Os seus discípulos lhe disseram: “Se essa é a situação do homem com a mulher, não vale a pena casar.”
1. Introdução
Os discípulos ouvem a resposta sobre o divórcio e tiram dela uma conclusão sobre eles mesmos.
O que dizem não é pergunta: é um cálculo, e o que entra na conta é o que o homem perde, não o que a mulher ganha. A palavra que a ABC traduz por "situação" é da mesma família da que os fariseus usaram no versículo 3, e isso amarra a reação deles à armadilha que abriu a conversa. Jesus não responde que eles erraram, nem que acertaram. Responde com uma frase sobre quem consegue receber uma palavra — e é dela que sai o versículo seguinte.
2. Contexto Histórico e Cultural
"Deve o sábio casar-se?" — a pergunta já tinha uma literatura
A frase dos discípulos soa como desabafo. No mundo em que ela foi dita, era uma posição conhecida, com autores dos dois lados e com uma tradição de séculos.
O tratado que respondia que não
Teofrasto, filósofo grego que sucedeu Aristóteles à frente da escola de Atenas e morreu por volta de 287 antes de Cristo, escreveu um livro sobre o casamento. O texto se perdeu, e o que dele resta chegou por um caminho improvável: Jerônimo, o tradutor da Bíblia para o latim, citou um longo trecho dele no século IV, dentro de uma obra de polêmica chamada Contra Joviniano (livro 1, capítulo 47). O trecho ficou conhecido como o "livrinho de ouro sobre o casamento".
A tese é direta: o sábio não deve casar. Os argumentos são de tempo e de atenção. Quem tem mulher e casa tem de atender a mulher e à casa, e as duas coisas não esperam; os livros ficam para depois; a administração doméstica consome o dia; e a vigilância que um casamento exige não termina nunca. Teofrasto compara o casamento a uma fortaleza permanentemente sitiada, que seria melhor não ter assumido.
Duas ressalvas de método, e elas são importantes. O texto chega por Jerônimo, que o citava para defender a virgindade contra um adversário, e por isso é discutido entre estudiosos quanto do fraseado é de Teofrasto e quanto é do tradutor. E a obra é do fim do século IV, muito posterior à cena deste versículo. O que ela prova é a existência e a longevidade da tese, não o que Teofrasto escreveu palavra por palavra.
Um tema de exercício nas escolas
A pergunta era tão corrente que virou matéria de aula. Quintiliano, professor de retórica em Roma no fim do primeiro século, lista entre os temas de treino dos alunos a questão de se um homem deve ou não tomar esposa — do mesmo tipo das que se davam para que o estudante aprendesse a argumentar dos dois lados.
Isso quer dizer que qualquer pessoa medianamente instruída do império reconheceria a frase "não vale a pena casar" como o lado negativo de uma disputa conhecida, e não como uma opinião inédita.
O estoico que respondia que sim, e era contemporâneo
O testemunho mais próximo no tempo vem de Musônio Rufo, mestre estoico ativo em Roma nas mesmas décadas em que os evangelhos foram escritos, e exilado por Nero.
Uma das lições dele se chama, literalmente, algo como "o casamento é um estorvo para quem se dedica à filosofia?". Ela começa com a objeção de um interlocutor, que afirma que sim. Musônio responde com exemplos: não foi estorvo para Pitágoras, nem para Sócrates, nem para Crates — os três tiveram mulher e nem por isso deixaram de ser o que foram. E acrescenta o argumento de princípio: o filósofo ensina o que está de acordo com a natureza, e o casamento está de acordo com a natureza; logo, ele deve casar.
Noutra lição, Musônio sustenta que o objetivo do casamento não se esgota nos filhos: é a vida em comum, o cuidado de um pelo outro, a existência partilhada.
O que muda quando a frase é dita por aqueles homens
Dito isso, é preciso marcar a diferença, porque ela é o que dá sentido à cena.
Na discussão grega e romana, a pergunta era se uma esposa consome o tempo que pertenceria ao estudo ou ao serviço da cidade. O custo estava em tudo o que o casamento exige enquanto dura.
Aqui o custo é outro, e é bem mais estreito: está na impossibilidade de sair. Os discípulos não dizem que a mulher toma tempo, nem que a casa atrapalha. Dizem que, se a porta se fecha daquele jeito, a conta não fecha. Chegam à mesma conclusão da tradição grega por um caminho que aquela tradição não percorria.
Para um judeu, aliás, a pergunta nem se punha nesses termos: casar era obrigação, não escolha sujeita a cálculo de conveniência. E o casamento vinha com um documento que registrava o que o marido deveria à mulher no dia em que o vínculo terminasse — o contrato examinado no estudo de Mateus 19:5.
A objeção deles é, portanto, uma coisa curiosa: usa a forma de um debate filosófico grego, com um motivo que só existe por causa do que Jesus acabou de dizer.
3. Análise Teológica do Versículo
“Os seus discípulos lhe disseram”
Quem fala é o grupo, e nenhum nome aparece. Mateus não diz quantos eram, nem qual deles começou, nem se algum discordou.
O texto que a ABC segue traz o "seus" — são os discípulos dele, e não discípulos em geral. Isso tem efeito na cena: a objeção não vem de fora. Vem de dentro, de quem já tinha deixado casa e trabalho para andar com ele.
Neste capítulo os discípulos falam quatro vezes, e nas quatro tropeçam. Aqui, dizendo que não vale a pena casar. No versículo 13, afastando crianças. No versículo 25, espantados com o que ouviram sobre os ricos. No versículo 27, pela boca de Pedro, fazendo a conta do que vão receber. Mateus registra as quatro sem comentar nenhuma.
“Se essa é a situação do homem com a mulher”
A palavra que a ABC traduz por "situação" é a mesma, na raiz, que aparece no versículo 3, quando os fariseus perguntam se um homem pode se divorciar "por qualquer motivo". É palavra de processo: o motivo alegado, a causa apresentada, o caso posto diante de quem julga.
Isso muda a temperatura da frase. Os discípulos não improvisam vocabulário. Pegam a palavra que estava sobre a mesa desde o início da discussão e a devolvem.
Como a palavra tem mais de um alcance, a frase tem mais de uma leitura, e as versões antigas e modernas se dividem entre elas.
Primeira leitura: "se é essa a relação entre marido e mulher". Aqui a palavra é tomada no sentido mais largo, de estado de coisas. Os discípulos estariam dizendo: se o casamento é isto que acabamos de ouvir — um vínculo sem saída —, então não compensa entrar nele. É a leitura mais corrente e a que as traduções em português costumam seguir.
Segunda leitura: "se é esse o único motivo que um homem tem contra a mulher". Aqui a palavra guarda o sentido estrito de causa alegada. Os discípulos estariam reagindo à exceção do versículo 9: se a infidelidade é a única acusação que abre a porta, o marido fica praticamente preso. É a leitura que o comentarista alemão Heinrich Meyer defende, e a que mais respeita o uso da palavra no versículo 3.
Terceira leitura: "se é essa a causa do homem com a mulher". Aqui a expressão é ouvida como linguagem de tribunal, quase como se dissessem: se é assim que o processo do marido contra a esposa corre. É leitura minoritária, e o grego a permite.
Não é possível decidir entre as três, e as duas primeiras levam ao mesmo lugar prático. O que as três compartilham é o ponto de vista: a frase olha o casamento do assento do marido.
“não vale a pena casar”
O verbo é o do proveito, da vantagem, do que compensa. Não é "não é lícito" nem "não é bom": é não conta a favor. A mesma palavra aparece em Mateus 5:29, quando Jesus diz que é melhor perder um membro do que o corpo inteiro — cálculo de perda e ganho, feito com frieza.
A frase, portanto, não é um desabafo sentimental. É uma conclusão de negócio, tirada em voz alta, sobre um arranjo cujo custo acabou de subir.
E é aí que a lógica dela se mostra frágil. Ela supõe que casar é uma decisão tomada por conveniência, e que a conveniência depende de haver uma saída disponível. Tire-se a saída, e o arranjo perde a graça. Nada disso estava na resposta que Jesus deu aos fariseus, que falara de criação, de união e de um só corpo. Os discípulos não discutem esse fundamento. Passam por cima dele e vão direto à cláusula de rescisão.
A frase é sobre eles, e não sobre as mulheres
Isto atravessa o versículo inteiro e costuma passar batido.
Em nenhum momento eles perguntam o que a decisão significa para a mulher — que, pelo que se acabou de ouvir, deixa de poder ser despedida por qualquer motivo. Em nenhum momento perguntam sobre a exceção, sobre o que fazer com casamentos já desfeitos, sobre as consequências para quem já se casou de novo.
Perguntam sobre a exposição deles. O sujeito da frase é "o homem", e o verbo que fecha, "casar", está na forma que o grego usa para o ato do marido. A objeção é a de quem calcula o próprio risco.
Ler aqui uma crítica às mulheres é forçar o texto. Eles não dizem que a mulher é o problema. Dizem que o compromisso, do jeito que ficou, é caro demais para quem o assume. O alvo da queixa é a regra, não a pessoa que a regra protege.
O que o texto não informa
Se eram casados, Mateus não diz. O evangelho registra a sogra de Pedro, em Mateus 8:14, e disso se conclui que ao menos Pedro tinha mulher. Sobre os demais, o texto se cala, e qualquer quadro sobre um grupo de solteiros ou de homens que deixaram esposas em casa é reconstrução de leitor.
Também não diz onde a conversa acontece nem quem mais ouve. Marcos 10:10 põe um diálogo parecido dentro de casa, longe dos fariseus. Mateus deixa a cena aberta, e não se pode afirmar que os que faziam a pergunta já tivessem ido embora.
E o que acontece com a objeção
Jesus não a corrige. Não diz "vocês entenderam mal", não repete o argumento da criação, não defende o casamento contra a acusação de não compensar.
Ele faz outra coisa, e o versículo seguinte mostra qual: pega a palavra dita e devolve como uma possibilidade que nem todos alcançam. A objeção, que era uma reclamação, sai da conversa transformada em assunto. É movimento raro nos evangelhos, e vale acompanhá-lo até o fim do trecho.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os discípulos
São os que andam com Jesus desde a Galileia e que Mateus vem tratando como grupo desde o capítulo 10, quando foram enviados em missão. Neste capítulo eles aparecem em bloco, sem que nenhum seja nomeado, até Pedro falar no versículo 27.
O texto que a ABC segue diz "os seus discípulos", com o possessivo. A distinção importava naquele mundo: um mestre tinha os seus, e eles eram reconhecidos como tais por quem os visse.
Os fariseus, que talvez ainda estejam ali
A pergunta que deu origem a tudo foi feita por eles no versículo 3. Mateus não escreve que se retiraram. Marcos, ao contar o mesmo episódio, separa as cenas: a discussão pública com os fariseus e, depois, a conversa dos discípulos com Jesus dentro de casa (Marcos 10:10).
Mateus não faz esse corte. Em consequência, no relato dele a objeção dos discípulos pode estar sendo dita na frente dos adversários — o que a tornaria mais constrangedora, já que eles estariam concordando, por outro caminho, com quem veio testar o mestre. É leitura possível, não é demonstrável, e o texto não resolve.
Pedro, o único casado de que se tem notícia
Mateus 8:14 conta que Jesus entrou na casa de Pedro e encontrou a sogra dele de cama, com febre. A existência de uma sogra é o dado que prova o casamento, e é o único dado desse tipo no evangelho inteiro sobre o grupo.
Sobre os outros onze, nada. Não há lista de esposas, não há menção a filhos, não há notícia de que tenham ou não tenham casado. Décadas depois, escrevendo a Corinto, Paulo argumenta que os apóstolos levavam consigo mulheres crentes em viagem (1 Coríntios 9:5) — testemunho posterior e de outra situação, que não se aplica sem mais à cena deste capítulo.
Onde isto se passa
Na região da Judeia, do outro lado do Jordão, para onde Jesus foi no versículo 1, com multidões atrás dele. O território pertencia a Herodes Antipas — o mesmo governante que mandara prender e matar João Batista por causa de uma questão de casamento, segundo Mateus 14:3-4.
Discutir divórcio ali não era conversa neutra. A geografia da cena está no estudo de Mateus 19:1.
O que já aconteceu antes desta frase
No mesmo dia e na mesma conversa: a pergunta armada sobre o divórcio por qualquer motivo, a resposta pela criação do homem e da mulher, a citação de Gênesis, a frase sobre o que Deus uniu, a réplica dos fariseus sobre a certidão que Moisés mandou dar, a correção da palavra — Moisés permitiu, não mandou — e a sentença sobre quem se divorcia e se casa com outra.
É o acúmulo disso que produz a reação. Ela não responde a uma frase isolada; responde ao efeito de sete versículos seguidos fechando uma porta.
5. Pontos de Ensino
A objeção vem de dentro
Quem reclama não são os adversários. São os que já tinham deixado tudo para seguir. Mateus registra isso sem atenuar, e o padrão se repete no capítulo: os mesmos homens vão afastar crianças, espantar-se com o que ouvem sobre os ricos e perguntar o que vão ganhar.
Uma conclusão pode não decorrer do que a motivou
A resposta de Jesus aos fariseus falara de criação, de união e de um só corpo. A conclusão que os discípulos tiram fala de conveniência. Entre uma coisa e outra há um salto, e o salto é deles.
Julgar um vínculo pela saída
A frase avalia o casamento pela facilidade de desfazê-lo. Quem raciocina assim já tratou o compromisso como arranjo provisório antes de entrar nele — e é esse pressuposto, e não a regra recém-ouvida, que produz o desânimo.
Uma queixa masculina sobre uma regra que protegia a mulher
O efeito prático do que Jesus acabara de dizer era tirar do marido o poder de despedir a esposa por qualquer motivo. Os discípulos medem esse efeito pelo que ele custa a eles. O texto não comenta, e o leitor fica com a assimetria diante dos olhos.
Dizer em voz alta o que se pensa não encerra o assunto
Eles não são repreendidos nem corrigidos. A frase fica de pé, e a resposta que vem a seguir não a desmente: parte dela. Nos evangelhos é raro que uma objeção dos discípulos seja aproveitada em vez de desfeita.
O cálculo ignora o que ninguém pôs na conta
Os discípulos somam obrigações e subtraem liberdades. Nada do que eles enumeram é falso. O que falta na conta é tudo aquilo que não entra em planilha — e o texto não completa a conta por eles, nem aqui nem adiante.
6. Aspectos Filosóficos
Um compromisso avaliado pela porta de saída
A frase dos discípulos tem uma forma lógica reconhecível: se não posso sair, então não entro. Ela mede o valor de um vínculo pelo custo de rompê-lo.
Esse modo de pensar trata o casamento como um acordo entre partes que calculam. E acordos entre partes que calculam têm, todos, uma característica: valem enquanto compensarem. A cláusula de saída não é um detalhe do contrato — é o que o define como contrato. Enquanto existir uma porta, cada dia dentro da casa é uma escolha renovada, e quem fica está sempre conferindo se ainda vale.
O que muda quando a porta se fecha
Um vínculo sem saída não é um contrato mais rigoroso. É outra coisa.
A diferença aparece no que se pode prometer. Ninguém promete um sentimento, porque sentimentos não obedecem. O que se promete é o comportamento futuro de alguém que hoje não sabe quem será amanhã — e é justamente por isso que a promessa precisa ser irrevogável para significar alguma coisa. Uma promessa que se desfaz quando deixa de convir não prometeu nada: apenas descreveu uma intenção do momento.
Daí o paradoxo que a objeção dos discípulos toca sem perceber. Eles reclamam de perder a saída, mas a saída era exatamente o que impedia o compromisso de ser compromisso. O que eles chamam de prejuízo é a condição para que a coisa exista.
O limite do cálculo
Há um segundo problema na conta deles, e é de método.
Custos se somam; certos bens não. O que se ganha numa vida partilhada por décadas — o conhecimento mútuo, a história comum, o que só existe porque ninguém foi embora — não está disponível para quem avalia a cada manhã se continua valendo a pena. Esses bens só aparecem depois de a decisão ter sido tomada de modo irreversível, e por isso não podem entrar na planilha de quem ainda está decidindo.
Quem exige ver o lucro antes de assinar nunca verá esse tipo de lucro. Não por falta de informação, mas porque a informação não existe antes do ato.
E o que isso não resolve
Nada disso responde à queixa. Um compromisso irreversível é, de fato, mais arriscado do que um reversível, e quem o assume aposta sem garantia. Dizer que a irreversibilidade é o que torna a promessa séria não a torna menos perigosa para quem promete.
O versículo não resolve essa tensão, e a resposta que vem no versículo seguinte também não. Ela faz outra coisa: tira a questão do terreno do cálculo e a põe no terreno da capacidade — quem consegue receber isto. É mudança de assunto, e não solução do problema.
7. Aplicações Práticas
Reconhecer o cálculo quando ele aparece
A frase dos discípulos é uma forma de raciocinar que sobrevive intacta: diante de uma exigência maior do que a prevista, a reação não é examinar a exigência, e sim recuar da decisão inteira. Quem já pensou "se é assim, melhor nem começar" fez o mesmo movimento. Ele não é irracional; é apenas uma resposta ao risco. O que o versículo mostra é que ele muda de assunto sem avisar — a pergunta era sobre o que o casamento é, e a resposta trata do que ele custa.
Falar do próprio interesse sem disfarçá-lo de princípio
Os discípulos poderiam ter embrulhado a queixa em argumento nobre. Não embrulharam: disseram que não compensa. A franqueza deles tem uma vantagem prática, porque põe o interesse real sobre a mesa, onde ele pode ser discutido. Interesse disfarçado de princípio não pode.
Quando a regra que incomoda protege quem não está falando
O efeito da resposta de Jesus era proteger a parte mais exposta do casamento judaico daquele tempo. A queixa registrada é a da parte mais forte. Isso não invalida a queixa — o custo é real —, mas é um dado a considerar sempre que alguém sente o peso de uma regra: perguntar quem seria o primeiro a sentir a ausência dela.
O que o versículo não autoriza
A frase não é conselho de Jesus, não é ensino do evangelho e não é permissão. É uma objeção dita por outros, registrada como foi dita. Usá-la como argumento a favor ou contra o casamento é tirá-la da boca de quem a disse.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Jesus concorda com os discípulos?
Ele não diz que sim nem que não. Responde falando de quem consegue receber "esta palavra", o que deixa a frase deles de pé sem endossá-la. É uma das poucas vezes nos evangelhos em que uma objeção dos discípulos não é desmontada, e o desconforto dessa ausência de veredito é do texto, não do leitor.
Por que Mateus registra uma frase que desabona os discípulos?
Ele faz isso com frequência: registra a incompreensão deles, o medo, as disputas por posição e as perguntas interesseiras. Uma explicação possível é que o evangelho escreve para comunidades em que esses homens eram figuras de autoridade, e a honestidade sobre o passado deles servia de advertência. É hipótese sobre a intenção do texto, que o próprio texto não confirma.
A frase é uma pergunta disfarçada?
Em grego não há marca de pergunta ali, e o modo verbal é afirmativo. Ainda assim, em qualquer língua uma afirmação dita a um mestre pode funcionar como consulta: é isso mesmo? A resposta que vem trata a frase como um assunto a ser desenvolvido, e não como um erro a ser corrigido, o que dá algum apoio à segunda leitura. Não é possível decidir.
Eles estavam falando mal do casamento ou das mulheres?
O sujeito da frase é o homem, e o que se pesa é o que ele assume. Nada na frase acusa a esposa de coisa alguma. Comentaristas antigos leram aí um desprezo pela mulher, projetando sobre o versículo ditos populares da época sobre esposas difíceis. O texto, sozinho, não sustenta essa leitura.
Se casar não compensa, por que a Bíblia manda casar?
A tensão é real e antiga. A tradição judaica tratava o casamento como dever, e a própria abertura do Gênesis liga a bênção à fecundidade. A frase dos discípulos colide com isso frontalmente. O que o capítulo faz com essa colisão aparece nos dois versículos seguintes, e não neste.
O que muda na leitura se eles eram casados?
Muda o tom, não o conteúdo. Se eram casados, a frase é um lamento sobre a própria situação; se não eram, é uma decisão sobre o futuro. O texto não permite escolher, e o argumento funciona nos dois casos.
9. Conexão com Outros Textos
A palavra que eles devolvem
Mateus 19:3 — Os fariseus se aproximaram dele para testá-lo e perguntaram: “É permitido ao homem divorciar-se da sua mulher por qualquer motivo?”
Mateus 19:9 — Eu digo a vocês que todo aquele que se divorciar da sua mulher, a não ser por imoralidade sexual, e se casar com outra, comete adultério; e quem se casar com a mulher divorciada comete adultério.
O "motivo" da pergunta e a "situação" da objeção são a mesma palavra grega. Os discípulos repetem o vocabulário dos fariseus.
A mesma matéria no Sermão do Monte
Mateus 5:31 — Também foi dito: “Quem se divorciar de sua mulher, dê-lhe carta de divórcio”.
Mateus 5:32 — Eu, porém, digo a vocês que qualquer um que se divorciar de sua mulher, a não ser por causa de imoralidade sexual, faz com que ela cometa adultério; e quem se casar com a divorciada comete adultério.
O ensino já tinha sido dado antes, e em público. A reação só aparece agora.
O verbo do que compensa
Mateus 5:29 — "Se o seu olho direito o faz pecar, arranque-o e lance-o para longe de você; pois é melhor perder um dos seus membros do que ser todo o seu corpo lançado no inferno."
"É melhor" traduz o mesmo verbo de "não vale a pena": conta de vantagem, feita com números.
O ponto de partida que a objeção ignora
Gênesis 2:24 — Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne.
Mateus 19:6 — Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, não separe o homem.
Era desse texto que Jesus tinha acabado de falar, e é a ele que a conclusão dos discípulos deveria responder. Ela não o menciona.
Outros que também acharam melhor não casar
1 Coríntios 7:1 — E sobre as coisas que me escrevestes, bom é para o homem não tocar mulher.
1 Coríntios 7:28 — Mas se também te casares, não pecas; e se a virgem se casar, não peca. Porém os tais terão aflições na carne, que eu gostaria de livrá-los.
Paulo chega a uma conclusão parecida com a dos discípulos por outro caminho: não o da saída fechada, mas o do tempo curto e da atenção dividida.
Ditos antigos sobre a casa em conflito
Provérbios 21:9 — É melhor morar num canto do terraço do que numa casa espaçosa com uma mulher briguenta.
Provérbios 21:19 — É melhor morar em terra deserta do que com uma mulher briguenta e que se irrita facilmente.
A literatura de sabedoria conhecia a queixa doméstica, e a formulava com a mesma estrutura de "é melhor". A frase dos discípulos, porém, não acusa ninguém: acusa a regra.
Os discípulos discordando em voz alta
Mateus 19:25 — "Ao ouvirem isso, os seus discípulos ficaram muito espantados e disseram: ‘Quem, então, pode ser salvo?’"
Mateus 19:27 — Então Pedro lhe disse: “Nós deixamos tudo e te seguimos; o que, então, teremos?”
Mateus guarda as reações deles sem suavizá-las. No mesmo capítulo há três.
O peso que se põe sobre os outros
Mateus 23:4 — Amarram cargas pesadas e difíceis de carregar e as põem sobre os ombros dos outros, mas eles mesmos não querem movê-las nem com o dedo.
A acusação que Jesus faz aos mestres da lei é de impor o que não carregam. A objeção deste versículo é o inverso: homens que sentem o peso de uma exigência no próprio ombro e dizem isso.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Os seus discípulos lhe disseram: “Se essa é a situação do homem com a mulher, não vale a pena casar.”
Texto grego
λέγουσιν αὐτῷ οἱ μαθηταὶ αὐτοῦ, Εἰ οὕτως ἐστὶν ἡ αἰτία τοῦ ἀνθρώπου μετὰ τῆς γυναικός, οὐ συμφέρει γαμῆσαι.
Transliteração
legousin autō hoi mathētai autou, Ei houtōs estin hē aitia tou anthrōpou meta tēs gynaikos, ou sympherei gamēsai.
O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega que a ABC segue) traz hoi mathētai autou, "os seus discípulos", com o possessivo; as edições críticas modernas trazem só hoi mathētai, "os discípulos". A ABC foi corrigida para acompanhar o Textus Receptus. O sentido da cena não muda.
Análise palavra por palavra
λέγουσιν — legousin, "dizem". Presente do indicativo ativo de legō, na terceira pessoa do plural. O tempo é o presente, e não o passado: Mateus usa com frequência o presente para contar fatos passados, recurso que põe a cena diante dos olhos, como quem narra ao vivo. A ABC traduz por "disseram", que é o português natural.
αὐτῷ — autō, "a ele". Pronome no dativo, marcando a quem se fala.
οἱ μαθηταὶ αὐτοῦ — hoi mathētai autou, "os discípulos dele". Mathētēs vem de manthanō, "aprender", e designa o aluno que segue um mestre — não o ouvinte ocasional, e sim quem se vinculou. O possessivo autou os identifica como os dele.
Εἰ οὕτως ἐστὶν — Ei houtōs estin, "se assim é". Ei com o indicativo forma a condição que o falante trata como real: não é "se por acaso for", e sim "se é isto mesmo, como parece". Houtōs é "assim, desta maneira", e aponta para o que Jesus acabou de dizer.
ἡ αἰτία — hē aitia, "a causa, o motivo, a acusação, o caso". Esta é a palavra decisiva do versículo.
No grego comum, aitia cobre três campos vizinhos. O primeiro é o da causa: aquilo que faz uma coisa acontecer. O segundo é o do motivo alegado: a razão que alguém apresenta para agir. O terceiro é o da acusação formal, o que hoje se chamaria de queixa ou processo — e é nesse sentido que a palavra aparece em Mateus 27:37, na tabuleta pregada na cruz, onde se escreveu "a causa" da condenação.
No versículo 3 deste mesmo capítulo, os fariseus perguntam se é permitido divorciar-se kata pasan aitian, "por qualquer motivo" — e ali a palavra está no segundo sentido, o da razão alegada. Os discípulos pegam a mesma palavra de volta.
Alguns estudiosos propõem, para este versículo, um quarto uso, mais frouxo, em que aitia vale simplesmente por "situação, estado de coisas". O uso existe em grego tardio, mas é raro, e por isso a tradução "situação" é defensável sem ser segura. As leituras concorrentes estão no item 3.
τοῦ ἀνθρώπου — tou anthrōpou, "do homem". Anthrōpos é o ser humano em geral, por oposição a anēr, que é o varão e o marido. Aqui, porém, o contraste com "a mulher" na mesma frase fixa o sentido em "o marido".
μετὰ τῆς γυναικός — meta tēs gynaikos, "com a mulher". Gynē é tanto "mulher" quanto "esposa", e o grego não distingue as duas coisas com palavras diferentes: quem decide é o contexto. A preposição meta com o genitivo indica companhia, estar junto de alguém.
οὐ συμφέρει — ou sympherei, "não convém, não compensa". O verbo sympherō é formado de syn, "junto", e pherō, "levar, trazer": literalmente, "trazer junto", e daí "reunir em proveito de", "ser vantajoso".
É verbo de utilidade, não de moral. No próprio Mateus ele aparece em contextos de conta e de perda: em Mateus 5:29-30, "é melhor" perder um membro do que o corpo; em Mateus 18:6, "melhor lhe seria" ter uma pedra ao pescoço. Em João 11:50 é o verbo do cálculo político de Caifás: "convém que um homem morra pelo povo".
A forma é impessoal — "não é vantajoso" —, e o sujeito é o infinitivo que vem a seguir.
γαμῆσαι — gamēsai, "casar". Aoristo do infinitivo ativo de gameō. No grego do Novo Testamento a voz ativa deste verbo descreve, em regra, a ação do homem que toma esposa; para a mulher que se casa, o grego clássico preferia a voz média ou passiva, ainda que o uso do período já misturasse as formas. O aoristo aponta o ato pontual de contrair casamento, e não o estado de ser casado.
Da mesma raiz vem gamos, "casamento" e também "festa de casamento", a palavra das parábolas de Mateus 22 e 25.
11. Conclusão
A resposta de Jesus aos fariseus tratava de origem e de vínculo; a objeção que ela provocou trata de custo e de saída. Entre as duas coisas há uma troca de assunto, e ela é dos discípulos. Disso decorre que a incompreensão registrada aqui não é falta de informação: eles entenderam a regra com exatidão, e foi justamente por tê-la entendido que reagiram.
Decorre também que a frase é um documento sobre quem a diz. Ela mostra homens medindo um compromisso pelo que ele lhes retira, num mundo em que a lei do casamento pesava sobre eles em dinheiro e sobre as mulheres em tudo o mais. O evangelho registra a medição sem corrigi-la e sem acusá-los, e o leitor fica com o desequilíbrio à vista.
Por fim, a conclusão deles — não vale a pena — não é desmentida no versículo seguinte. É recolhida e transformada em outra pergunta, a de quem consegue receber tal palavra. O capítulo não responde se casar compensa. Responde que a alternativa existe, que não é para todos, e que ninguém é obrigado a ela.













