E, adiantando-se dali, viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, num barco com seu pai, Zebedeu, consertando as redes;
1. Introdução
Mateus 4:21 dá continuidade ao chamado, agora com o segundo par de irmãos: Tiago e João, filhos de Zebedeu. Jesus segue adiante pela margem e os vê num barco, com o pai, consertando as redes. E os chama. A estrutura repete a do chamado de Pedro e André — ver, chamar, seguir —, o que dá ao trecho um ritmo de coleção: um após o outro, os pilares da futura igreja são reunidos.
Há aqui um detalhe que o versículo anterior não tinha: a presença do pai, Zebedeu, no barco. Isso introduz o tema do custo familiar do chamado, que se completará no versículo 22. Tiago e João não deixam só o trabalho; deixam o pai e o negócio de família. O quadro é doméstico e concreto, e é justamente essa concretude que dá peso à decisão.
2. Contexto Histórico e Cultural
A pesca na Galileia era, com frequência, um empreendimento familiar. Pai e filhos trabalhavam juntos; o negócio passava de geração em geração. A menção a Zebedeu no barco, e em outros relatos aos empregados contratados (Marcos 1:20), sugere que a família tinha algum recurso — não eram miseráveis, mas donos de um pequeno negócio de pesca.
Consertar as redes era tarefa rotineira e essencial: redes rasgadas não pescam. O detalhe mostra os irmãos no meio do trabalho comum, não em ócio. Na cultura judaica, o vínculo com o pai e o dever de honrá-lo eram sagrados, e a continuidade do ofício familiar era expectativa natural. Por isso, deixar o pai no barco para seguir um mestre carregava um custo social e afetivo que o leitor antigo percebia de imediato. Tiago e João, mais tarde apelidados por Jesus de "filhos do trovão" (Marcos 3:17), teriam papel de destaque entre os apóstolos.
3. Análise Teológica
“E passando dali”
A expressão indica que Jesus prosseguia pela margem do mar da Galileia. A região era um polo de atividade e comércio, tendo a pesca como uma das principais ocupações. O chamado se dá em movimento, no curso do caminho.
“Viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João”
A menção a "outros dois irmãos" repete o padrão do chamado anterior e realça os laços de família entre os discípulos. Tiago e João, chamados por Jesus de "filhos do trovão" (Marcos 3:17), tornaram-se figuras de proa entre os apóstolos. O pai deles, Zebedeu, parece ter sido homem de algumas posses.
“Em um barco, com seu pai Zebedeu, que estavam consertando suas redes”
A presença de Zebedeu no barco aponta para um negócio de família, típico da época, em que os filhos aprendiam e trabalhavam ao lado do pai. Esse cenário deixa entrever o sacrifício envolvido em seguir Jesus: não se abandonava apenas um emprego, mas um laço e um patrimônio familiar. Consertar as redes era tarefa rotineira, necessária à manutenção do sustento.
“E ele os chamou”
O chamado de Jesus é dotado de autoridade e poder de transformação. É um convite divino a uma nova vida e a uma nova missão, e chega de modo direto e marcante.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
Jesus — chama o segundo par de irmãos ao discipulado.
Tiago, filho de Zebedeu — um dos doze apóstolos, irmão de João, conhecido pelo zelo e, mais tarde, pelo martírio (Atos 12:2).
João — irmão de Tiago, também apóstolo, lembrado pela proximidade com Jesus.
Zebedeu — pai de Tiago e João, pescador; representa o vínculo familiar e o negócio deixado para trás.
Lugares
O barco — cenário do ofício e ponto de partida do chamado.
Eventos
O chamado de Tiago e João — o segundo chamado, que completa o primeiro núcleo de quatro pescadores.
5. Pontos de Ensino
O chamado é pessoal e direto
Jesus chama nomes concretos, no meio do trabalho. A vocação não é genérica; alcança cada um em sua situação.
Deixar o familiar
Seguir Jesus muitas vezes pede abrir mão do que é conhecido e seguro, como o negócio de família de Tiago e João.
Obediência pronta
A resposta dos irmãos foi imediata; o discipulado envolve disposição de atender sem protelar.
Família e fé
A família importa, mas a lealdade primeira é a Cristo. O texto confronta a ordem das nossas prioridades.
O custo do discipulado
Seguir Jesus pode levar a sacrifício e sofrimento, como se vê na vida posterior de Tiago, morto pela espada.
6. Aspectos Filosóficos
A cena põe em tensão dois deveres que a ética costuma harmonizar: o dever para com a família e o chamado a algo maior. Tiago e João estão exatamente onde a tradição esperava que estivessem — ao lado do pai, dando continuidade ao ofício. O chamado de Jesus rompe essa expectativa. Não porque a família seja desprezível, mas porque há uma lealdade que a relativiza. É uma reordenação de valores, não a abolição de um deles.
Há também a questão da repetição e do padrão. Mateus narra o segundo chamado com a mesma estrutura do primeiro, quase como um refrão. Isso levanta a pergunta sobre a relação entre relato e realidade: a forma estilizada serve para gravar o essencial na memória, à maneira das tradições orais, sem que se deva exigir dela a exatidão de um relatório. Reconhecer o caráter estilizado do texto — com grau de certeza moderado — é ler com honestidade, não com desconfiança.
7. Aplicações Práticas
Reconhecer o chamado no cotidiano. Tiago e João foram chamados consertando redes. A vocação chega no meio das tarefas comuns, não fora delas.
Encarar o custo com clareza. Seguir Jesus pode significar deixar o que é seguro e familiar. Vale nomear honestamente o que está em jogo.
Ordenar bem as lealdades. Amar a família e priorizar a Cristo não se excluem, mas há uma ordem. O texto pede que ela esteja no lugar certo.
Responder sem arrastar os pés. A prontidão dos irmãos ensina que há chamados que pedem decisão, não adiamento indefinido.
Contar com o preço do caminho. A vida de Tiago terminou em martírio. Seguir Jesus não é garantia de conforto, mas caminho que pode custar caro.
Cuidar de quem fica. Zebedeu permaneceu no barco. Deixar para seguir não significa desprezar; é possível honrar quem fica mesmo ao partir.
8. Perguntas e Respostas
1. Qual é o significado de Mateus 4:21?
É o chamado do segundo par de irmãos, Tiago e João, que Jesus vê consertando redes com o pai e convida a segui-lo. Completa a formação do primeiro núcleo de discípulos e introduz o tema do custo familiar.
2. Como o versículo ilustra a importância da obediência imediata?
Ao mostrar Jesus chamando e os irmãos respondendo sem demora (v.22), o texto apresenta a prontidão como marca de quem reconhece a autoridade do chamado.
3. O que aprendemos com a resposta de Tiago e João?
Aprendemos que seguir Jesus pede disposição de deixar o seguro e o familiar, e que a vocação pode reorientar até os laços mais próximos.
4. Como deixar o pai se relaciona com priorizar Cristo?
Mostra que a lealdade a Jesus vem em primeiro lugar, sem que isso signifique desprezo pela família; é uma questão de ordem, não de rejeição.
5. Como o versículo se conecta ao discipulado de Lucas 14:26?
Lucas 14:26 usa uma linguagem forte ("odiar" pai e mãe, no sentido de amar menos, em comparação); Mateus 4:21-22 mostra esse princípio em ato, com os irmãos deixando o pai para seguir.
6. Como aplicar hoje a urgência de seguir Jesus?
Respondendo com prontidão onde a direção está clara e não deixando que o apego ao conhecido adie indefinidamente o passo.
7. O que o versículo revela sobre a escolha dos discípulos por Jesus?
Revela que Jesus escolhe pessoas comuns, no meio do trabalho, e que a iniciativa da escolha é dele.
8. Como o versículo ilustra o conceito de chamado divino?
Apresenta o chamado como convite dotado de autoridade, que interrompe a rotina e propõe uma nova missão.
9. Por que Tiago e João foram chamados consertando redes?
Porque o chamado alcança as pessoas na vida real, ocupadas em tarefas comuns; e porque a sua origem simples reforça que a obra depende de quem chama, não da posição de quem é chamado.
9. Conexão com Outros Textos
"E passando um pouco mais adiante, viu Tiago filho de Zebedeu, e seu irmão João, que estavam no barco, consertando as redes." (Marcos 1:19) — O relato paralelo de Marcos confirma a cena, mostrando a estabilidade da tradição sobre o chamado dos filhos de Zebedeu.
"Tiago filho de Zebedeu, e João, irmão de Tiago; e pôs-lhes por nome Boanerges, que significa 'filhos do trovão'." (Marcos 3:17) — O apelido dado por Jesus revela algo do temperamento dos irmãos, ajudando a compor o retrato desses discípulos.
"E semelhantemente, também, Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram colegas de Simão." (Lucas 5:10) — Lucas informa que os quatro pescadores eram sócios, o que explica por que foram chamados na mesma região e quase ao mesmo tempo.
"E vieram a ele Tiago e João... dizendo-lhe: Mestre, queríamos que nos fizesses o que pedirmos." (Marcos 10:35) — Este episódio posterior mostra Tiago e João ainda em formação, ambiciosos por posição, lembrando que os chamados eram homens reais, não santos prontos.
"E matou a Tiago, o irmão de João, pela espada." (Atos 12:2) — O fim de Tiago revela o custo extremo do discipulado que começou naquele barco: o chamado o levaria até o martírio.
10. Original Grego e Análise
Texto em português: E, passando adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, no barco com Zebedeu, seu pai, consertando as suas redes; e ele os chamou.
Texto grego: Καὶ προβὰς ἐκεῖθεν, εἶδεν ἄλλους δύο ἀδελφούς, Ἰάκωβον τὸν τοῦ Ζεβεδαίου καὶ Ἰωάννην τὸν ἀδελφὸν αὐτοῦ, ἐν τῷ πλοίῳ μετὰ Ζεβεδαίου τοῦ πατρὸς αὐτῶν, καταρτίζοντας τὰ δίκτυα αὐτῶν· καὶ ἐκάλεσεν αὐτούς.
Transliteração: Kai probas ekeithen, eiden allous dyo adelphous, Iakōbon ton tou Zebedaiou kai Iōannēn ton adelphon autou, en tō ploiō meta Zebedaiou tou patros autōn, katartizontas ta diktya autōn; kai ekalesen autous.
Análise palavra por palavra:
- probas (tendo avançado): particípio que retoma o movimento de Jesus pela margem; o chamado segue em caminho.
- allous dyo adelphous (outros dois irmãos): a repetição de "dois irmãos" cria o paralelo com o par anterior, reforçando o padrão do chamado.
- meta Zebedaiou tou patros autōn (com Zebedeu, o pai deles): a menção ao pai é intencional; prepara o custo familiar que o versículo 22 tornará explícito.
- katartizontas (consertando, remendando): o verbo katartizō significa "pôr em ordem, reparar, ajustar"; os irmãos estão no meio de uma tarefa útil, não parados.
- ekalesen (chamou): de kaleō, "chamar, convocar"; o verbo simples, mas carregado de autoridade — o mesmo que descreve o chamado de Deus em toda a Escritura.
Nota teológica: Curiosamente, o verbo katartizō, aqui usado para "consertar redes", é o mesmo que o Novo Testamento emprega em outros lugares para "aperfeiçoar" ou "restaurar" os crentes (como em Efésios 4:12). Os irmãos ajustavam redes; seriam, eles próprios, ajustados por Jesus para uma nova pesca. A presença de Zebedeu no barco não é detalhe decorativo: mede, em silêncio, o preço do "e ele os chamou".
11. Conclusão
Mateus 4:21 completa o quadro do chamado, acrescentando ao primeiro par de irmãos o segundo. Tiago e João, no barco com o pai, são vistos e chamados. A repetição do padrão — ver, chamar, seguir — grava na memória o modo como Jesus reúne os seus: um a um, no meio do trabalho, pela sua palavra.
A presença de Zebedeu dá à cena o seu peso mais humano. Seguir Jesus custaria àqueles irmãos o negócio, o convívio diário e, no caso de Tiago, a própria vida. O versículo ensina que a vocação reordena até os laços mais sagrados — não por desprezá-los, mas porque há Alguém a quem se deve o primeiro lugar. E ensina, com honestidade, que os chamados eram homens reais, ainda em formação, que só aos poucos entenderiam o alcance daquele "e ele os chamou".













