📖 Navegar na Bíblia:
‹

Mateus 19:27

›
✍️ Por Alberto Adriano·20 de setembro de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 30 acessos
Então Pedro lhe disse: “Nós deixamos tudo e te seguimos; o que, então, teremos?”
Redes de pesca e um barco pequeno encostados na margem de um lago, vazios, ao amanhecer.

Estudo


Então Pedro lhe disse: “Nós deixamos tudo e te seguimos; o que, então, teremos?”

1. Introdução

Pedro fala sozinho pela primeira vez neste capítulo, e o que ele diz é uma conta. Duas colunas: do lado deles, o que foi deixado e o seguimento; do outro, um espaço em branco que ele pede para preencher. A pergunta nasce do contraste com o homem que acabou de sair — ele não deixou, eles deixaram. O tom é discutido desde os primeiros comentaristas, e as leituras vão de ganância disfarçada a insegurança legítima. Jesus responde sem repreender, e a repreensão, se houver, só aparece três versículos adiante.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quanto era "tudo"

Barnes calcula sem cerimônia: provavelmente nada além das redes de pesca, dos barcos pequenos e das casas. A estimativa é justa, e ela precisa de detalhe para pesar o que pesava.

A pesca no lago da Galileia não era ofício de gente sozinha. Era uma cadeia. Um barco recuperado em 1986 no fundo do lago, entre Cafarnaum e Migdal, mede pouco mais de oito metros e comportava com folga cinco a sete homens trabalhando — e até quinze apertados. A madeira é de qualidade baixa, remendada com espécies diferentes, sinal de uma embarcação consertada muitas vezes ao longo de décadas.

Em torno dessas embarcações havia sócios e assalariados. Lucas 5:10 chama Tiago e João de sócios de Simão, com a palavra grega da associação comercial; Marcos 1:20 registra que Zebedeu ficou no barco com os empregados. Não se trata, portanto, de subsistência isolada: era uma pequena empresa familiar com gente contratada.

E havia mercado. Migdal, na margem oeste do lago, era conhecida entre os gregos como Tariqueia, nome que vem da palavra para peixe salgado. As escavações no sítio encontraram mercado com dezenas de lojas, tanques de processamento, pesos de rede às centenas e milhares de moedas. O peixe salgado do lago viajava para Jerusalém e para fora da província. Cafarnaum tinha cais de pedra para tráfego regular de barcos, não um ancoradouro improvisado.

Sobre tudo isso incidiam taxas. A pesca no lago estava sob o governo de Herodes Antipas, e a arrecadação passava por concessionários e postos de cobrança — a coletoria em que Mateus estava sentado, segundo Mateus 9:9, ficava exatamente nessa rota.

O que Pedro deixou, então, não era miséria nem fortuna: era um negócio funcionando, com sócios, empregados, equipamento e acesso a um mercado que exportava. Bengel resume o ponto com precisão: as poucas coisas do operário são tanto o "tudo" dele quanto as muitas coisas do sátrapa são o dele.

Deixar a casa para seguir um mestre

A prática existia no judaísmo, e havia regra sobre ela.

O estudo da Torá com um mestre podia exigir ausência longa, e os tratados discutem por quanto tempo um estudante pode deixar a mulher sem o consentimento dela — a posição registrada no tratado Ketubot fala em dois ou três anos. A existência da discussão mostra que o afastamento era comum o bastante para precisar de norma.

O caso extremo que a tradição guardou é o de Rabi Akiva. A história, contada no tratado Ketubot 62b, diz que ele era pastor a serviço de Ben Kalba Savua, homem rico de Jerusalém, e que a filha deste aceitou casar-se com ele com a condição de que fosse estudar. Ele passou doze anos na casa de estudo, e a narrativa acrescenta outros doze. A família dela o deserdou pelo casamento.

A diferença entre esse modelo e o que Pedro descreve é de destino. O estudante judeu deixava a casa para estudar, e voltava; o que Pedro afirma é ter deixado e seguido, sem prazo e sem retorno previsto. O paralelo ajuda a medir o que era normal, e o que não era.

Por que perguntar pela contrapartida não era indelicado

A pergunta soa mal a ouvidos modernos, e soaria menos mal naquele mundo.

As relações de dependência no Mediterrâneo antigo funcionavam por troca reconhecida. Quem se vinculava a alguém de posição superior oferecia lealdade, serviço e presença, e esperava em retorno proteção, sustento e lugar. Isso não era visto como cálculo sórdido: era o contrato tácito da vida social, e romper a expectativa de retorno seria comportamento estranho, não virtuoso.

Some-se a isso o que os discípulos esperavam do Reino. O Pulpit Commentary observa que Pedro provavelmente pensava em promoção e dignidade num reino terreno, conforme a expectativa corrente sobre o Messias. A pergunta dele, nesse quadro, é a de quem seguiu um pretendente ao trono e quer saber qual será o seu posto depois da vitória.

Nada disso decide o tom da pergunta. Mostra apenas que ela era dizível — e que a leitura que faz dela uma indelicadeza grosseira está aplicando um código que não era o de quem falava.

3. Análise Teológica do Versículo

"Então Pedro lhe disse"

O grego traz aqui um verbo que a tradução não carrega: Pedro "respondendo, disse". E ninguém lhe havia perguntado nada.

A construção é comum no grego dos evangelhos e nem sempre indica resposta a uma pergunta; pode marcar reação a uma situação. É o caso aqui. Pedro responde ao que acabou de acontecer — à saída do rico e à conversa que veio depois dela —, não a uma fala dirigida a ele.

Meyer lê a intervenção como provocada pelo comportamento do jovem: os apóstolos fizeram exatamente o contrário do que ele fez, e Pedro quer que o contraste fique registrado. A leitura é plausível e explica por que a fala começa com um "eis que" enfático.

Mateus também marca uma mudança de regime: desde o versículo 23 o grupo falava em bloco, e agora um homem fala por todos. Ele volta a fazer isso em Mateus 26:33, e ali o resultado é conhecido.

"Nós deixamos tudo"

O pronome vem antes do verbo, o que em grego é ênfase: nós, e não aquele.

O verbo está no tempo do fato consumado. Não é "estamos deixando", processo em curso; é um ato concluído e verificável, com data. Pedro está apresentando prova, não intenção.

E a palavra "tudo" é absoluta. Não há qualificação, não há "quase tudo", não há ressalva. Mateus registra a afirmação sem comentário — e registra também, mais adiante no evangelho, que Pedro tinha casa em Cafarnaum, onde a sogra dele foi curada, em Mateus 8:14. As duas informações convivem no mesmo livro sem que ninguém as concilie, e não é possível decidir se "tudo" é exato ou enfático.

"e te seguimos"

O segundo verbo também está no tempo do fato consumado, e é o verbo técnico do discipulado.

Os dois movimentos aparecem sempre juntos nos evangelhos: deixar e seguir, nessa ordem. Em Mateus 4:20 os pescadores deixam as redes e seguem; em Mateus 9:9 o cobrador se levanta e segue. Pedro está citando a própria história, e usa o vocabulário que Mateus usou para contá-la.

O que ele não menciona é o que veio depois do seguir. Não há referência a missão, a fidelidade, a permanência — apenas o ato inicial. A conta é feita sobre o começo.

"o que, então, teremos?"

A pergunta é curta e tem a mesma partícula de consequência que os discípulos usaram no versículo 25.

Ao pé da letra: "que haverá para nós?". O verbo está no futuro, e o que se pede é o conteúdo de uma expectativa. Não é "seremos recompensados?", pergunta que admitiria sim ou não; é "o quê?", pergunta que pressupõe que alguma coisa haverá.

O tom é disputado desde os comentaristas antigos, e três leituras estão em campo.

Primeira leitura: é reivindicação de direito. Ellicott é o mais duro: os apóstolos mostravam ter cumprido a letra, e não o espírito, do mandamento, e estavam se detendo sobre o que tinham feito como se aquilo lhes desse direito a compensação. Nessa leitura, o versículo 30 é a resposta corretiva, e a frase sobre os primeiros e os últimos é dirigida diretamente a Pedro. O custo dessa leitura é que Jesus responde à pergunta com uma promessa vasta antes de qualquer correção.

Segunda leitura: é pergunta legítima, provocada pela cena. Um homem acabou de ser convidado a vender tudo, e recusou. Os que estão ali já fizeram o que foi pedido a ele, e não sabem o que isso significa. Perguntar é razoável, e a resposta imediata de Jesus — doze tronos, cem vezes mais — trata a pergunta como digna de resposta.

Terceira leitura: é insegurança. Depois de ouvir que é impossível ao homem ser salvo, o grupo pode estar perguntando se o que eles fizeram vale alguma coisa. Nessa leitura a pergunta não é por prêmio, e sim por confirmação. O apoio está na proximidade com o versículo 26: a conversa sobre impossibilidade acabou de terminar. O custo é que nada no vocabulário de Pedro sugere medo; ele fala em ter, não em ser salvo.

O texto não decide. O que se pode observar é o comportamento de Mateus: ele não qualifica a pergunta, não a apresenta como erro, e não registra reprovação. Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) nota que Cristo não os censura, e que ainda que fosse pouco o que tinham deixado, era tudo o que tinham.

O que a pergunta pressupõe

Ela supõe que há contabilidade, e é essa suposição que atravessa o resto do capítulo.

O jovem do versículo 16 perguntou o que devia fazer para ter a vida eterna, e a pergunta era do mesmo tipo: entrada e saída, ato e resultado. Pedro pergunta a mesma coisa do outro lado — já fizemos, o que vem? Mateus põe as duas perguntas a poucos versículos uma da outra, com os mesmos verbos de posse e de feitura, e não comenta a semelhança.

A resposta que vem nos três versículos seguintes é dupla e desconfortável: primeiro concede a contabilidade, com tronos e cem vezes mais; depois desfaz a ordem dela, com os primeiros que serão últimos.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

Pedro — fala em nome do grupo, como faz em outros momentos decisivos de Mateus: ao confessar quem Jesus é, em Mateus 16:16, e ao jurar fidelidade na véspera da prisão, em Mateus 26:33. Era pescador em Cafarnaum, sócio dos filhos de Zebedeu, e tinha casa na cidade, segundo Mateus 8:14.

Os demais discípulos — incluídos no "nós" sem que nenhum se manifeste. A resposta de Jesus, no versículo seguinte, é dirigida a todos eles.

O jovem do versículo 22 — ausente, e ainda assim o termo de comparação. A fala de Pedro só tem força contra o que ele acabou de fazer.

Zebedeu e os empregados — Marcos 1:20 registra que ficaram no barco quando Tiago e João saíram. São a medida concreta do que foi deixado: um negócio que continuou funcionando sem os dois.

Lugares

O lago da Galileia — cenário do que Pedro deixou, e não da cena presente. A pesca dali abastecia Migdal, centro de salga conhecido pelos gregos como Tariqueia, e de lá o peixe seguia para Jerusalém e para fora da província.

Cafarnaum — cidade de Pedro, com cais de pedra para tráfego regular de barcos e posto de cobrança de taxas na rota.

A estrada da Judeia — onde a conversa acontece. O grupo está a caminho de Jerusalém desde o versículo 1.

Eventos

O abandono das redes — narrado em Mateus 4:18-22, e citado aqui por quem o fez. É a única vez em que um discípulo faz referência explícita ao próprio chamado.

A pergunta pela contrapartida — abre o último bloco do capítulo. O que vem depois dela — tronos, cem vezes mais, primeiros e últimos — é todo resposta a esta frase.

5. Pontos de Ensino

A pergunta não é repreendida

Mateus não a qualifica, e Jesus responde antes de corrigir qualquer coisa. Quem ensina este versículo como exemplo de ganância está antecipando um veredito que o texto só insinua três versículos adiante, e de forma geral, sem apontar ninguém.

"Tudo" é uma quantidade relativa

O que Pedro deixou cabia num barco remendado e em algumas redes. O que o jovem não deixou eram muitos bens. A formulação de Bengel resolve a comparação: as poucas coisas do trabalhador são tanto o tudo dele quanto as muitas coisas do poderoso são o dele. Medir renúncia por volume é usar a régua errada.

A conta foi feita sobre o começo

Pedro cita o ato inicial — deixamos, seguimos — e não menciona nada do que veio depois. É o tipo de contabilidade que registra a entrada e para ali. O capítulo não comenta isso, e o leitor de Mateus sabe o que acontecerá com quem fala em Mateus 26:33.

As duas perguntas do capítulo são a mesma

O jovem perguntou o que devia fazer para ter; Pedro pergunta o que terão por ter feito. Mateus põe as duas a poucos versículos de distância, com o mesmo vocabulário de posse, e não as compara. Quem lê o capítulo inteiro encontra a simetria sem que ninguém a aponte.

Esperar retorno não era vício no mundo daquela conversa

As relações de lealdade no Mediterrâneo antigo funcionavam por troca reconhecida, e perguntar pelo lugar que se ocuparia era comportamento normal. Ler a frase como cinismo é aplicar um código moral posterior a quem não o tinha.

6. Aspectos Filosóficos

A pergunta de Pedro levanta um problema que a filosofia moral discute há séculos: o que acontece com o valor de um ato quando quem o pratica espera alguma coisa em troca.

Há uma posição rigorosa, e ela é fácil de enunciar. Um ato só é moralmente puro se for feito pelo que ele é, e não pelo que produz. Quem devolve a carteira achada para receber recompensa não praticou honestidade: praticou comércio. Nessa lógica, a pergunta de Pedro contamina o gesto dele — deixar tudo deixa de ser renúncia e vira investimento, com prazo e retorno esperado.

A posição contrária também é antiga e tem argumentos. Toda ação humana persegue algum bem, e negar isso é descrever um ser que não existe. Um ato feito absolutamente sem expectativa de nada seria menos um ato virtuoso do que um ato sem motivo. O que distingue o bem do interesse não é a ausência de retorno, e sim a natureza do retorno que se espera.

O versículo é interessante porque não resolve a disputa: ele a exibe. Pedro faz a pergunta suja, e recebe uma resposta que a leva a sério — tronos, cem vezes mais, vida eterna. Jesus não diz que perguntar pela recompensa é errado. E, três versículos adiante, embaralha a ordem em que as recompensas seriam distribuídas.

Disso sai uma terceira posição, que é a que o texto sustenta melhor. A expectativa de retorno não é condenada; o que é desfeito é a capacidade de calcular o retorno. Pedro pode esperar; não pode fazer a conta. E uma espera que não admite cálculo tem uma propriedade curiosa: ela não serve de motivo para agir, porque ninguém age por um resultado que não consegue prever.

O efeito é mais sutil do que uma proibição. Proibir a expectativa seria exigir do ser humano algo que ele não faz. Manter a expectativa e retirar dela a previsibilidade produz outra coisa — um agir que continua orientado a um fim, sem que o fim funcione como pagamento combinado.

Resta um limite, e é honesto marcá-lo. Nada disso está escrito no versículo, que traz apenas uma pergunta de quatro palavras em grego. A leitura acima se apoia no arranjo do capítulo — pergunta, promessa, inversão — e não numa afirmação do texto sobre motivos. Um leitor que prefira ver na fala de Pedro uma falha simples, corrigida pela frase final, tem apoio em comentaristas respeitáveis, e o texto não permite decidir entre as duas leituras.

7. Aplicações Práticas

Reconhecer a pergunta quando ela aparece na própria boca

"O que eu ganho com isso?" é uma pergunta que quase ninguém faz em voz alta em contexto religioso, e que quase todo mundo faz por dentro. O texto mostra que ela foi feita, em voz alta, por quem estava mais perto. Trazê-la à superfície é mais útil do que negá-la, porque uma expectativa reconhecida pode ser examinada, e uma expectativa escondida continua operando sem exame.

Mas o episódio não autoriza o passo seguinte, que é o mais comum: transformar a pergunta em exigência. Pedro pergunta e recebe resposta; ele não apresenta fatura nem cobra prazo.

Não medir renúncia por volume

A tentação de comparar o que se deixou com o que outros deixaram está na própria estrutura da frase — "nós deixamos", em oposição a alguém que não deixou. A comparação funciona mal nos dois sentidos: serve de consolo para quem deu pouco e de orgulho para quem deu muito. O critério de Bengel é melhor e é verificável: o que importa é a proporção com o que se tinha.

Desconfiar da contabilidade que só registra a entrada

Pedro cita o dia em que largou as redes e não menciona mais nada. Quem mede a própria vida religiosa por uma decisão antiga está fazendo o mesmo — e o evangelho, que registra o que aconteceu com Pedro na noite da prisão, deixa o leitor tirar a conclusão sem enunciá-la.

Viver sem saber a posição na fila

A resposta que Jesus dá promete muito e torna a ordem imprevisível. A aplicação prática disso é desconfortável e concreta: não há como saber onde se está, e qualquer estimativa que alguém faça do próprio lugar é justamente o tipo de cálculo que o versículo 30 desmancha.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. A pergunta de Pedro é censurável?

Os comentaristas se dividem. Ellicott lê como reivindicação de direito por quem cumpriu só a letra do mandamento; Meyer lê como reação natural ao contraste com o jovem que acabara de recusar; Matthew Henry observa que Cristo não os censura. O texto não qualifica a pergunta, e Jesus responde a ela antes de qualquer correção.

2. "Deixamos tudo" é exato?

Não é possível decidir. Mateus 8:14 mostra Pedro com casa em Cafarnaum, onde a sogra é curada, e Marcos 1:20 registra que Zebedeu ficou no barco com os empregados. As informações convivem no mesmo evangelho sem conciliação. A palavra pode ser exata quanto ao ofício e enfática quanto ao resto.

3. Quanto valia o que eles deixaram?

Um barco pequeno, redes, participação numa sociedade de pesca e acesso a um mercado que salgava peixe e exportava. Não era pobreza extrema nem riqueza: era um negócio familiar funcionando. Barnes fala em redes, barcos pequenos e casas, e acrescenta que aquilo era o sustento e o lar deles.

4. Por que Pedro fala sozinho, se o grupo vinha falando junto?

Mateus não explica. O dado é que, desde o versículo 23, as reações eram coletivas, e aqui um homem assume a palavra em nome de todos — o que ele volta a fazer em Mateus 16:16 e em Mateus 26:33.

5. A pergunta é sobre recompensa nesta vida ou depois?

Ele não especifica. O Pulpit Commentary considera provável que Pedro pensasse em posição e dignidade num reino terreno, conforme a expectativa corrente. A resposta de Jesus mistura os dois planos: tronos num tempo futuro, no versículo 28, e cem vezes mais, sem marcação de tempo, no versículo 29 — marcação que Marcos 10:30 acrescenta e Mateus não.

6. Jesus responde à pergunta?

Sim, e com generosidade — doze tronos e cem vezes mais. Depois acrescenta a frase dos primeiros e dos últimos, que desorganiza a ordem prometida sem retirá-la. Se essa frase é correção dirigida a Pedro ou observação geral é discutido, e o texto não nomeia ninguém.

9. Conexão com Outros Textos

O dia que Pedro está citando

Mateus 4:20 — "E eles, imediatamente, deixaram as redes e o seguiram."

O par de verbos é o mesmo que Pedro usa aqui: deixar e seguir. Ele está repetindo, muitos capítulos depois, a frase com que Mateus contou o episódio.

Mateus 4:22 — "E eles, imediatamente, deixaram o barco e seu pai e o seguiram."

No caso de Tiago e João, o que foi deixado inclui o pai. Esse elemento vai reaparecer na lista do versículo 29.

Mateus 9:9 — "E Jesus, passando adiante dali, viu um homem sentado na coletoria de impostos, chamado Mateus, e disse-lhe: Siga-me. E ele se levantou e o seguiu."

O mesmo movimento com outro ofício. Aqui o que fica para trás é um posto de arrecadação, provavelmente na rota do peixe do lago.

O que ele não menciona

Mateus 8:14 — "Quando Jesus chegou à casa de Pedro, viu a sogra dele de cama, com febre."

A casa continua existindo depois do chamado, e Jesus entra nela. O versículo não contradiz Pedro; apenas impede tratar o "tudo" como inventário fechado.

Mateus 26:33 — "Pedro, porém, respondeu-lhe: 'Ainda que todos te abandonem, eu jamais te abandonarei'."

A outra vez em que Pedro se apresenta como o que cumpriu mais do que os outros. Mateus registra as duas falas sem comentar nenhuma, e o desfecho da segunda está no mesmo capítulo.

Seguir e perder

Mateus 16:24 — "Então Jesus disse aos seus discípulos: 'Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.'"

A condição fora enunciada três capítulos antes, e em termos de perda. A pergunta de Pedro trata do outro lado da conta.

Mateus 10:39 — "Quem encontrar a sua vida a perderá; e quem perder a sua vida por minha causa a encontrará."

A fórmula da troca já estava dada, com o mesmo par de opostos — perder e encontrar —, e sem quantidade nenhuma anexada.

A mesma cena nos outros evangelhos

Lucas 5:11 — "Eles levaram os barcos para a terra, deixaram tudo, e o seguiram."

Lucas usa a palavra "tudo" já na narração do chamado, o que Mateus não faz. A frase de Pedro, em Mateus, é a primeira vez que o termo aparece.

Marcos 10:28 — "E Pedro começou a lhe dizer: Eis que nós deixamos tudo, e te seguimos."

Marcos traz a mesma fala sem a pergunta final. A pergunta "o que, então, teremos?" é própria de Mateus, e é ela que puxa a resposta dos doze tronos.

A conta feita do outro lado

Filipenses 3:8 — "E, na verdade, considero também todas as coisas como perda, por causa da superioridade de conhecer a Cristo Jesus, meu Senhor. Por ele aceitei perder todas essas coisas, e as considero como dejetos, a fim de que eu possa ganhar a Cristo;"

Paulo usa vocabulário de contabilidade — perda, ganho — e chega a uma conta invertida: o que se deixou não entra como crédito a cobrar, e sim como prejuízo já assumido.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Então Pedro lhe disse: “Nós deixamos tudo e te seguimos; o que, então, teremos?”

Texto grego (Textus Receptus, Scrivener 1894)

τότε ἀποκριθεὶς ὁ Πέτρος εἶπεν αὐτῷ, Ἰδού, ἡμεῖς ἀφήκαμεν πάντα καὶ ἠκολουθήσαμέν σοι· τί ἄρα ἔσται ἡμῖν;

Transliteração

tote apokritheis ho Petros eipen autō, Idou, hēmeis aphēkamen panta kai ēkolouthēsamen soi; ti ara estai hēmin?

Análise palavra por palavra

τότε — tote, advérbio: "então", "naquele momento". Mateus usa essa palavra com frequência muito maior que os outros evangelhos, como articulação entre cenas.

ἀποκριθεὶς — apokritheis, particípio aoristo passivo: "tendo respondido". A tradução portuguesa a omite, e com razão, porque em português "respondendo, disse" soaria estranho.

O uso é característico do grego dos evangelhos e vem do hebraico, onde o verbo "responder" abre falas que não respondem a pergunta alguma. Marca reação a uma situação, e não réplica a um interlocutor. Aqui o dado é exatamente esse: ninguém perguntou nada a Pedro.

ὁ Πέτρος — ho Petros, "Pedro", com artigo. O nome é grego e significa pedra; Mateus 16:18 registra a atribuição dele.

Ἰδού — idou, "eis", "olha". É uma forma verbal congelada em interjeição, usada para chamar a atenção para o que vem. No grego dos evangelhos ela traduz o hebraico hinneh, de mesma função. A ABC não a traduz; o efeito dela é dar ênfase ao que Pedro está prestes a apresentar.

ἡμεῖς — hēmeis, "nós", pronome no nominativo.

A forma verbal grega já carrega a pessoa, e por isso o pronome é dispensável. Quando ele aparece, é ênfase ou contraste. Aqui vale o contraste: nós, ao contrário daquele que acabou de sair.

ἀφήκαμεν — aphēkamen, aoristo do indicativo ativo, primeira pessoa do plural: "deixamos", "abandonamos".

O verbo é aphiēmi, de campo semântico largo: soltar, deixar ir, abandonar, e também perdoar — é o mesmo verbo do "perdoa as nossas dívidas" em Mateus 6:12. O sentido básico é soltar o que se segurava.

O tempo aoristo apresenta a ação como um fato pontual e concluído, sem duração. Pedro não diz "temos deixado", processo continuado; diz "deixamos", ato encerrado num momento do passado.

πάντα — panta, acusativo neutro plural: "todas as coisas", "tudo". Sem qualificação nem ressalva.

ἠκολουθήσαμέν σοι — ēkolouthēsamen soi, "seguimos a ti". O verbo é akoloutheō, que rege dativo — segue-se a alguém, não alguém.

A palavra vem de keleuthos, caminho, com o prefixo que indica companhia: ir pelo mesmo caminho junto com outro. Nos evangelhos ela virou o termo técnico do discipulado, e é a mesma que o versículo seguinte usará no particípio, ao dizer "vocês que me seguiram".

τί — ti, pronome interrogativo neutro: "o quê". Não é "se": a pergunta pressupõe que haverá alguma coisa e indaga o conteúdo dela.

ἄρα — ara, partícula de consequência: "então", "sendo assim". A mesma que aparece na pergunta dos discípulos no versículo 25. As duas perguntas do bloco têm a mesma forma lógica.

ἔσται ἡμῖν — estai hēmin, futuro do verbo ser com dativo: "haverá para nós". O grego não usa aqui o verbo "ter": constrói a posse com o verbo ser mais o dativo, "será a nós". A tradução por "teremos" é a natural em português e apaga essa forma.

Variantes

O versículo é praticamente idêntico em todas as edições. As diferenças entre o Textus Receptus e o texto crítico se limitam a acento, maiúscula e pontuação.

11. Conclusão

Três conclusões saem do exame, e uma quarta fica em suspenso.

A primeira: a fala é uma prestação de contas, e a forma grega confirma. Dois verbos no tempo do fato encerrado, um pronome enfático que separa "nós" de quem saiu, e uma pergunta que não indaga se haverá, e sim o quê. Não é dúvida sobre a existência de retorno: é pedido do valor.

A segunda: o que foi deixado era pequeno em volume e completo em proporção. Um barco remendado, redes, uma sociedade de pesca, acesso a um mercado de peixe salgado que exportava. Comparado aos bens do jovem, é pouco; comparado ao que aquelas famílias tinham, é tudo. As duas frases são verdadeiras ao mesmo tempo, e a régua do volume não serve para medir renúncia.

A terceira: o texto não condena a pergunta. Mateus não a qualifica, Jesus a responde antes de corrigir qualquer coisa, e a resposta é generosa. Quem lê aqui ganância está trazendo o versículo 30 para dentro do 27, e nem sequer é seguro que o versículo 30 aponte para Pedro — ele não nomeia ninguém.

O que fica em suspenso: se "tudo" é exato. O mesmo evangelho mostra Jesus entrando na casa de Pedro em Cafarnaum, e Marcos registra que o pai de Tiago e João continuou no barco com os empregados. Não é possível decidir se a palavra descreve um inventário ou é ênfase de quem fala do próprio sacrifício. O texto não esclarece, e essa é a parte que as leituras mais severas e as mais benevolentes preenchem, cada uma à sua maneira.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Mateus 19:27

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%