Também foi dito: Qualquer que deixar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio.
1. Introdução
Jesus muda de tema, mas mantém o método. Depois do adultério, aborda o divórcio, e de novo parte de uma tradição conhecida: "Também foi dito: quem se divorciar de sua mulher, dê-lhe carta de divórcio". O versículo cita a concessão da Lei de Moisés (Deuteronômio 24), que exigia um documento para formalizar a separação. Como no caso do adultério, esta é a rampa; a palavra própria de Jesus vem no versículo seguinte.
Por trás dessa citação havia um debate aceso no tempo de Jesus. A Lei permitia o divórcio, mas não dizia com clareza por quais motivos, e as escolas rabínicas discutiam ferozmente a questão. Ao trazer o tema, Jesus não vai apenas repetir a permissão; vai devolver ao casamento o peso que a casuística da época havia afrouxado.
2. Contexto Histórico e Cultural
No judaísmo do primeiro século, o divórcio era assunto sério e muito discutido. A base legal estava em Deuteronômio 24:1-4, que previa que um homem, ao encontrar na esposa "alguma coisa ofensiva", lhe desse uma carta de divórcio e a despedisse de casa. O problema é que a expressão "alguma coisa ofensiva" era vaga, e sobre ela se formaram interpretações opostas. A escola do rabino Hillel a lia de modo amplo, permitindo o divórcio por quase qualquer motivo, até por uma comida mal feita; a do rabino Shammai a lia de modo restrito, admitindo o divórcio praticamente só em caso de imoralidade.
A carta de divórcio, em hebraico chamada get, era um documento legal que encerrava oficialmente o casamento e permitia à mulher casar-se de novo. Longe de ser um mero trâmite, tinha uma função protetora: sem ela, a mulher ficaria em situação indefinida, sem poder refazer a vida e exposta à acusação de adultério. A Lei, portanto, ao exigir o documento, já introduzia uma ordem e um limite onde poderia haver puro abandono. Jesus, mais adiante (Mateus 19:3-9), esclarecerá que essa permissão foi uma concessão à dureza do coração humano, e não o plano original de Deus, expresso em Gênesis 2:24. Este versículo prepara justamente essa distinção entre o que a Lei tolerou e o que Deus quis desde o princípio.
3. Análise Teológica do Versículo
"Também foi dito"
A expressão indica que Jesus se refere a um ensino ou tradição conhecidos do seu público. No Sermão do Monte, ele com frequência contrasta as interpretações tradicionais da Lei com o seu ensino mais profundo e autoritativo. Essa forma de proceder realça o seu papel como aquele que cumpre a Lei e os Profetas, conforme Mateus 5:17.
"Qualquer um que se divorciar de sua mulher"
No contexto cultural e histórico do judaísmo do primeiro século, o divórcio era questão importante. A Lei de Moisés, especialmente em Deuteronômio 24:1-4, permitia o divórcio, mas as interpretações variavam. Os fariseus e outros líderes religiosos debatiam os motivos aceitáveis: algumas escolas, como a de Hillel, admitiam-no por quase qualquer razão; outras, como a de Shammai, eram mais restritivas.
"dê a ela carta de divórcio"
A carta de divórcio, ou get em hebraico, era um documento legal que encerrava formalmente o casamento e permitia à mulher casar-se novamente. Essa exigência visava proteger os direitos da mulher, evitando que ela ficasse numa situação indefinida. No conjunto da Escritura, Jesus mais tarde esclarece o seu ensino sobre o divórcio em Mateus 19:3-9, ressaltando a santidade e a permanência do casamento tal como instituído por Deus em Gênesis 2:24. Esse ensino sublinha a seriedade com que Jesus vê o pacto conjugal, em contraste com as interpretações mais frouxas do seu tempo.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
Jesus Cristo — quem pronuncia o ensino, no Sermão do Monte, abordando questões mais profundas da Lei e do coração.
Moisés — o profeta que entregou a Lei, incluindo as normas sobre o divórcio, ao povo de Israel.
Os fariseus — líderes religiosos que interpretavam a Lei por um viés legalista, com ênfase no cumprimento externo.
Os israelitas — os destinatários originais das disposições da Lei mosaica sobre o divórcio.
Eventos
O Sermão do Monte — o cenário em que Jesus expõe o verdadeiro espírito da Lei.
5. Pontos de Ensino
Compreender o coração da Lei
Jesus leva os ouvintes a olhar além das exigências legais, para examinar o espírito da Lei e a fidelidade que ela pede.
A santidade do casamento
O casamento é um pacto instituído por Deus, que exige compromisso sério e não pode ser tratado como algo descartável.
O papel do coração
O divórcio envolve o exame do coração, e não apenas o cumprimento legal ou os motivos pessoais.
Graça e perdão
A graça de Deus permanece disponível para quem passa pela experiência do divórcio, e o crente é chamado à reconciliação sempre que possível.
Viver na contramão da cultura
O cristão sustenta o padrão bíblico do casamento, que reflete a fidelidade de Deus, em contraste com as atitudes descartáveis do seu tempo.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo põe diante de nós a diferença entre o que a lei permite e o que é bom. A Lei de Moisés permitia o divórcio, mas permitir não é o mesmo que aprovar. Há normas que existem não porque a coisa seja boa, mas porque, diante da dureza humana, o mal precisa ser ao menos ordenado e limitado. A carta de divórcio é um exemplo disso: não celebra a separação, mas a disciplina, protegendo a parte mais frágil.
Isso levanta uma questão que atravessa toda a ética: a lei deve mirar o ideal ou o possível? Se mirar só o ideal, torna-se cruel com a fraqueza real das pessoas; se mirar só o possível, esquece para onde deveria apontar. A genialidade do que Jesus fará a seguir está em recuperar o ideal — o casamento como vínculo permanente — sem negar que a Lei, por concessão, tolerou o divórcio. É a tensão entre a norma que acomoda a fraqueza e o propósito que a transcende. Este versículo apresenta o lado da concessão; o próximo trará o lado do propósito.
7. Aplicações Práticas
Levar o vínculo conjugal a sério. O casamento, na visão de Jesus, não é contrato descartável, mas pacto. Tratá-lo com esse peso muda o modo de cuidar dele nos dias comuns.
Distinguir o permitido do bom. Que algo seja legalmente possível não significa que seja o melhor. Vale aprender a buscar o propósito de Deus, e não apenas o limite mínimo da lei.
Proteger os mais frágeis. A carta de divórcio existia para amparar a mulher. Também hoje, diante da ruptura, o cuidado com quem fica mais exposto é parte da justiça.
Buscar a reconciliação antes da ruptura. Se o ideal é a permanência, o esforço honesto de reconciliar precede a decisão de separar. Nem sempre é possível, mas deve ser tentado.
Acolher quem passou pelo divórcio. O ensino sobre a santidade do casamento não anula a graça. Quem viveu a dor da separação precisa de amparo, e não de condenação.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Como o ensino de Jesus em Mateus 5:31 desafia as normas culturais do seu tempo a respeito do divórcio?
O versículo, em si, ainda cita a tradição; o desafio vem no seu prolongamento. Ao retomar a carta de divórcio, Jesus recoloca em cena um debate frouxo, em que se divorciava por quase tudo, para em seguida devolver ao casamento o peso de pacto — contra a cultura que já o tratava como descartável.
2. De que modo compreender o contexto original de Deuteronômio 24:1-4 ajuda a entender as palavras de Jesus em Mateus 5:31?
Aquela lei não instituía o divórcio como um bem, mas o regulava diante de uma realidade já existente, protegendo a mulher com um documento. Ver isso ajuda a entender que Jesus não está abolindo Moisés, e sim recuperando o propósito original de Deus, que a casuística havia perdido de vista.
3. Como o crente pode aplicar o princípio de examinar o coração no casamento e nos relacionamentos?
Perguntando-se não apenas "o que me é permitido", mas "o que é fiel", "o que ampara o outro". O exame do coração desloca o foco do mínimo legal para a intenção de amar e permanecer, que é o que Jesus busca.
4. Que passos o crente pode dar para honrar a santidade do casamento numa sociedade que muitas vezes o vê como descartável?
Cultivando o compromisso no dia a dia, buscando reconciliação antes de ruptura, cercando o casamento de relações que o sustentem e recusando a lógica de trocar de vínculo ao primeiro desgaste. A fidelidade se constrói em decisões pequenas e repetidas.
5. Como a Igreja pode apoiar pessoas e casais na busca de casamentos firmes e que honrem a Deus, e como deve tratar quem passou pelo divórcio?
Ensinando o valor do pacto sem transformá-lo em fardo esmagador, oferecendo acompanhamento e reconciliação aos casais, e acolhendo com graça quem já viveu a dor da separação. Firmeza no ideal e ternura com o ferido não se excluem.
9. Conexão com Outros Textos
"Quando algum tomar mulher e se casar com ela, se não lhe agradar por haver achado nela alguma coisa ofensiva, lhe escreverá carta de divórcio, e a entregará em sua mão, e a despedirá de sua casa." (Deuteronômio 24:1)
A fonte direta da citação de Jesus: a concessão da Lei mosaica, com a expressão vaga que alimentou todo o debate rabínico.
"Portanto, deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e se achegará à sua mulher, e serão uma só carne." (Gênesis 2:24)
O plano original de Deus para o casamento: uma união permanente. É a esse ideal que Jesus recorre para relativizar a concessão do divórcio.
"Porque o SENHOR Deus de Israel diz que ele odeia o divórcio... Guardai-vos pois em vosso espírito, e não sejais infiéis." (Malaquias 2:16)
Deixa claro que o divórcio, ainda que tolerado, nunca foi o desejo de Deus, mas algo que ele reprova.
"Porém eu vos digo que qualquer um que se divorciar de sua mulher, a não ser por causa de pecado sexual, e se casar com outra, adultera." (Mateus 19:9)
O esclarecimento posterior do próprio Jesus, que retoma o tema e o aprofunda diante dos fariseus.
"E eu vi, que por todas estas causas nas quais prostituiu a infiel Israel, eu a tinha mandado embora, e dado-lhe a carta de seu divórcio..." (Jeremias 3:8)
Mostra a imagem do divórcio usada pelos profetas para descrever a ruptura entre Deus e o seu povo infiel, ligando o tema conjugal ao espiritual.
10. Original Grego e Análise
Texto em português: Também foi dito: “Quem se divorciar de sua mulher, dê-lhe carta de divórcio”.
Texto grego: ἐρρέθη δὲ ὅτι Ὃς ἂν ἀπολύσῃ τὴν γυναῖκα αὐτοῦ, δότω αὐτῇ ἀποστάσιον·
Transliteração: erréthē dè hóti hòs àn apolýsēi tḕn gynaîka autoû, dótō autêi apostásion.
Análise palavra por palavra:
erréthē (ἐρρέθη) — "foi dito": a mesma voz passiva impessoal das outras antíteses, apontando para a tradição recebida. Note-se que aqui falta o "ouvistes"; Jesus abrevia a fórmula, mas o sentido é o mesmo: parte-se de um ensino conhecido.
hòs àn apolýsēi (Ὃς ἂν ἀπολύσῃ) — "aquele que se divorciar / repudiar": o verbo apolýō significa literalmente "soltar, libertar, mandar embora". É o termo próprio para o repúdio: o homem "despede", "manda embora" a mulher. A palavra guarda, sem querer, uma dureza — trata-se de dispensar alguém, de pôr para fora.
tḕn gynaîka autoû (τὴν γυναῖκα αὐτοῦ) — "sua mulher / esposa": a mesma palavra grega, gynḗ, significa tanto "mulher" quanto "esposa", segundo o contexto. Aqui, "a mulher dele" é a esposa.
dótō (δότω) — "dê": imperativo, "que ele dê". A Lei não apenas permite o divórcio, ela ordena o documento: quem despede é obrigado a entregar a carta. A ordem recai sobre o homem, protegendo a mulher.
apostásion (ἀποστάσιον) — "carta de divórcio": o termo vem da raiz de "afastar-se, separar-se" (a mesma de "apostasia"). Designa o documento oficial de separação, o get hebraico, que rompia o vínculo e devolvia à mulher a liberdade de casar-se de novo.
Nota teológica: o versículo cita a Lei com fidelidade, mas de propósito de forma incompleta. Deuteronômio 24 não mandava divorciar; regulava um divórcio já existente, impondo-lhe uma forma que protegia a mulher. Ao repetir apenas "dê-lhe carta de divórcio", a tradição da época havia transformado uma concessão limitada em quase um direito irrestrito. É esse deslize que Jesus corrigirá no versículo seguinte: o que Moisés tolerou, por causa da dureza do coração, não é o que Deus quis desde o princípio.
11. Conclusão
Mateus 5:31 retoma, no tema do divórcio, o mesmo movimento das outras antíteses: cita a tradição para, em seguida, aprofundá-la. A carta de divórcio da Lei de Moisés não era um incentivo à separação, mas uma forma de ordená-la e de proteger a mulher — uma concessão à dureza humana, não o ideal de Deus.
O debate entre as escolas de Hillel e Shammai mostra como, no tempo de Jesus, essa concessão havia sido esticada até virar quase um direito de descartar a esposa por qualquer motivo. É contra esse afrouxamento que Jesus se levanta. Este versículo apresenta o que a Lei permitiu; o próximo devolverá ao casamento o peso que o Criador lhe deu desde o princípio.













