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Mateus 22:1

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✍️ Por Alberto Adriano·21 de outubro de 2026·⏱️ 20 min de leitura·👁 11 acessos
Jesus voltou a lhes falar por parábolas, dizendo:
Jesus ensinando em pé no pátio do templo de Jerusalém, diante de sacerdotes e fariseus, com a multidão de peregrinos ao fundo

Estudo


Jesus voltou a lhes falar por parábolas, dizendo:

1. Introdução

Mateus escreve "parábolas", no plural, e conta uma só. O detalhe é pequeno e atravessou a história da interpretação sem acordo: uns leem o plural como sinal de que o evangelista resumiu um bloco maior de ensino, outros como fórmula fixa, do mesmo tipo de "falar por enigmas", que não conta unidades.

A segunda pergunta do versículo é para quem Jesus fala. O texto diz apenas "lhes", e o último grupo nomeado foi o dos principais sacerdotes e fariseus, que acabavam de procurar um jeito de prendê-lo. A parábola que vem a seguir é, portanto, dirigida a quem já decidiu matá-lo — e termina com um rei que manda queimar uma cidade.

Há ainda o "voltou". A palavra grega marca repetição, e repetição de quê é o que o versículo não diz. Pode ser a terceira parábola de uma série, pode ser o retorno ao método depois da pergunta sobre a autoridade. As duas leituras mudam o que a parábola está respondendo.

2. Contexto Histórico e Cultural

O pátio do templo, poucos dias antes da Páscoa. Jerusalém recebia em festa de peregrinação uma multidão que os cálculos modernos estimam entre cem e trezentos mil pessoas, numa cidade cuja população fixa não passava de trinta mil. A guarnição romana subia da Cesareia para a festa e se posicionava nos pórticos da Fortaleza Antônia, de onde se via o pátio inteiro. É nesse espaço, cheio e vigiado, que Jesus continua falando.

Ensinar por parábola não era excentricidade. O método tem paralelo direto na literatura rabínica, onde o mashal — a comparação — é forma reconhecida de ensino jurídico e moral. Os meshalim preservados na literatura tanaítica costumam abrir com a mesma fórmula que aparece aqui: "a que se compara isto? A um rei que…". A proporção é notável: entre as parábolas rabínicas catalogadas, a figura do rei é a mais frequente de todas, e quase sempre designa Deus.

O plural da fórmula. Em grego helenístico, en parabolais funciona com frequência como designação de gênero e não de quantidade, do mesmo modo que "falar em provérbios" não exige vários provérbios. O uso aparece na Septuaginta e em autores do período. Isso enfraquece — sem eliminar — a hipótese de que Mateus esteja resumindo um conjunto maior de parábolas que não registrou.

Quem está ouvindo. Os principais sacerdotes eram a aristocracia sacerdotal ligada à casa de Anás, com interesses econômicos no funcionamento do templo. Os fariseus eram outro grupo, de base leiga e autoridade construída na interpretação da Lei. Que apareçam juntos é sinal da gravidade: em condições normais disputavam entre si, e o Talmude conserva registro dessa fricção. Um adversário comum os reuniu.

Quem ensinava assim, e onde. O pátio dos gentios funcionava como espaço de ensino aberto: mestres se postavam junto às colunatas e falavam a quem parasse. Não havia cátedra nem licença — a autoridade se media pela audiência que se formava. É por isso que a pergunta do capítulo anterior, sobre com que autoridade Jesus fazia aquelas coisas, era juridicamente séria e não retórica: num espaço sem credenciamento, a questão da autoridade era a única disponível.

A posição física importava. Os relatos do período descrevem o mestre sentado e os ouvintes ao redor, e a postura marcava o papel. Mateus registrará, no capítulo seguinte, que os escribas se assentam "na cadeira de Moisés" — a expressão supõe esse arranjo.

O risco de falar ali. O templo tinha polícia própria, a guarda levítica, com poder de prisão no recinto. Acima dela, a guarnição romana na Antônia observava o pátio e descia ao primeiro sinal de tumulto. Falar contra as autoridades do templo, dentro do templo, em semana de festa, era fazê-lo diante de dois aparatos de força simultâneos — e é esse o cenário em que a parábola das bodas será contada.

3. Análise Teológica do Versículo

"Jesus voltou a lhes falar"

O verbo grego traz consigo um advérbio de repetição, palin, e é dele que vem o "voltou" da tradução. A palavra não descreve uma ação nova: descreve o retorno a uma ação já praticada. Mas o texto não diz a que se volta, e as possibilidades mudam o sentido da parábola inteira.

Se o retorno é ao método, Jesus está dizendo: já que a pergunta direta sobre a minha autoridade não teve resposta honesta, volto a falar por comparações. A parábola, nessa leitura, é uma escolha tática — um modo de dizer o que não pode ser dito de frente diante de testemunhas hostis.

Se o retorno é ao assunto, Jesus está dizendo: volto ao tema de quem responde ao chamado e de quem não responde. A parábola seria então a terceira investida sobre a mesma questão, e o acúmulo é o argumento.

Há uma terceira leitura, menos comum e mais incômoda: o retorno é ao interlocutor. Jesus volta a falar a eles — aos mesmos homens que, no versículo anterior, procuravam um jeito de prendê-lo. O que o advérbio marcaria não é insistência no tema nem no gênero, mas na pessoa. Ele não desiste dos que já decidiram.

O pronome não ajuda a desempatar, e é bom que se diga: "lhes" é tudo o que o texto oferece. O leitor precisa buscar o antecedente no capítulo anterior, onde estão os principais sacerdotes e os fariseus. Essa dependência não é acidental — Mateus está tratando os capítulos 21 e 22 como uma cena só, e o corte entre eles é invenção posterior, do século XIII, quando a Bíblia foi dividida em capítulos.

"por parábolas"

Aqui está a dificuldade real do versículo. O plural anuncia várias, e vem uma. A história da interpretação registra pelo menos quatro saídas, e nenhuma fechou a questão.

A primeira é gramatical: o plural seria idiomático, designando o gênero do discurso e não a quantidade de peças. Quem diz "falar em provérbios" não promete dois provérbios. A construção aparece com esse valor na Septuaginta e em textos gregos do período, e isso dá à saída uma base sólida.

A segunda é redacional: Mateus teria tido diante de si um bloco de parábolas e registrado uma. O plural seria a cicatriz do corte — o resto do material ficou de fora, e a fórmula introdutória não foi ajustada. Quem sustenta essa leitura costuma observar que Lucas traz uma história parecida em outro lugar e em outro contexto (Lucas 14:16-24), o que sugere tradição circulando em mais de uma forma.

A terceira é estrutural: o plural cobriria não só a parábola das bodas, mas as três do bloco inteiro — os dois filhos, os lavradores e o banquete —, funcionando como fecho retrospectivo. O problema dessa leitura é que o versículo abre uma unidade, não fecha.

A quarta é interna à própria história: o que vem a seguir pode ser lido como duas parábolas emendadas — a do convite recusado, que termina com a cidade em chamas e o salão cheio, e a do homem sem veste, que começa depois e tem desfecho próprio. Essa divisão não é fantasia de comentarista: a segunda parte tem personagem novo, conflito novo e conclusão própria, e muitos leitores antigos já a tratavam como peça distinta. Se for isso, o plural está correto e o problema nunca existiu.

Nenhuma das quatro elimina as outras. O que se pode afirmar com segurança é menor e mais útil: o plural obriga o leitor a decidir onde a parábola termina, e essa decisão muda o sentido do que ele acabou de ler.

"dizendo"

O particípio que fecha o versículo é, à primeira vista, dispensável — o verbo "falar" já dissera que houve fala. A repetição é semitismo bem documentado, decalque de uma construção hebraica que introduz discurso direto, e passa despercebida na leitura corrente.

Ela tem, porém, um efeito que não é de estilo. O particípio abre aspas. Tudo o que vem depois é palavra de Jesus, sem comentário do evangelista, até a conclusão do versículo 14. Mateus se cala por treze versículos e deixa a história falar sozinha diante de homens que querem matá-lo. Quando ele voltar a falar, no versículo 15, será para dizer que os fariseus se retiraram e começaram a armar.

O que o versículo faz

É um versículo de dobradiça, e dobradiças não chamam atenção para si. Ele não tem imagem, não tem personagem, não tem conflito. Mas estabelece três coisas das quais a parábola depende inteiramente: que a fala continua, que o público é hostil e que o que vem é comparação — isto é, algo que significa outra coisa além do que conta.

Essa última é a mais importante e a mais esquecida. Ao anunciar parábola, o texto avisa que o rei da história não é um rei, que o casamento não é um casamento e que a cidade incendiada não é uma cidade qualquer. Quem ler a história como notícia vai tropeçar na violência do versículo 7. O aviso está aqui, na primeira linha, e é dado antes que a violência apareça.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus — No pátio do templo, poucos dias antes da sua prisão. Ensina de pé, cercado, diante de autoridades que acabaram de desistir de prendê-lo apenas por medo da multidão. Continua falando.

"Lhes" — os principais sacerdotes e os fariseus — O antecedente está no capítulo anterior. Os principais sacerdotes formavam a aristocracia do templo, ligada à família de Anás, com autoridade de culto e interesse econômico na administração do santuário. Os fariseus eram grupo distinto, de base leiga, cuja autoridade vinha do estudo e da aplicação da Lei ao cotidiano. Não eram aliados naturais.

O templo de Jerusalém — A obra de ampliação iniciada por Herodes, o Grande, ainda não estava concluída; terminaria por volta de 64 d.C. e seria destruída seis anos depois. O pátio dos gentios, onde a cena se passa, era o maior espaço público da cidade e funcionava como praça: lá se ensinava, se discutia e se trocava dinheiro.

A Páscoa — Uma das três festas de peregrinação que obrigavam a subida a Jerusalém. A cidade multiplicava sua população, e a tensão política subia junto. Era na Páscoa que Roma reforçava a guarnição, e era na Páscoa que os movimentos de revolta costumavam começar.

A parábola — Em grego parabolé, literalmente "lançar ao lado": pôr uma coisa junto de outra para que a primeira se explique. Traduz o hebraico mashal, termo mais largo, que cobre provérbio, enigma, fábula e comparação. Nem toda parábola é história, e nem toda história é parábola.

5. Pontos de Ensino

Falar de novo a quem já decidiu não ouvir. O versículo registra um gesto que, do ponto de vista da eficácia, não faz sentido. Os ouvintes já tomaram a decisão de prender Jesus; a parábola não vai demovê-los. Ainda assim ele fala. O ensino aqui não está no conteúdo da parábola, que ainda não começou, mas na insistência — e insistência diante de recusa consumada é uma das coisas mais difíceis de sustentar.

A forma escolhida protege o ouvinte. Uma acusação direta não deixa saída: ou se aceita ou se reage. A comparação deixa um intervalo. Quem ouve pode entrar na história como espectador, julgar os personagens e só depois descobrir que julgou a si mesmo. É o que acontecera poucos versículos antes, quando os mesmos homens responderam à pergunta sobre os lavradores e pronunciaram a própria sentença. A parábola é mais lenta que a acusação, e por isso alcança mais fundo.

O aviso vem antes da ofensa. O versículo anuncia comparação antes de contar uma história que terá exército, assassinato e incêndio. Quem recebe o aviso e mesmo assim lê a história como relato de fatos cometeu o erro contra o qual foi prevenido. A ordem importa: primeiro o gênero, depois o conteúdo.

O que Mateus não diz também ensina. A partir daqui, e por treze versículos, Mateus não comenta nada. Não explica a parábola, não suaviza o final, não diz como os ouvintes reagiram. Há uma confiança embutida nisso: a de que a história, bem contada, dispensa quem a defenda.

6. Aspectos Filosóficos

Há uma pergunta filosófica escondida na palavra "parábola", e ela é anterior a qualquer interpretação do que vem depois: por que um discurso indireto comunica melhor do que um direto?

O historiador francês Jean-Louis Flandrin, estudando a mesa como instituição social, observou que certas instituições humanas carregam significado que não se deixa enunciar separadamente delas. Pode-se descrever uma refeição em termos nutricionais e não dizer nada sobre o que ela é; o sentido está no arranjo — quem senta, em que lugar, quem serve, o que se oferece — e desaparece quando se tenta extraí-lo em forma de tese. Quem quer transmitir esse tipo de sentido não tem escolha senão mostrar a cena inteira.

É isso que a parábola faz, e é por isso que ela não é ornamento de um ensino que poderia ser dado de outro modo. Se Jesus quisesse dizer "vocês foram chamados e recusaram", bastava dizer. A história do banquete não diz isso melhor; diz outra coisa, que só existe quando há um rei que prepara, servos que são enviados, convidados que vão cuidar dos próprios negócios e bois já abatidos esfriando na cozinha. O desperdício do banquete pronto e recusado não tem equivalente em proposição.

Daí decorre uma consequência que incomoda. Se o sentido está na cena, então explicar a parábola é, em alguma medida, destruí-la. A explicação troca a cena por um resumo, e o resumo é sempre menor. Talvez seja essa a razão do silêncio de Mateus nos treze versículos seguintes: não é economia de escrita, é respeito pela forma.

Resta a pergunta que a cena de hoje torna aguda. Diante de homens que já decidiram, o discurso indireto é generosidade ou é astúcia? Ele dá ao ouvinte a chance de se reconhecer sozinho — ou arma uma cilada em que ele julgará a si próprio sem perceber? O texto não decide, e as duas leituras têm defensores desde os primeiros séculos.

7. Aplicações Práticas

Há uma situação em que este versículo deixa de ser dobradiça e passa a ser espelho: quando você precisa falar de novo com alguém que já decidiu não ouvir.

Acontece dentro de casa, com um filho adulto que já fechou a questão. Acontece no trabalho, com um sócio que já escolheu o lado. E a reação natural, nesses casos, é uma de duas — repetir mais alto o mesmo argumento, ou calar e dar por encerrado.

O versículo mostra um terceiro caminho, e ele é mais custoso que os outros dois: mudar a forma, não o interlocutor. Jesus não procura um público melhor. Continua com aqueles, e troca o modo de falar.

Vale uma ressalva, porque a aplicação pode virar conselho ruim. Insistir não é o mesmo que forçar, e o texto não manda ninguém permanecer onde há perigo real. Jesus insiste num contexto em que sabe o custo e o aceita — e três dias depois o custo será cobrado. Quem transpõe isso para uma relação de abuso está lendo mal.

O que se aproveita é menor e verdadeiro: quando o argumento direto falhou, a história concreta às vezes passa onde a tese não passou. Não por ser mais macia, mas porque deixa o outro chegar sozinho à conclusão — e conclusão a que se chega sozinho não precisa ser defendida contra quem a trouxe.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que Mateus escreve "parábolas" se conta apenas uma?

Não há resposta fechada, e as quatro em disputa estão no item 3. A mais econômica é que o plural seja idiomático, designando o gênero do discurso; a mais interessante é que a história seguinte contenha, de fato, duas parábolas emendadas — a do convite recusado e a do homem sem veste. Se for esta, o plural está certo e o problema é nosso.

A quem Jesus está falando?

O texto diz só "lhes". O antecedente mais próximo são os principais sacerdotes e os fariseus do capítulo anterior, que tinham acabado de procurar um jeito de prendê-lo. Isso significa que a parábola das bodas, com seu rei que incendeia uma cidade, é dirigida às autoridades do templo — e não à multidão que também estava ali.

Se eles já queriam matá-lo, qual era o sentido de continuar falando?

É a pergunta que o versículo levanta e não responde. Pode-se dizer que a fala não era para convencê-los, mas para que a recusa ficasse registrada diante de testemunhas. Pode-se dizer que a insistência é a própria mensagem. O texto não escolhe, e quem escolher estará acrescentando.

Falar por parábolas é esconder ou revelar?

O próprio evangelho sustenta as duas coisas em lugares diferentes, e esse é um dos pontos mais discutidos de Mateus. Aqui a parábola é entendida por quem ouve — a prova está no versículo 15, quando os fariseus saem e começam a armar contra ele. Entenderam perfeitamente.

Por que o capítulo começa aqui, se a cena é a mesma?

Porque a divisão em capítulos é medieval, do século XIII, e não faz parte do texto. Mateus 21 e 22 são uma cena contínua no mesmo pátio, no mesmo dia, diante do mesmo grupo. Ler o versículo 1 como abertura de algo novo é um efeito da numeração, não do evangelho.

Esta parábola é a mesma que Lucas conta em outro lugar?

A questão divide os estudiosos há mais de um século. A favor de serem a mesma: o enredo básico é idêntico — convite, recusa coletiva, substituição dos convidados. Contra: em Lucas o anfitrião é um homem comum e a refeição é um jantar; em Mateus é um rei, a festa é um casamento, há exército e uma cidade incendiada, e há um segundo episódio inteiro, o do homem sem veste, que Lucas não tem. Arland Hultgren, ao catalogar as parábolas, trata as duas como peças distintas que partilham um fundo comum de tradição oral — leitura que explica as semelhanças sem supor que um dos evangelistas tenha desfigurado o texto do outro.

Falar por parábola era recurso de quem estava sob vigilância?

A hipótese aparece com frequência e convém medi-la. O discurso indireto de fato protege quem fala: nada do que Jesus diz aqui é acusação formulável diante de um tribunal. Mas a parábola não o protegeu — no versículo 15 os fariseus saem justamente para armar contra ele. Se havia proteção na forma, ela não funcionou, e o próprio texto registra o fracasso.

9. Conexão com Outros Textos

A cena imediatamente anterior, que define o "lhes"

Mateus 21:45-46 — "Quando os principais sacerdotes e os fariseus ouviram as parábolas de Jesus, perceberam que ele falava a respeito deles. E, procurando prendê-lo, temeram as multidões, porque estas o consideravam profeta."

O que acontece logo depois da parábola, e prova que entenderam

Mateus 22:15 — "Então os fariseus se retiraram e combinaram um plano para apanhá-lo em alguma palavra."

A mesma fórmula de abertura, em outro ponto do evangelho

Mateus 13:3 — "E ele lhes falou muitas coisas por parábolas, dizendo: 'Eis que o semeador saiu a semear.'"

Ali o plural é cumprido: seguem-se sete parábolas. Aqui, não. A comparação entre os dois lugares é o que torna o plural de 22:1 digno de nota.

A versão da mesma história em Lucas, em outro contexto

Lucas 14:16-17 — "Um homem deu um grande banquete e convidou muitos. Na hora do banquete enviou o seu servo para dizer aos convidados: 'Venham, porque tudo já está pronto.'"

Em Lucas é um homem, não um rei; é um jantar, não um casamento; não há exército nem cidade incendiada. As diferenças são grandes o bastante para que se discuta se são duas versões da mesma tradição ou duas histórias distintas.

O banquete como imagem do fim, no Antigo Testamento

Isaías 25:6 — "O SENHOR dos Exércitos preparará neste monte um banquete de coisas gordurosas para todos os povos, um banquete de vinhos velhos."

É o pano de fundo que a palavra "banquete" aciona num ouvinte judeu do primeiro século, antes mesmo que a parábola comece.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Jesus voltou a lhes falar por parábolas, dizendo:

Texto grego (Textus Receptus)

Καὶ ἀποκριθεὶς ὁ Ἰησοῦς πάλιν εἶπεν αὐτοῖς ἐν παραβολαῖς, λέγων,

Transliteração

Kai apokritheis ho Iēsous palin eipen autois en parabolais, legōn,

Análise palavra por palavra

Καί (kai) — "e". Conjunção simples, e aqui ela faz trabalho de costura: liga o que vem ao que ficou para trás, sem marcar pausa. O capítulo começa com uma conjunção, o que já indica que não começa coisa alguma.

ἀποκριθείς (apokritheis) — particípio aoristo de apokrinomai, "responder". A forma é passiva no aspecto, com sentido ativo, construção corrente no grego do Novo Testamento. A ABC não a traduz, e a omissão é defensável: em grego bíblico o particípio funciona com frequência como fórmula de abertura de fala, sem exigir pergunta prévia — decalque de uma construção hebraica. O que a palavra traz de significativo está comentado em Mateus 21:46.

ὁ Ἰησοῦς (ho Iēsous) — "o Jesus", com artigo, como é regra para nomes próprios conhecidos em grego. Mateus nomeia o sujeito aqui, embora não houvesse ambiguidade. É sinal de abertura de unidade.

πάλιν (palin) — "de novo", "outra vez". Advérbio de repetição, de onde vem o "voltou a" da tradução. Não especifica o que se repete, e essa indeterminação é deliberada ou descuidada conforme o comentarista.

εἶπεν (eipen) — aoristo indicativo ativo, terceira pessoa do singular, do verbo "dizer". O aoristo apresenta a ação como um todo, sem atenção à duração: não "ia dizendo", mas "disse".

αὐτοῖς (autois) — "a eles", dativo masculino plural. É o pronome que obriga o leitor a buscar o antecedente no capítulo anterior. O grego não é mais explícito que o português.

ἐν παραβολαῖς (en parabolais) — "em parábolas", dativo plural precedido de preposição. Parabolé vem de para-ballō, "lançar ao lado": pôr uma coisa junto de outra para que se esclareçam. Na Septuaginta traduz o hebraico mashal, palavra de alcance maior, que cobre provérbio, enigma, dito sentencioso e fábula. É o plural desta expressão que gera a discussão do versículo.

λέγων (legōn) — particípio presente ativo, "dizendo". Redundante depois de eipen, e a redundância é semitismo bem documentado: o hebraico lē'mōr introduz discurso direto do mesmo modo. Funciona como abertura de aspas.

Variantes

A tradição manuscrita é estável neste versículo. A diferença digna de nota é a presença ou ausência de legōn ao final, que alguns testemunhos omitem por considerá-la supérflua — omissão que confirma, por via indireta, que copistas de língua grega sentiam a construção como estranha. O Textus Receptus, que a ABC segue, mantém a forma plena.

11. Conclusão

Um versículo sem cena e sem personagem, e dele dependem os treze seguintes.

Ele fixa três coisas. Que a fala continua — ninguém saiu, ninguém foi embora, o pátio é o mesmo. Que o público é hostil — "lhes" são os homens que, uma linha antes, calcularam como prendê-lo. E que o que vem é comparação, não notícia.

A terceira é a que o leitor mais esquece, e é a que mais custa esquecer. Daqui a seis versículos um rei vai mandar um exército queimar uma cidade, e quem tiver perdido o aviso da primeira linha vai ler aquilo como crônica. O texto preveniu antes de ferir.

Sobra o plural que não fecha. Mateus anuncia parábolas e conta uma — a menos que sejam duas, emendadas, e nesse caso o problema nunca existiu e somos nós que lemos corrido o que o evangelista separou. A questão continua aberta depois de dezoito séculos, e vale mais como advertência de método do que como enigma: ela obriga a decidir onde a história termina, e essa decisão muda o que a história diz.

O que permanece, por fim, é o gesto. Diante de homens que já decidiram, ele volta a falar. Não procura outro público, não levanta a voz, não acusa de frente. Conta uma história.

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