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Mateus 9:9

✍️ Por Alberto Adriano·15 de abril de 2026·⏱️ 12 min de leitura·👁 263 acessos
E Jesus, passando adiante dali, viu um homem sentado na coletoria de impostos, chamado Mateus, e disse-lhe: Siga-me. E ele se levantou e o seguiu.
Um homem sentado a uma mesa de cobrança de impostos, com moedas espalhadas, ergue o olhar para Jesus que passa e o chama, numa rua de Cafarnaum.

Estudo


Passando por ali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria, e disse-lhe: "Siga-me". Mateus levantou-se e o seguiu.

1. Introdução

Este versículo conta um chamado — e o conta com uma discrição que chama a atenção. Jesus passa, vê um homem sentado na coletoria de impostos, diz duas palavras, "Segue-me", e o homem se levanta e o segue. Não há longo discurso, não há negociação, não há sequer uma reação registrada dos que assistiam. O relato é seco, quase apressado. E há uma razão provável para tanta sobriedade: quem escreve este evangelho é, muito provavelmente, o próprio homem chamado. Mateus conta o seu próprio chamado sem enfeite e sem drama, como quem prefere não falar de si.

O peso da cena está em quem é chamado. Um cobrador de impostos não era um cidadão comum: era visto como colaborador de Roma, alguém que lucrava às custas do próprio povo, um traidor tolerado. Chamar um homem desses para o círculo mais próximo era um escândalo calculado. O versículo abre, assim, um dos temas centrais do capítulo inteiro: Jesus procura exatamente aqueles que a religião do seu tempo havia descartado.

2. Contexto Histórico e Cultural

No sistema romano, a cobrança de impostos era terceirizada. Roma vendia o direito de arrecadar, e o cobrador ficava com o que conseguisse acima da cota — o que abria a porta para a extorsão. Na Galileia, um posto de coleta como o de Cafarnaum recolhia taxas sobre as mercadorias que passavam pelas estradas e pelo lago. Quem ocupava esse posto lidava com o dinheiro de Roma, com moedas que traziam imagens proibidas, e convivia de perto com gentios. Para um judeu observante, era ocupação impura em mais de um sentido: pela ganância que favorecia, pela colaboração com o ocupador e pelo contato constante com aquilo que a Lei considerava contaminante.

Por isso a palavra "publicano" carregava desprezo. Ela aparecia colada a "pecadores", como uma categoria social de gente tida por fora do pacto. Que Jesus tenha escolhido um homem assim para segui-lo de perto — e, segundo a tradição, para escrever um evangelho — dizia, sem precisar de palavras, que o Reino não se organiza pelas fronteiras de pureza que os fariseus defendiam.

Uma nota honesta sobre o nome. Aqui o homem se chama Mateus; nos relatos paralelos de Marcos 2:14 e Lucas 5:27-28, o mesmo episódio nomeia o cobrador como "Levi". A explicação mais provável, e a mais aceita entre os estudiosos, é que se trate do mesmo homem com dois nomes — algo comum entre os judeus da época, como Simão que também era Pedro, ou Saulo que também era Paulo. Não é uma certeza absoluta, e houve quem sugerisse serem duas pessoas distintas; mas a coincidência da cena, do posto e das palavras do chamado torna a identificação praticamente segura. Vale observar que este evangelho usa justamente o nome "Mateus" e, na lista dos doze, o marca como "o publicano" (Mateus 10:3) — como se o autor não escondesse o próprio passado, mas também não fizesse dele um espetáculo.

3. Análise Teológica do Versículo

"E Jesus, ao passar dali"

A cena continua o ministério de Jesus na Galileia, logo depois de curas e ensinamentos. O "dali" remete à região de Cafarnaum, que servia de base para a sua atuação pública. O detalhe do movimento — Jesus a caminho, "passando" — reforça a imagem de alguém em missão ativa, que não espera as pessoas virem, mas vai ao encontro delas.

"viu um homem sentado na coletoria de impostos, chamado Mateus"

Mateus, também chamado Levi, é tido pela tradição como o autor deste evangelho. O seu nome significa "dádiva de Deus". O ato de Jesus vê-lo não é um olhar casual: sugere intenção e discernimento, o reconhecimento de um valor em alguém que a sociedade preferia não enxergar.

"sentado na coletoria de impostos"

A função de cobrador tornava Mateus alvo de desprezo — visto como colaborador da autoridade romana e associado a práticas de extorsão. O cenário torna radical a natureza do chamado: convocar para perto de si alguém tido como pecador e excluído.

"disse-lhe: Segue-me"

O convite direto ao discipulado ressalta a autoridade de Jesus e o poder transformador da sua palavra. É uma ordem que pede reorientação tanto prática quanto espiritual: mudar de vida e de rumo.

"Então este se levantou e o seguiu"

A resposta imediata de Mateus revela disposição de abandonar a vida antiga por uma nova identidade. Essa obediência é exemplo de fé e entrega, e marca o começo do seu caminho como apóstolo. O texto não descreve dúvida nem despedida: apenas o levantar e o seguir.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus — figura central do Novo Testamento, o Filho de Deus, que chama Mateus e demonstra autoridade e compaixão ao fazê-lo.

Mateus — também chamado Levi; um cobrador de impostos desprezado, cuja resposta imediata ao chamado de Jesus mudou a sua história.

A coletoria de impostos — o posto de trabalho de Mateus, símbolo da vida e da profissão que ele deixou para trás.

Cafarnaum — cidade que, embora não nomeada diretamente aqui, foi cenário de boa parte dos ensinamentos e milagres de Jesus.

O chamado — a convocação de Jesus a Mateus, ponto de virada decisivo no caminho do discipulado.

5. Pontos de Ensino

A força do chamado de Jesus

A convocação a Mateus mostra a autoridade e o poder transformador da palavra de Jesus, que exige resposta.

Deixar a vida antiga

O abandono da coletoria simboliza o chamado a renunciar aos caminhos velhos e assumir uma vida nova.

A obediência imediata

A resposta pronta de Mateus é modelo de fé, e estimula a não adiar a resposta ao que Deus chama.

A abrangência do evangelho

Escolher um cobrador desprezado como discípulo mostra que o evangelho alcança qualquer pessoa, seja qual for a sua condição ou o seu passado.

Seguir custa algo

Seguir a Jesus muitas vezes exige deixar conforto, segurança e o que é familiar, como as ações de Mateus deixam ver.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo levanta uma pergunta antiga: o que define uma pessoa — o seu passado ou o chamado que recebe? A cultura em torno de Mateus o havia definido pela profissão: cobrador, traidor, impuro. Jesus o define por outra coisa: por aquilo que ele pode vir a ser. Há aqui uma inversão silenciosa da lógica do mérito. Mateus não é chamado depois de se corrigir; é chamado ainda sentado na coletoria, no meio do que o condenava. A mudança não é a condição do chamado — é a sua consequência.

Há também uma reflexão sobre a liberdade. "Segue-me" é uma ordem, mas o levantar-se de Mateus é um ato livre. O texto não descreve coação, e sim uma resposta imediata que, por ser imediata, revela algo: talvez aquele homem já carregasse, sob o dinheiro e o desprezo, um cansaço da própria vida. O chamado não fabrica o desejo; encontra-o e lhe dá direção. É honesto reconhecer que o relato é econômico demais para sabermos o que se passava no íntimo de Mateus — mas o gesto exterior fala por si.

7. Aplicações Práticas

Não se defina pelo seu passado. Se Jesus chamou um homem desprezado no meio do trabalho que o condenava, então nenhuma história pessoal é barreira definitiva. O chamado olha para a frente, não para trás.

Responda sem adiar. Mateus se levantou de imediato. Nem toda decisão espiritual precisa de mais tempo para amadurecer; algumas só precisam de coragem para dar o primeiro passo.

Esteja disposto a deixar algo. Seguir custou a Mateus a sua fonte de renda e a sua segurança. Pergunte-se o que, na sua vida, o mantém "sentado na coletoria" e precisa ficar para trás.

Enxergue as pessoas como Jesus as enxergou. Ele viu valor onde os outros viam só um traidor. Isso muda a forma de olhar para quem a sociedade descarta.

Confie na iniciativa de Deus. Não foi Mateus que procurou Jesus; foi Jesus que passou e o viu. A vida com Deus muitas vezes começa por um chamado que não pedimos.

Deixe o seu passado servir. Mateus não escondeu que fora publicano; anos depois, essa mesma história virou testemunho num evangelho. O que envergonha pode, redimido, tornar-se útil.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. O que a profissão de Mateus como cobrador de impostos nos ensina sobre o alcance do chamado de Jesus?

Ensina que esse chamado não respeita as fronteiras sociais e religiosas que os homens levantam. Ao convocar justamente o tipo de pessoa mais desprezada, Jesus mostra que o discipulado está aberto a todos — inclusive aos que a religião havia dado por perdidos.

2. Como aplicar a resposta imediata de Mateus quando sentimos que Deus nos chama a algo novo?

Reconhecendo que a demora muitas vezes é medo disfarçado de prudência. A prontidão de Mateus ensina a dar o primeiro passo com confiança, sem esperar que todas as condições estejam perfeitas.

3. O que significa, hoje, "deixar a coletoria"?

É deixar aquilo que nos prende à vida antiga — um ganho desonesto, uma segurança que compromete a fé, um hábito que não combina com seguir a Cristo. Para cada um, a "coletoria" tem um nome diferente.

4. Como este relato nos ajuda a olhar para pessoas marginalizadas ou desprezadas?

Ajuda a trocar o olhar do julgamento pelo olhar da possibilidade. Jesus viu em Mateus não o que ele tinha sido, mas o que poderia ser. Somos convidados a enxergar as pessoas pela mesma lente.

5. Ao lembrar de um momento em que se sentiu chamado a uma mudança grande, como você respondeu?

A pergunta é pessoal, mas o exemplo de Mateus oferece um espelho: a resposta ideal não é a mais elaborada, e sim a mais pronta e sincera. Onde houve hesitação, ainda há tempo de se levantar.

9. Conexão com Outros Textos

E enquanto passava, ele viu Levi, filho de Alfeu, sentado no posto de coleta de impostos, e disse-lhe: Segue-me. Então Levi se levantou e o seguiu. (Marcos 2:14)

O relato paralelo do mesmo chamado, com o cobrador nomeado como Levi — indício de que Mateus e Levi são o mesmo homem, conhecido por dois nomes.

Depois destas coisas, ele saiu; e viu um publicano, chamado Levi, sentado na coletoria de tributos, e disse-lhe: Segue-me. (Lucas 5:27)

Lucas confirma a cena e acrescenta que Levi "deixou tudo" antes de seguir, reforçando o peso da renúncia que o gesto exigiu.

E, na verdade, considero também todas as coisas como perda, por causa da superioridade de conhecer a Cristo Jesus, meu Senhor. Por ele aceitei perder todas essas coisas, e as considero como dejetos, a fim de que eu possa ganhar a Cristo. (Filipenses 3:8)

Paulo descreve em palavras o que Mateus fez em gesto: contar como perda tudo o que antes tinha valor, para ganhar a Cristo.

Pela fé, Abraão, quando foi chamado para ir ao lugar que havia de receber por herança, obedeceu, e saiu sem que soubesse aonde ia. (Hebreus 11:8)

A mesma lógica do chamado: obedecer e partir antes de ter todas as respostas. Como Abraão, Mateus se levanta e segue sem saber ainda para onde.

10. Original Grego e Análise

Texto em português: E Jesus, passando adiante dali, viu um homem sentado na coletoria de impostos, chamado Mateus, e disse-lhe: Siga-me. E ele se levantou e o seguiu.

Texto grego: Καὶ παράγων ὁ Ἰησοῦς ἐκεῖθεν εἶδεν ἄνθρωπον καθήμενον ἐπὶ τὸ τελώνιον, Ματθαῖον λεγόμενον, καὶ λέγει αὐτῷ, Ἀκολούθει μοι. καὶ ἀναστὰς ἠκολούθησεν αὐτῷ.

Transliteração: kai parágōn ho Iēsoûs ekeîthen eîden ánthrōpon kathḗmenon epì tò telṓnion, Matthaîon legómenon, kaì légei autô, Akoloúthei moi. kaì anastàs ēkoloúthēsen autô.

Análise palavra por palavra:

parágōn (παράγων) — "passando, seguindo adiante": particípio que pinta Jesus em movimento, a caminho. O chamado acontece no percurso, não numa cena preparada.

eîden (εἶδεν) — "viu": o mesmo verbo comum de enxergar, mas aqui carregado de intenção; não um olhar de passagem, e sim um olhar que reconhece.

telṓnion (τελώνιον) — "a coletoria, o posto de impostos": o lugar físico onde se recolhiam as taxas. A palavra situa Mateus exatamente no ponto que o tornava suspeito aos olhos do seu povo.

Matthaîon legómenon (Ματθαῖον λεγόμενον) — "chamado Mateus": literalmente "sendo dito Mateus". O nome, de raiz hebraica, significa "dádiva de Deus" — ironia discreta para um homem que muitos teriam por tudo, menos por uma dádiva.

Akoloúthei moi (Ἀκολούθει μοι) — "segue-me": imperativo no presente, que sugere não um ato único, mas um seguir contínuo — "vem andando atrás de mim, e continua". É a fórmula do chamado ao discipulado.

anastàs ēkoloúthēsen (ἀναστὰς ἠκολούθησεν) — "levantando-se, seguiu": o particípio "levantando-se" e o verbo no aoristo "seguiu" descrevem um ato decidido e completo. Mateus responde à ordem contínua com um gesto imediato.

Nota teológica: há uma bela tensão entre os dois verbos de "seguir". Jesus ordena no presente (um seguir que dura a vida inteira); Mateus responde no aoristo (um seguir que começa num instante). O discipulado é, ao mesmo tempo, uma decisão pontual e um caminho sem fim — nasce num momento e se estende por todos os dias seguintes.

11. Conclusão

Mateus 9:9 cabe numa respiração, mas carrega uma revolução silenciosa. Jesus passa, vê um homem que o seu povo havia condenado, e o chama para perto. Não exige que ele primeiro se conserte; chama-o como está, sentado no meio do que o acusava. E o homem se levanta e segue.

Vimos que o próprio autor do evangelho é, com quase toda a certeza, esse homem — e que ele conta a própria história com uma sobriedade que diz muito: sem esconder o passado, sem transformá-lo em espetáculo. A dupla identidade Mateus/Levi, longe de ser um problema, é um lembrete de que a fé é honesta com os seus detalhes.

O convite que este versículo faz é o mesmo que fez a Mateus: levantar-se de onde estamos, deixar o que precisa ficar, e seguir. Não porque já estejamos prontos, mas porque Aquele que chama vê em nós o que ainda não conseguimos ver.

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