O que foi semeado entre os espinhos é aquele que ouve a palavra, mas as preocupações desta vida e a sedução das riquezas sufocam a palavra, tornando-a infrutífera.
1. Introdução
Este versículo faz parte da explicação que Jesus dá em particular aos discípulos, depois de contar a parábola do semeador à multidão. A partir do versículo 18, ele decodifica a história semente por semente, solo por solo. Já tratou da terra do caminho, onde a palavra nem chega a entrar, e do solo pedregoso, onde ela brota rápido e murcha na primeira dificuldade. Agora chega ao terceiro terreno: a terra cheia de espinhos.
Aqui a semente não é arrancada de imediato nem seca por falta de raiz. Ela germina, cresce, promete. E ainda assim não dá fruto — porque é lentamente estrangulada pelo mato que cresce ao redor. Jesus nomeia esse mato com precisão: as preocupações desta vida e a sedução das riquezas. É talvez o mais inquietante dos quatro solos, porque não retrata o incrédulo nem o perseguido, mas a pessoa comum, ocupada e razoavelmente confortável, que ouve a palavra e a deixa asfixiar sem nunca perceber o que está acontecendo.
2. Contexto Histórico e Cultural
Para o agricultor da Palestina do primeiro século, o espinho não era uma imagem poética: era uma praga diária. Os campos da Galileia e da Judeia conviviam com uma vegetação rasteira agressiva — cardos, urtigões e arbustos espinhosos que rebrotavam das raízes por mais que se limpasse o terreno. Quem semeava sabia que, se o solo não fosse bem arado e capinado, as ervas daninhas venceriam a disputa: crescem mais rápido, roubam a água, a luz e os nutrientes, e sufocam o trigo antes que ele amadureça. Jesus fala a ouvintes que conheciam essa cena de cor. A imagem do bom grão abafado pelo mato não precisava de explicação técnica; qualquer camponês já tinha perdido uma parte da colheita exatamente assim.
Há também um pano de fundo social. A vida no interior da Judeia era dura: impostos pesados — de Roma, de Herodes e do templo —, colheitas incertas, dívidas, a insegurança de quem dependia da terra para comer. As "preocupações desta vida" não eram, para aquela audiência, um problema abstrato de gente rica entediada; eram a angústia concreta de conseguir o pão. E, no outro extremo, estava a atração do dinheiro como saída para toda essa insegurança. Jesus junta os dois pólos — a angústia de quem tem pouco e o fascínio de quem quer muito — sob a mesma figura do espinheiro. Ambos, o medo de faltar e a sede de acumular, brotam da mesma raiz e produzem o mesmo efeito: abafam a palavra.
Vale lembrar o gênero do texto. Uma parábola, em regra, tem um único ponto central e não deve ser lida como uma alegoria em que cada detalhe esconde um significado. A parábola do semeador é uma das pouquíssimas exceções: o próprio Jesus a interpreta ponto a ponto, atribuindo sentido a cada tipo de solo. Por isso, aqui, a leitura elemento por elemento não é forçada — é a que o próprio texto autoriza. Logo antes, em 13:11-15, Jesus havia falado do "mistério do Reino", que se revela a uns e se oculta a outros, citando Isaías 6. A explicação dos solos é justamente esse mistério sendo aberto para os discípulos: por que a mesma palavra, semeada do mesmo modo, dá resultados tão diferentes de pessoa para pessoa.
3. Análise Teológica do Versículo
“O que foi semeado entre os espinhos”
Esta expressão se refere a um dos quatro tipos de solo da parábola do semeador, que Jesus usa para ilustrar as diferentes respostas ao evangelho. Os “espinhos” simbolizam os obstáculos e as distrações que impedem o crescimento espiritual. Na Palestina antiga, espinhos e ervas daninhas eram comuns nos campos e representavam os desafios que os agricultores enfrentavam. No plano espiritual, esses espinhos representam as preocupações do mundo, que podem enredar o crente e impedir que a semente da palavra crie raiz e floresça.
“é aquele que ouve a palavra”
Ouvir a palavra significa receber a mensagem do evangelho. No contexto cultural do tempo de Jesus, a tradição oral era o principal meio de comunicação, e ouvir era muitas vezes o primeiro passo para aprender e compreender. Esta frase enfatiza que a pessoa foi exposta à verdade do evangelho, destacando a aceitação ou o reconhecimento inicial da mensagem.
“mas as preocupações desta vida”
Esta parte do versículo trata das inquietações e ansiedades cotidianas que podem dominar o pensamento de uma pessoa. No contexto histórico, a vida na Judeia do primeiro século era marcada por instabilidade política, dificuldade econômica e pressões sociais. Essas preocupações podem desviar o crente das questões espirituais, mostrando como os cuidados passageiros conseguem ofuscar as verdades eternas.
“e a sedução das riquezas”
A riqueza é retratada como enganosa porque cria uma falsa sensação de segurança e autossuficiência. Nos tempos bíblicos, como hoje, a riqueza era muitas vezes vista como sinal do favor de Deus; ainda assim, Jesus adverte que ela pode levar à acomodação espiritual. Isso se conecta a outras passagens, como 1 Timóteo 6:10, que adverte que o amor ao dinheiro é raiz de todos os tipos de males, e Mateus 6:24, onde Jesus afirma que ninguém pode servir a Deus e às riquezas ao mesmo tempo.
“sufocam a palavra”
A imagem do sufocamento sugere uma supressão violenta do crescimento. Assim como os espinhos podem estrangular fisicamente uma planta, as preocupações do mundo e a busca pela riqueza podem abafar o desenvolvimento espiritual. Essa metáfora ressalta o poder destrutivo dessas distrações, que impedem a palavra de prosperar na vida do crente.
“e ela se torna infrutífera”
A fecundidade é uma metáfora bíblica comum para o crescimento e a produtividade espiritual. Em João 15:5, Jesus se descreve como a videira e seus seguidores como os ramos, enfatizando a importância de permanecer nele para dar fruto. A ausência de fruto aqui indica a falha em viver o poder transformador do evangelho, resultando numa vida que não reflete os valores e as virtudes do Reino de Deus.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus Cristo — quem conta a parábola, ensinando sobre o Reino dos Céus por meio de parábolas, aos discípulos e à multidão.
O semeador — representa qualquer pessoa que espalha a palavra de Deus.
A semente — simboliza a palavra de Deus.
Os espinhos — representam as preocupações da vida e a sedução das riquezas, que sufocam a palavra.
A multidão — a audiência que ouve as parábolas de Jesus, incluindo os discípulos e os demais reunidos ao redor dele.
5. Pontos de Ensino
O perigo das distrações — os espinhos simbolizam as distrações que podem impedir o crescimento espiritual. Os crentes precisam estar atentos para não deixar que as preocupações da vida e a busca pela riqueza encubram a sua fé.
A natureza enganosa da riqueza — a riqueza pode ser enganosa, prometendo segurança e felicidade, mas muitas vezes conduzindo à esterilidade espiritual. Os cristãos são chamados a buscar primeiro o Reino de Deus, e não os bens materiais.
Cultivar uma vida frutífera — para não ficar sem fruto, o crente deve concentrar-se em cuidar da sua relação com Deus, dando prioridade ao crescimento espiritual em vez das preocupações do mundo.
A importância da perseverança — o crescimento espiritual exige perseverança e a remoção intencional dos obstáculos que impedem a palavra de criar raiz na nossa vida.
Fé ativa — ouvir a palavra não basta; o crente precisa aplicá-la ativamente à sua vida para dar fruto. Isso implica o compromisso de viver os princípios bíblicos no dia a dia.
6. Aspectos Filosóficos
Há algo profundamente honesto na escolha desta imagem. Os outros solos falam de rejeição clara: o caminho é o coração fechado, a terra pedregosa é o entusiasmo que não resiste à provocação. O solo dos espinhos, porém, não rejeita nada. Ele acolhe a semente, deixa-a crescer, não levanta objeção alguma. O problema não é uma decisão contra a palavra — é a ausência de decisão a favor dela. A morte vem por negligência, não por hostilidade. Por isso este é o retrato mais desconfortável dos quatro, porque descreve exatamente a maioria das pessoas religiosas de qualquer época: gente que ouve, concorda, até se emociona, e cuja fé vai sendo silenciosamente abafada pelo peso das ocupações.
Duas forças fazem esse trabalho, e Jesus as coloca lado a lado como se fossem irmãs. A primeira é a preocupação — a mente sempre ocupada com o que pode dar errado, com as contas, com o amanhã. A segunda é a sedução das riquezas, e a palavra “sedução” é exata: a riqueza engana porque promete uma segurança que não pode cumprir. Repare que uma é o medo de faltar e a outra é o desejo de ter; parecem opostas, mas nascem da mesma fonte — a convicção de que a vida se resolve no plano material. Quem tem pouco se afoga na angústia; quem tem muito se ilude com a falsa firmeza. Nos dois casos, o coração fica tão cheio de terra que não sobra espaço para o céu.
A pergunta que a cena levanta é antiga e continua atual: o que ocupa de fato o centro de uma vida? Não o que a pessoa declara valorizar, mas aquilo em que a mente realmente gasta as suas horas. O espinheiro raramente se anuncia como inimigo da fé; ele apenas cresce, ocupa, consome tempo e atenção, até que um dia se percebe que a semente boa, aquela que um dia comoveu, simplesmente parou de crescer. Não houve um golpe — houve um abafamento lento, e ninguém marcou a data em que aconteceu.
7. Aplicações Práticas
Examinar o que ocupa a mente — vale olhar com honestidade para onde vão de fato os pensamentos ao longo do dia. O que enche a cabeça nas horas vazias revela o que está realmente crescendo no terreno do coração.
Distinguir cuidado de ansiedade — preocupar-se com o sustento não é pecado; o problema é quando a preocupação vira senhora, dominando tudo e sufocando a confiança em Deus. O cuidado prudente organiza a vida; a ansiedade a estrangula.
Desconfiar da promessa do dinheiro — a riqueza não é condenada em si, mas a sua “promessa” é. Ela sussurra que, com um pouco mais, viria a segurança e a paz. Reconhecer essa promessa como falsa é o começo para não ser enganado por ela.
Capinar o terreno com regularidade — assim como o agricultor não limpa o campo uma vez só, a vida espiritual pede uma poda constante. Cortar compromissos em excesso, hábitos que consomem sem alimentar, e abrir espaço deliberado para o que importa.
Buscar primeiro o Reino — a ordem das prioridades muda tudo. Quando Deus ocupa o centro, as demais coisas encontram o seu lugar; quando fica à margem, é a primeira a ser abafada pelo resto.
Passar do ouvir ao fazer — o solo dos espinhos ouve, mas não frutifica. Ouvir um bom ensino, sentir-se tocado e nada mudar é justamente o retrato desse terreno. O fruto só aparece quando a palavra ouvida vira prática.
Vigiar nos tempos de fartura — curiosamente, o perigo dos espinhos costuma crescer não na crise, mas no conforto. É na abundância, quando tudo parece resolvido, que a fé mais silenciosamente definha. Os dias bons pedem mais vigilância, não menos.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Qual é o significado de Mateus 13:22?
Descreve o terceiro tipo de solo da parábola do semeador: a pessoa que ouve a palavra e a recebe, mas deixa que as preocupações da vida e o fascínio da riqueza cresçam ao redor dela como espinhos, até abafá-la. A semente germina, mas nunca chega a dar fruto. É o retrato da fé sufocada pelo excesso de mundo.
2. Como as “preocupações desta vida” atrapalham o crescimento espiritual?
Elas ocupam a mente e o coração. Quando o pensamento vive tomado pelas contas, pelo trabalho, pelo medo do amanhã, sobra pouco espaço e pouca energia para a palavra. Não é preciso negar a fé para perdê-la de vista; basta deixá-la em último lugar, sempre adiada, até que definha por falta de atenção.
3. O que é a “sedução das riquezas” e qual o seu impacto sobre a fé?
É o poder que o dinheiro tem de enganar. Ele promete a segurança, o descanso e a felicidade que só Deus pode dar, e assim desloca o coração do seu centro verdadeiro. O impacto é uma acomodação espiritual: a pessoa se sente tão amparada pelos bens que já não sente falta de Deus — e não percebe o quanto ficou pobre por dentro.
4. Como se proteger de ser “sufocado pelas preocupações”?
Com uma poda deliberada e constante. Isso significa nomear o que está tomando conta da vida, cortar excessos, reservar tempo protegido para Deus e devolver às preocupações o seu tamanho real, entregando-as em oração (Filipenses 4:6). O terreno bom não é o que nunca tem espinhos, mas o que é capinado com regularidade.
5. Como Mateus 13:22 se relaciona com 1 Timóteo 6:10?
Os dois textos apontam para o mesmo perigo por ângulos diferentes. Aqui, a riqueza “seduz” e abafa a palavra; ali, o “amor ao dinheiro” é chamado de raiz de todos os tipos de males, capaz de desviar da fé quem se deixa levar por ele. Um mostra o efeito (a fé infrutífera), o outro mostra a raiz (o apego ao dinheiro).
6. Que passos práticos ajudam a colocar a palavra de Deus acima das preocupações?
Estabelecer prioridades claras, reservando tempo diário para a palavra antes que a agenda o engula; entregar as angústias em oração em vez de ruminá-las; simplificar a vida, cortando o que consome sem alimentar; e cultivar a comunhão com outros crentes, que ajuda a manter o foco. São gestos pequenos e repetidos — a capina de cada dia.
7. Como este versículo se relaciona com o materialismo de hoje?
De forma direta. A cultura atual multiplica os espinhos: consumo, comparação constante, a promessa de que a próxima compra trará a felicidade. A advertência de Jesus atravessa os séculos intacta — o excesso de mundo continua sendo o modo mais comum, e o mais silencioso, de uma fé secar sem que ninguém note.
8. O que o versículo ensina sobre o perigo da riqueza e das preocupações mundanas?
Que ambas, embora pareçam inofensivas, são mortais para a vida espiritual quando ocupam o centro. Não precisam ser pecados escandalosos; basta que cresçam sem controle. O perigo não está em ter posses ou responsabilidades, mas em deixá-las tomar o lugar que pertence a Deus.
9. Como o crente pode vencer a “sedução das riquezas”?
Desmascarando a promessa falsa que a riqueza faz e ancorando a segurança em Deus, não na conta bancária (1 Timóteo 6:17). A generosidade é uma arma prática: quem dá quebra o domínio do dinheiro sobre o coração e prova, na prática, que não é escravo dele.
9. Conexão com Outros Textos
“mas as preocupações do mundo, a sedução das riquezas, e as cobiças por outras coisas, entram, sufocam a palavra, e ela fica sem gerar fruto.” (Marcos 4:19)
O relato paralelo de Marcos usa quase as mesmas palavras e acrescenta um terceiro espinho: “as cobiças por outras coisas”. Ou seja, não é só a ansiedade nem só o dinheiro — é tudo aquilo que, entrando no coração, disputa o lugar da palavra.
“E o que caiu entre espinhos são os que ouviram, e indo, sufocam-se com as preocupações, e riquezas, e prazeres da vida, e não produzem bom fruto.” (Lucas 8:14)
Lucas soma ainda os “prazeres da vida” à lista. Os três evangelistas concordam no essencial: o solo dos espinhos é o do coração dividido, ocupado ao mesmo tempo pela palavra e por aquilo que a abafa.
“Pois o amor ao dinheiro é raiz de todos os tipos de males. Alguns o cobiçam, e então se desviaram da fé, e perfuraram a si mesmos com muitas dores.” (1 Timóteo 6:10)
Paulo descreve o mecanismo por dentro: o apego ao dinheiro não só sufoca a fé, chega a fazer a pessoa se desviar dela. É a “sedução das riquezas” do versículo levada às últimas consequências.
“Ninguém pode servir a dois senhores; pois ou odiará um e amará outro; ou se apegará a um, e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.” (Mateus 6:24)
No mesmo evangelho, Jesus já havia dito por que a riqueza sufoca: ela quer ser senhora, e o coração não comporta dois senhores. O espinheiro é exatamente essa disputa acontecendo dentro da pessoa.
“E disse-lhes: Olhai, e tomai cuidado com a ganância; porque a vida de alguém não consiste na abundância dos bens que possui.” (Lucas 12:15)
A advertência contra a mentira central que a riqueza conta: a de que a vida se mede pelo que se acumula. Desmontar essa mentira é arrancar o espinho pela raiz.
10. Original Grego e Análise
Texto em português (nossa tradução do Textus Receptus): “O que foi semeado entre os espinhos é aquele que ouve a palavra, mas as preocupações desta vida e a sedução das riquezas sufocam a palavra, tornando-a infrutífera.”
Texto grego (Textus Receptus): ὁ δὲ εἰς τὰς ἀκάνθας σπαρείς, οὗτός ἐστιν ὁ τὸν λόγον ἀκούων, καὶ ἡ μέριμνα τοῦ αἰῶνος τούτου καὶ ἡ ἀπάτη τοῦ πλούτου συμπνίγει τὸν λόγον, καὶ ἄκαρπος γίνεται.
Transliteração: “ho de eis tas akánthas spareís, hoútós estin ho tòn lógon akoúōn, kaì hē mérimna toû aiônos toútou kaì hē apátē toû ploútou sympnígei tòn lógon, kaì ákarpos gínetai.”
Palavra a palavra
“Akánthas” (ἀκάνθας) é o acusativo plural de ákantha, “espinho”, “planta espinhosa”. É a mesma palavra que aparece na coroa de espinhos da paixão (Mateus 27:29). Designa a vegetação daninha e agressiva dos campos da Palestina. Aqui não é uma pedra no caminho nem uma seca passageira: é um organismo vivo que compete com o trigo pelo mesmo solo — e, por ser mais rápido e resistente, tende a vencer.
“Spareís” (σπαρείς) é o particípio aoristo passivo de speírō, “semear” — literalmente “aquele que foi semeado”. A forma passiva é significativa: a pessoa é o solo que recebeu a semente, não quem a lançou. A responsabilidade está no que ela permite crescer ao lado da palavra.
“Mérimna” (μέριμνα) é “preocupação”, “ansiedade”, “cuidado que divide a mente”. A raiz está ligada à ideia de “repartir”, “fragmentar” — a ansiedade que puxa a atenção para vários lados e não deixa a pessoa inteira em lugar nenhum. É o mesmo termo que Jesus usa no Sermão do Monte ao dizer “não andeis ansiosos” (Mateus 6:25).
“Aiônos toútou” (αἰῶνος τούτου) significa “deste século”, “desta era”. Aión é mais do que “vida” no sentido biológico; é a ordem presente do mundo, com os seus valores e a sua lógica. As “preocupações deste século” são as angústias que nascem de viver como se este mundo fosse tudo o que existe.
“Apátē” (ἀπάτη) é “engano”, “ilusão”, “logro”. Traduzimos por “sedução” porque o sentido é o de uma mentira sedutora: a riqueza não abafa a fé pela força, e sim pela promessa falsa que faz. Ela ilude, criando a sensação de segurança e suficiência que só Deus pode dar de verdade.
“Ploútou” (πλούτου) é “riqueza”, “abundância de bens”. Note que o texto não condena a riqueza em si, mas a “apátē do ploútos” — o engano que ela carrega. O perigo não está em ter, e sim em acreditar na mentira que o ter sussurra.
“Sympnígei” (συμπνίγει) é o verbo mais forte do versículo. Vem de syn (“junto”, reforçando) + pnígō, “sufocar”, “estrangular”, “afogar”. É a mesma raiz usada quando os porcos se “afogam” no mar (Marcos 5:13). A imagem é de estrangulamento: os espinhos não cortam a planta, eles a apertam por todos os lados até tirar-lhe o ar e a luz. E o presente do indicativo (“sufocam”, ação em curso) mostra que não é um golpe único, mas um processo contínuo.
“Ákarpos” (ἄκαρπος) é “sem fruto”, “infrutífero” — formado pelo a- privativo (negação) + karpós, “fruto”. É a palavra que sela a tragédia deste solo. A planta viveu, cresceu, ocupou espaço — mas terminou sem produzir nada. Para Jesus, uma fé sem fruto é uma fé que, no fim, falhou no seu propósito.
Nota teológica
O vocabulário do versículo desenha um contraste preciso. De um lado, a palavra (“lógos”), semeada, viva, capaz de dar fruto. Do outro, dois inimigos que não a atacam de frente: a “mérimna”, que fragmenta a mente, e a “apátē”, que ilude o coração. O verbo “sympnígei” amarra tudo: não há arrancamento nem seca, há asfixia. E vale reconhecer com honestidade uma marca deste texto: aqui, ao contrário da maioria das parábolas — que têm um só ponto e não devem ser dissecadas detalhe por detalhe —, é o próprio Jesus quem interpreta cada elemento. Isso nos autoriza a ler os espinhos como as preocupações e as riquezas, sem forçar sentidos ocultos: é a chave que o texto mesmo entrega. O que ele não resolve — e não pretende resolver — é se um solo pode mudar. A parábola descreve; ao leitor cabe perguntar em qual terreno está, e o que, na sua vida, anda crescendo entre o trigo.
11. Conclusão
O terceiro solo é o mais parecido conosco. Não é o coração duro do caminho nem o entusiasmo raso da pedra; é a pessoa séria, que ouve, concorda e leva a sério — e cuja fé, mesmo assim, não dá fruto. Não porque a rejeitou, mas porque nunca fez espaço para ela crescer. As preocupações e o dinheiro foram ocupando o terreno, dia após dia, até que a semente boa, sem ar e sem luz, parou de crescer.
A advertência é severa justamente porque é discreta. Nenhum grande pecado derruba esse crente; é o acúmulo de coisas legítimas — o trabalho, as contas, os projetos, os bens — que, sem poda, viram um matagal. Jesus não pede que ninguém deixe de trabalhar ou de cuidar da vida. Ele pede vigilância: que se reconheça a força silenciosa dos espinhos e se capine o terreno com regularidade, para que a palavra tenha espaço de virar fruto. No fim, a pergunta que a parábola deixa é simples e desconfortável: no meu campo, o que anda crescendo mais depressa — o trigo ou o espinho?













