Então eles, deixando logo as redes, seguiram-no.
1. Introdução
Mateus 4:20 é a resposta ao chamado do versículo anterior, e cabe numa linha: "Então eles logo deixaram as redes e o seguiram." Três verbos — deixar, seguir — e um advérbio decisivo: "logo". A cena tem a força de um corte seco. Chamou; deixaram; seguiram. Nada de deliberação, nada de negociação.
Essa prontidão é o que o texto quer destacar. Mas, como em todo o episódio, o relato é condensado. A leitura de João 1:35-42, que mostra Pedro e André já conhecendo Jesus antes, ajuda a entender por que a resposta foi tão rápida: não era o salto de estranhos no escuro, mas o passo de quem já vinha caminhando naquela direção. Reconhecer isso não diminui a decisão — dá-lhe raiz.
2. Contexto Histórico e Cultural
Deixar as redes tinha um peso concreto. A rede era o instrumento de trabalho, o meio de sustento, o capital de um pescador. Abandoná-la significava interromper uma fonte de renda e uma posição social estável. Numa economia de subsistência, isso não era gesto leve; era risco real para si e para a família.
No modo judaico de seguir um mestre, esperava-se dedicação, mas raramente a ruptura imediata com o ofício. A radicalidade aqui — largar tudo "no mesmo instante" — chama atenção justamente por fugir do comum. Mateus escreve de forma econômica, sem descrever hesitações ou preparativos, para que o foco recaia sobre a autoridade do chamado e a disposição da resposta.
3. Análise Teológica
“Então eles logo”
A rapidez da resposta mostra prontidão e disposição de seguir Jesus sem hesitar. Isso reflete a urgência e a autoridade do chamado. No contexto do judaísmo do primeiro século, o convite de um mestre para segui-lo era algo sério, que costumava exigir uma decisão firme. O "logo" sublinha que os discípulos reconheceram a autoridade de Jesus e se comprometeram com a sua missão.
“Deixaram as redes”
As redes representam o sustento e o modo de vida anterior dos discípulos como pescadores. Ao deixá-las, eles abandonam a antiga ocupação e a segurança para assumir uma nova identidade e um novo propósito. Esse ato pode ser lido como imagem de renúncia aos apegos e de abertura para uma vida nova, no espírito do que Paulo chama de "nova criatura" em 2 Coríntios 5:17.
“E o seguiram”
Seguir Jesus implica discipulado: aprender dele, imitar a sua vida e participar da sua missão. A expressão indica um compromisso pessoal, que coloca os ensinos e o exemplo de Jesus acima de tudo. O seguir não é apenas físico, mas também interior, sinal de uma transformação de coração. Está em linha com o tema bíblico do chamado a uma relação de aliança, como no chamado de Abraão (Gênesis 12:1-4).
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
Jesus Cristo — inicia o seu ministério público e reúne os primeiros seguidores.
Simão Pedro e André — irmãos e pescadores, os primeiros chamados, que respondem de imediato.
Lugares
Mar da Galileia — o lago onde ocorre o chamado e a resposta.
Eventos
A resposta ao chamado — o momento em que os discípulos deixam as redes e passam a seguir Jesus, marco inicial da comunidade que se tornaria apostólica.
5. Pontos de Ensino
Obediência pronta
O "logo" acentua a urgência e a disposição de responder sem adiar ao chamado de Deus.
Deixar para trás
Abandonar as redes simboliza soltar a segurança antiga para colocar Jesus em primeiro lugar.
Fé em ação
Ao seguir sem hesitar, os discípulos demonstram confiança concreta no plano de Deus.
O chamado a seguir
O discipulado envolve uma relação pessoal com Jesus e o compromisso de andar no seu caminho.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo levanta a questão da decisão e do custo. Toda escolha real implica renúncia: escolher um caminho é deixar outros. Ao "deixar as redes", os discípulos encarnam essa lógica — não há seguimento sem abrir mão de algo. A liberdade, aqui, não é manter todas as opções abertas, mas comprometer-se, o que sempre custa.
Há também a questão da aparente instantaneidade. Filosoficamente, decisões que parecem súbitas costumam ser o ápice de um processo mais longo. É onde a honestidade crítica ajuda: cruzando com João 1, o "logo" de Mateus provavelmente coroa um caminho já iniciado, e não uma virada do nada. Isso é mais fiel à experiência humana — as grandes decisões amadurecem antes de se tornarem visíveis. O texto de Mateus condensa o processo num instante para destacar o essencial: quando o chamado veio, não houve recuo.
7. Aplicações Práticas
Não adiar a resposta certa. Há decisões que perdem força quando empurradas para depois. O "logo" dos discípulos ensina a agir quando a direção já está clara.
Reconhecer o que precisa ser deixado. Seguir sempre custa. Vale identificar as "redes" que hoje seguram você onde não deveria mais ficar.
Confiar antes de ter todas as garantias. Os discípulos largaram o sustento sem contrato de segurança. A fé caminha com alguma dose de risco assumido.
Deixar a decisão amadurecer, mas não hesitar quando chegar a hora. Como sugere João 1, a prontidão teve preparação. Cultive o discernimento para que, no momento, a resposta seja firme.
Medir o seguir pelo coração, não só pelos passos. Seguir Jesus é mais que mudar de lugar; é reorientar valores e prioridades por dentro.
Aceitar que compromisso é liberdade. Comprometer-se fecha portas, mas abre um caminho. A vida ganha direção quando se escolhe de fato.
8. Perguntas e Respostas
1. Qual é o significado de Mateus 4:20?
É o registro da resposta imediata ao chamado: Pedro e André deixam as redes e seguem Jesus. O versículo destaca a prontidão da obediência e o custo de largar a vida antiga.
2. Como seguir Jesus de imediato, como os discípulos?
Respondendo quando a direção está clara, sem transformar a hesitação em hábito, e confiando que a capacitação vem de quem chama.
3. O que "deixar as redes" simboliza no caminho cristão de hoje?
Simboliza soltar aquilo em que depositamos segurança — trabalho, status, hábitos — quando isso se torna obstáculo para seguir a Jesus.
4. Como o versículo se liga ao chamado ao discipulado de Lucas 9:23?
Lucas 9:23 fala em negar-se e tomar a cruz cada dia; Mateus 4:20 mostra esse princípio em ato: os discípulos abrem mão de si e do seu sustento para seguir.
5. Que sacrifícios Jesus pode estar pedindo hoje?
Depende de cada vida, mas costuma envolver aquilo a que nos apegamos como garantia. A pergunta honesta é: o que eu não estaria disposto a deixar?
6. Como priorizar Jesus acima das responsabilidades diárias?
Não abandonando os deveres, mas ordenando-os sob a direção dele, de modo que nada ocupe o lugar que só a ele pertence.
7. O que o versículo revela sobre a imediatez de seguir Jesus?
Revela que há chamados que pedem resposta firme e sem demora; a prontidão, porém, costuma brotar de um reconhecimento já amadurecido.
8. Como o versículo desafia nossa disposição de deixar tudo pela fé?
Confronta-nos com o custo real do seguimento e pergunta se a nossa confiança em Deus é maior que o apego às nossas seguranças.
9. Que contexto histórico apoia a resposta imediata dos discípulos?
A leitura de João 1 mostra que Pedro e André já haviam encontrado Jesus antes; a resposta rápida de Mateus provavelmente coroa esse conhecimento anterior, e não um salto entre estranhos.
9. Conexão com Outros Textos
"Então logo deixaram as redes, e o seguiram." (Marcos 1:18) — Marcos repete a cena quase idêntica, confirmando que a prontidão da resposta era parte firme da tradição sobre o chamado.
"Então deixando ele os bois, veio correndo após Elias... E ele lhe disse: Vai, volta: que te fiz eu?" (1 Reis 19:20) — O chamado de Eliseu por Elias é o paralelo antigo mais próximo: largar o instrumento de trabalho (os bois, as redes) para seguir. A comparação ilumina o padrão do chamado profético.
"Eles levaram os barcos para a terra, deixaram tudo, e o seguiram." (Lucas 5:11) — Lucas resume com a expressão "deixaram tudo", tornando explícito o alcance da renúncia que Mateus condensa em "deixaram as redes".
"Então Pedro se pôs a falar... Eis que deixamos tudo, e te seguimos; o que, pois, conseguiremos ter?" (Mateus 19:27) — Mais adiante, o próprio Pedro relembra este momento de deixar tudo, mostrando como aquela renúncia inicial marcou a consciência dos discípulos.
"Pela fé, Abraão, quando foi chamado... obedeceu, e saiu sem que soubesse aonde ia." (Hebreus 11:8) — Hebreus liga a obediência dos discípulos à de Abraão: seguir sem ter o mapa inteiro é a marca da fé que confia em quem chama.
10. Original Grego e Análise
Texto em português: E eles, imediatamente, deixaram as redes e o seguiram.
Texto grego: Οἱ δὲ εὐθέως ἀφέντες τὰ δίκτυα ἠκολούθησαν αὐτῷ.
Transliteração: Hoi de eutheōs aphentes ta diktya ēkolouthēsan autō.
Análise palavra por palavra:
- eutheōs (logo, imediatamente): o advérbio que dá o tom do versículo; a resposta não conhece demora.
- aphentes (tendo deixado): particípio do verbo aphiēmi, "largar, abandonar, soltar"; o mesmo verbo usado para "perdoar", sugerindo um deixar que liberta.
- ta diktya (as redes): aqui é o termo geral para as redes de pesca, símbolo do sustento e da vida antiga.
- ēkolouthēsan (seguiram): de akoloutheō, "andar junto, acompanhar"; é o verbo técnico do discipulado, seguir o mestre como aprendiz e companheiro.
- autō (a ele): o objeto do seguir é uma pessoa — Jesus —, não uma doutrina ou um lugar.
Nota teológica: A sequência "aphentes... ēkolouthēsan" — deixar e seguir — resume o discipulado: não há como seguir sem antes soltar. O advérbio eutheōs, tão querido de Marcos, aparece aqui destacando a prontidão. Com grau de certeza razoável, essa imediatez é literária tanto quanto histórica: Mateus comprime o processo para pôr em relevo a firmeza da resposta, que João 1 nos deixa entender como fruto de um encontro anterior.
11. Conclusão
Mateus 4:20 mostra o discipulado em movimento: chamado, renúncia, seguimento. Numa só linha, o texto ensina que seguir Jesus custa — custa as redes, o sustento, a segurança conhecida — e que há horas em que a resposta certa não admite demora.
Ao mesmo tempo, ler o versículo com honestidade, à luz de João 1, revela que aquela prontidão tinha raízes. A decisão súbita foi o ápice de um caminho já iniciado. Isso não enfraquece o exemplo dos discípulos; torna-o mais humano e mais imitável. Grandes escolhas amadurecem por dentro antes de se tornarem, num instante, visíveis.













