Mas o que foi semeado em boa terra é aquele que ouve a palavra e a entende, e dá fruto, produzindo a cem, a sessenta e a trinta por um.”
1. Introdução
O versículo 23 é o desfecho de tudo. Depois de descrever o semeador lançando a semente e os três terrenos onde ela se perde — o caminho batido, o solo raso sobre a rocha, o meio dos espinhos —, Jesus chega enfim ao quarto tipo de terra, aquela que dá certo. É o único terreno que produz colheita, e por isso carrega o peso de toda a parábola. Se os três primeiros explicam por que a palavra de Deus tantas vezes não frutifica, este último explica o que acontece quando ela encontra o coração certo.
Há uma palavra que amarra a parábola inteira e reaparece aqui como a chave de tudo: entender. O terreno do caminho é aquele que ouve e “não entende” (13:19); a boa terra é a que ouve “e entende”. A diferença entre a esterilidade e a colheita não está na semente — que é sempre a mesma — nem na quantidade de religião, mas nessa compreensão que penetra e permanece. E o fruto que dela nasce não é modesto: cem, sessenta, trinta por um, números de uma fartura que a agricultura da Palestina raramente via.
2. Contexto Histórico e Cultural
Para sentir o impacto dos números finais, é preciso conhecer a agricultura da Galileia do primeiro século. A semeadura era feita a lanço: o lavrador andava pelo campo espalhando os grãos com a mão, e só depois arava a terra para cobri-los. Por isso a semente caía em todo tipo de solo — no caminho que cortava a lavoura, nas manchas de rocha sob uma fina camada de terra, entre as raízes dos espinheiros que rebrotavam. Perder parte da semente era parte esperada do trabalho.
O rendimento normal de uma boa colheita de trigo ou cevada girava, segundo os cálculos dos historiadores da agricultura antiga, em torno de cinco a dez grãos colhidos para cada grão semeado. Um campo que rendesse dez por um já era considerado excelente. Nesse cenário, ouvir Jesus falar em “trinta por um” como o menor dos rendimentos da boa terra — e “cem por um” como o maior — soava a uma colheita quase impossível, uma abundância extraordinária. O grau de exagero é proposital: a boa terra não produz apenas o suficiente, produz muito além do que a experiência comum permitiria esperar.
Vale registrar uma diferença entre os evangelhos, com honestidade. Em Marcos 4:8 e 4:20 os números aparecem em ordem crescente — “trinta, sessenta e cem”; em Mateus, em ordem decrescente — “cem, sessenta e trinta”. A variação é pequena e não muda o sentido, mas mostra que os evangelistas não copiaram mecanicamente uma fórmula fixa: cada um narra a mesma parábola com a sua ordem. Não é uma contradição de conteúdo, é uma diferença de arranjo — o tipo de detalhe que a leitura honesta reconhece em vez de esconder.
3. Análise Teológica do Versículo
“Mas o que foi semeado em boa terra”
Esta frase remete diretamente à parábola do semeador, na qual Jesus descreve os diferentes tipos de solo, que representam os corações das pessoas que ouvem a palavra de Deus. A “boa terra” simboliza um coração receptivo e preparado, aberto para receber o evangelho.
“é aquele que ouve a palavra e a entende.”
Ouvir a palavra implica ter contato com os ensinamentos de Jesus e com a mensagem do evangelho. Entender vai além do simples escutar: envolve compreender e assimilar por dentro a mensagem, torná-la própria.
“e dá fruto”
Dar fruto é uma imagem bíblica frequente para demonstrar os resultados de uma fé genuína. No contexto do Novo Testamento, o fruto costuma se referir à evidência visível na vida de quem crê — aquilo que se vê por fora e comprova o que aconteceu por dentro.
“produzindo a cem, a sessenta e a trinta por um.”
Os rendimentos variados da colheita indicam os diferentes níveis de fecundidade entre os que creem. Nem todos produzem na mesma medida, mas os números aqui mencionados apontam para uma abundância extraordinária, muito acima do que a lavoura comum daria.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus Cristo — aquele que conta a parábola, ensinando sobre o Reino dos Céus por meio de histórias, tanto aos discípulos quanto à multidão. É ele quem, em particular, explica aos discípulos o sentido de cada terreno.
O semeador — representa todo aquele que espalha a palavra de Deus, incluindo o próprio Jesus e os que o seguem.
A semente — simboliza a palavra de Deus, a mensagem do Reino.
A boa terra — representa aqueles que ouvem, entendem e acolhem a palavra, o que conduz ao crescimento espiritual e à fecundidade.
A colheita — o resultado da palavra criando raiz na boa terra; simboliza o fruto espiritual e o impacto da vida de quem crê.
5. Pontos de Ensino
Entender a palavra — o verdadeiro entendimento da palavra de Deus vai além do simples ouvir; envolve compreender e aplicar na própria vida.
O fruto como evidência — a prova de uma fé e de um entendimento genuínos aparece no fruto produzido na vida de quem crê.
Diversidade no rendimento — nem todos os que creem produzirão a mesma quantidade de fruto, mas todos são chamados a ser fecundos na medida que lhes é própria.
A preparação do coração — assim como a terra precisa ser preparada para receber a semente, o coração precisa estar pronto para receber e cuidar da palavra de Deus.
Perseverança no crescimento — o crescimento espiritual e a fecundidade exigem compromisso contínuo e perseverança na fé e na obediência.
6. Aspectos Filosóficos
A parábola do semeador funciona como uma teoria sobre a própria escuta. A mesma semente — a mesma palavra — é lançada sobre todos, e no entanto o resultado é radicalmente diferente. Isso desloca o problema: a questão não está na mensagem, que é única e boa, mas naquilo que a recebe. O que faz a diferença não é o semeador nem a semente, é o terreno. Filosoficamente, é uma afirmação sobre a responsabilidade de quem ouve: diante da mesma verdade, cada um responde conforme a condição do seu próprio coração.
O centro dessa condição é uma palavra: entender. Vale marcar o grau de certeza aqui, porque o texto é claro nesse ponto. Nos quatro terrenos, o único traço que aparece explicitamente contrastado é a compreensão — o caminho “não entende” (13:19), a boa terra “entende” (13:23). O verbo grego, syniēmi, significa literalmente “juntar as peças”, reunir o que estava disperso até que o sentido se forme. Não é um conhecimento apenas intelectual, uma informação a mais na cabeça; é uma compreensão que penetra e transforma, que junta a palavra à vida a ponto de produzir mudança. Entender, aqui, é deixar a palavra chegar ao fundo e ali criar raiz.
Há ainda a questão do fruto desigual — cem, sessenta, trinta. É uma recusa deliberada da uniformidade. A boa terra não produz todos a mesma medida, e o texto não trata isso como problema. Existe uma democracia da fecundidade e, ao mesmo tempo, uma diferença real de capacidade e de circunstância. O que qualifica alguém como “boa terra” não é o tamanho da colheita, mas o fato de haver colheita. O terreno estéril e o fértil não se distinguem pela quantidade de fruto, mas pela presença ou ausência dele.
7. Aplicações Práticas
A primeira aplicação é um exame do próprio modo de ouvir. A parábola não pergunta quanta palavra você já escutou, mas que tipo de terreno você tem sido. É possível frequentar a fé a vida inteira e permanecer caminho batido — ouvindo sem que nada penetre. Vale perguntar com sinceridade: o que ouço de Deus chega a criar raiz em mim, ou escorre por cima sem mudar nada?
A segunda é sobre a diferença entre ouvir e entender. Informação religiosa não falta a quase ninguém hoje. O que a parábola cobra é o passo seguinte: assimilar, deixar a palavra reorganizar a vida por dentro. Entender não é ter escutado uma boa mensagem; é ter permitido que ela mude o modo de viver.
A terceira é aprender a medir a fé pelo fruto, e não pela emoção do momento. A boa terra se reconhece pela colheita, que aparece com o tempo. Sentimentos intensos numa reunião podem ser apenas o solo raso da rocha, que recebe com alegria e murcha ao primeiro calor. O sinal seguro é outro: o que permanece e produz meses e anos depois.
A quarta é uma libertação da comparação. Se os rendimentos variam — cem, sessenta, trinta —, então a régua não é o quanto o outro produz. Cada terra fértil dá conforme a sua capacidade, e todas contam como boa terra. Isso alivia tanto o orgulho de quem produz muito quanto o desânimo de quem sente que produz pouco.
A quinta é sobre cuidar do terreno. Nenhum solo se torna fértil sozinho — remove-se a pedra, arranca-se o espinho, prepara-se a terra. Na vida de fé, isso tem nomes concretos: arrancar as preocupações que sufocam (os espinhos de 13:22), aprofundar o que é raso, tirar do caminho o que endurece o coração. O terreno bom não é um dado de nascença; em boa parte, é uma escolha cultivada.
A sexta é ver a si mesmo também como semeador. Se a palavra frutificou em você, parte desse fruto é espalhar a mesma semente. A boa terra não apenas recebe: ela multiplica, e a multiplicação transborda para os outros.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Qual é o significado de Mateus 13:23?
É a explicação do quarto e último terreno da parábola do semeador — o único que dá colheita. A boa terra representa a pessoa que ouve a palavra de Deus e a entende de verdade, e por isso produz fruto em abundância. O versículo fecha a parábola apontando o que faz a diferença: não a semente, sempre a mesma, mas o coração que a recebe e a compreende.
2. Como garantir que o nosso coração seja “boa terra” para a palavra de Deus?
Preparando o terreno. Assim como o lavrador remove pedras e espinhos, é preciso tirar do coração aquilo que endurece (a indiferença), aquilo que é raso (a fé só de emoção) e aquilo que sufoca (as preocupações e a ganância de 13:22). Boa terra não é um estado automático; é fruto de cuidado — escuta atenta, disposição a mudar e persistência.
3. Que passos podemos dar para “ouvir e entender” a mensagem de Deus?
Ouvir com atenção e sem pressa, buscar de fato compreender o sentido em vez de apenas registrar palavras, e ligar o que se ouve à própria vida. Entender, no sentido da parábola, é juntar as peças até a palavra fazer sentido e gerar mudança — o oposto de ouvir por cima e seguir igual.
4. Como Mateus 13:23 se relaciona com a parábola do semeador?
É o seu ponto de chegada. Os versículos anteriores descrevem os três terrenos que fracassam; este descreve o que dá certo. Sem ele, a parábola seria só um diagnóstico de fracassos; com ele, torna-se uma promessa: onde a palavra é acolhida e entendida, a colheita é certa e farta.
5. De que maneiras podemos “produzir uma colheita” no dia a dia?
Pelo fruto visível de uma vida transformada — o caráter que Paulo chama de fruto do Espírito (amor, alegria, paz, paciência), as boas obras, a fidelidade nas pequenas coisas e o testemunho que espalha a mesma palavra a outros. A colheita não é um único gesto grandioso, mas o acúmulo constante do que a palavra vai produzindo por dentro.
6. Como o dar fruto reflete a nossa fé e obediência a Cristo?
O fruto é a evidência, não a causa, da fé. Ele mostra que a palavra criou raiz de verdade. Uma fé que não muda nada na vida se parece com os terrenos estéreis; a fé genuína se comprova com o tempo, pela colheita que produz. Obedecer é justamente deixar a palavra frutificar em vez de estancá-la.
7. O que Mateus 13:23 revela sobre a natureza da fé e do entendimento verdadeiros?
Que fé verdadeira não é apenas ouvir nem apenas sentir — é entender e permanecer, a ponto de produzir. O entendimento aqui não é erudição, mas uma compreensão que penetra e transforma. E a fé genuína é fecunda por natureza: onde há vida, há fruto.
8. Por que o rendimento da colheita é diferente — cem, sessenta, trinta?
Porque a fecundidade real varia de pessoa para pessoa, conforme a capacidade e as circunstâncias de cada uma. O texto não trata isso como defeito. Todas as três medidas são colheita de boa terra. O que separa a terra fértil da estéril não é quanto ela produz, mas o fato de produzir.
9. Como a “boa terra” se relaciona com o crescimento espiritual pessoal?
O crescimento é o processo da boa terra em ação: a semente cria raiz, se desenvolve e amadurece até dar fruto. Não é instantâneo. Exige o cuidado contínuo do terreno e a perseverança de quem não desiste no primeiro calor nem se deixa sufocar pelos espinhos.
9. Conexão com Outros Textos
“Eu sou a videira, vós sois os ramos; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (João 15:5)
Jesus explica de onde vem a fecundidade da boa terra: da permanência nele. O fruto não é uma produção do próprio esforço, mas o que nasce da ligação viva com ele. A boa terra dá fruto porque a palavra criou raiz e a mantém unida à fonte.
“Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra essas coisas não há lei.” (Gálatas 5:22-23)
Aqui está o nome concreto do fruto que a boa terra produz. Não é uma colheita abstrata: é caráter transformado, o modo de ser que a palavra, acolhida e entendida, vai formando por dentro de quem crê.
“e sede praticantes da palavra, e não somente ouvintes, enganando a vós mesmos.” (Tiago 1:22)
Tiago retoma o mesmo contraste da parábola. Ouvir sem praticar é o terreno estéril; a boa terra é a que ouve, entende e faz. Escutar a palavra sem deixá-la frutificar é, segundo Tiago, um autoengano.
“Porque ele será como uma árvore, plantada junto a ribeiros de águas, que dá fruto a seu devido tempo, e suas folhas não caem; e tudo quanto fizer prosperará.” (Salmos 1:3)
A mesma imagem, séculos antes: quem se alimenta da palavra de Deus é como a árvore fértil que dá fruto no tempo certo. O Salmo 1 já ligava a meditação constante na palavra à fecundidade — exatamente o retrato da boa terra.
“para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus;” (Colossenses 1:10)
Paulo une os dois traços da boa terra: frutificar e crescer no conhecimento — ou seja, dar fruto e entender. É a vida cristã descrita nos mesmos termos da parábola: o entendimento que cresce e a colheita que dele resulta caminham juntos.
10. Original Grego e Análise
Texto em português (nossa tradução do Textus Receptus): “Mas o que foi semeado em boa terra é aquele que ouve a palavra e a entende, e dá fruto, produzindo a cem, a sessenta e a trinta por um.”
Texto grego (Textus Receptus): ὁ δὲ ἐπὶ τὴν καλὴν γῆν σπαρείς, οὗτός ἐστιν ὁ τὸν λόγον ἀκούων καὶ συνιών· ὃς δὴ καρποφορεῖ, καὶ ποιεῖ ὁ μὲν ἑκατόν, ὁ δὲ ἑξήκοντα, ὁ δὲ τριάκοντα.
Transliteração: “ho dè epì tền kalền gền spareís, hoûtós estin ho tòn lógon akoúōn kaì syniṓn; hòs dề karpophoreî, kaì poieî ho mèn hekatón, ho dè hexḗkonta, ho dè triákonta.”
Palavra a palavra
“Spareís” (σπαρείς) é o particípio aoristo passivo de speírō, “semear”. Traduz-se “o que foi semeado”. É a mesma raiz do “semeador” e da “semente” que abrem a parábola: tudo aqui gira em torno do ato de semear. O particípio passivo marca que a pessoa é objeto da ação — ela recebe a semente, não a fabrica; a palavra vem de fora e é lançada sobre ela.
“Kalền gền” (καλὴν γῆν) é “boa terra”. O adjetivo kalós significa bom no sentido pleno — belo, útil, próprio para a sua função. Não é a terra bonita à vista, é a terra que serve para o que a terra existe: dar colheita. Boa terra é a que cumpre a sua vocação de frutificar.
“Akoúōn” (ἀκούων) é o particípio presente de akoúō, “ouvir”. O tempo presente indica uma ação contínua: não é quem ouviu uma vez, é quem está sempre ouvindo. A escuta da boa terra é permanente, não um episódio isolado.
“Syniṓn” (συνιών) é o particípio presente de syníēmi, “entender”, “compreender”. A palavra é formada de syn (“junto”) e hiēmi (“enviar”, “lançar”) — literalmente, “juntar as peças”, reunir o disperso até o sentido se formar. É a palavra-chave de toda a parábola: o terreno do caminho é o que ouve e “não entende” (mē syniéntos, 13:19); a boa terra é a que ouve “e entende”. Toda a diferença entre a esterilidade e a colheita está concentrada neste verbo.
“Karpophoreî” (καρποφορεῖ) é o presente de karpophoréō, “dar fruto” — de karpós (“fruto”) e phérō (“levar”, “produzir”). Literalmente “carregar fruto”, como o galho que se curva sob o peso. O presente contínuo pinta uma fecundidade que se repete, não uma safra única.
“Poieî” (ποιεῖ) é o presente de poiéō, “fazer”, “produzir”. Reforça o anterior: a boa terra não só carrega fruto, ela o produz efetivamente, leva a colheita até o fim.
“Hekatón, hexḗkonta, triákonta” (ἑκατόν, ἑξήκοντα, τριάκοντα) são “cem, sessenta, trinta”. A construção ho mèn... ho dè... ho dè — “um... outro... outro” — distribui os rendimentos entre diferentes porções da boa terra. Num campo cujo bom rendimento normal beirava dez por um, esses números descrevem uma abundância fora do comum.
Nota textual e teológica
Duas observações de crítica textual, ditas com transparência. Primeira: o Textus Receptus, base da nossa tradução, traz aqui synión e a ordem “cem, sessenta, trinta” (decrescente), a mesma que o texto grego crítico moderno também apresenta em Mateus; a diferença de ordem em relação a Marcos (crescente: trinta, sessenta, cem) é uma variação entre os evangelhos, não entre manuscritos, e não altera o sentido. Segunda: a força do versículo está menos nos detalhes e mais na palavra syníēmi. Ao fazer do “entender” o traço que separa a boa terra das outras, Mateus responde à pergunta que o próprio capítulo levantou — por que Jesus fala por parábolas (13:10-17). As parábolas revelam e escondem ao mesmo tempo: iluminam quem se dispõe a entender e permanecem enigma para quem ouve por cima. A boa terra é, então, o retrato de quem atravessa o enigma até a compreensão, e cuja compreensão, por ser real, não fica estéril — vira colheita. O mistério do Reino não é para os que apenas escutam, mas para os que ouvem e entendem.
11. Conclusão
Depois de três terrenos que fracassam, a parábola respira: existe boa terra, e onde ela existe a colheita é certa e farta. Mateus 13:23 é a promessa que sustenta toda a parábola. A semente é sempre boa, o semeador é generoso a ponto de lançá-la em todo lugar, e em algum terreno ela encontra o que precisa — um coração que ouve e entende — e ali multiplica-se muito além do esperado.
O peso da parábola recai sobre uma palavra: entender. Não a erudição de quem acumula informação, mas a compreensão que junta as peças e deixa a palavra criar raiz até mudar a vida. Essa é a fronteira entre o caminho batido e a terra fértil. E o fruto que dela nasce não é uniforme — cem, sessenta, trinta —, o que livra tanto do orgulho de quem produz muito quanto do desânimo de quem produz menos. O que qualifica a boa terra não é o tamanho da colheita, mas o fato de haver colheita.
Fica, no fim, uma pergunta que a parábola devolve a cada um que a ouve: de que terra o meu coração tem sido feito? A mesma semente cai sobre todos. A diferença — entre a vida seca e a lavoura carregada de fruto — se decide no terreno. E o convite que atravessa o texto é justo este: preparar a terra, arrancar a pedra e o espinho, ouvir de verdade e entender, para que a palavra, enfim, produza a cem, a sessenta e a trinta por um.













