Ninguém conseguia responder-lhe uma só palavra, e daquele dia em diante ninguém mais ousou fazer-lhe perguntas.
1. Introdução
O versículo dá duas razões diferentes para o mesmo silêncio, e é a soma delas que fecha o capítulo.
A primeira é de capacidade: ninguém conseguia responder. A segunda é de coragem: ninguém ousou perguntar. Uma é limite de conhecimento, a outra é decisão.
O verbo com que o capítulo calou o homem sem veste e os saduceus não aparece aqui. Mateus não escreve que Jesus os fez calar: escreve que eles não puderam e não quiseram mais.
E a construção "responder-lhe uma só palavra" tem, em Mateus, um único paralelo — num lugar em que quem não responde é Jesus.
2. Contexto Histórico e Cultural
O que acontecia com quem perdia em público
Numa disputa de escola, o silêncio final não era empate. Era resultado, e era anotado por todos os presentes.
A autoridade dos fariseus não vinha de cargo nem de herança: vinha da reputação de saber decidir questões difíceis. Essa reputação se construía e se perdia em público, e o pátio do templo na semana da Páscoa era o lugar mais público que havia — peregrinos de toda a Judeia, da Galileia e da diáspora, reunidos num espaço aberto onde qualquer um podia parar e ouvir. Ser desafiado ali sobre o sentido de um salmo que todos cantavam, e não ter o que dizer, custava mais do que uma discussão perdida.
Era por isso que a discussão tinha de parar. Continuar perguntando significava arriscar outra derrota diante das mesmas testemunhas, e cada derrota nova corroía o que restava. A decisão de não perguntar mais, registrada na segunda metade deste versículo, é cálculo de quem já contou o prejuízo.
Por que a alternativa teve de ser clandestina
O que vem depois do silêncio tem uma lógica que o próprio evangelho já havia explicado. Em Mateus 21:46, quando os chefes quiseram prender Jesus, o texto diz que "tinham medo das multidões, pois estas o consideravam um profeta". Essa é a trava. Enquanto a multidão estivesse do lado dele, nenhuma ação aberta era possível — nem prisão, nem acusação, nem apedrejamento.
O debate público era a única arma que funcionava diante de uma plateia favorável: desacreditá-lo com argumentos, na frente de quem o admirava. Fechada essa via, sobrou o que a semana mostra a seguir — uma reunião no palácio do sumo sacerdote, um pagamento a um traidor, uma prisão de madrugada num jardim e um julgamento noturno. Nada disso é escolha de método entre outras: é o que resta a quem não pode agir de dia.
Matthew Poole (comentarista inglês do século XVII) lê a sequência exatamente assim, e diz que, vendo que a disputa não resolveria o problema deles, a tarefa seguinte passou a ser consultar sobre como lhe tirar a vida. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) formula do mesmo modo: a traição e a violência tinham agora de entrar em cena. A leitura é dos comentaristas — Mateus não liga as duas coisas com nenhuma palavra de causa —, e é plausível.
Onde este dia fica na semana
Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) situa a cena no terceiro dia antes da Páscoa. A contagem tradicional põe a entrada em Jerusalém no domingo e este dia de debates na terça-feira; a contagem é antiga, é razoável e não está no texto, que diz apenas "naquele mesmo dia" em Mateus 22:23 e "daquele dia em diante" aqui.
O que o texto marca com clareza é que tudo — a pergunta sobre a autoridade, as duas parábolas, o tributo, a ressurreição, o maior mandamento e a questão do filho de Davi — cabe num só dia. É o dia mais cheio de diálogo do evangelho, e ele termina sem que ninguém mais fale com Jesus.
Um dia que vira marco
"Daquele dia em diante" é fórmula de datação, e fórmulas de datação, naquela literatura, serviam para marcar mudança de regime, não passagem de tempo. Mateus usa três vezes uma expressão parente, com "hora" em lugar de "dia", e nas três ela fecha uma cura: a mulher que tocou a orla do manto, a filha da cananeia, o menino curado depois da transfiguração. Em todas, a fórmula registra que algo mudou de estado e não voltou atrás.
Aqui ela faz o mesmo com uma relação. Bengel (Johann Albrecht Bengel, filólogo luterano alemão do século XVIII) percebe o efeito e o descreve numa frase: a partir deste ponto, abre-se como que uma cena nova. O que mudou de estado, e não voltou, foi a possibilidade de interrogar Jesus.
3. Análise Teológica do Versículo
"Ninguém conseguia responder-lhe uma só palavra"
O verbo não é "respondeu": é "conseguia responder". A diferença é tudo.
Mateus poderia ter escrito que ninguém respondeu, e isso descreveria um comportamento — podia ser desprezo, podia ser cautela, podia ser cálculo. O que ele escreve é uma afirmação sobre capacidade: eles não eram capazes. E o tempo do verbo é o da ação contínua (item 10), o que estende a incapacidade por todo o intervalo: durante aquele tempo, ninguém era capaz. Não houve um momento em que alguém chegou perto.
Gill descreve o estado interno que produz essa paralisia e chama a coisa pelo nome: eles viram o impasse a que tinham sido reduzidos. Qualquer resposta exigia conceder algo que eles não estavam dispostos a conceder, e nenhuma das duas concessões possíveis era aceitável — nem reconhecer no Messias algo mais que um descendente humano, nem confessar em público que não sabiam. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) resume a mesma coisa pelo lado da lógica: não havia como responder sem admitir uma premissa que eles recusavam. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) nomeia o que lhes fechava a última porta: a leitura messiânica do salmo era deles, e por isso não podiam dizer que o verso falava de outra pessoa.
O Pulpit faz a distinção mais fina de todas, e ela separa duas coisas que o versículo não separa: eles não podiam refutar os argumentos e não queriam recebê-los e ponderá-los. A primeira metade é o que Mateus escreve; a segunda é inferência do comentarista, e não está no texto.
O verbo que falta
Há uma ausência neste versículo que só se vê quem leu o capítulo inteiro.
Mateus 22 tem um verbo para silenciar. É o de pôr açaime, amordaçar, e ele aparece duas vezes: na passiva, quando o homem sem veste fica sem palavras (Mateus 22:12), e na ativa, com Jesus como sujeito, quando ele faz os saduceus calarem-se (Mateus 22:34). Nos dois casos o silêncio é imposto, e no segundo há um agente nomeado.
Aqui esse verbo não aparece. Mateus não escreve que Jesus os amordaçou nem que os fez calar. Escreve que ninguém era capaz e que ninguém ousou. Não há agente na frase; há sujeitos negativos — "ninguém", duas vezes. O capítulo, portanto, caminha de um silêncio imposto de fora para um silêncio que vem de dentro, e a troca de construção é o modo de dizer isso sem dizê-lo.
"uma só palavra" — e quem mais não respondeu palavra em Mateus
A expressão é um semitismo, com o substantivo reforçando o verbo (item 10), e reaparece num só lugar.
Em todo o evangelho de Mateus essa construção — responder a alguém uma palavra — aparece duas vezes. Esta é uma. A outra está em Mateus 15:23: a mulher cananeia grita atrás de Jesus pela filha endemoninhada, e "ele não lhe respondeu palavra".
Os dois silêncios são opostos em tudo, menos na forma. Lá quem não responde é Jesus, e quem fica sem resposta é uma mulher estrangeira, desesperada, pedindo por uma criança. Aqui quem não responde são os doutores, e quem fica sem resposta é uma pergunta sobre doutrina. Lá o silêncio é escolha de quem podia falar; aqui é limite de quem não podia. Mateus não aproxima as duas cenas, e a aproximação é leitura de quem lê o livro inteiro — mas a identidade da fórmula é um dado do texto, não construção do comentarista.
"e daquele dia em diante"
A segunda metade do versículo muda de escala. A primeira falava de um momento — naquela discussão, ninguém conseguiu. Esta fala de um período sem fim declarado.
A fórmula marca um corte permanente, e o efeito dela sobre o restante do evangelho é verificável. Depois deste dia, os adversários de Jesus continuam agindo: reúnem-se, planejam, pagam, prendem, acusam, pedem guarda para o túmulo. O que não fazem mais é perguntar. Falam com Pilatos, falam com a multidão, falam com os soldados, falam entre si — e, até o julgamento, não dirigem a Jesus nenhuma pergunta de exame. A observação de que esta é a última interpelação pública está no estudo de Mateus 22:33; o que este versículo acrescenta é a razão, e ela é dada em duas palavras: não ousaram.
"ninguém mais ousou fazer-lhe perguntas"
"Ousar" é palavra forte, e Mateus a usa uma única vez em todo o evangelho — aqui (item 10). Ela introduz um motivo que a primeira metade do versículo não tinha: medo.
A diferença entre as duas metades é a diferença entre não poder e não querer arriscar. Não conseguir responder é um limite do que se sabe. Não ousar perguntar é uma decisão sobre o que se vai fazer com esse limite. Juntas, elas descrevem um fechamento completo: nem capacidade de responder, nem disposição de tentar outra vez.
Bengel observa uma nuance no verbo da pergunta que vale conservar. O verbo usado aqui é o do interrogatório, o de quem pergunta para pôr à prova — não o de quem pergunta para aprender, que é o verbo das perguntas dos discípulos. Isto é: o que termina naquele dia não é a conversa com Jesus, é o interrogatório. E a precisão tem consequência, porque o capítulo seguinte continua com Jesus falando, e os capítulos 24 e 25 são respostas a perguntas — feitas pelos discípulos, com o outro verbo.
O que o texto não diz é do que exatamente eles tinham medo. De outra derrota em público, é a explicação mais plausível, e é a do Pulpit, que fala de perceberem que não conseguiriam vantagem nenhuma por aquele caminho. Medo da pessoa de Jesus, medo da multidão, medo de Deus — nada disso está escrito. O verbo registra o recuo e cala o motivo.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
"Ninguém": o sujeito mais amplo do capítulo
Até aqui o capítulo nomeou grupos: os fariseus, os herodianos, os saduceus, um especialista na lei, os chefes dos sacerdotes. Este versículo não nomeia nenhum. Diz "ninguém", e diz duas vezes. O alcance é maior do que os fariseus que estavam reunidos: cobre todos os que perguntaram naquele dia e todos os que poderiam perguntar depois. Gill faz essa leitura — o fim das perguntas valeu para todos os partidos, não só para o último.
Os fariseus, sem uma palavra desde o versículo 42
A última coisa que eles dizem no evangelho de Mateus é "De Davi". Depois disso aparecem em Mateus 23, como destinatários dos sete "ais", sem responder; e em Mateus 27:62, pedindo a Pilatos que o túmulo seja vigiado. Em nenhum dos dois lugares falam com Jesus.
A multidão, que não é mencionada
Mateus não diz quem assistiu. Marcos 12:37, no lugar correspondente, registra que "a grande multidão o ouvia com prazer". Se a cena de Mateus tem a mesma plateia, o silêncio é uma derrota pública; se não, é um constrangimento entre especialistas. O paralelo favorece a primeira leitura, e o texto de Mateus não decide.
O dia
Um só dia concentra a pergunta sobre a autoridade, duas parábolas, o tributo, a ressurreição, o maior mandamento e a questão do filho de Davi. O versículo o transforma em marco: existe um antes e um depois dele na relação entre Jesus e os seus adversários.
Quem volta a interrogá-lo
Dois homens, nos dois julgamentos. O sumo sacerdote, que o conjura a dizer se é o Cristo (Mateus 26:63) — e a resposta de Jesus será o próprio Salmo 110. E Pilatos, que lhe pergunta se é o rei dos judeus (Mateus 27:11), com o mesmo verbo deste versículo.
5. Pontos de Ensino
Não poder responder e não querer tentar são coisas diferentes
O versículo separa as duas com cuidado, e a separação vale fora da cena. Uma pessoa pode estar sem argumento e continuar discutindo; pode ter argumento e desistir. O que acontece aqui é o encontro das duas — e é esse encontro, não a primeira metade sozinha, que encerra o assunto.
Calar não é concordar
Ninguém mudou de opinião neste versículo. O texto registra incapacidade e recuo, e não registra convencimento — e o que a semana mostra depois vai na direção oposta. Confundir o fim de uma discussão com o fim de um desacordo é erro comum em casa, no trabalho e na política.
Ganhar a discussão não resolve o conflito
Jesus venceu todas as rodadas daquele dia, uma por uma, e o resultado foi fechar a única via em que os adversários agiam abertamente. Isso não é argumento contra discutir com clareza; é a constatação de que a clareza tem consequências, e que algumas delas não são as desejadas.
Há perguntas que se deixa de fazer por medo
"Não ousaram" descreve algo que qualquer pessoa reconhece: a pergunta que não se faz porque a resposta pode custar caro. Vale para um diagnóstico, para uma conta, para um casamento, para uma dúvida de fé. O versículo não elogia esse recuo nem o condena — registra que ele é o que encerra o aprendizado.
Perguntar para aprender é outro verbo
O que acaba naquele dia é o interrogatório, não a conversa. Dois capítulos depois, os discípulos fazem perguntas e recebem o discurso mais longo do evangelho. A diferença entre as duas situações não está no assunto: está na intenção de quem pergunta.
6. Aspectos Filosóficos
Quem fica devendo uma resposta
O versículo descreve uma conversa que acaba, e dá duas razões diferentes para isso. Uma é de conhecimento: não havia como responder. A outra é de decisão: escolheram não arriscar de novo. Distinguir as duas é um problema filosófico, e o filósofo americano Robert Brandom construiu uma teoria inteira da linguagem em cima dele.
Em Making It Explicit ("Tornando explícito", 1994), Brandom propõe entender a fala como um jogo — o jogo de dar e pedir razões. Quem afirma algo assume dois tipos de posição ao mesmo tempo: um compromisso, porque passa a responder por aquilo, e um direito, porque fica autorizado a sustentá-lo. E os participantes de uma conversa não fazem só isso: eles anotam. Brandom chama a atividade de marcação de pontos — cada um mantém, para si e para os outros, o registro do que cada um já se comprometeu a sustentar e do que cada um ainda tem direito de afirmar.
A parte do modelo que este versículo ilustra é a chamada estrutura de desafio. O direito de afirmar algo é presumido enquanto ninguém o contesta — você não precisa provar o que diz até que alguém peça a prova. Mas, feito o desafio, a presunção se inverte, e quem afirmou passa a dever uma razão. Se não a apresenta, perde o direito, e a perda é registrada por todos os presentes — independentemente de ele admitir ou não que perdeu.
É exatamente o que acontece no pátio do templo. Os fariseus afirmaram que o Cristo é filho de Davi, e esse direito era pacífico: ninguém nunca tinha pedido a conta. O desafio veio em duas perguntas, e a conta foi cobrada. Eles não ficaram sem palavras por ignorância do texto — sabiam o salmo melhor do que a maioria dos presentes. Ficaram sem palavras porque a razão que faltava não estava no estoque de compromissos que eles podiam assumir: era preciso conceder que o Messias é mais do que um descendente humano, ou que o salmo não fala do Messias, e eles próprios tinham fechado a segunda porta ao tratar o salmo como messiânico. Gill descreve isso em linguagem comum como um impasse; o modelo o descreve como perda de direito sem concessão de compromisso.
Sair do jogo não é perdê-lo nem ganhá-lo
A segunda metade do versículo é filosoficamente mais interessante que a primeira, porque não trata de uma rodada e sim do abandono da partida.
Num jogo de dar e pedir razões, parar de perguntar não é uma jogada: é a retirada. E a retirada não produz resultado nenhum — ninguém foi refutado, ninguém concedeu nada, nenhuma posição mudou. O que muda é que não há mais quem cobre.
Daí a consequência que o versículo permite ver, e que vale muito além dele: do lado de fora, uma discussão abandonada é indistinguível de uma discussão resolvida. Nos dois casos ninguém pergunta mais. Quem olha de longe vê a mesma coisa — silêncio — e supõe que a questão foi decidida. É assim que assuntos encerrados por desgaste passam por assuntos encerrados por prova, em qualquer campo em que se discuta algo.
Mateus não comete essa confusão. Escreve as duas razões em orações separadas e em nenhum momento diz que a pergunta foi respondida. Diz que ninguém pôde responder e que ninguém mais tentou perguntar, o que deixa a questão exatamente onde Mateus 22:45 a havia posto: de pé.
O guarda-corpo
Brandom escreve filosofia da linguagem técnica, sobre o que torna possível que palavras signifiquem algo, e não tratou de textos bíblicos. A aproximação é leitura de comentarista, e o próprio vocabulário dele — compromisso, direito, marcação de pontos — é construído para descrever qualquer prática de afirmar, não uma cena em particular.
E há um limite que a cena impõe ao modelo. A marcação de pontos de Brandom pressupõe participantes que querem sustentar o que dizem; é uma teoria de quem joga de boa-fé. O que acontece depois deste versículo não é jogada nenhuma — é a decisão de resolver o problema por fora da conversa. Nenhum modelo de discussão alcança isso, porque não é discussão. O versículo registra o momento em que a prática de dar razões termina, e o evangelho segue para o que vem no lugar dela.
7. Aplicações Práticas
Reconhecer a pergunta que você está evitando
A segunda metade do versículo descreve um comportamento universal: parar de perguntar porque a resposta pode custar caro. O exame que não se marca, a conta que não se abre, a conversa que não se tem. O texto não oferece consolo nem condenação — mostra apenas que, do ponto em que se para de perguntar, não se aprende mais nada sobre o assunto.
Distinguir "não tenho resposta" de "não vou discutir"
São posições legítimas e diferentes, e confundi-las atrapalha qualquer conversa. Dizer "não sei" abre caminho; sair da discussão fecha. Quem está do outro lado também ganha em saber qual das duas coisas aconteceu.
Não tomar silêncio por concordância
Em reunião, em casa, numa negociação: a pessoa que parou de argumentar não necessariamente mudou de ideia. Pode ter apenas calculado que insistir é pior. Quem toma esse silêncio como acordo descobre o erro depois, e geralmente num momento ruim.
Vencer e perder ao mesmo tempo
O dia termina com Jesus invicto em quatro rodadas e com a decisão dos adversários de mudar de método. Há situações — numa família, numa empresa, numa comunidade — em que estar com a razão e provar isso publicamente aumenta o problema em vez de resolvê-lo. Reconhecer isso não é motivo para calar a verdade; é motivo para saber o que vai acontecer depois de dizê-la.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O silêncio significa que os fariseus foram convencidos?
O texto não diz isso, e o que vem depois sugere o contrário. O Pulpit separa as duas coisas: eles não podiam refutar e não queriam ponderar. Mateus registra incapacidade e recuo; convencimento é outra coisa, e não está escrito. A questão de calar alguém ser ou não o mesmo que convencê-lo está levantada no estudo de Mateus 22:34.
Por que Mateus escreve duas razões em vez de uma?
Porque elas cobrem períodos diferentes. A primeira é sobre aquele momento: ninguém era capaz de responder àquela pergunta. A segunda é sobre todo o tempo seguinte: ninguém mais tentou perguntar nada. Uma frase só não daria conta das duas, e a segunda não decorre da primeira — alguém sem resposta pode perfeitamente continuar perguntando.
Isso quer dizer que ninguém mais falou com Jesus?
Não. Bengel marca a nuance: o verbo é o do interrogatório, de quem pergunta para pôr à prova, e não o de quem pergunta para aprender. Nos capítulos seguintes, Jesus fala muito, e os capítulos 24 e 25 são inteiramente resposta a perguntas dos discípulos. O que termina é a interpelação hostil. Depois dela, só o sumo sacerdote e Pilatos voltam a interrogá-lo, e já em processo.
De que eles tinham medo?
O texto não diz. A explicação mais plausível é a de nova derrota diante da mesma plateia, que é a do Pulpit. Mas o verbo "ousar" admite outros objetos de medo, e nenhum está escrito. É um dos lugares em que o evangelho registra um estado interno sem explicá-lo.
Lucas tem este versículo?
Não no mesmo lugar. Em Lucas 20:40 a nota de que "não ousavam mais perguntar-lhe coisa alguma" vem antes da pergunta sobre o filho de Davi, e não depois. A ordem de Lucas faz o silêncio resultar do debate sobre a ressurreição; a de Mateus o faz resultar da pergunta sobre o Salmo 110. Qual das duas ordens é a mais antiga é discutido e não se resolve com os dados disponíveis — e a diferença muda o que, em cada evangelho, cala os adversários.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma fórmula, com Jesus como sujeito
Mateus 15:23 — "Mas ele não lhe respondeu palavra. E os seus discípulos, aproximando-se, rogavam-lhe: 'Despede-a, porque vem gritando atrás de nós.'"
O único outro lugar de Mateus com a construção deste versículo. Quem fica sem resposta é a mulher cananeia; quem não responde é Jesus.
Os silêncios do capítulo
Mateus 22:12 — "E lhe perguntou: 'Amigo, como você entrou aqui sem roupa de casamento?' O homem ficou sem palavras."
Mateus 22:34 — "Ao ouvirem que ele havia feito os saduceus calarem-se, os fariseus se reuniram."
Nos dois, o verbo é o de amordaçar, e há quem cale. Neste versículo, o verbo não aparece e não há agente: ninguém pôde, ninguém ousou.
A trava que explica o que vem depois
Mateus 21:46 — "E procuravam prendê-lo, mas tinham medo das multidões, pois estas o consideravam um profeta."
Enquanto a multidão estivesse do lado dele, só o debate público servia. Fechado o debate, o resto da semana se explica.
Mateus 26:4 — "e juntos planejaram prender Jesus à traição e matá-lo."
"À traição" é a palavra que a situação exigia. O que não se pode fazer em público faz-se às escondidas.
O mesmo fecho em Marcos e Lucas
Marcos 12:34 — "E ninguém mais ousava interrogá-lo."
Lucas 20:40 — "E não ousavam mais perguntar-lhe coisa alguma."
Traduções livres a partir do Textus Receptus. Nos dois, a nota vem antes da questão do filho de Davi; em Mateus, depois dela.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Ninguém conseguia responder-lhe uma só palavra, e daquele dia em diante ninguém mais ousou fazer-lhe perguntas.
Texto grego (Textus Receptus)
Καὶ οὐδεὶς ἐδύνατο αὐτῷ ἀποκριθῆναι λόγον· οὐδὲ ἐτόλμησέ τις ἀπ’ ἐκείνης τῆς ἡμέρας ἐπερωτῆσαι αὐτὸν οὐκέτι.
Transliteração
Kai oudeis edynato autō apokrithēnai logon; oude etolmēse tis ap' ekeinēs tēs hēmeras eperōtēsai auton ouketi.
Análise palavra por palavra
οὐδεὶς (oudeis) — "ninguém", nominativo, sujeito. Composto de oude e heis, "nem um". É negação absoluta e sem exceção: não "poucos", não "quase nenhum".
ἐδύνατο (edynato) — imperfeito de dynamai, "poder, ser capaz". Duas coisas aqui. O verbo é o da capacidade, e não o da ação: a frase não diz que ninguém respondeu, diz que ninguém era capaz de responder. E o imperfeito, em grego, descreve ação durativa no passado — o estado se estende, e o português "conseguia" o reproduz bem. Da mesma raiz vêm as palavras do Novo Testamento para poder e para obra poderosa.
αὐτῷ (autō) — dativo, "a ele". O Textus Receptus põe o pronome antes do infinitivo, αὐτῷ ἀποκριθῆναι; as edições críticas invertem, ἀποκριθῆναι αὐτῷ. Sem efeito no sentido.
ἀποκριθῆναι (apokrithēnai) — aoristo do infinitivo de apokrinomai, "responder". Compõe-se de apo, "de volta", e krinō, "julgar, separar, decidir": responder é, na origem, devolver um juízo. O infinitivo completa o verbo de capacidade.
λόγον (logon) — acusativo de logos, "palavra", sem artigo, objeto do infinitivo. A construção "responder palavra" é semitismo e está analisada no estudo de Mateus 15:23, único outro lugar do evangelho em que ela aparece. Bengel observa que logon aqui não se limita à pergunta sobre o Salmo: cobre esta e qualquer outra.
οὐδὲ (oude) — "nem", conjunção que soma uma segunda negação à primeira. Não é repetição: introduz uma afirmação nova, sobre outro período.
ἐτόλμησέ τις (etolmēse tis) — aoristo de tolmaō com o pronome indefinido: "nem alguém ousou". Tolmaō é o verbo da coragem, da audácia de empreender algo arriscado, e está ligado ao substantivo que significa ousadia. Em todo o Novo Testamento ele aparece dezesseis vezes; em Mateus, uma só — esta. Marcos o usa no fecho do debate sobre o mandamento e, depois, para José de Arimateia, que "ousou" pedir o corpo de Jesus a Pilatos. A palavra que falta aos adversários aqui é a que sobra naquele, e é o mesmo verbo.
O Textus Receptus de Scrivener traz a forma sem a consoante final, ἐτόλμησέ; o de Estéfano e as edições críticas trazem ἐτόλμησέν. É a variação ortográfica antiga diante de vogal, sem efeito no sentido.
ἀπ' ἐκείνης τῆς ἡμέρας (ap' ekeinēs tēs hēmeras) — "desde aquele dia". Apo com genitivo marca o ponto de partida no tempo, e o demonstrativo, posto antes do substantivo, o destaca. A fórmula com "hora" em lugar de "dia" aparece três vezes em Mateus, sempre fechando uma cura; esta, com "dia", não reaparece no evangelho.
ἐπερωτῆσαι (eperōtēsai) — aoristo do infinitivo de eperōtaō, o verbo do interrogatório, que abriu a cena em Mateus 22:41 no indicativo e agora volta no infinitivo, dentro de uma negação. As oito ocorrências dele em Mateus estão listadas em Mateus 22:41. Bengel distingue este verbo do simples erōtaō: o composto designa a pergunta que põe à prova, e não a do discípulo que quer aprender.
οὐκέτι (ouketi) — "não mais, nunca mais", advérbio que reforça a negação com ideia de encerramento definitivo. Posto no fim da oração, carrega o peso da frase: a última palavra do capítulo, em grego, é "não mais".
Variantes
Nada de substantivo: a ordem de αὐτῷ ἀποκριθῆναι, a consoante final de ἐτόλμησέ e a pontuação, que é dos editores. Os paralelos, porém, divergem na posição da nota. Marcos 12:34 e Lucas 20:40 trazem a observação de que ninguém mais ousava interrogá-lo antes da questão do filho de Davi; Mateus a traz depois, e acrescenta a primeira metade — a de que ninguém era capaz de responder —, que não está em nenhum dos dois. Se Mateus deslocou a nota ou se Marcos e Lucas a anteciparam é discutido, e os dados não permitem decidir.
11. Conclusão
O versículo leva a quatro conclusões.
A primeira é que o fechamento do capítulo é feito de duas coisas, não de uma. Incapacidade e recuo são estados distintos, e o texto os escreve em orações separadas. Quem resume a cena dizendo que Jesus calou os adversários junta as duas e perde a mais importante: a decisão de não perguntar mais foi deles.
A segunda é que Mateus evita, aqui, o verbo que usou duas vezes no mesmo capítulo para dizer que alguém foi calado. Não há agente nesta frase. O silêncio do fim do capítulo não é imposto de fora como o do homem sem veste e o dos saduceus — é um silêncio que vem de dentro dos que se calam, e a troca de construção é o único lugar em que isso é dito.
A terceira é que o silêncio não resolve nada. A pergunta de Mateus 22:45 continua sem resposta no evangelho, e os adversários continuam adversários. O que mudou foi o método: fechada a via do debate em público, restou a que a semana seguinte mostra. Nenhuma palavra do texto liga as duas coisas, e a sequência dos fatos as liga.
A quarta é sobre o que o leitor faz com isso. Uma investigação interrompida e uma investigação concluída se parecem por fora — nos dois casos ninguém pergunta mais. Mateus escreve o versículo de modo a impedir a confusão: diz que não puderam responder e que não ousaram perguntar, e em nenhum momento diz que a questão ficou resolvida. A última palavra do capítulo, no grego, é "não mais" — e ela se aplica às perguntas, não ao problema.













