E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou campos por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e herdará a vida eterna.
1. Introdução
A promessa se abre: deixa de ser dos doze e passa a ser de qualquer um. A lista do que se deixa é concreta e pesada — casa, irmãos, pai, mãe, filhos, terra —, e três desses itens estão protegidos por mandamento. O retorno é dito em número: cem vezes mais, a mesma expressão que a Bíblia usa para uma colheita excepcional. Marcos, ao contar a mesma frase, acrescenta duas coisas que Mateus não tem: que a devolução acontece já neste tempo, e que ela vem acompanhada de perseguições. E o verbo final — herdar — é a resposta, com outra palavra, à pergunta que abriu todo este bloco do capítulo.
2. Contexto Histórico e Cultural
Sair de casa era sair de tudo
A lista do versículo parece um inventário sentimental, e não era. Os itens que ela enumera formavam uma única instituição.
A casa, no mundo mediterrâneo antigo, não era o lugar onde se dormia: era a unidade que possuía a terra, guardava o nome, sustentava os velhos, casava os filhos, respondia pelas dívidas e enterrava os mortos. Fora dela uma pessoa não tinha patrimônio, não tinha quem a defendesse num litígio, não tinha lugar reconhecido numa aldeia e não tinha velhice garantida.
Por isso a lista da promessa mistura gente e coisas sem estranhamento. Irmãos, pai, mãe e filhos não estão ali por afeto: estão porque eram a rede de segurança. Os campos e as casas não estão ali por apego: eram o meio de subsistência. Sair dessa unidade equivalia a sair da economia, do direito e da proteção ao mesmo tempo.
Três itens da lista estão protegidos por lei
Deixar pai e mãe não era apenas doloroso: colidia com um mandamento.
Honrar pai e mãe estava entre os dez, e este mesmo capítulo o havia citado poucos versículos antes, no versículo 19. E honrar não significava, no vocabulário daquele mundo, ter sentimentos corretos — significava sustentar na velhice e sepultar na morte. O sepultamento do pai era dever do filho, e ficar insepulto era desgraça.
Deixar a mulher trazia problema jurídico próprio. O casamento judaico criava obrigações de manutenção e de convivência, e os tratados rabínicos chegam a discutir por quantos anos um estudante pode ausentar-se sem o consentimento dela. Abandonar simplesmente não era opção prevista em lugar nenhum.
E deixar filhos tocava o dever mais básico de todos. A lista, portanto, não enumera sacrifícios voluntários e neutros: enumera rupturas que o próprio sistema religioso reprovava. O versículo não comenta essa tensão, e Mateus não a resolve.
O grupo que substitui a família
A solução que o mundo antigo conhecia para quem saía de uma casa era entrar noutra coisa parecida.
Associações voluntárias eram comuns no império: grupos de ofício, de culto, de sepultamento, que cobravam contribuição e garantiam ao associado companhia, auxílio em dificuldade e enterro decente. Entre os judeus havia agrupamentos de estudo e de mesa com função semelhante, e a comunidade descrita nos manuscritos do mar Morto levava isso ao extremo, com bens postos em comum.
Esses grupos usavam vocabulário de parentesco — irmão, pai, filho — para descrever relações que não eram de sangue. É exatamente o vocabulário que Marcos 10:30 emprega ao detalhar a devolução: casas, irmãos, irmãs, mães e filhos, recebidos agora neste tempo. Mateus não traz esse detalhamento, e a diferença entre os dois é comentada no item 3.
"Cem vezes" era número de colheita
A expressão não foi inventada para este versículo. Ela tinha endereço na linguagem agrícola.
Gênesis 26:12 conta que Isaque semeou e colheu cem por um, e liga o resultado à bênção. Numa agricultura em que o retorno normal de um grão semeado era de poucas unidades, cem por um descrevia o extraordinário — e o texto do Gênesis usa a colheita como sinal, não como estatística.
A mesma proporção aparece na parábola do semeador, em Mateus 13:8 e Mateus 13:23, encabeçando a escala do fruto: cem, sessenta, trinta. Dentro de Mateus, portanto, "cem" é o número do rendimento máximo, e não uma quantia calculada.
Isso tem consequência direta para a leitura da promessa. Quem ouvia não fazia a conta de cem casas ou cem mães; ouvia a imagem do que rende acima de qualquer expectativa razoável.
Herdar, e não adquirir
O verbo que fecha o versículo pertence ao direito de família, e não ao comércio.
A herança, no Israel antigo, não se comprava nem se conquistava: vinha por pertencimento. A terra de cada tribo era chamada de herança, e o vocabulário da posse da terra prometida é todo construído sobre essa raiz. Quem herda recebe por ser da casa.
Há uma ironia estrutural no versículo por causa disso. O que se deixa é a casa; o que se recebe se recebe por direito de casa.
3. Análise Teológica do Versículo
"E todo aquele que tiver deixado"
A promessa muda de destinatário, e a mudança é o primeiro dado do versículo.
O versículo anterior falava a um grupo fechado — "vocês que me seguiram", doze homens, doze tronos. Este começa com uma fórmula aberta: qualquer um, sem número e sem nome. Mateus separou as duas promessas e as pôs lado a lado; a primeira não se aplica ao leitor, a segunda sim.
O verbo é o mesmo que Pedro usou no versículo 27, e no mesmo tempo do fato encerrado. A condição não é estar deixando: é ter deixado.
"casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou campos"
A lista é ligada por "ou", e não por "e". Basta um item.
Essa é a primeira coisa a observar, porque a leitura corrente transforma a frase numa exigência de abandono total. O grego não pede isso: enumera alternativas. Quem deixou qualquer uma das oito coisas está dentro da promessa.
A ordem dos itens tem desenho. Começa por casas e termina por campos — as duas coisas materiais ficam nas pontas, e as pessoas ficam no meio. Entre as pessoas, a sequência vai dos irmãos aos pais, dos pais à mulher, da mulher aos filhos: percorre a casa inteira, de lado, para cima e para baixo.
Dos oito itens, quatro dizem respeito a vínculos que a lei protegia. Honrar pai e mãe é mandamento, e este capítulo o citou no versículo 19. Deixar a mulher tinha consequências jurídicas. Os filhos eram responsabilidade sem alternativa. A lista enumera, portanto, rupturas que o próprio sistema religioso desaprovava — e o versículo não trata disso.
Sobre "ou mulher" há uma questão de manuscritos, e ela está no item 10.
"por causa do meu nome"
A cláusula é o filtro de tudo o que veio antes.
Sem ela, a lista descreveria abandono de família, que nenhum texto bíblico elogia. Com ela, o versículo restringe a promessa a um motivo único e o deixa sem substituto: não é por causa de uma convicção, de uma causa ou de um modo de vida — é por causa dele.
"Nome", no uso bíblico, é a pessoa enquanto reconhecida e invocada. A fórmula reaparece em Mateus 10:22, sobre o ódio que os discípulos sofrerão, e em Mateus 24:9. Em todas, o nome é o motivo pelo qual alguma coisa custa caro.
"receberá cem vezes mais"
O número é da linguagem da colheita, e o objeto da devolução não é dito.
Mateus escreve apenas "cem vezes mais", sem repetir a lista. Marcos 10:30 faz o contrário: repete os itens um a um — casas, irmãos, irmãs, mães, filhos, campos —, acrescenta "agora neste tempo" e fecha com duas palavras que Mateus não tem, "com perseguições".
As duas omissões de Mateus mudam a leitura, e cada uma retira uma coisa diferente.
Sem "agora neste tempo", a promessa fica sem data. Meyer sustenta que Mateus se refere exclusivamente ao reino futuro, enquanto Marcos e Lucas indicam compensação nos dois tempos. Com Mateus sozinho, não há como situar a devolução, e ela pode ser lida como inteiramente futura.
Sem "com perseguições", a promessa fica sem contrapeso. Ellicott observa que o acréscimo de Marcos muda profundamente o sentido, porque lembra que a dificuldade acompanha inseparavelmente a vida no Reino. Um leitor que tenha só Mateus não recebe esse aviso neste versículo.
Quanto ao que "cem vezes" significa, os comentaristas concordam que não se trata de contagem, e divergem sobre o conteúdo. Ellicott fala em multiplicação de relações por afinidade espiritual — novos lares, novos amigos, uma percepção transformada da beleza do mundo. Bengel sugere que o crente recebe por meio de outros, na pessoa deles. Outros falam de paz, alegria e consolo. Todas essas leituras são interpretações do número, e nenhuma está no texto.
Há um detalhe que resiste a qualquer dessas leituras: a lista inclui pai e mãe, e nem a interpretação mais generosa explica o que seriam cem mães. Marcos, ao repetir a lista na devolução, omite justamente o pai — e mantém as mães. A assimetria é dele, não de Mateus, e não é explicada em nenhum dos dois.
"e herdará a vida eterna"
A última frase fecha um círculo que começou treze versículos antes.
O homem do versículo 16 perguntou que coisa boa devia fazer para ter a vida eterna. A resposta que chega aqui usa outro verbo: herdar. A diferença não é estilística — ter é resultado de aquisição, herdar é consequência de pertencimento. A pergunta foi feita no vocabulário do ganho e é respondida no vocabulário da família.
E a ordem dos dois verbos do versículo tem consequência. Primeiro "receberá cem vezes mais", depois "herdará a vida eterna": a segunda não é o resumo da primeira, é um segundo item. O versículo promete duas coisas, e não uma.
O que a promessa não estabelece
Ela não diz quando, não diz o quê, e não diz quanto.
Não há data — Mateus deixou de fora a marcação de tempo que Marcos traz. Não há objeto — "cem vezes mais" não vem acompanhado de substantivo. E o número, sendo o da colheita extraordinária, não permite conta. A promessa é enorme e não é verificável, e essa combinação é a mesma do versículo anterior.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
"Todo aquele" — o destinatário desta promessa não é nomeado nem contado. É a primeira vez no capítulo que Jesus se dirige a qualquer pessoa, e não ao grupo presente.
Os parentes da lista — irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos. Seis das oito posições da casa antiga, e todas as que criavam obrigação recíproca.
Os discípulos que já haviam feito isso — Tiago e João deixaram o pai no barco, segundo Mateus 4:22. É o único caso narrado em Mateus em que um item específico desta lista é abandonado, e o texto o registra sem comentar.
Lugares
Casas e campos — os dois itens materiais da lista, colocados nas pontas. No Israel daquele tempo, a casa e a terra da família não eram bens negociáveis como outros: a herança de terra estava ligada à tribo, e havia mecanismos legais para impedir que ela saísse da família.
A vida eterna — nomeada como herança, e não como lugar. O versículo não a descreve.
Eventos
O abandono — apresentado como ato já realizado, e não como exigência a cumprir. A promessa é dirigida a quem já fez, não a quem pretende fazer.
A devolução em cem vezes — sem data em Mateus. Marcos 10:30 situa parte dela "agora neste tempo" e acrescenta "com perseguições"; Lucas 18:30 fala em receber muito mais nestes tempos e a vida eterna nos vindouros. Mateus é o único dos três que não marca o tempo.
A pergunta que é respondida aqui — a do versículo 16, sobre o que fazer para ter a vida eterna. O homem que a fez já saiu de cena, e a resposta chega quando ele não está mais presente.
5. Pontos de Ensino
A lista é de alternativas, não de exigências somadas
Os oito itens vêm ligados por "ou". Basta um. A leitura que transforma o versículo numa demanda de abandono completo acrescenta uma conjunção que o grego não traz, e essa leitura tem consequências pesadas na prática religiosa de quem a recebe.
O motivo é o filtro
"Por causa do meu nome" é o que separa esta frase de um elogio ao abandono de família. Sem a cláusula, a lista descreveria irresponsabilidade. Com ela, a promessa fica restrita a um motivo que não tem substituto — nem causa, nem convicção, nem estilo de vida.
Mateus não traz as duas ressalvas de Marcos
"Agora neste tempo" e "com perseguições" estão em Marcos 10:30 e não estão aqui. Quem ensina este versículo isolado entrega uma promessa sem data e sem contrapeso — e é assim que ela vira anúncio de prosperidade. Registrar o que os outros evangelhos acrescentam é obrigação de honestidade, e não harmonização.
"Cem vezes" é linguagem de colheita
Gênesis 26:12 e a parábola do semeador usam o mesmo número para o rendimento extraordinário. Ele indica grandeza, e não quantidade contável. A pergunta "cem mães?" mostra sozinha que a leitura aritmética não se sustenta.
A resposta troca o verbo da pergunta
O jovem perguntou o que fazer para ter a vida eterna; o versículo diz que ela é herdada. Ter se adquire, herança se recebe por pertencer. A troca é discreta e é o ponto de chegada do capítulo inteiro.
São duas promessas, e não uma
"Receberá cem vezes mais" e "herdará a vida eterna" estão coordenadas por "e", com verbos distintos e objetos distintos. A segunda não é explicação da primeira, e reduzir uma à outra apaga metade da frase.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo põe um número ao lado de uma mãe, e é aí que ele levanta um problema que a filosofia moral trata sob o nome de incomensurabilidade: existem coisas que não se comparam por quantidade.
Cem campos é uma frase inteligível. Cem casas também. Cem mães não é. A dificuldade não é de tamanho — não é que cem seja demais —, é de tipo: uma mãe não é uma unidade de alguma coisa da qual se possa ter mais. O que torna essa relação o que ela é não é reproduzível em série, e somar exemplares não produz o mesmo bem em maior grau.
Essa distinção percorre a discussão moral antiga e moderna. De um lado estão os bens que admitem mais e menos: dinheiro, terra, tempo, segurança. Do outro estão aqueles cuja identidade depende de serem estes e não outros — uma pessoa determinada, uma história compartilhada, um vínculo que não sobrevive à substituição. Perder um bem do primeiro tipo é um prejuízo que se repara com outro do mesmo tipo. Perder um do segundo não é.
Daí a estranheza da promessa, e a estranheza é do texto, não da leitura. Ele coloca na mesma lista campos e pai, casas e filhos, e promete a mesma coisa para tudo: cem vezes mais. Aplica uma operação aritmética a itens que não se somam.
Três respostas a isso são possíveis, e todas foram dadas.
A primeira: o número não é número. "Cem vezes" é linguagem de colheita abundante, e a promessa afirma grandeza, não quantidade. Essa resposta é a mais bem apoiada no vocabulário, e não resolve o problema inteiro — continua dizendo que o que se perdeu será mais do que compensado, o que pressupõe alguma comparação entre as duas coisas.
A segunda: o que se recebe é de outra natureza. Não são cem mães, e sim uma espécie de vínculo diferente, que Ellicott descreve como afinidades espirituais que produzem novos lares e novos laços. Essa resposta troca a quantidade pela qualidade, e paga um preço: se o que se recebe é de outro tipo, então não é devolução do que se perdeu, e a palavra "cem vezes" perde o pé.
A terceira: a promessa não é de reposição. A segunda metade do versículo fala de herdar a vida eterna, e essa é a resposta real; o "cem vezes" seria uma figura de abundância acessória. O custo é que o texto põe as duas coisas em coordenação, e não em hierarquia.
Nenhuma das três apaga o desconforto, e é discutível que devesse. O que o versículo faz, tomado como está, é recusar a separação limpa entre o que se conta e o que não se conta — recusa que é estranha à ética filosófica e frequente nos textos bíblicos, onde bênção material e bênção de relação aparecem na mesma lista desde Deuteronômio.
E fica um último ponto, que a leitura devocional costuma evitar. A promessa é feita a quem já perdeu. Ela não é oferecida como argumento para perder, porque o verbo está no passado: dirige-se a quem deixou, não a quem hesita. Isso muda a função da frase. Ela não convence ninguém a abandonar nada — diz a quem já abandonou que a conta não termina onde parece.
7. Aplicações Práticas
Não usar o versículo como justificativa para abandono
A lista inclui mulher, filhos, pai e mãe, e três desses vínculos estão protegidos por mandamento que este mesmo capítulo cita no versículo 19. A cláusula "por causa do meu nome" é o único filtro, e ela não cobre conflito familiar, cansaço nem projeto pessoal. Uma leitura honesta do versículo observa que ele descreve o que aconteceu a pessoas perseguidas por causa da fé, e não fornece autorização genérica para romper laços.
Ler a promessa com o que Marcos acrescenta
Marcos 10:30 traz "agora neste tempo" e "com perseguições". Quem apresenta a frase de Mateus sozinha entrega uma promessa de retorno multiplicado sem prazo e sem aviso de custo — que é exatamente o formato de uma promessa de prosperidade. Citar o acréscimo de Marcos ao lado do versículo é o modo mais simples de impedir essa leitura.
Não fazer a conta
"Cem vezes mais" não vem acompanhado de objeto e não tem data. Quem tentar verificar se recebeu vai comparar coisas incomparáveis, e a comparação produz ou autoengano ou amargura. A promessa foi dada num formato que não permite auditoria.
Reconhecer que a promessa é para quem já perdeu
O verbo está no passado: "todo aquele que tiver deixado". A frase se dirige a quem já pagou o preço, e não a quem pondera se deve pagar. Isso muda o uso: ela não é argumento de convencimento, é palavra a quem está do outro lado da perda.
Notar o que a comunidade deveria estar substituindo
Marcos detalha a devolução em casas, irmãos, irmãs, mães e filhos — vocabulário de parentesco aplicado a quem não é parente. Onde uma comunidade de fé existe sem cumprir nada disso para quem perdeu família por causa dela, a promessa fica sem correspondência visível, e o texto não explica o que fazer nesse caso.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. É preciso deixar tudo o que está na lista?
Não. Os oito itens vêm ligados por "ou", e não por "e". A construção enumera alternativas. Quem deixou um deles está dentro da promessa.
2. "Cem vezes mais" de quê?
Mateus não diz. Ele escreve apenas o número, sem repetir a lista. Marcos 10:30 repete os itens — casas, irmãos, irmãs, mães, filhos, campos — e Mateus não. Os comentaristas preenchem o vazio de modos diferentes, e todas as propostas são interpretação.
3. A devolução é nesta vida ou depois?
Em Mateus não há marcação de tempo. Marcos acrescenta "agora neste tempo" e Lucas 18:30 fala em receber nestes tempos e a vida eterna nos vindouros. Meyer entende que Mateus se refere exclusivamente ao futuro; a diferença entre os três evangelhos é um dado, e não uma contradição resolvida.
4. Por que "ou mulher" aparece em algumas Bíblias e não em outras?
Porque as edições gregas divergem. O Textus Receptus e o texto bizantino trazem a expressão; as edições críticas, seguindo os manuscritos antigos, não trazem. A ABC segue o Textus Receptus. O detalhe é tratado no item 10.
5. O versículo manda abandonar a família?
Não há imperativo nenhum. O verbo está no passado, e a frase descreve quem já deixou — por causa do nome dele, e não por qualquer outro motivo. Deixar pai e mãe, aliás, colidia com um mandamento que este mesmo capítulo cita no versículo 19, e o texto não comenta a tensão.
6. Por que "herdará" e não "receberá" a vida eterna?
Herdar, no vocabulário bíblico, é receber por pertencer a uma casa, e não por aquisição. O verbo responde, com outra palavra, à pergunta do versículo 16, que usava "ter". A troca é discreta e muda o que a vida eterna é na frase.
7. Cem vezes mais é promessa de prosperidade?
O número vem da linguagem da colheita — Gênesis 26:12 e a parábola do semeador usam a mesma proporção para o rendimento extraordinário. A leitura aritmética não se sustenta, e a lista inclui pai e mãe, itens que nenhuma multiplicação explica. Marcos ainda acrescenta que a devolução vem acompanhada de perseguições.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma promessa nos outros evangelhos
Marcos 10:30 — "que não receba cem vezes tanto, agora neste tempo, casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, com perseguições; e a vida eterna, no tempo que virá."
A versão mais detalhada: repete os itens, marca o tempo e acrescenta as perseguições. Ao repetir a lista, Marcos omite o pai e mantém as mães, e nenhum dos evangelhos explica a assimetria.
Lucas 18:30 — "Que não venha a receber de volta muito mais nestes tempos, e nos tempos vindouros receba a vida eterna."
Lucas não usa o número: escreve "muito mais". A diferença entre "cem vezes" e "muito mais" é antiga e já dividia os copistas.
O número da colheita
Gênesis 26:12 — "Isaque semeou naquela terra e, naquele ano, colheu cem por um; e o SENHOR o abençoou."
A mesma proporção, usada como sinal de bênção e não como medida agrícola.
Mateus 13:8 — "Outra parte caiu em boa terra e deu fruto: uma a cem, outra a sessenta e outra a trinta por um."
Dentro de Mateus, "cem" encabeça a escala do rendimento máximo. É o topo, e não uma quantia.
O que se deixa, narrado antes
Mateus 4:22 — "E eles, imediatamente, deixaram o barco e seu pai e o seguiram."
O único caso, em Mateus, em que um item exato desta lista é abandonado, e o texto o registra sem comentar.
Mateus 10:37 — "Quem ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama filho ou filha mais do que a mim não é digno de mim."
A mesma tensão dita como ordem de prioridade, e não como lista de perdas. Ali não há promessa de compensação nenhuma.
Deuteronômio 33:9 — "O que disse a seu pai e a sua mãe: Nunca os vi: nem conheceu a seus irmãos, nem conheceu a seus filhos; por isso eles guardarão as tuas palavras, e observarão o teu pacto."
A bênção de Moisés sobre Levi, onde o rompimento com a família aparece como credencial do serviço sacerdotal. É o texto do Antigo Testamento mais próximo da lógica deste versículo.
O verbo herdar
Mateus 5:5 — "Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra."
O mesmo verbo, com objeto diferente. Nas duas ocorrências o que se recebe não é conquistado.
Mateus 25:34 — "Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que foi preparado para vocês desde a criação do mundo.’"
A palavra reaparece na cena do julgamento final, ligada a uma preparação anterior a qualquer mérito.
A conta feita nas cartas
1 Timóteo 6:17 — "Manda aos ricos desta era que não sejam soberbos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas sim em Deus, que nos dá abundantemente todas as coisas que são para alegria;"
A carta trata do outro lado da questão do capítulo — não o que se deixa, e sim como se fica com o que se tem.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou campos por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e herdará a vida eterna.
Texto grego (Textus Receptus, Scrivener 1894)
καὶ πᾶς ὅς ἀφῆκεν οἰκίας, ἢ ἀδελφοὺς, ἢ ἀδελφάς, ἢ πατέρα, ἢ μητέρα, ἢ γυναῖκα, ἢ τέκνα, ἢ ἀγρούς, ἕνεκεν τοῦ ὀνόματός μου, ἑκατονταπλασίονα λήψεται, καὶ ζωὴν αἰώνιον κληρονομήσει.
Transliteração
kai pas hos aphēken oikias, ē adelphous, ē adelphas, ē patera, ē mētera, ē gynaika, ē tekna, ē agrous, heneken tou onomatos mou, hekatontaplasiona lēpsetai, kai zōēn aiōnion klēronomēsei.
Análise palavra por palavra
πᾶς ὅς — pas hos, "todo aquele que". O Textus Receptus traz o pronome relativo simples; as edições críticas trazem ὅστις (hostis), a forma indefinida, "qualquer um que". A diferença de sentido é mínima, e as duas abrem a promessa a pessoas não identificadas.
ἀφῆκεν — aphēken, aoristo do indicativo ativo, terceira pessoa do singular: "deixou". Mesmo verbo que Pedro usou no versículo 27, e mesmo tempo do fato encerrado.
A lista, e a conjunção que a liga
Os oito itens vêm separados por ἢ (ē), a conjunção alternativa: "ou". Não é καί ("e"). O grego enumera opções, e basta uma delas.
οἰκίας — oikias, acusativo plural: "casas". Oikia é a construção; a palavra aparentada oikos designa também a casa como linhagem e patrimônio.
ἀδελφοὺς… ἀδελφάς — adelphous… adelphas, "irmãos… irmãs". A palavra vem de a- (mesmo) e delphys (ventre): os nascidos do mesmo ventre.
πατέρα… μητέρα — patera… mētera, "pai… mãe", os dois no singular, enquanto irmãos e irmãs estão no plural. A distinção é natural: irmãos podem ser vários, pai e mãe são um de cada.
τέκνα — tekna, "filhos", plural neutro. A palavra vem do verbo de dar à luz e designa o filho pela origem, não pela idade.
ἀγρούς — agrous, "campos", a terra cultivada. É o oposto complementar de oikias, e as duas fecham a lista pelas pontas.
A variante "ou mulher"
O Textus Receptus e o texto bizantino trazem ἢ γυναῖκα ("ou mulher") na lista; as edições críticas, seguindo os manuscritos antigos, não trazem a expressão. A ABC segue o Textus Receptus e a mantém. Lucas 18:29 traz "ou mulher" em todas as edições, e uma hipótese corrente é que copistas tenham acrescentado o item aqui por influência de Lucas — como também é possível que o tenham removido por desconforto com a ideia de deixar a esposa. Bengel observa que o substantivo está no singular, enquanto os outros vínculos aparecem no plural.
ἕνεκεν τοῦ ὀνόματός μου — heneken tou onomatos mou, "por causa do meu nome". A preposição indica motivo. Onoma, no uso bíblico, designa a pessoa enquanto reconhecida e invocada, e não o rótulo.
ἑκατονταπλασίονα — hekatontaplasiona, acusativo neutro plural: "cem vezes mais", "cêntuplo". Palavra composta de hekaton (cem) com o sufixo de multiplicação.
O termo aparece três vezes no Novo Testamento, e sempre nos sinóticos: aqui, em Marcos 10:30 e na parábola do semeador de Lucas 8:8. Na Septuaginta ele traduz a colheita de Isaque em Gênesis 26:12. O campo de uso é agrícola.
Lucas 18:30 não traz esse termo e escreve "muito mais". Alguns manuscritos trocam a palavra aqui também, e Meyer relaciona a divergência às diferentes leituras sobre se a compensação ocorre nesta era ou na futura.
λήψεται — lēpsetai, futuro do indicativo médio: "receberá". A grafia do Textus Receptus; as edições críticas trazem λήμψεται, com um eme a mais, forma que os papiros documentam para o mesmo verbo. É variação de ortografia.
O verbo é lambanō, tomar, receber. Ele não vem acompanhado de objeto: o texto diz "receberá cem vezes mais" sem dizer cem vezes mais de quê.
ζωὴν αἰώνιον κληρονομήσει — zōēn aiōnion klēronomēsei, "herdará vida eterna".
Klēronomeō vem de klēros (sorte, quinhão — a parte que cabe a alguém num sorteio de terras) e nemō (distribuir). É o verbo do direito sucessório, e na Septuaginta traduz o vocabulário hebraico da posse da terra prometida.
Na pergunta do versículo 16 o homem usou o verbo "ter". A resposta final do bloco troca esse verbo por este, e a troca põe a vida eterna no vocabulário da família em vez do vocabulário da aquisição.
11. Conclusão
Quatro conclusões, e a quarta é a que o capítulo vinha preparando.
A primeira: a promessa se abre, e é aqui que o leitor entra. Os doze tronos foram prometidos a doze homens nomeáveis; esta frase começa com "todo aquele". Mateus construiu a diferença de propósito, e ela é a fronteira que separa o que pertence àquele grupo do que pertence a qualquer pessoa.
A segunda: a lista é de alternativas, e enumera rupturas que a lei reprovava. Os oito itens vêm ligados por "ou", e basta um. Quatro deles envolvem vínculos protegidos — pai e mãe por mandamento, que este capítulo citou no versículo 19, a mulher por obrigação jurídica, os filhos por dever sem alternativa. O texto não concilia isso com nada, e a única coisa que o separa de um elogio ao abandono é a cláusula "por causa do meu nome".
A terceira: o que Mateus deixou de fora muda a promessa. Marcos traz "agora neste tempo" e "com perseguições"; Mateus não traz nenhum dos dois. O resultado é uma promessa sem data e sem contrapeso, e é essa forma incompleta que circula quando o versículo é lido sozinho. Registrar o acréscimo de Marcos não é harmonizar: é dizer o que cada evangelho tem.
A quarta: a pergunta do versículo 16 é respondida com outro verbo. O homem quis saber o que fazer para ter a vida eterna, e a resposta, treze versículos depois e sem ele presente, diz que ela é herdada. Ter se adquire por ato; herança se recebe por pertencer a uma casa. E a ironia do arranjo é que essa herança é prometida justamente a quem deixou a sua.













