Ao ouvirem isso, os seus discípulos ficaram muito espantados e disseram: “Quem, então, pode ser salvo?”
1. Introdução
Os discípulos reagem pela primeira vez desde que o jovem saiu, e a reação é de pânico. O verbo que Mateus usa para eles é o que ele reserva, no resto do evangelho, para as multidões diante de um ensino que as desconcerta. A pergunta que fazem — "quem, então, pode ser salvo?" — só faz sentido se eles tomavam o rico como o candidato mais forte, e não como o mais ameaçado. O raciocínio vai do caso mais favorável ao geral: se nem ele entra, ninguém entra. E o texto não registra nenhum sinal de que eles estivessem exagerando.
2. Contexto Histórico e Cultural
Por que o rico parecia estar à frente
A pergunta dos discípulos supõe uma ordem de chances, e nessa ordem quem tem mais está na frente. A suposição não era tolice: ela tinha base prática, e não só teológica.
No judaísmo do período, a esmola aos pobres havia se tornado um dos deveres religiosos mais destacados. A palavra hebraica que significa "justiça", tsedaqah ("justiça", "retidão" — e, com o tempo, também "esmola"), passou a designar a doação aos necessitados, e o deslizamento de sentido conta a história por si.
Os textos do período são explícitos quanto ao efeito atribuído ao gesto. O livro de Tobias, escrito por volta do século II antes de Cristo, diz que "a esmola livra da morte". O Eclesiástico, de Jesus ben Sira, afirma que a esmola expia os pecados, do mesmo modo que a água apaga o fogo. E Daniel 4:27 traz o profeta aconselhando o rei babilônio a desfazer os pecados pela justiça e as maldades pela misericórdia para com os pobres.
O cálculo que resulta é simples. Se a esmola tem esse peso, quem pode dar mais acumula mais. O pobre dá pouco porque tem pouco; o rico dispõe do meio pelo qual a obra meritória se faz. A riqueza deixa de ser só recompensa da fidelidade e vira instrumento dela.
A religião que se via era financiada
Havia, além da doutrina, o que qualquer pessoa observava.
O templo de Jerusalém funcionava com contribuições, e as grandes ofertas vinham de quem tinha. Sacrifícios custavam animal; as famílias sem recursos ofereciam aves, e a própria lei previa essa diferença. A construção e a manutenção de sinagogas dependia de doadores, e inscrições de dedicação achadas em sinagogas antigas registram nomes de benfeitores. Quem chegava com recursos era visível na comunidade religiosa, e a visibilidade era honra.
Para um galileu comum, a conclusão se impunha antes de qualquer argumento: os homens que parecem mais perto de Deus são também os que mais podem.
O raciocínio do leve para o pesado
A pergunta "quem, então, pode ser salvo?" tem forma de argumento, e a forma era familiar aos ouvintes.
O raciocínio que vai do caso menor ao maior — se vale para o menos, vale para o mais — era um dos instrumentos correntes da discussão judaica e tem nome próprio nos tratados rabínicos; o funcionamento dele está no estudo de Gênesis 44:8. Os discípulos o aplicam de trás para frente: se o caso mais favorável está fora, os menos favoráveis estão fora com mais razão.
O argumento é válido — desde que a premissa esteja certa. E a premissa é exatamente o que os dois versículos anteriores derrubaram, sem que eles percebessem.
O que "ser salvo" significava ali
O verbo não tinha, naquele vocabulário, o conteúdo que a linguagem religiosa posterior lhe deu.
Em Mateus ele aparece em situações bem concretas: os discípulos gritam "salva-nos" dentro do barco, um cego é "salvo" pela fé quando recupera a vista, os que passam diante da cruz dizem "salva a ti mesmo". A ideia de fundo é resgate, livramento de uma situação de perda. Aplicada ao desfecho de que Jesus fala — entrar no Reino —, a palavra ganha alcance final sem perder o tom de socorro.
Isso explica o tamanho do susto. A pergunta dos discípulos não é acadêmica: é a pergunta de quem acabou de descobrir que a corda em que confiava não sustenta.
3. Análise Teológica do Versículo
"Ao ouvirem isso"
A reação vem depois das duas frases, e não depois da primeira.
Jesus disse "dificilmente" no versículo 23 e ninguém disse nada. Só quando a dificuldade virou camelo e agulha é que o grupo se manifestou. A sequência indica o que os afetou: não a advertência, e sim o exagero — a forma que não deixa margem.
"os discípulos"
O Textus Receptus traz aqui "os seus discípulos", com o pronome, e a ABC traduz apenas "os discípulos". A diferença não altera o sentido, e é registrada no item 10.
O grupo é o mesmo do versículo 23. Não há multidão nesta cena: o diálogo é fechado, e será fechado até o fim do capítulo.
"ficaram muito espantados"
O verbo é forte, e Mateus o usa com parcimônia.
Ele aparece quatro vezes no evangelho. Três delas descrevem multidões: ao fim do Sermão do Monte, quando as pessoas ficam admiradas com o ensino; na sinagoga de Nazaré; e depois da resposta de Jesus sobre a ressurreição. É o verbo da reação coletiva a um ensino que sai do esperado.
A quarta é esta, e é a única em que os atingidos são os próprios discípulos. Os que estavam de dentro reagem como quem está de fora. E Mateus reforça com um advérbio — "muito", "extremamente" —, que ele não usa nas outras três.
O Expositor's Greek Testament descreve o efeito dizendo que a frase lhes tirou o fôlego. A imagem é adequada ao verbo, que tem origem na ideia de ser atingido por um golpe.
"e disseram"
Mateus não atribui a fala a ninguém em particular. Marcos e Lucas também não. É reação de grupo, e o texto a registra como tal — o que só muda no versículo 27, quando Pedro assume a palavra.
"Quem, então, pode ser salvo?"
A pergunta tem uma partícula que a tradução preserva: "então". Ela marca consequência, e é o que transforma a exclamação em raciocínio.
O que está implícito na frase é uma premissa que ninguém enunciou: a de que o rico é o caso mais favorável. Sem ela, a pergunta não se sustenta — se o rico fosse apenas um caso entre outros, a impossibilidade dele não diria nada sobre os demais.
Duas leituras da pergunta disputam o tom, e as duas são defensáveis.
Primeira leitura: é desespero. Gill escreve que os discípulos não imaginavam haver dificuldade alguma na entrada dos ricos, e ouviram o dito como exigência impossível de cumprir. Nessa leitura, a pergunta é retórica e equivale a "ninguém, então". O apoio está no advérbio que Mateus acrescentou ao verbo: o espanto é extremo.
Segunda leitura: é pedido de esclarecimento. Eles perguntam porque não entendem, e esperam que Jesus explique o critério. Nessa leitura, a resposta do versículo 26 é informação, não consolo. O apoio está na forma da frase, que é uma pergunta de fato, e não uma exclamação.
A resposta que vem em seguida não decide entre as duas. Jesus não diz "vocês entenderam mal", o que enfraquece qualquer leitura que trate o susto como exagero do grupo.
O que a pergunta revela sem querer
Ela mostra em que ordem os discípulos organizavam o mundo, e essa ordem é o contrário da que o Sermão do Monte tinha anunciado.
Mateus 5:3 já havia dito que o Reino dos céus é dos pobres em espírito. O mesmo grupo, alguns capítulos depois, supõe que o rico é o primeiro da fila. O evangelho registra a contradição sem comentá-la — não há reprimenda, não há lembrete do que fora dito antes.
Há um segundo dado, mais desconfortável. Os discípulos tinham deixado o que tinham, conforme dirão dois versículos adiante. Se o cálculo deles fosse "os que abandonaram bens estão seguros", a frase de Jesus seria boa notícia. Eles não reagem assim. O texto não explica por quê, e qualquer resposta é hipótese — a mais econômica é que a advertência não lhes pareceu dirigida a uma classe da qual eles estivessem fora.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
Os discípulos — falam em grupo, sem que o texto destaque ninguém. É a única fala coletiva deles neste capítulo; no versículo 27 Pedro assume a palavra sozinho.
Jesus — não responde nesta linha. A resposta vem no versículo seguinte, e é precedida de um gesto.
O rico ausente — continua sendo o assunto sem estar presente. A pergunta dos discípulos é sobre todo mundo, mas nasce do caso dele.
Lugares
A estrada da Judeia, do outro lado do Jordão — a cena não mudou de lugar desde o versículo 1. Não há indicação de casa, sinagoga ou povoado: o diálogo acontece em trânsito.
Eventos
O espanto — o verbo que Mateus usa aqui ele reserva, nas outras três ocorrências, para multidões que ouvem Jesus ensinar. É a única vez em que o sujeito são os discípulos.
A pergunta — abre uma pausa no discurso. Jesus vinha falando sem interrupção desde o versículo 23; a resposta que ele dá no versículo 26 encerra o assunto do rico e deixa espaço para Pedro mudar de tema.
O que estava sendo desfeito — a ordem herdada, em que ter muito era prova de favor divino e meio de acumular mérito pela esmola. Os discípulos não discutem essa ordem: eles a pressupõem na própria pergunta, e é por isso que o susto é tão grande.
5. Pontos de Ensino
A pergunta errada denuncia a premissa errada
"Quem, então, pode ser salvo?" só tem sentido se o rico for o melhor caso. Os discípulos não defendem essa ideia nem a enunciam: eles a usam. É assim que uma suposição de fundo aparece — não no que se afirma, mas na forma do que se pergunta.
Estar perto do mestre não garante ter entendido
O grupo que reage aqui é o mesmo que ouviu o Sermão do Monte, foi enviado em missão e viu os milagres. A bem-aventurança dos pobres em espírito já tinha sido dita. Mateus registra a distância entre o que eles ouviram e o que eles supõem, e não comenta.
O espanto é resposta legítima a este texto
Mateus não apresenta a reação como falha. Não há repreensão, não há "homens de pouca fé", que é a frase que ele usa em outros momentos. A resposta do versículo 26 leva a pergunta a sério. Quem ensina este trecho como se o susto fosse exagero está acrescentando uma censura que o texto não faz.
Salvação e mérito acumulado não são a mesma coisa
O cálculo que sustentava a pergunta era de acúmulo: mais recursos, mais obras, mais crédito. A resposta que vem em seguida não corrige a conta — muda quem faz a operação. Essa diferença é o ponto do trecho inteiro.
Ninguém está fora da pergunta
Os discípulos poderiam ter se excluído, porque já haviam deixado o que tinham. Não se excluíram. A pergunta que fazem é sobre todos, e inclui eles próprios.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo mostra uma crença sendo descoberta no momento em que ela falha, e esse é um problema clássico da teoria do conhecimento: o que fazemos com as coisas que sabemos sem ter aprendido.
Ninguém ensinou aos discípulos que o rico tem mais chance. Eles não citam texto, não invocam autoridade, não argumentam. A ideia estava no chão em que pisavam, como estão as regras de uma língua para quem a fala sem ter estudado gramática. Crenças desse tipo não são defendidas porque nunca foram atacadas, e o dono delas em geral não sabe que as tem.
A filosofia moderna deu nome a isso de vários modos — pano de fundo, conhecimento tácito, o que se pressupõe para poder pensar qualquer coisa. Todas as formulações concordam num ponto: esse tipo de crença só se torna visível quando alguma coisa a contraria. Enquanto funciona, é invisível; quando quebra, aparece inteira.
É exatamente o que a cena registra. A premissa dos discípulos nunca foi dita em voz alta até o momento em que ela deixou de funcionar, e aí ela aparece — não como tese, e sim na forma de uma pergunta que a carrega dentro.
Disso decorre um segundo problema, que é de método.
Se as crenças mais profundas são as que nunca se enunciam, então a autoexame tem um limite estrutural: não se pode inspecionar por vontade própria aquilo que serve de apoio para a inspeção. É possível revisar opiniões; é muito mais difícil revisar o que torna as opiniões pensáveis. Daí a função do choque — o papel que a frase do camelo cumpre aqui é o de quebrar, e não o de convencer.
Há uma consequência desconfortável nisso, e é honesto registrá-la. Se o choque é o que revela a premissa, então nenhuma leitura tranquila deste trecho faz o que ele se propõe a fazer. Explicar o versículo com calma, encaixá-lo num sistema e seguir adiante é justamente o movimento que impede o efeito. A lenda do portão, examinada no versículo 24, é a forma histórica mais bem-sucedida dessa neutralização.
E há um limite do outro lado. Nem todo espanto é revelação: uma crença pode quebrar sem que nada de verdadeiro a substitua, e a perplexidade por si mesma não ensina. O que dá conteúdo ao susto dos discípulos não é o susto, e sim a resposta que vem no versículo seguinte. Sem ela, restaria apenas uma certeza desfeita.
7. Aplicações Práticas
Identificar a própria premissa pela forma das próprias perguntas
A pergunta dos discípulos entrega o que eles achavam sem que eles quisessem entregar. O exercício correspondente é direto: diante de uma reação forte a um texto ou a um fato, perguntar o que precisaria ser verdade para que aquela reação fizesse sentido. A resposta costuma ser uma crença que nunca foi examinada.
Não tratar o desconforto como problema a ser eliminado
O grupo ficou sem chão e Jesus não os acalmou de imediato — respondeu, e a resposta mudou o assunto de lugar. Quem lida com textos difíceis tende a correr para a explicação que devolve o equilíbrio. O episódio sugere outra ordem: deixar a pergunta inteira antes de procurar a saída.
Desconfiar do cálculo de crédito religioso
A premissa que quebra aqui é a de que se acumula posição diante de Deus com recursos e obras mensuráveis. Ela não desapareceu com o primeiro século: reaparece sempre que a contribuição, o tempo de serviço ou o volume de atividade passam a funcionar como medida de proximidade. A aplicação é de diagnóstico, e a pergunta é a mesma dos discípulos, invertida: se tudo isso não conta como conta, o que sobra?
Ler as próprias reações às pessoas de posses
A suposição de que quem tem muito está mais perto de Deus tem versão prática e visível — o lugar que se dá ao doador numa comunidade, a autoridade que se atribui a quem financia, o silêncio diante de quem sustenta. O versículo não manda fazer nada a respeito, e essa constatação já é bastante.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Por que os discípulos se espantaram, se eles próprios não eram ricos?
Porque o raciocínio deles ia do caso mais favorável para todos os outros. Se quem tinha meios de cumprir as obras meritórias estava fora, os que não tinham estariam fora com mais razão. A pergunta não é sobre a classe dos ricos: é sobre todo mundo.
2. O que exatamente eles achavam que a riqueza garantia?
Não há resposta explícita no texto. O que o período documenta é que a esmola aos pobres havia se tornado obra de peso religioso — os livros de Tobias e do Eclesiástico chegam a atribuir a ela o poder de livrar da morte e de expiar pecados. Quem tinha mais podia dar mais, e o cálculo se fazia sozinho.
3. Jesus corrigiu o espanto deles?
Não. Não há repreensão e não há "vocês entenderam mal". A resposta do versículo 26 trata a pergunta como pergunta legítima, o que é um argumento contra ler o susto como exagero.
4. O verbo "ser salvo" aqui significa o mesmo que na linguagem religiosa de hoje?
Não exatamente. Em Mateus o verbo aparece também em situações de socorro concreto — o barco na tempestade, a cura, a provocação diante da cruz. O sentido básico é resgate. Aplicado ao Reino, ele ganha alcance final sem perder o tom de livramento de uma situação em que se está perdido.
5. Por que Mateus usa aqui um verbo que ele reserva às multidões?
O evangelho não explica. O dado é que, nas outras três ocorrências, quem se espanta é a multidão diante de um ensino inesperado — e que esta é a única vez em que os espantados são os do círculo próximo. Qualquer leitura do efeito pretendido é interpretação do leitor.
6. A pergunta é retórica ou é pedido de explicação?
As duas leituras se defendem. O advérbio "muito", que Mateus acrescenta, empurra na direção do desespero; a forma interrogativa da frase, na direção do pedido de esclarecimento. O texto não permite decidir.
9. Conexão com Outros Textos
O mesmo verbo de espanto em Mateus
Mateus 7:28 — "Quando Jesus terminou estas palavras, as multidões ficaram admiradas com o seu ensino,"
Fim do Sermão do Monte. Quem se espanta é a multidão, e o motivo é a autoridade com que ele fala.
Mateus 22:33 — "Ao ouvirem isso, as multidões ficaram admiradas com o seu ensino."
Depois da resposta sobre a ressurreição. Mesma construção, mesmo sujeito coletivo.
Nas duas ocorrências os espantados são os de fora. Neste versículo são os de dentro, e Mateus ainda acrescenta um advérbio de intensidade que não usa nas outras.
A pergunta feita de outro jeito
Lucas 13:23 — "E disse-lhe um: Senhor, são também poucos os que se salvam? E ele lhes disse:"
A mesma inquietação, formulada como curiosidade sobre número. A resposta que Jesus dá ali não fornece a estatística e manda entrar pela porta estreita — outro caso em que a pergunta é redirecionada em vez de respondida.
A ordem que o Sermão já tinha invertido
Mateus 5:3 — "Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus."
A primeira bem-aventurança atribui o Reino a quem está no polo oposto. O mesmo grupo que ouviu isso supõe aqui que o rico está na frente, e o evangelho registra a distância sem comentar.
Mateus 6:24 — "Ninguém pode servir a dois senhores; pois ou odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e a Mamom."
O aviso também já tinha sido dado, e nos mesmos termos de incompatibilidade.
Salvar como resgate concreto
Mateus 8:25 — "Os discípulos se aproximaram e o acordaram, dizendo: ‘Senhor, salva-nos! Estamos perecendo!’"
O mesmo verbo dentro do barco, com sentido inteiramente físico. É a mesma palavra que eles usam aqui.
A esmola como obra que resgata
Daniel 4:27 — "Portanto, ó rei, aceita meu conselho, e desfaze teus pecados por meio da justiça, e tuas maldades por meio da misericórdia para com os pobres; para que talvez haja um prolongamento de tua paz."
O texto bíblico mais próximo da ideia que sustentava a pergunta dos discípulos: o gesto para com os pobres como meio de desfazer a culpa. A tradição posterior, nos livros de Tobias e do Eclesiástico, levou essa ligação bem mais longe.
A pergunta que volta em Atos
Atos 16:30 — "E levando-os para fora, disse: Senhores, o que me é necessário fazer para eu me salvar?"
O carcereiro de Filipos faz a pergunta na primeira pessoa e com um verbo de ação — "o que devo fazer". É a mesma forma da pergunta do jovem no versículo 16 deste capítulo, e a resposta que ele recebe não é uma lista de obras.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Ao ouvirem isso, os seus discípulos ficaram muito espantados e disseram: “Quem, então, pode ser salvo?”
Texto grego (Textus Receptus, Scrivener 1894)
ἀκούσαντες δὲ οἱ μαθηταὶ αὐτοῦ ἐξεπλήσσοντο σφόδρα, λέγοντες, Τίς ἄρα δύναται σωθῆναι;
Transliteração
akousantes de hoi mathētai autou exeplēssonto sphodra, legontes, Tis ara dynatai sōthēnai?
Análise palavra por palavra
ἀκούσαντες — akousantes, particípio aoristo ativo no nominativo plural: "tendo ouvido". O tempo marca ação concluída antes da do verbo principal: primeiro ouviram, depois se espantaram.
οἱ μαθηταὶ αὐτοῦ — hoi mathētai autou, "os discípulos dele". O Textus Receptus e o texto bizantino trazem o pronome αὐτοῦ; as edições críticas, seguindo os manuscritos antigos, trazem apenas "os discípulos". A diferença não muda o sentido, e a ABC segue o Textus Receptus: "os seus discípulos".
ἐξεπλήσσοντο — exeplēssonto, imperfeito do indicativo médio-passivo, terceira pessoa do plural: "ficavam espantados", "estavam fora de si".
O verbo é ekplēssō, formado por ek (para fora) e plēssō (bater, golpear). Ao pé da letra: ser golpeado para fora de si. A imagem de origem é a de um impacto que desloca a pessoa do seu lugar.
O tempo imperfeito descreve estado que dura, e não reação instantânea. A tradução por "ficaram muito espantados" é correta, embora perca a duração: o espanto não passou de imediato.
Mateus emprega o verbo quatro vezes — em Mateus 7:28, Mateus 13:54, aqui e em Mateus 22:33. Nas outras três o sujeito são as multidões. Esta é a única em que são os discípulos.
σφόδρα — sphodra, advérbio: "muito", "extremamente", "violentamente". Mateus usa a palavra para marcar intensidade em momentos fortes: a tristeza dos discípulos quando Jesus anuncia a traição, em Mateus 26:22, e o medo dos guardas diante do túmulo aberto, em Mateus 28:4. Ela não acompanha o verbo do espanto nas outras três ocorrências.
λέγοντες — legontes, particípio presente ativo: "dizendo". Presente, e não aoristo: a fala acontece junto com o espanto, não depois dele.
Τίς — tis, pronome interrogativo no masculino singular: "quem". Não é o plural "quais": a pergunta é sobre um indivíduo qualquer, não sobre um grupo.
ἄρα — ara, partícula que introduz consequência: "então", "sendo assim". Ela é o que transforma a exclamação em conclusão, e amarra a pergunta ao que acabou de ser dito. A mesma partícula reaparece na pergunta de Pedro, no versículo 27.
δύναται — dynatai, presente do indicativo médio-passivo: "pode", "tem capacidade de". O verbo é dynamai, da mesma raiz do adjetivo que vai aparecer duas vezes no versículo seguinte, quando Jesus disser o que é impossível e o que é possível. A pergunta e a resposta usam a mesma família de palavras.
σωθῆναι — sōthēnai, aoristo do infinitivo passivo de sōzō: "ser salvo".
A voz é passiva, e isso é o dado do versículo. Ninguém se salva: alguém é salvo. A forma já contém, na gramática, o deslocamento que a resposta de Jesus vai fazer no versículo 26 — o sujeito da ação não é o homem.
O verbo sōzō cobre um campo largo: livrar de perigo, curar de doença, preservar a vida. Em Mateus aparece nos dois registros, o concreto e o final, sem que o evangelho separe as duas coisas com clareza.
11. Conclusão
Três conclusões saem do que foi examinado.
A primeira: a pergunta dos discípulos tem uma premissa embutida, e ela é o achado do versículo. "Quem, então, pode ser salvo?" só funciona se o rico for o caso mais favorável — se ele for um entre outros, a dificuldade dele não diz nada sobre ninguém. A premissa nunca é enunciada; aparece na forma do argumento, e essa é a única maneira pela qual esse tipo de suposição se revela.
A segunda: o texto trata o espanto como reação apropriada, não como falha. Mateus não registra nenhuma correção, e Jesus responde à pergunta em vez de desqualificá-la. Isso pesa sobre toda leitura que apresenta os dois versículos anteriores como advertência moderada: quem estava presente não os ouviu assim, e não foi corrigido.
A terceira: a gramática já aponta para onde a resposta vai. "Ser salvo" está na voz passiva — a pergunta não é "quem consegue se salvar", e sim "quem pode ser salvo". O verbo da capacidade que eles usam é da mesma família das duas palavras que Jesus vai empregar em seguida, ao falar do impossível e do possível. A pergunta e a resposta estão montadas com o mesmo vocabulário, e o que muda entre uma e outra é apenas quem age.













