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Mateus 19:4

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✍️ Por Alberto Adriano·20 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 26 acessos
Ele respondeu: “Vocês não leram que aquele que os fez, desde o princípio, os fez homem e mulher,
Um rolo de pergaminho aberto sobre uma mesa de madeira, mostrando colunas de escrita hebraica, com a luz de uma janela caindo sobre a primeira coluna.

Estudo


Ele respondeu: “Vocês não leram que aquele que os fez, desde o princípio, os fez homem e mulher,

1. Introdução

Perguntaram-lhe até onde vai a permissão. Ele responde perguntando se eles leram o primeiro capítulo da Bíblia.

A resposta não vai a Deuteronômio, que era onde a discussão morava. Vai ao Gênesis, e essa escolha de texto é o argumento inteiro.

Também o sujeito da frase chama atenção: não "Deus" nem "o Criador", mas "aquele que os fez" — quem faz a regra é quem fez a coisa.

2. Contexto Histórico e Cultural

Responder a uma questão de lei recorrendo ao Gênesis não era invenção de Jesus. Havia gente fazendo exatamente isso, com o mesmo versículo, naquele mesmo período.

O mesmo argumento, entre os do mar Morto

Entre os manuscritos achados nas grutas do mar Morto está o Documento de Damasco, um texto de regras de uma comunidade judaica sectária. Numa das suas passagens mais citadas (na numeração corrente do manuscrito, da coluna quatro à coluna cinco), o autor ataca um grupo que chama de "construtores do muro" e os acusa de estarem presos na imoralidade por "tomarem duas mulheres em vida". E justifica a acusação assim: "o princípio da criação é macho e fêmea os criou".

É a mesma citação de Gênesis 1:27 que Jesus faz aqui, usada do mesmo jeito: como norma retirada do modo como o mundo começou. O texto reforça com mais dois argumentos do mesmo tipo — os animais entraram na arca "de dois em dois, macho e fêmea" (Gênesis 7:9) e o rei não deve multiplicar mulheres para si (Deuteronômio 17:17).

O Documento de Damasco está atacando a poligamia ou o segundo casamento depois do divórcio? A expressão "duas mulheres em vida" comporta as duas leituras, e a questão é discutida há décadas sem solução. O que importa aqui independe disso: um texto judaico anterior aos evangelhos já usava Gênesis 1:27 como régua do casamento, contra uma prática que a Lei de Moisés não proibia.

Outro manuscrito do mesmo acervo, o Rolo do Templo, diz do rei que ele não tomará outra mulher além daquela, e que só depois da morte dela poderá tomar outra. É a mesma direção, escrita como lei.

O que isso muda na leitura do evangelho é o grau de originalidade. A resposta de Jesus não sai do nada, e não era ininteligível para quem ouvia: havia um modo judaico, minoritário e rigoroso, de argumentar assim. O que vem a seguir, nos versículos 6 e 9, é que vai além de tudo isso. O Documento de Damasco aparece em outro ângulo nos estudos de Mateus 12:11 e 18:16.

"Vocês não leram" pressupõe um rolo, e uma prática

A pergunta só faz sentido num mundo em que o texto estava disponível e a leitura era pública. E estava: a leitura da Torá em voz alta na sinagoga, no sábado, era a instituição central da vida religiosa judaica fora do templo, e vinha acompanhada de tradução oral para o aramaico, a língua falada. Quem não sabia ler ouvia.

Ler em particular era outra coisa. Rolos eram caros: uma Torá inteira ocupava vários, cada um copiado à mão em couro preparado. Poucos tinham em casa. "Vocês não leram" não é dito a qualquer pessoa da multidão; é dito a fariseus, que eram exatamente os especialistas no texto.

Isso muda o tom da pergunta. Não é um pedido de informação nem uma provocação genérica. É dizer a um grupo de peritos que eles não fizeram a leitura mais básica do assunto que foram discutir.

Gênesis 1 e Gênesis 2 lidos como uma coisa só

O leitor moderno é treinado a notar que os dois primeiros capítulos do Gênesis contam a criação de dois modos diferentes: no primeiro, homem e mulher aparecem juntos no sexto dia; no segundo, o homem é formado primeiro e a mulher depois, a partir dele. A leitura judaica do primeiro século não trabalhava assim. Os dois capítulos eram um relato só, e um podia completar o outro sem dificuldade.

É por isso que Jesus emenda os dois nos versículos 4 e 5 sem transição nenhuma: cita Gênesis 1:27 e, sem respirar, cita Gênesis 2:24. Para ele e para quem ouvia, é a mesma página.

Onde o assunto era discutido, e onde não era

O direito do casamento, no judaísmo do período, tinha endereço fixo: Deuteronômio 24, Levítico 18 e 20, Êxodo 21 e 22. São os textos que tratam de quem pode casar com quem, do que quebra o vínculo e do que se paga. O Gênesis não entrava na lista, porque não é um texto de lei — não tem mandamento, não tem sanção, não tem procedimento.

Ir buscar ali a resposta é mudar o lugar da discussão. E é uma jogada que a tradição judaica reconhecia como legítima em princípio, ainda que rara na prática: o relato da criação descreve como as coisas foram feitas, e o que foi feito pode ser invocado contra o que foi permitido depois.

3. Análise Teológica do Versículo

"Ele respondeu"

A resposta não responde à pergunta. Perguntaram "é permitido, por qualquer motivo?" e a réplica não diz sim, não diz não e não fala em motivos. Ela faz outra pergunta, sobre outro texto.

Isso não é esquiva. É a recusa de aceitar que a questão esteja bem posta. Enquanto se discute até onde vai a permissão, já se concedeu que o assunto é a permissão — e é essa concessão que a resposta desfaz.

"Vocês não leram"

A fórmula é recorrente em Mateus, e o alvo dela é sempre o mesmo tipo de gente. "Vocês nunca leram o que Davi fez" (Mateus 12:3). "Vocês não leram na Lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo profanam o sábado" (Mateus 12:5). "Vocês nunca leram nas Escrituras: A pedra que os construtores rejeitaram" (Mateus 21:42). "E quanto à ressurreição dos mortos, vocês não leram o que Deus lhes disse" (Mateus 22:31).

Cinco vezes, sempre contra especialistas, e sempre com a mesma estrutura: o adversário invoca a Lei, e a réplica aponta um trecho da mesma Lei que ele deixou de fora. A acusação não é de ignorância — é de leitura seletiva.

Aqui a acusação é especialmente cortante, porque o trecho ignorado não é obscuro. É o primeiro capítulo.

"que aquele que os fez, desde o princípio"

O sujeito não é nomeado. A frase não diz "Deus", não diz "o Criador": diz "aquele que os fez". A edição grega que a ABC segue traz um particípio do verbo "fazer" — o que faz o sujeito da frase ser definido pelo ato, e não por um título.

Isso tem consequência para o argumento. Não se está apelando à autoridade de quem manda; está-se apelando ao conhecimento de quem construiu. É a diferença entre "o dono da casa decidiu" e "quem levantou a casa sabe onde estão as vigas". O peso da frase vem da segunda coisa.

"Desde o princípio" é a outra metade da chave. O argumento não pede que se obedeça a uma ordem; pede que se olhe para o começo. E a mesma expressão volta no versículo 8 — "no princípio não foi assim" —, onde fecha a discussão sobre Moisés. As duas pontas do argumento são a mesma palavra.

"os fez homem e mulher"

A citação é de Gênesis 1:27, quase palavra por palavra. E a escolha do trecho é precisa: da frase inteira do Gênesis — que fala da imagem de Deus, e repete essa ideia duas vezes — Jesus toma só a última parte, a que fala do par.

O que o argumento extrai dali não é a diferença entre os sexos. É o número. Um e uma: dois. Esse "dois" é o que vai sustentar a conclusão no versículo 6 — "já não são dois" —, e sem ele o raciocínio não fecha.

Isso explica por que a citação parou onde parou. A imagem de Deus no ser humano é o tema principal de Gênesis 1:27 e não serve a este argumento. O que serve é o par.

Por que o Gênesis antes de Deuteronômio

Esta é a manobra do versículo, e ela precisa ser dita com clareza: os fariseus perguntaram a partir de Deuteronômio 24, e a resposta vem de Gênesis 1. A ordem dos textos é o argumento.

O raciocínio implícito é de anterioridade. Aquilo que vale desde o começo tem precedência sobre o que foi disposto depois; a regra do princípio enuncia a intenção, e a disposição posterior atende a uma situação. Bengel, comentarista alemão do século XVIII, resume a regra de leitura numa frase: em toda discussão sobre uma instituição divina, deve-se recorrer à origem dela.

Há um limite que a honestidade exige registrar. Nada na Torá diz que o Gênesis tem mais autoridade que o Deuteronômio. A hierarquia entre os dois textos não está escrita em lugar nenhum; ela é estabelecida por este argumento, e não pressuposta por ele. Quem lê a cena como se Jesus estivesse apenas lembrando uma regra conhecida perde o que há de decisivo nela — a regra está sendo criada no ato de aplicá-la.

E há uma segunda coisa. Com esse movimento, a resposta desloca o assunto de "o que a Lei permite" para "o que o casamento é". As duas perguntas têm respostas diferentes, e a segunda não se resolve com casuística.

O que a resposta ainda não fez

Até aqui, nada foi dito sobre divórcio. O versículo 4 só estabelece de onde a resposta virá. A conclusão prática só aparece no versículo 6, e a palavra "divórcio" só volta no 8. É uma resposta que constrói o chão antes de pisar nele.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

Jesus — responde a uma pergunta de direito com uma pergunta de leitura. Em Mateus, é o quarto uso da fórmula "vocês não leram", sempre em controvérsia.

Os fariseus — os destinatários da réplica. Eram os intérpretes profissionais da Lei, o que dá à frase "vocês não leram" o seu peso.

"Aquele que os fez" — Deus, designado pelo ato e não pelo nome. Quem os fez é o sujeito da frase e a autoridade do argumento.

O primeiro casal — mencionado só pelo par "homem e mulher", sem nomes. O Gênesis os nomeia adiante; a citação não precisa disso.

Lugares

A estrada na Pereia — a controvérsia segue no mesmo lugar, diante da mesma multidão.

Eventos

A criação do homem e da mulher — o acontecimento citado, no sexto dia do relato de Gênesis 1.

A disputa sobre Deuteronômio 24 — o terreno de onde a pergunta veio, e de onde a resposta sai.

Textos

Gênesis 1:27 — a fonte da citação. Jesus toma a terceira das três orações do versículo.

O Documento de Damasco — texto de regras achado no mar Morto, que usa a mesma citação contra quem toma duas mulheres em vida.

5. Pontos de Ensino

Responder é, às vezes, recusar a pergunta

Perguntaram sobre a extensão de uma permissão. A resposta não trata disso. Aceitar a pergunta como posta seria aceitar que a permissão é o assunto.

A acusação é de leitura seletiva, não de ignorância

"Vocês não leram" é dito a especialistas no texto. O que se aponta não é falta de conhecimento; é a escolha de quais páginas contam.

A origem tem precedência sobre a disposição posterior

O argumento vai ao primeiro capítulo, e não ao livro de leis onde a discussão morava. Aquilo que vale desde o começo enuncia a intenção; o que veio depois atende a uma situação.

O sujeito é definido pelo ato

Não "Deus" nem "o Criador", mas "aquele que os fez". A autoridade invocada é a de quem construiu, não a de quem manda.

Da citação, o que interessa é o número

De Gênesis 1:27 a resposta toma só o par — um e uma. A conclusão do versículo 6 depende inteiramente desse "dois".

O argumento não era inaudito

Um texto judaico anterior aos evangelhos já usava Gênesis 1:27 como régua do casamento. A resposta de Jesus dialoga com um modo de argumentar que existia, ainda que fosse minoritário.

6. Aspectos Filosóficos

Há uma pergunta antiga escondida neste versículo, e ela não é religiosa: pode-se tirar uma regra de conduta de uma descrição de como as coisas são?

O argumento do versículo tem essa forma. Parte de um fato — foram feitos assim, no começo — e chega a uma consequência sobre o que se deve ou não fazer agora. Entre as duas coisas há um salto, e o salto não é evidente. De "é assim" não se segue, por si só, "deve ser assim"; se seguisse, toda doença seria boa por ser natural, e nenhuma cura se justificaria.

A dificuldade é conhecida e tem nome próprio na filosofia moderna. Nenhuma quantidade de afirmações sobre o que existe produz, sozinha, uma afirmação sobre o que deve ser feito. É preciso que entre no raciocínio, em algum ponto, uma premissa de outro tipo — e ela costuma entrar sem ser declarada.

No argumento do versículo, a premissa que falta é justamente a que o sujeito da frase fornece. "Aquele que os fez" não é uma força cega nem um processo: é alguém que fez com uma intenção. A origem não é invocada como fato bruto, e sim como projeto. É isso que fecha o salto — não "foi assim, logo deve ser assim", mas "foi feito assim por quem sabia o que estava fazendo".

Quem não partilha essa premissa não é alcançado pelo argumento, e é honesto dizê-lo. O raciocínio deste versículo funciona dentro de uma pressuposição, e não é demonstração independente dela. Os fariseus partilhavam a premissa, e por isso não podiam recusar a conclusão sem recusar o que também afirmavam.

A autoridade de quem fez

A segunda questão é sobre o tipo de autoridade que está sendo invocada, e ela é diferente da que se costuma supor.

Há uma autoridade que vem do poder: obedece-se porque quem manda pode impor. E há uma autoridade que vem do saber: segue-se a indicação porque quem a dá conhece a coisa por dentro. As duas são legítimas em campos diferentes, e confundi-las é fonte de muito erro.

O versículo invoca a segunda. Não diz "Deus proibiu"; diz "aquele que os fez". O argumento é de projeto, não de decreto: quem montou a coisa sabe para que ela serve e o que a quebra. É o mesmo tipo de razão pela qual se dá ouvidos a quem construiu a ponte quando se discute quanto peso ela aguenta.

Essa escolha tem um efeito que vai além da controvérsia do capítulo. Uma proibição por decreto pode ser revogada por quem a fez, e discute-se em torno da vontade de quem manda. Uma afirmação sobre a natureza da coisa não se revoga; discute-se se é verdadeira. O argumento que este versículo abre não pede obediência — pede reconhecimento de um fato sobre o que o casamento é. É por isso que ele não pode ser respondido com outro texto de lei, e é por isso que os fariseus, no versículo 7, tentarão exatamente isso.

7. Aplicações Práticas

Ir ao texto fundador antes do texto de procedimento

Discussões sobre regras costumam se travar no nível do regulamento, onde cada lado tem um artigo a favor. Subir um degrau — perguntar para que a regra existe e o que ela protege — é o que desempata quando os artigos empatam. É o movimento que o versículo executa.

Citar o trecho inteiro, e não a parte que serve

A acusação de "vocês não leram" é sobre leitura seletiva. Quem discute com um texto na mão tem de conferir o que ficou de fora da citação, inclusive das próprias citações. Vale dizer que o argumento deste versículo também toma só uma parte de Gênesis 1:27 — a que serve ao seu ponto.

Distinguir o que é decreto do que é descrição

Há regras que valem porque alguém as impôs e podem ser mudadas por quem as impôs. E há afirmações sobre como uma coisa funciona, que não se mudam por decisão. Saber com qual das duas se está lidando muda todo o tipo de conversa que se pode ter.

Reconhecer a premissa que sustenta o próprio argumento

O raciocínio do versículo só fecha porque pressupõe que a origem foi intencional. Quem discute sem enxergar as próprias pressuposições acha que está sendo lógico quando está sendo circular — e não entende por que o outro lado não se convence.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Jesus está evitando a pergunta?

Não no sentido de fugir dela. Ele recusa a premissa: perguntar até onde vai a permissão já supõe que o assunto é a permissão. Mudando o texto de referência, a resposta muda o que está em discussão — e a resposta prática vem, com todas as letras, nos versículos 6, 8 e 9.

2. Por que a citação é de Gênesis 1:27 e não do texto sobre divórcio?

Porque o argumento é de anterioridade. O que vale desde o começo enuncia a intenção; o que foi disposto depois atende a uma situação. Registre-se, porém, que nada na Torá estabelece essa hierarquia: ela é criada por este argumento, e não pressuposta por ele.

3. A resposta de Jesus era original?

Em parte. O Documento de Damasco, texto judaico anterior aos evangelhos achado no mar Morto, já usava Gênesis 1:27 como régua do casamento contra uma prática que a Lei não proibia. O modo de argumentar existia, era minoritário e é anterior. O que vem depois, nos versículos 6 e 9, vai além do que aquele texto dizia.

4. Qual é a diferença entre "o Criador" e "aquele que os fez"?

"O Criador" é um título; "aquele que os fez" é uma descrição de ato. A edição grega que a ABC segue traz a segunda forma, e as edições críticas modernas trazem a primeira. A diferença de sentido é pequena e não é nula: a forma do texto recebido define o sujeito pelo que ele fez, o que combina com um argumento que apela ao projeto e não ao decreto.

5. O que o argumento extrai de "homem e mulher"?

O número, antes de qualquer outra coisa. Um e uma somam dois, e é sobre esse dois que o versículo 6 vai concluir — "já não são dois". A parte do versículo do Gênesis que fala da imagem de Deus, que é o seu tema principal, fica de fora da citação porque não serve a este raciocínio.

6. Por que dizer "vocês não leram" a quem lia profissionalmente?

Justamente por isso. A frase não acusa de ignorância; acusa de escolher quais páginas contam. Mateus usa a mesma fórmula seis vezes, e as seis são contra especialistas que invocaram a Lei deixando de fora um trecho dela.

9. Conexão com Outros Textos

O texto citado

Gênesis 1:27 — "Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou."

A citação toma só a terceira oração. As duas primeiras, sobre a imagem de Deus, ficam de fora.

A mesma frase, repetida no Gênesis

Gênesis 5:2 — "Homem e mulher os criou; abençoou-os e, no dia em que foram criados, deu-lhes o nome de Adão."

A fórmula volta na abertura da genealogia, o que mostra que ela funcionava como enunciado de referência já dentro do próprio livro.

A mesma resposta em Marcos

Marcos 10:6 — "Porém, desde o princípio da criação, macho e fêmea ele os fez."

Marcos tem a citação e não tem a pergunta "vocês não leram". A fórmula da leitura é de Mateus.

A mesma fórmula, nas outras controvérsias

Mateus 12:3 — "Ele respondeu: Vocês nunca leram o que Davi fez, quando ele e seus companheiros tiveram fome?"

Mateus 22:31 — "E quanto à ressurreição dos mortos, vocês não leram o que Deus lhes disse:"

Sempre contra quem invoca a Lei deixando um trecho dela de fora.

Os textos que o Documento de Damasco junta ao mesmo argumento

Gênesis 7:9 — "entraram de dois em dois na arca, para junto de Noé, macho e fêmea, como Deus havia ordenado a Noé."

Deuteronômio 17:17 — "Nem aumentará para si mulheres, para que seu coração não se desvie: nem prata nem ouro acrescentará para si em grande quantidade."

O texto do mar Morto encadeia os três — Gênesis 1:27, Gênesis 7:9 e Deuteronômio 17:17 — para concluir contra quem toma duas mulheres em vida.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Ele respondeu: “Vocês não leram que aquele que os fez, desde o princípio, os fez homem e mulher,

Texto grego (Textus Receptus)

ὁ δὲ ἀποκριθεὶς εἶπεν αὐτοῖς, Οὐκ ἀνέγνωτε ὅτι ὁ ποιήσας ἀπ’ ἀρχῆς ἄρσεν καὶ θῆλυ ἐποίησεν αὐτούς,

Transliteração

ho de apokritheis eipen autois, Ouk anegnōte hoti ho poiēsas ap' archēs arsen kai thēly epoiēsen autous,

O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega que a ABC segue) traz ho poiēsas, "aquele que os fez"; as edições críticas modernas, apoiadas nos manuscritos mais antigos, trazem ho ktisas, "o Criador". A ABC seguia a segunda leitura e foi corrigida para a primeira.

Análise palavra por palavra

ἀποκριθεὶς εἶπεν — apokritheis eipen, "respondendo disse". Particípio aoristo de apokrinomai, "responder", seguido do verbo "dizer". A construção é um decalque do hebraico e aparece dezenas de vezes em Mateus; o português a resolve com um verbo só, "respondeu".

Οὐκ ἀνέγνωτε — ouk anegnōte, "vocês não leram". Aoristo do indicativo ativo de anaginōskō, formado de ana, "de novo, para cima", e ginōskō, "conhecer": literalmente "reconhecer", e daí "ler", porque ler era reconhecer as letras em voz alta. A negativa ouk numa pergunta espera resposta afirmativa — "vocês leram, não leram?". A fórmula volta em Mateus 12:3, 12:5, 21:16, 21:42 e 22:31.

ὁ ποιήσας — ho poiēsas, "aquele que fez". Particípio aoristo ativo de poieō, "fazer", com artigo: o particípio com artigo funciona como substantivo, "o que fez". Poieō é o verbo comum de fabricar e realizar, sem carga religiosa própria; ktizō, da leitura alternativa, é o verbo específico de fundar e criar, e dele vem ktistēs, "criador". A diferença é real: uma forma nomeia o ato, a outra nomeia o ofício.

ἀπ’ ἀρχῆς — ap' archēs, "desde o princípio". Archē é começo, origem e também primazia — dela vêm "arcaico" e "arquétipo". A mesma expressão reaparece no versículo 8, e é o eixo do argumento: as duas pontas do raciocínio de Jesus são a mesma palavra.

ἄρσεν καὶ θῆλυ — arsen kai thēly, "macho e fêmea". São os termos da Septuaginta — a tradução grega do Antigo Testamento — em Gênesis 1:27, e não as palavras correntes para homem e mulher (anēr e gynē). Arsen e thēly são adjetivos de sexo, usados também para animais; estão no neutro, o que soa estranho em grego para pessoas e reproduz o hebraico. A escolha mostra que a citação é literal: Jesus não parafraseia, repete a tradução conhecida.

ἐποίησεν αὐτούς — epoiēsen autous, "os fez". Aoristo do indicativo ativo do mesmo verbo poieō do particípio anterior. A repetição — "aquele que os fez... os fez homem e mulher" — está no grego e é do próprio Gênesis 1:27, onde o verbo "criar" aparece três vezes na mesma frase. O pronome autous é masculino plural e recobre o par, como em português.

11. Conclusão

A resposta não entra na discussão que lhe foi proposta. Perguntaram a extensão de uma permissão; a réplica pergunta pela leitura de um texto que ninguém tinha citado. O deslocamento é o argumento.

A força do movimento está na escolha da fonte. Deuteronômio 24 era o endereço do assunto; Gênesis 1 não era. Ao ir ao primeiro capítulo, a resposta troca a pergunta "o que a Lei permite" pela pergunta "o que o casamento é" — e a segunda não se responde com casuística.

A hierarquia que sustenta essa troca não está escrita em lugar nenhum da Torá. Ela é estabelecida por este argumento. Quem lê a cena como simples lembrete de uma regra conhecida perde o que há de decisivo: a regra de leitura nasce no ato de ser aplicada.

O argumento também não era inaudito. Um texto judaico achado no mar Morto usa exatamente a mesma citação de Gênesis 1:27 contra uma prática que a Lei não proibia. Isso reduz a estranheza da resposta e aumenta a precisão com que se pode situá-la: havia um modo rigoroso de argumentar assim, e ele existia antes.

E o sujeito da frase faz um trabalho que passa despercebido. Não é "Deus" nem "o Criador": é "aquele que os fez". A autoridade invocada não é a de quem manda, e sim a de quem construiu — o que muda a natureza da discussão inteira. Não se está diante de uma proibição a ser obedecida, e sim de uma afirmação sobre o que uma coisa é. Por isso o contra-ataque dos fariseus, no versículo seguinte, vai errar o alvo: eles vão responder com outra lei.

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