Vendo isso, a multidão ficou cheia de temor e glorificou a Deus, que dera tal autoridade aos homens.
1. Introdução
A cura do paralítico em Cafarnaum é um dos episódios mais carregados de tensão e revelação em todo o ministério de Jesus. Quando os escribas o acusaram de blasfêmia por perdoar pecados, Jesus respondeu com um ato que não deixava espaço para dúvidas: ordenou que o paralítico se levantasse, pegasse sua maca e fosse para casa — e o homem obedeceu. A multidão que testemunhou aquilo não ficou apenas impressionada. O texto diz que ficou "cheia de temor" e glorificou a Deus.
Mateus 9:8 é o versículo de encerramento desse episódio, e carrega um peso teológico considerável. Ele registra a reação do povo diante do que havia acabado de acontecer: uma combinação de reverência profunda e louvor espontâneo. Mas há uma expressão nesse versículo que merece atenção especial — "que dera tal autoridade aos homens". Essa formulação revela como a multidão compreendeu, ainda que de forma parcial, o que estava diante dela.
Este estudo examina esse versículo final com cuidado: o que significa temer a Deus diante do milagre, o que significa glorificá-lo, e o que a expressão "autoridade dada aos homens" nos diz sobre a identidade de Jesus, sobre sua missão e sobre a autoridade que ele posteriormente delegaria aos seus discípulos.
2. Contexto Histórico e Cultural
Cafarnaum, à beira do Mar da Galileia, era o centro de operações do ministério de Jesus na região norte de Israel. Era uma cidade de médio porte, com intensa atividade comercial e presença romana, e funcionava como ponto de passagem entre territórios. A casa onde Jesus se encontrava naquele dia estava tão cheia que quatro homens precisaram abrir o telhado para descer o paralítico até ele — detalhe que Marcos e Lucas preservam e que revela a dimensão do movimento que Jesus havia gerado.
O contexto religioso é igualmente importante. A crença judaica era clara: somente Deus tinha autoridade para perdoar pecados. Essa convicção não era apenas doutrinária — estava enraizada nas Escrituras e na prática litúrgica do templo. Por isso, quando Jesus disse ao paralítico "os teus pecados estão perdoados", os escribas presentes reagiram com indignação imediata, acusando-o de blasfêmia. Para eles, um homem que reivindicava esse poder estava ou enganado ou cometendo o pior dos crimes religiosos.
A cura física que se seguiu foi, portanto, muito mais do que um ato de compaixão. Foi uma resposta direta à controvérsia teológica instalada naquele ambiente. Jesus curou o paralítico precisamente para demonstrar que tinha autoridade sobre o que é invisível — o perdão — através do que é visível — a restauração do corpo. A multidão que testemunhou esse encadeamento de eventos não estava assistindo a um espetáculo isolado. Estava diante de uma ruptura na ordem religiosa conhecida, e a reação registrada em Mateus 9:8 é a resposta humana natural a esse encontro com o poder de Deus.
3. Análise Teológica do Versículo
Vendo isso, a multidão
O contexto desta passagem é a cura do paralítico, em que Jesus não apenas o cura fisicamente, mas também perdoa os seus pecados. A multidão que testemunhou o evento conhecia bem a crença judaica de que somente Deus pode perdoar pecados, o que tornava as ações de Jesus ao mesmo tempo assombrosas e controversas. A reação do povo é significativa porque representa o reconhecimento público das obras miraculosas e da autoridade divina de Jesus.
Ficou cheia de temor
A palavra grega usada aqui pode ser traduzida também como "medo" ou "reverência". Essa reação é comum nos Evangelhos quando as pessoas testemunham as obras miraculosas de Jesus, indicando o reconhecimento de uma intervenção divina. O temor experimentado pela multidão é uma resposta à autoridade e ao poder de Jesus, que superam a compreensão humana e evocam um senso profundo de admiração e respeito.
E glorificou a Deus
A glorificação de Deus pela multidão indica que o povo reconheceu a fonte divina da autoridade e do poder de Jesus. Essa resposta está alinhada com a tradição judaica de dar glória a Deus pelos eventos miraculosos. Ela também evidencia o propósito dos milagres de Jesus: revelar a glória de Deus e conduzir as pessoas à adoração. Essa reação é consistente com outros relatos bíblicos em que a intervenção divina gera louvor e adoração.
Que dera tal autoridade aos homens
Essa expressão sublinha a autoridade única concedida a Jesus que, sendo plenamente humano, exerce poder divino. O reconhecimento dessa autoridade pela multidão reflete uma compreensão parcial da identidade de Jesus como o Messias. Na narrativa bíblica mais ampla, essa autoridade é o cumprimento das profecias do Antigo Testamento a respeito da vinda de um Salvador com poder divino. Ela também antecipa a autoridade que Jesus posteriormente delegaria aos seus discípulos, como se vê na Grande Comissão (Mateus 28:18-20).
4. Pessoas, Lugares e Eventos
1. Jesus Cristo A figura central desta passagem. Jesus acabou de curar um paralítico, demonstrando sua autoridade e poder divinos.
2. A Multidão O povo que testemunhou o milagre realizado por Jesus. A sua reação é de temor e glorificação a Deus.
3. O Paralítico O homem curado por Jesus, que ilustra o poder da fé e a autoridade de Jesus para perdoar pecados e restaurar a saúde.
4. Cafarnaum A cidade onde este evento aconteceu, que servia frequentemente como base do ministério de Jesus na Galileia.
5. O Milagre A cura do paralítico, que serve de testemunho da autoridade divina de Jesus e do poder de Deus agindo por meio dele.
5. Pontos de Ensino
A autoridade de Jesus A autoridade de Jesus é ao mesmo tempo divina e humana, pois ele é plenamente Deus e plenamente homem. Essa autoridade se manifesta na sua capacidade de perdoar pecados e realizar milagres.
A resposta de temor e adoração A resposta adequada diante do poder de Deus é o temor e a adoração. Glorificar a Deus pelas suas obras e pela sua autoridade na nossa vida é o posicionamento correto do ser humano diante do Criador.
Fé e cura A cura do paralítico demonstra o poder da fé. Confiar na autoridade de Jesus sobre todos os aspectos da vida — incluindo a saúde física e a restauração espiritual — é o chamado central desta narrativa.
A autoridade de Deus dada aos homens A passagem evidencia que Deus conferiu autoridade aos homens, especialmente por meio de Jesus. Essa autoridade se estende aos crentes que agem em nome de Jesus.
Testemunhar o poder de Deus Os crentes são chamados a ser testemunhas do poder e da autoridade de Deus, compartilhando as boas novas das obras de Jesus e da sua capacidade de transformar vidas.
6. Aspectos Filosóficos
A reação da multidão em Mateus 9:8 coloca em evidência uma das questões mais fundamentais da experiência humana: o que acontece com o ser humano quando ele se depara com algo que ultrapassa completamente os limites do que considera possível?
O temor descrito no texto não é o medo ordinário diante de uma ameaça. É o que a tradição filosófica e religiosa chama de temor sagrado — uma experiência de esmagamento interior diante do que é radicalmente maior do que nós. O filósofo e teólogo Rudolf Otto chamou essa experiência de "o numinoso": a sensação de estar diante de algo tremendo e ao mesmo tempo fascinante, que paralisa e atrai ao mesmo tempo. A multidão em Cafarnaum viveu exatamente isso.
Há também uma questão filosófica relevante na expressão "que dera tal autoridade aos homens". Ela levanta o problema da mediação: como o poder que pertence ao absoluto — a Deus — pode ser exercido por um ser contingente, limitado, mortal? A tradição filosófica ocidental, influenciada pelo pensamento grego, tende a separar radicalmente o divino do humano. Mas a afirmação bíblica é outra: Deus age no mundo por meio de pessoas. Jesus não é apenas o exemplo disso — é o centro e o fundamento.
Outro ponto filosófico digno de atenção é a relação entre o visível e o invisível neste episódio. Jesus cura o corpo para provar que tem autoridade sobre a alma. O que é externo serve como evidência do que é interno. Essa lógica — de que o visível aponta para o invisível — é central na estrutura do pensamento bíblico e contrasta com as filosofias materialistas que reduzem a realidade ao que pode ser observado e mensurado.
Por fim, a glorificação espontânea de Deus pela multidão aponta para algo que os filósofos da experiência religiosa chamam de resposta natural ao sagrado. O louvor não foi organizado nem exigido. Brotou como uma resposta inevitável ao encontro com o poder divino. Isso sugere que a adoração não é apenas um ato cultural ou religioso — é uma reação profundamente humana diante da grandeza de Deus.
7. Aplicações Práticas
Cultivar a reverência diante de Deus O temor que a multidão experimentou não era paralisante — era transformador. Perder a capacidade de se maravilhar diante de Deus é um sinal de que a fé se tornou rotineira. A prática de reconhecer a grandeza de Deus nas situações cotidianas — nas respostas a orações, nas providências, nas restaurações — mantém vivo esse senso de reverência que gera adoração genuína.
Glorificar a Deus publicamente A multidão glorificou a Deus de forma coletiva e visível. A glorificação de Deus não é apenas uma atitude interior — ela tem uma dimensão pública. Testemunhar o que Deus fez na própria vida, nas conversas, nas redes sociais, no ambiente de trabalho, é uma forma concreta de glorificar a Deus diante dos outros, assim como a multidão fez em Cafarnaum.
Reconhecer a autoridade de Jesus sobre toda a vida A autoridade demonstrada por Jesus naquele episódio não se limitava ao corpo ou ao perdão dos pecados — era uma autoridade abrangente. Submeter as decisões, os relacionamentos, os projetos e os medos à autoridade de Jesus é a aplicação prática daquilo que a multidão reconheceu naquele dia.
Exercer a autoridade delegada com responsabilidade A expressão "autoridade dada aos homens" aponta para a delegação que Jesus faria posteriormente aos seus discípulos. O crente age com autoridade quando ora pelos enfermos, quando anuncia o perdão em nome de Jesus, quando resiste ao mal com base nas promessas bíblicas. Essa autoridade não é própria — é concedida por Cristo e deve ser exercida com humildade e fidelidade.
Ser transformado pelo que se testemunha A multidão não saiu da mesma forma que entrou. Quem testemunha o poder de Deus e permanece inalterado perdeu a oportunidade de ser transformado. A leitura das Escrituras, o testemunho de outros crentes e a experiência pessoal da graça de Deus são oportunidades de transformação que devem ser aproveitadas com abertura e atenção.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas sobre o Versículo
1. Como a reação da multidão em Mateus 9:8 desafia ou inspira a sua própria resposta diante das obras de Deus na sua vida?
A multidão reagiu de forma imediata e espontânea: temor e louvor. Não houve deliberação nem debate — a resposta brotou do que foi visto. Isso desafia o crente a perguntar se a sua própria experiência com Deus ainda provoca alguma coisa. Quando a fé se torna apenas um conjunto de obrigações religiosas, perde-se a capacidade de se maravilhar. O convite desta cena é recuperar a sensibilidade diante da ação de Deus: perceber quando ele age, reconhecer o que ele fez e responder com gratidão e adoração genuínas, não como protocolo, mas como reação natural de quem enxerga o sobrenatural agindo no cotidiano.
2. De que maneiras é possível exercer a autoridade dada ao crente em Jesus Cristo, conforme esta passagem e outras Escrituras indicam?
A autoridade do crente não é uma questão de posição social ou de eloquência — é uma questão de identidade em Cristo. Ela se exerce na oração intercessória, que age sobre realidades que os olhos não enxergam. Se exerce no anúncio do evangelho, que carrega em si o poder de transformar vidas. Se exerce na resistência ao mal, sustentada pelas promessas bíblicas. E se exerce no serviço ao próximo, que é uma das formas mais concretas de agir com a autoridade de quem representa o Rei. O ponto central é que essa autoridade não pertence ao crente — pertence a Cristo, que a delega aos que creem e agem em seu nome.
3. Como a cura do paralítico encoraja a confiar em Jesus tanto para as necessidades físicas quanto para as espirituais?
O episódio demonstra que, para Jesus, não há hierarquia entre o que é físico e o que é espiritual. Ele tratou as duas dimensões com a mesma naturalidade e a mesma autoridade. Isso encoraja o crente a levar a Jesus não apenas as questões "espirituais" — como o perdão, a paz interior e a salvação — mas também as necessidades concretas: a saúde, o trabalho, os relacionamentos, as situações que parecem sem saída. Jesus não é um administrador do espiritual que ignora o material. Ele é Senhor de toda a realidade, e a cena do paralítico é a prova disso.
4. Quais são algumas formas práticas de glorificar a Deus no dia a dia, assim como a multidão fez diante do milagre de Jesus?
Glorificar a Deus não exige um milagre visível como ponto de partida. Qualquer reconhecimento de que Deus agiu — por menor que pareça — é uma oportunidade de louvor. Agradecer a Deus antes das refeições, compartilhar com alguém uma resposta a uma oração, elogiar publicamente a fidelidade de Deus em momentos de dificuldade superada, cantar com atenção e intenção durante o culto, ou simplesmente parar no fim do dia e reconhecer o que Deus providenciou — todas essas são formas concretas e acessíveis de glorificar a Deus cotidianamente.
5. Como a autoridade de Jesus, demonstrada nesta passagem, deve influenciar a compreensão do papel dele na vida do crente e no mundo?
A autoridade de Jesus demonstrada em Cafarnaum não era pontual. Era uma declaração sobre quem ele é. Ele não apenas curou um homem — ele revelou que tem poder sobre o corpo, sobre o pecado e sobre a incredulidade dos religiosos. Isso deve mudar a maneira como o crente se relaciona com Jesus no dia a dia: não como uma figura distante ou como um recurso de emergência, mas como o Senhor que está presente, que tem autoridade sobre tudo o que diz respeito à vida do crente, e que age com precisão e propósito. Reconhecer essa autoridade é o fundamento de uma fé sólida e de uma vida orientada por Cristo.
9. Conexão com Outros Textos
Marcos 2:1-12 e Lucas 5:17-26
Esses relatos paralelos da cura do paralítico fornecem detalhes e perspectivas adicionais sobre o evento, com ênfase na autoridade de Jesus para perdoar pecados. Marcos registra que, ao ver o paralítico curado, a multidão ficou atônita:
"Ele se levantou, tomou logo a sua maca e saiu diante de todos, de modo que todos ficaram atônitos e glorificavam a Deus, dizendo: 'Jamais vimos coisa assim!'" (Marcos 2:12)
Mateus 28:18
Jesus declara que toda autoridade no céu e na terra lhe foi dada, reforçando a autoridade já demonstrada em Mateus 9:8:
"Jesus aproximou-se deles e disse: 'Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.'" (Mateus 28:18)
Atos 3:12-16
Pedro cura um coxo em nome de Jesus, mostrando que a autoridade concedida a Jesus também se estende aos seus seguidores:
"Ao ver isso, Pedro disse ao povo: 'Por que isso os surpreende? Por que vocês ficam olhando para nós, como se tivéssemos feito este homem andar por nosso próprio poder ou piedade? [...] É pela fé no nome de Jesus que este homem, que vocês estão vendo e conhecem, foi fortalecido. A fé que vem por meio de Jesus lhe deu essa cura completa, à vista de todos vocês.'" (Atos 3:12, 16)
10. Original Grego e Análise
Versículo em português: "Vendo isso, a multidão ficou cheia de temor e glorificou a Deus, que dera tal autoridade aos homens." (Mateus 9:8)
Texto em grego: ἰδόντες δὲ οἱ ὄχλοι ἐφοβήθησαν καὶ ἐδόξασαν τὸν θεὸν τὸν δόντα ἐξουσίαν τοιαύτην τοῖς ἀνθρώποις.
Transliteração: Idontes de hoi ochloi ephobēthēsan kai edoxasan ton theon ton donta exousian toiautēn tois anthrōpois.
Análise palavra por palavra:
ἰδόντες (idontes) Particípio aoristo do verbo ὁράω (horaō), "ver". A forma participial indica que o ato de ver precede e fundamenta a reação da multidão. Não foi um olhar passivo — foi um testemunho ativo que gerou consequências imediatas.
δὲ (de) Partícula conectiva e levemente adversativa, equivalente a "mas" ou "e então". Marca uma transição narrativa: o episódio da discussão com os escribas termina; agora Mateus registra a reação do povo.
οἱ ὄχλοι (hoi ochloi) "As multidões" ou "a multidão". O plural indica um grupo numeroso e diverso. Não eram apenas os discípulos ou simpatizantes — era o povo comum que estava presente naquele espaço.
ἐφοβήθησαν (ephobēthēsan) Verbo aoristo passivo de φοβέομαι (phobeomai), "temer". O tempo aoristo indica uma ação pontual e concreta: o temor aconteceu naquele momento específico, como resposta direta ao que foi visto. No Novo Testamento, esse verbo frequentemente descreve a reação humana diante da manifestação do poder de Deus — não pânico, mas reverência profunda.
καὶ ἐδόξασαν (kai edoxasan) "E glorificaram". O verbo δοξάζω (doxazō) significa "dar glória", "honrar", "exaltar". Deriva de δόξα (doxa), "glória". O temor e a glorificação caminham juntos no texto: um é a reação interior, o outro é a expressão exterior dessa mesma experiência.
τὸν θεόν (ton theon) "A Deus" (acusativo, objeto direto de ἐδόξασαν). A glória não foi dirigida a Jesus diretamente, mas a Deus — o que é significativo. A multidão reconheceu que a fonte última daquele poder era divina, mesmo que ainda não compreendesse plenamente quem era Jesus.
τὸν δόντα (ton donta) Artigo + particípio aoristo de δίδωμι (didōmi), "dar". Traduz-se como "o que deu" ou "que havia dado". Esse particípio qualifica Deus: é o Deus que conferiu essa autoridade. O uso do aoristo sugere uma concessão específica e histórica.
ἐξουσίαν (exousian) "Autoridade". Este é um dos termos mais importantes do versículo. No grego bíblico, ἐξουσία (exousia) designa poder legítimo e reconhecido — não força bruta, mas autoridade com direito de exercê-la. Aparece repetidamente nos Evangelhos em relação a Jesus (cf. Mateus 7:29; 28:18).
τοιαύτην (toiautēn) "Tal", "semelhante", "desse tipo". O pronome demonstrativo expressa a singularidade daquilo que foi testemunhado. Não era uma autoridade comum — era uma autoridade de natureza extraordinária.
τοῖς ἀνθρώποις (tois anthrōpois) "Aos homens" (dativo plural de ἄνθρωπος, anthrōpos). O uso do plural é teologicamente relevante. Mateus, ao registrar a fala da multidão dessa forma, pode estar apontando para além de Jesus — antecipando a autoridade que seria delegada aos discípulos. A multidão reconheceu que Deus havia agido por meio de um ser humano, o que abria uma perspectiva nova sobre o que Deus pode fazer através das pessoas.
11. Conclusão
Mateus 9:8 é um versículo de encerramento que, ao mesmo tempo, abre horizontes. A cura do paralítico termina, a controvérsia com os escribas se dissolve, e o que resta é a reação do povo: temor e louvor. Essa dupla resposta — reverência diante do poder e glorificação do Deus que age — é um modelo de como o ser humano deveria reagir diante da presença e da obra de Deus.
A expressão "que dera tal autoridade aos homens" é a chave interpretativa do versículo. Ela revela que a multidão fez uma conexão entre o milagre que presenciou e a concessão divina de autoridade a Jesus. Ainda que de forma incompleta — o povo não havia ainda compreendido plenamente que Jesus era o Filho de Deus — havia ali o reconhecimento de que algo sobrenatural acontecia por meio de um ser humano. Esse reconhecimento é o ponto de partida de toda fé genuína.
A análise do grego confirma a riqueza do texto: o temor (ἐφοβήθησαν) é pontual e concreto, a glorificação (ἐδόξασαν) é direcionada a Deus, e a autoridade (ἐξουσίαν) é descrita como legítima e única. O plural "aos homens" sugere que Mateus registrou essa fala com consciência de que a autoridade de Jesus seria posteriormente estendida aos discípulos — o que se cumpriria na Grande Comissão de Mateus 28.
Para o leitor de hoje, o versículo coloca uma pergunta direta: como se reage ao poder de Deus? A resposta da multidão foi imediata e correta. O desafio do crente é manter essa sensibilidade viva, não deixar que a familiaridade com o evangelho apague a capacidade de se maravilhar, e continuar glorificando a Deus que, por sua graça, escolheu agir no mundo por meio de pessoas.










