problema antigo: se o mal existe e age, até onde vai a sua liberdade? A resposta que o texto sugere é sóbria e desconcertante — o mal é real, mas não é autônomo. Ele opera dentro de limites que não estabeleceu e que não pode ultrapassar. O livro de Jó já dizia o mesmo: o adversário só age sobre aquilo que lhe é concedido.
Isso reordena a maneira de pensar o mal no mundo. Ele não é uma força igual e oposta ao bem, num duelo de resultado incerto. É uma realidade subordinada, que pede licença. Reconhecer isso não diminui a seriedade do mal, mas nega a ele o trono que muitas vezes lhe atribuímos.
Há também a questão do desejo desesperado por um corpo, por uma morada. Os demônios preferem habitar porcos a ficar sem lugar. Há nisso um retrato do mal como algo essencialmente parasitário: incapaz de existir por si de forma plena, precisa de um hospedeiro para se manifestar. O mal, nesse sentido, não cria nada; apenas ocupa, corrompe e destrói o que já existe.
7. Aplicações Práticas
Redimensionar o poder do mal. As forças que pareciam invencíveis estão suplicando permissão. Diante daquilo que nos amedronta, vale lembrar que o mal não é soberano — ele opera sob limites que não controla.
Confiar que nada escapa ao controle de Deus. Se nem os demônios agem sem consentimento, então também as adversidades que enfrentamos não estão fora do alcance de Deus. Isso não explica todo sofrimento, mas oferece um chão firme.
Reconhecer o caráter parasitário do mal. O mal precisa ocupar, não cria. Perceber isso ajuda a não idolatrá-lo nem a temê-lo em excesso: ele vive do que rouba, não de si mesmo.
Levar os próprios pedidos a Cristo. Há uma ironia instrutiva: até os demônios sabem a quem rogar. Quanto mais nós, que buscamos o bem, devemos dirigir a ele os nossos pedidos, com confiança.
Aceitar que a libertação pode ter custo. O pedido dos demônios aponta para a perda que virá. Seguir a Cristo e ser libertado às vezes implica renunciar a algo — e essa troca, por mais dolorosa, vale a pena.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Qual é o significado de Mateus 8:31?
É o momento em que os demônios, reconhecendo que não podem resistir a Jesus, suplicam-lhe permissão para entrar na manada de porcos. O versículo revela a total subordinação do mal à autoridade de Cristo.
2. Por que os demônios pediram para entrar nos porcos?
Provavelmente porque, segundo a mentalidade da época, os espíritos buscavam um corpo para habitar e temiam ficar sem morada — ou, como diz Lucas, ser lançados no abismo. Os porcos, animais impuros, eram a alternativa que restava ao seu desespero.
3. Como Mateus 8:31 demonstra a autoridade de Jesus sobre os espíritos malignos?
Pelo simples fato de que os demônios rogam. Eles não podem sair nem escolher o destino sem a permissão de Jesus. A autoridade dele é tão completa que o mal precisa pedir licença.
4. Que passagens do Antigo Testamento se relacionam com o poder de Jesus sobre os demônios?
O livro de Jó, em que o adversário só age sobre Jó dentro dos limites que Deus concede, é o paralelo mais claro. Ali, como aqui, o mal não tem autonomia: opera somente com permissão.
5. Como o cristão pode hoje exercer autoridade sobre o mal, como se vê em Mateus 8:31?
Não por poder próprio, mas apoiado na autoridade de Cristo. A cena ensina que essa autoridade é dele; o cristão a invoca e nela confia, sem se colocar no lugar de Jesus.
6. Que lições sobre o conflito espiritual se extraem de Mateus 8:31?
Que o mal é real, mas limitado; que age por permissão, não por direito; e que, diante de Cristo, suplica em vez de mandar. A luta espiritual é desigual a favor de quem está com ele.
7. Por que os demônios rogaram, em vez de simplesmente resistir?
Porque sabiam que resistir era inútil. O reconhecimento da autoridade de Jesus é tão pleno que a única saída que lhes resta é a súplica — o gesto do inferior diante do superior.
8. O que Mateus 8:31 revela sobre a autoridade de Jesus sobre os demônios?
Revela que essa autoridade é absoluta: alcança não só a expulsão, mas o destino de cada espírito. Nada, no mundo do mal, se move sem o consentimento de Cristo.
9. De que modo Mateus 8:31 desafia a nossa compreensão do conflito espiritual?
Desafia a imagem de um mal poderoso e independente. Aqui, o mal implora. Isso corrige tanto o medo exagerado quanto a fascinação pelo demoníaco, colocando tudo sob a autoridade de Cristo.
9. Conexão com Outros Textos
“E aqueles demônios rogaram-lhe, dizendo: Manda-nos para aqueles porcos, para que entremos neles.” (Marcos 5:12)
O relato paralelo repete o pedido quase palavra por palavra, confirmando o gesto central: os demônios suplicam, não exigem.
“E rogavam-lhe que não os mandasse ir para o abismo.” (Lucas 8:31)
Lucas revela o que estava por trás do pedido: o verdadeiro pavor dos demônios era o abismo, a prisão dos espíritos. Os porcos eram a fuga possível desse destino.
“E havia ali uma manada de muitos porcos... e rogaram-lhe que lhes concedesse entrar neles; e ele lhes concedeu.” (Lucas 8:32)
Confirma tanto o pedido quanto a concessão, mostrando que o destino dos demônios dependeu inteiramente da autorização de Jesus.
“E o SENHOR disse a Satanás: Eis que tudo quanto ele tem está em tua mão; somente não estendas tua mão contra ele...” (Jó 1:12)
O grande paralelo do Antigo Testamento: o adversário só age dentro dos limites que Deus concede. O mesmo princípio governa a cena dos gadarenos — o mal não age sem permissão.
10. Original Grego e Análise
Texto em português: E os demônios lhe suplicaram: “Se nos expulsares, permite-nos ir para aquela manada de porcos.”
Texto grego: οἱ δὲ δαίμονες παρεκάλουν αὐτὸν, λέγοντες, Εἰ ἐκβάλλεις ἡμᾶς, ἐπίτρεψον ἡμῖν ἀπελθεῖν εἰς τὴν ἀγέλην τῶν χοίρων.
Transliteração: hoi de daimones parekaloun auton, legontes, Ei ekballeis hēmas, epitrepson hēmin apelthein eis tēn agelēn tōn choirōn.
Análise palavra por palavra:
- daimones (demônios): plural de daimōn. O texto adotado usa aqui essa forma; nomeia diretamente as forças que falavam por meio dos homens.
- parekaloun (rogavam): imperfeito de parakaleō, chamar para junto, suplicar, insistir. O tempo verbal sugere um rogar repetido, insistente — o oposto de uma ordem.
- Ei ekballeis (se nos expulsas): ei introduz uma condição tratada como real; os demônios não duvidam de que Jesus pode expulsá-los, apenas aguardam o quando e o para onde.
- epitrepson (permite, concede): imperativo de epitrepō, dar permissão, autorizar. É a palavra-chave: os demônios pedem autorização, e não podem agir sem ela.
- apelthein (ir, partir): o movimento que desejam fazer — mas que só se realiza se Jesus consentir.
- tēn agelēn tōn choirōn (a manada dos porcos): o destino pedido; o impuro buscando o impuro, num só gesto.
Nota teológica: o verbo epitrepson, “concede permissão”, é a chave teológica da cena. Ele mostra, na própria gramática, que o mal não tem autonomia: precisa de autorização para se mover. Isso ecoa o livro de Jó e atravessa toda a Escritura — o mal é real e perigoso, mas subordinado. O grau de certeza dessa leitura é alto, pois se apoia no sentido preciso do verbo. É preciso, porém, evitar dois exageros: o de negar qualquer realidade ao mal e o de atribuir-lhe um poder soberano. O texto corta pelo meio: há demônios, e eles suplicam. Nenhum sensacionalismo cabe diante de forças que, no fim, pedem licença.
11. Conclusão
Mateus 8:31 é o versículo em que o mal se revela pequeno. As forças que aterrorizavam uma região inteira agora rogam, condicionam o próprio pedido a um “se” e imploram por um destino. A palavra que resume a cena é permissão: os demônios só farão o que Jesus consentir. Diante dele, o mal não manda — pede.
Essa é uma das lições mais libertadoras das Escrituras. O mal existe, é real e é destrutivo, mas não é soberano. Age dentro de limites que não fixou, como o adversário no livro de Jó. Reconhecer isso não é minimizar o mal; é colocá-lo no seu devido lugar, abaixo da autoridade de Cristo.
Fica no ar o conteúdo estranho do pedido — os porcos — e o que ele anuncia. A súplica dos demônios prepara o gesto seguinte, em que a natureza destrutiva do mal se tornará visível para todos. Mas, antes do drama, o versículo já entregou o essencial: quem tem a última palavra é Jesus.













