Ao ouvirem isso, as multidões ficaram admiradas com o seu ensino.
1. Introdução
A cena não termina com os saduceus: termina com quem estava assistindo. Mateus fecha o episódio registrando a reação de gente que não perguntou nada e a quem ninguém se dirigiu.
A frase é feita das mesmas palavras com que ele fechou o Sermão do Monte, no começo do evangelho, e é a última vez que ele registra a multidão reagindo ao ensino de Jesus. Marcos e Lucas, no mesmo lugar, põem o elogio de um especialista; Mateus põe o espanto da plateia. E espanto, neste evangelho, não é sinônimo de adesão.
2. Contexto Histórico e Cultural
A reação registrada aqui só faz sentido se houver gente ouvindo, e havia — muita. O lugar e a semana explicam por quê.
O pátio como sala de aula e como arena
O templo de Herodes era um complexo de pátios encaixados, e o mais externo, enorme, era aberto a qualquer pessoa. Nele se trocava dinheiro, se vendiam animais para sacrifício, se transitava — e se ensinava. Mestres se instalavam ali, cercados de ouvintes, e qualquer um podia parar para escutar ou para interpelar.
Na semana da Páscoa esse movimento multiplicava. A festa trazia peregrinos de toda a região e da diáspora, e a cidade recebia um número de visitantes muito superior à sua população. Quem ensinava no pátio naquela semana falava para a maior plateia disponível no calendário judaico.
Disso decorre uma coisa que o versículo pressupõe sem dizer: nenhuma das quatro disputas deste capítulo foi conversa privada. Os chefes dos sacerdotes, os fariseus com os herodianos, os saduceus e o especialista na lei interpelaram Jesus em público, e cada interpelação foi ouvida por desconhecidos. Uma derrota ali não ficava entre as partes.
De que lado estava o povo
Há um dado histórico que muda a leitura desta frase. A doutrina que Jesus acabou de defender — a ressurreição dos mortos — era a posição popular, não a da elite.
Flávio Josefo, historiador judeu do primeiro século, é explícito. Descrevendo os dois partidos, ele diz que os saduceus só conseguiam convencer os ricos e não tinham o povo do seu lado, enquanto os fariseus tinham a multidão a favor (Antiguidades judaicas 13.298). Em outro passo, ao caracterizar o partido farisaico, ele registra a influência enorme que eles exerciam sobre a população das cidades (Antiguidades judaicas 18.15).
Com isso, o espanto do pátio tem uma cor específica. Essas pessoas não acabaram de mudar de opinião. Elas ouviram ser defendido, com uma prova que nunca tinham visto, aquilo em que já acreditavam — e ouviram calar-se o grupo que zombava daquilo e que era, ao mesmo tempo, o grupo dono do templo onde todos estavam. Poole, teólogo inglês do século XVII, observa que aquela gente estava acostumada a ouvir os fariseus falarem de tradições e os saduceus negarem a ressurreição; o que era novo não era a tese, era o argumento.
O que uma multidão representava para as autoridades
Multidão, em Jerusalém na Páscoa, era questão de segurança pública. A cidade ficava sob guarnição reforçada, o governador romano subia de Cesareia para a festa, e qualquer aglomeração em torno de uma figura popular era tratada como risco.
O próprio evangelho mostra isso duas vezes. Quando os chefes dos sacerdotes querem prender Jesus depois da parábola dos lavradores, o que os detém é o medo das multidões (Mateus 21:46); e, quando decidem matá-lo, a condição que estabelecem é não fazê-lo durante a festa, para evitar tumulto (Mateus 26:5). A reação registrada neste versículo, portanto, não é um detalhe de ambiente: é o fato que mantinha Jesus solto durante aqueles dias.
3. Análise Teológica do Versículo
“Ao ouvirem isso”
A frase informa, de passagem, que havia ouvintes. Durante toda a conversa com os saduceus, Mateus não mencionou mais ninguém no pátio; a presença da plateia só aparece quando ela reage.
Isso muda a leitura do que veio antes. A resposta sobre a ressurreição usou como medida de comparação os anjos — seres que, segundo Atos 23:8, os saduceus não admitiam. Argumentar com um termo que o adversário rejeita não convence o adversário; convence quem está ouvindo. A reação registrada aqui mostra que havia quem estivesse.
“as multidões”
No plural, como Mateus costuma escrever. Não é um grupo identificado, não são discípulos, não são adversários: é gente que estava ali.
A multidão é uma presença constante na narrativa desta semana, e com um papel definido. Ela aclamou Jesus na entrada em Jerusalém; é o motivo pelo qual os chefes dos sacerdotes não respondem com sinceridade à pergunta sobre João Batista, porque temem o que ela pensa (Mateus 21:26); e é o que impede a prisão depois da parábola dos lavradores (Mateus 21:46). Aqui ela aparece pela última vez como ouvinte do ensino — e é a mesma palavra que reaparecerá, no julgamento, para pedir Barrabás (Mateus 27:20).
Mateus não diz que são as mesmas pessoas nos dois momentos, e não há como saber. O que se pode afirmar é que o evangelho usa o mesmo termo para quem se espanta aqui e para quem grita lá, sem comentar a distância entre as duas cenas.
“ficaram admiradas”
O verbo é forte e descreve um estado que dura, não um sobressalto — a forma e a origem da palavra estão examinadas no estudo de Mateus 19:25. O que Mateus faz com esse verbo nas outras três vezes em que o usa desmente a leitura devocional mais comum.
Em Mateus 7:28, o espanto fecha o Sermão do Monte, e o versículo seguinte dá a razão: ele ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas. Ali o espanto é elogioso e não produz nenhuma consequência narrada.
Em Mateus 13:54, o mesmo verbo descreve a reação dos vizinhos de Jesus na sinagoga de Nazaré: “de onde lhe vêm essa sabedoria e esses milagres?”. Três versículos depois, o mesmo grupo está escandalizado com ele, e Jesus diz a frase sobre o profeta sem honra na própria terra. O espanto, ali, vira rejeição sem passar por nada.
Em Mateus 19:25 são os discípulos, e o espanto é de perplexidade diante de uma exigência que parece impossível.
Quatro ocorrências, quatro resultados diferentes, e nenhuma delas diz que quem se espantou passou a seguir. Esse é o dado: em Mateus, o espanto diante do ensino de Jesus é uma reação, não uma decisão. Mateus não escreve que as multidões creram, nem que o seguiram, nem que mudaram de ideia a respeito de alguma coisa.
“com o seu ensino”
O objeto do espanto é o ensino, e não a pessoa. A palavra grega designa menos um conjunto de teses do que a orientação de um mestre, o jeito dele, e no mesmo evangelho ela é aplicada também ao ensino dos adversários.
Em Mateus 7:29 o evangelho explica de onde vinha o espanto: da autoridade. Aqui não explica. O leitor fica sem saber se a admiração é pela doutrina defendida, pela prova usada, pela habilidade de desmontar a pergunta ou pelo simples fato de ter calado um grupo poderoso. O texto não escolhe.
A frase já tinha sido escrita
Há uma repetição literal neste versículo, e ela atravessa o evangelho inteiro. Em grego, as palavras “as multidões ficaram admiradas com o seu ensino” são exatamente as mesmas de Mateus 7:28, com a ordem do sujeito e do verbo trocada. Não é semelhança: é a mesma frase.
O lugar das duas ocorrências é o que faz a observação valer. A primeira fecha o Sermão do Monte, isto é, o primeiro grande bloco de ensino público de Jesus em Mateus. Esta fecha a última discussão pública em que ele é interrogado — depois dela, ainda há a pergunta sobre o maior mandamento, a réplica sobre o filho de Davi, e nenhuma outra interpelação, porque “daquele dia em diante ninguém mais ousou fazer-lhe perguntas” (Mateus 22:46). No capítulo seguinte, Jesus fala às multidões e aos discípulos, e a partir daí o ensino é dirigido só aos discípulos.
Dizer que Mateus fez isso de propósito é leitura, não dado — o evangelho não comenta a repetição. O que se pode afirmar é que a mesma frase marca a abertura e o encerramento do ensino público, e que entre as duas o espanto da multidão não mudou de natureza em ponto nenhum.
O que Mateus pôs no lugar de outra coisa
Nos outros dois evangelhos, este momento é ocupado por um elogio profissional. Em Marcos 12:28, um escriba que ouviu a discussão aproxima-se por tê-la achado boa, e é ele quem faz a pergunta seguinte. Em Lucas 20:39, escribas presentes dizem: “Mestre, falaste bem”.
Mateus não tem nada disso. No lugar do reconhecimento dos entendidos, ele põe o espanto dos que não entendem de nada. E a transição seguinte é sua também: em Mateus 22:34, os fariseus se reúnem precisamente porque souberam que os saduceus foram calados — isto é, a derrota de um partido aciona o outro, e o versículo que registra o espanto do povo está entre as duas coisas.
O efeito é um deslocamento de quem julga. Em Marcos e Lucas, quem valida a resposta é um especialista; em Mateus, quem reage é a plateia, e nenhum perito emite parecer. Somado ao fato de que a resposta foi construída com um termo que os perguntadores rejeitavam, o quadro é coerente: a cena foi contada como disputa diante de testemunhas, e as testemunhas são o único lado que se manifesta.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
As multidões
A plateia das disputas no templo: peregrinos, moradores da cidade, gente de passagem pelo pátio externo. Em Mateus elas aclamam, temem, se espantam e, no fim, pedem a libertação de Barrabás. Não são um grupo organizado nem têm porta-voz, e o evangelho nunca atribui a elas uma posição doutrinária — atribui reações.
O pátio externo do templo
O espaço aberto onde a cena acontece, acessível a qualquer pessoa, inclusive não judeus. É o palco das quatro disputas deste capítulo e o único lugar de Jerusalém em que uma discussão desse tipo podia ter esse tamanho de público.
Os saduceus
Saem de cena sem falar. Mateus não registra réplica, retirada nem reconhecimento; o versículo seguinte informa, de modo indireto, que eles foram calados — e informa isso contando o que os fariseus souberam.
Os escribas, ausentes aqui
Personagens deste momento em Marcos e em Lucas, onde aprovam a resposta de Jesus. Em Mateus eles não aparecem neste ponto: reaparecem no capítulo seguinte, como alvo do discurso mais duro do evangelho.
O Sermão do Monte, à distância
Evento do começo do evangelho, convocado aqui pela repetição literal da frase que o fechou. Entre um e outro passaram-se quinze capítulos, e a reação registrada é a mesma.
5. Pontos de Ensino
Toda discussão pública tem um terceiro presente
A conversa foi entre Jesus e os saduceus; o registro final é sobre quem ouviu. Quem discute em público nunca discute só com o interlocutor, e o resultado que fica raramente é o que os dois lados pensam que ficou.
Espanto não é fé
É o ensino mais claro do versículo, e ele vem do conjunto das ocorrências do verbo em Mateus: a mesma reação fecha o Sermão do Monte, antecede a rejeição em Nazaré e marca a perplexidade dos discípulos. Nenhuma delas é descrita como passo de adesão. Admirar um ensino e aceitá-lo são coisas separadas, e a primeira pode durar anos sem levar à segunda.
O argumento que convence não é sempre o dirigido a quem pergunta
A prova foi montada no terreno dos saduceus e usou, como comparação, algo que eles negavam. Quem foi persuadido foi a plateia. Isso ensina algo sobre o alcance real de uma resposta: ela pode falhar com o destinatário e funcionar com todos os demais.
Derrotar um adversário aciona o próximo
Os fariseus se reúnem porque souberam que os saduceus foram calados. A vitória numa discussão não encerra a sequência de discussões: muda quem vem a seguir. Vale para debates públicos, para disputas de trabalho e para conflitos de família.
Não é o especialista que valida
Marcos e Lucas registram o elogio de escribas; Mateus registra o espanto do povo. A escolha mostra que uma resposta pode ser reconhecida por quem não tem competência técnica para avaliá-la — e que esse reconhecimento é um fato, com consequências, mesmo não sendo um parecer.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo registra uma reação e não diz o que ela vale. Isso é mais interessante do que parece, porque o espanto é uma das categorias mais disputadas da filosofia: ele é o começo do conhecimento ou um substituto dele?
As duas tradições sobre o espanto
A primeira é a grega clássica, e põe o espanto na origem do pensamento: é por se admirarem que os homens começaram a filosofar, e a admiração existe para ser dissolvida pela explicação. Nessa tradição, o espanto é um estado de passagem — um bom começo e um péssimo lugar para ficar.
A segunda tradição vê o espanto como um fim em si: a atitude de quem está diante de algo que não quer reduzir a explicação. Aqui o espanto não é falta de conhecimento, é uma forma de atenção — e dissolvê-lo seria perder o que ele capta.
Sophia Vasalou e a gramática do espanto
Sophia Vasalou, filósofa britânica que ensina na Universidade de Birmingham, dedicou a esse problema um livro de 2015 — Espanto: uma gramática. O trabalho dela consiste em separar coisas que se confundem sob a mesma palavra: a curiosidade, que quer resolver; o espanto, que suspende; a admiração, que avalia e aprova; e o temor reverente, que recua.
O ponto mais útil dela, para este versículo, é a ambiguidade moral que ela insiste em manter. O espanto pode ser uma conquista — a capacidade de notar que algo é extraordinário, que se perde com o hábito — e pode ser simples ignorância bem-educada: quem não sabe o bastante para saber que não é extraordinário também se espanta. As duas coisas são indistinguíveis de fora, e Vasalou recusa resolver a indistinção com uma definição, preferindo mostrar como o uso da palavra oscila entre elas.
Ela observa também que o espanto resiste a ser posto para trabalhar. Quem se espanta não está fazendo nada; o estado é, por natureza, não produtivo — e é por isso que ele pode acompanhar tanto a conversão quanto a inércia.
Aplicado à cena
Com essas distinções na mão, o registro de Mateus fica legível. A multidão não faz pergunta, não pede explicação e não toma posição: não há curiosidade. Também não há adesão declarada. O que o texto descreve é a suspensão — a plateia parada diante de algo que não esperava.
E o evangelho dá, ele mesmo, a prova de que esse estado não decide nada. Em Mateus 13:54 o mesmo verbo descreve os vizinhos de Nazaré, e três versículos depois eles estão escandalizados com ele. O espanto não impediu a rejeição; precedeu-a.
Daí sai uma observação que vale fora do texto. Quando a admiração se instala como estado permanente, ela produz um efeito curioso: protege o objeto admirado e isenta quem admira. Dizer “que coisa extraordinária” é reconhecer valor e, no mesmo gesto, pôr-se fora do alcance do que foi dito, porque o extraordinário é justamente o que não se aplica à vida de quem olha. A multidão do pátio não é hostil; ela é, por enquanto, inconsequente.
O limite dessa leitura precisa ficar marcado. Mateus não avalia a reação da multidão: ele a registra, e cabe ao leitor notar que o registro se repete pelo evangelho sem nunca virar outra coisa. A conclusão de que o espanto é inconsequente é leitura do conjunto das ocorrências, não afirmação do versículo.
7. Aplicações Práticas
Reconhecer que algo é admirável não é ter decidido nada
Esta é a aplicação direta, e é desconfortável. É possível achar um ensino excelente, defendê-lo em conversa, citá-lo com aprovação — e não ter mudado uma linha da própria vida por causa dele. A multidão do pátio faz exatamente isso, e o evangelho não a critica nem a elogia: só registra.
O exame útil, para quem lê a Bíblia com gosto, é perguntar o que mudou depois de um texto admirado. Se a resposta for “nada”, a reação foi a do versículo, e vale saber disso.
Admiração como forma de manter distância
Tratar alguma coisa como extraordinária é um modo eficiente de não ser alcançado por ela. O que é excepcional, por definição, não se exige de ninguém. Isso aparece na vida comum: admira-se quem faz o que não se pretende fazer, e a admiração funciona como dispensa.
Quem ouve sem ter sido chamado
A plateia não foi convidada para a discussão e saiu dela com algo. Vale para quem assiste a conversas alheias — numa reunião, numa aula, numa briga de família: o que fica com quem apenas ouviu costuma ser diferente do que ficou com os que falaram, e às vezes é mais.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O espanto das multidões significa que elas creram em Jesus?
Mateus não diz isso. Ele registra uma reação e não acrescenta nenhuma consequência. E as outras três ocorrências do mesmo verbo no evangelho levam a resultados diferentes entre si — num caso, à rejeição aberta três versículos depois. O texto não permite concluir adesão.
Por que Mateus registra a reação do povo, e não o elogio dos escribas?
Marcos e Lucas têm o elogio; Mateus não. A razão não é dada. O efeito é que ninguém com competência técnica avalia a resposta, e quem se manifesta é a plateia. Isso combina com o restante do episódio, em que a prova foi construída com um termo que os perguntadores não aceitavam — mas a combinação é observação do leitor, não afirmação do evangelho.
Essas multidões são as mesmas que pedirão Barrabás?
Não é possível decidir. Mateus usa a mesma palavra nas duas cenas e não comenta a relação entre elas. Jerusalém na Páscoa estava cheia de gente, e nada obriga a identificar os presentes de um dia com os de outro. O que o evangelho faz é não distinguir, e deixar o leitor com o termo repetido.
Elas se espantaram com a doutrina ou com a esperteza da resposta?
O texto diz que o espanto foi “com o seu ensino”, e não explica mais. Como a ressurreição era a posição popular, elas não estavam diante de uma tese nova; estavam diante de uma prova nova e de um adversário calado. Qual dessas coisas produziu o espanto, o versículo não diz.
O que esta frase acrescenta ao episódio, se não traz informação nova?
Ela informa que havia público, o que a narrativa anterior não tinha dito, e isso muda a leitura da resposta sobre os anjos. Informa também que a disputa foi vencida em público, o que explica o movimento dos fariseus no versículo seguinte. E é a última reação do povo ao ensino registrada no evangelho.
Por que a mesma frase do Sermão do Monte reaparece aqui?
Em grego, as palavras são as mesmas de Mateus 7:28, apenas com sujeito e verbo em ordem trocada. Uma repetição assim, marcando o primeiro e o último bloco de ensino público, é o tipo de recurso que Mateus usa em outros lugares. Se é deliberada, não se pode afirmar: o evangelho não comenta.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma frase, no outro extremo do evangelho
Mateus 7:28 — “Quando Jesus terminou estas palavras, as multidões ficaram admiradas com o seu ensino,”
Mateus 7:29 — “porque ele os ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas.”
O fecho do Sermão do Monte, com as mesmas palavras gregas e com a explicação que falta aqui.
O mesmo verbo, com outros resultados
Mateus 13:54 — “Chegando à sua terra, ensinava o povo na sinagoga deles, de tal modo que ficavam admirados e diziam: ‘De onde lhe vêm essa sabedoria e esses milagres?’”
Mateus 13:57 — “E ficavam escandalizados por causa dele. Mas Jesus lhes disse: ‘Todo profeta tem honra, menos na sua própria terra e na sua própria casa.’”
Espanto e rejeição separados por três versículos, no mesmo grupo de pessoas. É a ocorrência que impede ler o espanto como passo de fé.
Mateus 19:25 — “Ao ouvirem isso, os seus discípulos ficaram muito espantados e disseram: ‘Quem, então, pode ser salvo?’”
A única das quatro em que os espantados são os discípulos, e a única com advérbio de intensidade.
O que a multidão faz nesta semana
Mateus 21:26 — “Mas, se dissermos ‘Dos homens’, tememos a multidão, pois todos consideram João um profeta.”
Mateus 21:46 — “E procuravam prendê-lo, mas tinham medo das multidões, pois estas o consideravam um profeta.”
Mateus 26:5 — “Mas diziam: ‘Não durante a festa, para não haver tumulto entre o povo.’”
Três registros do mesmo cálculo: a opinião do povo é o que limita a ação das autoridades. É o contexto prático em que a reação deste versículo tem peso.
Mateus 27:20 — “Mas os chefes dos sacerdotes e os anciãos convenceram a multidão a pedir Barrabás e a mandar matar Jesus.”
A mesma palavra, no fim. Mateus não diz que são as mesmas pessoas, e não comenta a diferença.
O que vem imediatamente depois
Mateus 22:34 — “Ao ouvirem que ele havia feito os saduceus calarem-se, os fariseus se reuniram.”
A informação de que os saduceus foram calados chega por via indireta, no relato do que os adversários seguintes souberam.
Mateus 22:46 — “Ninguém conseguia responder-lhe uma só palavra, e daquele dia em diante ninguém mais ousou fazer-lhe perguntas.”
O fim das interpelações públicas, poucos versículos adiante.
Mateus 23:1 — “Então Jesus falou às multidões e aos seus discípulos, dizendo:”
A última vez que as multidões aparecem como destinatárias de um discurso. Depois do capítulo 23, o ensino é dirigido apenas aos discípulos.
A reação dos especialistas, nos outros evangelhos
Marcos 12:28 — “E, aproximando-se dele um dos escribas que os tinha ouvido discutir, e sabendo que lhes havia respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos?”
Lucas 20:39 — “E alguns dos escribas, respondendo, disseram: Mestre, falaste bem.”
Nos dois, quem avalia é um profissional da Lei. Em Mateus, esse lugar está ocupado pelo espanto da plateia.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Ao ouvirem isso, as multidões ficaram admiradas com o seu ensino.
Texto grego (Textus Receptus)
καὶ ἀκούσαντες οἱ ὄχλοι ἐξεπλήσσοντο ἐπὶ τῇ διδαχῇ αὐτοῦ.
Transliteração
kai akousantes hoi ochloi exeplēssonto epi tē didachē autou.
Análise palavra por palavra
καὶ ἀκούσαντες — kai akousantes, “e, tendo ouvido”. Particípio aoristo ativo no nominativo plural, concordando com o sujeito que vem a seguir.
O aoristo marca ação concluída antes da do verbo principal: primeiro ouviram, depois se espantaram. E o particípio, sem objeto expresso, deixa indeterminado o que exatamente foi ouvido — a tradução precisa acrescentar “isso”. Pelo contexto, é a resposta inteira aos saduceus, e não apenas a última frase.
οἱ ὄχλοι — hoi ochloi, “as multidões”, nominativo plural com artigo.
Ochlos significa “aglomeração, massa de gente”, e no grego comum tem às vezes um tom depreciativo — a turba, em contraste com os cidadãos reunidos em assembleia. Em Mateus o termo é frequente e não traz esse desprezo: designa simplesmente o público.
O plural é o que chama atenção. Mateus usa o plural desta palavra com muito mais frequência do que os outros evangelhos, em que o singular predomina, e o efeito é de massa sem contorno — não “a multidão”, como um corpo único, mas aglomerações. Alguns manuscritos trazem aqui o singular, e a diferença de sentido é mínima.
ἐξεπλήσσοντο — exeplēssonto, imperfeito do indicativo médio-passivo, terceira pessoa do plural: “ficavam admiradas”, “estavam fora de si”.
A palavra é composta de uma preposição de afastamento e de um verbo de golpear: ser atingido para fora de si. O que pertence a este versículo é o tempo: o imperfeito descreve um estado que se prolonga, e a tradução por “ficaram admiradas” perde essa duração. O espanto não passou com a frase seguinte.
ἐπὶ τῇ διδαχῇ — epi tē didachē, “com o ensino”, ao pé da letra “sobre o ensino”.
A preposição epi com dativo, depois de verbos de emoção, indica a causa ou o fundamento do sentimento: aquilo em cima de que a reação se apoia. Não é “a respeito do ensino”, como se fosse um tema comentado, e sim “por causa do ensino”.
Isso tem consequência para a leitura. O que espantou não foi a pessoa de Jesus, não foi a derrota dos saduceus e não foi o tom: foi o conteúdo e o modo do que ele ensinou. A construção é exatamente a mesma de Mateus 7:28.
Didachē vem de didaskō, “ensinar”, e designa tanto o ato de ensinar quanto o que se ensina — a palavra tem exame próprio no estudo de Mateus 16:12. Em Mateus ela aparece três vezes: aqui, no fecho do Sermão do Monte e, uma única vez, aplicada ao ensino dos adversários.
αὐτοῦ — autou, “dele”, genitivo do pronome de terceira pessoa. O possessivo liga o ensino ao mestre, e é o que distingue esta didachē daquela dos fariseus e dos saduceus, mencionada no mesmo evangelho com o mesmo substantivo.
A frase idêntica
As quatro últimas palavras gregas deste versículo — exeplēssonto hoi ochloi epi tē didachē autou — são exatamente as de Mateus 7:28, apenas com o sujeito deslocado para antes do verbo. Nenhuma palavra muda, nenhuma forma muda. O evangelho não assinala a repetição, e as consequências dela para a leitura estão no item 3.
Uma nota textual
O Textus Receptus abre o versículo com a conjunção καί (“e”), que as edições críticas também trazem; a ABC a dissolve na construção “ao ouvirem isso”. A variante conhecida é outra: parte dos manuscritos traz, no lugar de “as multidões”, o singular “a multidão”, e alguns substituem o particípio “tendo ouvido” por outra forma de ligação. Nenhuma dessas diferenças altera o sentido, e a ABC segue o Textus Receptus.
11. Conclusão
O versículo parece um encerramento de passagem e carrega três conclusões.
A primeira é sobre quem estava presente. Só agora o evangelho informa que a conversa tinha público, e essa informação, chegando no fim, reorganiza o que veio antes: a resposta aos saduceus foi construída com uma comparação que eles rejeitavam, e portanto não foi armada para eles. Uma disputa pública tem um destinatário que não fala, e neste caso é ele quem reage.
A segunda é sobre o valor do espanto. Mateus usa quatro vezes o mesmo verbo para descrever a reação ao ensino de Jesus, e em nenhuma delas o espanto produz uma decisão; numa delas, antecede a rejeição. Essa frase, por isso, não registra um sucesso. Ela registra que o ensino foi reconhecido como extraordinário — o que é diferente de ter sido aceito, e às vezes é o modo mais eficaz de não o aceitar.
A terceira é sobre o lugar da frase no evangelho. As mesmas palavras fecharam o Sermão do Monte, quinze capítulos antes, e aqui fecham a última interpelação pública a Jesus. Entre as duas pontas, a reação da multidão não se transformou: continua sendo admiração sem consequência narrada. Depois do capítulo seguinte, o ensino deixa de ser dirigido a ela.
Resta o que o versículo não faz. Não elogia nem censura a multidão; não diz se as pessoas mudaram de opinião; não registra palavra alguma dos saduceus. E não comenta a própria repetição — ela está lá, e quem percebe é o leitor que chegou até aqui.













