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Mateus 19:7

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✍️ Por Alberto Adriano·20 de setembro de 2026·⏱️ 22 min de leitura·👁 30 acessos
Eles lhe perguntaram: “Então, por que Moisés mandou dar uma certidão de divórcio e mandá-la embora?”
Um escriba antigo sentado com uma folha de papiro sobre os joelhos, cálamo na mão, escrevendo um documento curto, com dois homens observando de pé.

Estudo


Eles lhe perguntaram: “Então, por que Moisés mandou dar uma certidão de divórcio e mandá-la embora?”

1. Introdução

Os fariseus não recuam. Respondem com um texto de lei, e a réplica deles gira sobre uma palavra: Moisés mandou.

Essa palavra não está em Deuteronômio 24: a lei ali supõe o divórcio e regula o que se faz quando ele acontece, mas não o ordena.

E o documento de que eles falam existia de verdade, com forma fixa e fórmula decorada. Alguns exemplares sobreviveram, achados em grutas do deserto da Judeia.

2. Contexto Histórico e Cultural

A certidão de divórcio tinha nome, tamanho, fórmula, escriba e testemunhas. Sabe-se disso por duas vias que se confirmam: os textos legais judaicos e os documentos que sobraram no deserto.

O nome e a frase que o definia

O documento chamava-se get (palavra aramaica para "documento", que na tradição judaica passou a designar especificamente a certidão de divórcio). O tratado da Mishná que trata dele leva o nome no plural: Gittin.

A parte essencial — aquilo sem o qual o papel não valia nada — era uma frase só. A Mishná a registra em Gittin 9:3: "Eis que você está permitida a qualquer homem." Cinco palavras em hebraico. Tudo o mais podia variar; aquilo, não.

O rabino Yehudá, no mesmo parágrafo, dá uma fórmula mais longa, em aramaico: "E este, que você terá de mim, é documento de repúdio, e carta de despedida, e certidão de dispensa, para ir e casar-se com qualquer homem que você queira."

O conteúdo dessa frase diz muito sobre o que o documento era. Ele não declara o casamento desfeito, não atribui culpa, não descreve o motivo, não registra acusação nenhuma. O que ele faz é uma coisa só: autorizar a mulher a casar de novo. É um documento de liberação, e é esse o seu núcleo jurídico.

Quem escrevia, e a exigência mais curiosa

O get era redigido por um escriba profissional, a pedido do marido e por conta dele. E havia uma exigência que a Mishná faz questão de sublinhar: o documento tinha de ser escrito para aquela mulher especificamente. Um get preenchido de antemão, com o nome deixado em branco, era nulo. Um get escrito para outra mulher e reaproveitado era nulo.

A regra impedia que o documento virasse formulário. Cada certidão tinha de ser feita de propósito, do zero, para aquele casamento — o que introduzia demora e obrigava o marido a envolver terceiros na decisão.

A Mishná discute, no mesmo tratado, em que se podia escrever. E as hipóteses que ela examina são extremas de propósito, como quem testa os limites de uma regra: numa folha de oliveira, na mão de um escravo, no chifre de uma vaca. O ponto dessas discussões é que a validade não vinha do material, e sim da fórmula, da intenção e da entrega.

A entrega

Escrever não bastava. O divórcio só se completava quando o documento era posto na mão dela, ou no espaço que a lei considerava dela — o quintal, o recinto da casa. A Mishná dedica capítulos inteiros a casos de entrega: o que vale se ele joga o papel e ele cai mais perto dela, o que vale se cai mais perto dele, o que vale se um mensageiro leva.

Isso explica um detalhe do versículo. Os fariseus dizem "dar uma certidão e mandá-la embora": são dois atos, e a lei exigia os dois. O documento sem a entrega não dissolvia nada.

Havia ainda a assinatura das testemunhas, exigida para que o documento pudesse ser provado depois. Sem isso, a mulher que casasse de novo correria o risco de ser acusada de adultério, com consequências graves para ela e para os filhos do segundo casamento.

Os documentos que sobraram

Nas grutas do Uádi Murabaat, no deserto da Judeia, foi achado um get verdadeiro, escrito em aramaico. O texto traz a data pelo mês e pelo ano, o lugar — Masada —, e os nomes: José, filho de Naqsan, que repudia a sua mulher Miriam, filha de Jônatas, de Hanablata, residente em Masada. Declara que ela fica livre para ir e ser mulher de qualquer homem judeu que queira. Trata da devolução do dote e da reparação de bens danificados. Está assinado pelo próprio José e por três testemunhas, com os nomes de cada uma.

A data exata é discutida: os primeiros editores leram o ano como 111 depois de Cristo, e a pesquisadora Tal Ilan propôs 72, o que colocaria o documento no fim da guerra contra Roma. Nenhuma das duas datas está fechada.

O que importa independe da data. A frase central do documento — "livre para ir e ser mulher de qualquer homem judeu que queira" — é praticamente a mesma que a Mishná dá como a parte essencial do get. Um documento achado numa gruta e um texto legal posto por escrito mais tarde dizem a mesma coisa com as mesmas palavras. É confirmação independente, e é rara.

O que Deuteronômio 24 de fato legisla

Resta o texto que os fariseus invocam, e convém ler o que ele faz.

Deuteronômio 24:1-4 é uma frase longa, com uma condição estendida por três versículos e a lei propriamente dita só no quarto. A condição descreve: um homem se casa, desagrada-se da mulher por achar nela "alguma coisa ofensiva", escreve a certidão, entrega e a despede; ela se casa com outro; o segundo marido também a repudia, ou morre.

E então vem o mandamento, que é um só: o primeiro marido não pode tomá-la de volta.

Ou seja: a lei não manda divorciar e não regula os motivos do divórcio. Ela proíbe uma coisa específica — o retorno à primeira união depois de uma segunda. Tudo o que vem antes é o cenário em que a proibição se aplica. A certidão aparece dentro da descrição do cenário, não dentro do comando.

Isso é o que os comentaristas notam com unanimidade rara. O Pulpit Commentary diz que, ao regular o modo do divórcio, Moisés não pode ser dito ter mandado divorciar. Meyer observa que Deuteronômio 24:1 não contém mandamento algum, e sim uma prescrição sobre o documento.

3. Análise Teológica do Versículo

"Eles lhe perguntaram"

A resposta não os convenceu, e eles não desistem. Mas mudam de tática: em vez de argumentar contra o Gênesis, produzem outro texto.

Isso é reconhecimento implícito de que o argumento anterior funcionou. Ninguém tenta contornar uma resposta ruim; contorna-se uma resposta que não tem como ser enfrentada de frente.

E é um recuo de terreno. A pergunta do versículo 3 era sobre princípio — o que é permitido. Esta é sobre texto — o que está escrito. Ellicott descreve o movimento como um retorno da abstração ao pé da letra da Lei.

"Então, por que Moisés mandou"

Esta é a palavra do versículo, e ela é uma escolha.

O verbo grego que a ABC traduz por "mandou" é o dos mandamentos — o mesmo campo da palavra que designa cada preceito da Lei. Dizer "Moisés mandou" é dizer que a certidão de divórcio não é uma tolerância: é um preceito, com a mesma autoridade de qualquer outro.

Se fosse assim, o argumento seria devastador. Um preceito da Lei em favor do divórcio seria mais que uma permissão — seria uma ordem divina, e qualquer proibição estaria contradizendo Deus, e não apenas Moisés.

Mas não é assim. A leitura do próprio Deuteronômio 24 desfaz a alegação: o único mandamento ali é a proibição de retomar a mulher depois de um segundo casamento. A certidão aparece na descrição da situação, não no comando.

Os fariseus, portanto, não estão citando; estão qualificando. Transformam em preceito o que a Lei trata como pressuposto. E fazem isso com uma palavra só, o que torna a manobra quase invisível — e é exatamente nessa palavra que a resposta do versículo 8 vai pegá-los.

Em Marcos, as duas palavras estão nas bocas trocadas

No relato de Marcos a mesma conversa acontece com as palavras trocadas de lado.

Em Marcos 10:3, é Jesus quem pergunta: "O que Moisés vos mandou?" E em Marcos 10:4 são os fariseus que respondem: "Moisés permitiu escrever carta de divórcio, e deixá-la."

Em Mateus, os fariseus dizem "mandou" e Jesus responde "permitiu". Em Marcos, Jesus diz "mandou" e os fariseus respondem "permitiu". As duas palavras estão nos dois evangelhos, nas bocas invertidas.

Três leituras foram propostas, e a escolha entre elas não é possível.

Primeira leitura: Mateus aguçou o contraste. A conversa real teria sido mais frouxa, e Mateus a organizou de modo a pôr a correção de vocabulário no centro, porque é isso que interessa ao seu argumento.

Segunda leitura: são dois momentos da mesma discussão. Um debate longo pode ter ido e voltado sobre as duas palavras várias vezes; cada evangelho reteve um trecho diferente.

Terceira leitura: são duas narrações independentes do mesmo episódio. Quem conta uma discussão de memória raramente conserva quem disse exatamente o quê, e a substância — a disputa entre ordenar e tolerar — é a mesma nos dois relatos.

Nenhuma dessas leituras exige supor erro. O que se pode afirmar é que os dois evangelhos concordam sobre qual era a disputa e divergem sobre quem disse qual palavra.

"dar uma certidão de divórcio"

O nome grego do documento é, ao pé da letra, "livrinho de afastamento". A palavra traduzida por "certidão" designa um rolo pequeno, do tamanho que um documento avulso exigia; a outra vem do verbo de "pôr-se à parte", e é da mesma família de "apostasia".

O que essa expressão descreve é um objeto físico, que alguém escrevia e alguém entregava. Não é uma sentença de tribunal nem um registro público. É um papel que muda de mão.

"e mandá-la embora"

São dois atos, e a lei judaica exigia os dois: escrever e entregar, e depois mandar sair de casa. O verbo é o mesmo do versículo 3 — o de soltar, dispensar, pôr para fora — e voltará no versículo 8 e no 9. É a palavra que atravessa a controvérsia inteira.

Há uma coisa que essa frase revela sobre a posição dos fariseus e que eles não perceberam estar revelando. Eles citam a lei pela parte que beneficia quem despede. Deuteronômio 24 protegia a mulher — o documento existia para que ela pudesse refazer a vida sem ser acusada —, e na citação deles a proteção some. Sobra o direito de mandar embora.

O que a réplica concede sem perceber

Ao apelar para Moisés, os fariseus admitem que o argumento pelo Gênesis não podia ser respondido no mesmo terreno. Eles não dizem que a criação não foi assim, nem que a citação está errada, nem que a conclusão não se segue. Mudam de livro.

E, ao mudar de livro, aceitam sem querer a estrutura do argumento adversário — que há textos anteriores e textos posteriores, e que a relação entre eles precisa ser explicada. A resposta do versículo 8 vai explicar exatamente isso.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

Os fariseus — voltam a falar depois de dois versículos calados. Mudam de estratégia: em vez de disputar o princípio, produzem um texto.

Moisés — invocado como autor da lei. Na boca dos fariseus, ele é quem "mandou"; na resposta, será quem "permitiu". A disputa do capítulo passa a girar em torno do que ele fez.

O escriba — personagem implícito do documento. A certidão era redigida por profissional, a pedido e por conta do marido, e tinha de ser escrita para aquela mulher especificamente.

As testemunhas — assinavam o documento para que ele pudesse ser provado depois. O get de Masada traz três nomes.

Objetos

A certidão de divórcio — em grego, "livrinho de afastamento"; em aramaico, get. A sua parte essencial era a frase que autorizava a mulher a casar de novo.

Lugares

O Uádi Murabaat — desfiladeiro seco no deserto da Judeia, a oeste do mar Morto, onde foram achados documentos escondidos por famílias em fuga, entre eles uma certidão de divórcio.

Masada — lugar indicado no documento como residência do casal.

Textos

Deuteronômio 24:1-4 — o texto invocado. A condição ocupa três versículos; o mandamento, um só, e ele proíbe o retorno à primeira união.

Mishná, tratado Gittin — a coletânea legal judaica que trata da certidão de divórcio, com a fórmula essencial e as regras de redação e entrega.

5. Pontos de Ensino

Uma palavra muda o estatuto de uma lei

"Mandou" e "permitiu" descrevem o mesmo texto e dizem coisas opostas sobre ele. A manobra dos fariseus cabe numa palavra só, e é por isso que ela quase passa despercebida.

Deuteronômio 24 regula, e não ordena

O único mandamento do trecho é a proibição de retomar a mulher depois de um segundo casamento. A certidão aparece na descrição da situação, não no comando.

A certidão existia para proteger

O documento não acusava, não culpava e não justificava. A sua função era uma só: permitir que a mulher casasse de novo sem risco. Na citação dos fariseus, essa função desaparece.

Mudar de texto é admitir que o primeiro não podia ser enfrentado

Eles não negam a criação, não contestam a citação e não atacam a conclusão. Vão buscar outro livro — e esse movimento, por si, diz o que pensavam do argumento anterior.

A forma do documento é conhecida por duas vias

A Mishná descreve a fórmula essencial; uma certidão achada no deserto da Judeia traz praticamente as mesmas palavras. Um texto legal tardio e um documento real se confirmam.

6. Aspectos Filosóficos

Regular uma prática é uma das maneiras mais eficazes de legitimá-la, e quase nunca é essa a intenção de quem regula.

O mecanismo é simples e opera em todo lugar. Uma prática existe e faz dano. Proibi-la por completo é impossível, porque ela continuaria acontecendo às escondidas, sem forma e sem limite. Então se cria uma regra: exige-se um procedimento, um documento, um prazo, uma garantia para quem sai prejudicado. A regra reduz o dano.

E, ao reduzir o dano, faz outra coisa que ninguém pediu: dá à prática um lugar reconhecido. Ela deixa de ser um fato bruto e passa a ser um procedimento previsto. Quem a adota já não está fazendo algo à margem — está seguindo o rito. E a partir daí a pergunta "isso é certo?" fica difícil de formular, porque a resposta parece já ter sido dada pelo próprio fato de existir um caminho oficial.

Esse deslizamento tem três degraus, e o versículo mostra o terceiro. Primeiro, a prática é tolerada e regulada. Depois, a regulação passa a ser lida como autorização — o que tem forma prevista deve ser permitido. Por fim, a autorização é lida como recomendação, ou até como dever: se a Lei manda dar a certidão, então dar a certidão é cumprir a Lei.

É nesse terceiro degrau que os fariseus estão quando dizem "Moisés mandou". Eles não estão mentindo deliberadamente. Estão dizendo o que se tornou óbvio depois de séculos de uso de um texto que nunca disse isso.

Por que a distinção é tão difícil de manter

Há uma razão pela qual a diferença entre tolerar e mandar tende a desaparecer, e ela não é má-fé.

Uma regra é escrita para o caso, e o caso é sempre particular. Quem a aplica não tem acesso à intenção de quem a escreveu — tem acesso ao texto. E o texto, em si, não traz etiqueta dizendo "isto é concessão" ou "isto é ideal". As duas coisas se escrevem do mesmo jeito.

Uma tradição de leitura pode conservar a distinção, e é para isso que ela serve. Mas a distinção é frágil: depende de memória, e a memória do porquê de uma regra se perde muito mais rápido do que a regra. Passadas algumas gerações, sobra o procedimento.

Esse é o serviço que a resposta do versículo 8 vai prestar: ela devolve ao texto a etiqueta que ele tinha perdido. Não acrescenta nada à Lei e não retira nada dela. Diz de que tipo de disposição se trata.

O texto como escudo

Há ainda um segundo movimento neste versículo, e ele é de outra ordem: o uso de uma citação para encerrar uma discussão em vez de a alimentar.

Quando um argumento é difícil de responder, uma saída é trocá-lo por uma autoridade. "Está escrito" tem a forma de uma resposta sem ser uma: não explica por que o argumento adversário falha, não mostra onde ele erra, apenas opõe um peso a outro peso. A discussão se transforma em disputa de fontes.

A troca é atraente porque parece rigorosa. Quem cita um texto tem o ar de quem está sendo objetivo, enquanto quem argumenta tem o ar de quem está opinando. Mas o texto citado precisa ser lido, e é aí que o escudo costuma falhar — foi o que aconteceu aqui: Deuteronômio 24, lido inteiro, não diz o que os fariseus precisavam que dissesse.

7. Aplicações Práticas

Ler o texto inteiro antes de dizer o que ele manda

Deuteronômio 24:1-4 tem três versículos de condição e um de comando. Quem cita só a parte descritiva acaba atribuindo ao texto uma ordem que ele não dá. A prática vale para qualquer texto normativo: separar o que é cenário do que é comando.

Distinguir o que é tolerado do que é exigido

Uma regra que estabelece procedimento para algo não afirma que esse algo seja bom. Confundir as duas coisas é o erro do versículo, e ele é fácil de cometer, porque as duas se escrevem do mesmo jeito.

Notar quando se muda de terreno numa discussão

Trocar o argumento por uma citação de autoridade é um movimento reconhecível, e ele costuma indicar que a resposta anterior não pôde ser enfrentada de frente. Perceber isso vale tanto para quem escuta quanto para quem está prestes a fazê-lo.

Conferir a quem a regra protegia

A certidão de divórcio existia para amparar quem saía do casamento sem nada. Na citação dos fariseus, essa finalidade desaparece e sobra o direito de despedir. Perguntar a quem uma regra foi feita para proteger costuma revelar como ela está sendo usada.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Deuteronômio 24 manda dar a certidão de divórcio?

Não. A passagem é uma frase longa cuja condição ocupa três versículos e cujo mandamento está no quarto: o primeiro marido não pode retomar a mulher depois de ela ter se casado com outro. A certidão aparece dentro da descrição do cenário. Os comentaristas concordam nisso com rara unanimidade — Meyer observa que o texto não contém mandamento algum sobre divorciar.

2. Os fariseus estavam mentindo?

Não é o que se pode afirmar. É mais provável que estivessem repetindo uma leitura que o uso havia consolidado: um texto que prevê procedimento para uma prática acaba sendo lido, depois de séculos, como se a autorizasse, e depois como se a ordenasse. Eles usam a palavra que a tradição já usava.

3. Por que em Marcos as palavras estão trocadas?

Em Marcos 10:3-4, Jesus é quem pergunta "o que Moisés vos mandou?" e os fariseus respondem "Moisés permitiu". Em Mateus é o inverso. Três leituras foram propostas: Mateus aguçou o contraste; são dois momentos da mesma discussão longa; são duas narrações independentes do mesmo episódio. Não é possível decidir, e os dois evangelhos concordam sobre qual era a disputa.

4. O que estava escrito numa certidão de divórcio?

A parte essencial era uma frase que liberava a mulher para casar de novo. A Mishná a registra assim: "Eis que você está permitida a qualquer homem." Um documento real achado no deserto da Judeia traz praticamente as mesmas palavras, com data, lugar, os nomes do casal, a devolução do dote e três testemunhas assinando.

5. Por que a certidão tinha de ser escrita para aquela mulher?

Porque a Mishná anula o documento preenchido de antemão ou reaproveitado de outro caso. A exigência impedia que o divórcio virasse formulário: cada certidão tinha de ser feita do zero, por um escriba, para aquele casamento — o que impunha demora e obrigava o marido a envolver terceiros.

6. O que a certidão protegia?

A mulher. Sem o documento, ela ficava numa situação indefinida: não podia casar de novo sem risco de ser acusada de adultério, e os filhos de uma segunda união ficariam expostos. O papel na mão dela era a prova de que estava livre.

9. Conexão com Outros Textos

O texto invocado, por inteiro

Deuteronômio 24:1 — "Quando algum tomar mulher e se casar com ela, se não lhe agradar por haver achado nela alguma coisa ofensiva, lhe escreverá carta de divórcio, e a entregará em sua mão, e a despedirá de sua casa."

Deuteronômio 24:2 — "E saída de sua casa, poderá ir e casar-se com outro homem."

Deuteronômio 24:3 — "E se a aborrecer este último, e lhe escrever carta de divórcio, e a entregar em sua mão, e a despedir de sua casa; ou se morrer o posterior homem que a tomou para si por mulher,"

Deuteronômio 24:4 — "Não poderá seu primeiro marido, que a despediu, trazê-la de volta a tomar para que seja sua mulher, depois que foi contaminada; porque é abominação diante do SENHOR, e não hás de perverter a terra que o SENHOR teu Deus te dá por herança."

Lidos em sequência, os quatro versículos mostram onde está o mandamento: no último.

A mesma troca de palavras, invertida em Marcos

Marcos 10:3 — "Mas ele lhes respondeu: O que Moisés vos mandou?"

Marcos 10:4 — "E eles disseram: Moisés permitiu escrever carta de divórcio, e deixá-la."

As duas palavras aparecem nos dois evangelhos, nas bocas trocadas.

O documento como figura, nos profetas

Isaías 50:1 — "Assim diz o SENHOR: Onde está a carta de divórcio de vossa mãe, com que eu a mandei embora? Ou a qual dos meus credores foi que eu vos vendi?"

A pergunta supõe que a certidão é prova: quem alega ter sido despedido tem de mostrar o papel.

Jeremias 3:8 — "E eu vi, que por todas estas causas nas quais prostituiu a infiel Israel, eu a tinha mandado embora, e dado-lhe a carta de seu divórcio; porém a traiçoeira Judá sua irmã não temeu."

Os profetas usam o documento como imagem da ruptura entre Deus e o povo, o que mostra o quanto ele era corrente.

A mesma citação, no Sermão do Monte

Mateus 5:31 — "Também foi dito: Quem se divorciar de sua mulher, dê-lhe carta de divórcio."

Ali a frase é citada como tradição recebida, sem o verbo do mandamento que os fariseus usam aqui.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Eles lhe perguntaram: “Então, por que Moisés mandou dar uma certidão de divórcio e mandá-la embora?”

Texto grego (Textus Receptus)

λέγουσιν αὐτῷ, Τί οὖν Μωσῆς ἐνετείλατο δοῦναι βιβλίον ἀποστασίου, καὶ ἀπολῦσαι αὐτήν;

Transliteração

legousin autō, Ti oun Mōsēs eneteilato dounai biblion apostasiou, kai apolysai autēn?

O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega que a ABC segue) grafa o nome Mōsēs; as edições críticas trazem Mōusēs, com um u a mais. É variação de grafia, sem consequência de sentido.

Análise palavra por palavra

λέγουσιν — legousin, "dizem". Presente do indicativo ativo de legō. O presente, num relato de acontecimentos passados, é recurso de narração viva, e Mateus o usa com frequência nos diálogos. A ABC traduz por "perguntaram", acertando o sentido.

Τί οὖν — ti oun, "por que, então". O oun, "então, portanto", liga a pergunta ao que acabou de ser dito: se é assim, como se explica isto? É a marca de uma objeção, e não de uma dúvida.

ἐνετείλατο — eneteilato, "mandou, ordenou". Aoristo do indicativo médio de entellomai, "dar ordem, encarregar", formado de en e da raiz de tellō, "cumprir, executar". É o verbo próprio do mandamento: dele vem entolē, "mandamento", a palavra usada para cada preceito da Lei — inclusive no versículo 17 deste mesmo capítulo, "guarde os mandamentos". A escolha dos fariseus não é casual: eles põem a certidão de divórcio no mesmo estatuto dos dez mandamentos. Marcos 10:4 tem, na boca deles, o verbo epetrepsen, "permitiu" — que é o que Jesus vai usar no versículo 8.

δοῦναι — dounai, "dar". Aoristo do infinitivo ativo de didōmi, "dar". O objeto do mandamento alegado é a entrega do documento, e não o divórcio em si — detalhe que a resposta do versículo 8 não contesta.

βιβλίον ἀποστασίου — biblion apostasiou, "livrinho de afastamento". Biblion é diminutivo de biblos, que designava a entrecasca do papiro e, por extensão, o rolo e o livro; aqui é um documento avulso, um papel. Apostasion vem de aphistēmi, "pôr-se à parte, afastar-se" — a mesma raiz de "apostasia", no sentido de abandono. A expressão inteira é a da Septuaginta em Deuteronômio 24:1 e em Isaías 50:1, e corresponde ao sefer keritut hebraico, "documento de corte". O nome comum do documento no judaísmo era get, palavra aramaica.

ἀπολῦσαι αὐτήν — apolysai autēn, "mandá-la embora". Aoristo do infinitivo ativo de apolyō, o verbo que atravessa a controvérsia inteira: está no versículo 3, aqui, no 8 e duas vezes no 9. Significa "soltar, desatar, despedir". São dois atos distintos no grego — dar o documento e despedir —, e a lei judaica exigia os dois: sem a entrega, o documento não dissolvia nada.

11. Conclusão

A réplica dos fariseus é um recuo disfarçado de contra-ataque. Eles não disputam o Gênesis, não contestam a citação e não atacam a conclusão: trocam de livro. Isso, por si, já diz o que pensavam do argumento anterior.

A força da objeção está toda numa palavra. "Mandou" põe a certidão de divórcio no estatuto de preceito da Lei, e um preceito não se discute — cumpre-se. Se Moisés mandou, qualquer proibição estaria contradizendo a Lei, e não apenas uma interpretação dela.

Só que Deuteronômio 24 não manda. A passagem tem três versículos de condição e um de comando, e o comando é a proibição de retomar a mulher depois de um segundo casamento. A certidão aparece no cenário, não na ordem. É um dado do texto, verificável por qualquer leitor, e os comentaristas o registram com unanimidade rara.

O documento em si existiu e é conhecido em detalhe. A Mishná guarda a fórmula essencial — a frase que libera a mulher para casar de novo —, e uma certidão achada numa gruta do deserto da Judeia traz praticamente as mesmas palavras, com nomes, data, devolução do dote e três testemunhas. O que os fariseus invocam não é uma abstração legal: é um papel que se escrevia e se entregava na mão.

E há o que a citação deles deixou de fora. A certidão existia para proteger quem era despedida, permitindo-lhe refazer a vida sem risco de acusação. Na boca deles, sobrou o direito de mandar embora. A resposta do versículo seguinte vai pegar exatamente a palavra que fez essa inversão passar despercebida.

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