e disse: ‘Por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne’?
1. Introdução
A citação continua, e o verbo que a introduz muda tudo: "e disse" tem por sujeito o mesmo do versículo anterior, aquele que os fez.
No Gênesis, a frase sobre deixar pai e mãe não tem locutor marcado; aqui ela ganha um, e é Deus.
Há ainda uma palavra decisiva no fim, "os dois", que não está no hebraico do Gênesis e sim na tradução grega — e é sobre ela que a conclusão do versículo seguinte vai se apoiar.
2. Contexto Histórico e Cultural
Para entender o que "deixar pai e mãe" significava, é preciso saber como um casamento se fazia.
Duas etapas, com um intervalo entre elas
O casamento judaico do primeiro século não acontecia num dia. Tinha duas etapas separadas por meses.
A primeira era o compromisso formal, o kidushin ("santificação", em hebraico — o ato que reservava a mulher para aquele homem). Feito o compromisso, o vínculo já era jurídico: a noiva era chamada de esposa, a ruptura exigia uma certidão de divórcio, e uma relação dela com outro homem contava como adultério. Mas ela continuava morando na casa do pai.
A segunda etapa era a entrada na casa do marido, o nisuin ("elevação", em hebraico — a levada da noiva para a casa nova), com a festa e o dossel. Entre uma e outra costumava passar cerca de um ano, tempo de o noivo preparar a casa e a noiva o enxoval.
É esse desenho que explica a cena do primeiro capítulo de Mateus, em que José, já noivo de Maria, pensa em despedi-la em segredo: eles estavam entre as duas etapas, e desfazer aquilo exigia um documento de divórcio.
O contrato escrito, e o que ele garantia
O casamento vinha com um documento, a ketubá ("escrito", em aramaico — o contrato entregue à noiva). Ele registrava o dote trazido por ela e, principalmente, a quantia que o marido lhe deveria se a despedisse ou se morresse: pela regra da Mishná, duzentos zuz de prata para quem se casava virgem, cem para a viúva ou divorciada que casava de novo.
A função dessa quantia era prática e dura: encarecer o divórcio. Quem quisesse despedir a mulher tinha de pagar, e o valor não era simbólico — duzentos zuz equivaliam a algo em torno de um ano de sustento simples. O contrato protegia a mulher pelo bolso do marido.
Os contratos que sobreviveram
Isso não é reconstrução teórica. Nas grutas do deserto da Judeia foram achados contratos de casamento reais, em aramaico e em grego, escondidos por famílias que fugiam da guerra no começo do século II. O mais conhecido pertence ao acervo de uma mulher chamada Babata, que guardou os seus papéis num embrulho de couro: há ali o contrato do seu segundo casamento e outros documentos de família, com nomes, valores e testemunhas.
Os documentos mostram a prática funcionando: quantia devida à mulher, dote descrito item por item, cláusula de sustento, assinaturas. O que a Mishná descreve como regra aparece nesses papéis como rotina.
Quem saía de casa
No arranjo normal, quem mudava de casa era a mulher. O homem continuava no terreno da família, muitas vezes num cômodo acrescentado à casa do pai, e a nova esposa entrava para a casa dele. A frase citada diz o contrário — é o homem que deixa pai e mãe — e essa inversão em relação ao costume é o achado do próprio Gênesis 2:24, tratado no estudo daquele versículo.
O que a inversão significa para a discussão deste capítulo é outra coisa: a frase não descreve endereço, descreve prioridade. E é por isso que ela pode ser citada num debate sobre divórcio sem que ninguém reclame que a geografia doméstica não bate.
Citar em grego o que foi escrito em hebraico
A citação que Jesus faz segue a Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento feita no Egito a partir do século III antes de Cristo. Isso é visível numa palavra: "os dois", que a tradução grega tem e o texto hebraico conservado não tem.
A mesma palavra aparece no Pentateuco Samaritano — a versão da Torá conservada pelos samaritanos, com texto hebraico próprio —, na tradução siríaca e na Vulgata latina. Ou seja: o "dois" era leitura largamente difundida, e não invenção de um tradutor isolado. O que não se pode afirmar é se ele estava no texto hebraico mais antigo e caiu depois, ou se foi acrescentado cedo para deixar explícito o que a frase já dizia. As duas hipóteses continuam em disputa.
3. Análise Teológica do Versículo
"e disse"
Duas palavras, e elas fazem o trabalho mais pesado do versículo.
Abra-se o Gênesis no lugar de onde a citação vem. O capítulo 2 conta que o homem, ao ver a mulher, exclama: "Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne" (Gênesis 2:23). Logo depois vem a frase sobre deixar pai e mãe — e ela aparece sem introdução. Não há "e Deus disse", não há "e o homem disse". A frase simplesmente está ali.
Por isso ela sempre foi lida de duas maneiras. Uma continua a fala de Adão: seria ele quem, depois do reconhecimento, tira a conclusão geral. A outra atribui a frase ao próprio texto do Gênesis, que interrompe a cena para explicar ao leitor por que as coisas são como são.
Mateus não escolhe nenhuma das duas. Ele emenda o "e disse" no sujeito do versículo anterior — "aquele que os fez" —, e com isso a frase passa a ser de Deus. A citação não muda; muda quem a assina.
Os comentaristas notam o movimento e explicam-no de modos diferentes. Para Ellicott, as palavras foram ditas por Adão, mas com sanção divina, como um oráculo. Bengel resolve numa fórmula curta: "Deus, por Adão". Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) diz que, sendo revelação divina, podem ser atribuídas a Deus. Nenhum deles nega o problema; todos o contornam.
E o problema importa, porque a conclusão do versículo 6 depende dessa atribuição. "O que Deus uniu" só se sustenta se foi Deus quem falou. Se a frase for de Adão, o argumento perde o pé.
Um limite honesto: o grego não nomeia o sujeito de "disse". Ele fica implícito, e o implícito mais natural é mesmo o sujeito da frase anterior. Mas a leitura depende de um encadeamento, não de uma palavra escrita — e é bom saber disso.
"Por isso o homem deixará pai e mãe"
"Por isso" liga a regra a um fato. A frase não começa do nada: ela é a consequência de algo que acabou de ser contado. No Gênesis, o fato é que a mulher veio do homem. No argumento de Mateus, o fato é que foram feitos dois, homem e mulher.
"Deixar" é palavra forte. No uso corrente ela serve para abandonar, largar, desamparar. Não é "sair de casa"; é soltar um vínculo. O que se solta aqui é o laço com os pais — o laço mais forte que existia naquela sociedade, a base de tudo: da herança, do nome, do sustento na velhice, da identidade.
O verbo está no futuro, e o futuro, aqui, funciona como norma. É o mesmo uso dos mandamentos: "não matarás" não prevê o futuro, ordena. A frase do Gênesis, do mesmo modo, não descreve um hábito — enuncia o que há de ser.
"e se unirá à sua mulher"
O verbo é o de colar. No hebraico do Gênesis, a mesma raiz descreve a língua que gruda no céu da boca, o cinto que se aperta no corpo e — sobretudo — a adesão do povo a Deus, que a Lei manda "apegar-se" ao SENHOR. A palavra pertence ao campo da fidelidade, e não ao do contrato.
Há uma assimetria calculada entre os dois verbos. Deixar é um movimento de separação, colar é um movimento de adesão. A frase põe os dois na mesma sentença, nessa ordem, e não admite o inverso: não se cola sem antes soltar. É por isso que "deixar pai e mãe" está ali, e não é enfeite.
"e os dois se tornarão uma só carne"
"Carne", no vocabulário bíblico, não é só o corpo. É a pessoa inteira na sua condição de criatura: frágil, mortal, dependente. Dizer que dois se tornam uma só carne não é dizer que se fundem espiritualmente; é dizer algo mais concreto e mais radical — que passam a ser um único ser da mesma espécie de fragilidade.
Há uma pista disso no próprio Gênesis. Ao ver a mulher, o homem diz "carne da minha carne", que é a fórmula hebraica do parentesco de sangue. A frase sobre tornar-se uma só carne está dizendo que o casamento produz um laço do mesmo tipo que o laço entre pais e filhos — e é justamente por isso que ele pode substituir o laço com os pais no começo da sentença.
E agora a palavra decisiva: "os dois". Ela não está no texto hebraico conservado, que diz apenas "e serão uma só carne". Está na tradução grega, na versão samaritana, na siríaca e na latina.
Isso precisa ser dito sem alarme e sem disfarce. Não significa que o argumento esteja construído sobre um erro: "os dois" explicita o que a frase do Gênesis já supunha, já que a cena tinha exatamente duas pessoas. Mas significa que a palavra sobre a qual o versículo 6 vai apoiar a sua conclusão — "já não são dois" — chega ao argumento pela via da tradução grega, e não pelo texto hebraico como ele foi conservado. É um dado verificável, que quase nunca se menciona, e que não decide nada sozinho.
A discussão mais completa sobre o "uma só carne" em si está no estudo de Gênesis 2:24.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
"Aquele que os fez" — o sujeito de "disse", herdado do versículo anterior. É a atribuição que sustenta o argumento do versículo 6.
Adão — não é nomeado, mas está em jogo: no Gênesis, a frase citada vem logo depois da fala dele, e uma tradição de leitura a atribui a ele.
"O homem", "a mulher", "pai e mãe" — personagens genéricos da frase citada, sem nomes. A generalidade é o ponto: a regra vale para qualquer casal.
Babata — mulher judia do começo do século II cujo acervo de documentos, escondido numa gruta do deserto da Judeia, inclui contratos de casamento reais.
Lugares
A casa paterna — o que se deixa na frase. Era a unidade econômica, jurídica e religiosa básica da sociedade israelita.
As grutas do deserto da Judeia — onde foram achados os contratos de casamento que documentam a prática.
Eventos
A formação do primeiro casal — o acontecimento a que "por isso" se refere.
A tradução do Antigo Testamento para o grego — a Septuaginta, feita a partir do século III antes de Cristo, e a versão de onde vem a palavra "dois".
5. Pontos de Ensino
Uma citação pode mudar de dono
No Gênesis, a frase não tem locutor marcado. Aqui ela é atribuída a quem fez o homem e a mulher. Nenhuma palavra do texto citado mudou, e o peso dele mudou inteiro.
A regra nasce de um fato
"Por isso" liga a norma ao que acabou de ser contado. Não é um mandamento avulso: é a consequência de como as coisas foram feitas.
Soltar antes de colar
Os dois verbos estão na mesma frase e nessa ordem. O vínculo novo exige que o vínculo anterior seja afrouxado — não rompido no afeto, mas deslocado do primeiro lugar.
O casamento produz parentesco
"Uma só carne" usa a linguagem do laço de sangue. É por isso que o vínculo conjugal pode aparecer, na frase, ocupando o lugar antes ocupado pelo vínculo com os pais.
A palavra decisiva vem da tradução grega
"Os dois" não está no hebraico conservado. Saber disso não desmonta o argumento, mas muda o que se pode afirmar sobre ele, e é informação que o leitor tem o direito de ter.
6. Aspectos Filosóficos
Uma frase pode não mudar uma vírgula e, ainda assim, passar a dizer outra coisa. Basta mudar quem a disse.
É o que acontece neste versículo. A sentença sobre deixar pai e mãe é exatamente a mesma do Gênesis. O que muda é a atribuição: no texto de origem ela flutua, sem locutor marcado; aqui ela é posta na boca de quem fez o homem e a mulher. E com isso ela sai de uma categoria e entra em outra — deixa de ser uma observação sobre o mundo e passa a ser uma declaração de quem o fez.
A diferença não é de autoridade só. É de tipo de frase. Uma observação sobre como as pessoas se comportam pode ser verdadeira ou falsa, e se refuta com contraexemplos: basta mostrar casais que não deixaram pai e mãe. Uma declaração de quem projetou a coisa não se refuta assim. Ela diz o que a coisa é, e os casos que não se encaixam contam contra os casos, não contra a regra.
Isso ilumina um mecanismo que opera em toda argumentação com textos, e não apenas com textos sagrados. Citar é sempre duas operações ao mesmo tempo: repetir palavras e atribuir uma origem a elas. A segunda operação costuma passar despercebida, porque parece mero acessório da primeira — e é nela que mora a maior parte da força do que se diz. Duas pessoas podem citar a mesma frase e estar dizendo coisas incompatíveis, se a atribuírem a fontes de peso diferente.
O que se ganha e o que se perde com a atribuição
Há um ganho evidente no movimento do versículo: a frase fica firme. Nenhum argumento contrário de conveniência a alcança, porque ela não está mais no plano da conveniência.
Há também uma perda, e ela é do mesmo tamanho. Uma frase atribuída a quem fez as coisas sai do alcance da discussão. Não se pode mais perguntar se ela descreve bem a experiência, se comporta exceções, se envelheceu. O que se ganha em solidez se perde em revisabilidade — e essa é a troca que toda apelação ao fundamento faz, em qualquer campo.
Quem lê o versículo com honestidade tem de reconhecer as duas metades. A atribuição é o que dá ao argumento a sua força; e é também o que o põe fora do alcance de quem não partilha a premissa. O texto não se desculpa por isso, e não deveria: está argumentando com gente que partilhava a premissa inteira. O que não cabe é usar o resultado como se fosse uma demonstração neutra, válida para qualquer interlocutor.
A dependência de uma palavra
E há uma questão menor, mas incômoda, que o versículo levanta sem querer. A palavra que sustenta a conclusão seguinte — "os dois" — chega ao argumento pela tradução grega, e não pelo texto hebraico conservado.
Isso põe uma pergunta que atravessa qualquer tradição que argumente a partir de textos antigos: o que acontece a um raciocínio quando a palavra que o sustenta depende de qual versão se tem na mão? A resposta honesta não é nem "nada" nem "tudo". Não é "nada", porque a palavra faz trabalho real no argumento. E não é "tudo", porque a cena do Gênesis tem, de fato, duas pessoas, e o acréscimo torna explícito o que já estava dado. O que se perde, com a palavra, é a explicitação; o que não se perde é o conteúdo.
7. Aplicações Práticas
Conferir de quem é a frase que se está citando
Repetir palavras é fácil; atribuí-las corretamente é o que dá ou tira peso ao que se diz. Vale para o texto bíblico e vale para qualquer discussão em que alguém diz "como está escrito". A pergunta útil é sempre: escrito onde, e dito por quem, naquele lugar?
O deslocamento de prioridade, e não de endereço
"Deixar pai e mãe" não é uma instrução sobre onde morar. É sobre qual vínculo passa a vir primeiro quando dois vínculos colidem. A frase existe porque essa colisão é normal, e não excepcional.
Soltar é condição de colar
A ordem dos verbos na frase não é decorativa. Um vínculo novo que se acrescenta sem que nenhum outro ceda o primeiro lugar não é o que a frase descreve. Isso tem consequências concretas em famílias que se formam sem que ninguém se mexa.
Saber o que o próprio argumento pressupõe
O raciocínio deste versículo funciona para quem aceita que a frase é de Deus. Para quem não aceita, ele não convence — e não deveria convencer. Reconhecer isso não enfraquece o argumento; evita usá-lo como se fosse outra coisa.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Quem diz a frase de Gênesis 2:24, no texto original?
O texto não marca. Ela aparece logo depois da fala de Adão, sem fórmula de introdução. Uma leitura a toma como continuação da fala dele; outra a atribui ao próprio livro do Gênesis, explicando ao leitor por que as coisas são assim. As duas são antigas e nenhuma pode ser provada pelo texto.
2. Então Mateus mudou o sentido do Gênesis?
Mudou a atribuição, não as palavras. Ao emendar "e disse" no sujeito do versículo anterior, ele põe a frase na boca de quem fez o homem e a mulher. Os comentaristas antigos sentiram o problema e o resolveram de vários modos — Bengel com "Deus, por Adão", Ellicott dizendo que as palavras de Adão tinham sanção divina. Nenhum dos dois nega que a atribuição não está escrita no Gênesis.
3. Por que isso importa?
Porque a conclusão do versículo 6 — "o que Deus uniu" — depende disso. Se a frase citada for de Adão, ela registra uma observação humana; se for de Deus, enuncia um desenho. O passo seguinte do argumento só se apoia na segunda leitura.
4. "Os dois" está mesmo ausente do hebraico?
Está ausente do texto hebraico conservado, que diz apenas "e serão uma só carne". A palavra aparece na tradução grega, na versão samaritana, na siríaca e na latina. Se ela caiu do hebraico ou foi acrescentada cedo para deixar claro o que a frase supunha, é questão em aberto.
5. Isso enfraquece o argumento de Jesus?
Não o desmonta, e não é honesto fingir que a informação não existe. A cena do Gênesis tem duas pessoas, e o acréscimo explicita o que já estava dado. O que se pode afirmar é que a palavra sobre a qual a conclusão se apoia chega ao raciocínio pela via da tradução — e esse dado é verificável comparando as versões.
6. "Deixar pai e mãe" contradiz o mandamento de honrar os pais?
Os dois textos tratam de coisas diferentes. O mandamento é sobre respeito e sustento; a frase do Gênesis é sobre qual vínculo vem primeiro quando há conflito de lealdade. O próprio Mateus registra Jesus cobrando duramente o dever para com os pais, em Mateus 15:4-6, o que mostra que ele não lia uma coisa como anulando a outra.
9. Conexão com Outros Textos
O texto citado, e o que vem logo antes dele
Gênesis 2:23 — "E o homem disse: Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada."
Gênesis 2:24 — "Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne."
A ausência de introdução no segundo versículo é o que abre a discussão sobre quem o diz. Note-se que a versão portuguesa também traz "os dois", seguindo as antigas versões.
A mesma citação em Marcos
Marcos 10:7 — "Por isso, deixará o homem a seu pai e a sua mãe."
Marcos 10:8 — "E os dois serão uma só carne; assim, já não são dois, mas sim uma só carne."
Marcos cita o mesmo texto, com o mesmo "dois", e sem o "e disse" que atribui a frase a Deus.
A mesma citação em Paulo
Efésios 5:31 — "Por isso o homem deixará o seu pai e a sua mãe, e se ajuntará com a sua mulher; e os dois serão uma só carne."
Terceira citação do mesmo versículo no Novo Testamento, também com "os dois", e aplicada a outro assunto.
O dever para com os pais, no mesmo evangelho
Mateus 15:4 — "Pois Deus ordenou: Honra o teu pai e a tua mãe e Quem amaldiçoar o pai ou a mãe seja condenado à morte."
Mateus registra Jesus cobrando esse dever com severidade, o que impede ler "deixar pai e mãe" como abandono.
A lei que protegia o começo do casamento
Deuteronômio 24:5 — "Quando tomar alguém mulher nova, não sairá à guerra, nem em nenhuma coisa se lhe ocupará; livre estará em sua casa por ano, para alegrar à sua mulher que tomou."
No mesmo capítulo de onde saiu a discussão sobre divórcio, há uma lei que reserva o primeiro ano do casamento. O contraste diz algo sobre como Deuteronômio 24 tratava o vínculo.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
e disse: ‘Por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne’?
Texto grego (Textus Receptus)
καὶ εἶπεν, Ἕνεκεν τούτου καταλείψει ἄνθρωπος τὸν πατέρα καὶ τὴν μητέρα, καὶ προσκολληθήσεται τῇ γυναικὶ αὐτοῦ, καὶ ἔσονται οἱ δύο εἰς σάρκα μίαν;
Transliteração
kai eipen, Heneken toutou kataleipsei anthrōpos ton patera kai tēn mētera, kai proskollēthēsetai tē gynaiki autou, kai esontai hoi dyo eis sarka mian?
O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega que a ABC segue) traz proskollēthēsetai, com o prefixo pros-, "em direção a"; as edições críticas trazem a forma simples kollēthēsetai. O sentido é o mesmo.
Análise palavra por palavra
καὶ εἶπεν — kai eipen, "e disse". Aoristo do indicativo ativo de legō, "dizer", sem sujeito expresso. Em grego, verbo sem sujeito próprio retoma o sujeito anterior — que aqui é ho poiēsas, "aquele que os fez", do versículo 4. É essa regra de gramática, e não uma palavra escrita, que faz a citação ser de Deus.
Ἕνεκεν τούτου — heneken toutou, "por causa disto". Preposição de causa com o pronome demonstrativo no genitivo. A Septuaginta, em Gênesis 2:24, traz a forma equivalente heneken toutou; Marcos 10:7 usa heneken, e Efésios 5:31 usa anti toutou. Pequenas variações de citação da mesma frase grega.
καταλείψει — kataleipsei, "deixará". Futuro do indicativo ativo de kataleipō, formado de kata, com força intensiva, e leipō, "deixar para trás". Não é sair; é deixar para trás, abandonar, largar. O mesmo verbo descreve, em Mateus 4:13, Jesus "deixando" Nazaré, e em Mateus 16:4 ele "deixando" os que pediam sinal. O futuro, em citações da Lei, tem força de mandamento.
ἄνθρωπος — anthrōpos, "o homem", sem artigo. A palavra é o ser humano em geral, e não o varão — este seria anēr. A Septuaginta usa anthrōpos aqui porque o hebraico traz ish, que serve para os dois sentidos. É a mesma palavra do versículo 3 ("é permitido ao homem") e do versículo 6 ("não separe o homem").
προσκολληθήσεται — proskollēthēsetai, "será colado a, unir-se-á". Futuro do indicativo passivo de proskollaō, de kolla, "cola" — a palavra grega para a cola de marceneiro. Ao pé da letra: "será grudado". A forma é passiva com sentido reflexivo, o que é comum nesse verbo. Na Septuaginta, é o verbo de Deuteronômio 10:20 e 11:22, onde Israel deve "apegar-se" ao SENHOR: o mesmo campo da fidelidade à aliança. O hebraico correspondente, em Gênesis 2:24, é a raiz davaq, com o mesmo sentido de aderir.
τῇ γυναικὶ αὐτοῦ — tē gynaiki autou, "à sua mulher". Dativo regido pelo verbo. Gynē significa tanto "mulher" quanto "esposa", decidido pelo contexto — aqui, pelo possessivo.
ἔσονται οἱ δύο εἰς σάρκα μίαν — esontai hoi dyo eis sarka mian, "serão os dois em uma carne". Esontai é futuro de eimi, "ser". A construção com eis, "para dentro de", onde se esperaria um predicativo simples, é decalque do hebraico e significa "tornar-se", "vir a ser". Sarx é a carne, e no vocabulário bíblico designa a pessoa inteira na sua condição de criatura, não apenas o corpo.
οἱ δύο — hoi dyo, "os dois". Esta é a palavra a registrar. Ela está na Septuaginta de Gênesis 2:24, no Pentateuco Samaritano, na tradução siríaca e na Vulgata; não está no texto hebraico conservado, que traz apenas "e serão uma só carne". Se caiu do hebraico ou foi acrescentada cedo, é discutido e não há consenso. Todas as três citações do versículo no Novo Testamento — aqui, em Marcos 10:8 e em Efésios 5:31 — trazem a palavra, e é dela que o versículo 6 tira o "já não são dois".
11. Conclusão
A citação prossegue e ganha um dono. No Gênesis, a frase sobre deixar pai e mãe não tem locutor marcado; aqui ela é emendada no sujeito do versículo anterior, e passa a ser palavra de quem fez o homem e a mulher.
Essa atribuição não é decorativa. Ela é o que permite a conclusão do versículo seguinte, "o que Deus uniu": sem ela, a frase citada seria a observação de um homem sobre o mundo, e não uma declaração sobre como o mundo foi feito. Os comentaristas antigos perceberam o ponto e o resolveram de modos diferentes, o que mostra que ele sempre foi sentido como problema.
A frase citada tem uma estrutura precisa: solta-se um vínculo, cola-se outro, e do segundo nasce um parentesco novo. "Uma só carne" usa a linguagem do laço de sangue, e é por isso que o vínculo conjugal pode ocupar, na sentença, o lugar antes ocupado pelo vínculo com os pais.
Resta a palavra "os dois", que sustenta a conclusão seguinte e não está no hebraico conservado. Não é possível decidir se caiu ou se foi acrescentada. O que se pode afirmar é que ela explicita o que a cena do Gênesis já continha, e que chega ao argumento pela tradução grega — informação que raramente aparece nos comentários e que o leitor tem o direito de ter antes de acompanhar o passo seguinte.













