Ele respondeu: “Nem todos conseguem aceitar esta palavra, mas apenas aqueles a quem isso é concedido.
1. Introdução
A resposta não confirma nem desmente o que os discípulos acabaram de dizer.
Ela desloca o assunto: em vez de discutir se casar compensa, fala de quem consegue receber uma palavra. Qual palavra é ela — a deles ou a dele — é a pergunta que o versículo deixa em aberto, e da qual dependem duas leituras muito diferentes de todo o trecho. O fim da frase tira a questão do campo da decisão e a põe no campo do que é dado, sem dizer por quem nem a quem.
2. Contexto Histórico e Cultural
Num mundo em que não casar era falta grave
Para medir o peso desta resposta é preciso saber o que significava, ali, ficar solteiro.
No judaísmo: um dever, com idade marcada
Casar e ter filhos não era, para um judeu do primeiro século, uma opção entre outras. Era o primeiro mandamento do livro que ele lia: "sejam férteis e multipliquem-se", dito no Gênesis logo depois da criação do casal.
A Mishná (a coleção de leis dos mestres judeus, fechada por volta do ano 200) transforma isso em regra de conduta. No tratado Yevamot (6:6) fixa que um homem não se desobriga da procriação enquanto não tiver filhos, e registra a divergência entre as duas grandes escolas sobre a conta: para a de Shammai, dois meninos; para a de Hillel, um menino e uma menina. O mesmo trecho diz que a obrigação recai sobre o homem, e guarda a opinião contrária de um mestre chamado Yohanan ben Beroka, para quem recaía sobre os dois.
Havia até idade marcada. Na escada das idades que a Mishná atribui a um mestre chamado Yehudá ben Temá, o casamento aparece aos dezoito anos, entre o tempo do estudo e o da busca do sustento — a lista inteira está no estudo de Mateus 19:20. O que importa reter aqui é o lugar que o casamento ocupa nela: uma etapa da formação de um homem, prevista como as outras, e não uma escolha aberta.
O que se dizia de quem não casava
O Talmude da Babilônia (a grande compilação de discussões dos mestres judeus, fechada por volta do século VI) conserva, no tratado Yevamot (62b), uma sentença transmitida em nome de mestres da Galileia: o homem que não tem mulher vive sem alegria, sem bênção e sem bem. Cada palavra vem amarrada a um versículo — a alegria de Deuteronômio 14:26, a bênção de Ezequiel 44:30, e o "não é bom que o homem fique sozinho" de Gênesis 2:18. A versão que corria na terra de Israel acrescentava mais duas faltas: sem Torá e sem muro.
Alguns mestres iam além. Na página seguinte, o tratado guarda a frase de Rabi Elazar de que um homem sem mulher não é um homem inteiro. Essas sentenças são de séculos posteriores e não podem ser lidas como retrato exato do que se pensava no tempo de Jesus. O que elas atestam é a direção do pensamento judaico sobre o assunto, que nesse ponto foi notavelmente constante.
No mundo romano: multa para quem não casava
Fora do judaísmo, a pressão existia, e era legal.
O imperador Augusto fez aprovar, no ano 18 antes de Cristo, uma lei sobre os casamentos das ordens sociais, completada no ano 9 depois de Cristo por outra, conhecida pelo nome dos dois cônsules que a apresentaram. Não se trata da lei sobre adultério, do mesmo período, que regulou a forma do repúdio: esta cuidava de quem não casava e de quem não tinha filhos, e o fazia premiando uns e punindo outros.
As punições atingiam o bolso e a carreira. O homem solteiro depois de certa idade ficava impedido de receber heranças e legados de parentes fora da linha direta; o casado sem filhos recebia apenas parte do que lhe fora deixado, e o restante ia para o Estado. Havia ainda preferência, na disputa por cargos públicos, para quem tivesse mais filhos.
Não se sabe com que rigor essas leis eram aplicadas nas províncias, e a Judeia tinha estatuto próprio em matéria de direito de família. O que o conjunto mostra é o clima geral: no Império, a decisão de não casar era tratada como assunto público, e o Estado se julgava no direito de cobrá-la.
Onde isso deixa a frase
Juntando os dois lados, alguém que dissesse no primeiro século que não casar é uma possibilidade legítima estaria falando contra o costume religioso do seu povo e contra a política de população do império em que vivia.
A resposta deste versículo não enuncia isso como regra nova. Faz algo mais cauteloso: diz que existe uma palavra que nem todos alcançam. Mas já abre, no meio de um mundo que empurrava todo mundo para o casamento, uma porta que não estava ali.
3. Análise Teológica do Versículo
“Ele respondeu”
A resposta é dirigida aos discípulos, e não aos fariseus. O que veio antes era discussão pública sobre o que a Lei permite; o que vem agora é conversa com os seus, sobre o que eles disseram.
E é resposta a uma frase que ninguém pediu para comentar. Os discípulos não perguntaram nada: afirmaram. Jesus responde a uma afirmação como quem responde a uma consulta.
“Nem todos conseguem aceitar esta palavra”
Duas coisas precisam ser destrinchadas aqui: que palavra é "esta palavra", e o que é "aceitar".
Que palavra é esta?
A frase tem um demonstrativo — "esta" — sem antecedente claro. Ele pode apontar para trás, para o que acabou de ser dito, ou para diante, para o que vem no versículo 12. Daí três leituras, e a escolha entre elas muda o sentido do trecho inteiro.
Primeira leitura: a palavra é a dos discípulos — "não vale a pena casar". Jesus estaria dizendo: essa conclusão a que vocês chegaram não serve para todos; ela vale para alguns, aos quais foi dada. É a leitura da maioria dos comentaristas clássicos, e é a que o alemão Heinrich Meyer defende com mais força. A favor dela pesa a ordem das frases: "esta palavra" é a que acabou de ser dita, e quem a disse foram eles. Pesa também o que vem no versículo 12, que descreve gente que de fato não casa.
Segunda leitura: a palavra é a de Jesus — o ensino sobre o casamento indissolúvel, do versículo 9. Jesus estaria dizendo: nem todos conseguem viver essa exigência; só quem recebe força para isso. É leitura antiga, e tem a favor o fato de que "esta palavra", num diálogo, costuma designar a palavra do mestre, não a do aluno. Contra ela pesa uma dificuldade séria, levantada pelo próprio Meyer: se a exigência moral só obriga quem recebeu o dom de cumpri-la, ela deixa de ser exigência e vira privilégio. A objeção é forte e não foi respondida de modo satisfatório.
Terceira leitura: a palavra é a que vem a seguir — o dito sobre os eunucos, no versículo 12. O versículo seguinte começa por uma conjunção explicativa, "pois", o que sugere que ele desdobra o que ficou anunciado aqui. E o versículo 12 termina com a mesma fórmula com que este começa — quem pode aceitar, aceite —, fechando um círculo em volta do dito. Contra ela pesa que um demonstrativo, em grego como em português, aponta mais naturalmente para trás.
Não é possível decidir, e a escolha não é inocente: na primeira leitura Jesus está falando de quem não casa; na segunda, de quem está casado. São públicos diferentes, e a frase serve aos dois.
O que é "aceitar"
O verbo grego não é o de entender nem o de concordar. É um verbo de espaço: abrir lugar, caber, conter. O mesmo verbo descreve, em João 2:6, as talhas que comportavam certa quantidade de água, e em Marcos 2:2 o lugar onde já não cabia mais ninguém.
Dizer "nem todos conseguem aceitar" é, portanto, dizer que nem todos têm espaço interno para essa palavra. Não é questão de inteligência nem de boa vontade: é questão de capacidade. Uma pessoa pode compreender perfeitamente o que ouviu, achar a ideia admirável e ainda assim não caber nela.
Isso afasta duas leituras fáceis. A frase não diz que uns entendem e outros não; e não diz que uns obedecem e outros se recusam. Diz que uns comportam e outros não.
“mas apenas aqueles a quem isso é concedido”
O verbo está na voz passiva e sem agente: é dado, e o texto não escreve por quem. A construção é comum nos evangelhos quando o sujeito subentendido é Deus, e essa é a leitura corrente. Não é, porém, a única gramaticalmente possível, e o texto realmente não o nomeia.
A forma verbal indica algo concedido e que permanece concedido — um estado, não um episódio. Quem tem, tem.
Daí três consequências, e é preciso ser exato sobre cada uma.
A primeira: a capacidade não é conquistada. Ninguém a produz por esforço, disciplina ou treino. Ela é recebida. Isso retira do assunto qualquer nota de mérito: quem consegue não é melhor do que quem não consegue, é alguém a quem foi dado.
A segunda: o que a frase afirma dos que recebem, ela nega implicitamente dos demais — e não os condena por isso. "Nem todos conseguem" é constatação, não acusação. Nada no versículo repreende quem não cabe.
A terceira, e é a que mais se costuma extrapolar: o texto não diz se o dom pode ser pedido, se pode ser recusado, se é permanente ou se muda com a vida. Não diz a quem foi dado nem por que motivo. Todas as respostas a essas perguntas vêm de fora do versículo.
O que a resposta faz com a objeção
Ela não desmente os discípulos. Também não os aplaude.
A frase deles era uma generalização — casar não compensa, ponto. A resposta quebra a generalização pelo meio: o que vocês disseram vale para alguns, e não para todos. O que era uma conclusão sobre o casamento vira uma observação sobre as pessoas.
E, ao fazer isso, a resposta converte uma reclamação em possibilidade. Os discípulos falaram de não casar como quem descreve um prejuízo. Jesus toma a mesma expressão e a trata como um caminho que existe — restrito, não recomendado a ninguém, e não imposto. O versículo 12 vai dizer quem o percorre.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Quem ouve
Os discípulos, os mesmos que acabaram de falar. Mateus não separa a cena da anterior por nenhuma marca de tempo ou de lugar: a resposta vem colada à objeção.
Se os fariseus ainda estavam presentes, o texto não informa. Marcos, no relato paralelo, leva a conversa para dentro de casa (Marcos 10:10); Mateus não faz esse corte e não traz o dito sobre os eunucos, que é exclusivo dele.
Um dito que só Mateus tem
Este versículo e o seguinte não aparecem em Marcos, em Lucas nem em João. São material próprio de Mateus, encaixado entre a discussão sobre o divórcio e a cena das crianças, que os três evangelhos contam.
Isso tem uma consequência de método: não existe versão paralela com que comparar, e por isso não há como usar outro evangelho para desfazer a ambiguidade de "esta palavra". A ambiguidade fica.
Heinrich Meyer
Heinrich August Wilhelm Meyer (1800-1873) foi um pastor e estudioso alemão, autor de um comentário do Novo Testamento em vários volumes que se tornou obra de referência na Europa do século XIX pelo rigor no tratamento do grego. É dele o argumento, citado no item 3, contra a leitura que faz a exigência do casamento depender de um dom recebido.
O peso da objeção dele não vem da autoridade do autor, e sim do que ela aponta: uma norma que só obriga quem foi capacitado a cumpri-la deixa de funcionar como norma.
Os dois vocabulários que se cruzam neste ponto
A palavra "dado" reaparece em Mateus em situações de revelação. Em Mateus 13:11, sobre os mistérios do Reino: "a vocês foi concedido conhecer". Em Mateus 16:17, sobre a confissão de Pedro: não foi carne e sangue que revelou. Em Mateus 11:27, sobre o conhecimento do Pai e do Filho.
Aqui, o mesmo vocabulário é aplicado a uma escolha de vida. O que em outros trechos é concedido para conhecer, neste é concedido para caber. É a única vez em Mateus em que a linguagem do dom se aplica a uma condição prática de existência.
5. Pontos de Ensino
Uma resposta que não resolve a discussão
Jesus não diz aos discípulos que estão certos nem que estão errados. Recolhe a frase deles e muda o critério: a questão deixa de ser o que compensa e passa a ser o que cada um comporta.
Capacidade não é o mesmo que compreensão
O verbo empregado é o de caber, e não o de entender. Alguém pode entender uma exigência com clareza total e não ter espaço para vivê-la — e o versículo trata essa falta de espaço como fato, não como culpa.
O que é dado não é mérito
A frase põe a capacidade do lado do dom, e não do esforço. Quem consegue não conquistou o direito de se orgulhar, e quem não consegue não está sendo acusado.
O texto não diz quem recebe
Não há sinal, não há lista, não há critério. Qualquer tentativa de identificar de fora quem recebeu o dom é acréscimo do leitor, e a história mostra que acréscimos desse tipo terminam em hierarquia entre os que teriam recebido e os demais.
A ambiguidade tem consequência prática
Se "esta palavra" é a dos discípulos, a frase fala de quem não casa. Se é a de Jesus, fala de quem está casado. Duas leituras honestas do mesmo versículo apontam para públicos opostos, e reconhecer isso é mais fiel ao texto do que escolher uma e apresentá-la como óbvia.
Uma exceção aberta no meio de uma norma social
Num mundo em que casar era dever religioso e, para os cidadãos do império, vantagem legal, dizer que existe quem não case por outra razão era abrir uma exceção onde não havia nenhuma. O versículo não a transforma em regra, e é isso que o torna difícil de usar como bandeira em qualquer direção.
6. Aspectos Filosóficos
Uma exigência endereçada só a quem pode cumpri-la
A frase levanta um problema antigo: o que acontece com uma obrigação quando a capacidade de cumpri-la não depende de quem obriga nem de quem é obrigado.
O pensamento moral costuma trabalhar com um princípio simples — só se pode exigir o que é possível fazer. Ninguém é culpado por não voar. A dificuldade começa quando a possibilidade não é igual para todos, e não por desleixo de ninguém: um tem a constituição, o temperamento, a história que permitem; outro não tem. Nesse caso, uma regra idêntica para os dois trata como igual o que não é.
A saída que o versículo escolhe é peculiar. Em vez de abrandar a exigência para todos, ele a mantém inteira e restringe o público: nem todos comportam isto. A obrigação não é rebaixada; é endereçada.
Capacidade recebida e a questão do mérito
Daí decorre o segundo problema, e ele é mais incômodo.
Elogiamos as pessoas pelo que elas fazem, supondo que poderiam ter feito diferente. Se a capacidade de agir de certo modo é recebida e não conquistada, o elogio perde o alvo: estaríamos parabenizando alguém por uma condição que lhe coube, como se parabenizássemos alguém pela altura.
Esse raciocínio corrói os dois lados ao mesmo tempo, e é aí que ele se torna interessante. Se não há mérito em conseguir, também não há culpa em não conseguir. A frase que retira o orgulho de uns retira a vergonha de outros. Não é um consolo que o versículo ofereça — ele não consola ninguém —, é uma consequência lógica do modo como a frase está montada.
Caber não é concordar
Há ainda uma distinção que o verbo escolhido introduz e que a linguagem comum costuma apagar.
Entre entender uma proposição e acomodá-la na própria vida existe uma distância que nenhum argumento atravessa. É possível achar uma ideia verdadeira, defendê-la publicamente com bons argumentos e continuar sem espaço para ela. Quem já tentou viver segundo uma convicção que abraçou de cabeça conhece a experiência.
O versículo nomeia essa distância sem explicá-la. E, ao nomeá-la, desloca a discussão: o problema deixa de ser saber se a exigência é razoável e passa a ser saber quem a comporta. São perguntas de naturezas diferentes, e a segunda não se responde por argumento.
O que fica sem resposta
Uma capacidade distribuída de modo desigual, sem critério declarado, é injusta? O versículo não enfrenta a pergunta. Ele afirma a desigualdade como fato e não a justifica.
Quem quiser justificá-la terá de importar de fora um quadro inteiro — sobre distribuição de dons, sobre vocação, sobre providência. Tudo isso é leitura acrescentada. O texto, sozinho, apenas constata que nem todos cabem, e segue adiante.
7. Aplicações Práticas
Distinguir o que se entende do que se consegue
A frase separa duas coisas que costumam ser confundidas. Uma pessoa pode ter compreendido inteiramente uma exigência, aprovar essa exigência e não ter como vivê-la. Reconhecer isso muda a conversa: deixa de ser um caso de convencimento e passa a ser um caso de condição real.
Não transformar em regra o que o texto apresenta como exceção
O versículo diz que nem todos comportam a palavra. A tentação de quem a comporta é fazer dela padrão para os demais, e a de quem não a comporta é declará-la impossível para qualquer um. O texto barra as duas saídas.
Falar de capacidade sem falar de valor pessoal
A frase avalia capacidades e não pessoas. Quando alguém constata que não dá conta de uma exigência, a constatação não traz acoplado nenhum juízo sobre quem ele é. Manter as duas coisas separadas é difícil e é exatamente o que o versículo faz.
O limite desta aplicação
Nada disso indica como saber, na prática, o que se comporta e o que não se comporta. O versículo não oferece teste, sinal nem método, e quem procurar aqui um critério de discernimento vai acrescentar ao texto o que ele não traz.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
De que palavra Jesus está falando?
Do dito dos discípulos, do ensino sobre o divórcio ou do que vem no versículo 12 — as três leituras estão no item 3, com o que cada uma custa. O que importa notar aqui é que a pergunta não é acadêmica: conforme a resposta, o versículo se dirige a quem não casa ou a quem está casado.
A frase serve para justificar o celibato obrigatório de alguém?
O texto trabalha na direção contrária. Ele afirma que a capacidade é dada a alguns e não a todos, o que torna estranha qualquer exigência dessa capacidade como condição de acesso a um cargo ou função. A observação é sobre o que a frase diz; o que instituições fizeram com ela ao longo da história é outro assunto, e o versículo não decide sozinho essas questões.
Quem não recebe o dom está em desvantagem diante de Deus?
O versículo não estabelece hierarquia. Ele distingue capacidades, não valores, e não diz que quem comporta a palavra esteja mais perto de coisa alguma. Ler aí dois níveis de discípulo é acrescentar ao texto uma escala que ele não traz.
É possível pedir esse dom?
O texto não diz. Não há neste versículo convite a pedir, promessa de conceder nem condição a cumprir. A tradição cristã posterior tratou o assunto de várias maneiras, e todas elas vão além do que está escrito aqui.
Por que Jesus não corrige os discípulos?
Ele corrige em outros momentos, e com dureza. Aqui, não. Uma explicação possível é que a frase deles, embora tirada por motivo errado, tocava numa possibilidade verdadeira, e o diálogo aproveita isso. É leitura do comportamento narrado, e o texto não a confirma.
"Nem todos" quer dizer "poucos"?
Não. A expressão nega a totalidade, e nada mais: exclui que a palavra valha para todos, sem informar se os que a comportam são muitos ou uma minoria. Qualquer número que se ponha aí é acréscimo.
9. Conexão com Outros Textos
O que é dado a alguns e não a outros
Mateus 13:11 — Ele respondeu: “A vocês foi concedido conhecer os mistérios do Reino dos céus, mas a eles não.
Mateus 16:17 — Jesus lhe disse: “Bem-aventurado é você, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne e sangue que revelou isso a você, mas o meu Pai que está nos céus.
O mesmo verbo, na mesma forma passiva sem agente. Nos dois casos o que é dado é conhecimento; aqui, é capacidade de viver algo.
Uma palavra que os ouvintes não comportaram
João 6:60 — Muitos pois de seus discípulos, ao ouvirem isto, disseram: Dura é esta palavra; quem a pode ouvir?
João 6:65 — E dizia: Por isso tenho vos dito que ninguém pode vir a mim, se não lhe for concedido por meu Pai.
A cena é a mais próxima desta em todo o Novo Testamento: uma palavra difícil, discípulos que não a suportam e uma resposta que fala de algo concedido pelo Pai.
Aquilo de que nem todos são capazes
1 Coríntios 7:8 — Mas digo aos solteiros, e às viúvas que lhes é bom se permanecessem como eu estou.
1 Coríntios 7:9 — Mas se não podem se conter, casem-se; porque é melhor se casar do que se inflamar.
Paulo trata o mesmo assunto com a mesma lógica: dom distribuído de forma desigual, sem repreensão a quem não o tem.
A fórmula de quem só é entendido por alguns
Mateus 11:15 — Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
Mateus 13:9 — "Quem tem ouvidos, ouça.’"
Mateus repete essa fórmula depois de ditos difíceis. O versículo 12 deste capítulo fecha com uma variação dela.
O que é impossível ao homem
Mateus 19:26 — Jesus olhou para eles e disse: “Para os homens isto é impossível, mas para Deus tudo é possível.”
No fim do mesmo capítulo, diante de outro espanto dos discípulos, a resposta volta a deslocar a questão da capacidade humana para outro lugar.
O dever de casar que o versículo contorna
Gênesis 2:18 — E o SENHOR Deus disse: "Não é bom que o homem fique sozinho; farei para ele uma auxiliadora adequada."
É o versículo que os mestres judeus citavam para dizer que o homem sem mulher vive "sem bem", e é um dos pilares da obrigação de casar.
Proibir o casamento como erro
1 Timóteo 4:3 — Eles proibirão o casamento, e mandarão se abster dos alimentos que Deus criou para que sejam usados com gratidão pelos fiéis e pelos que conheceram a verdade.
Uma geração depois, a carta trata a proibição do casamento como sinal de desvio. A frase deste versículo não proíbe nada a ninguém.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Ele respondeu: “Nem todos conseguem aceitar esta palavra, mas apenas aqueles a quem isso é concedido.
Texto grego
ὁ δὲ εἶπεν αὐτοῖς, Οὐ πάντες χωροῦσι τὸν λόγον τοῦτον, ἀλλ’ οἷς δέδοται.
Transliteração
ho de eipen autois, Ou pantes chōrousi ton logon touton, all’ hois dedotai.
O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega que a ABC segue) escreve chōrousi; as edições críticas modernas escrevem chōrousin, com o "n" final que o grego acrescenta diante de vogal. É diferença de grafia, não de sentido, e o versículo não tem variantes de conteúdo.
Análise palavra por palavra
ὁ δὲ εἶπεν αὐτοῖς — ho de eipen autois, "e ele lhes disse". Ho de é a fórmula com que Mateus troca de falante dentro de um diálogo: o artigo sozinho, sem nome, indica que agora fala o outro. Autois, "a eles", identifica os destinatários como os discípulos do versículo anterior.
Οὐ πάντες — Ou pantes, "não todos". A negação vem antes do "todos" e recai sobre ele: o que se nega é a totalidade, e não a existência. "Nem todos comportam" não é o mesmo que "ninguém comporta", e também não informa quantos comportam.
χωροῦσι — chōrousi, "comportam, dão lugar a". Presente do indicativo ativo de chōreō. Esta é a palavra decisiva do versículo.
O verbo vem de chōros / chōra, "espaço, lugar, terreno", e a ideia primeira é a de espaço disponível. Daí dois usos, os dois presentes no Novo Testamento.
O primeiro é o de conter, ter capacidade para. Em João 2:6 as talhas de pedra "comportavam" duas ou três medidas cada uma. Em João 21:25, o autor escreve que nem o mundo "comportaria" os livros que se poderiam escrever. Em Marcos 2:2, a multidão é tanta que já não há espaço, e o verbo aparece no sentido de "caber".
O segundo é o de avançar, abrir caminho, ir adiante — o espaço tomado como percurso. Em Mateus 15:17 o verbo descreve o alimento que "vai" para o ventre.
Aplicado a uma pessoa e a uma palavra, o verbo significa ter espaço interior para ela: acolher, comportar, dar-lhe lugar. Paulo o usa assim em 2 Coríntios 7:2, "deem-nos lugar em seu coração".
Não é o verbo de entender (syniēmi, o de Mateus 13:13), nem o de crer, nem o de obedecer. A escolha é deliberada e desloca o assunto do plano da compreensão para o da capacidade.
τὸν λόγον τοῦτον — ton logon touton, "esta palavra". Logos é palavra, dito, discurso, assunto, e aqui designa uma declaração determinada, não a fala em geral.
Touton, "esta", é o demonstrativo de proximidade. Em grego ele aponta em regra para o que acabou de ser dito, mas também pode anunciar o que vem — e é dessa flexibilidade que nasce a ambiguidade discutida no item 3.
ἀλλ’ οἷς — all’ hois, "mas aqueles a quem". Alla é o "mas" forte do grego, o que corrige e opõe; diante de vogal perde a última letra. Hois é o pronome relativo no dativo plural, "aos quais", e funciona aqui sem antecedente expresso: a frase completa seria "mas comportam aqueles a quem foi dado".
δέδοται — dedotai, "foi dado, está dado". Perfeito do indicativo passivo de didōmi, "dar".
O tempo perfeito, em grego, descreve uma ação passada cujo resultado permanece: não "foi dado uma vez", e sim "foi dado e continua dado". A capacidade de que se fala é tratada como posse atual.
A voz é passiva e o agente não é mencionado. Nos evangelhos essa construção costuma subentender Deus como quem age, e esse é o entendimento corrente entre os comentaristas — o mesmo dedotai aparece em Mateus 13:11, sobre os mistérios do Reino. O texto, porém, não escreve o nome, e a leitura, embora bem fundada, é uma reconstrução.
11. Conclusão
Da resposta decorre, primeiro, que a conclusão dos discípulos não foi tratada como erro. Ela foi recolhida, limitada e devolvida como possibilidade de alguns — o que é um destino incomum para uma objeção nos evangelhos, e que impede tanto usar a frase deles como ensino quanto descartá-la como tolice.
Decorre, em segundo lugar, que a questão mudou de terreno. O que estava sendo discutido era a conveniência de um arranjo; o que passa a ser dito é que certas palavras exigem espaço interior para serem acolhidas, e que esse espaço não é produzido por quem o tem. Argumento não o cria, e esforço não o substitui.
Decorre, por fim, um limite que o próprio texto impõe à sua leitura. A frase não identifica a palavra de que fala, não nomeia quem concede, não diz a quem concedeu e não ensina como obter. Um versículo tão citado na história das discussões sobre casamento e celibato é, examinado de perto, notavelmente avaro: afirma uma desigualdade de capacidade, recusa-se a explicá-la e não condena ninguém por ela.













