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Mateus 19:12

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✍️ Por Alberto Adriano·20 de setembro de 2026·⏱️ 30 min de leitura·👁 41 acessos
Pois há eunucos que nasceram assim desde o ventre da mãe; há eunucos que foram feitos eunucos pelos homens; e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por causa do Reino dos céus. Quem pode aceitar isto, aceite.”
Um homem de vestes de corte persa, sem barba, está de pé ao lado de uma porta de palácio decorada com tijolos vidrados, com expressão séria e olhar voltado para longe.

Estudo


Pois há eunucos que nasceram assim desde o ventre da mãe; há eunucos que foram feitos eunucos pelos homens; e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por causa do Reino dos céus. Quem pode aceitar isto, aceite.”

1. Introdução

O versículo responde à pergunta deixada em aberto — que palavra é essa que nem todos comportam — com uma lista de três.

Dois dos tipos que ele enumera eram categorias correntes e legais no mundo judaico: quem nasceu assim e quem foi mutilado por outros. O terceiro não tinha precedente, e é o que o versículo acrescenta. A frase final não ordena nada: devolve a decisão a quem ouve. Em torno dessa lista se formou uma das disputas mais duras da história cristã, a de saber se o terceiro item é para ser entendido ao pé da letra — e houve quem o entendesse assim.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que era um eunuco naquele mundo

A palavra designava o homem incapaz de gerar por causa de uma condição física — de nascimento ou produzida por intervenção. Os eunucos não eram figura marginal naquele mundo: eram uma instituição de corte, e uma instituição poderosa.

Por que os reis os empregavam

A explicação mais clara que a Antiguidade nos deixou está em Xenofonte, escritor e militar ateniense do século IV antes de Cristo. Na obra em que narra a formação do rei persa Ciro — a Ciropedia ("A educação de Ciro") —, ele expõe o raciocínio atribuído ao rei ao escolher eunucos para o serviço pessoal e para a guarda (livro 7, capítulo 5).

O argumento é frio e inteiramente prático. Homens que têm mulher, filhos ou afeições amam essas pessoas mais do que ao senhor; um eunuco não tem a quem amar mais. Restava-lhe estimar acima de tudo quem pudesse enriquecê-lo, defendê-lo de uma injustiça e colocá-lo em posto de honra — e ninguém fazia isso melhor do que o rei. Xenofonte acrescenta um segundo motivo, ainda mais duro: como os eunucos eram desprezados pelos demais, precisavam de um protetor, e isso os prendia ao senhor. E, contra a objeção de que seriam fracos, põe na boca de Ciro exemplos de animais castrados — cavalos, touros, cães —, que ficam mais dóceis sem deixar de servir.

Esse é o fundamento da instituição: o eunuco era o servidor sem família, e por isso considerado o mais confiável. Daí o cargo de guarda do harém, daí a administração do tesouro, daí a proximidade com o rei. Nas cortes persa e, depois, nas cortes helenísticas surgidas da divisão do império de Alexandre, eunucos chegaram a postos altíssimos e a exercer influência política real. A palavra hebraica que a Bíblia usa para o oficial de corte carrega essa história, e ela está examinada no estudo de Gênesis 39:1.

A lei de Israel: porta fechada

Israel não tinha essa instituição, e a rejeitava.

Deuteronômio 23:1 é taxativo: o homem com os testículos esmagados ou com o membro cortado não entra na assembleia do SENHOR. A lei não explica o motivo e não distingue entre quem escolheu e quem foi mutilado à força. Ela simplesmente exclui.

Há um detalhe de vocabulário que quase nunca aparece nos comentários. A tradução grega do Antigo Testamento, feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo, não usa a palavra "eunuco" nesse versículo: usa dois termos descritivos, "esmagado" e "cortado". A palavra "eunuco" fica reservada, nessa mesma tradução, para outros contextos — entre eles o cargo de corte e a promessa de Isaías.

O que um judeu do primeiro século pensava disso

A resposta mais direta vem de Flávio Josefo, historiador judeu contemporâneo dos evangelhos, que escreveu para leitores romanos um resumo das leis do seu povo. Nas Antiguidades judaicas (livro 4) ele escreve que os que se fizeram eunucos devem ser detestados; que se deve evitar a companhia dos que se privaram da virilidade e do fruto da geração; que tais homens sejam expulsos como se tivessem matado os próprios filhos, já que destruíram de antemão o que os geraria. E encerra dizendo que não é lícito castrar homem nem animal.

Não é a opinião de um excêntrico. É um autor apresentando ao público greco-romano aquilo que considerava a posição da Lei. Quem ouvisse a palavra "eunuco" num ambiente judeu do primeiro século ouvia isto.

E a promessa que inverte a sentença

Contra esse pano de fundo, há um texto que faz o contrário, e ele é um dos mais notáveis do Antigo Testamento.

Isaías 56 fala de dois grupos que a Lei mantinha afastados do culto: o estrangeiro e o eunuco. E põe na boca de cada um a frase que ele diria de si mesmo. O eunuco diria: "eis que sou uma árvore seca" — imagem exata de quem não dá fruto e não deixa descendência.

A resposta do texto não abranda a condição nem promete reversão física. Promete outra coisa. Aos eunucos que guardarem o sábado e permanecerem na aliança, diz o texto, será dado, dentro da casa e dos muros, "um lugar e um nome, melhor que o de filhos e filhas" — um nome eterno, que não se apaga.

A troca é precisa. Num mundo em que a sobrevivência do nome dependia dos filhos, prometer um nome que dispensa filhos é oferecer exatamente aquilo que a esterilidade tirava. O texto hebraico usa aí duas palavras, "mão" e "nome", em que "mão" tem o sentido de monumento, marco de pedra — a expressão que séculos depois batizaria o memorial do Holocausto em Jerusalém.

O Antigo Testamento contém, portanto, as duas coisas, e a tensão entre elas não é resolvida por nenhum texto bíblico.

As duas categorias que já existiam na lei judaica

Os mestres judeus tinham classificação técnica para o assunto, e ela coincide com os dois primeiros itens da lista deste versículo.

A Mishná (a coleção de leis dos mestres judeus, fechada por volta do ano 200) distingue, no tratado Yevamot (8:4), o saris chamá ("eunuco do sol", em hebraico — aquele que já nasceu assim, expressão que designa quem nunca foi diferente desde que viu o sol) e o saris adam ("eunuco por obra de homem" — aquele que foi mutilado).

A distinção decidia casos concretos: o trecho registra o debate entre Rabi Akiva e Rabi Eliezer sobre qual dos dois pode participar do rito que libera a viúva sem filhos do casamento com o cunhado, e cada um decide em sentido contrário ao do outro. Os dois primeiros tipos nomeados no versículo eram, portanto, categorias jurídicas correntes, com nome fixo e casos associados, que qualquer ouvinte judeu instruído reconheceria de imediato.

Judeus que não casavam

O terceiro tipo não tinha categoria correspondente. Mas havia, no judaísmo daquele tempo, gente que não casava — e é útil saber quem.

Josefo descreve, na Guerra judaica (livro 2), um grupo chamado essênios: desprezam o casamento, escolhem os filhos de outras pessoas enquanto são maleáveis e capazes de aprender, tomam-nos como parentes e os formam segundo os próprios costumes. Rejeitam os prazeres como um mal e têm por virtude o domínio das paixões.

Fílon de Alexandria, filósofo judeu da mesma época, diz o mesmo e dá um motivo que hoje soa mal: nenhum essênio toma mulher, porque a esposa seria criatura egoísta e ciumenta, hábil em desviar os costumes do marido. O argumento dele não é de pureza; é de preservação da vida comum do grupo.

Duas ressalvas são obrigatórias. O próprio Josefo registra outra ordem de essênios que casava, e pelo motivo oposto — quem não casa corta a parte principal da vida humana, que é a continuidade. E a identificação dos essênios com o grupo dos manuscritos achados perto do mar Morto é discutida, já que o cemitério do sítio contém sepulturas de mulheres e de crianças. Não há consenso sobre quão celibatário esse mundo era de fato.

Há ainda um caso individual, e é o mais próximo do espírito deste versículo. O Talmude da Babilônia conta, no tratado Yevamot (63b), que Ben Azzai, mestre do começo do século II, ensinava que quem não gera filhos é como quem derrama sangue — e não era casado. Cobrado da própria incoerência, respondeu: "que farei, se a minha alma deseja a Torá? O mundo pode ser mantido por outros."

Não é um sectário, e não alega superioridade. Alega uma ocupação que não lhe deixa espaço para outra coisa — e reconhece que está pedindo aos demais que cubram a parte dele.

3. Análise Teológica do Versículo

“Pois há eunucos”

A frase começa por uma conjunção explicativa. O que vem agora não é assunto novo: é o desdobramento da palavra que, no versículo anterior, nem todos comportavam.

E a palavra escolhida é brutal. Jesus não diz "há os que não casam", nem "há os que vivem em continência". Diz "eunucos" — o termo que designava uma condição física, que carregava a exclusão de Deuteronômio e o desprezo registrado por Josefo. É o vocabulário mais duro disponível para tratar do assunto.

“que nasceram assim desde o ventre da mãe”

O primeiro tipo não escolheu nada. Nasceu com uma condição, e a condição o acompanha desde antes de qualquer decisão sua.

Esse tipo entra na lista sem elogio e sem consolo. O texto não diz que ele tem mérito, não diz que foi escolhido para isso, não diz que Deus o quis assim. Registra que existe.

“há eunucos que foram feitos eunucos pelos homens”

O segundo tipo também não escolheu, e a diferença é que alguém escolheu por ele. O verbo está na voz passiva: a ação é de outros.

Aqui o versículo toca a instituição inteira descrita no item 2 — as crianças mutiladas para servir em cortes, a prática que a lei de Israel condenava e que os impérios vizinhos mantinham. Jesus nomeia essas pessoas numa frase sobre o Reino, sem uma palavra de condenação de quem as mutilou e sem uma palavra de consolo a elas.

Essa neutralidade desconcerta, e é um dado do texto. O versículo não está fazendo denúncia social nem oferecendo alívio. Está listando condições que existem.

“e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por causa do Reino dos céus”

O terceiro tipo é o único em que o sujeito age sobre si. E é onde tudo se decide.

A pergunta é direta: essa frase descreve uma operação física ou uma renúncia ao casamento? Três leituras disputam o lugar, e cada uma paga um preço.

Primeira leitura: ao pé da letra. Os dois primeiros tipos designam condições físicas; o terceiro, na mesma frase e com o mesmo verbo, designaria uma condição física produzida pela própria pessoa. O argumento é de coerência interna: mudar de registro no terceiro item de uma lista, sem aviso, seria estranho.

O preço dessa leitura é alto e vem de fora do versículo. Ela põe na boca de um mestre judeu o elogio de um ato que a Lei do seu povo punia com exclusão do culto, que Josefo descreve como motivo de repulsa e que a cultura judaica associava aos costumes dos impérios estrangeiros. Além disso, a mutilação não produz o que a frase dá como finalidade: ela impede a geração, não a disposição interior.

Segunda leitura: renúncia voluntária ao casamento. "Fazer-se eunuco" seria uma figura de linguagem forte para descrever quem abre mão de casar e de gerar. É a leitura largamente majoritária, antiga e moderna.

O preço é o que já se apontou: exige que o terceiro membro da lista mude de plano em relação aos dois primeiros. A favor dela pesa o contexto inteiro — a conversa começou sobre casamento, o versículo anterior falou de quem comporta uma palavra, e o dito termina devolvendo a decisão a quem ouve, o que não faz sentido diante de uma condição irreversível imposta ao corpo.

Terceira leitura: uma situação, e não um voto. Nessa leitura, o terceiro grupo seria formado por quem ficou sem casamento e sem família por causa do trabalho do Reino — não por decisão tomada de antemão, e sim pelo efeito de uma vida que não comportou outra coisa. O "fazer-se" descreveria o resultado, não um ato inaugural.

O preço é que o verbo grego é de ação direta e deliberada, o que essa leitura suaviza. A favor dela pesa que é assim que a maioria dos casos reais acontece, inclusive o de Ben Azzai, citado no item 2.

Não é possível decidir pelo texto isolado. A segunda leitura é a mais defensável pelo conjunto, e é a que prevaleceu; a primeira é a mais coerente com a forma da lista, e é a que produziu consequências históricas duradouras, examinadas no item 4.

“por causa do Reino dos céus”

A expressão grega indica motivo, não finalidade. Não é "para conseguir o Reino": é "por causa dele".

A diferença é grande. Na primeira forma, a renúncia seria um preço pago por um prêmio, e o Reino, uma recompensa comprada. Na segunda, o Reino é a razão pela qual a pessoa ficou nessa condição — algo que já está agindo e que desarranjou a vida dela.

O texto não diz o que exatamente nessa causa produz o efeito: se a urgência da missão, se a indisponibilidade para dois compromissos ao mesmo tempo, se outra coisa. E, notadamente, não diz que a condição seja superior ao casamento. Não há aqui comparação, hierarquia nem preferência. Há uma terceira possibilidade posta ao lado de duas condições involuntárias.

“Quem pode aceitar isto, aceite.”

O verbo é o mesmo do versículo 11 — o de caber, comportar, dar lugar. A frase fecha o dito com a mesma palavra com que ele foi aberto.

E a forma importa. Não é "aceitem todos". É uma condicional: quem tem capacidade, que a exerça. A oração principal está no modo do mandato, mas o mandato é dirigido apenas a quem já preenche a condição — o que na prática o transforma em permissão.

Daí decorre o que o versículo não faz. Não estabelece regra, não fixa disciplina, não cria classe, não impõe nada a ninguém. Quem não comporta não está desobedecendo a coisa alguma, porque não lhe foi ordenado nada.

A fórmula lembra outra, que Mateus repete depois de ditos difíceis: quem tem ouvidos, ouça. Nos dois casos, a frase reconhece que o que acabou de ser dito não alcança todos os ouvintes, e não se desculpa por isso.

Um dito curto que sustentou muita coisa

É o único texto do Novo Testamento em que a renúncia ao casamento aparece ligada diretamente ao Reino, e tudo o que a história construiu sobre ele — ordens religiosas, disciplinas obrigatórias, hierarquias entre estados de vida — foi construído sobre três linhas que não ordenam nada. Quem quisesse, na direção contrária, negar qualquer base ao celibato no evangelho teria de apagar o versículo, porque ele está ali, é de Mateus e não tem paralelo. O dever de casar no mundo judaico e o que se dizia de quem não casava estão no estudo de Mateus 19:11.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Orígenes

Orígenes de Alexandria (cerca de 185 a 253) foi o estudioso cristão mais produtivo dos três primeiros séculos: comentou quase toda a Bíblia e formou gerações de leitores.

Eusébio de Cesareia, bispo e historiador do século IV, conta na História eclesiástica (livro 6, capítulo 8) o episódio pelo qual ele ficou mais conhecido fora dos meios acadêmicos. Ainda jovem, ensinando em Alexandria, Orígenes teria tomado este versículo "em sentido literal e extremo demais" e agido sobre o próprio corpo. Eusébio acrescenta o motivo: além de querer cumprir a palavra, ele pretendia afastar qualquer suspeita, já que ensinava homens e mulheres.

A reação do bispo Demétrio, segundo o mesmo relato, foi dupla e reveladora. No primeiro momento, admirou a ousadia do ato e o incentivou a continuar ensinando. Anos depois, quando Orígenes já era figura de prestígio e os dois estavam desavindos, o mesmo bispo escreveu a bispos de várias partes do mundo qualificando o ato de insensato.

Há uma ironia registrada no próprio material antigo: o Orígenes maduro argumenta contra a leitura literal deste versículo. No comentário que escreveu sobre Mateus, ele sustenta que as três menções a eunucos devem ser entendidas em sentido espiritual, e invoca o princípio de que a letra mata e o espírito vivifica. Alguns estudiosos, por causa disso, questionam a historicidade do episódio narrado por Eusébio, e o debate continua aberto.

O jovem de Alexandria que pediu autorização

Cerca de meio século antes de Orígenes, Justino Mártir registra outro caso, e ele é precioso porque mostra o problema já existindo.

Na primeira Apologia (capítulo 29), escrita por volta do ano 155 para o imperador, Justino conta que um cristão de Alexandria apresentou petição ao governador Félix pedindo licença para que um cirurgião o tornasse eunuco — no Egito romano, operações desse tipo dependiam de autorização oficial. O governador negou. O jovem, diz Justino, permaneceu solteiro, satisfeito com a própria consciência e com a aprovação dos que pensavam como ele. Justino traz o caso como prova de que os cristãos praticavam continência de verdade, e não aplaude a tentativa nem a condena.

O concílio de Niceia e o primeiro cânon

Que o problema fosse real e não anedótico prova-se pelo lugar que ocupou na legislação da igreja.

Reunido em 325, o concílio de Niceia produziu o texto de fé mais conhecido do cristianismo. O primeiro dos seus cânones — a primeira regra prática que aqueles bispos acharam necessário escrever — trata de castração.

A regra distingue os casos com cuidado. Quem foi operado por médicos em razão de doença, ou mutilado por bárbaros ou por senhores, permanece no clero e pode ser admitido a ele, se for digno no mais. Mas quem, estando com saúde, castrou a si mesmo deve deixar o ministério, se já estiver no clero, e não pode ser promovido daí em diante.

O critério é a voluntariedade. Uma igreja não legisla contra o que ninguém faz: a existência do cânon é a prova de que a leitura literal deste versículo tinha adeptos suficientes para exigir resposta institucional.

Outros pais da igreja combateram a leitura pelo mesmo caminho. João Crisóstomo, pregador de Antioquia e depois bispo de Constantinopla no fim do século IV, afirma sem meio-termo que "fazer-se eunuco" não é cortar membros, e sim afastar pensamentos maus.

O pano de fundo pagão

Nada disso acontecia no vácuo. No mundo desses cristãos existia um culto cujos sacerdotes se castravam: o da deusa Cibele, a Grande Mãe, trazida da Ásia Menor para Roma ainda na época republicana. Os sacerdotes dele, chamados galli ("galos", nome de origem discutida), eram figura conhecida nas cidades do império e alvo constante de escárnio na literatura latina. Um cristão que se mutilasse não era visto apenas como alguém que entendeu mal um versículo: era visto como alguém que se igualara a eles.

5. Pontos de Ensino

Dois terços da lista não envolvem escolha

Dos três tipos nomeados, dois descrevem condições que ninguém decidiu ter. O versículo os põe lado a lado com o terceiro, sem hierarquia entre eles e sem explicar por que a condição de uns é acidente e a de outros é decisão.

O texto não manda ninguém fazer nada

A frase final é condicional e devolve a decisão ao ouvinte. Não há ordem, não há conselho e não há critério para identificar quem deve segui-la. Toda disciplina construída a partir deste versículo acrescentou o que ele não traz.

A palavra escolhida é a mais dura possível

Jesus podia ter dito "os que não casam". Disse "eunucos", num ambiente em que a palavra carregava exclusão legal e repulsa social. A escolha impede que o assunto seja tratado com elegância.

O Reino é motivo, não moeda

A expressão diz "por causa do Reino", e não "para obter o Reino". A renúncia não aparece como preço pago por um prêmio, e o versículo não promete recompensa a quem a faça.

A Bíblia contém as duas posições sobre o eunuco

Deuteronômio o exclui da assembleia; Isaías lhe promete nome melhor que o de filhos. Nenhum texto bíblico resolve a tensão entre os dois, e este versículo não a menciona.

6. Aspectos Filosóficos

Peter Brown e o corpo que a cidade reclamava

O historiador irlandês Peter Brown, professor em Oxford, em Berkeley e em Princeton, publicou em 1988 Corpo e sociedade (estudo sobre a renúncia sexual no cristianismo antigo). O livro reconstrói o que a abstinência significava para quem a via de fora, nas cidades do Mediterrâneo entre os séculos II e V.

O ponto de partida dele é que o corpo do cidadão não era considerado inteiramente seu. A cidade antiga perdia gente depressa demais: para que a população se mantivesse, cada geração tinha de produzir a seguinte com margem. Casar e gerar filhos não era, nesse quadro, projeto particular. Era a contribuição de cada um para que a cidade continuasse existindo.

Dentro dessa lógica, mostra Brown, a continência não podia ser lida como assunto privado. Quem se recusava a ter filhos retirava alguma coisa do futuro comum, e a recusa era visível: um corpo fora da cadeia das gerações virava sinal público.

Por que aquilo pareceu tão estranho

A tese mais interessante do livro é a de que a renúncia sexual cristã não se explica, no essencial, por nojo do corpo. Havia isso em alguns autores, e Brown não o esconde. Mas o que ele encontra como núcleo é outra coisa: a renúncia funcionava como interrupção de uma cadeia — a da reprodução que garantia a continuidade da sociedade tal como era.

Quem não gera não entrega herdeiros, não firma aliança entre famílias, não perpetua nome nem patrimônio. Toda a engrenagem que ligava um indivíduo à ordem estabelecida passava pelo casamento e pelos filhos. Sair dela era sair de tudo o mais ao mesmo tempo.

Daí a reação do mundo ao redor, que Brown documenta: a continência foi lida menos como virtude excêntrica e mais como uma espécie de deserção. E daí também, na outra direção, o prestígio enorme que os continentes adquiriram dentro das comunidades cristãs — eram gente que tinha dado uma prova cujo custo todos conseguiam medir.

O que isso ilumina no versículo, e o que não

O quadro ajuda a entender por que a frase deste versículo é tão difícil de acomodar. Ela não fala de uma preferência pessoal. Fala de uma condição que, naquele mundo, retirava alguém de uma engrenagem inteira — e que, por isso mesmo, precisava de uma razão do tamanho da que o texto dá: o Reino.

Ajuda também a explicar a escolha da palavra "eunuco". O eunuco era a figura que o mundo antigo já conhecia como o homem fora da cadeia das gerações. Usar o nome dele para descrever uma escolha é dizer que a escolha produz a mesma posição social — e essa posição não era de honra.

Duas ressalvas de exatidão, e elas importam. Brown escreve sobre os séculos posteriores a este versículo, e não sobre ele: o material que examina vem de Paulo em diante, e sobretudo dos séculos III a V. Aplicar o quadro dele a Mateus 19:12 é passo do leitor, não do historiador. E Brown não sustenta que a renúncia tenha sido protesto social deliberado; sustenta que foi assim que ela funcionou aos olhos de quem a via. A distinção é dele, e apagá-la transformaria o argumento em algo que ele não disse.

7. Aplicações Práticas

Ler uma frase dura sem convertê-la em programa

Este versículo foi, por séculos, matéria de disciplina imposta a pessoas concretas, e a distância entre o que ele diz e o que se fez com ele é a lição prática mais direta que ele oferece. Um texto que devolve a decisão ao ouvinte não autoriza ninguém a decidir pelo ouvinte.

Três condições, nenhuma explicada

Quem nasceu assim, quem foi mutilado e quem se pôs nessa posição aparecem na mesma lista, sem que o texto diga o que cada condição significa na vida de quem a carrega. Diante de circunstâncias de corpo que ninguém escolheu, o versículo não oferece explicação nem consolo — e essa recusa em explicar é, em si, uma forma de respeito pelo caso de cada um.

Uma vida sem casamento aparece como possibilidade, não como falta

Num mundo em que não casar era desvio, o versículo nomeia a condição sem tratá-la como problema a ser corrigido. Também não a recomenda. O que ele faz é abrir espaço para que ela exista sem precisar de justificativa diante dos outros.

O limite desta aplicação

O texto não ensina como saber o que se comporta, não indica a quem perguntar e não descreve sinal algum. Quem procurar aqui orientação para uma decisão pessoal não vai encontrá-la, e a honestidade manda dizer isso em vez de fabricar critérios.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Jesus está mandando alguém se castrar?

A frase final é condicional e devolve a decisão a quem ouve, o que não funciona como ordem. As três leituras do terceiro tipo, com o que cada uma custa, estão no item 3. O que se pode afirmar com segurança é que o versículo não contém imperativo dirigido a todos.

Por que a lista começa por quem não escolheu nada?

O texto não explica. Uma possibilidade é que os dois primeiros tipos sejam mencionados para dar nome ao terceiro: eram as categorias conhecidas, e a terceira é construída por analogia com elas. Outra é que a ordem vá do involuntário ao voluntário, encerrando no único caso que depende de alguém. Nenhuma das duas está escrita.

Este versículo estabelece que o celibato é superior ao casamento?

Não há comparação no texto. Não se diz que a terceira condição valha mais, nem que o casamento valha menos, nem que uma seja recomendada e a outra tolerada. A hierarquia entre estados de vida foi construída depois, com outros argumentos, e este versículo é citado nela sem trazê-la.

O que acontece com quem não comporta?

Nada. O versículo não descreve consequência, perda ou desvantagem para quem não está no terceiro grupo. A ausência é notável num texto que trata de Reino dos céus, e o silêncio não deve ser preenchido.

Por que a palavra "eunuco", e não "solteiro"?

Porque a palavra grega para solteiro descreveria apenas um estado civil, e o versículo fala de uma condição que retira alguém da cadeia das gerações. A escolha do termo mais áspero é deliberada, e ela impede que o dito seja lido como conselho ameno.

A promessa de Isaías se aplica aqui?

O versículo não a cita, e Mateus não faz a ligação em lugar nenhum. A aproximação entre os dois textos é feita por leitores, e é sugestiva: um promete nome melhor que o de filhos a quem não pode gerar, o outro nomeia quem não gera por causa do Reino. Sugestivo não é o mesmo que demonstrado.

9. Conexão com Outros Textos

A lei que excluía

Deuteronômio 23:1 — Não entrará na congregação do SENHOR o que tiver os testículos esmagados, nem o castrado.

A porta fechada, sem distinção entre quem escolheu e quem foi mutilado.

A promessa que inverte

Isaías 56:3 — E não fale o filho do estrangeiro, que tiver se ligado ao SENHOR, dizendo: Certamente o SENHOR me excluiu de seu povo; nem fale o eunuco: Eis que sou uma árvore seca.

Isaías 56:4 — Porque assim diz o SENHOR: Aos eunucos, que guardam os meus sábados, e escolhe aquilo em que me agrado, e permanecem em meu pacto,

Isaías 56:5 — Eu também lhes darei em minha casa, e dentro de meus muros, lugar e nome, melhor que o de filhos e filhas; darei um nome eterno a cada um deles, que nunca se apagará.

Os dois excluídos de Deuteronômio — o estrangeiro e o eunuco — recebem resposta no mesmo trecho.

O eunuco que é batizado

Atos 8:27 — E ele levantou-se, e foi, e eis que um homem etíope, eunuco, administrador subordinado a Candace, a rainha dos etíopes, que estava sobre o controle de todos os bens dela, tinha vindo a Jerusalém para adorar;

Atos 8:38 — E ele mandou parar a carruagem; e desceram ambos à água, tanto Filipe como o eunuco; e ele o batizou.

O primeiro não judeu a entrar na igreja, no relato de Atos, é chamado eunuco. O texto que ele estava lendo quando Filipe o encontrou era de Isaías.

O mandamento de gerar

Gênesis 1:28 — Deus os abençoou e lhes disse: "Sejam férteis e multipliquem-se, encham a terra e a subjuguem; dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que se move sobre a terra."

O primeiro mandamento do Gênesis é aquilo de que o terceiro grupo deste versículo abre mão.

Quem não casa, segundo Paulo

1 Coríntios 7:7 — Porque eu queria que todos fossem como eu mesmo; mas cada um tem seu próprio dom de Deus, um de um jeito assim, e outro de um jeito diferente.

1 Coríntios 7:32 — E eu queria que estivésseis sem preocupações. O solteiro se preocupa com as coisas do Senhor, como irá agradar ao Senhor;

1 Coríntios 7:35 — Porém digo isto para vosso próprio proveito; não para vos enlaçar, mas para vos guiar ao que é decente, e servirem ao Senhor sem distração.

Paulo dá o motivo que este versículo não dá: atenção não dividida. E é explícito em não impor.

O que se deixa por causa do nome

Mateus 19:29 — E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou campos por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e herdará a vida eterna.

A fórmula que fecha ditos difíceis

Mateus 13:43 — "Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça."

O fecho deste versículo é uma variação dessa fórmula, com o verbo da capacidade no lugar do da audição.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Pois há eunucos que nasceram assim desde o ventre da mãe; há eunucos que foram feitos eunucos pelos homens; e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por causa do Reino dos céus. Quem pode aceitar isto, aceite.”

Texto grego

εἰσὶ γὰρ εὐνοῦχοι, οἵτινες ἐκ κοιλίας μητρὸς ἐγεννήθησαν οὕτω· καὶ εἰσὶν εὐνοῦχοι, οἵτινες εὐνουχίσθησαν ὑπὸ τῶν ἀνθρώπων· καὶ εἰσὶν εὐνοῦχοι, οἵτινες εὐνούχισαν ἑαυτοὺς διὰ τὴν βασιλείαν τῶν οὐρανῶν. ὁ δυνάμενος χωρεῖν χωρείτω.

Transliteração

eisi gar eunouchoi, hoitines ek koilias mētros egennēthēsan houtō; kai eisin eunouchoi, hoitines eunouchisthēsan hypo tōn anthrōpōn; kai eisin eunouchoi, hoitines eunouchisan heautous dia tēn basileian tōn ouranōn. ho dynamenos chōrein chōreitō.

Entre o Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega que a ABC segue) e as edições críticas modernas não há aqui divergência de conteúdo: só de grafia — eisi por eisin e houtō por houtōs, formas alternativas das mesmas palavras.

Análise palavra por palavra

εἰσὶ γὰρ — eisi gar, "pois há". Eisi é a terceira pessoa do plural de "ser", usada aqui no sentido existencial: existem. Gar é a conjunção explicativa do grego, "pois, porque": o versículo apresenta-se como explicação do anterior.

εὐνοῦχοι — eunouchoi, "eunucos". Esta é a palavra do versículo, e ela aparece três vezes.

A formação é transparente: eunē, "leito, cama", mais o verbo echō, "ter, guardar". Literalmente, "o que guarda o leito" — o servidor encarregado dos aposentos, e em especial dos das mulheres da casa real. A etimologia aponta para a função palaciana, não para a condição física: foi o cargo que emprestou o nome à condição, e não o contrário.

Na tradução grega do Antigo Testamento, eunouchos traduz com frequência a palavra hebraica do oficial de corte, e em alguns lugares designa claramente o castrado, como em Isaías 56. Em todo o Novo Testamento o substantivo aparece apenas aqui, três vezes, e em Atos 8, para o etíope.

οἵτινες — hoitines, "os quais, os que". Pronome relativo de forma composta, que em grego tem valor de classe: não aponta indivíduos determinados, e sim o tipo. Ele abre cada um dos três membros, o que dá ao conjunto a forma de uma classificação.

ἐκ κοιλίας μητρὸς — ek koilias mētros, "desde o ventre da mãe". Koilia é "cavidade", daí "ventre"; mētēr é "mãe". A expressão é fórmula fixa do grego bíblico para "de nascença", decalcada do hebraico, e aparece em Lucas 1:15 e em Atos 3:2 com o mesmo sentido.

ἐγεννήθησαν οὕτω — egennēthēsan houtō, "nasceram assim". Aoristo passivo de gennaō, "gerar" — na voz passiva, "ser gerado, nascer". Houtō é "assim, deste modo", e remete ao substantivo que veio antes: nasceram eunucos.

εὐνουχίσθησαν — eunouchisthēsan, "foram feitos eunucos". Aoristo passivo de eunouchizō, verbo derivado do substantivo, com o sentido de "tornar eunuco, castrar". É verbo raro: em toda a Bíblia grega aparece só neste versículo, nas duas formas, e fora dela pertence ao vocabulário médico e jurídico. A voz passiva é o dado decisivo deste segundo membro: o sujeito sofre a ação.

ὑπὸ τῶν ἀνθρώπων — hypo tōn anthrōpōn, "pelos homens". A preposição hypo com o genitivo indica o agente de uma ação passiva, e o artigo dá à expressão um tom genérico: por obra humana.

εὐνούχισαν ἑαυτοὺς — eunouchisan heautous, "fizeram eunucos a si mesmos". O mesmo verbo, agora no aoristo ativo, com o pronome reflexivo heautous, "a si mesmos".

A construção é deliberadamente simétrica. O segundo membro tem o verbo passivo com agente externo; o terceiro tem o verbo ativo com o próprio sujeito como objeto. A gramática marca a diferença entre sofrer e fazer, e é sobre essa simetria que se apoia a leitura literal discutida no item 3.

διὰ τὴν βασιλείαν τῶν οὐρανῶν — dia tēn basileian tōn ouranōn, "por causa do Reino dos céus".

A preposição dia muda de sentido conforme o caso do substantivo que a acompanha. Com o genitivo, indica meio ou passagem: "através de". Com o acusativo, como aqui, indica causa ou motivo: "por causa de", "em razão de".

O grego tinha outras formas para dizer finalidade — a preposição eis com o acusativo, ou hina com o subjuntivo. Nenhuma delas foi usada. A frase diz por que a condição existe, e não para que serve.

ὁ δυνάμενος χωρεῖν — ho dynamenos chōrein, "o que pode comportar". Dynamenos é o particípio presente de dynamai, "poder, ser capaz", com artigo: "aquele que é capaz". Dele vem dynamis, "força, poder".

Chōrein é o infinitivo de chōreō, o verbo de dar espaço e comportar, analisado no estudo de Mateus 19:11. Note-se que ele vem sem objeto: o grego não escreve o que se há de comportar, e a ABC supre com "isto".

χωρείτω — chōreitō, "comporte, acolha". Terceira pessoa do singular do imperativo presente, do mesmo verbo.

O imperativo de terceira pessoa não existe em português, e por isso a tradução usa o presente do subjuntivo: "aceite". Ele não se dirige ao interlocutor, e sim a quem quer que preencha a condição enunciada antes. O resultado é uma ordem sem destinatário fixo — que só alcança quem já se reconhece no "aquele que pode".

11. Conclusão

Do dito decorre, primeiro, que ele não funciona como lei. A forma condicional do fecho e a ausência de qualquer critério de identificação tornam impossível derivar dele uma obrigação para alguém determinado. Foi apesar disso, e não por causa disso, que a história tirou do versículo regras de acesso a funções e disciplinas impostas a pessoas concretas.

Decorre, em segundo lugar, que a ambiguidade do terceiro membro da lista é do próprio texto, e não da tradução. A simetria gramatical puxa para a leitura física; o contexto inteiro da conversa puxa para a renúncia ao casamento; a história do cristianismo registra as duas, e a primeira precisou de um concílio para ser contida. Apresentar qualquer uma delas como evidente é esconder do leitor a dificuldade real.

Decorre, enfim, algo sobre o modo como o versículo trata as pessoas que nomeia. Ele junta numa lista quem nasceu com uma condição, quem foi mutilado por outros e quem se pôs nessa posição, sem explicar nenhum dos três casos, sem hierarquizá-los e sem dizer o que cada um significa diante de Deus. Num assunto que produziu séculos de comparação entre estados de vida, o texto que serviu de base à comparação não compara nada.

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Mateus 19:12

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